Conto: Sinal do Céu
Como se estivesse pairando entre o céu e a terra, no silêncio da cela semiobscurecida, D. Gualdim orava, profundamente entregue às suas devoções. O corpo lasso — cansado das lutas a que se havia exposto durante a famosa e difícil conquista de Lisboa — sentia um prazer físico e espiritual nessa semiobscuridade, nessa semi-inacção, nesse quase absoluto silêncio.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEge1XwrudpXTaDSsAsUPEoa3aOz9Vtu-26mhyPRcB1j8PPqV_SGOOaTbNi3iYvOGAGAPVwVXJzgSK9JdZ-8ZUWIdM7WHbTCyInJrPB7RQgXWWqCd4efeY0j9w80v8La8iCv54lQ-dC59bYToN3GnKFIbu74hdjF3RjYavKZ8QnEVhIUjHl0FeZ47_0UWAM/s1600/sinal.png De joelhos
em terra, o rosto escondido nas mãos, o corpo inclinado para a frente,
dir-se-ia a verdadeira estátua da oração. Mas porque a sua sensibilidade era
profundamente apurada, o seu espírito começou subitamente a turbar-se em ondas
de alerta, como se movimenta a água parada de um lago ao ser-lhe lançada uma
pequenina pedra.
D. Gualdim estremeceu. Teve a
sensação de que não estava só. E, retirando do rosto as mãos, ergueu o busto e
voltou-se num vagar mal contido. Os seus olhos habituados à meia-luz ambiente
descortinaram logo a figura magra e alta do superior do convento. E o seu olhar
indagou de tão honrosa presença. O superior, numa voz baixa e pausada, que se
esforçava por ser humilde, elucidou:
— Perdoai, irmão. Não desejaria
interromper a vossa oração piedosa... mas tenho algo de importante a
comunicar-vos.
— Falai sem receio. Estava apenas
dando graças a Deus pela dita deste silêncio, depois do tremendo inferno que
foi a conquista de Lisboa.
— Bem mereceis este repouso,
irmão. Por isso mesmo me aflige interromper-vos.
— É esta a nossa missão de
cavaleiros e monges.
— Sim, é essa a nossa missão...
Já o disse Sancho de Castela: «O som da trombeta transforma-nos em leões e o do
sino em cordeiros...» Que se cumpra, pois, em nós, a vontade de Deus!
D. Gualdim sorriu com o respeito devido ao seu superior.
— Mas decerto não viestes aqui
para nos enaltecerdes...
Foi a vez do monge sorrir também.
— Oh, não! A minha presença nesta
cela deve-se a um desejo do nosso rei D. Afonso Henriques.
Os olhos do cavaleiro-monge
brilharam mais intensamente. O seu busto endireitou-se com estranha altivez.
— El-rei vai sair de novo a
campo?
Com um sinal de cabeça o monge
confirmou:
— Sim... O sangue ferve-lhe nas
veias… o seu fervor à causa cristã é indomável!
D. Gualdim já não parecia o mesmo
homem humilde e abatido de há pouco.
— Quando precisa el-rei de mim?
— Amanhã, ao romper do dia.
— Que Deus seja louvado! Lá
estarei com os meus homens.
Sorriu o monge superior do
convento.
— El-rei aprecia-vos muito.
Contou-me a vossa proeza, quando subistes as escarpas do monte cujo terreno
parecia desfazer-se debaixo dos pés... Falou-me dos pedregulhos que iam caindo
por todos os lados e só por milagre vos não acertaram... E disse-me como fostes
sempre avançando de armas nos dentes, para que as mãos ficassem mais livres e
vos ajudassem a subir...
D. Gualdim começou a
impacientar-se.
— Por Deus!... Nada fiz que os
outros não fizessem também.
— Mas fostes o primeiro a chegar
à muralha...
— Foi el-rei que vos contou tudo
isso?
— Foi ele, em parte, e os outros
ajudaram-no.
— Os outros!...
Sorriu e suspirou fundo, D.
Gualdim. Depois, como quem falasse consigo próprio, o cavaleiro-monge declarou,
numa voz serena e firme:
— Com um rei como o nosso, que
sempre está onde a luta se trava mais renhida, não podem haver descuidados ou
cobardes... Eu fiz apenas o que me cumpria fazer.
