quinta-feira, 13 de agosto de 2026

DIÁLOGO: SOBRE O JOÃO-DE-BARRO - LÚCIA HELENA SALVETTI DE CICCO - COM GABARITO

 Diálogo: Sobre o João-de-barro

        Língua falada: conversa entre duas pessoas na praça

        -- Você já viu um João-de-barro?

        -- Eu já, porque lá no Norte tem bastante.

        -- Como é o ninho?

        -- De barro.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjd_YQymnKCLWQ1AONwIBS0AmbbuIwzZ4kHrzkOaAey4k00BeA6qqGpJK8Gwu2iIS5eSwEl7_er-H_hTXm4e5UJ1V2fO5awdC8DfTzkNY2CICwlNd9GaRv_YA5UD4ORSmP64j_OUBwSDJXYha74-sEP9BJXukK8qPdYuHQJAQ4xk592-gBtvwUdRBY5M2k/s320/images.jpg


        -- Você sabe como ele faz?

        -- Faz na árvore, de manhã cedo. Ele vai na beira de um rio onde tem barro vermelho e mole.

        -- E aí?

        -- Aí ele começa a operação.

        -- Que operação é essa?

        -- De carregar o barro para cima da árvore porque ele só faz em árvore. Ele vai levando o barro pra lá, é os dois que faz.

        -- Quem mais trabalha?

        -- Parece que é o homem. Como a mulher é menor que o homem, acho que é o homem.

        -- Eles deixam alguém acompanhar o trabalho?

        -- De longe.

        -- Como é a casa deles?

        -- A casa deles é de dois andares. Eles fazem a sala e a cozinha. Na sala eles bota os ovinhos e na frente guarda um monte de inseto, lagarta, pra alimentar os bichinho. Entendeu? Aí, quando eles nascem, já tem um montão.

 

        Língua escrita: João-de-barro

        É admirável a habilidade com que esta ave constrói a sua casa nos postes, nas traves das porteiras ou nos galhos de árvores desnudas. O ninho consiste em uma bola de barro, dividida em dois compartimentos. A porta, que permite ao pássaro entrar sem se abaixar, impede que o vento atinja o interior, pois é sempre voltada para o norte. Macho e fêmea ocupam-se ativamente da construção, transportando grandes bolas de barro que são amassadas com os bicos e com os pés. No compartimento maior, forrado com musgo, cabelos e penas, a fêmea deposita de 3 a 4 ovos brancos, três vezes ao ano.

        O joão-de-barro é pouco menor que um sabiá, porém, mais delgado. Sua cor é cor de terra, com a garganta branca e a cauda avermelhada. É uma ave alegre que gosta de conviver com o homem. vivem em casais e passam os dias a gritar, em curiosos duetos.

Lúcia Helena Salvetti De Cicco. Disponível em: http://www.saudeanimal.com.br/jbarro_print.htm. Acesso em: set. 2002.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 204-205.

Entendendo o diálogo:

01 – Compare o primeiro texto (conversa na praça) com o segundo (texto expositivo/informativo) e identifique duas marcas típicas da linguagem oral presentes no diálogo que foram eliminadas na versão escrita formal.

      No diálogo oral observam-se várias marcas de informalidade e espontaneidade, tais como:

      Desvios de concordância verbal e nominal: Uso de construções como "é os dois que faz", "eles bota" e "os bichinho";

      Uso de conectivos e marcadores de sequenciação típicos da fala: Repetição da palavra "aí" ("E aí?", "Aí ele começa...", "Aí, quando eles nascem...") e vocativos/expressões de checagem de atenção ("Entendeu?").

      No segundo texto, por tratar-se da norma-padrão da língua escrita, essas marcas foram totalmente substituídas por concordâncias gramaticais corretas e por uma estrutura frasal mais formal e fluida.

02 – Quanto à divisão do trabalho entre o macho e a fêmea na construção do ninho, como o conhecimento popular expresso no diálogo diverge da informação explicitada no texto expositivo em língua escrita?

      No diálogo oral, o interlocutor apoia-se em uma suposição empírica/popular baseada em papéis de gênero tradicionais humanas: ele supõe que o macho trabalha mais por ser maior ("Parece que é o homem. Como a mulher é menor que o homem, acho que é o homem"). Já o texto escrito científico/expositivo apresenta um fato biológico verificado: ambos os sexos colaboram ativamente e de forma equivalente na construção ("Macho e fêmea ocupam-se ativamente da construção, transportando grandes bolas de barro...").

03 – Ambos os textos descrevem a arquitetura do ninho do joão-de-barro. Compare as explicações dadas nos dois textos para os dois compartimentos da "casa" da ave.

      No diálogo (língua falada), o interlocutor utiliza termos do universo doméstico humano para descrever o ninho: afirma que a casa tem "dois andares" com "sala e cozinha", dizendo que a sala guarda os ovos e na frente (cozinha) acumulam-se insetos para os filhotes. No texto escrito, a explicação é objetiva e biologicamente precisa: descreve um ninho dividido em dois compartimentos em que a porta é estrategicamente posicionada para bloquear o vento, e o compartimento maior é forrado com musgo, cabelos e penas para o depósito e incubação de 3 a 4 ovos.

04 – De acordo com o texto em língua escrita, onde o joão-de-barro costuma construir seu ninho e como essa informação amplia o que foi afirmado pelo entrevistado na conversa de praça?

      Na conversa de praça, o entrevistado afirma categoricamente que o joão-de-barro "só faz em árvore". O texto em língua escrita amplia e corrige essa visão ao demonstrar a capacidade adaptativa da ave e sua convivência com o meio urbano/humano, explicando que ela constrói seus ninhos não apenas nos galhos de árvores desnudas, mas também em estruturas criadas pelo homem, como postes e traves de porteiras.

05 – O texto em língua escrita traz detalhes sobre o aspecto físico e o comportamento da ave que não foram mencionados na conversa oral. Quais são essas características?

