segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA: CORDÃO DOS COME-SACO - STANISLAW PONTE-PRETA - COM GABARITO

 Crônica: Cordão dos come-saco

Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto)

 

         Em Londres, que ultimamente não tem sido uma capital das mais britânicas (ou talvez os britânicos é que não sejam tão londrinos assim, sei lá), vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem. Até aí, tudo normal, como dizem os anormais. Há, no entanto, uma nova indústria que se fará representar nessa exposição que está causando a maior curiosidade: a dos sacos comestíveis.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVNO-m4Xvi4NvSLxVs04dX_u_UCyjtbPwg-i09MTsxYWVE4WTxPTbHPAS4AyvXWwQHFHfk03TEbEd2itTKjWcNkcCNCYaZ4tR1Rfgk9MR_q-X5lR7aiag6eGguaYPwllWQAtU-luJUG1LNqyZE-keCeIncBqrwSzEhwIoax3C4b6cd_vCTJ3l_lLDznkU/s320/2001_Pack-Expo_banner-1024x427.jpg


         Como, minha senhora, de quem é que é o saco? Calma, madama, eu já chego lá. A indústria foi inspirada na salsicha e isto dito assim fica meio sobre o jocoso, mas torno a explicar que, com vagar, se chega ao saco. É o seguinte: não sei se vocês já repararam que as salsichas, ultimamente, não têm mais aquela pele indigesta que a gente comia antigamente e ficava trocando seu reino por um bicarbonato. Hoje em dia, a pele das salsichas é fininha e a gente come sem o menor remorso estomacal posterior.
           Pois essa pelinha, irmãos, é de matéria plástica comestível. Foi inventada por um Thomas Edison das salsichas e aprovou num instante. E baseada nessa aprovação é que uma fábrica de embalagens estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida das mercearias para o lar, capazes de serem também comidos, isto é, um saco de matéria plástica parecida com a das salsichas, que seriam vendidos aos armazéns e utilizados pelos fregueses para transportar a mercadoria comprada. Entenderam, ou tem leitor retardado mental?
           Agora, que fica bacaninha, isto fica. Num instante vão aparecer os estetas dos refogados, para melhor aproveitamento do saco. As Myrthes Paranhos do mundo inteiro vão publicar receitas de como se prepara um saco de matéria plástica para o almoço e os jornais, nas suas seções dominicais de culinária, terão títulos como este: "Saquinho de siri", "Saco au champignon", "Saco à la façon du chef", etc., etc.
            E parece até que aqui o neto do Dr. Armindo está vendo uma dessas grã-finas, sempre mais preocupadas com o aspecto exterior do que com o aspecto interior, fazendo um rigoroso regime alimentar e dizendo para a empregada, quando esta volta do mercadinho com as compras:
               _ Para mim não precisa preparar almoço, não. Eu como só o saco.
(Stanislaw Ponte Preta - Rosamundo e os outros)

 Entendendo o texto

 01. Qual é o fato internacional que serve de pretexto para o autor iniciar sua crônica?

a) O lançamento de uma nova marca de salsichas britânicas.

b) Uma convenção de etiquetas e bons modos em Londres.

c) A inauguração de uma exposição internacional de embalagens. d) Uma crise econômica que obrigou os ingleses a comerem plástico.

e) A invenção de um novo tipo de bicarbonato de sódio na Europa.

02. Segundo o narrador, qual foi a "inspiração" para a criação dos sacos plásticos comestíveis?

a) As antigas peles de salsicha que causavam indigestão.

b) As novas películas finas e comestíveis usadas nas salsichas modernas.

c) O hábito das "grã-finas" de fazerem dietas rigorosas.

d) Uma técnica antiga de transporte de mercadorias em armazéns. e) Os estudos de Thomas Edison sobre polímeros sintéticos.

 

03. O autor utiliza uma linguagem marcadamente coloquial e irônica. Qual trecho exemplifica essa interação direta e humorística com o leitor?

a) "vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem."

b) "é de matéria plástica comestível."

c) "Entenderam, ou tem leitor retardado mental?"

d) "capazes de serem também comidos..."

e) "estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida..."

