terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTO: LENDA DOS ESTREMOÇOS - GENTIL MARQUES - COM GABARITO

Conto: Lenda dos Estremoços

         O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajava um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiInzXAGAfNqfpL-VA35iZrq4WKuQFtDaVgvxx6g7_1hBGRmA5VMIeX2kr1tvSdICTaDzWWppspbBwTSJ29xl2V5xxWz1eI4INzCEmg_UvFcTUChSddxLgvoLjHDYZsQiAHNU6Q3aJwDhygqsXfkowTGJIlRbivKqAi5McQMdqU2r5N0MaBd4kHT7BPTg/s320/Estremo%C3%A7os.jpg



        De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:

        — Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!

        A mulher concordou:

        — É das mais belas que tenho visto!

        Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:

        — Mãezinha, como se chama esta árvore?

        Foi o pai quem respondeu:

        — Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!

        A criança olhou os pais. E arriscou:

        — E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…

        O homem sorriu:

        — Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos à nossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.

        A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso…

        — Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...

        O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.

        — Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!

        E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade...

        Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:

        — Com que direito entrastes nos meus domínios?

        O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:

        — E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?

        O velho bateu com o bordão na terra:

        — Sou o dono de tudo isto... de todo este plaino... Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos... das árvores que há em redor...

        — E nós somos viandantes... ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...

        O velho resmungou, num ar de suspeita:

        — Talvez assassinos… ou ladrões...

        Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu, numa vozita indignada:

        — Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...

        O senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:

        — O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!

        O viandante curvou-se:

        — É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de insultar-nos!

        Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:

        — Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!... Saireis a bem... ou à força!

        Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:

        — Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes poder para isso!

        O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.

        — Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!

        E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava — e abalou...


        Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:

        — Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?

        Mas já o marido lhe recomendava, enérgico:

        — Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força...

        Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.

        — A nossa filha?... A nossa filha onde está, que não a vejo?

        Ele inquietou-se:

        — Mas... vi-a há pouco, junto de ti!

        — Sim… enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...

        O homem rangeu os dentes:

        — Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!

        Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:

        — Tu? Aqui? Como ousaste?

        A pequenina sorriu com candura:

        — Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!

        — Falar comigo?

        Havia desconfiança na voz do velho.

        — Ah! Não será uma armadilha?

        A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.

        — Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...

        O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:

        — Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes...

        Ela mostrou-se alegre.

        — Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!...

        — Tu... a pensar? E que foi?

        — Ora... Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às outras povoações...

        Foi a vez do velho sorrir à criança.

        — Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?

        — Com boa amizade e paz.

        O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.

        — Com boa amizade e paz…

        Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.

        — Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens…

        O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.

        — Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?

        Ela sorriu, ingénua.

        — Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!

        Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:

        — Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos seremos bons amigos e companheiros!

        E nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:

        — Venho em missão de paz e amizade!

        A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:

        — Sede bem-vindo, senhor!

        Afável também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.

        — Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!

        O velho acrescentou intencionalmente:

        — Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!

        — Como?

        — De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...

        O homem interrompeu-o, perplexo:

        — O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!

        — Mas... a vossa filha disse-me...

        Houve um leve sorriso nas expressões do casal.

        — Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós… acreditastes...

        O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e receosa...

        — Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...

        Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reações dele:

        — Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse:

        Com o auxílio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro... Pois não é verdade?

        O velho voltou a sorrir.

        — Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz!

        E sublinhou, puxando-a para si com ternura:

        — Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!
        Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.

        Agora, sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara de novo a felicidade.

        E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.

        — Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!

        Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos.

        Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:

        — Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade... Qual deve ser esse nome?

        As opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:

        — Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.

        Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:

        — Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!

        Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que estavam todos maravilhados.

        E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:

        — Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia...

        Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia...

        Depois, com o correr dos tempos, tudo se foi alterando... O nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.

Gentil Marques 

Entendendo o conto:

 

01 – No início do conto, quais as circunstâncias adversas que motivaram a viagem da família e qual a importância do tremoceiro no momento em que decidem interromper a jornada?