      O texto escrito detalha a aparência física da ave (pouco menor que um sabiá, porém mais delgado, cor de terra, com garganta branca e cauda avermelhada) e seu comportamento social: destaca que é uma ave alegre, que vive em casais, gosta de conviver perto do homem e passa os dias emitindo vocalizações em "curiosos duetos". No diálogo oral, a descrição limita-se ao hábito do pássaro de buscar barro vermelho na beira do rio.

06 – Análise a escolha de palavras no segundo texto. De que modo a seleção de termos como "admirável", "desnudas", "delgado" e "compartimentos" define a tipologia e o objetivo do texto em língua escrita?

      A seleção vocabular formal e precisa caracteriza o texto como expositivo-informativo com marcas de apreciação poética/descritiva. O uso desse repertório erudito atende à norma-padrão da língua escrita, buscando transmitir informações claras e organizadas ao leitor sobre a biologia da ave, ao mesmo tempo que expressa um tom de encanto e valorização da natureza.

 

 

CONTO: BIRUTA - FRAGMENTO - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: Biruta – Fragmento

         Lygia Fagundes Telles

        Alonso foi para o quintal carregando uma bacia cheia de louça suja. Andava com dificuldade tentando equilibrar a bacia que era demasiado pesada para seus braços finos.

        — Biruta, eh, Biruta! – chamou sem se voltar.

        O cachorro saiu de dentro da garagem. Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjeAtS047XJCdUk6VErrDP1HTKAJjnFf0Zc_suob_DB-NfFXKuZJEinlja5cuYVrTFUtIqiGmdVn7q2DHJP2wp5r7bb6zRCM_vv7rYQATcx0mSGM8edcYRcsjD2aOMadMLA58ZMosdNVC2di-Rl_7KqlEod88M9wqhcSfuVbzoMT0oDseD-zA0OUmF5yc8/s320/images.jpg

 

        — Sente-se aí, Biruta, que vamos ter uma conversinha – disse Alonso pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se, arregaçou as mangas da camisa e começou a lavar os pratos.

        Biruta sentou-se inclinando interrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda, como se quisesse apreender melhor as palavras do seu dono. A orelha caída ergueu-se um pouco, enquanto a outra empinou aguda e reta. Entre elas formaram-se dois vincos próprios de uma testa franzida no esforço da meditação.

        — Leduína disse que você entrou no quarto dela – começou o menino num tom brando. — E subiu em cima da cama e focinhou as cobertas e mordeu uma carteirinha de couro que ela deixou lá. A carteira era velha, ela não ligou muito, mas e se fosse uma carteira nova, Biruta! Se fosse uma carteira nova! Leduína te dava uma surra e eu não podia fazer nada, como daquela outra vez que você arrebentou a franja da cortina, lembra? Você se lembra muito bem sim senhor, não precisa fazer essa cara de inocente!...

        Biruta deitou-se, enfiou o focinho entre as patas e baixou a orelha. Agora as orelhas estavam no mesmo nível, murchas, as pontas quase tocando o chão. Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”

        [...]

TELLES, Lygia Fagundes. Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. 12. ed. São Paulo: Ática, 1996.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 203.

Entendendo o conto:

01 – Como a descrição física inicial do menino Alonso e a sua primeira ação no quintal evidenciam sua condição social e psicológica no ambiente em que vive?

      A descrição física de Alonso — carregando uma bacia de louça suja "demasiado pesada para seus braços finos" e andando com dificuldade — revela sua fragilidade física, infância sobrecarregada e posição de submissão ou exploração doméstica. A tarefa pesada contrasta com sua estrutura infantil, sugerindo um ambiente rígido e exigente, no qual ele precisa assumir responsabilidades precoces sob a autoridade de figuras como Leduína.

02 – No trecho, o cachorro Biruta não emite sons nem fala, mas demonstra uma intensa "comunicação" com seu dono. Como a autora utiliza a descrição dos movimentos do animal para simular uma reação humana às palavras de Alonso?

      A autora utiliza a personificação (humanização) da linguagem corporal do animal. Os movimentos das orelhas (uma em pé e a outra caída), os "vincos próprios de uma testa franzida" e a mudança de postura (ao se deitar e murchar as orelhas ao ouvir o tom de bronca) constroem a ilusão de que Biruta compreende perfeitamente o discurso moral de Alonso, demonstrando atitude interrogativa, reflexão e, finalmente, culpa ou incompreensão resignada.

03 – Ao advertir o cão sobre o episódio da carteira de couro de Leduína, qual é o verdadeiro receio de Alonso em relação ao comportamento do seu animal de estimação?

      O verdadeiro receio de Alonso não é o dano material em si, mas a punição física e a impotência de não conseguir proteger o cão. Quando menciona que Leduína daria uma "surra" em Biruta e que ele "não podia fazer nada" (como na ocasião da cortina rasgada), Alonso expõe sua própria falta de autoridade na casa e a necessidade de prevenir novos deslizes do cachorro para evitar que o animal sofra a violência dos adultos.

04 – Analise o trecho final: Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”. Qual recurso narrativo é empregado nessa passagem e qual o seu efeito de sentido?

      Trata-se de uma projeção da consciência do narrador/personagem sobre o animal, utilizando o discurso direto/indireto livre para traduzir o olhar do cão em linguagem humana. Esse recurso reforça o grau de empatia e cumplicidade entre o menino e Biruta, permitindo ao leitor enxergar o cão não apenas como um bicho de estimação, mas como o único confidente afetivo de Alonso no ambiente doméstico.

05 – Mesmo sem aparecer diretamente na cena, a personagem Leduína exerce forte presença no fragmento. Como a menção ao seu nome ajuda a estruturar a hierarquia de poder dentro da casa?

