domingo, 17 de maio de 2026

MITO: HERA, RAINHA DO OLIMPO - COM GABARITO

 Mito: Hera, rainha do Olimpo


Hera era a filha mais nova de Cronos (Saturno) e Réia (Cibele). Assim como o irmão Zeus, foi poupada de ser devorada pelo pai, através de um ardil da mãe, que a entregaria recém nascida aos cuidados de Tétis e das Horas.
Quando Zeus derrotou Cronos, após uma guerra sangrenta de dez anos, tornando-se o senhor dos deuses, procurou pela irmã. Fascinado por sua beleza, encantou-se por ela, declarando-lhe uma paixão arrebatadora. Mas Hera declinou diante da paixão do irmão, preferindo manter-se casta. Inconsolável, Zeus transformou-se em um cuco, surgindo na frente da amada como um pássaro triste e quase morto pelo frio. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_1KBDncGbSBBeNvMX7lPrMqTCD-1P7cBmmpV_RBJI2CDyzJtN7UlJwzMYozjyvXj7inwSGQ6xEfuGlOUKCNR7E196KWDfEWXyw8e5Jor38K1H217gq65fROw7SOnbDsqipO8hHQgHgPgUyrm-LvZonZCPxIGkT2wQruUGa-yV392xrTGz-cwOBAK_2SM/s320/HERA.JPG


Compadecida, Hera, pegou a ave, aquecendo-a no calor do seio. Tão logo se viu junto ao corpo da deusa, Zeus, entorpecido pelo desejo, tomou-a para si, violando-a.
Diante da vergonha e humilhação sofrida, Hera exigiu que o irmão reparasse o ultraje. Apaixonado e decidido a encontrar uma companheira, o senhor dos deuses tomou a irmã como esposa, em uma pomposa cerimônia no Olimpo, assistida por todos os deuses. Hera tornava-se, ao lado do marido, a rainha de todos os deuses do Olimpo.
Reza a lenda, que após a grandiosa festa de matrimônio, Hera e Zeus partiram para um longo período de núpcias que duraria trezentos anos. Após regressar das núpcias, a deusa foi até Náuplia, banhando-se na fonte de Cánatos, sendo ali, restituída a sua virgindade.

 Entendendo o texto

01. Quem foram os responsáveis por cuidar de Hera logo após o seu nascimento?

a. Cronos e Réia.

b. Tétis e as Horas.

c. Zeus e Saturno.

d. Náuplia e Cánatos.

02. Que estratégia Zeus utilizou para se aproximar de Hera após ela rejeitar a sua paixão?

a. Iniciou uma guerra sangrenta que durou dez anos.

b. Organizou uma cerimônia pomposa no Olimpo.

c. Transformou-se em um cuco triste e castigado pelo frio.

d. Levou-a para um período de núpcias de trezentos anos.

03. O que Hera exigiu de Zeus após ter sido violada por ele?

a. Exigiu que ele derrotasse Cronos imediatamente.

b. Exigiu que ele a devolvesse aos cuidados de Réia.

c. Exigiu que o irmão reparasse o ultraje, tornando-a sua esposa.

d. Exigiu banhar-se na fonte de Cánatos para recuperar a virgindade. 

04. De acordo com o texto, quanto tempo durou o período de núpcias de Hera e Zeus?

a. Dez anos.

b. Cem anos.

c. Trezentos anos.

d. Quinhentos anos.

05. O que aconteceu quando Hera se banhou na fonte de Cánatos, em Náuplia?

a. Ela foi coroada oficialmente como a rainha do Olimpo.

b. Ela teve a sua virgindade restituída.

c. Ela transformou-se em uma ave para fugir de Zeus.

d. Ela encontrou os seus pais, Cronos e Réia.


FÁBULA: AS CABRAS MONTANHESAS E O CABREIRO - ESOPO - COM GABARITO

Fábula: As cabras montanhesas e o cabreiro

              Esopo

         Levou um cabreiro a pastar a suas cabras e de pronto viu que as acompanhavam unas cabras montanhesas. Legada a noite, levou todas a sua gruta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvPhQ1W7tK3NvjY77F1EFs43WoP-uS25uz8QcMRygxaRggJGxBFUmm9K3Cvu3j7WtbUrt8EfMoYZIa4Q9vuGAZJbtOBcHRzusjOeKAhvJylWZukwwa0RmHNBnZAFbjF2pFrKX0scyTgtKigJFphGrp2mlwZ5i_xQBiZtMxIgkiEMNAzu0gXypuWeupf8g/s1600/CABRAS.jpg

         Na manhã seguinte caiu uma forte tormente e não podendo levá-las, cuidou lá mesmo. Porém, enquanto dava a suas próprias cabras um punhado de forragem, às montanhesas servia muito mais, com o propósito de ficar com elas. Terminou por fim o mau tempo, e saíram todas ao campo, porém as cabras montanhesas escaparam para a montanha. Acusou-as o pastor de ingratas, por abandoná-lo depois de tê-las atendido tão bem, mas elas lhe responderam:
- Maior razão para desconfiar de ti, porque se a nós recém chegadas nos tratou melhor que a tuas velhas e leais escravas, significa isto que se logo vierem outras cabras, tu nos depreciaria por elas.