      A família encontrava-se em fuga devido a perseguições motivadas por "ódios políticos" em sua terra natal, nos contrafortes da serra. Eles viajavam sob um sol escaldante e abrasador na planície além do rio Tejo, sofrendo com o pó do caminho, o cansaço e uma sede torturante. O tremoceiro surge nesse cenário como uma "sombra larga e acolhedora", funcionando como um verdadeiro oásis no deserto. A imponência e o frescor da árvore oferecem o alívio físico imediato que a família precisava, motivando-os a montar ali a sua tenda de campanha para se sentirem, finalmente, livres de inimigos.

02 – Ao confrontar a família na manhã seguinte, o velho proprietário demonstra hostilidade. Como a filha do casal reage a essa agressividade e de que forma essa primeira interação prefigura o papel que a criança desempenhará na história?

      Quando o velho acusa a família de ter invadido as suas terras e insinua que eles poderiam ser ladrões ou assassinos, a criança reage com extrema indignação e coragem, interrompendo-o para defender a honra de seus pais. Embora o velho responda inicialmente com ironia ("A formiga já tem catarro?"), a intervenção da menina desarma temporariamente o tom colérico do proprietário. Essa primeira interação prefigura que a criança, apesar de sua aparente fragilidade, possui uma maturidade, audácia e senso de justiça incomuns, indicando que ela seria a chave para a resolução dos conflitos futuros.

03 – Diante da iminência de um ataque armado liderado pelo velho proprietário, a criança adota uma estratégia inusitada. Explique a "mentira ingénua" que ela conta ao velho e qual era o seu objetivo real.

      Ao caminhar destemidamente em direção ao velho chefe entre os homens armados, a menina utiliza-se de uma estratégia de persuasão baseada na imaginação. Ela afirma que seu pai é um "grande construtor" e sua mãe uma excelente ajudante, sugerindo que, em vez de guerrearem, eles deveriam se unir para construir uma grande e bela povoação ao redor do tremoceiro. O objetivo real da criança era paralisar o ataque iminente e salvar a vida de seus pais, substituindo o cenário de violência por uma proposta de cooperação, paz e amizade mútua.

04 – Como o casal reage quando descobre a história inventada pela filha e como o velho proprietário lida com o fato de ter sido, de certa forma, "enganado" por uma criança?

      O casal reage com surpresa e um leve sorriso, esclarecendo prontamente ao velho que o homem é, na verdade, um fidalgo e não um construtor, justificando que a filha possui uma "imaginação prodigiosa". O velho proprietário, ao perceber que acreditou na história de uma "fedelha", mostra-se inicialmente incrédulo, mas reage de forma bonacheirão e simpática. Longe de ficar furioso, ele abraça a ideia da menina com ternura, reconhecendo que a essência da proposta — construir uma comunidade baseada na amizade e na paz — era válida e necessária, independentemente do disfarce inicial.

05 – A lenda menciona um importante marco histórico e político que impulsionou o desenvolvimento da nova povoação. Que marco foi esse e como ele alterou o status da comunidade que estava sendo erguida?

      O marco histórico e político foi a concessão do foral àquela terra por parte de El-rei D. Afonso III. O foral era um documento real de extrema importância na Idade Média, pois garantia autonomia jurídica, administrativa e privilégios aos moradores da nova comunidade. Esse ato real oficializou a existência da povoação, transformando o assentamento informal de foragidos e trabalhadores locais em uma vila formalmente reconhecida pela Coroa, o que gerou imenso júbilo, celebração e um sentimento de irmandade entre todos.

06 – Explique os argumentos utilizados pela menina para sugerir o nome de "Estremoços" para a nova terra e como o velho chefe complementou essa escolha.

      A menina sugeriu o nome "Estremoços" argumentando que a comunidade deveria homenagear a árvore (o tremoceiro) que lhes havia garantido a sombra acolhedora no momento mais difícil de suas vidas, destacando que ela foi a única companheira constante da família, junto com o Sol e a Lua. O velho chefe apoiou e complementou a escolha acrescentando uma razão prática e de sobrevivência: os frutos da árvore (os "estremoços", na linguagem popular da época) funcionaram como o "pão nosso de cada dia" para os trabalhadores durante o esforço da construção, justificando a lealdade da comunidade àquela planta abençoada.

