terça-feira, 30 de junho de 2026

CONTO: LONJURAS - ODENILDE NOGUEIRA MARTINS - COM GABARITO

 Conto: Lonjuras

 

        Da primeira vez, veio só, montada a cavalo, calças compridas por de baixo de um vestido de chita de mangas longas, lenço cobrindo os cabelos e, por cima dele, um chapéu de palha, nos pés protegidos por grossas meias, alpargatas. Imediatamente despertou o interesse da curiosa Cacilda que nunca vira uma mulher assim, a cavalo. Tentou ficar por perto, sentada em um degrau da escada de entrada da cozinha para ouvir a conversa, mas foi rechaçada, rapidamente pelo pai com um único olhar. Era o que bastava para que soubesse que devia tomar chá de sumiço porque aquela era uma conversa de gente grande.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv3isFHLL49fbGdgoAlvFyy7uDKYbKQYD73BTq79VjZpTHlGZ6MxBM_H6AlDj3P59rOg2Swk-ts6-djIiXOXqmOVwbToyTu628Hzfl8rwY9z48Gg1SGYrDrXQzQwuRyFssaBwd9qgqlvN3l54E7s6cGrV0vBoi_bi9TlBeNjume1b1BMr-1bqz9ZZ-OHE/s320/images%20(1).jpg


        A menina afastou-se, mas não muito. Empoleirou-se em um pé de caqui. Dali conseguia ver a movimentação na cozinha da casa. O pai, a mãe e a estranha mulher conversaram, tomaram chimarrão por mais ou menos uma hora, depois despediram-se, e a visita montou a cavalo novamente e partiu.

        Cacilda desceu da árvore rapidamente e correu para frente da casa na tentativa de ouvir algumas palavras que elucidassem a presença daquela senhora. Em vão, ela já se ia, numa marcha mansa. Perguntou para a mãe, assim que o pai se afastou, quem era. 

        – Não é da tua conta. Vá brincar antes que teu pai volte e te passe um corretivo. Pensa que ninguém te viu trepada na árvore tentando ouvir a conversa? Raspe já daqui, sua abelhuda!

        Afastou-se sem insistir mais, pois a prudência recomendava que assim o fizesse. 

        Uma semana depois, lá estava a mulher novamente, a cavalo. Na garupa, desta vez, vinha acompanhada de um rapaz. No lombo da montaria, uma espécie de saco que atravessava a garupeira do animal de um lado a outro. O dono da casa e sua mulher, prontamente, ajudaram-na a apear, e o rapaz tirou o que parecia ser a bagagem. Cacilda observava a uma distância segura para que o pai não percebesse sua presença bisbilhoteira. Cumprimentaram-se com um aperto de mão e entraram. 

        Poucos minutos depois, o rapaz montou e partiu, só. A mulher ficara! A garota era pura curiosidade. Subia no pé de caqui quando foi chamada pelo pai. Correu em direção à casa, quem sabe agora ficasse sabendo o que estava acontecendo por ali.

        – A dona Maria vai passar uns tempos aqui pra ajudar tua mãe – limitou-se a dizer, sem nenhuma explicação maior e foi para o quarto de onde saiu, pouco tempo depois, para perguntar à esposa por que a filha estava se metendo na conversa dos adultos. Em seguida, pegou o chapéu e saiu.

        Cacilda voltou imediatamente, solícita, carregando um feixe de lenha. Sua curiosidade ardia que nem brasa, ainda não entendia a presença da mulher na casa deles. 

        – A dona Maria é a nossa empregada e vai ficar aqui porque logo o neném nasce e alguém precisa me ajudar com ele e com vocês – esclareceu a mãe

       A menina exultou! Finalmente ia se livrar dos trabalhinhos domésticos que tanto detestava. Encheu-se de simpatia por aquela mulher, parecia-lhe velha demais para ser empregada. Com a indiscrição própria das crianças, perguntou-lhe quantos anos tinha. O rosto mostrava mais tempo do que realmente vivera, consequência da lida dura na roça, sob sol impiedoso. 

        – Vim antes que a criança nasça pra ver se vai dá certo, se me acostumo longe do meu rancho e das minha criação, o vosso pai me pediu como favor – explicou com fala simples de caboclo.

        Na mesma semana da chegada de dona Maria, além de detestar a comida da mulher, Cacilda descobriu que a sua rotina de trabalhos domésticos não seria alterada em nada quando a mãe mandou que esfregasse o chão da cozinha.

        – Por que a gente tem empregada? 

        A resposta veio na forma de um tabefe. 

        – Isso é pra você aprender a respeitar os mais velhos – dissera-lhe seu pai. Sendo que, desta forma, a vinda da mulher não facilitou em nada a vida da menina. Cacilda gostava dela, mas achava que era a empregada que devia fazer o serviço doméstico, afinal, era paga para isto. No entanto, quando a mãe voltou a cozinhar, lavar e passar, chegou à conclusão que dona Maria seria uma espécie de companhia. Não tinha o menor cabimento, de acordo com seu julgamento, alguém pra fazer companhia se havia ela, os irmãos e o pai.

        Em uma conversa entre o pai e a mãe, ouvira que dona Maria era idosa e, por conta disso, o patrão não permitia que esfregasse chão, lavasse as roupas, pois o poço era profundo demais para que ela tivesse condições físicas para encher o tanque. Não passava a ferro porque, ele era militar, ela não sabia engomá-las. Também não cozinhava, o molho e o feijão que fazia eram aguados, o arroz virava uma pasta e batatas, só sabia fazê-las cozidas. 