      A figura de Leduína representa a autoridade e a ameaça de punição. Sua simples menção molda o comportamento de Alonso, que assume o papel de intermediário disciplinar para evitar a fúria da adulta. Isso estabelece uma clara hierarquia de poder: Leduína ocupa o topo (com poder de castigar e ditar as regras), Alonso ocupa uma posição intermediária e frágil (de executor de tarefas e protetor impotente), e Biruta situa-se na base, sujeito aos limites impostos pela casa.

 

CONTO: UMA IDEIA DA SENHORA EMÍLIA - FRAGMENTO - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

 Conto: Uma ideia da senhora Emília – Fragmento

            Monteiro Lobato

        [...]

        Os meninos fizeram todas as combinações necessárias, e no dia marcado partiram muito cedo, a cavalo no rinoceronte, o qual trotava um trote mais duro que sua casca. Trotou, trotou e, depois de muito trotar, deu com eles numa região onde o ar chiava de modo estranho.
        -- Que zumbido será esse? – indagou a menina – Parece que andam voando por aqui milhões de vespas invisíveis.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhYlTrZDA1iuFt2i7pFTN3z4gh4j5GcOnfTD4r7Szwa7m68T0mLaP4AFw-Cimdsgh2emCG9KsQsD-YHRYVii9PB_x8eQkyenveOjqmdRfaUJM8X2AMpJiUvReLlcGXDjE67f5GCAUKeTUUuhYRxGJFr8VG8fiu1dID8maG-1J_8ROR6o5xN8bsgjIoSQpo/s320/images.jpg


        -- É que já entramos em terras do País da Gramática – explicou o rinoceronte. – Estes zumbidos são os SONS ORAIS, que voam soltos no espaço.

        -- Não comece a falar difícil que nós ficamos na mesma – observou Emília. – Sons Orais, que pedantismo é esse?

        -- Som Oral quer dizer som produzido pela boca, A, E, I, O, U são Sons Orais, como dizem os senhores gramáticos.

        -- Pois diga logo que são letras! – protestou! – gritou Emília.

        -- Mas não são letras! – protestou rinoceronte. – Quando você diz A ou O, você está produzindo um som, não está escrevendo uma letra. Letras são sinaizinhos que os homens usam para representar esses sons. Primeiro há Sons Orais; depois é que aparecem as letras, para marcar esses Sons Orais. Entendeu?

        O ar continuava num zunzum cada vez maior. Os meninos pararam, muito atentos, a ouvir.

        -- Estou percebendo muitos sons que conheço – disse Pedrinho, com a mão em concha ao ouvido.

        -- Todos os sons que andam zumbindo por aqui são velhos conhecidos seus, Pedrinho.

        -- Querem ver que é o tal alfabeto? – lembrou Narizinho. – E é mesmo!... Estou distinguindo todas as letras do alfabeto...

        -- Não, menina, você está apenas distinguindo todos os sons das letras do alfabeto – corrigiu o rinoceronte com uma pachorra igual à de Dona Benta. – Se você escrever cada um desses sons, então, sim; então surgem as letras do alfabeto.

        -- Que engraçado! – exclamou Pedrinho, sempre de mão em concha ao ouvido.

        – Estou também distinguindo todas as letras do alfabeto: ao, o C, o D, o X, o M...

        O rinoceronte deu um suspiro.

        -- Mas chega de sons invisíveis – gritou a menina – Toca para diante. Quero entrar logo no tal País da Gramática.

        [...]

Monteiro Lobato. Emília no país da gramática. 44. ed. São Paulo: Brasiliense, 1997.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 66.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o meio de transporte utilizado pelos personagens para viajar até o País da Gramática e como ele é caracterizado no início do texto?

      Os personagens viajam montados a cavalo em um rinoceronte (Quindim). O animal é caracterizado por ter um trote extremamente duro, sendo descrito pelo narrador como "mais duro que sua casca".

02 – Ao se aproximarem do País da Gramática, os personagens percebem um barulho peculiar no ar. O que era esse zumbido e como o rinoceronte o explica?

      O barulho era um zunzum contínuo que lembrava vespas invisíveis voando. O rinoceronte explica que esse som sinaliza a entrada no País da Gramática, pois trata-se dos Sons Orais (os fonemas) voando soltos pelo espaço, ou seja, os sons produzidos pela boca humana ao falar.

03 – Qual é a diferença conceitual explicada pelo rinoceronte entre "Sons Orais" e "Letras"?

      O rinoceronte explica que o Som Oral é a emissão sonora produzida pela boca (a fala em si), existente antes de qualquer registro. Já as letras são os sinais gráficos criados pelos seres humanos para representar visualmente esses sons no papel.

04 – Como a personagem Emília reage à explicação inicial do rinoceronte sobre os sons orais e o que isso revela sobre sua personalidade?

      Emília reage com impaciência e desdém, acusando o rinoceronte de "pedantismo" e exigindo que ele fale de forma simples, sugerindo diretamente que ele chamasse os sons de "letras". Essa atitude reforça sua personalidade questionadora, crítica e sem paciência para jargões ou termos complicados.

05 – Mesmo após a explicação detalhada do rinoceronte, qual equívoco Narizinho e Pedrinho cometem ao ouvir os barulhos no ar?

      Tanto Narizinho quanto Pedrinho afirmam que estão ouvindo e distinguindo as letras do alfabeto voando pelo ar (como o C, o D, o X). O rinoceronte precisa corrigi-los novamente, lembrando que o que eles ouvem são apenas os sons (fonemas) correspondentes a essas letras, e não os símbolos escritos.