— Por isso el-rei vos reclama de
novo em campo...
— E lá estarei, se Deus quiser,
para maior honra e glória de Deus!
— Ámen...
E silenciosamente, como chegara,
o superior saiu da cela de Gualdim.
Só, este ficou um momento imóvel,
olhando um ponto vago no espaço. Depois os seus joelhos voltaram a roçar a
terra, o seu busto esguio tornou a encurvar-se e as suas mãos mais uma vez
cobriram o seu rosto, de olhar brilhante e feições vincadas.
Em volta, o silêncio continuou
silêncio e a penumbra, penumbra. Só o seu pensamento, feito senhor absoluto do
ambiente, cresceu como único vencedor...
No horizonte, uma nesga de luz
impôs a sua presença às trevas da noite. Madrugada fresca de S. João. Em massa
ainda indefinida, caminhava o exército lusitano. D. Afonso Henriques mandou
fazer alto. Toda aquela enorme multidão estacou. A voz de el-rei D. Afonso
Henriques voltou a ouvir-se. Queria falar a um dos seus cavaleiros. Foram
buscá-lo sem demora.
Subiu sonora e firme a voz do
rei, como sempre que dava uma ordem.
—
Aproximai-vos, D. Gualdim!
Submisso mas isento de humildade
humilhante, o cavaleiro-monge curvou a cabeça.
— Dizei, Senhor.
Voltou o rei a falar com altivez:
— Vou deixar aqui o exército sob
as ordens de D. Ordonho. Preciso, primeiramente, de fazer um reconhecimento.
Admirou-se o cavaleiro.
— Vós? Será perigoso! Ficai, que
eu me sentirei honrado com a vossa mercê, se puder fazer esse reconhecimento em
vosso lugar!
Franziu o rei as sobrancelhas espessas.
— Disse-vos que desejo fazer um
reconhecimento. E não lego em ninguém esse meu desejo!
Arriscou ainda o cavaleiro-monge:
— Mas... ides sair do campo?
— Sim. Sairei disfarçado e
acompanhado apenas por vós, D. Gualdim…
Curvou o monge a cabeça, para
logo olhar de frente o seu rei.
— É grande a honra que me
concedeis, Senhor! Tão grande como a responsabilidade, que me cabe, de vos
trazer, de novo são e salvo.
Sorriu ligeiramente o rei.
— Nada temais! Quero apenas
chegar junto do castelo dos mouros antes que o sol rompa. Preciso descer para
Alcácer, e não quero deixar mal defendidas as nossas costas, com focos que
poderão perder-nos. Este castelo terá de ser nosso. Mas preciso saber se chegou
a hora de o tomar.
— O castelo será vosso, como o
têm sido os outros que tendes desejado!
— Sim! — confirmou alegremente o
rei. — Depois de Lisboa renderam-se os castelos de Almada, Sintra e Palmela.
Este fica perto de Lisboa, e também terá de ser nosso, repito!
— E eu repito também, se o
permitis: sê-lo-á em breve!
A expressão dura de D. Afonso Henriques
adoçou-se. Mas a sua voz soou áspera e breve, como sempre.
— Aprontai-vos e segui-me...
Tenho pressa!
A nesga de luz que impunha a sua
presença às trevas da noite alargou-se mais. E o recorte do exército português
tornou-se mais nítido na cinza rosada da manhã.
A areia ensaibrada rangeu sob o
metal do calçado do rei português. Do alto de todo o seu corpo imponente, D.
Afonso Henriques olhava o castelo, sobranceiro e sereno. Tudo parecia calmo à
volta. A própria pureza do ar, correndo como brisa, parecia um convite para
tornar cristão mais aquele bocado de terra. O rei cofiou lentamente as barbas,
enquanto lentamente, contra o seu costume, dizia ao companheiro:
— Parece até um castelo de mouros
encantados! Não se vê ninguém...
— Custa a crer que nem tenham
vigias!
— Quem sabe?
— Cuidado, Senhor! Descobri além
um vulto a mover-se...
O rei de Portugal franziu as
sobrancelhas, numa concentração, enquanto dizia como se falasse consigo
próprio:
— Vim aqui para saber se a hora
era propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu, ó Deus
Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!