        Não tinha predicativos quanto à culinária e algumas outras coisinhas, mas costurava à mão que era uma beleza. Não se viu mais roupa alguma rasgada, nem mesmo os panos de prato. Tudo era caprichosamente remendado. Até as roupas do bebê, que estava por vir, ela fazia, aproveitando até mesmo mangas de camisas e outras peças fora de uso, cosendo miúdas peças e, de lençóis rasgados, fazia fraldas e paninhos “pra limpá a boca do nenê quando regurgitá” – explicava, respondendo aos olhares curiosos que Cacilda lhe lançava. 

        Quando a criança nasceu, recebeu todos os cuidados de dona Maria para que Alice pudesse descansar, pois, naquele tempo, o período puerperal, ou resguardo, era visto com bastante exagero. A mulher ficava quase que os quarenta dias de cama, não podia fazer esforço físico.

        – “Tem que dá tempo pra mãe do corpo vortá pro lugá” – explicava a mulher quando se perguntava por que a mãe não podia sair da cama.

        Nada de lavar os cabelos, pegar vento – podia ter uma recaída - a alimentação restringia-se a canja com pão torrado e muito chá de erva-doce. Quando acabava esse período, a parturiente tinha os cabelos tão ensebados que se neles caíssem piolhos escorregariam e não se criariam, sem contar o estado de fraqueza que tomava a mulher. Com Alice, pelo menos, era assim.

        Cacilda ficou muito assustada no dia que a mãe tentou levantar-se e desmaiou. Também pudera, só tomava canja no almoço e, no café da manhã e no jantar, chá com torradas.

        – Não sei o que seria de mim sem a senhora aqui, dona Maria – ouviu a mãe dizer.

        Depois do susto de ver a mãe desfalecer, apesar de não gostar de continuar fazendo os serviços domésticos, ficou aliviada por aquela senhora estar ali cuidando dela e do bebê.

        À noite, enquanto o bebê dormia, reuniam-se perto do fogão a lenha e ouviam dona Maria contar das lonjuras de onde viera. Falava da roça, das galinhas, do porquinho, da vaquinha leiteira, dos cachorros. Denotando grande preocupação com os animais, dava sinais de que a saudade começava a apertar. Vez por outra falava dos filhos, tinha quatro, mas jamais mencionou o marido. Será que não tinha um? Mas como é que podia ser isso se tinha filhos?

        – Quem que tá cuidando dos bichos e da roça? É o marido da senhora? – perguntou a enxerida, sem pudor algum.

        O olhar severo do pai deixou claro que a filha tinha passado dos limites, mesmo assim, esperava ter sua curiosidade satisfeita, no entanto, a pergunta foi ignorada.

        Poucos dias depois do nascimento do menino, chegou à casa, o filho de dona Maria. O mesmo que a acompanhara, quando veio para ficar. Veio a cavalo, chapéu, botas, apeou e pediu um copo de água.

        – Êta calor danado! Tá de rachá a moringa – falou, enxugando o suor da testa com o dorso das mãos.

        E rondando, estava a abelhuda, louquinha para desvendar o mistério do marido e, aproveitando que o pai não estava por perto, metia o bedelho na conversa de mãe e filho.

        – O meu pai é soldado. O que o teu é?

        A pergunta ficou no vazio, não encontrou eco. “Pergunta de criança ninguém responde, quando é pra esfregar chão, lavar louça, tirá água do poço, daí não é criança” – pensou mais zangada do que decepcionada. Deu meia volta e afastou-se, o pai estava chegando.

        Logo depois do almoço, o rapaz pegando o chapéu, que ficara pendurado em um prego atrás da porta, foi dizendo que se ia porque tinha bastante chão até vencer as lonjuras.

        Lonjuras? Essa informação atiçou ainda mais a curiosidade da menina, como é que pode uma mulher ficar longe de casa, do marido e dos filhos? Resolveu que na semana seguinte, ia se dedicar a descobrir aquele mistério, nem que ficasse sem brincar, só em casa cercando a mulher, ela haveria de escutar tudinho o que fosse dito. Não ia perder conversa nenhuma. Ia investigar a fundo. E assim o fez. Ninguém precisou mandar fazer nada, adiantava-se em cumprir todas as tarefas domésticas e ainda perguntava se tinha mais alguma coisa pra fazer. Tudo em vão.

        Seis meses depois, despedia-se dona Maria da família, já cumprira a missão, mãe e filho já não precisavam de seus cuidados. Todos sentiriam falta da companhia tranquila da mulher. Assim como chegou, partiu. O filho chegou, o saco com aberturas laterais sobre o lombo do cavalo, dona Maria na garupa, partiram. Dona Alice, olhos marejados, já era da família.

        Dez dias depois, que alegria! Chegava dona Maria, montada em seu cavalo e trazia espigas de milho, mandioca e uma galinha, bem gorda, pronta pro abate. Foi uma festa! Todos estavam felizes. 

        – Apeie, mulher de Deus! Com esse calor, vindo daquelas lonjuras no lombo desse cavalo, a senhora deve estar cansada. Vamos tomar um chimarrão na sombra que logo o almoço fica pronto – falava dona Alice, com um braço segurando o bebê e com o outro abraçando a mulher que viera de longe para visitá-los.

        O menino, que a senhora ninara por tantas noites, assim que ela sentou-se, passou para seu colo, enquanto o chimarrão corria e a dona da casa tratava de terminar o almoço. Parecia dia de festa e o chimarrão foi substituído por vinho tinto.

        – Foi feito por seu Antônio do Palmital, esse é do bom – falava seu Rosa, animado. Até as crianças beberam no almoço uma espécie de refresco feito com vinho, já que não tinha gasosa.

        – Não ia fazer mal, o refresco tá bem fraquinho – dizia a mãe.

        Ainda à mesa, o dono da casa desculpando-se, iniciou a conversa, atrevido pelo excesso de bebida.