07 – A narrativa conecta elementos lendários à realidade histórica e geográfica de Portugal. De acordo com o desfecho do texto, como a antiga "Terra dos Estremoços" se reflete na geografia e na heráldica atuais?

      A lenda explica que a herança daquela época se reflete diretamente na identidade da atual cidade de Estremoz, localizada no distrito de Évora, no Alentejo, cujo nome atual é uma evolução linguística de "Estremoços" (antiga designação popular para tremoços). Além disso, a narrativa justifica a composição do brasão original da cidade, que trazia a representação de um tremoceiro encimado pelo escudete das quinas (símbolo de Portugal) e ladeado pelo Sol e pela Lua, imortalizando graficamente os elementos naturais citados pela menina sábia na fundação da terra.

 

 

 


CONTO: VOVÓ QUER NAMORAR - FRAGMENTO - MARIA DE LOURDES KRIEGER - COM GABARITO

 Conto: Vovó quer namorar – Fragmento

        Ela estava ali, no meio da sala, miúda na cadeira alta que é ruim de sentar, porque a gente tem que ficar com as costas retinhas e aí dói, e esparramar não dá, que escorrega. Mas ela gosta de sentar justo ali e ali se encontrava ela. De vestido claro enfeitado de crisântemos, sapatos de salto. Cabelos caindo nos ombros, os reflexos de prata teimando em mostrar uma idade que só mamãe teima identificar. Joelhos juntinhos, braços cruzados, cabeça baixa. Ela, minha avó Frosina.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7xM3cJWGXxrldGfsKFL8wDczzXx11ZcCyeiJ1phTyJRk_xxym3mYqAWyPhWI8l2Rk9BVppSR_sB_7aVbtQVneZJaAi8ADKZVsh8UlxT2Yx4lSBbw5-IXLrE6n1DPBWBE7n-reKhsigfULlNEXb9RTG6OmqzgnjtevKlhBctXmI09BCbSJivz7GPx6tLc/s1600/images.jpg


        -- Eles inventaram o capricho do nome, e eu precisei carregar o ridículo pala vida.

        Eles são meus bisavós, pais dela.

        -- Era para ser de sorte, lembrando flor, mas só me deu acasos na vida – ela diz.

        Parece dormir, os olhos fechados, mas no duro estava era olhando pra dentro dela mesma, gosta de fazer assim. Espiando a vida tanta que já viveu, os sorrisos que já sorriu, as alegrias e lágrimas que espalhou ou sufocou, os sustos, os sobressaltos.

        -- É viver de novo – ela diz. – Eu gosto dos meus pedaços bons, que foram tantos, e finjo que os maus não me tocaram.

        Estendeu a mão até a mesa do telefone, ao lado. Alcançou a bolsa vermelha de couro.

        -- É cor errada – reprova mamãe. – De mocinha, não de velha de respeito.

        Provocação, provocação e meia:

        -- Então combina comigo, que não sou de respeito... [...]

        Da bolsa a vó tirou um estojo de pintura, um espelho e se examinou. Retocou o blush, que deixou mais rosado o rosto, e o batom, que lhe avisou os lábios. Mirou-se e gostou do que viu.

        Vaidosa, molhou na língua a ponta do indicador direito, passando nas sobrancelhas e nos cílios. Mamãe insiste em que isso é vergonhoso, na cidade da vó. A vó diz que então combina, que ela é toda vergonhosa – elas não vivem sem o pingue-pongue particular.

        Vó Frosina afastou um tanto o espelho, pra se conferir melhor: os olhos escuros analisaram o rosto e os frisos do cabelo, que ela consegue com um aparelho elétrico, antigo

        Guardou o espelho e o estojo na bolsa, olhou ao redor, não me percebeu atrás da cortina.

        Suspirou. Buliçosa, jamais suportou a espera que enfrenta agora: Frosina, minha avó. [...]

