CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO
Anton Tchekhov
Dizia-se que havia aparecido à
beira-mar uma nova personagem: uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch
Gurov, que já passara em falta duas semanas e habituara-se àquela vida,
começou a interessar-se também por caras novas. Sentado no pavilhão de
Verne, viu passar à beira-mar uma jovem senhora, de mediana estatura,
loura, de boina. Corria atrás dela um lulu branco.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJbUdbx2Vg7g_PmGoQJtTMi__AVmrDXFVdKcSweew2bDx3sjohcoN4b-r4xBtQi32mU0bgyG-3he0FA8YoetK37UUQaIB7ygOuEwlZfOXl0gKh4F-FV2Q-CABameoiguk6Hm-HhwlV41-2lJ4CEo7B2daWNHi8cDH81EIpNwdtqRGa8zq0vG5Z-R6nDRw/s320/71PMdV01dcL._AC_UL600_SR600,600_.jpg
Mais
tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque e nos jardinzinhos
públicos. Passeava sozinha, sempre com a mesma boina e acompanhada do lulu
branco. Ninguém sabia quem era e chamavam-na simplesmente: a dama do
cachorrinho.
"Se
está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou Gurov, "não
seria mal travar relações com ela".
Embora
com menos de quarenta anos, ele tinha já uma filha de doze e dois filhos
no ginásio. Haviam-no casado cedo, quando cursava ainda o segundo ano da
universidade, e agora sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele.
Era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido,
importante, grave e "pensante", como ela mesma se chamava.
Lia muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava
o marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente, considerava-a
pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a e não gostava de ficar em
casa. Havia muito que passara a traí-la, fazia-o com frequência e,
provavelmente por este motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres;
quando, em sua presença, falavam nelas, exclamava:
-- Raça inferior!
Parecia-lhe
que fora suficientemente instruído por sua amarga experiência, para
chamá-las como lhe aprouvesse, mas, apesar de tudo, não poderia passar
dois dias sem a "raça inferior". Aborrecia-se em companhia de
homens e mostrava-se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio
de mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e como se
portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia delas. Em seu aspecto
exterior, em seu gênio, em toda a sua personalidade, havia algo atraente,
imperceptível, que predispunha as mulheres a seu favor, que as atraía; ele
sabia disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.
Uma
experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda
aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na
vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se
invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente
moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro,
problema, extraordinariamente complexo, e a situação, por fim,
torna-se verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com
uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da
memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e
divertido.
Eis
que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim, e a senhora de boina
aproximou-se, em passo lento, para ocupar a mesa vizinha. A expressão de
seu rosto, o andar, a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de
boa sociedade, casada, estava em falta pela primeira vez, sozinha, e
que se aborrecia.
Havia
muita mentira nas histórias que corriam sobre a depravação dos costumes
locais, ele desprezava aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas
por gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando a
senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua, ele se lembrou
daquelas histórias sobre fáceis conquistas e passeios na montanha, e tomou
dele a ideia tentadora de uma ligação fulminante, de um romance com uma
mulher desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.
Chamou
carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou, ameaçou-o com o dedo. O
lulu rosnou. Gurov tornou a ameaçá-lo.
A
senhora olhou para ele e baixou os olhos.
-- Não morde – disse ela e corou.
-- Posso dar-lhe um osso? – e, quando ela assentiu com a cabeça, ele
perguntou afavelmente: – A senhora chegou a falta há muito tempo?
-- Há uns cinco dias.
-- E eu já estou completando aqui a segunda
semana.
Seguiu-se
um silêncio.
-- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se aborrece tanto
aqui! – disse ela, sem olhar o interlocutor.
-- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido. Um habitante
de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não se aborrece, mas, chegando
aqui, repete: "Ah; que cacete! Ah, que poeira!". Pode-se pensar
que chegou de Granada.
Ela
riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos.
Depois do jantar, porém, caminharam lado a
lado e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona,
de gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente
aonde ir e do que falar, ficaram passeando e conversaram sobre o modo
estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água tinha uma cor lilás,
macia e tépida, e sobre ela a lua deitava uma faixa dourada. Falavam em
como o ar ficava sufocante, após um dia de calor. Gurov contou que era
moscovita, formado em Filologia, mas que trabalhava num banco;
noutros tempos, preparara-se para cantar num teatro particular
de ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por sua vez,
soube dela que fora criada em Petersburgo, mas casara-se na cidade de S.,
onde residia havia dois anos, que passaria ainda em falta cerca de um mês
e que era provável vir buscá-Ia o marido, que também queria
descansar. Não sabia explicar direito em que repartição, ele
trabalhava, e ela mesma achava engraçado esse fato. Gurov soube, ainda,
que ela se chamava Ana Sierguéievna.