        – A senhora me desculpe, mas vou perguntá, e o seu marido, por anda?

        – Meu marido tá morto, seu Rosa. Mataram ele, faz dois anos.

        – Como que foi isso?

        – É uma coisa que dá vergonha de contá, seu Rosa. Vocês já são da minha família, então eu pensu que num podi de ter segredo. Entonce, vou falá. Quando vim pra casa de unces, era pra vê se me esquecia um pouco da tristeza de tanta desgraça de tê o marido morto e um fio preso.

        A dona da casa interveio, para frustração de Cacilda.

        – A senhora não precisa contar nada se não quiser. Pra nós, não tem importância o passado. Temos a senhora como pessoa da nossa família. E nossa porta vai sempre ficar aberta pra senhora.

        Pronto! Era só o que faltava. A mãe ia acabar com a prosa!

        –Vocês me areceberam na confiança. É justo que eu conte. Meu marido sempre foi um homem trabalhador, cumpridor das obrigação. Trababaiava de sol a sol, sem pruiguiça. Gostava de fartura. Dizia que prantava pra ter pra família e pra quem mais precisasse. Quando foi um dia, apareceu no nosso rancho um homem com a muié. Tavam desabrigados por conta da enchente e pidiam abrigo, trabaiavam pela comida e pelo pouso. Juvêncio disse que pudiam se abrigá. Que nosso rancho era piqueno, mais que se fosse do agrado deles, podiam ficá. Erum trabaiador, num tinham medo da lida. Nossa fia mais veia, Jurema, tamem trabaivava na roça. Saia bem cedo, junto com Juvêncio, Dejarma e Carmelino, o marido de Gertrudes, enquanto que nóis cuidava dos trabaio de casa e da horta. Um dia, Juvêncio desconfio que arguma coisa tava aconteceno. Me falava que num tava gostano dos oioar que via entre nossa fia e o Carmelino. Eu disse pra ele, que ele tava maldando. Foi no mês de junho que a desgraça se deu. Fizemo uma fogeura, bem arta. Cum tudo que uma festa de São Juão pede, batata doce assada, pinhão, pipoca e quentão de pinga, que era pra esquentá. Tinha até sanfona. O Zé do Uruguai veio animá um arasta-pé, que era só pra famia. Tava todo mundo alegre que só. Juvêncio que num durmia de toca, sentiu a farta de Jurema e de Carmelino. Num falô nada, saiu na surdina. Foi procurá a fia. Incontrô. Atráis do galinhero, tava os dois, num agaramento só. Dá pra imaginá a desgracera. Tiro o facão da cinta e partiu pra cima do home que carço ele na faca. Nosso fio, Josmà, ouvindo a gritaria, saiu na carera. Viu o pai caído com uma faca encravada no peito e Carmelino cum as mão ensaguentada. Puxô do facão e matô o crimonoso do pai. E foi assim que tudo aconteceu. A desgraça consumiu com nóis tudo. Ficô duas viúvas e quatro fio sem pai. Um na cadeia.

        – E Jurema?

        – Sumiu no mundo. Não tivemô mais notícia dela. Num sei pur onde anda a minha fia – respondeu, o olhar turvo de tristeza.

        O silêncio tomou conta de todos, rir de quê? O pai e a mãe sentiam o pesar daquela mulher, entendiam o drama que vivia.

        No meio da tarde, lá se foi a mulher, de volta para o lugar que já fora um lar. Voltou por várias vezes, sempre do mesmo jeito. E sempre era recebida com muita alegria. Ninguém falava sobre o acontecido, nem mesmo Cacilda, pois pressentia o tamanho da tristeza que havia naquele coração.

        Tempos depois, estranhando a falta de visita da antiga empregada, seu Rosa tratou de buscar informação, dona Maria morrera. Djalma, o filho mais filho, quando voltara da roça, encontrou-a caída no chão da cozinha, perto do fogão. 

        – A tristeza, o desgosto encurtara a vida da mãe, seu Rosa. Que Deus a tenha. 

        Adulta, Cacilda sentiu as lonjuras daquela mulher. Eram lonjuras na alma. 

Martins, Odenilde Nogueira. Lonjuras: In: Caso encerrado, 2014.

 

Entendendo o conto:

01 – Como era o vestuário e a montaria de dona Maria em sua primeira aparição e por que isso chamou a atenção de Cacilda?

      Dona Maria apareceu montada a cavalo, vestindo calças compridas por baixo de um vestido de chita de mangas longas, lenço cobrindo os cabelos sob um chapéu de palha, grossas meias e alpargatas. Isso chamou a atenção de Cacilda porque ela nunca tinha visto uma mulher trajada daquela forma e andando a cavalo.

02 – Qual foi o principal motivo que levou o pai de Cacilda (Seu Rosa) a contratar dona Maria?

      Ela foi contratada para ajudar a mãe de Cacilda, dona Alice, nos trabalhos domésticos e nos cuidados com a família, uma vez que a mãe estava grávida e o nascimento do bebê estava muito próximo.

03 – De que maneira a expectativa de Cacilda sobre a chegada da empregada foi frustrada na mesma semana?

      Cacilda exultou achando que se livraria dos "trabalhinhos domésticos" que tanto detestava. Porém, sua rotina não mudou em nada; na mesma semana, ela descobriu que detestava a comida de dona Maria e ainda foi ordenada pela mãe a esfregar o chão da cozinha.

04 – Por que o patrão (Seu Rosa) não permitia que dona Maria realizasse tarefas pesadas como esfregar o chão, lavar ou passar roupas?

      Porque dona Maria já era idosa e não tinha condições físicas para tirar água do poço profundo e encher o tanque. Além disso, ela não cozinhava bem (sua comida era aguada) e não sabia engomar as roupas de militar do patrão.