 

04. Ao mencionar a expressão "trocando seu reino por um bicarbonato", o autor faz uma alusão humorística para indicar que: a) A pele das salsichas antigas era muito saborosa e valiosa.

b) As salsichas eram artigos de luxo consumidos apenas pela realeza.

c) O mal-estar estomacal causado pela pele da salsicha era tão grande que a pessoa daria tudo por um remédio.

d) O bicarbonato era a moeda de troca oficial nos armazéns de antigamente.

e) A monarquia britânica foi a responsável por popularizar a salsicha indigesta.

 

05. No desenvolvimento do texto, o narrador prevê que a novidade dos sacos comestíveis causará um impacto na culinária. Segundo ele, isso ocorreria através de:

a) Críticas severas dos chefs de cozinha contra o uso de plástico na comida.

b) A substituição total das carnes por embalagens sintéticas.

c) Publicações de receitas exóticas e "chiques" utilizando o saco como ingrediente principal.

d) A proibição de vender sacos plásticos em mercearias e armazéns.

e) Cursos de culinária obrigatórios para as empregadas domésticas.

 

06. A conclusão da crônica apresenta uma sátira social voltada para qual grupo de pessoas?

a) Os cientistas ingleses que inventam tecnologias inúteis.

b) Os donos de armazéns que cobram caro pelas embalagens.

c) Os garçons e cozinheiros que não aceitam inovações.

d) As "grã-finas", ironizando sua preocupação excessiva com a aparência e dietas.

e) Os operários das fábricas de plástico que não têm o que comer.

 

07. O título "Cordão dos come-saco" e o desfecho do texto reforçam o estilo de Stanislaw Ponte Preta, que consiste em:

a) Escrever textos científicos sobre avanços da indústria química.

b) Produzir manuais de instrução para o uso de novas embalagens. c) Utilizar o absurdo e o duplo sentido para ridicularizar comportamentos sociais.

d) Defender o uso de materiais biodegradáveis para preservar o meio ambiente.

e) Fazer uma propaganda séria e elogiosa sobre os costumes londrinos.

 

 

CRÔNICA: ACABARAM COM A NOSSA LETRA - MÁRIO PRATA - COM GABARITO

   Crônica:  Acabaram com a nossa letra

                    Mário Prata

          Faço as minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A mocinha:

       _ Pode deixar que a máquina faz isso!

           Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.

        _ Faço questão de eu mesmo preencher.

           E preenchi.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgeKHlXw4L1We-NflFCfUEoKIQTt4w0CQMU62K0j_-KVpmn0bvDFDe6KRAFXk1i5m9k3L6nM6nKneA9AVZnpAbImGgWdo0Uel97TlHZNjthb73PvA3-A_fXEQFv_HluhiZZj4GSzOBsSoRjA5TCZN5vEfIfqxU6ecfoBWNUu1743ITxfJSUWO5jN3t6Fy0/s320/CHEQUE.jpg


        A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.

       Você já notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.

         E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.

            Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo? 

                Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?

                Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte 

trabalhada duramente durante anos e anos.

            O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?

                 Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?

                Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas   para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.

               Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.

           Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?

                Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.

                 Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.

                 E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.

                    Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.

                                                  Crônica de autoria de Mario Prata. In: O Estado de S. Paulo, 12/11/1997.

 

Entendendo o texto

 01. No início do texto, o que motiva a reflexão do narrador sobre a perda da escrita à mão?

a) O fato de ele ter esquecido como se escreve o próprio nome.

b) A tentativa de uma funcionária de supermercado de preencher seu cheque com uma máquina.

c) A dificuldade de entender a letra de um médico em uma receita. d) O recebimento de uma fatura de cartão de crédito impressa.

e) A obrigatoriedade de usar computadores em seu trabalho como escritor.

