Conto: Um peixe na sala
Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9d5KCOHtDsSLe71Kh6wKapleiBPCTYU6aOGF1MBMQn1b0nCqje7bCC_0gZMzXCBK5hyPmQaqMmRU9W4BbXgDrkRa5Cxm7MUcLTpXL1L1FOs2AzStjawKnu3424pgZTAsxuaOzenqzWurAUWASero-1uRqdT2NXX7YI3okJoiqlZgzg9Ur3sVHwcudAq4/s320/PEIXE.jpg Era
um grande globo de vidro, enfeitado com algas, umas verdadeiras, outras a
fingir, e estava, em lugar de destaque, na sala da tia Elisa.
Quem
ia fazer uma visita à tia Elisa dava sempre uma mirada ao peixinho, que
revolteava na água, muito enervado.
--
Detesto que me observem – dizia o peixe. – Se as pessoas vivessem em aquários
também não gostavam que andassem a espreitar para dentro das casas delas.
E
o peixinho tentava esconder-se por trás de umas algas, mas sem nenhum êxito. Ou
sobrava cauda ou sobrava cabeça.
A
tia Elisa, que era uma simpática velhinha, cuidava dele com todo o desvelo. O
peixe conhecia-a bem e agradava-se das suas atenções. Era, aliás, a única
pessoa que ele tolerava.
Mas
a tia Elisa adoeceu. Doença grave. Vieram os médicos, parentes e amigos, que
passaram a falar em voz baixa na sala de visitas, com ar muito preocupado. A
única coisa que lhes atenuava a preocupação era o peixinho vermelho com riscas
azuis, revolteando, alegre e indiferente, no meio do seu globo de vidro. Alegre
e indiferente, julgavam eles, porque o peixinho não parava de queixar-se:
--
Embirro que olhem para mim. Esta gente toda não tem mais nada que fazer senão
postar-se, de olhos arregalados, diante do meu aquário?
Uma
dessas pessoas, que distraidamente observava o peixe, teve o seguinte desabafo:
--
Não sei quem vai cuidar do peixe, quando a tia Elisa desaparecer.
Para
o peixe, a tia Elisa há muito que tinha desaparecido. Desde que adoecera. Quem
lhe polvilhava a superfície da água com a ração diária de comida era uma
empregada, mas sem as gentilezas da tia Elisa. O peixe sentia a diferença.
Até
que, um dia, a tia Elisa morreu. Ficou a sala que tempos sem visitas, de
cortinas descidas, portadas cerradas. Mas o peixe sentiu-se mais aliviado.
Entretanto,
vieram os sobrinhos para desfazer a casa.
--
Quem quer ficar com o peixe do aquário? – perguntou um deles.
Nenhum
queria.
--
Deita-se o peixe para o tanque do quintal – decidiu um e os outros concordaram.
O
peixinho vermelho com riscas azuis foi parar a um tanque de águas profundas.
Podia nadar à vontade, pelo meio das sombras e dos lodos, que já ninguém o via.
Foi
então e só então que o peixe vermelho começou a sentir saudades do tempo em que
todos olhavam para ele.
António Torrado.
Entendendo o conto:
01 – Qual era o principal motivo de irritação
do peixinho enquanto ele morava no aquário da tia Elisa?
O peixinho detestava ser observado e olhado pelas visitas que
iam à casa da tia Elisa. Ele sentia-se invadido e enervado com a atenção
constante das pessoas.
02 – Por que o peixinho não conseguia
esconder-se quando tentava refugiar-se atrás das algas do aquário?
Ele não tinha êxito porque o espaço ou o tamanho das algas
não era suficiente para cobri-lo totalmente; como descreve o texto, "ou
sobrava cauda ou sobrava cabeça".
03 – Como mudou a rotina de alimentação do
peixe após a tia Elisa adoecer, e qual foi a reação dele a essa mudança?
Após a doença da tia Elisa, quem passou a alimentar o peixe
foi uma empregada. O peixe sentiu uma diferença negativa, pois a funcionária
colocava a comida sem as gentilezas e o desvelo característicos da sua antiga
dona.
04 – Qual foi o destino dado ao peixinho pelos
sobrinhos da tia Elisa após o falecimento dela?
Como nenhum dos sobrinhos quis ficar com o peixe, eles
decidiram levá-lo para o quintal e jogá-lo dentro de um tanque de águas
profundas.
05 – O que o peixinho sentiu quando finalmente
foi para o tanque profundo onde ninguém mais o conseguia ver?
Ao contrário do que se poderia imaginar, quando ficou isolado
no meio das sombras e dos lodos sem que ninguém o visse, o peixinho começou a
sentir saudades do tempo em que todos olhavam para ele.
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