Poema: Não te Fies do Tempo nem da Eternidade
Cecília Meireles
Não
te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhw_ULcaI8uH_3lAUkFlTId56NXC5wP-0u7gZlauY8B7yEaCFT61Vo7UxmbS1dGz8Ei7IVhc6fgN20O1bpIqaWtfWZowYysaXxk4gDb5F0AoFk_WPx1qU8HT73rSzs6wksBDdm_yULJgf1UEvPYOP0l0hjJXLErO55e7J1GOsmUYY0SbjPjLpx5xK2soEI/s1600/mqdefault.jpgNão demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...
Cecília Meireles, in Retrato Natural.
Entendendo o poema:
01 – Qual é o tema
central do poema e como a repetição dos dois últimos versos de cada estrofe
reforça essa ideia?
O tema central é
o carpe diem (aproveitar o momento presente) associado à angústia da brevidade
da vida e à iminência da morte. A repetição dos versos "Apressa-te, amor,
que amanhã eu morro, / que amanhã morro e não te..." funciona como um
refrão desesperado que dita o ritmo de urgência do poema. Essa estrutura
reforça a efemeridade do tempo e a necessidade absoluta do encontro amoroso
imediato, pois o amanhã é sinônimo de ausência e fim.
O eu lírico
alerta que nem o tempo (que é mutável e passageiro) nem a eternidade (que é
abstrata e distante) podem garantir a permanência da vida ou do encontro. Na
primeira estrofe, o eu lírico descreve-se como alguém vulnerável às forças da
natureza ("as nuvens me puxam pelos vestidos", "os ventos me
arrastam"), evidenciando que os seres humanos não têm controle sobre o
destino e estão à mercê de forças maiores que os desgastam e os levam embora.
03 – De que forma os
sentidos humanos (visão, audição e fala) são distribuídos ao longo das estrofes
para marcar a progressão da perda?
Há uma progressão
melancólica e sensorial da perda da vida que se manifesta no fechamento de cada
estrofe:
Na primeira estrofe, o foco é a visão: o
medo de morrer e "não te vejo".
Na segunda estrofe, o foco é a audição: o
medo de morrer e "não te escuto".
Na terceira estrofe, o foco é a fala/comunicação: o medo de morrer e "não te digo". Essa gradação mostra o corpo e a capacidade de se conectar com o outro silenciando-se aos poucos diante da morte.
04 – Como as imagens
marítimas e minerais da segunda estrofe ajudam a construir o distanciamento do
ser amado?
Na segunda estrofe, o eu lírico pede ao amor que não demore "tão longe, em lugar tão secreto". Para ilustrar esse isolamento, utiliza as metáforas "nácar de silêncio que o mar comprime" e "ó lábio, limite do instante absoluto!". O nácar (substância dura e brilhante das conchas) associado ao silêncio esmagado pelo mar evoca uma barreira intransponível, mostrando que a distância e o silêncio do amado são tão rígidos e profundos quanto as profundezas do oceano.
05 – Qual é o
significado da metáfora "a anêmona aberta na tua face" e o que
representa o "vento inimigo" na última estrofe?
A "anêmona
aberta na tua face" é uma metáfora para o frescor, a beleza e a vivacidade
da juventude e do rosto do ser amado (a anêmona é uma flor marinha ou terrestre
delicada e colorida). O eu lírico pede o encontro agora, enquanto ainda mantém
a capacidade de reconhecer essa beleza. Em contrapartida, o "vento
inimigo" que ronda os muros representa o tempo devastador, a velhice ou a
própria morte que cerca a existência e ameaça destruir essa delicadeza.