 

02. Como o autor descreve o aprendizado da escrita em sua época de escola (curso primário)?

a) Era um processo livre, onde cada aluno desenvolvia seu próprio estilo desde cedo.

b) Era focado apenas na digitação em máquinas de escrever antigas.

c) Era rigoroso, utilizando cadernos de linguagem com linhas subdivididas para padronizar a letra.

d) Era opcional, pois a maioria das crianças já preferia usar calculadoras.

e) Era baseado em desenhos e pinturas, sem preocupação com a forma das letras.

 

03. Qual é o sentimento predominante do narrador ao constatar que a escrita manual está desaparecendo?

a) Entusiasmo com a agilidade proporcionada pelas novas máquinas.

b) Indiferença, pois ele acredita que a tecnologia sempre melhora a vida.

c) Alívio, por não precisar mais usar cadernos de caligrafia.

d) Tristeza, como se uma parte de sua própria identidade estivesse indo embora.

e) Ansiedade para aprender a usar os novos notebooks escolares.

 

04. Ao mencionar o "correio-elegante" e os "cartõezinhos de flores", o autor sugere que:

a) A escrita à mão deveria ser abolida até mesmo em situações românticas.

b) A tecnologia tornará as conquistas amorosas muito mais fáceis e rápidas.

c) A letra confusa ou a falta da escrita manual podem afetar a expressão de sentimentos e o romantismo.

d) O correio eletrônico (e-mail) é idêntico ao correio-elegante das quermesses.

e) Ninguém mais se interessará por flores no futuro próximo.

 

05. O autor utiliza o termo "países mais metidos a besta" para se referir a:

a) Países que proíbem o uso de tecnologia em restaurantes.

b) Países do chamado "Primeiro Mundo", onde a informatização já chegou até aos garçons.

c) Países que ainda preservam a tradição da caligrafia artística.

d) Cidades do interior que mantêm as quermesses e o jogo do bicho.

e) Sociedades que valorizam a escrita manual acima de tudo.

 

06. No trecho "Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando", o autor estabelece uma relação entre:

a) A facilidade tecnológica e o esforço humano em manter habilidades manuais.

b) A prática religiosa e o uso de gravadores nos confessionários.

c) A matemática escolar e o uso excessivo de algarismos romanos. d) O trabalho das secretárias e a eficiência dos cabos eletrônicos. e) O jogo do bicho e a informatização dos sorteios.

 

07. Qual é a principal crítica social ou reflexão central presente na crônica?

a) A defesa absoluta de que o progresso tecnológico é prejudicial em todos os setores.

b) Uma crítica aos supermercados que não aceitam mais cheques preenchidos à mão.

c) Uma reflexão sobre como a tecnologia despersonaliza ações cotidianas e extingue habilidades humanas tradicionais.

d) Um guia prático de como melhorar a letra de forma após anos de desuso.

e) Uma reclamação específica sobre a má qualidade do ensino de matemática nas escolas modernas.

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

NOTÍCIA: MENINO PALESTINO QUE VIRALIZOU AO ABRAÇAR MÉDICO EM GAZA ESTÁ EM SEGURANÇA - VITOR GUERRA - COM GABARITO

 NOTÍCIA: MENINO PALESTINO QUE VIRALIZOU AO ABRAÇAR MÉDICO EM GAZA ESTÁ EM SEGURANÇA

 25 de outubro de 2023 – Por Vitor Guerra

     O menino palestino que viralizou na semana passada, após abraçar um médico, está vivendo em um campo de refugiados junto com a família, em Rafah, fronteira do Egito. Felizmente, Muhammad Abu Louli, agora está em segurança.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiM_ehWh0ZYTV9yT24GCa0lSHlph6D8xokdJHaUbpC885QF83-nqHcOzoAAi3bDKoxMQTno6fMQw0y-12rQt9P9pvOTjuCCU-uOnrgrCVdrakcItWpt0-gtkHJjr_s4SYIWLQdgO4kjfjX2aqaMYWv-K_sKHMq68uJOy596Twb7rWC5vpYFZX_4I51Y5vE/s320/sem-tituloa_1.jpg


    As imagens mostravam o garotinho em estado de choque no hospital após ter sua casa bombardeada por mísseis israelenses. No local, o pequeno, com os olhos arregalados e tremendo, foi confortado pelo médico.
    Agora, uma semana depois, uma notícia boa! O fotógrafo Abdallah Alattar, que cobre o conflito, registrou imagens de Muhammad com a família em uma escola que abriga refugiados. A expressão de medo e espanto do garotinho foi substituída pela leveza.