        Me aproximei, sentei no chão, perto da cadeira dela.

        -- Que foi, vó? A senhora está esquisita...

        Ela contornou com o indicador direito a raiz dos meus cabelos, um carinho bem dela. Suspirou.

        -- Luci já voltou?

        Neguei. Vó cansa de saber que mamãe chega do consultório só depois das sete, e eram cinco e meia.

        -- Ela não vai gostar. Reprova o que faço, porque o que faço não combina com a ideia dela de uma mãe com quase setenta anos. [...]

        Vó desceu a cabeça até a minha.

        -- Marquei encontro. Com um homem. Estou esperando por ele. [...]

        Eu teria aguentado, se ela tivesse contado que: estava planejando assaltar um banco; fizesse parte de um grupo de grafiteiros; fosse a responsável pela crise econômica do país.

        Mas um homem! Minha avó esperando um homem, e tão produzida!

        Pra mostrar que, naquela tarde, estava toda novidadeira, vó largou:

        -- É um gato. Com toda a idade, gatíssimo, como vocês dizem. Tem outras aí de olho nele. Mas cheguei primeiro... – Seus olhos maliciavam, divertidos.

        Por que uma avó, de cabelos brancos, tão cheia de idade – só nos olhos agarrando um brilho jovem –, inventa ilusões? Eu ouvia minha mãe:

        -- Mulher de respeito, ainda por cima viúva, é pra bordar, fazer crochê e doces. Acarinhar um pouco os netos, lembrar o passado, rezar.

        Certamente não pra acalentar esperanças próprias de futuro – não chegando aos setenta!

        Vai dizer isso pra vó Frosina!

        -- Velha é pra usar roupas escuras, quem sabe alguns rabiscos de cor, umas florzinhas, tudo muito discreto. Pra usar cabelo atrás, preso em caracol, sem vaidades. É pra ter um rosto de ninguém perceber direito.

        Vai dizer isso pra vó Frosina!

        Mãe foi e disse. Ou não disse: adiantou? Vó às vezes resmunga:

        -- Tanto estudo, ser médica-doutora pra quê?

        E mãe sabe que teimar é batalha perdida.

        -- Ele falou que viria às cinco.

        -- A mãe vai saber...

        -- Não, se guardarmos segredo, não acha? Antes das sete ele terá ido embora.

        Olhei o meu relógio.

        -- Vai ver, ele esqueceu a hora.

        Vó Frosina riu.

        -- Nessa idade, não dá mesmo pra lembrar tudo. Mas ele aparece, eu sei.

        Emocionei com o vermelho que pintou no rosto dela. Me fez pensar na outra vó Frosina, que conheci no álbum de família.

Maria de Lourdes Krieger. Vovó quer namorar. São Paulo, FTD, 1997.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 170-172.

Entendendo o conto:

01 – No início do texto, como a avó Frosina reage em relação ao próprio nome e qual justificativa ela dá para esse sentimento?

      Vó Frosina considera o próprio nome "um ridículo" que precisou carregar pela vida inteira, fruto de um "capricho" de seus pais (os bisavós do narrador). Ela justifica esse sentimento explicando que, embora o nome tenha sido escolhido para lhe trazer sorte por lembrar uma flor, ele acabou lhe trazendo apenas "acasos na vida".

02 – O narrador descreve um hábito que a avó tem quando parece estar dormindo de olhos fechados. Que hábito é esse e como ela mesma o define?

      Quando está de olhos fechados, a avó na verdade está "olhando para dentro dela mesma", espionando e relembrando a longa vida que já viveu, com seus sorrisos, alegrias, lágrimas e sustos. Ela define esse hábito como um ato de "viver de novo", no qual ela prefere focar nos inúmeros pedaços bons e fingir que os momentos ruins não a tocaram.

03 – Há um conflito geracional claro entre a mãe do narrador (Luci) e a avó Frosina. De que maneira a bolsa vermelha de couro simboliza esse embate?