Voltando
para o quarto, pensou nela e em que, no dia seguinte; certamente haveria
de encontrá-Ia. Deitando-se para dormir, lembrou-se de que, ainda há tão
pouco tempo, ela estivera no colégio, estudara como agora a filha dele,
lembrou-se também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda em
seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido; provavelmente era a
primeira vez que se encontrava sozinha, em tais circunstâncias, seguida e
contemplada, e que alguém lhe dirigia a palavra, com um objetivo secreto
que ela não podia deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço
esguio, frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.
"Apesar
de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena", pensou, adormecendo.
Fazia
uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava
sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava
os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no
pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora
sorvete. Ficava-se sem 'saber onde se meter.
Ao
anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar,
para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais;
reunira-se um grupo, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se
nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de falta:
as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.
Em
virtude do mar agitado, o navio chegou tarde, quando o sol já se havia
posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo
manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os
passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos
fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia
perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o
que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.
A
multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os
rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam
parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava
já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.
-- O tempo melhorou – disse ele – Aonde iremos agora? Vamos tomar
um carro?
Ela
não respondeu.
Ele
a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios;
foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante,
espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.
-- Vamos a sua casa... – disse em voz baixa.
E
caminharam depressa.
O
ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia
comprado numa loja japonesa.
Olhando-a agora,
Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!".
O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes,
alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito
breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo,
sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras
supérfluas, afetadamente, com histeria, com uma expressão que parecia
significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e
ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto
aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar,
arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não
estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes;
quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar
nele ódio e julgava ver escamas no rendado de suas roupas brancas.
Mas
ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude
inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de
perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta.
Ana
Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um
modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua
perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-lhe
os traços e os cabelos compridos penderam-lhe tristemente dos lados do
rosto; ficou pensativa, em atitude desolada,
como a pecadora de um quadro antigo.
-- Isto não está bem – disse ela. – Você, agora, é o primeiro a não me
estimar.
No
quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou
a comê-lo, sem se apressar.
Decorreu
pelo menos meia hora em silêncio. Ana Sierguéievna estava tocante, emanava
dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A
vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o
rosto, mas se via que estava sofrendo.
-- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? – perguntou Gurov.
– Você mesma não sabe o que diz.
-- Que Deus me perdoe! – disse ela e seus olhos marejaram-se. – Isto é
horrível.
-- Você parece que está se justificando.
-- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má,
ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o
marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me
engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não
sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas
sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte
anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor.
Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de
viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade...você não compreende
isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém
me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá...
E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca... e eis
que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.
Gurov
já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele
arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas
nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando
um papel.
-- Não compreendo – disse ele suavemente. – O que é que você quer?
Ela
escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.
-- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida
honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente
do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu
respeito, que o diabo me tentou.
-- Basta, basta, – balbuciou ele.
Olhava-a
nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos
poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.
Depois,
quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes
parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a
margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela,
sonolenta, uma pequena lanterna. Encontraram um carro de aluguel e
foram a Oreanda.
-- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria
está escrito "Von Dideritz" – disse Gurov. – Teu marido é
alemão?
-- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo.
Em
Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio
o mar. Falta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas
permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se
movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado,
do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que
nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam falta,
nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e
abafado, quando
não existirmos mais.
E
nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte
de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação,
do incessante movimento de vida sobre a terra, da
perfeição imorredoura.
Sentado
ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e
embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às
nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se
se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo,
com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando
nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de
nossa própria dignidade humana.
Acercou-se
deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este
pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia
um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas.
-- A erva está coberta de orvalho – disse Ana Sierguéievna – depois
de um silêncio.
-- Sim. É tempo de ir para casa.
Regressaram
à cidade. Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à
beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o
mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo
alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo
ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas
vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia
ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado.
Àquele
ócio, completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem
surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente
ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado
completamente.