 

https://www.sonoticiaboa.com.br

Entendendo  o texto

 

01.  Qual o fato que motivou a publicação da notícia? 
a) A divulgação das imagens tocantes do menino palestino e o médico.
b) A preocupação global com a situação dos refugiados palestinos.
c) O esforço da comunidade internacional para garantir a segurança do garoto.
d) O registro da transformação emocional do menino, substituindo o medo pela esperança.

    02. Há uma opinião em:

         a) “As imagens mostravam o garotinho em estado de choque…”
         b) “Felizmente, Muhammad Abu Louli, agora está em segurança.”
         c) “No local, o pequeno, com os olhos arregalados e tremendo…”
         d) “Agora, uma semana depois, uma notícia boa!”

        03. Qual era o estado emocional de Muhammad no hospital logo após o bombardeio, conforme descrito no texto?

       a) Ele estava calmo e sorridente.

       b) Ele estava em estado de choque, tremendo e com os olhos arregalados.

       c) Ele estava bravo e gritando com os médicos.

       d) Ele estava dormindo profundamente devido ao cansaço.

 

      04. Onde Muhammad e sua família estão vivendo atualmente, de acordo com a atualização da notícia?

       a) Em sua antiga casa que foi reconstruída.

      b) Em um hospital na cidade de Gaza.

     c) Em um campo de refugiados em uma escola em Rafah.

     d) Fora da Palestina, em um país da Europa.

 05. Quem foi o responsável por registrar as novas imagens que mostram o menino em segurança e com uma expressão de leveza?

     a) O médico que o abraçou no hospital.

     b) O jornalista Vitor Guerra.

     c) Um familiar de Muhammad.

     d) O fotógrafo Abdallah Alattar.

    06. O que causou o estado de choque inicial de Muhammad no hospital?

       O fato de sua casa ter sido bombardeada por mísseis.

   07. De acordo com o texto, qual gesto de Muhammad viralizou na internet na semana anterior à notícia?

      O gesto de abraçar um médico enquanto estava no hospital.

08. Como o texto descreve a mudança na expressão do garoto entre o momento no hospital e o momento no campo de refugiados?

      A expressão de medo, choque e espanto foi substituída por uma expressão de leveza.

 

POEMA: QUERO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Quero

            Carlos Drummond de Andrade

 

Quero que todos os dias do ano

todos os dias da vida

de meia em meia hora

de 5 em 5 minutos

me digas: Eu te amo.

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIjGsjTRyP27-w9RwcN0lycpgXZVIoWvgDzWk9ce7s7DYHpxOkTQfNk8gR1wYRR4XPqbU-PNHtf6JCt2il1rvekLJsOmtNlMlsaGj45It2TG0wfROfzGywvJh_4n4jCR3OOZg2m1smf3C1h7YmQTQLpdVbnVs3J2iuTyD-_fB1Y2SxqhkkKOFNMB-haeQ/s1600/AMO.jpg

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,

creio, no momento, que sou amado.

No momento anterior

e no seguinte,

como sabê-lo?

 

Quero que me repitas até a exaustão

que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação

pois ao dizer: Eu te amo,

desmentes

apagas

teu amor por mim.

 

Exijo de ti o perene comunicado.

Não exijo senão isto,

isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra

nem sei de outra maneira a não ser esta

de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:

amor na raiz da palavra

e na sua emissão,

amor

saltando da língua nacional,

amor

feito som

vibração espacial.

 

No momento em que não me dizes:

Eu te amo, 

inexoravelmente sei

que deixaste de amar-me,

que nunca me amaste antes.

 

Se não me disseres urgente repetido

Eu te amoamoamoamoamo,

verdade fulminante que acabas de desentranhar,

eu me precipito no caos,

essa coleção de objetos de não-amor.