      A bolsa vermelha simboliza a quebra das expectativas sociais sobre a velhice. A mãe reprova o acessório por achar que a cor vermelha é "de mocinha" e inadequada para uma "velha de respeito". Em contrapartida, a avó usa a bolsa como provocação, assumindo uma postura bem-humorada e rebelde ao responder que, justamente por não ser "de respeito", a bolsa combina perfeitamente com ela.

04 – Quais são os rituais de vaidade que a avó Frosina realiza enquanto se avalia no espelho antes do seu compromisso?

      Vó Frosina retoca o blush para deixar o rosto mais rosado e passa batom para destacar os lábios. Além disso, ela molha a ponta do dedo indicador na língua para alinhar as sobrancelhas e os cílios, e utiliza um aparelho elétrico antigo para fazer frisos (ondas/penteado) em seus cabelos.

05 – Qual é a grande revelação que a avó faz ao narrador e qual é a reação inicial dele diante dessa notícia?

      A avó revela que marcou um encontro amoroso com um homem e está esperando por ele. O narrador reage com extremo espanto e perplexidade; ele afirma que teria aguentado mais facilmente se ela contasse que planejava assaltar um banco, fazer parte de grafiteiros ou ter causado a crise econômica do país, demonstrando o quão impactante e fora do comum foi ver sua avó agindo daquela forma por causa de um homem.

06 – Segundo o pensamento da mãe do narrador, qual seria o papel social e o comportamento esperado de uma "mulher de respeito" e viúva de quase setenta anos?

      De acordo com a visão da mãe, uma mulher nessa idade deveria ter uma postura extremamente discreta e voltada ao lar. Esperava-se que ela usasse roupas escuras ou com estampas muito discretas, mantivesse o cabelo preso em um caracol sem vaidades, e ocupasse seu tempo bordando, fazendo crochê, preparando doces, rezando, lembrando o passado e acarinhando os netos, sem alimentar novas esperanças de futuro.

07 – Apesar do atraso do homem com quem marcou o encontro (já eram cinco e meia e ele havia marcado às cinco), como a avó reage à situação e o que isso revela sobre a sua personalidade?

      Diante do atraso, a avó reage com bom humor e leveza, rindo e comentando que "nessa idade, não dá mesmo pra lembrar tudo", mas demonstrando total confiança ao afirmar "mas ele aparece, eu sei". Essa reação revela que ela possui uma personalidade otimista, segura de si, paciente e que encara as limitações da velhice sem amargura ou desespero.

 

CORDEL: CARTILHA DO POVO - FRAGMENTO - RAIMUNDO SANTA HELENA - COM GABARITO

 Cordel: Cartilha do Povo – Fragmento

           Raimundo Santa Helena

Ninguém nasceu neste mundo

Pra sofrer e virar Santo

Deus nos fez para gozar

Mais do que derramar pranto

Mas na panela do povo

Só tem farofa de ovo

Quando almoço não janto.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5jp_FHL-G11_XttepX_dxQyScecWx5IHwTDM4NKV_injnWYN_uzjQfFfHpMRmbH5JUV6leob0tpBh4cg064TyqPKqpIyCTsd8LhQff7-SXsDtf5vIqkG7mZRe8dXZzFvo_7jAxbrGNyuH_1M1jcUHLyOSl1UP7ctghB_Fy9h_fVxKo4VC9-VUDB1FWo8/s1600/images.jpg


E todo trabalhador

Ao teto vai ter direito

Um salário compatível

Pelo que faz ou foi feito

Quem lavrar terra é dono

Não haverá abandono

Para quem tiver defeito.

[...] 

Do progresso brasileiro

O povão não usufrui

Embora com seu suor

É o que mais contribui

Mas num regime que suga

O honesto que madruga

Nada que preste possui.

 

Ninguém aguenta mais

Abrangentes privações

Estrangeiros controlando

No Brasil nossas ações

Vamos revirar as normas

Decretar nossas reformas

A partir das eleições.

[...] 

Queremos Democracia

Plena e Constituinte.

Não queremos o menor

Vivendo como pedinte

O BNH dos nobres

Deve se virar pros pobres

Queremos mais o seguinte:

[...] 