Dizia
a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma
impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava
frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a
estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma
mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam
para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram
sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas,
grandiosas.
Esperavam
a vinda do marido. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a
vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana
Sierguéievna apressou-se a voltar.
-- É bom que eu parta – disse ela a Gurov. – É o próprio destino.
Partiu de carro e ele a acompanhou.
Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo
sinal, ela disse:
-- Deixe que olhe para você mais uma vez... uma vez mais.
Assim. Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e. tremia-lhe
o rosto...
-- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não
guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser
assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus...
O
trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se
ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado
propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento,
aquela loucura.
Sozinho
na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gurov ficou
ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação
de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida
ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas
uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro
arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz
com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu
modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera,
transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de
uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o
dobro de idade.
Durante
todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior.
Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade;
por conseguinte, enganava-a sem querer...
Na
estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca. – "É tempo de
partir também para o norte” pensou Gurov, saindo da plataforma. "É
tempo!".
Em
casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto hibernal. Acendiam-se
as estufas e, de manhã, quando as crianças preparavam-se para ir ao
ginásio e tomavam chá, estava tão escuro que a babá acendia, por algum
tempo, as luzes. Começou o frio.
Quando
cai a primeira neve, no primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver
a terra branca, os telhados brancos, respira-se suave e docemente e,
nessa hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias
e bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente, estão mais
próximas do coração que os ciprestes e palmeiras, e, junto delas, não se
quer mais pensar no mar e nas montanhas.
Gurov
era moscovita. Regressando a Moscou num dia bom, frio, vestindo a peliça e
as luvas de inverno, passeando pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o
som dos sinos, aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que
vira perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco na vida
moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia e afirmava não ler
jornais moscovitas por uma questão de princípio. Sentia-se já atraído
pelos restaurantes, pelos clubes, pelos jantares festivos, pelas
homenagens a alguém, e já ficava lisonjeado pelo fato de ser visitado por
advogados e artistas famosos e porque, no clube dos médicos, jogava
baralho com um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção
de sielianka com frituras...
Passaria
um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia
de bruma em sua memória, e somente de raro em raro aparecer-lhe-ia em
sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam.
No
entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas
tudo permanecia nítido na memória, como se a separação com Ana
Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada
vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do
anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um
órgão ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento
na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que
sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o
navio chegando de Feodóssia, os beijos.
Passava
muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as
lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua
imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna,
ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o.
Fechando
os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que
fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles
dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de
livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru
carinhoso de suas roupas.
Na
rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se
assemelhasse... Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar
com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar de seu
amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do
prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele
então? Havia, porventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em
suas relações com Ana Sierguéievna?
Tornava-se
necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre
mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente
sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:
-- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.
Certa
vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia de um funcionário,
seu parceiro no jogo, não se conteve e disse:
-- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!
O
funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente, voltou-se e
chamou-o:
-- Dmítri Dmítritch!
-- Que é?
-- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!
Aquelas
palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado, sem que soubesse por que,
pareceram-lhe humilhantes, impuras. Que selvagens costumes, que rostos!
Que noites estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo
desenfreado, a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre
o mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as
conversas invariáveis ocupavam a melhor parte do tempo, as
melhores energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda,
sem asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como se
se estivesse num manicômio ou numa prisão!
Ficou
a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou o dia seguinte com dor de
cabeça. Nas noites que se seguiram, dormiu mal também, ficava sentado na
cama, pensando, ou andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se
com as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar algum,
de falar em coisa alguma.
Nos
feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse à mulher que ia a
Petersburgo, a fim de pedir certos favores de pessoas influentes, para um
jovem, mas viajou para S. Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha
vontade de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma
entrevista, se possível.
Chegou
a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel; o assoalho estava ali
inteiramente forrado com pano cinzento, de uniforme militar; sobre a mesa,
havia um tinteiro, pardo de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a
cabeça e mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro
deu-lhe as necessárias informações: Von Dideritz morava na
rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel,
ele vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na cidade.
O porteiro pronunciava: "Dridiritz".
Gurov
caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia e procurou a casa.
Bem em frente, estendia-se um muro cinzento, comprido, coberto de
pregos. "Qualquer um teria vontade de fugir de um muro
assim", pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.