 

Entendendo o texto

 

01. No poema, o eu lírico demonstra uma necessidade constante de ouvir a frase "Eu te amo". Qual é o principal motivo para essa exigência?

     a) Ele tem má memória e esquece o que as pessoas dizem.

     b) Ele acredita que o amor só existe no exato momento em que é dito em voz alta.

     c) Ele quer testar a paciência da pessoa amada todos os dias.

     d) Ele prefere ganhar presentes do que ouvir palavras de carinho.

02. Na terceira estrofe, o autor utiliza a expressão "até a exaustão". O que essa expressão sugere sobre o desejo do eu lírico?

    a) Que ele quer que a pessoa amada descanse e durma bastante.

    b) Que ele deseja que a declaração de amor seja repetida inúmeras vezes, sem parar.

    c) Que ele está cansado de amar e quer terminar o relacionamento.

    d) Que ele não gosta de conversar e prefere o silêncio.

03. Para o eu lírico de Drummond, como o amor é reconhecido de forma "perfeita"?

      a) Através de gestos e atitudes do dia a dia.

      b) Por meio de cartas escritas e enviadas pelo correio.

     c) Através da palavra falada, do som e da vibração da voz.

     d) Através de olhares profundos e silenciosos.

04. O que acontece com o eu lírico no momento em que ele não ouve a frase "Eu te amo"?

      a) Ele fica feliz porque finalmente tem um pouco de paz.

      b) Ele sente que o amor nunca existiu e se sente perdido no "caos".

      c) Ele resolve sair para caminhar e esquecer os problemas.

      d) Ele entende que a pessoa amada está apenas ocupada com outras coisas.

05. No final do poema, a palavra "Eu te amo" aparece escrita de forma grudada: "Eu te amoamoamoamoamo". Essa forma de escrever serve para representar:

     a) Um erro de digitação do autor que não foi corrigido.

     b) A pressa da pessoa amada para ir embora.

     c) A intensidade e a rapidez da repetição exigida pelo eu lírico.

     d) Que o amor é algo muito confuso e impossível de entender.

 

MÚSICA(ATIVIDADES) - BYE BYE, BRASIL - CHICO BUARQUE & ROBERTO MENESCAL - COM GABARITO

 Música (Atividades) -Bye Bye, Brasil

                                  Chico Buarque & Roberto Menescal

 Oi, coração,

Não dá pra falar muito não,

Espera passar o avião.

Assim que o inverno passar,

Eu acho que vou te buscar,

Aqui tá fazendo calor,

Deu pane no ventilador,

Já tem fliperama em Macau,

Tomei a costeira em Belém do Pará,

Puseram uma usina no mar,

Talvez fique ruim pra pescar,

Meu amor.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEir6Lw0muHWy3x1iSHha46KnnYT_FYzaH_t2O23vBg7E-ApdHjI7-ruZBoHEoUgCI4H71FTx0-7qyk7M9Aim6PQv__CDLQIcMkX8bqt71NJ9YsbDNsHh_94NWKnMXVmM0yjLbZrsxubgY2EIlWt7N87qzWPYP5htDC0uixtekP8Jw0RriCfhx5-LXrtnyM/s1600/CHICO.jpg


No Tocantins,

O chefe dos parintintins 

Vidrou na minha calça Lee,

Eu vi uns patins pra você,

Eu vi um Brasil na TV,

Capaz de cair um toró,

Estou me sentindo tão só,

Oh, tenha dó de mim.

Pintou uma chance legal,

Um lance lá na capital,

Nem tem que ter ginasial,

Meu amor.

No Tabariz,

O som é que nem os Bee Gees,

Dancei com uma dona infeliz,

Que tem um tufão nos quadris,

Tem um japonês trás de mim,

Eu vou dar um pulo em Manaus,

Aqui tá quarenta e dois graus,

O sol nunca mais vai se pôr,

Eu tenho saudades da nossa canção,

Saudades de roça e sertão,

Bom mesmo é ter um caminhão,

Meu amor.