Nosso povo apoiado

Na vida de mutirão

E queremos a mulher

Com mais valorização

Nosso meio ambiente

Puro como lá se sente

Nas florestas do sertão.

[...] 

Que haja maior respeito

Pelos grupos raciais

Também pelas minorias

Porque nós somos iguais

Um ensino democrático

Humano moderno prático

Justiça nos tribunais.

[...]

Nenhum Governo respeita

Povão que é desunido

O Lobo vira Senhor

Do cordeiro encolhido

Quem não se junta perece

Mas quem se une merece

Um viver evoluído.

[...]

Raimundo Santa Helena. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 203.

Entendendo o cordel:

01 – Na primeira estrofe, o autor faz um contraste entre o plano divino para a humanidade e a realidade material do povo trabalhador. Como esse contraste é construído e qual expressão popular ilustra a escassez vivida por eles?

      O contraste é construído ao afirmar que Deus criou o ser humano para gozar da vida e não para sofrer ou derramar pranto. No entanto, a realidade material contraria esse plano divino devido à pobreza. A expressão que ilustra essa escassez é "Quando almoço não janto", que, somada à "farofa de ovo" na panela, sintetiza a situação de insegurança alimentar e a falta de recursos básicos.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico aborda a contradição entre a força de trabalho e a divisão das riquezas no país. Segundo o texto, por que o trabalhador honesto "nada que preste possui"?

      O trabalhador não possui bens de qualidade porque o país vive sob um "regime que suga" o cidadão. O texto aponta a injustiça social de que, embora o "povão" seja quem mais contribui para o progresso brasileiro por meio do seu suor e de madrugar para trabalhar, ele é excluído dos benefícios desse desenvolvimento, não conseguindo usufruir daquilo que produz.

03 – O cordelista manifesta um forte desejo de soberania nacional e mudança política. De acordo com a quarta estrofe, quem está controlando as ações no Brasil e qual é o mecanismo proposto pelo autor para alterar essa situação?

      De acordo com o texto, são os "estrangeiros" que estão controlando as ações dentro do Brasil, gerando privações que a população não aguenta mais. O mecanismo proposto pelo autor para mudar essa realidade, revirar as normas e decretar as reformas necessárias é a via democrática e institucional, especificamente através do voto nas "eleições".

04 – Nas estrofes centrais, o autor lista uma série de bandeiras e direitos sociais necessários para uma "Democracia Plena". Quais são as demandas apresentadas pelo eu lírico no que diz respeito à moradia, ecologia e igualdade social?

      No âmbito da moradia, ele exige que o BNH (Banco Nacional da Habitação, historicamente voltado aos nobres) seja direcionado para os pobres e que o menor não viva como pedinte. Na ecologia, demanda a preservação do meio ambiente puro, como as florestas do sertão. Já na igualdade social, defende a valorização da mulher, o respeito aos grupos raciais, às minorias e a garantia de que todos sejam tratados como iguais.

05 – Na última estrofe, o poeta utiliza a metáfora do "Lobo" e do "cordeiro". Qual é a lição moral que essa comparação transmite sobre a importância da organização popular frente aos governantes?

      A metáfora do "Lobo" (que representa os governantes opressores ou o poder instituído) e do "cordeiro encolhido" (que representa o povo acuado) serve para alertar que nenhum governo respeita uma população desunida. A lição moral é a de que a passividade e o isolamento levam à opressão ("quem não se junta perece"), enquanto a união do povo é a única ferramenta capaz de conquistar o respeito e um "viver evoluído".

 

CRÔNICA: A HORA CERTA - FRAGMENTO - OLAVO ROMANO - COM GABARITO

 Crônica: A hora certa – Fragmento

            Olavo Romano

        Maria Joana saiu da banda de fora da casa, olhou o céu, reparou na altura do Sol e disse pra filha:

        -- Já passa das três. Larga isso aí e refoga o arroz, senão vai atrasar a janta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg1EGEb8ffYC92_3k5_-a5cpbXmG2GGBrzbTqklV0DP2rMRdHhU_DDHnhOqHFqiPT4dGL3_ktKT1WvKID65OFQ_k8XPX5A9vnm7JFoQMILnLMWaeTEfSQuNAASyZtt4d4IufYHOD6pJkJ-2-U7YXklmxzPW1CfQt6c03u-w9h5G-jNSxjKspBkiGJY5ZdY/s1600/SOL.jpg


        Nico brincava no terreiro-da-horta. Parou de tocar o carrinho de boi de sabugo e perguntou: –  Mãe, comé que a gente vê as hora pelo Sol?

