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sexta-feira, 22 de maio de 2026

CONTO: SINAL DO CÉU - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

 Conto: Sinal do Céu

 

        Como se estivesse pairando entre o céu e a terra, no silêncio da cela semiobscurecida, D. Gualdim orava, profundamente entregue às suas devoções. O corpo lasso — cansado das lutas a que se havia exposto durante a famosa e difícil conquista de Lisboa — sentia um prazer físico e espiritual nessa semiobscuridade, nessa semi-inacção, nesse quase absoluto silêncio.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEge1XwrudpXTaDSsAsUPEoa3aOz9Vtu-26mhyPRcB1j8PPqV_SGOOaTbNi3iYvOGAGAPVwVXJzgSK9JdZ-8ZUWIdM7WHbTCyInJrPB7RQgXWWqCd4efeY0j9w80v8La8iCv54lQ-dC59bYToN3GnKFIbu74hdjF3RjYavKZ8QnEVhIUjHl0FeZ47_0UWAM/s1600/sinal.png 


 De joelhos em terra, o rosto escondido nas mãos, o corpo inclinado para a frente, dir-se-ia a verdadeira estátua da oração. Mas porque a sua sensibilidade era profundamente apurada, o seu espírito começou subitamente a turbar-se em ondas de alerta, como se movimenta a água parada de um lago ao ser-lhe lançada uma pequenina pedra.


        D. Gualdim estremeceu. Teve a sensação de que não estava só. E, retirando do rosto as mãos, ergueu o busto e voltou-se num vagar mal contido. Os seus olhos habituados à meia-luz ambiente descortinaram logo a figura magra e alta do superior do convento. E o seu olhar indagou de tão honrosa presença. O superior, numa voz baixa e pausada, que se esforçava por ser humilde, elucidou:


        — Perdoai, irmão. Não desejaria interromper a vossa oração piedosa... mas tenho algo de importante a comunicar-vos.


        — Falai sem receio. Estava apenas dando graças a Deus pela dita deste silêncio, depois do tremendo inferno que foi a conquista de Lisboa.


        — Bem mereceis este repouso, irmão. Por isso mesmo me aflige interromper-vos.


        — É esta a nossa missão de cavaleiros e monges.


        — Sim, é essa a nossa missão... Já o disse Sancho de Castela: «O som da trombeta transforma-nos em leões e o do sino em cordeiros...» Que se cumpra, pois, em nós, a vontade de Deus!
D. Gualdim sorriu com o respeito devido ao seu superior.


        — Mas decerto não viestes aqui para nos enaltecerdes...
Foi a vez do monge sorrir também.


        — Oh, não! A minha presença nesta cela deve-se a um desejo do nosso rei D. Afonso Henriques.


        Os olhos do cavaleiro-monge brilharam mais intensamente. O seu busto endireitou-se com estranha altivez.


        — El-rei vai sair de novo a campo?


        Com um sinal de cabeça o monge confirmou:


        — Sim... O sangue ferve-lhe nas veias… o seu fervor à causa cristã é indomável!


        D. Gualdim já não parecia o mesmo homem humilde e abatido de há pouco.


        — Quando precisa el-rei de mim?


        — Amanhã, ao romper do dia.


        — Que Deus seja louvado! Lá estarei com os meus homens.


        Sorriu o monge superior do convento.


        — El-rei aprecia-vos muito. Contou-me a vossa proeza, quando subistes as escarpas do monte cujo terreno parecia desfazer-se debaixo dos pés... Falou-me dos pedregulhos que iam caindo por todos os lados e só por milagre vos não acertaram... E disse-me como fostes sempre avançando de armas nos dentes, para que as mãos ficassem mais livres e vos ajudassem a subir...


        D. Gualdim começou a impacientar-se.


        — Por Deus!... Nada fiz que os outros não fizessem também.


        — Mas fostes o primeiro a chegar à muralha...


        — Foi el-rei que vos contou tudo isso?


        — Foi ele, em parte, e os outros ajudaram-no.


        — Os outros!...


        Sorriu e suspirou fundo, D. Gualdim. Depois, como quem falasse consigo próprio, o cavaleiro-monge declarou, numa voz serena e firme:


        — Com um rei como o nosso, que sempre está onde a luta se trava mais renhida, não podem haver descuidados ou cobardes... Eu fiz apenas o que me cumpria fazer.