Calculava:
não era dia de expediente, e o marido estaria provavelmente em casa. Além
disso, seria falta de tato entrar e deixá-la perturbada. Se mandasse um
bilhete, este poderia cair nas mãos do marido e então tudo estaria
perdido. O melhor seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo
andando pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu
atravessar o portão um mendigo, que foi assaltado por
cachorros; passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons
chegavam-lhe fracos, pouco nítidos. Provavelmente era Ana
Sierguéievna quem tocava.
De
repente, abriu-se a porta principal e por ela saiu uma velha, acompanhada
pelo lulu branco, que ele conhecia. Gurov quis chamar o cachorro, mas, de
súbito, começou a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado,
não conseguiu lembrar o nome do lulu.
Ficou
andando; odiava com intensidade crescente o muro cinzento e pensava já,
com irritação, que Ana Sierguéievna esquecera-o e talvez já se divertisse
com outro, o que seria muito natural na condição de mulher jovem, obrigada
a ver, de manhã à noite, aquele maldito muro.
Voltou para o quarto do hotel e
passou muito tempo sentado no divã, sem saber o que fazer; jantou, depois
dormiu bastante. "Quanta estupidez e nervosismo", pensou,
acordando e olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi
não sei para quê. E o que vou fazer de noite?"
Estava
sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento, que parecia de
hospital, e zombava de si mesmo, com despeito: "Aí tem você a dama do
cachorrinho. Aí tem você uma aventura... Por isso mesmo, fique sentado aí."
Ainda
de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos um cartaz, de letras
muito graúdas, anunciando a estreia de "Gueixa". Lembrou-se
disso e foi ao teatro. "É bem possível que ela
costume frequentar as estreias", pensou.
O
teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros de província, havia
uma névoa pairando sobre os lustres, a galeria inquietava-se ruidosamente.
Antes de começar o espetáculo, os elegantes locais ficavam de pé, na
primeira fila, as mãos atrás.
No
camarote do governador, estava sentada, na frente, a filha deste, de boá,
enquanto o próprio governador ocultava-se modestamente atrás de uma
cortina, deixando aparecer apenas as mãos. O pano de cena
balançava-se, os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando
os instrumentos.
Enquanto
os espectadores entravam e ocupavam os lugares, Gurov ficou procurando
ansiosamente com os olhos. Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na
terceira fila e, quando Gurov a olhou, sentiu apertar-se o coração
e compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em todo o
mundo, pessoa mais próxima, querida e importante.
Aquela
pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana, que não se distinguia
das demais e tinha nas mãos um lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida,
era sua aflição e sua alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da
orquestra ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em
como ela era bonita. Pensava e sonhava.
Entrou
com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um homem moço, de suíças
pequenas, muito alto, um tanto curvado. A cada passo, balançava a cabeça e
parecia estar cumprimentando incessantemente alguém. Era
provavelmente o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá
em Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado, nas
suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com doçura e, na
lapela. fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia também uma chapinha de
lacaio.
No
primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu sentada. Gurov, que
estava também na plateia, aproximou-se dela e disse, com voz trêmula e um
sorriso forçado:
-- Boa noite.
Ela
o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada, sem acreditar no
que via, e apertou fortemente nas mãos, ao mesmo tempo, o leque e o
lorgnon, lutando, sem dúvida, consigo mesma para não desmaiar.
Permaneceram calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a
perturbação dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos e a
flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram a cantar, veio
uma sensação de medo, tinham a impressão de que em todos os camarotes
havia gente olhando para eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou
depressa para
a saída; Gurov acompanhou-a.
Caminharam
sem destino por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos
seus olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante; de
funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam senhoras,
peliças em cabides, soprava um vento encanado, repassado do cheiro de
tabaco. E Gurov, que tinha o coração batendo precipitadamente,
pensou: "Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."
Naquele
momento, lembrou-se de repente de como, certa noite, numa estação de
estrada de ferro, tendo acompanhado Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si
mesmo que tudo estava terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas,
como estava longe ainda o fim de tudo!
Ela
deteve-se numa escada estreita e sombria perto da inscrição: "Entrada para
o anfiteatro".
-- Como você me assustou! – disse, respirando pesadamente e ainda
pálida, atordoada. – Oh, como me assustou! Estou meio morta. Para que veio
até aqui? Para quê?
-- Mas, compreenda, Ana, compreenda... – disse ele a meia voz e apressadamente.
– Eu lhe imploro, compreenda...