Baby, bye, bye,

Abraços na mãe e no pai,

Eu acho que vou desligar,

As fichas já vão terminar,

Eu vou me mandar de trenó

Pra Rua do Sol, Maceió,

Peguei uma doença em Ilhéus,

Mas já tô quase bom.

Em março vou pro Ceará,

Com a bênção do meu orixá,

Eu acho bauxita por lá,

Meu amor.

Bye, bye Brasil,

A última ficha caiu ,

Eu penso em vocês night and day,

Explica que tá tudo okay,

Eu só ando dentro da lei,

Eu quero voltar, podes crer,

Eu vi um Brasil na TV,

Peguei uma doença em Belém,

Agora já tá tudo bem,

Mas a ligação tá no fim,

Tem um japonês trás de mim,

Aquela aquarela mudou,

Na estrada peguei uma cor,

Capaz de cair um toró,

Estou me sentindo um jiló,

Eu tenho tesão é no mar,

Assim que o inverno passar,

Bateu uma saudade de ti,

Tô a fim de encarar um siri,

Com a bênção do Nosso Senhor,

O sol nunca mais vai se pôr.

 

Entendendo a canção

 

01. Sobre o eu lírico da canção, onde ele se encontra e como ele se comunica com a pessoa amada?

 a. Ele está em um orelhão (telefone público) em trânsito pelo Brasil.

 b. Ele está em casa escrevendo uma carta sobre suas viagens.

 c.  Ele é um locutor de rádio transmitindo notícias de várias capitais.

 d. Ele está em uma viagem de férias fixa em Maceió.

 02. No verso 'Aquelas aquarelas mudaram', há uma referência cultural à famosa música 'Aquarela do Brasil'. O que essa mudança sugere no contexto da canção?

 a. Que a imagem romântica e idealizada do Brasil deu lugar a um país em processo de modernização e industrialização.

b. Que a natureza brasileira permanece intocada e idêntica ao passado.

c. Que o Brasil ficou mais colorido e artístico com o passar do tempo.

d. Que o eu lírico não gosta mais de música brasileira antiga.

 03. Na estrofe que menciona 'o chefe dos parintintins vidrou na minha calça Lee', qual processo cultural está sendo representado?

a. A preservação total da cultura indígena contra influências externas.

b. A influência da cultura estrangeira e do consumo atingindo até os lugares mais remotos do Brasil.

c. A exportação de produtos brasileiros para tribos de outros países.

d. O desinteresse dos brasileiros pela tecnologia da televisão.

04.  A expressão 'Capaz de cair um toró' é um exemplo de qual nível de linguagem?

a.  Linguagem coloquial e informal.

b. Linguagem técnica e científica.

c.  Linguagem culta e formal.

d.  Linguagem arcaica e em desuso.

05. No verso 'Estou me sentindo um jiló', o eu lírico utiliza uma figura de linguagem para expressar seu sentimento. Qual é essa figura e o que ela significa?

a. Metáfora, indicando que ele se sente amargurado ou solitário.

b. Eufemismo, para suavizar uma notícia boa.

c.  Personificação, dando vida ao jiló.

d.  Hipérbole, exagerando o tamanho do seu corpo.

 06. A letra mistura termos em português com estrangeirismos como 'Bye bye', 'Night and day' e 'Okay'. Qual o objetivo dessa mistura no texto?

a.   Indicar que a música foi escrita para ser gravada nos Estados Unidos.

b.   Provar que a língua inglesa é mais bonita que a portuguesa.

c.   Mostrar que o eu lírico não sabe falar português corretamente.

d.    Refletir a 'invasão' da cultura e língua inglesa no cotidiano brasileiro da época.

07. Ao final da música, o eu lírico diz: 'Eu tenho saudades da nossa canção / Saudades de roça e sertão'. O que esses versos revelam sobre o sentimento dele?

a. Que ele está feliz com a poluição sonora das fábricas e usinas.

b. Que ele decidiu se tornar um agricultor no futuro.

c. Uma nostalgia por um Brasil mais simples e tradicional que está desaparecendo com a modernidade.

d. Que ele prefere viver nas grandes capitais e nunca mais voltar.

