domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: A LÓGICA DO MALUCO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A lógica do maluco

            Lima Barreto 

 

        Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlf6iFS6ScvVksA7Ry9450NqHDBYg0GANK56G8KL6jc3AZ0L0PXvdoG9ixpAXLaAhMkUk4zHI18ORhxoWwELvdT5WnbJyM1uIEoLOqg7gnsCKGrwIEZx0LoKnQU0v7D_TwNHtpwDBH9tLUeVsmKxBD6f8pi7BuIKLj1754A7boUPTH_CFb_LoLEg6ZJcw/s320/images.jpg


        Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...

        A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que ne­la têm assento.

        O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.

        Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.

        O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:

        – Então, o que há, doutor?

        O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sen­tou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:

        – Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.

        – Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?

        – É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vi­tória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

        – Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.

        – Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.

        – Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.

        – Como?

        – Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?

        – Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...

        – Mas, você...

        – Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.

         Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o do­ente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:

        – Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor ju­rídico.

Careta, Rio, 8-10-1921.

Entendendo a crônica:

01 – O que torna o doente internado no Hospital Nacional de Alienados uma figura atípica entre os demais pacientes, segundo a narrativa?

      O doente destaca-se não pela gravidade ou estranheza de sua enfermidade mental — descrita como uma mania simples —, mas pelo seu nível de instrução, boa educação e cultura. Ele era bacharel (embora preferisse o título de "capitão") e pertencia à Academia de Letras da Vitória, no Espírito Santo, na condição de "membro extraordinário" ou "de fora".

 

02 – Como Lima Barreto ironiza a instituição da vaga de "membro extraordinário" na Academia de Letras da Vitória?

      Embora brinque com o fato de o título lembrar "coisas de bebês e cueiros", o cronista elogia satiricamente o mecanismo. Ele argumenta que a existência de uma fila de espera predefinida traz efeitos práticos positivos ao ambiente político-literário, pois evita arranjos de última hora, campanhas de promoção pessoal ("mandar organizar um livro às pressas") e as habituais baixezas das eleições acadêmicas.

 

03 – Qual foi o gatilho desencadeador da loucura do internado e como o médico buscou tratar o problema do paciente?

      O rapaz enlouqueceu ao ler a obra Comentários à Constituição, do jurista Carlos Maximiliano. Para atenuar o quadro, o médico Dr. Gotuzzo recolheu o texto de Maximiliano e o substituiu pela obra do jurista João Barbalho, o que gerou uma melhora expressiva no estado mental do paciente.

 

04 – Qual era a solicitação do interno ao Dr. Gotuzzo e de que maneira o médico tentou demovê-lo da ideia?

      O paciente solicitou permissão para conversar pessoalmente com o diretor do hospital, Dr. Juliano Moreira, a fim de conseguir autorização para buscar um emprego público por meio de sua influência com o senador Marcílio de Lacerda. O Dr. Gotuzzo argumentou contra a ideia lembrando que ele era um doente sob interdição judicial formal movida por sua família, o que o impossibilitaria legalmente de assumir tais funções.

 

05 – Qual foi o raciocínio dedutivo empregado pelo paciente para defender seu direito de ingressar no funcionalismo público?

      O paciente construiu um silogismo baseado no texto constitucional: argumentou que, segundo a Magna Carta, "os cargos públicos civis ou militares são acessíveis a todos os brasileiros"; sendo ele brasileiro, teria direito ao cargo. Ao ser lembrado de sua condição de interditado, equiparou sua situação jurídica à de outros grupos incapacitados civilmente (como mulheres e menores), pontuando que, se estes já ocupavam posições públicas, ele também poderia.

 

06 – Como o psiquiatra Juliano Moreira reagiu ao pedido do doente e qual foi a solução elegante adotada por ele?

      O Dr. Juliano Moreira acolheu o interno com calmaria, doçura e escuta atenta. Para contornar a insistência do paciente sem contrariar frontalmente sua lógica ou desencadear um surto, respondeu que não poderia conceder a licença de imediato porque precisaria antes consultar o parecer técnico de um "notável consultor jurídico".

 

07 – De que modo a crônica expõe a contradição do arcabouço jurídico e das regras institucionais brasileiras do período?

      Lima Barreto usa a pretensa "loucura" do protagonista para expor incoerências do Direito e da burocracia do país. A capacidade do paciente de articular a Constituição com rigor lógico demonstra que a aplicação das leis na sociedade muitas vezes carece de coerência real: regras formais excluem sujeitos plenos enquanto interpretações casuísticas abrem brechas institucionais, tornando a fronteira entre a razão jurídica e o delírio extremamente tênue.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: O CONDE E O VISCONDE: DOIS GENEROSOS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O conde e o Visconde; Dois generosos

             Lima Barreto

 

        Jamais, desde aqueles memoráveis dias em que, na minha meninice, estudei história, deixei de me lembrar daquela ateniense que votava pelo ostracismo (banimento) de Aristides porque estava cansado de ouvir chamá-lo de justo.

        Muito depois de aprovado, ainda ia procurar o meu João Ribeiro, História Antiga (Oriente e Grécia), para lá ler a ane­dota histórica. Eis como o sábio professor a narra:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigY4SF_c50dMW1lr2ZqS5HHVXJPnaekmEnbq1SZ1fWxYharclifwO4J5OH7HhkMvpy4L4AuRkipIdnvby7RANTQ3bfeqF9mQnQbx2XL7UZa92fNDGTalRVcQryPuPczagcHFS-WueSj5tn_kb_npQlyHJebxq6kfuVCtBHrnD4ITuX7FBhvw46LlHSNE0/s320/images.jpg


        “Conta-se que durante a votação popular (para o banimento) um cidadão que não sabia ler nem escrever, pediu ao próprio Aristides, a quem não conhecia, que escrevesse o seu voto. – Mas, Aristides ofendeu-te? – Não, replicou o votante. Mas estou cansado de ouvir chamá-lo de justo.”

        Muitas coisas graves, interessantes e pitorescas andei aprendendo; mas, de todas elas, uma das que mais profun­damente ficou-me gravada no cérebro foi essa anedota.

        Quando vejo por aí toda a gente a dizer que fulano é justo, é sério, é virtuoso, é santo, não fico cansado para bem dizer, mas espero um dia para apea-lo do nicho e, se for ainda capaz de arrependimento, faze-lo ajoelhar-se e penitenciar-se da sua “homenagem à virtude” (vide La Rochefoucauld).

        Há nesta cidade dois homens conhecidíssimos por muitos motivos, um dos quais não é certamente as grandes fortunas de que são possuidores. Um é o conde da Pátena e o outro é o visconde de Loques. Um, é político brasileiro; o outro, não o é nem português, por economia.

        Ambos são tidos como homens de grande coração, genero­síssimos.

        Antigamente, não entrava ninguém num veículo que não ouvisse, a um canto, dizerem:

        – Oh! O Pátena! Aquilo sim é que é homem! Ele olha para a pobreza; ele atende aos pequeninos. Veja você só! Quando ele esteve na construção do túnel daqui para Niterói, quanta gente ele empregou? Era só chegar a ele e pedir.

        – Mas, Castrioto, a verba estourou e muita gente ainda está para receber dinheiro.

        – Que tem isto? Ele, ao menos empregava... O doutor Pátena não sabe dizer “não”. É um coração!

        – De fato – eu observei – quando o conde Pátena se põe à testa de um importante serviço público, as verbas não chegam nunca para pagar empregados e para faire marcher l’argent, até às algibeiras dos camaradas. É um mãos-abertas... Torna-se logo suntuosamente generoso com o dinheiro dos... cofres públicos. Os amigos do peito, arruinados ou pobres de origem, enriquecem em meses; e não há pobre-diabo que não consiga, quando Pátena está na ponta, arranjar com ele um emprego em que ganhe seis mil-réis por dia, para “engabelamento” da sua miséria, durante seis meses.

        Um outro milionário que gozava de igual fama, era o visconde de Loques. É uma figura curiosa. Os seus começos mo­destos, mesmo humildes, deram-lhe o hábito de usar um único fraque até esfarelar-se. Há uma anedota, naturalmente fan­tástica, que diz não ser permitido no Banco de Inglaterra espanarem-se as teias de aranha. Elas são a felicidade da casa...

        O visconde só muda de fraque quando este chega a fiapos. É tradição e segurança, de sua fortuna e prosperidade. Ele tem meia centena de milhares de contos; mas não com­pra dois fraques...

A fama no seu bom coração corria a cidade. Havia uma porção de anedotas a tal respeito.

        De manhã, diziam, o visconde quando chega de Paquetá, só na ponte das Barcas distribui mais de cem mil-réis de esmolas. E isto todos os dias!

        Certa manhã, depois de ter notivagado a noite, fui apreciar o espetáculo.

        Pus-me ao lado e talvez com a secreta vontade de lhe pedir também uma espórtula. Juvenal subia o Esquilino, pe­la manhã, embrulhado em trapos, curtindo frio, para mendigar alguns sestércios aos poderosos senadores de Roma...

        Fui apreciar, dizia eu, o espetáculo. Lá estavam a postos os clientes do visconde. Eram vinte ou trinta.

        Havia de tudo: um resumo do nosso povoamento.

        Ei-lo que chega. Atravessa verdadeiramente por uma ala. Dá uma moeda pra cá, dá outra pra lá; e vai-se.

        Aproximam-se do lugar onde estou, dois clientes do visconde.

        Pergunta um ao outro:

        – Quanto ele te deu?

        – Um cruzado. E a ti?

        – Duzentos réis. Foste mais feliz do que eu.

        Calcule. Na média, trezentos réis a cada um; são trinta, no máximo: logo – nove mil-réis. Eis aí em que ficaram os cem mil-réis diários!

        Ainda assim havia mais generosidade no visconde que no conde. Aqueles nove mil-réis eram dele, do seu bolso; e a magnificência do conde era à custa alheia, à custa do país.

        Passaram-se anos; os aluguéis de casa sobem pavorosamente e só ouço, nos trens, nos bondes, nos cafés, queixas contra os senhorios, principalmente contra o visconde e o conde que são grandes, senão os maiores proprietários na cida­de:

        – Você já viu?

        – O que?

        – Aquele sorna do visconde, logo de assentada, aumentou-me o valor do aluguel de um terço – veja você só.

        – Ué! Dizem que ele é tão bom de coração...

        – Vá atrás dele!

        Mais adiante escuto:

        – Não voto mais nesse malvado.

        – Em quem?

        – No Pátena.

        – Porque?

        – Aumentou de repente o aluguel de minha casa de quarenta por cento.

        – É coisa! Entretanto, ele é bom...

        – Pro fogo!

        Diante disto, continuo ainda a lembrar-me daquele ateniense que bania Aristides por estar cansado de ouvir chama-lo de justo. Há muito tempo, já teria eu banido esse visconde e esse conde, por estar cansado de ouvir chamá-los de generosos. E eu tinha razão, como estão vendo.

Careta, Rio, 6-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a anedota histórica sobre o ostracismo de Aristides citada por Lima Barreto e qual o seu papel no tema central da crônica?

      O cronista relembra o episódio grego em que um cidadão analfabeto pede ao próprio Aristides que escreva seu voto para bani-lo de Atenas, simplesmente porque estava cansado de ouvir todos o chamarem de "o Justo". Lima Barreto utiliza essa anedota para ilustrar seu ceticismo em relação às virtudes e reputações impecáveis atribuídas publicamente às pessoas, servindo de gancho para questionar a fama de "generosos" que o Conde da Pátena e o Visconde de Loques ostentavam na sociedade.

 

02 – Como é caracterizada a suposta generosidade do Conde da Pátena e qual é a crítica de Lima Barreto a essa conduta?

      O Conde da Pátena era visto pelo público como um homem de grande coração por dar empregos a amigos e necessitados sempre que liderava grandes obras públicas. O autor desmascara essa benevolência ao demonstrar que ela era exercida à custa dos cofres públicos: as verbas estouravam, as contas ficavam sem pagar e os amigos enriqueciam rapidamente. Trata-se de uma crítica ao fisiologismo e à falsa caridade feita com o dinheiro do Estado.

 

03 – Quais são as peculiaridades da figura do Visconde de Loques descritas no texto e qual era o mito em torno de sua caridade diária?

      O Visconde de Loques é retratado como um homem de origem humilde e dono de enorme fortuna, mas com hábitos de extrema pão-durice — como o de vestir o mesmo fraque até virar fiapos por superstição. A fama popular dizia que ele distribuía diariamente mais de cem mil-réis em esmolas para os pobres na ponte das barcas de Paquetá ao desembarcar na cidade.

 

04 – O que o cronista constatou pessoalmente ao presenciar a distribuição de esmolas pelo Visconde de Loques?

      Ao acompanhar o ritual de perto, o narrador ouviu a conversa entre dois beneficiados e descobriu que o Visconde dava quantias irrisórias (como 200 ou 400 réis), totalizando cerca de nove mil-réis para o grupo de trinta mendigos. O autor expõe o abismo entre a realidade da esmola e o boato popular, que multiplicava o valor doado por mais de dez vezes.

 

05 – Qual a comparação que o autor faz entre as "generosidades" do Conde da Pátena e do Visconde de Loques?

      Lima Barreto conclui que, apesar de insignificante, a caridade do Visconde de Loques continha mais mérito real do que a do Conde da Pátena. A razão é que as moedas distribuídas pelo Visconde saíam do seu próprio bolso, enquanto a magnificência do Conde era custeada pelo Tesouro e com prejuízo para o país.

 

06 – Que evento posterior revelou a verdadeira face econômica dos dois aristocratas e transformou a opinião pública sobre eles?

      A alta avassaladora dos aluguéis na cidade expôs a ambição dos dois titulares, que figuravam entre os maiores proprietários de imóveis do Rio de Janeiro. Ao reajustarem os aluguéis de seus inquilinos em taxas abusivas (de um terço a 40%), ambos provocaram a revolta da população nos bondes e trens, desfazendo a ilusão da caridade e revelando a busca gananciosa pelo lucro.

 

07 – Como a metáfora final do banimento de Aristides é retomada para sintetizar a crítica social de Lima Barreto?

      No desfecho, o autor reafirma a validade do seu ceticismo inicial ao declarar que há muito tempo já teria "banido" o Conde e o Visconde pelo simples cansaço de ouví-los aclamados como generosos. A derrocada da boa fama dos dois personagens comprova a tese do cronista de que as reputações virtuosas construídas na esfera pública frequentemente escondem hipocrisia, interesses pessoais ou exploração.

 

 

 

 

CRÔNICA: AS TEIXEIRAS E O FUTEBOL - FRAGMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: As Teixeiras e o futebol – Fragmento

            Rubem Braga

        Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv1aLKEt_cLMG0A6WVl56iGdKxbOpbD0GDmbq7cCIfJjR1Qv06Hun01jlHBfKPcjw6P2zK9a8OQvb1WDCbxxJt2bsU4NdvXQhsRTD7ArZ4wrKlNf5Z6HxsBB0SJ-8FqQsPm66YrImK2fQIUCcxwD5KGRa0ZD2ClFxWuC_f_LKElXHCbe17974S51aJYA8/s320/images.jpg


        Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

        Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir novas observações.

        Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.

        “Então por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.

        “Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos a nossa partida.

        As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”. 

        Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor do nosso time!

        [...]

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 31.

Entendendo a crônica:

01 – De que forma a atitude dos pais do narrador contrasta com o discurso público que a mãe adotava diante das vizinhas (as Teixeiras)?

      A mãe adotava uma postura formalmente compreensiva diante das vizinhas, fingindo dar-lhes razão e concordando que os meninos estavam "impossíveis" para manter a boa convivência na vizinhança. No entanto, internamente, o narrador percebe que essa atitude era apenas superficial ("sem convicção"), pois em casa a mãe criticava as irmãs mais antipáticas e defendia os filhos. No fim, o narrador conclui emotivamente que tanto a mãe quanto o pai sempre foram, no fundo, a favor do time dos meninos.

02 – Como os meninos rebatiam as sugestões da vizinha Teixeira mais cordial para mudar o local da partida de futebol, e quais foram os argumentos utilizados por eles?

      Os meninos rebatem as propostas usando desculpas estratégicas e sinceras. Quando a vizinha sugere jogar mais para baixo, o Juquinha inventa que lá mora a "Dona Constança doente", apelando para uma justificativa moral e de compaixão. Quando a vizinha sugere jogar mais para cima, eles recorrem a um argumento técnico: "lá o campo não presta". Com isso, conseguem desarmar as tentativas da vizinha de retirá-los dali.

03 – Qual foi a reação do pai das Teixeiras (o "coronel de bigodes brancos") ao ouvir as queixas da filha sobre a bagunça dos meninos, e de que forma os garotos interpretaram essa conduta?

      O coronel ouviu as reclamações da filha em silêncio e entrou em casa calado, sem olhar para os meninos ou dar qualquer importância à reclamação. Os garotos interpretaram o silêncio do velho como um gesto de autoridade, superioridade e moderação, passando a vê-lo como uma "pessoa realmente importante e um homem direito", o que lhes deu validação para continuar a partida.

04 – No texto, há uma transição de tom narrativo no último parágrafo. Explique qual é essa mudança e o efeito emocional produzido no leitor/narrador.

      O texto transita do tom cômico, nostálgico e bem-humorado da infância para um tom lírico e melancólico no trecho entre parênteses do último parágrafo. Ao lembrar que tanto o time de futebol quanto seus pais já faleceram ("hoje, que o time e eles dois morreram"), a memória da infância ganha um peso emocional profundo, provocando no narrador adulto um "ardor de lágrimas nos olhos" diante da saudade e do afeto familiar relembrado.

05 – O uso das palavras "meninos desobedientes" e "moleques" gera reações diferentes nos garotos. O que a palavra "moleque" representava para eles e como reagiram a essa ofensa?

      Enquanto "meninos desobedientes" era aceito como uma repreensão comum, a palavra "moleque" era vista pelos garotos como uma ofensa grave à sua classe ou conduta moral. A reação dos meninos foi de indignação e confronto direto, como demonstrado pelo personagem Chico ao rebater da janela: "Moleque é a senhora

CRÔNICA: OS TEIXEIRAS MORAVAM EM FRENTE - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Os Teixeiras moravam em frente

            Rubem Braga

        Para não dar nome certo digamos assim: os Teixeiras moravam quase defronte lá de casa.

        Não tínhamos nada contra eles: o velho, de bigodes brancos, era sério e cordial e às vezes até nos cumprimentava com deferência. O outro homem da casa tinha uma voz grossa e alta, mas nunca interferiu em nossa vida, e passava a maior parte do tempo em uma fazenda fora da cidade; além disso seu jeito de valentão nos agradava, porque ele torcia para o mesmo time que nós.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2MY-d32tuKnRG0X0tlOuNUzZG4iOPWCNJzPZIcrxW6mJNrou4m0tu6toJCkvO4nfEWubZw1IKM5Aqw4xy4IN-IYrKdFu-BRH_0B1vTytGd_nIYigFTcVTqOuUzVCHjOKawjWT0oMG4MONp8wNYD4VsRh-TFujqp9druE0-HDpDvugGHBIEK7FPdGMml4/s320/images.jpg


        Mas havia as Teixeiras. Quantas eram, oito ou vinte, as irmãs Teixeira? Sei que era uma casa térrea muito, muito longa, cheia de janelas que davam para rua, e em cada janela havia sempre uma Teixeira espiando. Havia umas que eram boazinhas, mas em conjunto as irmãs Teixeiras eram nossas inimigas, acho que principalmente as mais velhas e mais magras.

        As Teixeiras tinham um pecado fundamental: elas não compreendiam que em uma cidade estrangulada entre morros, nós, a infância, teríamos de andar muito para arranjar um campo de futebol; e, portanto, o nosso campo natural para chutar uma bola de borracha ou de meia era a rua mesmo.

        Jogávamos descalços, a rua era calçada de pedras irregulares (só muitos anos depois vieram os paralelepípedos , e eu me lembro que os achei feios, com sua cor de granito, sem a doçura das pedras polidas entre as quais medrava o capim; e achei o nome também horroroso, insuportável, paralelepípedos, nome que o prefeito dizia com muita importância, parece que a grande glória de Cachoeiro e o progresso supremo da humanidade residia nessa palavra imensa e antipática – paralelepípedos); mas, como eu ia dizendo, a gente dava tanta topada que todos tínhamos os pés escalavrados: as plantas dos pés eram couro grosso, e as unhas curtas, grossas e tortas, principalmente do dedão e do vizinho dele. Até ainda me lembro de um pedaço do “campo” que era melhor, era do lado da extrema direita de quem jogava de baixo para cima, tinha uma pedra grande, lisa, e depois um meio metro só de terra com capim, lugar esplendido para chutar em gol ou centrar.

        Tenho horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o Rio de Janeiro contando coisas de Cachoeiro, isto é uma injustiça; a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu é bem maior. Só que nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada, às vezes tapa a tapa.

        Não consigo me lembrar se a marcação naquele tempo era em diagonal ou por zona; em todo caso a técnica do futebol era diferente, o jogo era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre, por exemplo: não era preciso ter onze jogadores de cada lado, podia ser qualquer número, e mesmo às vezes jogavam cinco contra seis pois a gente punha dois menores para equilibrar um vaca-brava maior.

        Eu disse que as partidas eram emocionantes; até hoje não compreendo como as Teixeiras jamais se entusiasmaram pelos nossos prélios. Isso foi um erro, e na semana que vem eu contarei por quê.

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 30.

Entendendo a crônica:

01 – Com base no texto, descreva como o narrador percebia a família Teixeira. Qual era a diferença entre a visão que as crianças tinham dos homens e das mulheres da casa?

      O narrador e seus amigos tinham uma relação neutra a simpática com os homens da família, enquanto viam as mulheres (as irmãs Teixeiras) como inimigas. O velho da casa era visto como sério, cordial e respeitoso; o outro homem, apesar do jeito de "valentão" e da voz alta, agradava aos meninos por torcer para o mesmo time de futebol. Já as irmãs Teixeiras, descritas como numerosas e sempre espiando pelas janelas, eram vistas como adversárias da infância, principalmente as mais velhas e magras, por não tolerarem os jogos de futebol na rua.

02 – Qual era o "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras segundo o narrador e por que, no contexto geográfico da cidade, o futebol de rua era inevitável para os meninos?

      O "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras era a falta de empatia e compreensão com as crianças da rua. Elas não entendiam a limitação geográfica do local: como a cidade de Cachoeiro era "estrangulada entre morros", os meninos teriam que andar distâncias muito longas para encontrar um campo de futebol adequado. Assim, a própria rua se tornava o único espaço natural e viável para que jogassem bola.

03 – Como o narrador descreve as condições físicas do "campo de futebol" e os impactos do jogo no corpo das crianças? Cite elementos da linguagem descritiva do autor.

      O campo de futebol era a própria rua, calçada com pedras irregulares. O jogo era bruto e cobrava um preço físico: as crianças jogavam descalças, sofriam constantemente com topadas e tinham os pés "escalavrados", com solas de couro grosso e unhas curtas, grossas e tortas. Apesar dessas condições adversas, o narrador guarda memórias afetivas detalhadas do espaço, como um trecho de pedra lisa com meio metro de terra e capim que era considerado o "lugar esplêndido para chutar em gol".

04 – No texto, o autor faz uma crítica sutil ao conceito de "progresso" ao comparar o antigo calçamento da rua com a chegada dos paralelepípedos. Explique como essa comparação revela a nostalgia do narrador pela infância.

      A chegada dos paralelepípedos é apresentada como o "progresso supremo" e a "glória" sob a ótica do prefeito da cidade, mas para o narrador criança tratava-se de algo feio, frio e antipático. O narrador preferia o calçamento antigo de pedras polidas e irregulares entre as quais nascia o capim, revelando que a visão infantil valoriza o afeto, a natureza e a organicidade do espaço brincável, enquanto a ideia de modernização/progresso dos adultos descaracterizava a doçura do ambiente de sua infância.

05 – Em tom bem-humorado e ironicamente ufanista, como o narrador compara o campo da rua de sua infância aos grandes estádios do Brasil, como o Maracanã e o Pacaembu?

      O narrador reconhece objetivamente que o Maracanã e o Pacaembu são maiores do que o campo da sua infância, mas argumenta que nenhum desses grandes estádios jamais foi tão emocionante quanto a rua onde jogavam. Segundo ele, as partidas da infância eram mais disputadas "palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada", enfatizando o caráter vivo, apaixonado e visceral do futebol de rua em comparação ao futebol formal.

 

 

 

NOTÍCIA: NAS PEGADAS DOS BRASILSAUROS - FRAGMENTO - REVISTA SUPERINTERESSANTE - COM GABARITO

 Notícia: Nas pegadas dos brasilsauros – Fragmento

        Esqueça Hollywood. O Brasil já teve dinossauros de verdade, tão temíveis quanto os astros de Jurassic Park.