 

NOTÍCIA: POR TERRA E POR AR, O INCRÍVEL RESGATE DO CORAÇÃO QUE SALVOU MENINA - JORNAL DA TARDE - COM GABARITO

 Notícia: Por terra e por ar, o incrível resgate do coração que salvou menina

        Eram quase 17h de quarta-feira em Sorocaba quando os médicos anunciaram a morte de um rapaz de 26 anos, atropelado enquanto andava de bicicleta. Avisados, médicos do Instituto do Coração seguiram para a cidade. Às 7h de ontem, eles terminavam o trabalho de retirada do coração, rins, pâncreas, fígado e córneas do rapaz, mas a ambulância que os trazia de volta a São Paulo enguiçou na Castelinho. A PM foi acionada, o trânsito foi interrompido e o helicóptero Águia 7 pousou no meio da estrada para resgatar os médicos e os órgãos. Vinte minutos depois, chegavam ao heliponto do Incor e, às 8h, a menina Ravini de Souza Melo, de 12 anos, começava a receber um novo coração. Após quatro horas, os médicos comemoravam o sucesso do transplante: a menina estava salva.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0a91qDdnf2PoZVwPR4-NGqR0ijMtZjULtztRLkgBtZv5gpk45Suj2vH-Gg0crKx30NVHZy40QGJHT4Lf1IXK4WNC4SL48JYXnNG9IbH0GLx9FIjb1v_ZQklTu3Sn1-j6cbm6PkcS3_C1_eM56CIZFcX7mrb_uzDW76V4SJ4xEW-BA7tq_deuE7ew4m5Q/s320/images.jpg 


Jornal da Tarde.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 249.

Entendendo a notícia:

01 – O primeiro parágrafo de uma notícia costuma responder às perguntas básicas do fato jornalístico: O quê? Quem? Quando? Onde? Identifique na notícia os dados referentes ao local do acidente, à vítima doadora e ao horário da confirmação do óbito.

      Local do acidente/óbito: Sorocaba.

      Vítima doadora: Um rapaz de 26 anos (atropelado enquanto andava de bicicleta).

      Horário da confirmação do óbito: Quarta-feira, por volta das 17h.

02 – Qual foi o imprevisto que colocou em risco o transporte dos órgãos do doador até o local do transplante e qual autoridade foi acionada para resolver a emergência?

      O imprevisto foi o defeito na ambulância (que enguiçou na rodovia Castelinho) durante o trajeto de volta para São Paulo. Para resolver a emergência e garantir o transporte a tempo, a Polícia Militar (PM) foi acionada.

03 – Descreva a estratégia utilizada pela Polícia Militar e pelo resgate aéreo para viabilizar a chegada do coração ao hospital a tempo.

      A PM interrompeu o trânsito da rodovia Castelinho para permitir que o helicóptero Águia 7 pousasse diretamente no meio da estrada. O helicóptero resgatou os médicos e a caixa com os órgãos, levando-os em apenas vinte minutos até o heliponto do Incor (Instituto do Coração), em São Paulo.

04 – Com base nos horários e prazos mencionados na notícia, quanto tempo se passou desde o término da retirada dos órgãos em Sorocaba até a conclusão bem-sucedida da cirurgia de transplante na paciente?

      A retirada dos órgãos terminou às 7h. O transporte aéreo permitiu que a cirurgia de Ravini de Souza Melo começasse às 8h (1 hora após a retirada). Como o procedimento cirúrgico durou quatro horas, o transplante foi concluído com sucesso por volta das 12h (meio-dia), totalizando 5 horas de processo contínuo entre a extração e a finalização do transplante.

05 – Explique por que o título "Por terra e por ar, o incrível resgate do coração que salvou menina" sintetiza com precisão os fatos relatados na Notícia.

      O título é preciso porque reflete diretamente as duas etapas do transporte do órgão: o trecho terrestre (de ambulância, partindo de Sorocaba até a rodovia) e o trecho aéreo (de helicóptero, após a quebra do veículo terrestre, direto para o heliponto do hospital). Além disso, antecipa a urgência e o desfecho positivo da operação: o transplante bem-sucedido que salvou a vida da menina de 12 anos.

 

CONTO: O GRANDE MÁGICO - FRAGMENTO - JOSÉ J. VEIGA - COM GABARITO

 Conto: O GRANDE MÁGICO – Fragmento

          José J. Veiga

        [...]

        Finalmente o mágico chegou, e foi um alvoroço. Quando soubemos que ele estava no Grande Hotel do Líbano, eu e uns colegas corremos lá depois da escola e ficamos de guarda na porta, fazendo aquela algazarra que menino faz quando forma bando. Incomodado com o barulho, um rapaz veio lá de dentro e disse que, se queríamos ver o mágico, ele tinha ido ao teatro providenciar a arrumação e só voltava para o jantar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnOyGZQMTNnrgRglDnZadLH0zvcxsEskc2IzhE8FFlhB4qfM2mwO97rq0_5Shi3ouD2dNyJ2sUx4A-34to4Xjfj3lP0pv59G4i3wvW96uHI3gjPAYG7mrQ0moUA_RX5S51CUyhfLLlO54yjeQhm7mCROy6mRscLeRd_VRDOuRy7_8yY1pn7GWOUF2u1os/s320/images.jpg 


        Mesmo não acreditando muito – podia ser esperteza para nos afastar da porta – resolvemos ir ao teatro.

        Logo na entrada vimos um homem baixinho meio gordo conversando com o gerente, e mais lá dentro na sala de espera umas canastras enormes largadas de qualquer jeito.

        Olhei para meus colegas, vi que o desapontamento era geral. Não podia ser aquele o tão falado Grande Uzk. Não tinha cara, nem corpo nem nada de grande mágico. Devia ser algum empregado, secretário, servente; o mágico mesmo devia estar à frescata no hotel. Mas quando ouvimos o gerente do teatro chamar o homenzinho de Sr. Uzk, não tivemos outro jeito senão aceitarmos a realidade.

        Que decepção! Onde estava o homem alto, moço, de olhos chamejantes? Os cartazes não revelam a altura, mas com aqueles olhos tinha que ser uma pessoa alta, pelo menos eu pensei. Mas olhando bem, e comparando, podia ser. Os olhos tinham qualquer coisa que lembrava os do cartaz. E a testa era a mesma.