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CRÔNICA: MULHER DE SEGURAR NAVIO - FERNANDO SABINO - COM GABARITO

CRÔNICA: MULHER DE SEGURAR NAVIO

                     Fernando Sabino

                Prometi apanhá-lo com meu carro às duas e meia em ponto. Às três e quinze sai da estação de Saint Pancras o ônibus que o levará às docas de Londres. Ele embarca para Portugal hoje, com tod a família.

            Encontro-o já à porta do edifício onde mora, em Kensington, cercado de malas por todos os lados. Começo a rir, digo-lhe que desista: no meu carro não caberá tanta mala. Ele me olhou com um sorriso desalentado de quem acha que brincadeira tem hora. Com jeito  vai - assegura-me.

             Para começar, não sabe o que fazer com o embrulho quadrado e chato que tem na mão - um quadro que está levando de presente para o pai. Acaba deixando-o à porta do edifício, e, com minha ajuda, põe-se a transportar a bagagem para dentro do carro.

            Em pouco já não há quase espaço vazio: mala traseira, bancos, tudo abarrotado. E neste instante surge à porta sua jovem mulher, cmo sempre tranquila, repousada e repousante, com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo. Não se preocupem, que vamos todos aí dentro - assegura-nos, quando o marido já sugeria um táxi suplementar, difícil de se conseguir assim à última hora.

             Chegam agora a governanta e as duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando. Ele não perde tempo e vai tratando de enfiá-las no carro. Depois chega a vez dos adultos. Tira-se uma mala, entra um, ajeita-se, entra outro, todos se acomodam, agora é o carrinho da criança, a porta não se fecha. Sobrou uma mala, não têm importância, vai no colo - e ele desaparece a meu lado sob um imenso saco de viagem. Há nessa partida um vago ar de fita cômica que atrai a atenção do leiteiro junto ao caminhão, sorrindo do outro lado da rua. Mal consigo me mexer na direção, ao movimentar o carro. Mas estaremos na estação às três e quinze. Deus seja louvdo. A menos que ...

               - Vamos voltar  - exclama ele, já a meio caminho.

               Era o que eu temia.

               -  O quadro. Esquecemos o quadro, lá na porta da rua.

               A mulher comparece com a solução.

                - Não há tempo. Toma um táxi que  a gente vai indo e te espera lá. Eu seguro o ônibus.

           Esta extraordinária observação, feita com tamanha naturalidade, me deixa assombrado. Ele , sem uma palavra, sai do carro e se manda pela rua atrás de um táxi. Enquanto prosseguimos, ponho em dúvida a capacidade de quem quer que seja de interferir no horário de um ônibus na Inglaterra: segura o ônibus como?

                    - Já segurei um navio, então não posso segurar um ônibus?

              Conta-me então que seu tio deveria embarcar num transatlântico italiano, foi despedir-se dele no cais. E até o último momento, nada do tio. Telefona para ele do próprio navio, ficou sabendo que não lhe haviam avisado uma antecipação da hora de partida. Mas  isso é um desaforo - decidiu ela:  pois pode vir que o navio espera. Quis falar com o comandante, não foi atendida. Os alto-falantes de bordo pediam a retirada imediata dos visitantes, era o último sinal. Os oficiais mandaram retirar a  escada. Antes que a escada fosse completamente recolhida, ela se precipitou, desceu alguns degraus e se viu suapensa no espaço, como num imenso trampolim. Lá embaixo a multidão, já acenando despedidas,  completava, nariz para o ar, aquele espetáculo de circo: a mulher era passageira?  Queria subir ou descer? Ela não queria nada, e era o que repetia teimosamente para oficiais e marinheiros que a intimavam aos berros a sair dali: daqui  não saio, daqui ninguém me tira - esperam chegar meu tio. Tiveram de esperar: tirá-la à força era perigoso, acabria todo mundo n'água. Esperaram meia hora até que chegasse o tio, com a mulher, filhos, carrinho de criança, gaiola de papagaio - mais ou menos como hoje. E, envergonhadíssiomo, por pouco desiste de embarcar quando finalmente lhe baixaram a escada, sob aplauso da multidão.