05 – Apesar de não ter predicados na culinária ou na limpeza pesada, qual era a grande habilidade manual de dona Maria na casa?

      Ela costurava à mão com enorme capricho. Dona Maria remendava com perfeição roupas e panos de prato, e preparava o enxoval do bebê costurando miúdas peças a partir de roupas fora de uso e transformando lençóis rasgados em fraldas.

06 – Como era encarado o período de "resguardo" (puerpério) de dona Alice e o que assustou Cacilda nesse período?

      O resguardo era visto com muito exagero na época: a mulher passava quase quarenta dias na cama, sem fazer esforços, sem pegar vento ou lavar os cabelos, alimentando-se apenas de canja, pão torrado e chá de erva-doce. Cacilda ficou assustada quando viu a mãe tentar se levantar e desmaiar de tanta fraqueza devido a essa dieta restritiva.

07 – Qual era o mistério familiar sobre dona Maria que atiçava a curiosidade de Cacilda e por que as crianças não obtinham respostas?

      O mistério era sobre o marido de dona Maria — ela falava dos bichos, da roça e dos quatro filhos, mas nunca o mencionava. Cacilda tentava "meter o bedelho", mas no mundo dos adultos daquela época, as perguntas consideradas indiscretas feitas por crianças eram sumariamente ignoradas ou repreendidas com severidade.

08 – Como o mistério sobre o passado de dona Maria foi finalmente revelado e qual tragédia ela contou?

      O mistério foi revelado meses depois, durante uma visita de dona Maria, quando Seu Rosa, encorajado pelo vinho tinto, perguntou pelo marido dela. Ela revelou que ele fora morto dois anos antes: o marido (Juvêncio) flagrou a filha deles (Jurema) atrás do galinheiro com um homem casado (Carmelino) durante uma festa de São João. Juvêncio atacou o homem com um facão, mas acabou esfaqueado e morto. Ao ver a cena, o filho de dona Maria (Josmá) matou Carmelino para defender o pai.

09 – Quais foram as consequências imediatas daquela tragédia na vida e na estrutura da família de dona Maria?

      A tragédia destruiu a família por completo: resultou em duas viúvas, quatro filhos sem pai, o filho Josmá acabou preso pelo assassinato e a filha Jurema sumiu no mundo sem deixar notícias. Dona Maria revelou que aceitou o emprego na casa de Seu Rosa justamente para tentar esquecer a tristeza de tantas desgraças.

10 – Qual foi o destino final de dona Maria e como Cacilda, já adulta, interpretou o título do conto?

      Dona Maria morreu tempos depois. Ela foi encontrada pelo filho Djalma caída no chão da cozinha, perto do fogão; o desgosto e a tristeza encurtaram sua vida. Ao se tornar adulta, Cacilda compreendeu que as "lonjuras" de dona Maria não eram apenas a distância física da roça de onde ela viera, mas sim as profundas e dolorosas lonjuras na alma.

 

 



NOTÍCIA: TIROS NO DAKOTA - MARLEINE COHEN - COM GABARITO

 Notícia: Tiros no Dakota

 

        Um, dois, três... cinco tiros na noite de 8 de dezembro de 1980, em Nova York. Estilhaços de vidro.

        Um homem — casaco de couro, óculos e um punhado de fitas cassete debaixo do braço — esboça, cambaleante, seus últimos passos em direção ao Edifício Dakota. Por fim, cai, não longe da arcada externa do edifício, diante do porteiro do prédio, Jay Hastings.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj8we79jAI9yqn1vzynSTq6rhDNck7XwFrtNrSvAj7QaKVxHht0vVPG8vC5zAxng5w5J_kMM_WIQIiIelOZ7HtpARY-pMBw9_pfEmHM4K8rqTOeOSMSJqXs4He8r_CKSJePY7dH7XPVcPApMTafZC37f9bJah-iYqaYNUv3jefbweIzVQOY5Bd856mrbCQ/s320/images.jpg
 

        — Fui baleado! — consegue balbuciar. Contorce-se, tosse, vomita sangue, pedaços de tecido.

        Interrompendo a leitura de um livro, no elegante pequeno hall de mogno do Dakota, Jay Hastings, estarrecido, aciona o alarme para chamar a polícia e corre para junto do corpo agonizante.

        Tira-lhe os óculos, que parecem fazer pressão sobre seu rosto, despe-se de seu paletó azul e o cobre. O sangue jorra em abundancia do peito — por isso, tira a gravata para fazer um torniquete, mas não há como fazer torniquete algum.

        Retorna ao seu posto, apanha o telefone, disca 911 para pedir uma ambulância, um médico, ajuda.

        De volta, ajoelha-se: olha com ternura para aquele homem cujas canções embalaram sua juventude, negando-se mentalmente a inserir aquela cena na sua extensa coleção de lembranças:

        — Tudo bem; você vai ficar bom — implora.

        23 de outubro de 1980, Havaí: um jovem alto e de compleição forte, 25 anos, pede afastamento do condomínio de alto luxo em Honolulu, onde trabalha como segurança. Ele assina a demissão com um nome falso e, quando lhe perguntam se quer outro emprego, simplesmente responde:

        — Não, já tenho um trabalho para fazer.

        Quatro dias depois, graças à sua antiga ocupação, adquire sem muita dificuldade um revólver calibre 38 numa casa de armas localizada a um quarteirão da chefatura de polícia da capital havaiana, e segue para Nova Iorque.

        Na frente do Dakota, enquanto espera pelo seu ídolo no pátio reservado aos fãs dos moradores do prédio, as horas se arrastam, naquela segunda-feira.