        -- É fácil, uai. Questão de prática.

        O menino cresceu vendo a mãe medir o tamanho do dia pelo comprimento de uma sombra, pela altura do Sol nos dias mais claros ou só pelo jeitão quando o tempo ficava brusco [escuro, fechado].

        Rapazinho, Nico Pereira desistiu de aprender aquela arte da mãe. Virou foi catireiro. Excomungado de esperto, a fama correu mundo [...] O povo usava comentar: – “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever. Aí ninguém ia poder com ele”.

        No começo, Nico cismou com animal. Cada hora montado num, trocava aquele por outro mais bonito, ficava todo intimado, com pose de fazendeiro forte, boiadeiro rico. Depois, parece coisa que enfarou, principiou lembrar do tempo de menino, recordar o velho Tertuliano, dono da fazenda onde foi criado.

        Aa coisa mais bonita que sempre achou no velho não era a barba branca, compridona. [...] Era o relógio de bolso, que ele puxava dum jeito todo especial, destampava, olhava assim meio de banda, via as horas, depois tornava a tampar. [...]  

        O Nico não queria saber de outra coisa. Vivia especulando, indaga daqui, indaga dali, não sossegou enquanto não apanhou [comprou] um relógio de bolso. Não era um patacão dourado, igual do velho Tertuliano, aquilo não era pro seu bico. Achou um Omega prateado, de duas tampas, bem conservado. Antes de fechar negócio, pegou o relógio com pose de entendido, abriu a primeira tampa, reparou no mostrador, um ponteiro maior e um menor, achou uma beleza o ponteirinho de segundo correndo disparado, os outros dois a gente nem via mexer. Depois abriu a segunda tampa, lá dentro o maquinismo movimentava parecendo fervura.

        Não demorou muito, todo mundo sabia daquele novo capricho do Nico Pereira. E o povo, sabe como é, tem lá sua maldade: logo descobriram que o Nico, aquela farrona toda [aquele contador de vantagens], nem olhar as horas sabia.

        Foi a conta. No primeiro domingo de missa, o arraial assim de gente, cada hora chegava um:

        -- Nico, vi falar que ocê tá de relógio novo?

        -- É devera. Uma beleza de relógio.

        Aí um outro, já combinado, perguntava:

        -- Falar nisso, quantas horas?

        Nico virava pro sujeito e devolvia a pergunta:

        -- Calcula?

        O interessado media a altura do Sol, pensava um pouco e respondia:

        -- Pode ser umas duas e meia, mais ou menos?

        Só então Nico abria o relógio, olhava sério e informava:

        -- Acertou. É duas e meia, exatinho.

        Aquilo funcionou bem com o primeiro, o segundo, o terceiro. Mas de repente o tempo começou a fechar, o céu escureceu, o Sol sumiu. Nico preocupou, resolveu escafeder, exalar do meio do povo. Não conseguiu. Foi pego pelo braço, mais um sujeito querendo saber as horas. Tentou sair correndo, disse que tinha pressa, ia fechar um negócio, depois informava as horas. O moço bateu o pé, insistiu. Apertando, Nico falou:

        -- Adivinha!

        Fazendo de nervoso, o rapaz disse:

        -- Adivinhar como? Deitei tarde, no maior pileque, acordei agora mesmo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Ainda por cima, esse dia feio, eu nem sei se é de manhã ou de tarde... Falam que ocê anda de relógio novo, pra que serve esse troço, afinal? Quem sabe ocê não sabe é olhar as hora?