        A voz também não correspondia à de um homem que olha o mundo com olhos de brasa e faz coisas obedecerem a sua vontade. Como poderia aquela vozinha fina e tremida, mais própria de palhaço, mandar sapo virar borboleta, água virar areia, esterco virar ouro, e ser obedecida? Era como a gente preparar os olhos para ver um dinossauro e ver uma lagartixa.

        E para complementar a decepção, o homem tinha uma mancha avermelhada de ferida ou sarna de um lado do rosto, tomando o canto da boca e parte do queixo, de vez em quando ele tirava um lenço de bolso e enxugava aquilo, parecia estar aguando.

        E agora? O homem era aquele, não tinha outro. É nisso que dá a gente acreditar em tudo o que ouve. Ele podia ser mágico, mas de magiquinhas corriqueiras.

        Saímos dali calados, não querendo dar o braço a torcer. Para preencher o mutismo íamos chutando coisas miúdas que encontrávamos, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, pescoços e pernas secas de urubus mortos durante a grande invasão deles e ainda espalhados por toda parte.

        Eu me desinteressei do Grande Uzk e teria perdido o primeiro espetáculo se não fosse à insistência de uns colegas que estavam combinando uma grande vaia para quando ele aparecesse no palco; eles achavam que meu assovio fino e cortante era necessário. Só para atendê-los fiz o sacrifício.

        [...]

José J. Veiga. Sombras de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 180-181.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Canastra: cesta larga e baixa;

-- Chamejantes: em chamas, brilhantes;

-- Mutismo: mudos, calados.

02 – O fragmento é estruturado em torno do contraste entre a expectativa idealizada pelos meninos e a realidade concreta que encontram no teatro. Quais eram as características imaginadas do "Grande Uzk" e como a aparência real do personagem desmistifica essa imagem?

      Os meninos esperavam encontrar uma figura imponente, condizente com a fama e a publicidade dos cartazes: um homem alto, jovem, com voz firme e "olhos chamejantes", capaz de impor sua vontade à natureza. A realidade, no entanto, contrapõe essa ilusão: o "Grande Uzk" revela-se um homem baixinho, gordo, de voz fina e tremida ("mais própria de palhaço") e com uma ferida avermelhada no rosto. Essa disparidade quebra o encanto e gera uma profunda decepção nos garotos.

03 – No quinto parágrafo, o narrador utiliza uma comparação expressiva ao refletir sobre a voz e a presença do mágico: "Era como a gente preparar os olhos para ver um dinossauro e ver uma lagartixa." Explique o efeito de sentido dessa metáfora na caracterização do sentimento da personagem-narradora.

      A metáfora expressa a grandeza da decepção e o abismo entre o mito construído pela imaginação e o indivíduo real. O "dinossauro" simboliza a figura monumental, extraordinária e assustadora que se esperava do ilusionista, enquanto a "lagartixa" representa o ser insignificante, frágil e comum que ele de fato era. Essa imagem reforça o sentimento de ridículo e frustração sentido pelo garoto diante da realidade.

04 – Após saírem do teatro, a decepção dos meninos é transmitida não apenas pelo silêncio, mas também por suas ações físicas. Como o ato de "chutar coisas miúdas" reflete o estado psicológico do grupo?

      O ato reflexo e agressivo de chutar pequenos objetos pelo caminho ("caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, pescoços e pernas secas de urubus") funciona como um extravasamento físico da frustração, do tédio e do ressentimento. Impedidos de manifestar verbalmente o orgulho ferido ou o desapontamento ("não querendo dar o braço a torcer"), os meninos usam o silêncio e o comportamento destrutivo como válvula de escape para lidar com o encanto desfeito.

05 – Mesmo em um relato sobre a decepção com uma atração móbile, o texto traz elementos estranhos e sombrios característicos da obra de José J. Veiga, como a menção a "pescoços e pernas secas de urubus mortos durante a grande invasão deles". Qual é a função dessa referência no contexto da narrativa?

      A menção casual à "grande invasão de urubus" insere na narrativa cotidiana uma marca do realismo fantástico/mágico, típico da ficção de José J. Veiga. Esse detalhe bizarro constrói uma atmosfera levemente decadente, opressiva e insólita para a cidade, sugerindo que o ambiente urbano carrega suas próprias marcas de acontecimentos estranhos e perturbadores, ao mesmo tempo que acentua o tom sombrio e desolado do passeio dos meninos após a desilusão.

06 – O narrador afirma que havia perdido o interesse pelo Grande Uzk, mas decide ir ao primeiro espetáculo. O que o motiva a comparecer e o que essa atitude revela sobre a dinâmica do grupo de garotos?

      O narrador aceita ir ao espetáculo motivado pelo sentimento de solidariedade do bando e pelo desejo de vingança coletiva. Seus colegas estavam organizando uma grande vaia para protestar contra o "engano" do mágico e precisavam do seu "assovio fino e cortante". A atitude revela que, no grupo infantil, a cumplicidade e o alinhamento com a reação dos pares sobrepõem-se ao desinteresse individual, transformando a decepção em uma oportunidade de confronto comunitário e afirmação do grupo.

 

 

CONTO: A ROUPA NOVA DO IMPERADOR - HANS CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: A Roupa Nova do Imperador

         Hans Christian Andersen

        Há muitos anos, existiu um imperador tão obcecado por roupas novas que gastava todo o seu dinheiro em vestuário. Ele não se preocupava minimamente com seus soldados; tampouco se importava em ir ao teatro ou à caça, exceto pelas oportunidades que essas ocasiões lhe proporcionavam para exibir suas novas roupas. Ele tinha um traje diferente para cada hora do dia; e como se costuma dizer de qualquer outro rei ou imperador: "ele está reunido em conselho", dele sempre se dizia: "O Imperador está sentado em seu guarda-roupa".