        — Por isso el-rei vos reclama de novo em campo...


        — E lá estarei, se Deus quiser, para maior honra e glória de Deus!


        — Ámen...


        E silenciosamente, como chegara, o superior saiu da cela de Gualdim.


        Só, este ficou um momento imóvel, olhando um ponto vago no espaço. Depois os seus joelhos voltaram a roçar a terra, o seu busto esguio tornou a encurvar-se e as suas mãos mais uma vez cobriram o seu rosto, de olhar brilhante e feições vincadas.


        Em volta, o silêncio continuou silêncio e a penumbra, penumbra. Só o seu pensamento, feito senhor absoluto do ambiente, cresceu como único vencedor...


        No horizonte, uma nesga de luz impôs a sua presença às trevas da noite. Madrugada fresca de S. João. Em massa ainda indefinida, caminhava o exército lusitano. D. Afonso Henriques mandou fazer alto. Toda aquela enorme multidão estacou. A voz de el-rei D. Afonso Henriques voltou a ouvir-se. Queria falar a um dos seus cavaleiros. Foram buscá-lo sem demora.


        Subiu sonora e firme a voz do rei, como sempre que dava uma ordem.

        — Aproximai-vos, D. Gualdim!


        Submisso mas isento de humildade humilhante, o cavaleiro-monge curvou a cabeça.


        — Dizei, Senhor.


        Voltou o rei a falar com altivez:


        — Vou deixar aqui o exército sob as ordens de D. Ordonho. Preciso, primeiramente, de fazer um reconhecimento.
Admirou-se o cavaleiro.


        — Vós? Será perigoso! Ficai, que eu me sentirei honrado com a vossa mercê, se puder fazer esse reconhecimento em vosso lugar!
Franziu o rei as sobrancelhas espessas.


        — Disse-vos que desejo fazer um reconhecimento. E não lego em ninguém esse meu desejo!


        Arriscou ainda o cavaleiro-monge:


        — Mas... ides sair do campo?


        — Sim. Sairei disfarçado e acompanhado apenas por vós, D. Gualdim…


        Curvou o monge a cabeça, para logo olhar de frente o seu rei.


        — É grande a honra que me concedeis, Senhor! Tão grande como a responsabilidade, que me cabe, de vos trazer, de novo são e salvo.


        Sorriu ligeiramente o rei.


        — Nada temais! Quero apenas chegar junto do castelo dos mouros antes que o sol rompa. Preciso descer para Alcácer, e não quero deixar mal defendidas as nossas costas, com focos que poderão perder-nos. Este castelo terá de ser nosso. Mas preciso saber se chegou a hora de o tomar.


        — O castelo será vosso, como o têm sido os outros que tendes desejado!


        — Sim! — confirmou alegremente o rei. — Depois de Lisboa renderam-se os castelos de Almada, Sintra e Palmela. Este fica perto de Lisboa, e também terá de ser nosso, repito!


        — E eu repito também, se o permitis: sê-lo-á em breve!


        A expressão dura de D. Afonso Henriques adoçou-se. Mas a sua voz soou áspera e breve, como sempre.


        — Aprontai-vos e segui-me... Tenho pressa!


        A nesga de luz que impunha a sua presença às trevas da noite alargou-se mais. E o recorte do exército português tornou-se mais nítido na cinza rosada da manhã.


        A areia ensaibrada rangeu sob o metal do calçado do rei português. Do alto de todo o seu corpo imponente, D. Afonso Henriques olhava o castelo, sobranceiro e sereno. Tudo parecia calmo à volta. A própria pureza do ar, correndo como brisa, parecia um convite para tornar cristão mais aquele bocado de terra. O rei cofiou lentamente as barbas, enquanto lentamente, contra o seu costume, dizia ao companheiro:


        — Parece até um castelo de mouros encantados! Não se vê ninguém...


        — Custa a crer que nem tenham vigias!


        — Quem sabe?


        — Cuidado, Senhor! Descobri além um vulto a mover-se...


        O rei de Portugal franziu as sobrancelhas, numa concentração, enquanto dizia como se falasse consigo próprio:


        — Vim aqui para saber se a hora era propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu, ó Deus Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!


        D. Gualdim guardara silêncio. Mas vendo que o vulto corria agora direito a eles, preveniu:


        — Descobriram-nos! Vão dar o alarme!