        Finalmente, quando ele passa, a caminho do estúdio Hit Factory, onde estava sendo aguardado pelo produtor Jack Douglas para mixar a música Walking on Thin Ice, com guitarras e teclados bem ao estilo disco music, estende-lhe o disco Double Fantasy e pede um autógrafo.

        Agradece, mas não vai embora: são quase 17h — a noite será longa.

        Para se distrair, leva debaixo do braço um livro empolgante — O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, no qual se identificou cegamente com o personagem principal, um adolescente revoltado que odeia falsidade. Se preciso, farão companhia um ao outro, madrugada adentro.

        Mas eis que a limusine que o levara volta em pouco tempo. Para na frente do Dakota; a porta se abre.

        Acompanhado da mulher, o homem de óculos e blusão de couro não demorou muito: passava das 22 horas quando se despediu da equipe do estúdio, prometendo voltar na manhã seguinte. Dispensou até mesmo o jantar marcado no restaurante Stage Deli e decidiu voltar para casa: queria ver o filho, Sean, antes que ele dormisse.

        O homem desce do carro; o jovem o interpela pelo nome:

        — Mister...?

        A miopia os aproxima na escuridão.

        Então, o desconhecido saca a arma do casaco, agacha-se na posição de tiro e dispara, quase a queima-roupa.

        Um, dois, três... cinco tiros na noite de 8 de dezembro de 1980, em Nova York.

        Gritos desesperados, uma sirene, uma radiopatrulha rasgando a cidade a caminho do St. Luke's Roosevelt Hospital.

        No pátio reservado aos fãs dos moradores do Dakota, Mark David Chapman, cidadão norte-americano, aguarda calmamente a polícia: quando Steve Spiro, primeiro policial a chegar ao local do crime, apareceu, Mark deixou cair o revólver, não ofereceu resistência, entregou-se.

        — Você sabe o que fez? — pergunta-lhe um dos porteiros do Dakota.

        — Eu matei John Lennon.

 

COHEN, Marleine. John Lennon. São Paulo: Globo, 2007. p. 9-11. (Col. Personagens que Marcaram Época). (Adaptado).

Entendendo a notícia:

01 – Quando e onde ocorreu o crime narrado no texto?

      O crime aconteceu na noite de 8 de dezembro de 1980, em frente ao famoso Edifício Dakota, na cidade de Nova York.

02 – Quem foi a primeira pessoa a socorrer a vítima e quais providências imediatas ela tomou?

      Foi o porteiro do prédio, Jay Hastings. Ele acionou o alarme para chamar a polícia, correu até o corpo agonizante, tirou os óculos da vítima, cobriu-a com seu próprio paletó azul e discou para o 911 pedindo uma ambulância e apoio médico.

03 – Qual foi a justificativa que o assassino deu ao se demitir de seu emprego no Havaí, semanas antes do crime?

      Ao pedir afastamento e assinar sua demissão com um nome falso em Honolulu (onde trabalhava como segurança), perguntaram-lhe se ele queria outro emprego. Ele respondeu friamente: "Não, já tenho um trabalho para fazer".

04 – O que aconteceu no primeiro encontro entre John Lennon e o assassino por volta das 17h daquela segunda-feira?

      O assassino abordou John Lennon quando este saía a caminho do estúdio de gravação. Ele estendeu o álbum Double Fantasy e pediu um autógrafo ao músico, que o atendeu.

05 – Qual livro o assassino carregava consigo para se distrair e por que ele se identificava com a obra?

      Ele carregava o livro O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Ele se identificava cegamente com o personagem principal da obra, um adolescente revoltado que odiava a falsidade.

06 – Por que John Lennon resolveu voltar cedo do estúdio naquela noite, recusando inclusive um jantar agendado?

      John Lennon passava das 22h quando se despediu da equipe do estúdio Hit Factory. Ele dispensou o jantar que havia marcado no restaurante Stage Deli porque decidiu ir direto para casa para ver seu filho, Sean, antes que o menino dormisse.

07 – Como o assassino reagiu logo após efetuar os cinco disparos e qual foi a sua declaração ao porteiro do prédio?

      Mark David Chapman reagiu com total frieza e calma. Ele deixou a arma cair, não ofereceu nenhuma resistência e aguardou pacificamente a chegada da polícia. Ao ser questionado por um dos porteiros se sabia o que tinha feito, respondeu simplesmente: "Eu matei John Lennon".

 

 

TIRINHA: DISCURSO DIRETO E INDIRETO - COM GABARITO

 Discurso direto e indireto

 


 Exercícios:

01 – Calvin é um garoto muito criativo. O que ele inventou nessa tirinha?

      Ele inventou (em sua imaginação) que havia descoberto uma forma de se tornar invisível.

 

02 – Qual foi o motivo que o levou a se tornar invisível?

      O motivo foi o desejo de se sentir completamente livre, escapar das punições e poder cometer "crimes" (como assaltar o pote de biscoitos) sem ser detectado.

 

03 – Por que Calvin teve que tirar a roupa?

      Porque, na lógica da sua imaginação, apenas o seu corpo havia ficado invisível; as roupas continuariam visíveis se ele não as retirasse.

 

04 – O truque do Calvin deu certo? Justifique.

      Não deu certo. Ele foi flagrado por um adulto (provavelmente sua mãe) no quarto quadrinho, que o viu perfeitamente sem roupas e mexendo no pote de biscoitos. A invisibilidade existia apenas na cabeça dele.

 

05 – Conte a história da tirinha no discurso direto:

Calvin de repente exclamou:

- Há há! Eu me tornei invisível.

Depois, tirando suas peças de roupa, disse:

(...)

      No discurso direto, as falas dos personagens são reproduzidas exatamente como eles disseram, usando travessões.

 

06 – Conte agora a história da tirinha no discurso indireto:

 

        Calvin disse, de repente, que se tornou invisível e que se removesse suas roupas, poderia (...)

      No discurso indireto, o narrador conta o que os personagens disseram, sem o uso de travessões.

      Calvin disse, de repente, que se tornou invisível e que se removesse suas roupas, poderia cometer qualquer crime sem ser detectado. Ele afirmou ainda que era completamente livre e que poderia escapar de tudo. No entanto, sua mãe o flagrou e perguntou, irritada, o que diabos ele estava fazendo sem roupas e mexendo no pote de biscoitos.

 

 

 

TIRINHA: VOZES VERBAIS - COM GABARITO

 Vozes verbais

 

Exercícios:

01 – O homem comenta com a namorada uma notícia. Como ele a interpreta?

      Ele pensa em comprar uma casa.

 

02 – Ele parece partilhar dos mesmos planos que a namorada? Justifique sua resposta com elementos da tirinha.

      Não, porque ela logo pensou em se casar e, quando ele percebeu, ele disse: Oh-oh.

 

03 – A frase “Esses novos financiamentos estão facilitando bastante a compra da casa própria” está na voz:

(X) ativa                       (  ) passiva                   (  ) reflexiva

 

04 – Reescreva a frase anterior na voz passiva:

      A compra da casa própria está sendo facilitada por esses financiamentos.

 

05 – A mulher poderia dizer: “Vamos nos casar então!”. Essa frase está na voz:

(  ) ativa                       (  ) passiva                   (X) reflexiva

 

06 – Observe as construções a seguir e marque a que está classificada de forma incorreta:

(  ) Todos queriam sair de lá. – Voz Ativa

(  ) Eles foram deixados para trás. – Voz Passiva

(X) Eles caíram no buraco. – Voz Reflexiva. É voz ativa.

 

07 – Escreva as orações na voz passiva:

a) O delegado interroga as testemunhas.

      As testemunhas são interrogadas pelo delegado.

b) Os mestres analisarão a prova.

      A prova será analisada pelos mestres.

c) Ele tratava com amor as crianças.

      As crianças eram tratadas com amor por ele.

d) O filho do vizinho entrega as correspondências.

      As correspondências são entregues pelo filho do vizinho.

 

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: PIRANDELLO E O CONCEITO DAS MÚLTIPLAS VERDADES - LUIGI PIRANDELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Pirandello e o conceito das múltiplas verdades

 

        Em peça teatral, autor questiona se a verdade pode ser real e absoluta

        A verdade, busca contínua do homem, parece ainda inalcançável. Os pontos de vistas se divergem e descobertas deixam de ser atuais mais rápido do que um cigarro chega ao fim. Descartes foi feliz ao dizer que “só sei que nada sei”. O significado da frase é tão amplo quanto os nossos sonhos.

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        Tão brilhante quanto o filósofo foi o escritor Luigi Pirandello, autor da célebre peça Seis Personagens à Procura de um Autor, e um defensor do pensamento de que a verdade é relativa.

        Seu trabalho mais abrangente sobre o assunto foi a peça Assim é, se lhe parece, na qual a personagem Frola é uma mulher reclusa. Ela justifica isso por afirmar que cuida de sua filha. Seu genro, no entanto, diz que a sogra enlouqueceu depois que a filha morreu.

        Provocando uma reviravolta, Frola afirma que, na verdade, foi o genro que enlouqueceu, e passou a acreditar que a esposa está morta. Ainda há na peça um personagem que defende que a verdade não existe. Ao menos não como absoluta. Existe uma série de verdades, que dependem de pontos de vista para existirem. Elas simplesmente são, se assim lhe parecem.

        Pirandello aponta que às vezes não há o certo e o errado; o verdadeiro e o falso; um caminho ou outro. Às vezes duas coisas absurdamente contraditórias podem coexistir e talvez até sem um meio termo.

        O autor não foi o primeiro nem o último a debater amplamente o conceito de verdade, porém o seu questionamento provocou muitas reflexões, inclusive no campo da Psicologia, já que o profissional desta área deve compreender o que é a verdade para o seu paciente.

        Luigi Pirandello já entendia que cada um possui os seus princípios, conceitos, história, sofrimentos e sonhos. Tudo isso é capaz de construir uma verdade e dá a sensação de que para que ela seja real, outras verdades precisam ser destruídas. Erro comum. Tudo pode ser, se assim lhe parecer.

 

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Entendendo o artigo:

01 – Qual é a tese principal defendida por Luigi Pirandello em suas obras, segundo o texto?

      Pirandello defende o pensamento de que a verdade é relativa. Para ele, a verdade absoluta não existe; em vez disso, existem múltiplas verdades que dependem do ponto de vista de cada indivíduo para passarem a existir.

02 – Como o enredo da peça "Assim é, se lhe parece" exemplifica o conceito de verdade relativa?

      A peça exemplifica isso através do conflito entre a personagem Frola e seu genro. Frola afirma ser reclusa para cuidar da filha. O genro, por sua vez, diz que a sogra enlouqueceu porque a filha morreu. A reviravolta ocorre quando Frola alega que, na realidade, o genro enlouqueceu e passou a acreditar que a esposa estava morta. O artigo mostra que essas duas versões absurdamente contraditórias coexistem sem que se saiba qual é a correta.

03 – O autor do artigo cita uma famosa frase filosófica no primeiro parágrafo. Que frase é essa, a quem ela é atribuída no texto e qual o erro conceitual nessa atribuição?

      A frase citada é “só sei que nada sei”. O texto a atribui ao filósofo René Descartes.

      Nota de correção histórica: Embora o artigo de opinião atribua a frase a Descartes, ela é historicamente creditada ao filósofo grego Sócrates. O pensamento famoso de Descartes é, na verdade, "Penso, logo existo".