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        O tempo passava alegremente na grande cidade que era sua capital; forasteiros chegavam todos os dias à corte. Certo dia, dois patifes, dizendo-se tecelões, apareceram. Alardearam que sabiam tecer tecidos das cores mais belas e padrões elaborados, cujas roupas teriam a maravilhosa propriedade de permanecer invisíveis para todos aqueles que fossem inaptos para o cargo que ocupavam, ou que tivessem um caráter extraordinariamente ingênuo.

        "Estas devem ser, de fato, roupas esplêndidas!", pensou o Imperador. "Se eu tivesse um traje assim, poderia descobrir imediatamente quais homens em meus reinos são inadequados para seus cargos, e também distinguir os sábios dos tolos! Este tecido deve ser tingido para mim imediatamente." E ordenou que grandes somas de dinheiro fossem dadas aos dois tecelões para que pudessem começar seu trabalho imediatamente.

        Então, os dois pretensos tecelões montaram dois teares e fingiram trabalhar muito, embora na realidade não fizessem absolutamente nada. Pediram a seda mais delicada e o fio de ouro mais puro; colocaram ambos em suas próprias mochilas; e então continuaram seu trabalho fingido nos teares vazios até tarde da noite.

        "Gostaria de saber como estão os tecelões com o meu tecido", disse o Imperador para si mesmo, após algum tempo; ficou, no entanto, um tanto constrangido ao lembrar que um simplório, ou alguém inadequado para o seu cargo, não seria capaz de ver a produção. Certamente, ele pensava que não tinha nada a perder pessoalmente; ainda assim, preferia enviar alguém para lhe trazer informações sobre os tecelões e o seu trabalho, antes de se preocupar com o assunto. Todos na cidade tinham ouvido falar das maravilhosas propriedades que o tecido possuía; e todos estavam ansiosos para saber o quão sábios, ou ignorantes, os seus vizinhos se revelariam.

        "Enviarei meu fiel e velho ministro aos tecelões", disse o Imperador finalmente, após alguma deliberação, "ele será o mais indicado para ver como o tecido está ficando; pois ele é um homem sensato, e ninguém poderia ser mais adequado para o cargo do que ele."

        Então o fiel pastor entrou no salão, onde os ladrões trabalhavam com todas as suas forças em seus teares vazios. "O que será isso?", pensou o velho, arregalando os olhos. "Não consigo encontrar um único fio nos teares." Contudo, ele não expressou seus pensamentos em voz alta.

        Os impostores pediram-lhe, com muita cortesia, que se aproximasse dos seus teares; e perguntaram-lhe se o desenho lhe agradava e se as cores não eram muito bonitas, apontando ao mesmo tempo para as molduras vazias. O pobre velho ministro olhou e olhou, mas não conseguiu descobrir nada nos teares, por uma razão muito simples: não havia nada lá. "O quê!", pensou ele novamente. "Será possível que eu seja um tolo? Nunca pensei assim; e ninguém deve saber agora se eu for. Será que sou inapto para o meu cargo? Não, isso também não deve ser dito. Nunca vou confessar que não consegui ver o tecido."

        "Bem, senhor ministro!" disse um dos patifes, ainda fingindo trabalhar. "O senhor não diz se a mercadoria lhe agrada."

        "Oh, é excelente!" respondeu o velho ministro, olhando para o tear através de seus óculos. "Este padrão, e as cores, sim, direi ao Imperador sem demora o quanto os acho belíssimos."

        "Ficaremos muito gratos", disseram os impostores, e então nomearam as diferentes cores e descreveram o padrão do suposto tecido. O velho ministro ouviu atentamente suas palavras, para que pudesse repeti-las ao Imperador; e então os patifes pediram mais seda e ouro, dizendo que era necessário para terminar o que haviam começado. Contudo, colocaram tudo o que lhes foi dado em suas mochilas e continuaram a trabalhar com a mesma aparente diligência de antes em seus teares vazios.

        O imperador enviou então outro oficial da corte para ver como estavam os trabalhos e para verificar se o tecido ficaria pronto em breve. Com este cavalheiro aconteceu exatamente a mesma coisa que com o ministro; ele examinou os teares por todos os lados, mas não conseguiu ver nada além das estruturas vazias.

        "Não vos parece tão belo quanto pareceu ao meu senhor, o ministro?", perguntaram os impostores do segundo embaixador do Imperador, repetindo os mesmos gestos de antes e falando do desenho e das cores que não existiam.

        "Certamente não sou estúpido!", pensou o mensageiro. "Deve ser que eu não seja adequado para o meu bom e proveitoso cargo! Isso é muito estranho; contudo, ninguém saberá nada a respeito." E, assim, elogiou o tecido que não podia ver e declarou-se encantado com as cores e os padrões. "De fato, peço a Vossa Majestade Imperial", disse ele ao seu soberano ao retornar, "o tecido que os tecelões estão preparando é extraordinariamente magnífico."

        Toda a cidade comentava sobre o esplêndido tecido que o Imperador mandara tecer às suas próprias custas.

        E então o próprio Imperador desejou ver a custosa manufatura, enquanto ainda estava no tear. Acompanhado por um seleto grupo de oficiais da corte, entre os quais estavam os dois homens honestos que já haviam admirado o tecido, ele foi até os astutos impostores, que, assim que perceberam a aproximação do Imperador, trabalharam com mais afinco do que nunca; embora ainda não tivessem passado um único fio pelos teares.

        "A obra não é absolutamente magnífica?", disseram os dois oficiais da coroa, já mencionados. "Se Vossa Majestade se dignasse a admirá-la! Que desenho esplêndido! Que cores gloriosas!", e ao mesmo tempo apontavam para as molduras vazias, pois imaginavam que todos os outros pudessem contemplar aquela primorosa obra de arte.