        O rei semicerrou os olhos, numa tentativa de ver melhor na meia-luz da madrugada nascente.


        — Reparai bem, D. Gualdim! O vulto que corre para nós... é o de um cão enorme!


        O cavaleiro-monge concentrou todos os seus sentidos nesse vulto que corria direito a eles e se distinguia já perfeitamente.


        — Assim é, meu Senhor! Mas nunca vi um alão tão forte e grande! Teremos de o matar antes que dê o alarme...
Já o cão se dirigia na direcção do rei de Portugal. D. Gualdim gritou quase, ao mesmo tempo que puxava da espada:


        — Cuidado, Senhor!


        Mas D. Afonso Henriques suspendeu-lhe o gesto. O alão mal chegara junto do rei conquistador começara a lamber-lhe as mãos, dando saltos de imensa e estranha alegria. D. Afonso Henriques sorriu.


        — Reparai, D. Gualdim: o alão rende-me vassalagem! Recebe-me como a um libertador, ou como se me conhecesse há muito... Deve ser este o sinal do Céu! O avanço das nossas tropas far-se-á imediatamente e o castelo será nosso. O alão o quer!


        Como num eco, D. Gualdim repetiu:


        — O alão quer!


        E desta frase lendária, que ficou para todos os tempos, resultou a conquista de mais uma praça e o nome da terra que hoje se chama Alenquer. O sinal do Céu chegara e o rei de Portugal obedecera! E quando o Sol, em toda a sua pujança, longe das lamúrias da noite, dardejava os seus raios quentes sobre a terra morena, já o estandarte do rei de Portugal flutuava no alto do que fora um castelo de mouros!...


Gentil Marques  -  Alenquer.

Entendendo o conto:

01 – O que D. Gualdim estava fazendo no início do conto e de qual batalha importante ele estava descansando?

      D. Gualdim estava em sua cela semiobscurecida, profundamente entregue às suas orações e devoções. Ele estava descansando do desgaste físico e espiritual decorrente da famosa e difícil conquista de Lisboa.

02 – Quem interrompeu a oração de D. Gualdim e qual era o motivo dessa interrupção?

      O superior do convento interrompeu a oração. O motivo de sua presença era transmitir um desejo do rei D. Afonso Henriques, que convocava D. Gualdim para ir a campo novamente no romper do dia seguinte.

03 – Qual proeza de D. Gualdim na conquista de Lisboa foi recordada pelo monge superior?

      O monge relembrou quando D. Gualdim subiu as escarpas do monte sob chuva de pedregulhos, avançando com as armas nos dentes para deixar as mãos livres para escalar, sendo o primeiro a atingir a muralha inimiga.

04 – Por que o rei D. Afonso Henriques decidiu fazer um reconhecimento disfarçado e quem ele escolheu para acompanhá-lo?

      O rei queria examinar o castelo dos mouros antes do amanhecer para avaliar se era a hora propícia para tomá-lo, garantindo a segurança de suas costas antes de descer para Alcácer. Ele escolheu D. Gualdim para acompanhá-lo nessa perigosa missão.

05 – Que pedido o rei fez a Deus ao observar o castelo inimigo e notar que tudo parecia calmo demais?

      Olhando para o castelo imponente, D. Afonso Henriques pediu uma providência divina dizendo: "Vim aqui para saber se a hora era propícia à conquista deste castelo. Mandai-me um sinal do Céu, ó Deus Todo-Poderoso! Mandai-me um sinal!"

06 – Como o "sinal do Céu" se manifestou e qual foi a reação surpreendente do animal ao se aproximar do rei?

      O sinal manifestou-se na figura de um cão enorme (um alão) que correu na direção deles. Em vez de atacar ou dar o alarme, o animal começou a lamber as mãos do rei e a dar saltos de imensa alegria, rendendo-lhe vassalagem como se o reconhecesse como libertador.

07 – Qual é a origem lendária do nome da terra "Alenquer" segundo o desfecho do conto?

      O nome surgiu a partir da frase lendária dita pelo rei e repetida por D. Gualdim diante da reação do cão: "O alão o quer!" (ou "O alão quer!"). A partir dessa expressão, a praça foi conquistada e a região passou a se chamar Alenquer.

 

 

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