D. Gualdim guardara silêncio. Mas
vendo que o vulto corria agora direito a eles, preveniu:
— Descobriram-nos! Vão dar o
alarme!
O rei semicerrou os olhos, numa
tentativa de ver melhor na meia-luz da madrugada nascente.
— Reparai bem, D. Gualdim! O
vulto que corre para nós... é o de um cão enorme!
O cavaleiro-monge concentrou
todos os seus sentidos nesse vulto que corria direito a eles e se distinguia já
perfeitamente.
— Assim é, meu Senhor! Mas nunca
vi um alão tão forte e grande! Teremos de o matar antes que dê o alarme...
Já o cão se dirigia na direcção do rei de Portugal. D. Gualdim gritou quase, ao
mesmo tempo que puxava da espada:
— Cuidado, Senhor!
Mas D. Afonso Henriques
suspendeu-lhe o gesto. O alão mal chegara junto do rei conquistador começara a
lamber-lhe as mãos, dando saltos de imensa e estranha alegria. D. Afonso
Henriques sorriu.
— Reparai, D. Gualdim: o alão
rende-me vassalagem! Recebe-me como a um libertador, ou como se me conhecesse
há muito... Deve ser este o sinal do Céu! O avanço das nossas tropas far-se-á
imediatamente e o castelo será nosso. O alão o quer!
Como num eco, D. Gualdim repetiu:
— O alão quer!
E desta frase lendária, que ficou
para todos os tempos, resultou a conquista de mais uma praça e o nome da terra
que hoje se chama Alenquer. O sinal do Céu chegara e o rei de Portugal
obedecera! E quando o Sol, em toda a sua pujança, longe das lamúrias da noite,
dardejava os seus raios quentes sobre a terra morena, já o estandarte do rei de
Portugal flutuava no alto do que fora um castelo de mouros!...
Gentil Marques - Alenquer.
Entendendo o conto:
01 – O que D. Gualdim estava fazendo no início
do conto e de qual batalha importante ele estava descansando?
D. Gualdim estava em sua cela semiobscurecida, profundamente
entregue às suas orações e devoções. Ele estava descansando do desgaste físico
e espiritual decorrente da famosa e difícil conquista de Lisboa.
02 – Quem interrompeu a oração de D. Gualdim e
qual era o motivo dessa interrupção?
O superior do convento interrompeu a oração. O motivo de sua
presença era transmitir um desejo do rei D. Afonso Henriques, que convocava D.
Gualdim para ir a campo novamente no romper do dia seguinte.
03 – Qual proeza de D. Gualdim na conquista de
Lisboa foi recordada pelo monge superior?
O monge relembrou quando D. Gualdim subiu as escarpas do
monte sob chuva de pedregulhos, avançando com as armas nos dentes para deixar
as mãos livres para escalar, sendo o primeiro a atingir a muralha inimiga.
04 – Por que o rei D. Afonso Henriques decidiu
fazer um reconhecimento disfarçado e quem ele escolheu para acompanhá-lo?
O rei queria examinar o castelo dos mouros antes do amanhecer
para avaliar se era a hora propícia para tomá-lo, garantindo a segurança de
suas costas antes de descer para Alcácer. Ele escolheu D. Gualdim para
acompanhá-lo nessa perigosa missão.
05 – Que pedido o rei fez a Deus ao observar o
castelo inimigo e notar que tudo parecia calmo demais?
Olhando para o castelo imponente, D. Afonso Henriques pediu
uma providência divina dizendo: "Vim aqui para saber se a hora era
propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu, ó Deus
Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!"
06 – Como o "sinal do Céu" se
manifestou e qual foi a reação surpreendente do animal ao se aproximar do rei?
O sinal manifestou-se na figura de um cão enorme (um alão)
que correu na direção deles. Em vez de atacar ou dar o alarme, o animal começou
a lamber as mãos do rei e a dar saltos de imensa alegria, rendendo-lhe
vassalagem como se o reconhecesse como libertador.
07 – Qual é a origem lendária do nome da terra
"Alenquer" segundo o desfecho do conto?
O nome surgiu a partir da frase lendária dita pelo rei e
repetida por D. Gualdim diante da reação do cão: "O alão o quer!" (ou
"O alão quer!"). A partir dessa expressão, a praça foi conquistada e
a região passou a se chamar Alenquer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário