domingo, 28 de junho de 2026

CRUZADINHA DE VERBOS - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Cruzadinha de Verbos – Exercícios

 

Transcreva na cruzadinha o verbo de cada frase:

1 – Aquela menina de vermelho parece assustada.

2 – Os policiais, após muitas buscas, encontraram o menino desaparecido.

3 – Um prédio de 12 andares desabou no centro da cidade.

4 – Nessa época do ano sempre chove muito.

5 – No verão faz muito calor em Cachoeiro.

6 – Faço parte de uma banda de pop rock.

7 – Nossa viagem de férias foi perfeita e inesquecível.

8 – Eu nem sempre sorrio nas fotos de família.

9 – Recebi lindas homenagens dos meus amigos antes da viagem.

10 – Durante o passeio, minha prima perdeu todos os documentos.

11 – Tenho fé em Deus e nas pessoas.

12 – A polícia apreendeu seis menores no bairro Vilage hoje.

13 – Depois de duas horas de silêncio e tensão, ele explicou a situação.

14 – Paula e Fábio eram muito felizes juntos antes do casamento.

15 – Agora são duas horas.

16 – Havia mais de duas mil pessoas na fila do show do cantor estrangeiro.

17 – Todos ficaram exaustos após a avaliação.

18 – Deixei meus livros na casa de um amigo.

19 – Fiquei emocionado com aquele novo filme nacional.

20 – Não perca as promoções dessa semana do Mercadinho do Zé.

Respostas:




CRUZADINHA: RUBEM BRAGA - BIOGRAFIA - COM GABARITO

 Cruzadinha: Rubem Braga – Biografia

        Conhecendo o escritor: Rubem Braga

        "Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: Eu sou lá de Cachoeiro."

        Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no dia 12 de janeiro de 1913, é um dos doze filhos do casal Francisco de Carvalho Braga (dono de cartório e 1º prefeito da cidade) e Rachel Cardoso Coelho Braga (filha de um fazendeiro local). 

        Rubem publicou seu 1º texto aos 15 anos, no jornal Correio do Sul, de Cachoeiro. Nesta mesma época, aborrecido com um professor que o havia criticado, mudou-se para Niterói, o primeiro pouso entre muitas cidades, até fixar moradia no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito.

        Graças à indicação do irmão Newton, jornalista, consegue uma vaga de repórter no Diário da Tarde, de Belo Horizonte, começando uma carreira que se estenderia, durante 58 anos, por diversas publicações brasileiras.

        Foi correspondente de guerra, editou páginas de polícia, fez copidesque e estabeleceu-se, acima de tudo, como cronista. Ele inventou a moderna crônica brasileira. Seu texto trouxe novas nuances de lirismo, humor, leveza e descompromisso, virtudes que atualizaram a crônica e a caracterizam hoje uma das atrações de maior sucesso nos jornais brasileiros.

 

Exercício:

Encontre no caça-palavras as 12 palavras em destaque no texto.



 

CRUZADINHA DE VERBOS - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Cruzadinha de Verbos – Exercícios

 

Transcreva na cruzadinha o verbo de cada frase:

1 – Aquela menina de vermelho parece assustada.

2 – Os policiais, após muitas buscas, encontraram o menino desaparecido.

3 – Um prédio de 12 andares desabou no centro da cidade.

4 – Nessa época do ano sempre chove muito.

5 – No verão faz muito calor em Cachoeiro.

6 – Faço parte de uma banda de pop rock.

7 – Nossa viagem de férias foi perfeita e inesquecível.

8 – Eu nem sempre sorrio nas fotos de família.

9 – Recebi lindas homenagens dos meus amigos antes da viagem.

10 – Durante o passeio, minha prima perdeu todos os documentos.

11 – Tenho fé em Deus e nas pessoas.

12 – A polícia apreendeu seis menores no bairro Vilage hoje.

13 – Depois de duas horas de silêncio e tensão, ele explicou a situação.

14 – Paula e Fábio eram muito felizes juntos antes do casamento.

15 – Agora são duas horas.

16 – Havia mais de duas mil pessoas na fila do show do cantor estrangeiro.

17 – Todos ficaram exaustos após a avaliação.

18 – Deixei meus livros na casa de um amigo.

19 – Fiquei emocionado com aquele novo filme nacional.

20 – Não perca as promoções dessa semana do Mercadinho do Zé.

Respostas:




ORAÇÕES SUBORDINADAS V - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Orações Subordinadas V – Exercícios

 Fábula: O astrônomo

          Esopo

        Um astrônomo gostava de fazer passeios noturnos para olhar as estrelas. Certa vez ia tão distraído que caiu num poço. Enquanto tentava sair, seus gritos de socorro atraíram a atenção de um homem que passava. Ao ser informado do que havia acontecido, o homem riu e disse:

        — Meu bom amigo, tanto o senhor se esforçou para olhar o céu que não se lembrou de olhar o que tem debaixo dos pés!

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiwXhcu8uoFKA-_EbdFaFxcC5zQKGB7snDr2jSveutZCj1NWJ03XueJfkrc9ktxhNTzKC8Ca69jzm9mFZoiPmOdKonp0kuXQg7P7E53uzYA946WYhF3vT2KVkDP7SNkLBP1lAPMeFWB5AjgQIMYwbpJU6oKXSRiCIyilZ_VhFbIYGD9kFGC3JvRLBgn2gw/s320/hq720.jpg

        Moral: É fácil deixar de ver o óbvio.

Entendendo a fábula:

01 – Qual dos ditados populares a seguir transmite o ensinamento do texto?

(  ) Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.

(X) Quem olha muito para longe, não vê o que está perto.

(  ) A sorte de uns é o azar de outros.

(  ) A ocasião faz o ladrão.

02 – No período “Um astrônomo gostava de fazer passeios noturnos...”, a oração em destaque completa do sentido do verbo “gostava”, ligando-se a ele por meio de uma preposição (de). Logo, essa oração é subordinada substantiva:

(  ) subjetiva                

(  ) objetiva direta                   

(  ) completiva nominal

(  ) predicativa            

(X) objetiva indireta                

(  ) apositiva.

03 – No período “Um astrônomo gostava de fazer passeios noturnos para olhar as estrelas”, a oração em destaque serve para indicar o objetivo do fato da oração principal. Sendo assim, essa oração é subordinada adverbial:

(  ) Causal   

(  ) Proporcional  

(  ) Temporal      

(X) Final.

04 – Em “Ia tão distraído que caiu num poço” e “tanto o senhor se esforçou para olhar o céu que não se lembrou de olhar o que tem debaixo dos pés.”, as orações em destaque servem para indicar a consequência dos fatos da oração principal. Logo, classificam-se como subordinadas adverbiais:

(  ) Temporais    

(  ) Concessivas     

(X) Consecutivas    

(  ) Condicionais

05 – A oração “Enquanto tentava sair, seus gritos de socorro atraíram a atenção de um homem...”, a oração em destaque serve para informar o momento em que aconteceu o fato da oração principal. Portanto, classifica-se como subordinada adverbial:

(  ) Comparativa   

(X) Temporal      

(  ) Final         

(  ) Conformativa.

06 – Em “... seus gritos de socorro atraíram a atenção de um homem que passava”, a oração em destaque tem função de adjetivo, caracterizando a palavra “homem”, esclarecendo que se refere especificamente ao homem que passava. Dessa forma, a oração em destaque é subordinada adjetiva:

(X) restritiva                            

( ) explicativa.

 

CRÔNICA: AMOR PLATÔNICO - JOÃO FRANCISCO P. CABRAL - COM GABARITO

 Crônica: AMOR PLATÔNICO

             João Francisco P. Cabral

 

        Em um dos mais belos textos da literatura mundial, O Banquete, Platão expôs aquilo que seria a sua doutrina sobre o amor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfRx7vckWKfMMTP5vkV4W6CIxptjm56ctrtcRX6OZcJxT83C3dJ6A08D1pwsfikvE5BuKAIek2y6ep3SiOOZuvabbQ0JfyA5w8q1EckyB56Hc03fGdfsVyxdpcJzk2x-I3uGZzyUCDIWOd8SqCvcN06pd43X2bPl4zhRr2k7N9qMV8CiXih_SnAHymwXI/s320/4d5432c3-2afa-4e9f-98a5-8a9479dccd3cBANQUETE1_W.png


        A narrativa que rememora uma festa acontecida na casa de um famoso poeta (Agatão) vai desencadear uma série de elogios ao deus que, se acreditava, não havia ainda recebido os louvores dos homens. Assim, o deus foi tido por diversos caracteres, desde o deus mais antigo e por isso bom educador, passando por uma força cósmica universal geradora dos seres, até uma dupla característica, uma vulgar e outra ascética, bem como também o deus mais jovem, mais belo e por isso irresponsável, criador, etc.

        Chegada a vez de Sócrates falar, surge o problema: Sócrates não sabe falar bem (eloquência). Ele não sabe elogiar, mas gostaria, na forma dialogada, falar do deus. E sua primeira questão é: o que é o amor? Ou seja, antes de falar se ele é bom ou mau, belo ou feio, se ajuda ou se atrapalha na educação, deveríamos saber o que ele é. Para desconcerto geral, Sócrates define o amor como sendo a busca da beleza e do bem. E sendo assim, ele mesmo não pode ser belo nem bom. Quem ama, deseja algo que não tem. Quando se tem, não se deseja mais, ou se se deseja, deseja manter no futuro, o que significa que não o tem. E todos só desejam o melhor, ninguém escolhe o mal voluntariamente. Logo, o amor é o desejo do belo e do bom. Essa definição permite uma compreensão universal do objeto (o amor). Mas não devemos também acreditar que por não ser bom, o amor é mau. Não é uma conclusão necessária. Para isso, Sócrates vai contar o que Diotima contou-lhe sobre o amor.

        Para combater o mito que acabara de escutar da boca de um comediógrafo (Aristófanes - mito da alma gêmea), Sócrates mostra o que aprendeu com aquela que o iniciou nos mistérios do amor. Diotima disse ao nosso filósofo que durante uma festa, todos os deuses foram convidados, menos a deusa Penúria. Faminta e isolada, ela procurou alimento nos restos da festa. Porém, ao ver o deus Astuto, deus engenhoso, cheio de recursos e que estava embriagado, deitado num jardim, a deusa resolveu ter um filho com ele. Nasce daí o deus Eros (ou amor), que assume as características de seus pais. Como sua mãe, ele é pobre, carente, faminto, desejante. Mas como seu pai, ele é nobre, cheio de recursos para alcançar o que lhe aprouver, saciando suas necessidades.

        Em um nível cósmico, a função do deus é ligar os homens a Zeus, sendo um intermediário entre eles. Aos deuses, o amor leva as súplicas dos homens, seus anseios, suas dúvidas e necessidades através das preces e orações. Aos homens, o deus do amor traz as recomendações aos sacrifícios e honra aos deuses. Por isso, não sendo nem bom nem mal, mortal e também imortal, o amor é o que nos leva a escolher sempre o melhor, a fazer o bem. Ele morre, como um desejo que se acaba, mas logo nos inflama novamente, renascendo na alma dos homens. Todavia, o que é o belo e o bem que o amor busca?

        Para Platão, no nível mais imediato, o amor refere-se à nossa sensibilidade e apetites, principalmente o sexual. Vemos, a partir de um corpo, a beleza, e o desejo de procriar nele. Isso significa, inconscientemente, que o desejo por um corpo belo é a tentativa da matéria de se eternizar. Os filhos são uma forma dos pais serem eternos. No entanto, o belo não é somente o corpo, tanto que logo que esse desejo se esvai, percebemos que outros corpos também nos atraem. Assim, passamos do singular (indivíduo) para o universal (todos os indivíduos). Mas ainda nisso não consiste a beleza, apenas participa da ideia. Para Platão, subimos degraus na compreensão da beleza, dos corpos até as ações nas ciências, nas artes e na política, que expandem a ideia de beleza. Mas ela mesma é uma ideia, norteadora das ações humanas, que dirige as almas para o bem absoluto que não pode simplesmente ser conquistado pelo homem encarnado.

        Portanto, o homem, como duplo corpo-alma, jamais conhecerá a verdade de modo absoluto. Isso cabe somente aos deuses. Mas nem por isso deve deixar de se desenvolver. É moral dever agir procurando o melhor sempre. Ao homem, ser desejante intermediário entre os deuses e os outros seres não conscientes, cabe buscar o conhecimento que o aproxime dos deuses, não se deixando fascinar pelo sensível, mas buscando compreender o inteligível, o reino das ideias, o que propriamente é o saber. Assim, naturalmente, o homem é filósofo (ou deveria ser!) buscando a sabedoria, entendendo por isso a melhor forma de usar a parte que lhe é principal – a alma – para agir, ser dono dos desejos, compreendendo a função de cada um e não se tornar escravos desses.

Por João Francisco P. Cabral. Colaborador Brasil Escola.

 

Entendendo a crônica:

 

01 – Como Sócrates desconstrói a ideia de que o Amor (Eros) é um deus belo e bom?

      Sócrates propõe uma abordagem lógica ao questionar, antes de tudo, o que é o amor. Ele define o amor como a busca, o desejo pelo belo e pelo bem. A partir disso, surge a conclusão de que o amor não pode ser belo nem bom por si mesmo, pois quem ama deseja aquilo que não tem. Como o amor passa a vida inteira buscando e desejando a beleza e a bondade, significa que ele carece de ambas.

02 – Qual é a origem mítica do deus Eros (o Amor) segundo o relato de Diotima e quais características ele herdou de seus pais?

      Diotima conta que Eros nasceu durante uma festa dos deuses, fruto da união entre a deusa Penúria (que estava faminta e isolada) e o deus Astuto (que estava embriagado em um jardim). Dessa união, Eros herdou características de ambos: de sua mãe, herdou a pobreza, a carência e a condição de estar sempre faminto e desejante; de seu pai, herdou a nobreza e a engenhosidade, sendo cheio de recursos e estratagemas para alcançar aquilo que deseja e saciar suas necessidades.

03 – No nível cósmico, qual é a função atribuída ao amor e por que o texto afirma que ele "morre e renasce"?

      No nível cósmico, o amor funciona como um intermediário e um elo de ligação entre os homens e os deuses (Zeus). Ele leva aos deuses as preces, súplicas e dúvidas dos mortais e traz aos homens as recomendações divinas. O texto afirma que ele "morre e renasce" porque atua como o próprio desejo humano: ele morre temporariamente quando um desejo específico é saciado, mas logo se inflama e renasce na alma quando surge uma nova busca pelo melhor.

04 – Como Platão explica a transição do amor físico (sensível) para o amor ideal (inteligível)?

      Para Platão, o amor começa no nível mais imediato da sensibilidade e do apetite sexual, onde o ser humano é atraído por um corpo belo para procriar — uma tentativa inconsciente da matéria de se eternizar através dos filhos. Contudo, o homem percebe que a beleza não está presa a um único corpo e expande esse sentimento para o plano universal. A partir daí, o indivíduo "sobe degraus", passando a enxergar a beleza nas ações humanas, nas ciências, nas artes e na política, até atingir a compreensão da Beleza como uma Ideia pura e norteadora, que direciona a alma ao bem absoluto.

05 – Diante da condição humana de "duplo corpo-alma", qual deve ser o papel do homem e a sua relação com a filosofia de acordo com a crônica?

      Como um ser duplo (composto de corpo e alma), o homem jamais conhecerá a verdade de modo absoluto, algo que cabe apenas aos deuses. No entanto, seu dever moral é buscar o conhecimento que o aproxime do divino, sem se deixar escravizar pelo mundo sensível (dos desejos físicos). O homem deve usar a sua parte principal — a alma — para ser dono de suas paixões e compreender o mundo inteligível. É essa busca constante pela sabedoria e pelo aperfeiçoamento que torna o ser humano, naturalmente, um filósofo.

 



 

ROMANCE: ALMAS MORTAS - NIKOLAI GOGOL - COM GABARITO

 Romance: Almas Mortas

                Nikolai Gogol

 

        Almas Mortas é a última e mais marcante obra de Gogol e constitui uma referência importante na literatura russa na medida em que marcou a transição do Romantismo oitocentista para o realismo. Neste contexto, Gogol acabou por ser um dos maiores precursores dos grandes escritores russos Tolstoi e Dostoiévski. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmFYyS72kFj0O6diRD3WkpS-MV11RMhhI3yHE3RvjfmVFsScQp4pI3LXqaNaUVBJusl1e7q5q-xleYS1BavE3z9t8mXOhx4LmhS4lbOVaoyUVJkWUYDa1mJWuxDYF8QVYw0_WkenKAFNPTnlLE-oDgVKMzQLOrwfKuPPL0KLubLGIT77An9ic2AjystCA/s1600/images.jpg


        Almas Mortas foi uma obra maldita na época, pela crueza com que aborda a questão da servidão ainda em voga na Rússia naquela altura (1835). Num estilo direto e incisivo, Gogol aponta o dedo a uma sociedade anacrônica onde os servos constituíam propriedade dos seus senhores, que dispunham a seu bel-prazer das suas almas e dos seus corpos. O termo “almas” designa, na história da servidão russa os camponeses que eram propriedade dos seus senhores. O herói da narrativa, Chichiev, dispõe-se a comprar servos que haviam falecido, mas que ainda tinham existência legal por não terem sido abatidos nas listas de recenseamento. O objetivo destas transações só é revelado no final.

        O estilo de Gogol impressiona pela forma como constrói um verdadeiro diálogo com o leitor, constituindo uma proximidade que nos leva a ler como quem ouve uma estória.

        Tal como Tolstoi e Dostoievski, Gogol critica asperamente a subserviência dos russos, que desprezam os inferiores e bajulam os superiores de forma descaradamente interesseira. Todos os vendedores de almas que o autor descreve ilustram as facetas mais negativas da alma humana e do povo russo em particular. É o caso de Manilov, um pequeno proprietário preguiçoso, sem vontade própria e sem ambição; uma viúva sovina totalmente desprovida de inteligência; Nozdriov, bêbado, mentiroso, jogador inveterado que recusa vender as suas almas, mas dispõe-se de bom grado a jogá-las – símbolo do desprezo extremo pela alma humana; Sobakevitch diz mal de todos – é o exemplo da maledicência; Pliuskine é o mais avarento que se possa imaginar – tem mais de mil servos e os celeiros cheios, mas vive na miséria.

        Assim, o alvo maior da crítica de Gogol é a pequena aristocracia rural avarenta, uma espécie de classe média a que se juntam funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos. Este grupo contrasta com a alta aristocracia esbanjadora até ao extremo. Todos, sem excepção, são interesseiros e corruptos, usando muitas vezes uma delicadeza exagerada, mas hipócrita para tentar enganar as pessoas com quem negociam. Prevalece a inveja e mesmo o ódio dissimulado. O bem público e a moral são completamente esquecidos. Os servos, esses, constituem apenas instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação, sendo completamente esquecidos enquanto pessoas. Pelo contrário, são normalmente encarados como bêbados e preguiçosos e castigados duramente. A alienação interesseira das almas constitui o cúmulo, o expoente máximo do desprezo pelo ser humano.

        Gogol faz também uma caracterização mordaz das mulheres da alta sociedade. Quase desprovidas de inteligência, são capazes de alimentar os maiores dos boatos. Preocupam-se acima de tudo com as aparências e o seu comportamento social gira sempre em torno do “galanteio” ou então da maledicência. O que é certo é que Gogol acaba por apontar o dedo acusador aos homens que, na sua maioria, se deixam envolver pela maledicência, pondo em causa tudo e todos com os boatos mais torpes. Na Rússia as pessoas gostam de falar de escândalos, diz Gogol. O leitor não pode deixar de questionar: só na Rússia?

        O final do livro é absolutamente brilhante, com a resposta a dois mistérios que se mantinham desde o início: qual a verdadeira personalidade de Chichikov (que Gogol habilmente vai escondendo) e com que intenção comprava ele as almas. A surpresa das respostas é tal que o leitor é levado a rever todas as explicações que o seu espírito foi construindo ao longo da leitura. 

Nikolai Gogol. Romance Almas Mortas.

 

Entendendo o romance:

 

01 – Qual é a importância histórica e literária de Almas Mortas no cenário da literatura russa?

      A obra é um marco fundamental porque representou a transição do Romantismo do século XIX para o Realismo na Rússia. Com isso, Nikolai Gogol consolidou-se como um dos maiores precursores de gigantes da literatura mundial, como Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski.

02 – No contexto histórico da servidão russa retratado no livro, o que significava o termo "almas"?

      O termo "almas" era utilizado para designar os camponeses (servos) que eram tratados como propriedade legal de seus senhores. Os proprietários de terras tinham total controle sobre a vida, o corpo e o destino dessas pessoas.

03 – Qual é o plano central do protagonista Chíchikov na narrativa e que mistério o envolve?

      O plano de Chíchikov consiste em viajar pela Rússia para comprar servos (almas) que já haviam falecido, mas que ainda constavam como vivos nas listas oficiais de recenseamento do governo. A verdadeira intenção por trás dessas transações e a real personalidade do protagonista são mistérios mantidos por Gogol e revelados de forma surpreendente apenas no final do livro.

04 – Como o texto descreve a atitude dos russos da época em relação à hierarquia social, e quem é o alvo principal da crítica de Gogol?

      Gogol critica asperamente a profunda subserviência da sociedade russa, onde as pessoas costumavam desprezar os indivíduos de classes inferiores e bajular os superiores de maneira descarada e interesseira. O alvo principal de sua crítica é a pequena aristocracia rural avarenta (uma espécie de classe média), além de funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos.

05 – Os vendedores que negociam com Chíchikov representam facetas negativas da alma humana. Como o texto caracteriza os personagens Manilov e Pliúshkin?

      Manilov: É caracterizado como um pequeno proprietário extremamente preguiçoso, sem vontade própria e totalmente desprovido de ambição.

      Pliúshkin: Representa o ápice da avareza. Apesar de possuir mais de mil servos e os seus celeiros cheios de riquezas agrícolas, ele escolhe viver na mais absoluta miséria por puro apego material.

06 – De acordo com a obra, como os proprietários de terras enxergavam e tratavam os seus servos vivos?

      Os servos eram desumanizados, sendo vistos apenas como instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação. Os senhores costumavam rotulá-los como preguiçosos e bêbados, ignorando-os como seres humanos e aplicando-lhes castigos duríssimos.

07 – Como Nikolai Gogol caracteriza as mulheres da alta sociedade na obra e qual comportamento social ele estende também aos homens?

      As mulheres da alta sociedade são descritas de forma mordaz como pessoas quase desprovidas de inteligência, focadas apenas nas aparências, no galanteio e na fofoca. No entanto, o autor aponta que os homens não são diferentes: a maioria deles também se deixa envolver pela maledicência, espalhando e alimentando os boatos e escândalos mais torpes.

 

 

 

POEMA: SOLITÁRIO - AUGUSTO DOS ANJOS - COM GABARITO

 Poema: SOLITÁRIO

          Augusto dos Anjos

Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiuBget58pcyVfHCcWd9hqSbW35cMTQmgJAwWhdEw3fosBaupzty_J17CEY3vkmmi9-gt7GEDKjmSV5IHDAYB9_C7r9uQoXf6P0AIIB0F7f2l8qnxOwiB2kkijk201qPMNWV6yMuFdBfRxJWFmUgZRwIRErNi5s1b89UVbmQC2j-QHhVaETuU6Mi8l4c7Y/s320/maxresdefault.jpg



Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Augusto dos Anjos

Entendendo o poema:

01 – O que a comparação inicial do eu lírico com um "fantasma" revela sobre o seu estado psicológico no início do poema?

      Ao se comparar a um "fantasma que se refugia / Na solidão da natureza morta", o eu lírico revela um estado de profundo isolamento, desumanização e invisibilidade existencial. Ele não se sente um homem vivo, mas uma assombração vagando por ambientes fúnebres ("ermos túmulos"). Esse ponto de partida mostra que a sua busca pela porta do ser amado era uma tentativa desesperada de encontrar amparo e salvação para a sua própria decadência.

02 – Como o frio é caracterizado na segunda estrofe e qual o significado dessa descrição para a mensagem do poema?

      O frio não é descrito como um fenômeno climático comum ou suportável, mas como uma força destrutiva e violenta. O eu lírico afirma que "não era esse que a carne nos conforta", mas um frio que "cortava assim como em carniçaria / O aço das facas incisivas corta". Essa imagem agressiva e anatômica (típica do vocabulário científico e expressionista de Augusto dos Anjos) simboliza a dor dilacerante da rejeição e a hostilidade do ambiente que o cercava.

03 – Qual é a reação do ser interpelado diante do sofrimento do eu lírico e qual a consequência imediata disso?

      O ser interpelado ignora completamente o sofrimento do eu lírico ("Mas tu não vieste ver minha Desgraça!"). A consequência imediata dessa indiferença é o abandono definitivo de qualquer esperança. O eu lírico vai embora tomado pelo desprezo e pela repulsa absoluta em relação ao mundo e a si mesmo, retirando-se "como quem tudo repele".

04 – Na terceira estrofe, o eu lírico se compara a um "velho caixão a carregar destroços". Como essa metáfora sintetiza a sua condição após a rejeição?

      Essa metáfora sintetiza a morte em vida e o esvaziamento interno da personagem. O eu lírico deixa de ter um corpo funcional para se transformar em um mero objeto funerário ("velho caixão"). Os "destroços" que ele carrega representam suas memórias fragmentadas, suas ilusões desfeitas e os restos psicológicos de um amor ou de uma dignidade que foram completamente destruídos pelo abandono.

05 – Como os conceitos de morte e materialidade física são reforçados nos três versos finais do poema?

      Nos versos finais, o eu lírico reduz a própria existência à matéria puramente biológica e em decomposição. Ele descreve o próprio corpo como uma "tumba carcaça", a pele como um "pergaminho singular" (velho, seco e desgastado) e os ossos como um "chocalho fatídico". O som dos ossos batendo uns contra os outros funciona como um prenúncio trágico e inevitável do fim absoluto, despindo o ser humano de qualquer traço de espiritualidade ou beleza.



CONTO: A PRINCESA E O ANJO NEGRO - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Conto: A PRINCESA E O ANJO NEGRO

           David Gonçalves

 

        Eram sete irmãs. Seis se casaram. Menos uma. E a mais bonita. Filhas de um pequeno comerciante, que a todas reservou boa educação e dote considerável. Pouco comum, naquele tempo, as mulheres frequentarem escolas. Mas elas frequentaram ensino pago. O pai não poupou esforços. Trabalhava no velho armazém como escravo. Ele sabia que não era fácil casar uma filha que não tivesse boa educação e uma quantia razoável de moedas. Até à sua morte, durante mais de quarenta anos, quem passasse pela rua, podia vê-lo trabalhando até altas horas. Costumava-se dizer, que ele tinha calos na barriga de tanto esfregá-la no balcão.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgHQ8DOq6JLT5l3kRUSa5VTuLzzWD5YZLvd0Vb5MShqUAH9j8_RfKFtxPBWm4B4VKMGas6GxRdZFBujHbg4zNhMZljr19Zzz1asBL1In84v0M1HXwshG36vf05UDZopSB7rSZ77X4VjWvORRchNDTRKPaUq6ome7u-hOURzv8M5kN2pqKUv1okQ_nYBRbA/s320/DESTAQUE.jpg


        A todas elas, choveram pretendentes. Afinal, que moço de nossa região não desejava uma oportunidade desta?  Todas belas, nenhuma com defeitos graves, a não ser umas pintas aqui e acolá, que ajudavam a deixá-las mais bonitas. Maria, Judite, Lindalva, Rosa, Elisa, Joana e Francisca. Dos dezoito anos aos vinte, uma a uma foi-se casando, deixando o ninho. Mas Lindalva, talvez a mais bela, não deixou.

        Todos se perguntavam: o que havia de estranho? Por mais que indagassem, nada era visível. E isto atiçava a curiosidade de nossa gente. Somos uma espécie de seres aguçados pela magia que o desconhecido proporciona.

        Desde pequena, Lindalva destacava-se das outras. Conforme crescia, tornava-se mais exigente. Enquanto as irmãs contentavam-se com a vida simples da pequena cidade, ela criava ares de importância. Para ir à escola, vestia-se com esmero. Penteava-se lentamente, colocava flores nos cabelos negros, como se fosse já moça.

        As outras meninas brincavam no pátio da escola, sujavam-se, algumas até brigavam e voltavam para casa com rasgões no uniforme. Lindalva não se misturava com as meninas, muito menos com os meninos. As professoras a tratavam com mimos. Era o exemplo na higiene, no comportamento e nas avaliações. Seus cadernos eram diferentes, cheios de florzinhas e cores do arco-íris. Enquanto as meninas tagarelavam, ela postava-se numa velada educação.

        -- Por que não fazem como Lindalva? – esbravejava a professora de Arte. – Olhem para ela: está sempre limpa, traz as tarefas em dia!

        Por isso era odiada. Qual criança gosta de ser comparada com outra? Em pouco tempo, andava só. Ninguém queria fazer-lhe companhia. Sinceramente, andar com ela seria como ficar no meio de fogo cruzado.

        Mesmo ainda uma criança – nem completara treze anos –, começou a encher-se de perfumes, que ela sorrateiramente pegava das prateleiras do armazém. Tomava longos banhos, como se fossem rituais. Desde esta idade, entregou-se a uma verdadeira loucura por roupas. Todas as meninas apreciam roupas bonitas, mas com ela era diferente. Procurava destacar-se pelo charme e a novidade. Devorava as revistas de moda e procurava colocar-se na vanguarda. A moda nem tinha chegado ao Rio de Janeiro ou São Paulo, ela já estava atormentando as costureiras para copiar os modelos. Isto, sem dúvida, espantava a cidade.

        Em grupo, falavam coisas e coisas dela, mas, no íntimo, tinham certa inveja. Chegava a ser até mesmo ridículo. Mas logo outras mocinhas começavam a imitá-la. Todas as suas conversas giravam em torno das novidades da moda e de seus caprichos. Tornava-se chata. Era amada escondidamente e também odiada.

        Aquilo, entretanto, logo se revelou uma verdadeira paixão. Seus olhos brilhavam. A mesada que recebia dos pais era consumida nestas extravagâncias. De noite, por diversas vezes, foi pilhada cortando metros de fazenda do armazém do pai, como ladra. Até mesmo caçar borboletas, como se deu com o velho alemão Fritz Walden, pode tomar conta do coração e se transformar numa paixão. Já não se trata de algo domável, mas de uma obsessão, uma espécie de doença.

        Dizia às irmãs:

        -- Vocês são bobas! Se agarram, desesperadas, ao primeiro homem que aparece. Até parece que o homem é uma tábua de salvação! Tolinhas...

        As irmãs riam. O fato é que elas, apesar de bobinhas e desesperadas, como Lindalva apregoava, estavam casando. Não aguardavam o príncipe encantado. Queriam homens trabalhadores e que as tratassem bem. Mas Lindalva, a cada dia, tornava-se mais exigente.

        As mulheres, então, usavam as roupas por muitos anos. Não era só para uma estação. O comerciante vendia peças inteiras, fechadas. Lindalva usava no máximo três vezes, depois abandonava as peças e ia atrás de outras novidades. Para cada ocasião, um traje. Batizados, casamentos, missas, visitas – tudo exigia um traje diferente.

        Conselhos da mãe não lhe faltavam. Os pretendentes apareciam, logo sumiam. Desprezava-os, tratava-os como chinelos gastos.

        -- O que você quer, afinal? – perguntava a mãe, aborrecida. – Um príncipe encantado? Isto só acontece nas histórias de fada, sua bobinha! Pelo que sei você não é nenhuma fada, com a varinha mágica...

        Ela rebatia:

        -- Não me casarei com um pé-rapado! Eu me valorizo. Não devo ter pressa, posso esperar.

        -- Beleza não se põe em mesa, filha! Olha suas irmãs: nenhuma está aflita, estão bem casadas e muito contentes.

        -- Elas não são finas. Sequer sabem usar roupas. Estão gordas e deformadas. Eis o que o casamento com esses brutamontes lhes rendeu. Eu não quero ficar assim, como tamborete.

        -- Menina, olha o que diz! Elas trabalham com seus maridos. Estão indo muito bem. Querem fazer o pé de meias. Nada mais justo.

        -- Ora, mamãe, de que adianta bom pé de meia, cofre cheio, se o corpo se parece com um sapo, uma mulher doente? Se é para envelhecer antes do tempo, a pretexto de servir maridos e angariar fundos, prefiro continuar sozinha.

        -- A juventude, filha, é uma flor delicada, logo se desfaz. Dela, só nos restam as lembranças... Olhe para mim: pensa que sempre tive essas rugas, esses cabelos brancos, essa barriga forrada de gordura? Sem falar das varizes que me torturam... A juventude é uma ilusão...

        -- Ah, mamãe, você ficou assim porque trabalhou demais, quase se matou para nos criar. É justamente isto que eu não quero! A velhice é um fantasma que me assusta, me persegue!

        -- Crie juízo, menina: a beleza é uma espécie de promessa da felicidade. De que adianta a alguém tanta formosura se não tem cérebro? Ela é passageira, filha, e é um bem frágil.

        -- Oh, mamãe, só não quero envelhecer antes do tempo, como acontece com as minhas irmãs.

        Desesperada, a mãe desistia dos conselhos. Dava de ombros e pensava: “Com o rolar dos dias, ela mudará de opinião. Não tem juízo. O amor ainda não tocou o seu coração.”

        Mas não foi isto que aconteceu.

        Mulheres precisam de maridos. Quem escolhe muito acaba sozinha. Os dias passavam e Lindalva dedicava-se a certas extravagâncias. Sua beleza resplandecia e deixava os moços apaixonados, e as moças com inveja.

        Choviam pretendentes. Muitos eram atraídos pelo dote. Nem todas as jovens tinham esta vantagem. As pobres casavam-se ou se amancebavam por circunstâncias: nada tinham que ofertar a não ser noites quentes de amor e trabalho escravo. Precisavam ajudar os seus homens no sustento da casa. Podres de cansaço, elas tinham por obrigação oferecer a mesa posta e bons momentos de cama. Com Lindalva, o dote funcionava como visgo aos homens que vinham de longe, sempre bem arrumados. Mas ela os refutava.

        -- Parece um moço tão distinto! – observava a mãe.

        Ela dava de ombros.

        -- Não gostei.

        -- Do que não gostou? O que espera encontrar nos homens? São todos iguais. São brutos e ignorantes. De noite, não querem saber de beleza alguma. Querem ser satisfeitos!

        -- Ele tem tufos de pelo no nariz. Isto, sinceramente, me dá nojo. Se tem pelos no nariz, também tem nas costas. Não quero me casar com um lobisomem! Deus me livre!

        Para outro pretendente observou:

        -- Cheira igual a um bode.

        -- Ora, qual homem que não exala suor? Só se for um maricão... E as mulheres também fedem.

        -- As vulgares, talvez. Eu não me incluo nesta gentinha.

        -- Do que pensa que é feita? Por acaso, nas suas veias corre água de colônia? Somos barro.

        -- Seja o que for, não quero um bode velho na minha vida.

        Quanto mais desprezava, mais eles se apaixonavam. Os homens gostam das flores que não conseguem colher. Muitos, sofrendo, desapareciam chapadão afora, tresloucados, e nunca mais pisavam o chão da cidade.  Havia o que cobiçava o dote e aquele que se deixava dominar pela força daqueles olhos negros.

        Por esta ocasião, os habitantes começaram a chamá-la de Princesa. Não era elogio, mas destrato. Talvez inveja, talvez despeito. Ou chacota. As más línguas não cochilam.

        -- O que a Princesa procura?

        Respondiam maldosamente:

        -- A geada do ano passado.

        Ora, como se as geadas pudessem ser guardadas de um ano para outro! Quem sabe, ela queria o impossível.

        Choviam ironias:

        -- Está esperando um anjo cair do céu.

        Mas anjos não habitam o terreno dos mortais.

        As casadas, rodeadas de filhos, frequentadoras da igreja, já envelhecidas pelos descuidos e intempéries, invejosas, destilavam veneno puro, cobras peçonhentas.

        -- Toda princesa se transforma em bruxa. Deus nos livre!

        Benziam-se.

        -- Quem sabe, à noite, o seu rosto fica salpicado de verrugas...

        Mas não ficava. O problema é que os anos passavam e a Princesa não percebia. Quando uma mulher não se casa, ela passa a criar horror pelos espelhos. Aparecem os primeiros cabelos brancos e normalmente sobrevém o desespero. Com Lindalva, nada disso acontecia. A cada dia, surpreendia a cidade com novas roupas e novos perfumes, e parecia mais bonita. Por onde andava, um cheiro de colônia pairava sobre as pessoas e as deixava inebriadas.

        Suas amigas estavam casadas e ela se sentia só. As moçoilas não gostam de passear com alguém mais velha. A conversa não flui e também há o medo de que a companhia de uma solteirona dê azar... E tinha o ar esnobe: ninguém a acompanhava nas roupas, nos perfumes, nas peças de teatro que se apresentavam nas grandes cidades. Ela estava muito acima das moças que desejavam arrumar um bom marido.

        Completara trinta anos. Estava pouco ligando para a idade. Embora fosse objeto de baixo falatório, ela continuava bela. Quando todos pensavam que o seu destino era a terrível solidão de solteirona, deu-se o inesperado: apareceu um raro pretendente. Vestia-se de preto. Sua cabeça sustentava um chapéu preto de abas largas. Veio do nada. Dava passadas altivas, como se desfilasse numa passarela, com todas as pompas. Suas calças eram bem vincadas e as botas de tacos fortes rebatiam no calçamento e produziam um barulho de aço.

        -- Pelo sim, pelo não, aqui estou e só levarei o que vim buscar! – disse numa fala empolada, cheio de altivez.

        Era um domingo à tarde e fazia muito calor. Os jovens tinham como hábito passear pela rua central. Lá estava a princesa, sozinha, indo de um lado a outro, com sua beleza insólita, como se esperasse por alguém, quando o cavalheiro negro se aproximou e, fazendo esquisitas mesuras, com um sorriso largo e desproporcional sob o bigode negro, foi dizendo:

        -- Sou o teu anjo. Vim buscar-te.

        Todos esperavam o desprezo usual de Lindalva. Afinal, ela tinha repudiado centenas de jovens. Algo estava para acontecer e todos previam o pior. Aquele pobre coitado sairia do encontro com o rabo entre as pernas. Os cochichos e risos abafados já soavam nos pequenos grupos de moças.

        Perplexa, a população domingueira viu a Princesa dar-lhe o braço e, sorridente, acompanhar o estranho cavalheiro rua acima.

        -- Ora, pois, finalmente o pé esquecido achou o seu chinelo – alguém balbuciou no meio da rua.

        -- Antes tarde do que nunca. Para nós, homens, há sempre uma armadilha preparada – comentou outro, sem explicar o que havia dito.

        Os comentários correram soltos na rua central. Algumas moças diziam que ela o apanhara por desespero. Que tipo de homem era aquele cavalheiro vestido de preto? Ninguém sabia dizer de onde vinha e muito menos se tinha alguma posse. Os moços que haviam sido desprezados por ela soltaram a língua de trapo; as mulheres, casadas ou não, teceram fuxicos apimentados.

        -- Será que ela, enfim, desceu do pedestal?

        -- Por que desceria? Ela nunca teve necessidade alguma de se mostrar humana. Deve ser fria como uma pedra.

        -- Provavelmente, ela conheceu a verdade.

        -- Que verdade?

        -- De que é muito difícil uma mulher bonita se achar realmente bonita quando a juventude declina.

        Brotavam hipóteses.

        -- Quem é o jovem cavalheiro?

        Ninguém sabia.

        Será que ela tinha este caso há tempo, por isso, não mostrava interesse por ninguém? Bem, ela sempre viajava para as cidades grandes. Com certeza, conhecera-o numa dessas viagens. Por que não? Mas por que ela manteve aquele segredo durante tanto tempo? Isso ninguém sabia.

        -- Caprichos de mulher...

        Todos estavam boquiabertos. Alguns seguiram o casal rua afora. Mas, de repente, como o vento, as silhuetas desapareceram, sob a leve poeira esparzida no ar abafado daquela tarde de domingo. Esconderam-se num fundo de quintal, num beco despovoado – foi a conclusão dos curiosos. Ninguém desaparece de um momento para outro, assim-assado!

        Fomos à casa dela. Os pais, já envelhecidos, de nada sabiam. Disseram que ela saíra para o passeio de domingo.

        Ela não apareceu naquela noite, muito menos nos dias seguintes. Uma intensa busca se desenrolou pela região, mas ninguém a tinha visto. Foi um grande alvoroço. Todos tinham as suas opiniões sobre o fato, mas não passavam de especulações. Nunca a cidade presenciara algo parecido.

        -- Pobre coitada! – diziam as mulheres. – Ela percebeu que só havia um jeito de sair do buraco: cavando outro buraco...

        Depois daquele domingo, uma década se passou e ninguém ouviu notícias da Princesa. Muito se falou dela e do estranho cavalheiro negro, que a raptou. Sim, é o que se divulgava: ela fora raptada.

        Outros acontecimentos foram possuindo nossas cabeças e a vida seguia o seu curso. O que há de se fazer? A vida segue em frente. Até sobre a família dela os comentários cessaram. Pais e irmãs sabiam o seu paradeiro? Provavelmente, não. Eles se fecharam em conchas. Sofriam, encolhiam-se resignados ao completo silêncio. E todos compreenderam que a ferida sangrava, por isso evitavam fazer comentários. Seis filhas viviam nas redondezas, casadas, um rol de filhos, ajuizadas e benquistas na comunidade. Uma, talvez a mais bela, encabeçara diverso rumo. O que fazer?

        -- Os dedos da mão são iguais?

        O velho comerciante, após a partida dela, fechou as portas do armazém. Não tinha mais vigor para tocar o negócio. Trabalhara tanto para dar boa educação às filhas e, na velhice, o mundo ruíra aos seus pés. Sentia-se fraco, com dores nas pernas e tropeçava facilmente, como se elas, sem comando, bambeassem. A última vez que o, vi estava numa cadeira de rodas, babava, e dizia palavras desconexas. Numa manhã de inverno, morreu. O enterro se deu sem alvoroço.

        A cidade também se transformara. Havia uma revolução de conhecimentos no campo. Os costumes milenares no trato da terra foram substituídos de forma inesperada. Já não se cortava o trigo com ancinhos. Mas com colheitadeiras potentes. Abandonou-se a enxada. Os tratores reviravam a terra e, ao mesmo tempo, semeavam, distribuindo o adubo na quantidade certa. Os pequenos agricultores – proprietários e meeiros – foram expulsos de seus sítios. Nas cidades, aglomerou-se um bando de gente que, antes, era dedicada ao trabalho, mas que, diante das circunstâncias, não sabia fazer mais nada. Por isso, esse bando de gente andava de um lado para outro, vagabundeando, muitos bebiam pelos botecos e seus filhos iniciavam-se nas drogas.

        -- O ócio destrói – afirmou um professor, revoltado, pois a escola, que era até então um lugar sagrado, tornara-se, repentinamente, um lugar onde não havia respeito e alunos ofendiam professores em público.

        Essa gente queria trabalhar, mas não havia o que fazer. Eram acostumados ao trabalho duro no campo, de sol a sol. Mas os tempos haviam mudado: o campo ganhava produtividade, porém eles conheciam a miséria, e seus filhos eram criados em periferias das cidades junto com ratos e lixões.

        Eis que, do nada, desembargou na rodoviária a Princesa. Chovia muito naquele dia. Uma névoa branca cobria a cidade e uma camada fina de lama vermelha tingia as ruas. Junto dela, uma garota de treze anos. Do bagageiro, desceram na plataforma pesadas malas. Ambas trajavam-se com requinte, com enormes brincos pendurados nas orelhas e sapatos de tacos altos, impróprios para a ocasião.

        -- Sabe quem é a fulana? – perguntou-me o dono do restaurante, onde eu acabara de digerir saborosa refeição caseira.

        Olhei-as. Não acreditei no que via.

        -- É a Princesa! – exclamei surpreso e tomado pela curiosidade. – O fantasma volta ao seu chão!

        -- Veja como elas andam! Eu diria que elas têm a rainha na barriga... Nunca vi tanta vaidade...

        -- Não mudou nada.

        -- Você as conhece?

        -- Uma, pelo menos.

        Fiz questão de ajudá-las a carregar as malas.

        -- Para onde vão?

        -- Ora, para casa – disse-me, enquanto se colocavam na minha frente e caminhavam com altivez. – Vamos, filha!

        -- Mamãe, o que viemos fazer aqui neste fim de mundo? Por acaso, essa gente está ainda na pré-história?

        Ela ralhou entre dentes:

        -- Vá em frente! Não estou disposta a dar explicações.

        Estava mais velha. Mas não perdera o brilho da formosura.

        Uma velha criada a recebeu. Vivia só. Logo que morrera o comerciante, também se findara a esposa. E a criada ficou morando na casa, que era parede e meia com o antigo armazém.

        Deixei-as na porta. Embora ardesse de curiosidade, nada descobri. Retornei ao restaurante e já senti que a notícia se espalhara. Nossa cidade, embora tivesse hábitos novos, despertou-se rapidamente diante do inesperado retorno da Princesa. O assunto estivera adormecido durante uma década, como brasas sob cinza. De repente, bastou um leve sopro e elas se avivaram.

        -- O que a traz de volta? Sumiu sem levantar poeira e voltou como se nunca tivesse pisado por aqui. Há coisas nesta história. Ninguém faz isto à toa...

        E as especulações começaram. A língua espicha porque não tem ossos. Por onde andara naqueles anos? Por que, enfim, voltara? Quem era o pai daquela menina? Que fim tivera o cavalheiro negro que a raptara naquela tarde ensolarada de domingo? Boatos circulavam.

        Aguardávamos impacientes o relato da sua longa ausência. Queríamos ouvir de sua boca e não através de mexericos. Para surpresa geral, ela se enfiou naquela casa e não saiu sequer na porta da rua. Víamos a criada arrastando as pesadas pernas gordas saindo com um cesto para fazer as compras, mas nenhum sinal dela. De nada valia perguntar à criada. Estava surda por causa da idade.

        Restava-nos a visita das irmãs. E, de fato, isto aconteceu.  Quando indagadas, diziam:

        -- Perguntem a ela! – e se fechavam.

        A filha, entretanto, surpreendeu-nos. Frequentando a escola, em poucos dias ficou conhecida. Tinha os mesmos hábitos da mãe quando jovem. Roupas novas, joias, perfumes, o ar esnobe, o culto à beleza. E falava com certa petulância, colocando-se num pedestal. Uma cópia perfeita. Logo ficou odiada e comentada. Os meninos a admiravam e se apaixonavam; as meninas destilavam veneno em suas línguas afiadas. Quando falava sobre as viagens que fizera com a mãe, tornava-se indigesta e criava ciúmes na plateia que nunca havia viajado.

        -- Paris! Paris! Aquilo que é cidade! O berço do amor e da poesia...

        Haveria algum dote para ela? Princesa retornara com algum baú cheio de ouro? Suposições e mais suposições.

        Vi a cidade voltar àqueles anos em que a Princesa desfilava altiva pelas ruas, desprezando jovens apaixonados e causando furor nas amigas, à espera de seu anjo, o cavalheiro negro.

        Perguntaram, certo dia, a Elizabeth por que não se casava. Respondeu com desprezo:

        -- Com esses bodes velhos? Nem morta! Esses homens pré-históricos são capazes de agarrar a mulher pelos cabelos e a arrastarem pelas ruas como troféu. Espero por algo melhor...

        As moças de sua idade foram casando-se. Elizabeth, como a mãe, vivia sozinha, num pedestal. As más línguas a chamavam de Elizabeth, a rainha, já que não podiam chamá-la de princesa.

        -- Se não gosta daqui, por que não vai embora?

        Não havia resposta.

        -- O que está esperando?

        -- Espero por um anjo.

        Por esta ninguém esperava. Um anjo! Mas que besteira! Anjos não habitam a terra.

        -- O fruto não cai longe da árvore – diziam as mulheres que conheciam a Princesa desde pequena.

        -- Só se for o Anjo Negro!

        Elizabeth sacudia os ombros, desdenhando.

        -- Seja o que for. Espero por ele.

        Espalhou-se, de forma abrupta, que ela era fruto de alguma bruxaria. Quando os capuchinhos vieram à cidade para fazer uma lavagem dos pecados, apreensivos, eles foram à casa da Princesa para administrar as bênçãos. Semana Santa, quarta-feira, três deles bateram à porta, mas em vão. Não foram recebidos. Pacientes, esborrifaram água benta nos oitões e a água benta ferveu, evaporando. Eles saíram apressados, como se fugissem de uma legião de demônios, deixando as fiéis beatas apavoradas.

        Na sexta-feira, quando caminhávamos para a celebração do calvário, depois de jejuar até o meio-dia, Elizabeth – com roupas novas, coloridas, pulseiras brilhantes – caminhava alegre na avenida. Parecia que ia para uma festa. Por onde passava, um lastro de colônia pairava no ar, inebriando. Aquilo era um verdadeiro sacrilégio. Mulheres se benziam e caminhavam sôfregas sem olhar para trás.

        Então, para nosso espanto, no meio daquela pequena multidão que caminhava em direção da igreja naquele dia santo, surgiu um cavalheiro negro com um esquisito sorriso sob o bigode espesso, de chapéu de abas largas, e no meio de todos, depois de fazer mesuras, disse com a voz empolada e em bom tom:

        -- Aqui estou, minha rainha.

        Estávamos paralisados.

        -- Sou o teu anjo. Vim buscá-la.

        Elizabeth agarrou-se ao seu braço e, numa conversa elegante, mas abafada, como antigos amantes, caminharam rua afora. Depois, sem deixar vestígios, desapareceram.

        Apavorados, não tivemos dúvidas: era obra do demônio. Quem vira o cavalheiro negro, quando viera buscar a Princesa, não se cansava de dizer:

        -- É o Anjo Mau. Eu vi. Repuxava as orelhas como Belzebu. Aquele chapéu é para esconder os chifres!

        No sábado santo, algumas pessoas picharam a casa da Princesa, com nomes feios, excomungando-a. Mas ela não abriu a porta e muito menos apagou as ofensas das paredes.

        Passou-se mais uma leva de anos. O esquecimento cobriu nossas cabeças. Tudo muda. O mundo é móvel e a vida segue em frente.

        Sempre que passava por perto da casa da Princesa, eu parava, perscrutando. Estaria viva ainda? A criada surda morrera. Urubus nunca pousavam naquele telhado. E ela nunca abria as janelas.

        E um desses dias, em que dava minhas caminhadas, uma janela se abriu, inesperadamente, e vi alguém chamando. Fiquei perturbado. O chamado era para mim. Não havia mais ninguém por perto. Não esperava que alguma janela do velho armazém se abrisse. Belisquei meu braço para ver se estava consciente. Um vulto me chamava. Caminhei trôpego, com chumbo nas pernas. Fosse outro, teria fugido. Ao me aproximar da janela, vi o que não via há anos: a Princesa.

        -- Senhor, por favor, preciso de sua ajuda...

        Abriu-me a porta, que ringiu demoradamente. Mandou-me sentar. O sofá antigo e empoeirado tinha até teias de aranha.

        -- Oh, desculpe a desordem... Depois que a criada se foi...

        Estava curvada e enrugada. Rosto cheio de verrugas e cabelos brancos descuidados. Deixara de pintá-los. Andava com dificuldade. Comunicou-me:

        -- Quero vender tudo o que tenho. Não tenho a quem deixar os meus pertences. Devem valer uma fortuna.

        E me mostrou os casacos de peles, os tapetes persas e chineses, as roupas íntimas, as joias, uma coleção de sapatos, uma infinidade de lenços e vestidos, todos bem dispostos como se estivessem em uma vitrine.

        Fiquei aturdido. Quem compraria aquelas roupas de quarenta anos? Eram vanguarda, então, mas o que fazer com elas hoje? Ela tinha peças íntimas que nunca foram usadas. Ao menor toque, com certeza se desintegrariam como poeira. O cheiro nauseabundo de naftalina me provocava dor de cabeça. Assim mesmo, as traças tinham feito grande estrago. Abriu-me pelo menos uma dúzia de baús. O que fazer com tudo aquilo? Haveria algum maluco disposto a jogar dinheiro fora? Há algo mais volátil do que a moda? Os gostos mudam conforme os ventos. Mesmo as joias – correntes pesadas, longos brincos, pulseiras enormes, grandes broches adornados, anéis de ouro maciço. Só se alguém os derretesse e transformasse em barras.

        -- Quero me desfazer desses objetos.

        Tentei explicar a evolução dos tempos. Minhas palavras soaram inúteis. Enfim, concordei.

        -- Verei o que posso fazer.

        E saí. Respirei fundo: para me desintoxicar, a plenos pulmões. Tinha entrado numa enrascada. O que ela me pedia era absurdo. Bem, pelo menos, estivera frente a frente com ela e, de certo modo, minha curiosidade fora saciada.

        Uma semana depois, quando resolvi visitá-la para dizer que não aceitava a proposta, vi urubus sobrevoando a casa. Forcei a porta e ela se escancarou. Encontrei tudo revirado, baús abertos, roupas jogadas pelo assoalho empoeirado. As joias tinham sumido. No canto da sala, jazia a Princesa, putrefata, o pescoço degolado. Moscas azuis pousavam sobre a pele em decomposição. Ratões remexiam as vísceras e o mau cheiro era insuportável.

        Foi enterrada às pressas. Chovia muito e sua sepultura se encheu de água e lama. Nem mesmo as irmãs compareceram. Ao sair do cemitério, tive a impressão de que o cavalheiro negro também saía. Estava sem guarda-chuva, mas não se molhava, e tinha o mesmo sorriso esquisito sob os espessos bigodes.

David Gonçalves.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Como era a personalidade de Lindalva na infância e de que forma ela se diferenciava de suas seis irmãs?

      Ao contrário de suas irmãs, que aceitavam a vida simples da pequena cidade, Lindalva era extremamente exigente, vaidosa e esnobe desde criança. Na escola, ela não se misturava com os outros alunos, mantinha seus cadernos impecáveis e era usada pelas professoras como exemplo de higiene, o que a tornava odiada pelas outras crianças. Enquanto suas irmãs viam o casamento com homens trabalhadores como algo natural, Lindalva desenvolveu uma obsessão por roupas de vanguarda, perfumes e luxo, recusando-se a envelhecer trabalhando como a mãe e as irmãs.

 

02 – Por que Lindalva recebeu o apelido de "Princesa" pelos habitantes da cidade?

      O apelido "Princesa" não era um elogio sincero, mas sim uma forma de deboche, chacota e expressão de inveja ou despeito dos moradores da cidade. O termo surgiu porque Lindalva andava sempre isolada em seu "pedestal", vestindo-se com luxo extravagante e rejeitando sistematicamente todos os pretendentes da região, tratando-os com desdém sob a justificativa de que não se casaria com nenhum "pé-rapado" ou homem vulgar.

 

03 – O que aconteceu de inesperado quando Lindalva completou trinta anos e qual foi a reação da população?

      Em um domingo de muito calor, surgiu na cidade um estranho e altivo cavalheiro inteiramente vestido de preto, usando um chapéu de abas largas, que se aproximou de Lindalva e disse: "Sou o teu anjo. Vim buscar-te". Para o espanto absoluto da população — que esperava o tradicional desprezo da moça —, Lindalva sorriu, deu-lhe o braço e caminhou com ele rua acima. Logo em seguida, os dois desapareceram misteriosamente como o vento, iniciando um sumiço que duraria uma década.

 

04 – Como a filha de Lindalva, Elizabeth, comportava-se ao retornar à cidade e que paralelo os moradores faziam entre ela e a mãe?

      Elizabeth era uma cópia perfeita da mãe na juventude: herdou o ar esnobe, o culto obsessivo à beleza, o uso de perfumes caros, joias e roupas requintadas. Ela agia com petulância e desprezava os rapazes locais, chamando-os de "bodes velhos" e "homens pré-históricos". Os moradores diziam que "o fruto não cai longe da árvore" e passaram a chamá-la de "Elizabeth, a rainha", prevendo que ela teria o mesmo destino misterioso da mãe.

 

05 – De que forma o "Anjo Negro" reaparece na história e qual o impacto desse evento sobre a população religiosa?

      O cavalheiro negro reaparece anos mais tarde, em plena Sexta-Feira Santa, no meio da multidão que caminhava para a celebração do calvário. Ele faz mesuras para Elizabeth e repete a frase: "Sou o teu anjo. Vim buscá-la". Elizabeth agarra seu braço e os dois desaparecem sem deixar vestígios. A população, apavorada e paralisada, conclui que o homem era o próprio demônio (Belzebu), e o evento gera tanto pânico que os moradores chegam a pichar a casa da Princesa com insultos e excomunhões no Sábado de Aleluia.

 

06 – Qual era o estado físico e psicológico da Princesa quando ela abriu a janela e pediu a ajuda do narrador após tantos anos?

      O narrador encontra a Princesa completamente decadente, velha, curvada, enrugada, cheia de verrugas no rosto e com os cabelos brancos descuidados, vivendo sozinha em uma casa abandonada e cheia de teias de aranha. Psiquicamente, ela continuava apegada ao passado de vaidade: chamou o narrador porque queria vender sua imensa coleção de roupas velhas, casacos de pele e joias acumuladas há quarenta anos, sem perceber que a moda havia mudado e que aqueles tecidos estavam se desintegrando com o tempo e cheios de traças.

 

07 – Como a Princesa foi encontrada morta e qual aparição sinistra encerra o conto?

      Uma semana após o encontro com o narrador, atraído por urubus sobrevoando o local, ele entra na casa e encontra a Princesa morta no canto da sala, putrefata e com o pescoço degolado. Os baús estavam abertos, as roupas reviradas e todas as joias valiosas haviam sido roubadas. No desfecho, ao sair do enterro sob uma forte chuva, o narrador tem a nítida impressão de ver o cavalheiro negro saindo do cemitério, completamente seco e exibindo o mesmo sorriso esquisito sob o bigode espesso.