        Corria o ano de 1897 quando o agricultor Anísio Fausto da Silva encontrou umas pegadas estranhas no leito seco de um rio que passava nos fundos de sua propriedade, em Sousa, sertão da Paraíba. Sem saber do que se tratava, seu Anísio batizou a trilha de “rastro da ema”. Alguns anos depois, os cientistas descobriram que a tal “ema” era na realidade um iguanodonte, que há 130 milhões de anos imprimiu na lama a marca de suas patas. Foi a primeira prova de que já houve dinossauros no Brasil. Hoje sabe-se que eles se espalhavam pelo país inteiro e nada ficavam a dever, em tamanho e ferocidade, aos brutamontes que aparecem no filme Jurassic Park, do americano Steven Spielberg.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg2f478yaoor_fbLjSyN7283TFoYhKI7PlYQz4R3Fl4yYV7s2C-1IHqfV4npvkBLueKgtOfTjcVb6fZP8IERdWMGAFE1v_DN8CZDX7Z7xk8Ku8C9r5nN7Xa4cmGOtIz54fk76EN9OwRjmgPcsq2hNC-5qHmssrhO-g9ujT3ELxpRbHldxxd9RCSEI2hjkU/s320/images.jpg
 

         “Há cerca de vinte espécies de dinossauro identificadas no país”, informou à SUPER o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro. Estão fora dessa lista, é verdade, celebridades como o tiranossauro ou o velociráptor, as estrelas de Spielberg. Esses bichos só existiram no hemisfério norte.  Em compensação, o Brasil abrigou parentes muito próximos deles. O abelissauro, [...] pode até ser confundido com seu primo mais badalado, o tiranossauro. O vegetariano titanossauro, de 15 metros de comprimento, era o similar nacional do pescoçudo apatossauro, conhecido antigamente como brontossauro. E você se lembra dos velociraptores, aqueles monstrengos de passo desengonçado e bote fulminante que quase comeram os heróis do filme? Pois restos de um predador muito parecido, o deinonicossauro, foram achados no interior de São Paulo e de Minas Gerais. Sorte que você não corre o risco de topar com um deles por aí.

        Os avós dos gigantes eram gaúchos nanicos

        Bá, que baita descoberta, tchê! Um dos dinos mais antigos da Terra é gaúcho, de Santa Maria. Foi encontrado por acaso, em janeiro do ano passado, pelo paleontólogo Max Langer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele mostrava a um colega argentino um local de escavações abandonado quando deparou com um fóssil encravado num barranco.  Foi conferir e achou três esqueletos de um réptil desconhecido pela Ciência que viveu há 230 milhões de anos, a época em que surgiram no planeta os primeiros dinossauros. Com apenas 1,5 metro de comprimento por 80 centímetros de altura, era um nanico se comparado aos grandalhões que vieram depois. Alimentava-se de plantas e de pequenos animais. Langer levou os fósseis para a Universidade de Bristol, na Inglaterra, onde está tentando comprovar sua hipótese de o bicho é um ancestral dos saurópodes, família de quadrúpedes que inclui os maiores dinos conhecidos, como o apatossauro.

        Não é primeira vez que um vovô-dino aparece em Santa Maria. Em 1934, na mesma cidade, uma expedição formada por brasileiros e americanos descobriu o estauricossauro, um bípede carnívoro de 2 metros de comprimento e 235 milhões de anos. “Os dinossauros mais antigos do planeta viviam aqui no Rio Grande do Sul”, orgulha-se Langer.

        [...]

        O paraíso dos lagartos voadores

        Eles não eram dinossauros, mas dominavam o céu. Temíveis répteis voadores, os pterossauros habitaram a Chapada do Araripe, no sertão do Ceará, 100 milhões de anos atrás. Alguns mediam uns poucos centímetros de uma ponta da asa à outra. Outros, como o tupuxuara, descoberto em 1993, chegavam a 6 metros. Viveram e sumiram na mesma época que os dinos.  Araripe é um dos locais com maior concentração desses bichos no mundo. Das 122 espécies conhecidas, dezoito foram achadas lá. Isso explica por que alguns desses lagartos alados receberam dos paleontólogo nomes em tupi, como anhanguera (“diabo velho”) e tapejara (“antigo morador”). A preferência pela chapada se deve aos paradisíacos lagos de água salgada que um dia a cobriram. Era de lá que os pterossauros retiravam os peixes, base de sua dieta.

        Primeiros vertebrados a voar, eles surgiram há 150 milhões de anos. “Seus ossos eram ocos e frágeis, o que os deixava mais leves e ajudava na decolagem”, explicou à SUPER o paleontólogo Alexandre Kellner, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que há muitos anos estuda os pterossauros. No voo, o bicho não gastava energia. Graças ao formato das asas, extremamente leves, aproveitava as correntes ascendentes de ar para ganhar altura. Como os aviões planadores.

Revista Superinteressante Especial – Pré-história brasileira. São Paulo, Editora Abril, abr. 1999. p. 13, 16 e 18.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 52-53.

Entendendo a notícia:

01 – Como ocorreu a primeira descoberta de evidências da existência de dinossauros no Brasil e como esse achado foi interpretado inicialmente?

      A primeira prova ocorreu em 1897, no município de Sousa (sertão da Paraíba), quando o agricultor Anísio Fausto da Silva encontrou pegadas no leito seco de um rio em sua propriedade. Sem conhecimento científico, seu Anísio acreditou que as marcas fossem de uma ave e batizou a trilha de “rastro da ema”. Anos mais tarde, cientistas identificaram que as pegadas pertenciam, na verdade, a um iguanodonte que viveu há 130 milhões de anos.