Ela
o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor, olhava-o fixamente,
para reter com mais intensidade na memória os traços de seu rosto.
-- Sofro tanto! – prosseguiu ela, sem o ouvir. – Todo esse tempo,
só pensei em você, só vivi com esse pensamento. Ao mesmo tempo, tinha
vontade de esquecer, esquecer, mas, para que, para que foi que você
veio?"
Mais
em cima, entre dois lances de escada, havia dois ginasianos fumando e
olhando para baixo, mas Gurov não se importava com coisa alguma, atraiu
para si Ana Sierguéievna e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces,
as mãos.
-- Que está fazendo, que está fazendo? – disse ela
horrorizada, afastando-o. – Perdemos a cabeça. Vá embora hoje mesmo,
neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há
de sagrado, imploro-lhe... Vem gente aí! "
Alguém
estava subindo a escada...
-- Você deve ir... – prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está
ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas
agora sou infeliz e jamais, jamais terei felicidade! Não me obrigue,
então, a sofrer mais ainda! Juro-lhe que irei a Moscou. E agora,
separemo-nos! Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos!
Ela
apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente a escada, voltando a cada
momento a cabeça, e em seus olhos percebia-se que, realmente, não era
feliz... Gurov permaneceu algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois,
procurou o cabide e saiu do teatro.
Ana
Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo.
Cada dois, três meses, saía de S.,
dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua
doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao
mesmo tempo.
Em
Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada,
mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la
e ninguém em Moscou sabia disso.
Certa
manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe
fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha
caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a
caminho. Caía uma neve graúda, molhada.
-- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve – dizia Gurov
à filha. – Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas
camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
-- Papai, e por que não há trovões no inverno?
Explicou-lhe
isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma
entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente,
jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam
todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentira convencionais, completamente
semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em
segredo.
E
por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era
para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que
ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne
de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a
sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a
verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube,
a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos
comemorativos, tudo isso era aparente.
E
julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre
supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o
manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante.
Cada
existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte,
esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver
respeitado o mistério individual.
Tendo
acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar
Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana
Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov,
esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera.
Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se
atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como senão se
tivessem visto uns dois anos.
-- Bem, como vai a tua vida lá? – perguntou ele. Que há de
novo?
-- Espere, vou dizer daqui a pouco... Não posso. Ela não podia falar,
devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos. "Bem,
que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele
e sentou-se numa poltrona.
Depois, tocou a campainha e mandou trazer
chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a
janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles
dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se
das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?
-- Ora, basta! – disse Gurov.
Era
evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna
afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria
inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela
nem acreditaria nisso.
Aproximou-se
dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele
momento, viu-se no espelho.
A
cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho
que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os
ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam.
Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas
que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a
vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma
pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua
própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas
procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano,
continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O
tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se
delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor...
E
somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava
devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
Ana
Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e
mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado
destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e
ela também.
Lembravam
dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas
separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em
seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor
os transformara.
Anteriormente,
nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de
reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser
sincero, carinhoso...
-- Basta, minha boa menina, dizia ele. – Chorou e chega... Vamos
agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
Depois,
ficavam por muito tempo trocando conselhos, falavam em como libertar-se da
necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes e
ficar muito tempo sem se ver. Como libertar-se daqueles insuportáveis
liames?
-- Como? Como? – perguntava ele, pondo as mãos à cabeça. – Como?
Tinham
a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então,
começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente
para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo
apenas se iniciava.
Anton Tchekhov. CONTO: A DAMA DO
CACHORRINHO.
Entendendo o conto:
01 – Como Dmítri
Gurov e Ana Sierguéievna se conhecem e iniciam o primeiro contato em Ialta?
Gurov a observa
passeando pela beira-mar com seu cão lulu branco e planeja uma aproximação. O
contato inicial ocorre à noitinha em um jardim, quando ela se senta na mesa
vizinha à dele. Para puxar assunto, Gurov chama carinhosamente o cachorrinho,
que rosna. Após a intervenção de Ana dizendo que o cão não morde, Gurov pede
permissão para dar um osso ao animal e lhe pergunta há quanto tempo ela havia
chegado a Ialta.
02 – Qual era a
visão que Gurov tinha das mulheres em geral no início do conto e como ele se
referia a elas?
