Conto: As areias da Enseada
Salustiano Souza
O
ônibus riscava o asfalto com seus faróis acesos e na minha imaginação ia muito
veloz. Eu olhava embevecido a mata que recobria as margens da rodovia, as
poucas casas que povoavam Araquari e o céu que começava a tingir-se de
alaranjado, prenunciando mais um dia ensolarado no verão.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbUFxMPfdzN6GySJzq-e1tZ4OmGl_p3AeyLZORpQlzvZ4k4Uc1lCjEW5XBfxuwFEF90UPkAN6BdbpdtJEE8emHtUBXSV8U1hiVHUY1ZT0ebsy_jNifAMcn6gIcgpm87Kx8yX-scEhURjjEX28-TbW3GcOUdZ6ZxzyNW_n9SYxpXlfiUsMYnz8PEFMjypk/s320/images.jpg
O
ônibus parou na fila de carros e todos se levantaram. Olhamos com curiosidade o
trem que atravessava a pista, fiquei contando os vagões, na época ainda havia
vagões de passageiros, mas naquela hora estavam vazios. O pessoal estava
animado, as cestas, caixas e bolsas rolavam pelo corredor nas freadas bruscas e
manobras radicais, denunciando que o Beca, motorista maluco que levava os alunos
para a Escola Técnica Tupy, era mesmo maluco.
Sentia
um pouco de sono, afinal eu me levantara várias vezes na noite para espiar o
céu, com medo de perder a hora e com uma ansiedade incomum. Tinha pouco mais de
treze anos, estava começando o curso de mecânico ajustador no Senai e com um
misto de alegria e ansiedade aceitara o convite para a excursão da família de
um amigo de lá, o Dagoberto, para passar o domingo na praia da Enseada. O
ônibus ia lotado, todos os parentes do Dagoberto estavam lá, uma grande festa.
Sonhos
espocaram nas noites que antecederam a partida. Eu praticamente não conhecia
praia, apesar de morar em Joinville. Lembranças do mar tinha pouco, algumas
parcas passagens por Barra Velha onde via o espetáculo do mar descortinar-se na
descida do morrinho e uma vez em Balneário Camboriú, levado pela mão de meu
pai, olhando com inveja as crianças que brincavam na areia. Queria molhar os
pés, mas ele não deixou. E nem televisão tínhamos para mitigar o desejo que
tanto me fascinava de ver o mar.
Por
isso o sonho agora era mais intenso, o desejo mais incontido. Me imaginava
correndo na areia da praia, chutando a água, exatamente como vira as crianças
fazerem, há muitos anos atrás. Antes de dormir naquela noite acalentei o último
sonho que antecede a realização de um desejo. Acordei muito cedo e às cinco e
meia da manhã cheguei de bicicleta na frente da casa deles, lá no Itaum. O
cheirinho do café misturava-se com a algazarra da família se reunindo.
O
sol agora nascia soberbo, espelhando-se nas águas plácidas do canal do
Linguado. A mãe do Dagoberto distribuía orelha de gato. Humm, uma delícia. De
repente um estranho barulho, um pneu furou. Quase todo mundo desceu, não tinha
muita gente para ajudar, mas para dar palpites estava cheio. Olhei com
interesse uma prima do Dagoberto, afinal a puberdade transpirava por todos os
poros. Senti que seus olhos fugidios manifestaram interesse.
A
viagem recomeçou e eu comecei a dividir meus sonhos de ver o mar com os sonhos
de conhecer melhor aquela garota.
--
Chegamos em São Francisco, gritou alguém quando fizemos a curva e entramos no
Bairro Laranjeiras. Olhei para a janela, procurando o mar, mas só via casas e
árvores.
--
Cadê o mar, perguntei, e todos riram.
--
Calma menino, mais meia hora e nós chegamos, falou uma das mulheres.
Logo
à frente, a polícia, ao lado da igreja, parou o ônibus. Examinou documentos,
conversou com o Beca e fez pouco caso da minha impaciência. Liberou o ônibus,
não sem antes ganhar umas orelhas de gato da mãe do Dagoberto.
