Artigo de opinião: Curta-metragem e a experimentação da linguagem
Antes de entrar propriamente no tema
deste artigo, “O curta-metragem como espaço de experimentação de linguagem”, é
importante entendermos o que é o objeto desta análise. O curta-metragem é, para
todos os efeitos, um filme, uma forma breve de expressão audiovisual, com
início, fim, unidade temática e com uma altíssima coerência e coesão interna.
Essa primeira definição afasta imediatamente o conceito muitas vezes difuso de que
o curta-metragem seria uma parte menor de um longa-metragem ou de que seria uma
preparação, um primeiro experimento narrativo para um filme de maior duração.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgCk9X_JsZRbv4uUkayqqPO22Jo-NjEVOjDQXhVAkd25k7fOq3So94Ls9aWvYD8cYfAtw3eXsd0UdRZyFCV1-Gqkrui8cdEILe2yNjNQvurRGsTJDjg-T3C_IsX-yMK0T36rHsNM-XL__UI74ys49AjRrMLk-VXFF8D-EOJ4pPldqnHdKtDB75ytbIKgFI/s320/artigo.png Uma segunda maneira de entender o
curta-metragem em sua natureza é sua duração. O curta-metragem tem uma duração
diferente daquela comumente utilizada em um filme de mercado ou que poderia
potencialmente ser distribuído através de estruturas comerciais convencionais,
como as salas de cinema. O curta-metragem costuma ter uma duração de aproximadamente
15 minutos. Contudo, considerando o standard internacional para esse tipo de
produção, não é errado afirmar que são considerados curtas-metragens filmes de
até trinta minutos de duração.
A percepção temporal do curta-metragem,
unida à consciência dos realizadores de que a difusão dessa forma breve de
expressão se dará por meios não convencionais, são as principais
características de diferenciação e de autonomia dessa forma de expressão.
Em outras palavras, não sendo o
curta-metragem desde sua essência um filme realizado para o mercado tradicional
de distribuição, abrindo-se, nesse modo de expressão, um espaço potencial para
a entrada do novo, do próprio, da experimentação, do ousado em relação às
formas mais tradicionais de narração e de linguagem já estabelecidas e testadas
nos longas-metragens e no cinema comercial.
Essa experimentação acontece no
curta-metragem desde o momento de escritura do roteiro, que se diferencia muito
daquela normalmente utilizada nos filmes longos, onde muitas vezes os momentos
descritivos da estória são bastante acentuados e onde as subtramas constituem
parte integrante da narrativa. No curta-metragem, diferentemente, precisa-se
buscar a concisão e a síntese narrativa, muitas vezes criando momentos ininterruptos
de tensão para contar com objetividade e simplicidade a estória do filme.
Por essa necessidade de abordagem
direta, tanto os roteiristas quanto os diretores e, inclusive, os montadores de
curtas-metragens podem se apropriar de novos conceitos, de novos modos de
expressão artística, podem por vezes explorar novas tecnologias e, com isso,
ousar.
Outra característica de grande parte
dos curtas-metragens – e que acaba sendo um interessante modo de experimentação
– são os próprios limites produtivos da obra. O curta-metragem é, em muitos
casos, realizado com recursos muito mais modestos daqueles de uma produção mais
longa, e com algum potencial de distribuição em mercados tradicionais. Essa
característica pode contribuir para que se encontrem alternativas de execução
da obra fora do padrão convencional, o que muitas vezes pode até mesmo inovar e
criar novos estilos narrativos e de linguagem.
Finalmente, vale lembrar que o
curta-metragem é em muitas situações uma janela de possibilidade de entrada de
novos talentos e de novos profissionais para o mercado audiovisual. Com isso,
não quero afirmar que o curta-metragem se resume a um rito de passagem, a uma
escola ou aprendizado para um modo mais profissional ou mercadológico de produção
audiovisual. De fato, aquilo que importa quando percebemos o curta como
laboratório de formação de novos realizadores é que, em sua maioria, estes
novos realizadores são jovens, imbuídos de uma liberdade que se expressa nas
telas, e que muitos destes jovens são talentosos e permanecem ainda com o
frescor e a audácia suficientes para ousar, propor, subverter, desconstruir e
muitas vezes inovar modelos estabelecidos.
Claudia da Natividade é roteirista e
produtora de Cinema. Com formação em Ciências Humanas, foi produtora executiva
e roteirista de Estômago, dirigido por Marcos Jorge, e do premiado documentário
O Ateliê de Luzia – Arte Rupestre no Brasil.
NATIVIDADE, Claudia da. Curta-metragem e a experimentação da linguagem.
Revista SescTV, n. 84, mar. 2014. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/7399_CURTAMETRAGEM+E+A+EXPERIMENTACAO+DA+LINGUAGEM. Acesso em: 11 mar. 2021.
Fonte: linguagens. EJA.
Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 126-127.
Entendendo o artigo:
01 – Como o texto define a
estrutura interna de um curta-metragem?
O texto define o
curta-metragem como um filme completo, uma forma breve de expressão audiovisual
que possui início, fim, unidade temática e uma altíssima coerência e coesão
interna.
02 – Qual conceito comum sobre
o curta-metragem a autora busca afastar logo no início do artigo?
Ela afasta a
ideia de que o curta seria uma "parte menor" de um longa-metragem ou
apenas uma preparação/experimento narrativo para um filme de maior duração,
defendendo sua autonomia como obra.
03 – Qual é a duração
considerada padrão (standard internacional) para que uma produção seja
classificada como curta-metragem?
Embora costumem
ter cerca de 15 minutos, o padrão internacional considera curtas-metragens os
filmes que possuem até trinta minutos de duração.
04 – Por que o curta-metragem
é considerado um espaço potencial para a experimentação e para o
"novo"?
Porque, em sua
essência, o curta não é realizado para o mercado tradicional de distribuição
comercial. Essa independência das estruturas convencionais permite aos
realizadores ousar em relação às formas tradicionais de narração.
05 – Como a escrita do roteiro
de um curta-metragem se diferencia da escrita de um longa-metragem?
Diferente dos
longas, que possuem momentos descritivos acentuados e subtramas, o roteiro do
curta, busca a concisão e a síntese narrativa, focando em objetividade,
simplicidade e momentos de tensão ininterrupta.
06 – De que maneira as
limitações de recursos (limites produtivos) podem ser benéficas para a
linguagem do curta?
Como são realizados com recursos
modestos, os curtas forçam a busca por alternativas de execução fora do padrão
convencional, o que pode acabar gerando inovação e novos estilos narrativos.
07 – Qual é a importância da
entrada de novos talentos (jovens realizadores) para a natureza do
curta-metragem?
A importância
reside no fato de que esses novos realizadores geralmente possuem liberdade,
frescor e audácia para subverter, desconstruir e inovar modelos já
estabelecidos no cinema, funcionando como um "laboratório" de
criação.
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