Gurov, devido às
suas experiências amargas e traições frequentes, costumava referir-se mal às
mulheres, chamando-as secretamente de "raça inferior". Apesar disso,
ironicamente admitia que não conseguia passar dois dias sem a companhia delas,
sentindo-se muito mais despreocupado, loquaz e à vontade no meio feminino do
que no masculino.
03 – Como Gurov
descreve a personalidade e a aparência de sua esposa?
Ele a considera
pouco inteligente, tacanha e deselegante, admitindo que tinha medo dela e não
gostava de ficar em casa. Descreve-a como uma mulher alta, de sobrancelhas
escuras, porte rígido e grave, que se autodenominava "pensante". Ela
lia muito, escrevia cartas simplificando a ortografia e chamava o marido de
"Dimítri" em vez de "Dmítri".
04 – Qual foi o real
motivo que levou Ana Sierguéievna a deixar sua cidade e viajar sozinha para
Ialta?
Ana revela que
casou-se muito jovem, aos vinte anos, movida pela curiosidade e pelo forte
desejo de viver e encontrar uma vida melhor. No entanto, passou a considerar o
marido um "lacaio" (apesar de honesto) e a se sentir sufocada.
Dominada por uma curiosidade que a abrasava, mentiu para o marido dizendo que
estava doente para poder viajar e escapar daquela realidade.
05 – Como Ana
Sierguéievna reage logo após a primeira noite de amor com Gurov no quarto de
hotel?
Ao contrário das
aventuras anteriores de Gurov, Ana encara a situação de forma extremamente
séria e trágica, enxergando o ocorrido como a sua própria perdição. Ela chora,
desunha os cabelos e se compara à "pecadora de um quadro antigo",
afirmando que não enganou o marido, mas sim a si mesma, e temendo que Gurov
deixasse de estimá-la.
06 – Como Gurov
reage inicialmente ao profundo arrependimento e choro de Ana?
Inicialmente,
Gurov fica aborrecido e irritado com o tom ingênuo e o arrependimento dela, achando-o
inesperado e fora de propósito. Enquanto ela sofre e se confessa, ele corta um
pedaço de melancia que estava sobre a mesa e começa a comê-lo calmamente, sem
pressa, antes de tentar acalmá-la com carinhos e palavras ternas.
07 – O que acontece
com os sentimentos de Gurov quando ele retorna a Moscou e mergulha na sua
rotina habitual?
Inicialmente, ele
acredita que Ana se cobriria de bruma em sua memória em pouco tempo. No
entanto, mesmo com o passar dos meses e o rigor do inverno, as recordações
tornam-se cada vez mais intensas. Ana passa a acompanhá-lo por toda parte como
uma sombra; ele começa a se sentir sufocado pela rotina fútil de Moscou e
desenvolve um desejo desesperado de partilhar suas lembranças com alguém.
08 – Qual comentário
comum de um amigo no clube dos médicos desperta a indignação e a crise
existencial de Gurov?
Ao sair do clube,
Gurov tenta desabafar e diz a um funcionário parceiro de cartas: "Se
soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!". O homem ignora o comentário
romântico e responde apenas: "Você tinha razão: o esturjão não estava de
todo fresco!". Essa resposta fútil faz Gurov perceber o quão selvagens,
vazios e absurdos eram os costumes e as conversas da sociedade em que vivia.
09 – Como se dá o
reencontro tenso entre Gurov e Ana na cidade de S.?
Gurov viaja até a
cidade de S. e decide ir ao teatro local na estreia da peça "Gueixa",
imaginando que ela poderia frequentar o evento. Ele a encontra na terceira fila
e, no primeiro intervalo, enquanto o marido dela sai para fumar, aproxima-se e
diz "Boa noite". Ana empalidece, fica apavorada e foge pelos
corredores e escadas do teatro, onde finalmente desabafa sobre o quanto sofreu
pensando nele.
10 – Como o casal
consegue manter o relacionamento após o reencontro no teatro da cidade de S.?
Ana Sierguéievna
passa a viajar para Moscou a cada dois ou três meses para se encontrar
secretamente com Gurov. Ela justifica as viagens ao marido dizendo que vai
consultar um professor de Medicina sobre uma "doença de senhora". Na
capital, ela se hospeda no hotel "Bazar Eslavo" e envia um mensageiro
de chapéu vermelho para avisar Gurov, permitindo que vivam uma vida dupla e
clandestina.