02 – O texto menciona que espécies famosas do cinema, como o Tiranossauro Rex e o Velociraptor, não viveram no Brasil. Quais eram os "correspondentes nacionais" dessas e de outras espécies citados na matéria?

      Apesar de as estrelas do cinema terem vivido apenas no hemisfério norte, o Brasil abrigou parentes muito próximos:

      Abelissauro: parente e similar ao Tiranossauro.

      Titanossauro: vegetariano de 15 metros, similar ao Apatossauro (antigo Brontossauro).

      Deinonicossauro: predador encontrado em SP e MG, parente próximo e similar ao Velociraptor.

03 – Qual foi a descoberta realizada pelo paleontólogo Max Langer em Santa Maria (RS) e qual a sua importância para o estudo da evolução dos dinossauros?

      Max Langer encontrou três esqueletos fósseis de um réptil desconhecido de 230 milhões de anos, medindo apenas 1,5 metro de comprimento por 80 centímetros de altura. A descoberta é fundamental porque o fóssil pertence à época em que surgiram os primeiros dinossauros do planeta, sendo apontado como um possível ancestral dos saurópodes (família de quadrúpedes gigantescos).

04 – Além do fóssil achado por Max Langer, qual outro importante achado paleontológico em Santa Maria fortalece a afirmação de que os dinossauros mais antigos do planeta viviam no Rio Grande do Sul?

      Trata-se da descoberta do estauricossauro, realizada em 1934 por uma expedição de brasileiros e americanos. O estauricossauro era um bípede carnívoro de 2 metros de comprimento e cerca de 235 milhões de anos.

05 – Apesar de habitarem o céu no mesmo período dos dinossauros, os pterossauros pertenciam a outro grupo. Por que a Chapada do Araripe, no Ceará, tornou-se um dos maiores pontos de concentração desses répteis no mundo?

      A Chapada do Araripe atrai atenção paleontológica por abrigar 18 das 122 espécies conhecidas de pterossauros. Essa grande concentração no passado ocorreu porque a região era coberta por lagos de água salgada, ambiente ideal para os pterossauros encontrarem peixes, que eram a base de sua alimentação.

06 – Como a origem indígena influenciou a nomenclatura científica de algumas espécies de pterossauros encontradas no Brasil? Dê exemplos presentes no texto.

      Devido ao expressivo número de descobertas na Chapada do Araripe, os paleontólogos batizaram alguns desses lagartos alados com nomes derivados da língua tupi. Os exemplos citados no texto são o Anhanguera (que significa “diabo velho”) e o Tapejara (que significa “antigo morador”).

07 – Quais características anatômicas e biológicas permitiam que os pterossauros voassem e plainassem sem gastar muita energia?

      Os pterossauros possuíam ossos ocos e frágeis, o que reduzia seu peso e facilitava a decolagem. Além disso, o formato de suas asas extremamente leves permitia que eles aproveitassem as correntes ascendentes de ar para ganhar altura e planar sem grande esforço físico, funcionando de forma semelhante a aviões planadores.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

DISCURSO DIRETO, INDIRETO E SEMI-INDIRETO (INDIRETO LIVRE) - COM GABARITO

 DISCURSO DIREITO, INDIRETO E SEMI-INDIRETO (INDIRETO LIVRE)

 

TIPOS DE DISCURSO

        Ao analisarmos qualquer narrativa, distinguimos a linguagem do contador da estória (o narrador) e a linguagem das personagens, aquelas pessoas que participam, que compõem a estória, agindo, dialogando, enfim, expressando-se. O próprio narrador pode se constituir em um personagem, caso em que os verbos e pronomes aparecerão na primeira pessoa do singular.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDKYjkzavo-OGw6ZpW1ZAN4U6y5_YJlmyh8wzl5L9ec1-C42RoxxWtjL9R1TExkWqJv5qCo4lf7d80oFcZMbQRBSiP_1U858No2HCezaJlQcyzjGc4BXHpy6VA8ITIo6P0c6TJPVq09AJHdACDHSbNZLt9xl4M1djylyuvs7iCzGXD6jqmGFAS5SPBKOk/s1600/images.jpg

        A linguagem do narrador geralmente caracteriza-se pelo respeito à norma culta, enquanto que a linguagem das personagens dependerá de seu meio cultural, posição social, etc., dentro da narrativa. Um juiz, por exemplo, não falaria igualmente a uma criança de cinco anos de idade.

 

a)   Discurso Direto

        Dizemos que o discurso é direto quando representa a reprodução fiel das falas das personagens. Geralmente, é indicado pelos travessões, que constituem os diálogos dos atores do texto, e pelos verbos de elocução (verbo dicendi) (falar, indagar, afirmar, explicar, responder, etc.).

        A moça ia no ônibus muito contente da vida, mas, ao saltar, a contrariedade se anunciou:

        -- A sua passagem já está paga – disse o motorista.

        -- Paga por quem?

        -- Esse cavalheiro aí.

(Fernando Sabino)

 

b) Discurso Indireto

        Nessa modalidade do discurso, o narrador acaba adaptando a linguagem das personagens à sua, não havendo, portanto, uma reprodução fiel do diálogo. É marcante, nessa modalidade, a presença dos conectivos subordinativos “que” e “se”.