        "Como é isso?", disse o Imperador para si mesmo. "Não consigo ver nada! Isto é realmente terrível! Sou um simplório, ou sou inadequado para ser Imperador? Isso seria a pior coisa que poderia acontecer... Oh! O tecido é encantador", disse ele em voz alta. "Tem a minha total aprovação." E sorriu graciosamente e olhou atentamente para os teares vazios; pois de modo algum diria que não conseguia ver o que dois dos oficiais de sua corte tanto elogiaram. Toda a sua comitiva agora forçava a vista, na esperança de descobrir algo nos teares, mas não conseguiam ver mais do que os outros; no entanto, todos exclamaram: "Oh, que lindo!" e aconselharam Sua Majestade a mandar fazer novas roupas com esse esplêndido tecido para a procissão que se aproximava. "Magnífico! Encantador! Excelente!" ecoavam por todos os lados; e todos estavam extraordinariamente alegres. O Imperador compartilhou da satisfação geral; e presentearam os impostores com a fita de uma ordem de cavalaria, para ser usada em suas casas de botão, e o título de "Cavalheiros Tecelões".

        Os patifes passaram a noite inteira acordados antes do dia da procissão, com dezesseis luzes acesas, para que todos pudessem ver o quanto estavam ansiosos para terminar o novo traje do Imperador. Fingiram desenrolar o tecido dos teares, cortar o ar com suas tesouras e costurar com agulhas sem linha. "Vejam!", exclamaram, por fim. "As novas roupas do Imperador estão prontas!"

        E então o Imperador, com todos os nobres de sua corte, chegou aos tecelões; e os patifes ergueram os braços, como se estivessem segurando algo, dizendo: "Aqui estão as calças de Vossa Majestade! Aqui está o lenço! Aqui está o manto! O traje inteiro é leve como uma teia de aranha; alguém poderia pensar que não está vestindo nada, ao usá-lo; essa, porém, é a grande virtude deste tecido delicado."

        "Sim, sem dúvida!" disseram todos os cortesãos, embora nenhum deles pudesse ver nada daquela requintada manufatura.

        "Se Vossa Majestade Imperial tiver a gentileza de tirar as roupas, nós experimentaremos o novo terno em frente ao espelho."

        O Imperador foi então despido, e os patifes fingiram vesti-lo com seu novo traje; o Imperador girando de um lado para o outro diante do espelho.

        "Como Sua Majestade está esplêndido em suas novas vestes, e como elas lhe caem bem!" exclamaram todos. "Que modelo! Que cores! Estas são, de fato, vestes reais!"

        "O dossel que será carregado sobre Vossa Majestade na procissão já está à espera", anunciou o mestre de cerimônias.

        "Estou perfeitamente pronto", respondeu o Imperador. "Minhas roupas novas me servem bem?", perguntou ele, virando-se novamente diante do espelho, para que pudesse parecer que estava examinando seu elegante traje.

        Os camareiros, responsáveis ​​por carregar o séquito de Sua Majestade, tateavam o chão como se estivessem levantando as pontas do manto e fingiam carregar algo, pois de modo algum demonstrariam simplicidade ou inadequação para o cargo.

        Então o Imperador caminhava sob seu alto dossel, em meio à procissão, pelas ruas de sua capital; e todas as pessoas que estavam por perto, e as que estavam nas janelas, exclamavam: "Oh! Como são belas as novas vestes do nosso Imperador! Que cauda magnífica a do manto; e como o lenço cai graciosamente!" Em suma, ninguém admitiria que ele não pudesse ver essas vestes tão admiradas; porque, ao fazê-lo, ele se declararia ou um simplório ou inadequado para o seu cargo. Certamente, nenhum dos vários trajes do Imperador jamais causara tanta impressão quanto esses invisíveis.

        "Mas o Imperador não está vestindo absolutamente nada!" disse uma criancinha.

        "Escutem a voz da inocência!" exclamou o pai; e o que a criança dissera foi sussurrado de um para o outro.

        "Mas ele não está vestindo absolutamente nada!", exclamou finalmente todo o povo. O Imperador ficou contrariado, pois sabia que o povo tinha razão; mas achava que a procissão devia continuar! E os senhores dos aposentos se esforçaram ainda mais para fingir que estavam segurando uma cauda, ​​embora, na realidade, não houvesse cauda alguma para segurar.

Contos de Andersen Porto, Ed. AMBAR, 2002.

 

Entendendo o conto:

01 – Como a vaidade excessiva do imperador no início da história estabelece a vulnerabilidade necessária para que o golpe dos tecelões funcione?

      A obsessão do imperador por roupas novas fazia com que ele negligenciasse suas obrigações governamentais, militares e sociais, focando toda a sua atenção e recursos no vestuário. Esse desejo desmedido de ostentação o tornou vulnerável à manipulação, pois os golpistas ofereceram algo que atacava diretamente o seu ego: um traje exclusivo com o poder de testar a capacidade e a inteligência de seus súbditos. A vaidade cega do imperador o impediu de questionar a veracidade da proposta, tornando-o uma vítima fácil do engano.

02 – Qual é o papel da suposta "propriedade mágica" do tecido na manutenção da farsa entre os ministros e cortesãos?

      A propriedade mágica — de que o tecido permaneceria invisível para pessoas incapazes de exercer seus cargos ou de caráter extremamente ingênuo — funcionou como uma chantagem psicológica. Nenhum ministro ou oficial da corte ousou admitir que não enxergava nada, pois isso significaria confessar incompetência ou tolice perante o rei e a sociedade. Dessa forma, o medo do julgamento alheio e o desejo de preservar seus privilégios forçaram todos os subordinados a mentir e alimentar o engano coletivo.

03 – Análise a reação do velho ministro ao visitar os tecelões. Por que um homem considerado "sensato e fiel" optou por mentir ao imperador?

      Ao se deparar com os teares vazios, o velho ministro entrou em conflito interno, duvidando de sua própria capacidade e inteligência. O receio de ser visto como um tolo ou de ser considerado inadequado para o cargo valioso que ocupava superou sua lealdade e honestidade para com o governante. Ele optou por mentir para proteger seu prestígio, sua autoimagem e sua posição na corte, demonstrando que o instinto de autopreservação política prevaleceu sobre a verdade.