04 – Por que os questionamentos de Pirandello provocaram reflexões importantes no campo da Psicologia?

      Porque o profissional de Psicologia precisa lidar diretamente com a subjetividade humana. Para ajudar um paciente, o psicólogo deve compreender o que constitui a "verdade" para aquela pessoa específica, respeitando a forma como ela enxerga e absorve o mundo.

05 – De acordo com o último parágrafo, quais elementos são capazes de construir a verdade de um indivíduo e qual é o "erro comum" cometido pelas pessoas em relação a isso?

      A verdade de cada um é construída por seus próprios princípios, conceitos, história de vida, sofrimentos e sonhos. O "erro comum" é a falsa sensação de que, para a nossa verdade ser real e válida, as verdades das outras pessoas precisam ser destruídas ou invalidadas.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: A FICÇÃO COMO LUGAR DA FANTASIA - LUIGI PIRANDELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: A ficção como lugar da fantasia

           Luigi Pirandello

 

        O autor italiano Luigi Pirandello, ao final de seu romance “O falecido Mattia Pascal” (que é, a propósito, meu livro favorito) tomou a liberdade de inserir em 1921 (na terceira edição da obra) um apêndice ao qual deu o nome de “Sobre os escrúpulos da fantasia”.

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        Pirandello, perspicaz em trazer aos leitores histórias para surpreendê-los quanto a intrincada psique humana, justifica seu estilo ao mesmo tempo em que aponta e responde aos excessos críticos dirigidos às obras de arte que escapam a um retrato da vida chamada “normal”. Ao dizer que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros, ao contrário dos da arte que, para parecem verdadeiros, precisam ser verossímeis e sendo verossímeis, deixam de ser absurdos, o autor marca a autonomia que, arte e vida tem (ou devem ter) entre si. Ou seja: não se pode julgar a arte pela vida. Contudo, será mesmo que a arte e a vida conseguem efetivamente ser percebidas sob critérios distintos? Não seriam as duras críticas feitas à obra de Pirandello um indicativo de que algo de inquietante para o humano emerge de suas histórias, numa arte que faz questão à vida?

        O autor nos alerta que somos acostumados a reconhecer o comportamento humano por meio de padrões – estamos habituados a lidar com o humano na condição de homem e não de sujeito; trabalhamos com a percepção do “homem médio”. A arte em geral (embora nesse caso falemos especificamente em literatura) lidará com cada um desses sujeitos naquilo que eles tem de mais idiossincrático. A literatura rompe com padrões e expectativas, portanto.

        Contudo, creio que a vida é quem primeiro realiza essa quebra, embora nós não estejamos nunca preparados para lidar com o desconhecido e imprevisível que é o nosso semelhante. A noção de outro nos perturba desde logo pois supõe um deslocamento da nossa própria identidade. Daí nossa dificuldade (ou impossibilidade) em cumprir, por exemplo, o mandamento “amar ao próximo como a ti mesmo”. A psicanalista Maria Rita Kehl fala a esse respeito ao afirmar que “amar (ao estranho, diferente de mim) como a mim implica a anulação de toda a alteridade. Anulação bastante tentadora: ao fazer do próximo um idêntico, suprimindo nele tudo que é estranho ao eu, o sujeito tenta também se livrar do outro que o habita”.

        A inquietação provocada pelo absurdo quando este emana do campo da arte talvez incomode tanto porque nos aponte para o indomável que é o outro, capaz do que, não sabemos. “Se eu sou este e ele se assemelha tanto a mim, mas não é eu, quem é ele? Diante dele, quem sou eu? Só depois de nos desestabilizar dessa maneira – se aguentarmos o tranco – é que o próximo pode se revelar fonte de aprendizado, de experiências compartilhadas, de novas identificações”.

        A arte tem o poder de nos apresentar um grande número de diferentes – e nos mostra que não é possível compreendê-los, mas é preciso fazer com eles uma interlocução. Até onde estamos dispostos a isso? Não seria o absurdo na arte uma denúncia à nossa incapacidade de diálogo com o absurdamente humano, sempre inapreensível?

        É interessante observar que pela valorização do particular a arte literária tem grande impacto no coletivo – um leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados tipos humanos e a tolerar, também pouco a pouco, tê-los todos dentro de si. Fernando Pessoa talvez tenha sido o escritor que mais levou a efeito essa ânsia, a partir da criação de vários heterônimos que lhe permitiram sentir e olhar o mundo a despeito de si. Não seria o aceite aos absurdos da arte uma via possível de tolerância para os absurdos da vida?

        Parece-nos que é no desapego ao critério geral de “humanidade” e pela empatia com os mais variados tipos humanos que podemos desenvolver autocrítica – é preciso construir novas maneiras de significar a relação do homem com seu semelhante. Para Pirandello, a propósito, a humanidade não pode mesmo existir em abstrato – existe, sim, dentro da variedade de homens – os quais são capazes de cometer absurdos que não necessitam parecer verossímeis porque são verdadeiros.

        As particularidades de cada sujeito, acredito, falam de seus sofrimentos e inquietações, os quais segundo Pirandello são situações da vida que incentivam o raciocinar-se a felicidade é gozo pleno, é nas situações mais improváveis e mesmo inverossímeis que podemos enxergar mais a fundo o que é da condição humana, ainda que tais absurdos possam escapar àquilo que à primeira vista pensamos nos aproximar do conceito de "universalmente humano".

        O “anormal” da vida cotidiana e das personagens de Pirandello parece não ser mais do que o estouro de um imenso real – aquele que, quando enxergado, avassala. Os personagens de um livro de literatura vestem máscaras, as alternam e a máscara por vezes pode rasgar-se e ser pisoteada diante do leitor. Nós, sempre investidos de máscaras temos, me parece, dificuldade em vê-las arrancadas em literatura, na ficção que surge como factível.

        Diz Pirandello: "É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis, aquilo que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros, enquanto o que somos, até certo ponto, nem nós mesmos sabemos. É a metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos, a construção frequentemente complexa que fazemos de nós mesmos e que os outros fazem de nós”

        Num mundo que nos impõe o padronizado, o óbvio e a aparência, o quanto podemos suportar personagens viscerais?

        A provocação de Pirandello me faz pensar que o absurdo mais aceito na vida (e menos na arte) não é o inverossímil, mas a capacidade humana de sustentar por tanto a máscara e ser marionete de si mesmo – não seria a arte uma ferramenta de denúncia de toda a potencialidade da vida, que nos desconforta tanto justamente por nos lembrar que o desejo transcende aquilo que é nomeável e por vezes, representável?

        A vida prescinde de qualquer verossimilhança. Por que a nossa dificuldade em aceitar na arte o absurdo? Uma perspectiva de leitura a partir do ensaio "Sobre os escrúpulos da fantasia".

        Acredito que sim, afinal, por ironia da arte ou da vida, o romance Falecido Mattia Pascal, considerado por muitos à época de sua publicação como uma história sem a necessária pregnância com a realidade, encontrou alguns anos depois – nas folhas de um famoso jornal – a sua confirmação em uma notícia verdadeira. A arte pode, então, preceder a vida? Já disse Pirandello: de quais inverossimilhanças reais a vida é capaz, até nos romances onde sem querer ela é cópia da arte?

        O título do meu texto afirma a ficção como lugar da fantasia – penso que a arte, a qual surge como faculdade imaginativa, como o lugar do que não tem ligação estreita com a realidade, também cumpre a função de nos ligar à fantasia em sentido para além da inventividade. Quando destaco a ficção como lugar da fantasia, me refiro à fantasia segundo seu lugar em psicanálise – o lugar do desejo.

        A história de “O falecido Mattia Pascal” me provoca justamente na medida em que questiona até que ponto podemos usar diferentes máscaras e até que ponto elas podem confundir-se com nós mesmos.

Referências: PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal; tradução de Rômulo Antônio Giovelli e Francisco Degani. São Paulo: Ed. Abril, 2010.

KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

http://obviousmag.org/fotoverbese/2015/03/a-ficcao-como-lugar-da-fantasia-luigi-pirandello.html.

 

Entendendo o artigo:

01 – Que importante distinção Pirandello faz entre os "absurdos da vida" e os "absurdos da arte" no seu ensaio "Sobre os escrúpulos da fantasia"?

      Pirandello afirma que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis (semelhantes à verdade) porque eles já são verdadeiros pelo simples fato de acontecerem. Por outro lado, os absurdos da arte, para que o público o aceite como verdadeiros, precisam ser verossímeis. Ao se tornarem verossímeis para a audiência, eles deixam de parecer absurdos, marcando assim a autonomia entre a arte e a vida.

02 – De acordo com o texto, de que maneira a literatura rompe com os padrões e expectativas da sociedade?

      O texto explica que a sociedade está acostumada a lidar com o "homem médio" e a reconhecer o comportamento humano através de padrões padronizados (a condição de homem). A literatura rompe com isso porque ela lida com o sujeito naquilo que ele tem de mais idiossincrático, ou seja, em suas características mais particulares, únicas e profundas.

03 – Como a psicanalista Maria Rita Kehl explica a nossa dificuldade em cumprir o mandamento "amar ao próximo como a ti mesmo"?

      Ela explica que amar o outro (o estranho, o diferente) como a si mesmo implica anular toda a alteridade (a diferença do outro). O sujeito tenta transformar o próximo em alguém idêntico a ele, suprimindo o que há de diferente, como uma tentativa tentadora de se livrar também do "outro" (das próprias estranhezas e inconsciente) que habita em si mesmo.

04 – Qual é o impacto coletivo que a arte literária provoca ao valorizar o "particular" de cada personagem?

      O impacto é o desenvolvimento da tolerância e da autocrítica. Ao entrar em contato com a literatura, o leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados tipos humanos e a tolerar a ideia de que possui um pouco de todos esses tipos dentro de si mesmo. O texto cita Fernando Pessoa e seus heterônimos como o ápice dessa experiência.

05 – O que significa o conceito de "máscara" na visão de Pirandello citada no artigo?

      A máscara representa o jogo de papéis na sociedade: aquilo que desejamos ou devemos ser, e a imagem que parecemos ter para os outros. Ela é definida pelo autor como uma "metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos", uma construção complexa que fazemos e que fazem de nós, escondendo o que realmente somos (algo que muitas vezes nem nós mesmos sabemos).

06 – Qual é a ironia real envolvendo o romance "O falecido Mattia Pascal" que o autor do artigo utiliza para fechar seu argumento?

      A ironia é que, quando o romance foi publicado, muitos críticos o atacaram dizendo que a história era absurda e não tinha ligação com a realidade (faltava-lhe verossimilhança). Contudo, anos mais tarde, as páginas de um jornal publicaram uma notícia verdadeira que confirmava exatamente os mesmos fatos da história fictícia de Pirandello, provando que a arte pode preceder a vida.

07 – O que o autor do artigo quer dizer quando afirma que a ficção é o "lugar da fantasia" no sentido psicanalítico?

      Ele esclarece que não está usando a palavra "fantasia" apenas como sinônimo de inventividade ou imaginação pura. Ele se refere à fantasia em seu sentido psicanalítico: o lugar do desejo. A ficção serve como esse espaço onde os desejos humanos transcendem o que é nomeável e revelam as profundezas e os conflitos da nossa psique.