        O doutor Fábio, em frente de sua mesa de trabalho, ar um tanto caso, com grande simpatia, perguntou-me o que eu desejava.

        Respondi-lhe prontamente que desejava um lugar na explicação.

        Caso transformássemos, para o discurso direto, o trecho acima, teríamos a seguinte construção:

        O doutor Fábio, em frente de sua mesa de trabalho, ar um tanto caso, com grande simpatia, perguntou-me:

        -- O que você deseja?

        Respondi-lhe prontamente:

        -- Desejo um lugar na explicação.

 

c) Discurso Indireto Livre ou Semi-indireto

        Modalidade do discurso em que as vozes do narrador e personagem confundem-se, não sendo possível identificar, com clareza, a fala de um ou de outro. O narrador reproduz um pensamento da personagem.

        Um dia acabou encontrando-se com ela numa rua escura e semideserta. Seus olhares, cúmplices, se cruzam. Chegou a hora de espantar incertezas. Não, mas não quero precipitar-me.

        Transposições entre pronomes, verbos e advérbios na conversão do discurso:

a) Os pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos e verbos passam de 1ª para 3ª pessoa do singular ou plural: eu, me/mim, comigo convertem-se em ele/ela, o/a/lhe, se/si, consigo.

b) Os advérbios aqui/cá transformam-se em ali/lá; agora torna-se naquela ocasião/naquele momento; hoje em naquele dia.

c) Presente do indicativo passa ao imperfeito desse mesmo modo: estamos muda para estivemos.

d) O pretérito perfeito do indicativo passa ao mais-que-perfeito desse mesmo modo: fiz vira fizera.

e) O futuro do presente converte-se ao futuro do pretérito: farei converte-se em faria.

 

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

 

01 – (CS/2010) Marque a alternativa em que há predominância do discurso indireto:

a) Os homens falaram que não mais iriam trabalhar na obra.

b) Disse-me, com veemência: “não virei mais aqui”.

c) Como saber se aquilo era verdade ou mentira? Não podia acreditar no que acontecera.

d) É possível que o assaltante tenha dito, nunca ganhei dinheiro tão fácil.

e) E o menino corria mais do que era capaz, para poder chegar a tempo.

 

02 – (CS/2010) Mantendo a correspondência entre os tempos verbais, converta o trecho a seguir para o discurso indireto

        Chegando ao local do evento, o artista não gostou muito do que viu. Então, dirigindo-se à coordenação, ele questionou:

        -- Vocês querem que eu me apresente num palco tão pequeno?

        -- É o que temos por ora, explicou o promotor da festa.

        -- Desculpe-me, mas, nesse cubículo, eu não farei o show.

      Chegando ao local do evento, o artista não gostou muito do que viu. Então, dirigindo-se à coordenação, ele questionou se os organizadores queriam que eu ele se apresentasse num palco tão pequeno. O promotor da festa, então, explicou que aquele era o que eles dispunham naquele momento. O artista pediu desculpas, mas afirmou que, naquele espaço, não faria o show.

 

03 – Qual é a principal característica que diferencia o Discurso Indireto Livre (ou Semi-indireto) do Discurso Direto e do Discurso Indireto convencional?

      O Discurso Indireto Livre caracteriza-se pela fusão entre a voz do narrador e os pensamentos/falas da personagem, sem que haja marcas formais de separação. Ao contrário do Discurso Direto (que usa pontuação específica como travessões ou aspas e verbos de elocução) e do Discurso Indireto (que utiliza conjunções subordinativas como "que" ou "se"), o Indireto Livre insere sentimentos e reflexões da personagem diretamente no fluxo da narração, tornando a fronteira entre narrador e personagem sutil e fluida.

 

04 – Reescreva o trecho a seguir, que está em discurso direto, convertendo-o para o discurso indireto:

        "O aluno afirmou: — Terminei todas as tarefas hoje e entregarei o relatório amanhã aqui."

      O aluno afirmou que tinha terminado (ou terminara) todas as tarefas naquele dia e entregaria o relatório no dia seguinte ali (ou lá).

      Regras aplicadas:

      Fim do travessão e inserção da conjunção que.

      Pretérito perfeito (terminei) – Pretérito mais-que-perfeito (tinha terminado / terminara).

      Advérbio de tempo hojenaquele dia.

      Futuro do presente (entregarei) – Futuro do pretérito (entregaria).

      Advérbio de tempo amanhãno dia seguinte.

      Advérbio de lugar aquiali ou lá.

 

05 – Leia a frase a seguir e identifique o tipo de discurso nela presente, justificando sua resposta:

        "Fabiano caminhava pela caatinga sob o sol escaldante. Olhou para o céu sem nuvens. Precisava encontrar água logo, senão a família não resistiria a mais um dia."

      Trata-se do Discurso Indireto Livre. A narrativa começa na 3ª pessoa descrevendo as ações físicas de Fabiano ("caminhava", "olhou"), mas a frase seguinte ("Precisava encontrar água logo, senão a família não resistiria a mais um dia") expressa a urgência e o pensamento íntimo da personagem diretamente incorporado ao texto do narrador, sem o uso de verbos dicendi ("pensou que...") nem pontuação de diálogo ("—" ou "").