04 – De que maneira o fenômeno da conformidade social ("efeito boiada") se manifesta na atitude da população durante a procissão?

      A conformidade social fica evidente quando toda a população, ciente da "regra" da invisibilidade do tecido, começa a elogiar efusivamente as roupas inexistentes do imperador. Ninguém queria ser o único a parecer tolo ou incapaz perante os vizinhos. As pessoas preferiram reproduzir uma mentira coletivamente aceita para se encaixarem no padrão social e não sofrerem rejeição, sacrificando a verdade do que seus próprios olhos viam em nome da aceitação pública.

05 – Qual é o significado simbólico do fato de ter sido uma criança a revelar a verdade sobre o imperador?

      A criança simboliza a inocência, a espontaneidade e a ausência das amarras e convenções sociais que corrompem os adultos. Como ainda não aprendeu a ter medo do julgamento dos outros, a temer autoridades ou a manipular a verdade para obter vantagens, a criança enxerga a realidade sem os filtros do ego e do preconceito. Sua fala sincera quebra o feitiço da ilusão coletiva, revelando a força da verdade simples em contraste com a hipocrisia do mundo adulto.

06 – Diante da revelação do povo, qual foi a atitude do imperador e o que essa atitude revela sobre o seu caráter?

      Mesmo percebendo internamente que o povo estava certo e que ele estava inteiramente nu, o imperador sentiu-se contrariado, mas decidiu continuar a marcha com ainda mais altivez. Os camareiros também continuaram segurando a cauda invisível. Essa atitude revela um caráter extremamente orgulhoso e inflexível, em que a manutenção das aparências e do poder formal é colocada acima da verdade e do ridículo. O imperador preferiu sustentar o absurdo a ter a humildade de admitir seu erro perante a nação.

07 – Que crítica social ou moral central Hans Christian Andersen busca transmitir por meio desse conto de fadas?

      Andersen critica a hipocrisia, a vaidade, a futilidade do poder e o medo irracional que as pessoas têm da opinião pública. A narrativa expõe como instituições poderosas e líderes arrogantes podem se tornar ridículos quando cercados por conselheiros aduladores que não dizem a verdade. A moral da história alerta sobre o perigo do autoengano e da complacência social, mostrando que muitas vezes a sociedade sustenta mentiras absurdas apenas para preservar aparências e hierarquias de poder.

 

CONTO: O CAÇADOR DE BORBOLETAS - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA - COM GABARITO

 Conto: O caçador de borboletas

          José Eduardo Agualusa

        Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.

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        Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos. 

        Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. 

        Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. 

        Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.

        — Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.

        A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:

        — Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…

        Vladimir esfregou os olhos:

        — Meu Deus! Estou a sonhar?

        A borboleta riu-se:

        — Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.

        — Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.

        A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):

        — Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.

        Vladimir começava a achar que ela tinha razão.

        — Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?

        A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.

        — Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.

        Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:

        — Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.

José Eduardo Agualusa. Era uma vez Revista Pais e Filhos, s/d.

 

Entendendo o conto:

01 – O que motivou Vladimir a sair para caçar borboletas e qual era a sua visão inicial sobre o ato de colecionar esses insetos?

      Vladimir ficou entusiasmado ao receber de presente de Natal um kit de caça às borboletas, composto por rede, frasco, éter, alfinetes e uma caixa de cortiça. Inicialmente, ele encarava o ato de colecionar borboletas da mesma forma que se coleccionam objetos inanimados (como selos ou moedas): uma oportunidade de juntar exemplares, preservar suas formas e até trocar itens repetidos com os amigos, sem refletir sobre o impacto da morte do animal para obter essa posse.

02 – Como o autor descreve o momento em que Vladimir avista a borboleta especial no matagal e quais foram as reações físicas e emocionais do menino?

      Ao chegar ao matagal, Vladimir escutou uma voz "de algodão doce" (doce e macia) e avistou uma borboleta colorida e luminosa como um arco-íris. A reação do menino foi a de um verdadeiro caçador diante de sua presa mais cobiçada: sentiu o ar faltar, as mãos tremerem e uma imensa alegria pela conquista iminente.

03 – Qual é o argumento da borboleta ao contar a história de Buda e como essa narrativa se relaciona com a verdadeira natureza das borboletas?

      A borboleta conta que Buda criou as borboletas lançando flores ao vento para dar alegria ao ar. Com essa metáfora, ela explica a Vladimir que a beleza das borboletas foi feita para o movimento e a liberdade ("é uma beleza para ser voada"). Prende-las e matá-las em uma caixa destrói a própria essência daquilo que as torna belas e vivas.

04 – Qual ensinamento a borboleta transmite a Vladimir sobre a posse de coisas intangíveis e belas da natureza?

      A borboleta ensina que existem coisas no mundo que não podem ser aprisionadas para serem possuídas, como o luar, a brisa de um pomar ou as estrelas. Ela propõe uma nova forma de "colecionar": admirar e contemplar os elementos em seu habitat natural (como escolher uma estrela e deixá-la no céu), compreendendo que a verdadeira posse nasce do respeito e do vínculo afetivo, e não do aprisionamento.

05 – Analise o desfecho do conto: Por que Vladimir diz ao pai que fez uma "muito boa" caçada ao mostrar o frasco vazio? O que isso revela sobre a transformação do personagem?

      Vladimir considera a caçada bem-sucedida porque compreendeu o verdadeiro valor da liberdade e da beleza da natureza. Ao mostrar o frasco vazio com orgulho e dizer que deixou fugir a borboleta mais bela do mundo, o menino demonstra ter passado por um amadurecimento moral: ele abandonou a postura possessiva de caçador/colecionador para se tornar um protetor e admirador da vida. O frasco vazio representa sua libertação da ignorância e sua conexão com o mundo vivo.