Nunca
imaginara que a praia pudesse ser tão longe. Mais mato, mais asfalto, e por fim
um pedaço de estrada de chão.
--
A praia, ouvi o grito quando já saboreava as nesgas de mar que apareciam no
meio das árvores. Na Enseada da minha infância havia uma ou outra casa esparsa,
porque os prédios vieram anos depois. A praia era quase selvagem.
Mal
parou o ônibus eu corri para água. Na pressa esqueci de tirar o único tênis que
tinha, um kichute, e a calça boca sino. Parei com água nas canelas, as ondas
brincando de molhar meus joelhos, o olhar embevecido não conseguia abarcar
aquela imensidão de água. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer, aquele
movimento das ondas marulhando no encontro com a areia, ah, aquilo era divino.
Fechei
os olhos e lembrei do poema de Casimiro de Abreu, Deus. Como havia sonhado com
aquele momento! A alegria era imensa, não sabia o que fazer, fiquei ali,
extasiado, com um sorriso abestalhado, vendo o sol dançar em miríade de cores
naquela efervescência de ondas.
--
Vem! falou a prima do Dagoberto, pegando na minha mão. – Vai colocar um calção!
Salustiano Souza. Fevereiro/2015.
Entendendo o conto:
01 – Qual era o
principal motivo da ansiedade e da insônia do narrador na noite anterior à
viagem?
O narrador
estava extremamente ansioso porque teria a oportunidade de passar o domingo na
praia da Enseada. Apesar de morar em Joinville, ele praticamente não conhecia o
mar (tinha apenas lembranças vagas de infância) e não tinha televisão em casa
para saciar seu desejo de vê-lo. Por isso, passou a noite acordando para olhar
o céu, com medo de perder a hora.
02 – Quem era
Dagoberto e como o narrador se juntou àquela excursão?
Dagoberto era um
amigo do narrador, colega do curso de mecânico ajustador no Senai. O narrador,
que na época tinha pouco mais de treze anos, aceitou o convite da família de
Dagoberto para se juntar a eles em um ônibus lotado de parentes para a viagem
de domingo.
03 – Quem era
"Beca" e como o seu comportamento no volante é descrito no conto?
Beca era o
motorista do ônibus, conhecido por também levar os alunos para a Escola Técnica
Tupy. Ele é descrito de forma bem-humorada como um "motorista maluco"
que fazia "freadas bruscas e manobras radicais", fazendo com que as
cestas, caixas e bolsas da excursão rolassem pelo corredor do veículo.
04 – Que quitute a
mãe de Dagoberto distribuiu durante a viagem e em qual momento ele serviu como
uma "moeda de troca"?
A mãe de
Dagoberto distribuía orelha de gato (um doce frito tradicional). Além de ser
saboreado pelos passageiros durante a parada para trocar o pneu furado, o
quitute foi usado para agradar os policiais que pararam o ônibus para examinar
os documentos ao lado da igreja, ajudando na liberação da viagem.
05 – Além do desejo
de ver o mar, que outro interesse surge no coração do narrador durante o
trajeto?
Durante a parada
para consertar o pneu furado próximo ao canal do Linguado, o narrador, que
estava no início da puberdade, nota o interesse mútuo nos "olhos
fugidios" de uma prima de Dagoberto. A partir dali, ele passa a dividir
seus pensamentos entre o sonho de ver o mar e o desejo de conhecer melhor a
garota.
06 – Como era a
paisagem da praia da Enseada na época da infância do narrador, segundo o
relato?
A praia era descrita como "quase selvagem". Naquela
época, a Enseada tinha apenas uma ou outra casa esparsa na orla, bem diferente
do cenário atual, já que os prédios e a urbanização só vieram muitos anos
depois.
07 – Tomado pela
emoção ao chegar, que descuido o narrador cometeu ao correr para a água e quem
o "desperta" daquele transe?
Devido à imensa
pressa e ao êxtase de finalmente ver o mar, o narrador correu para a água
esquecendo-se de tirar a calça boca de sino e o seu único par de tênis (um
kichute). Quem o desperta daquele estado de transe e contemplação é a prima de
Dagoberto, que pega na mão dele e diz: “Vem! Vai colocar um calção!”.