                     Olho-a furtivamente  pelo espelhinho do carro. Vejo uma confusão de malas, embrulhos, crianças cercando o rosto familiar desta brasileira tranquila. Nunca pensei que ela fosse mulher de segurar navio. Quanto mais se vive mais se aprende.

                       Tudo ajeitado no ônibus, fico à espreita, olho pregado na esquina. Ela não parece preocupada. Começo a temer pel sorte deste motorista alto, ossudo, de cabelos grisalhos e  extremamente  inglês que já consulta o relógio e vai se ajeitar ao volante, para dar partida. Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do império Britânico. São exatamente três e quinze.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQnVcjK3BNB05xaNDEBg0xzE_463vjERHrvvw1G9IfVd3vtfm1F6Hd9WHOqZazF5CWOUY4q-kFasKJLGSwHid8tsdGwF-QKI8c-ee7uUgtcKQO9kGcUdx7PYkxr3638UGtVr4QmFRIjRLGQYzX-L9GU16LvdZYP2bxrM6FsQ5J1y5G7xlc-9qzvdyk2lk/s1600/NAVIO.jpg


                          Respiro com alívio, ao ver, no último segundo, meu amigo saltar de um táxi e vir correndo com o quadro na mão. Mal teve tempo de entrar, eo ônibus já se afasta, a família acenando alegremente.

                          Volto  para casa pensativo, com aquela esquisita sensação de quem fica. Mas em breve voltarão das férias. E então certamente ficarei sabendo, caso tenham esquecido mais alguma coisa, como o ônibus se desviou de sua rota para que fossem buscá-la em casa.

           Fernando Sabino. A inglesa deslumbrada. Rio de Janeiro. Sabiá, 1967. p. 41-5.


Entendendo o texto

01. O texto justifica o título? Por quê?

       Sim, porque  narrador-personagem ficou sabendo que a mulher do amigo conseguiu a façanha de segurar  a partida  de um transatlântico italiano.

02. Releia  o primeiro parágrafo  e responda: que meio de transporte levará a família  de Londres a Portugal? Como você chegou a essa conclusão?

      O narrador-personagem fala que o ônibus  sairá  da estação de Saint Pancras e os deixará  nas docas  de Londres, portanto  conclui-se  que  a família  viajará de navio.

03. O homem  que levará a família até a estação de Saint Pancras já conhecia a esposa do outro? Justifique sua resposta.

      Sim, ao usar a expressão"como sempre" para dizer que ela estava "tranquila", repousada e repousante", ele  deixa  transparecer que já  a conhecia.

04. Ao afirmar que a mulher estava"...com aquela suavidade das antigas mães de família, para quem tudo há de dar certo", o narrador quis dizer que:

a) ela era mandona.

b) ela era delicada e mandona.

c) ela transmitia calma e segurança.

d) ela era velha e antiquada.

05. "...duas crianças, que se multiplicam por três, correndo e brincando." Por que o narrador faz esse comentário?

    O narrador  afirma isso porque  as crianças eram barulhentas e agitadas.

06. "Mas estaremos na estação às três e quinze, Deus seja louvado." A expressão em destaque pode ser substituída por:

     a) Graças a Deus!

     b) Que pena!

     c) Infelizmente!

     d) Que Deus nos ajude!

07. "Mal desconfia ele que está correndo o risco de entrar para a História, como protagonista de um extraordinário acontecimento nos anais do Império Britânico".

      a) Quem é esse ele que corre o risco de ser protagonista de um acontecimento?

           O motorista do ônibus.

       b) Que  acontecimento é esse? 

            A mulher poderá fazer o motorista atrasar a partida do ônibus  se o marido dela não chegar  a tempo.

        c) Por que a palavra História  foi escrita com inicial maiúscula?

             Porque esse acontecimento seria inédito e faria parte da História da Inglaterra, já que o povo inglês, em geral, cumpre rigorosamente seus horários e nunca se atrasa.