        No mesmo instante Nico meteu a mão no bolso, tirou o relógio, destampou e ficou olhando o ponteirinho de segundo. Depois levou o relógio ao ouvido e, então, informou:

        -- As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!

Olavo Romano. Minas e seus casos. São Paulo, Ática, 1984.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 32-33. Unidade 4 – Orientações Específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, vemos Maria Joana determinando as horas pela observação do céu e do Sol, uma habilidade que o texto chama de "arte". Como essa forma tradicional de medir o tempo se contrasta com o desejo posterior de Nico Pereira de possuir um relógio de bolso? O que esse relógio representava para ele?

      O contraste se dá entre o saber tradicional/rural — baseado na observação direta da natureza e na experiência prática ("questão de prática") — e a modernidade urbana, representada pelo relógio mecânico. Para Nico, o relógio de bolso não era um instrumento utilitário para saber as horas (já que ele sequer sabia lê-las), mas sim um símbolo de status, poder e prestígio. O objeto remetia à figura do velho Tertuliano, o rico dono da fazenda de sua infância, funcionando como um sinal de ascensão social e vaidade.

02 – O povo comentava sobre Nico: “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever.” Explique a ironia contida nessa fala e como o comportamento de Nico ao comprar o relógio confirma ou contradiz essa fama de "esperto".

      A ironia reside no fato de Nico ser extremamente astuto nos negócios ("excomungado de esperto" como catireiro) mesmo sendo analfabeto. No entanto, o episódio do relógio contradiz parcialmente sua fama de esperteza absoluta, pois sua vaidade o faz cair em uma armadilha óbvia criada pelo povo. Ao comprar um objeto que não sabe usar apenas para ostentar, Nico deixa sua vulnerabilidade e ingenuidade social expostas, permitindo que a comunidade brinque com seu orgulho.

03 – Quando as pessoas no arraial começam a lhe perguntar as horas, Nico utiliza uma estratégia específica para não ser desmascarado. Explique como funcionava esse "truque" de Nico e por que a mudança nas condições climáticas (o tempo fechar) arruinou o seu plano.

      O truque de Nico consistia em devolver a pergunta ao interlocutor dizendo "Calcula?". A pessoa, então, olhava para o Sol, estimava a hora e respondia. Nico apenas abria o relógio e fingia confirmar a estimativa, dizendo que estava "exatinho". Essa estratégia dependia totalmente da natureza: quando o céu escureceu e o Sol sumiu, as pessoas perderam a referência visual para estimar o tempo. Sem o palpite dos outros, Nico ficou sem ter como inventar ou confirmar a hora, sendo desarmado pelo próprio clima.

04 – A crônica de Olavo Romano é rica em marcas de oralidade e expressões regionalistas. Identifique pelo menos três exemplos dessas marcas no texto (palavras ou expressões) e explique qual é o efeito que esse tipo de linguagem causa na narrativa.

      Exemplos de marcas de oralidade e regionalismo no texto incluem: "uai", "comé que", "devera", "exalar do meio do povo" (fugir), "pileque" e "tá freveno" (está fervendo). O efeito desse tipo de linguagem é conferir autenticidade e proximidade à narrativa, ambientando o leitor diretamente no universo caipira/interiorano de Minas Gerais. Isso humaniza as personagens e aproxima o leitor do ritmo e do tom de uma história contada "boca a boca".

05 – No clímax da crônica, pressionado por um rapaz em um dia nublado, Nico Pereira dá uma resposta surpreendente: "As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!". Analise como essa resposta constrói o humor da crônica e salve o orgulho do personagem.

      O humor é construído pela resposta absurda e espirituosa de Nico, que subverte a lógica do uso de um relógio. Ao invés de admitir que é analfabeto e não sabe ler os ponteiros, ele usa uma metáfora visual baseada no movimento rápido do ponteiro dos segundos e no barulho do mecanismo interno (que ele já achava parecido com "fervura"). Com essa saída cômica e rápida, Nico tenta "sair por cima" e desviar o foco de sua ignorância, mostrando que, embora não saiba as horas, sua malícia e rapidez verbal continuam afiadas.