       Nunca confíes em quem pretende tua nova amizade a ponto de abandonar a que já tinha.


Entendendo o texto

01. O que o cabreiro percebeu de diferente enquanto levava as suas cabras para pastar no início do texto?

a. percebeu que o lobo estava vigiando o seu rebanho de longe.

b. viu que algumas cabras montanhesas haviam se juntado às suas cabras.

c. notou que o pasto estava seco e que precisaria buscar abrigo em uma gruta.

d. descobriu que metade do seu rebanho havia fugido para a montanha.

 

02. Por qual motivo o pastor decidiu dar muito mais alimento (forragem) para as cabras montanhesas do que para as suas próprias cabras?

a. porque as cabras montanhesas estavam muito mais magras e doentes que as dele.

b. porque ele tinha medo de ser atacado pelas cabras montanhesas dentro da gruta.

c. porque ele tinha o propósito de agradá-las para que elas ficassem com ele definitivamente.

d. porque suas próprias cabras se recusavam a comer a forragem durante a tormenta.

 

03. Como as cabras montanhesas reagiram assim que o mau tempo acabou e todos os animais saíram ao campo?

a. elas atacaram o pastor para defender as outras cabras.

b. elas agradeceram ao cabreiro e prometeram voltar no próximo inverno.

c. elas fugiram imediatamente de volta para a montanha.

d. elas decidiram expulsar as cabras velhas para liderar o rebanho.

 

04. O pastor acusou as cabras montanhesas de serem ingratas. Qual foi o argumento utilizado por elas para justificar a fuga?

a. disseram que preferiam a liberdade da montanha do que a comida da gruta.

b. explicaram que, se o pastor tratou as recém-chegadas melhor do que as suas velhas e leais escravas, ele faria o mesmo com elas se outras cabras surgissem no futuro.

c. afirmaram que a comida oferecida pelo pastor era de má qualidade e as deixou doentes.

d. responderam que o rebanho antigo do pastor não as aceitou bem e foi agressivo.

 

05. A moral da história alerta para nunca confiar em quem pretende uma nova amizade a ponto de abandonar a que já tinha. Na história, quem representa essa atitude criticada?

a. as cabras montanhesas, que abandonaram o pastor após comerem bastante.

b. as cabras antigas, que não defenderam o dono diante das estrangeiras.

c. a forte tormenta, que mudou o rumo dos animais sem aviso prévio.

d. o cabreiro, que desvalorizou suas companheiras leais e antigas para tentar bajular as novas cabras.

  

ARTIGO DE OPINIÃO: BALBINO EM CHAMAS - FRAGMENTO - PAULA SALDANHA - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Balbino em chamas – Fragmento

        Paraíso e morada dos pescadores

        O lugar onde a nossa gente mora é assim: mar verde, dunas de areia cercando lagoas azuis e praias com coqueirais. É claro que os terrenos na beira das praias são os mais bonitos e os mais valorizados. Por isso tudo é que gente rica fica de olho. Faz proposta para ao pescador, quer comprar... mas aqui na nossa região ninguém vende terreno, não.

        Os moradores mais velhos sempre dizem que a nossa terra é muito boa e muito rica, por isso nós não queremos sair daqui nunca!

        No mar tem o peixe, o siri, o camarão... No mangue tem os mariscos, o caranguejo, mais peixes... Na terra nascem os coqueiros, os pés de caju, manga, abacate, goiaba, limão, tangerina, mamão e um montão de outras frutas. Na turfa (terra preta e fofa), debaixo dos coqueirais, a gente planta feijão, milho, arroz, mandioca, inhame, abóbora... A água pra beber a gente tem limpinha nas cacimbas, que são poços abertos na areia, que a gente tampa e cuida pra não contaminar.

        Todo mundo aqui tem sempre comida boa – o dente das pessoas não estraga por causa do peixe, que tem muito cálcio – e as crianças crescem com saúde. [...]

        A primeira invasão

        Os pistoleiros começaram a rodear as casas do Balbino de manhã cedinho. Primeiro as casas perto do coqueiral, junto do mar. Depois vieram em direção às nossas casas, na beira da lagoa. Gritaram pra todo mundo sair. Viraram móveis e tiraram as pessoas da cama, ameaçando com espingardas e revólveres. [...]

        Capangas covardes. Gritavam com mulheres e crianças como se estivessem tocando o gado. Mostraram as armas e avisaram que todo mundo ia sair dos terrenos por bem ou por mal.

        Por fim, os caras derramaram gasolina e tocaram fogo em quatro casas, com tudo dos pescadores dentro.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEQXl39enVGSuZfCiJzkujseDAfzKpLt1hNslkZ0bJBPGS4dOecPA6JOQBS-B__lZxthD41nK9ttiRMB1Wd3KZNZ02O9DsI11obGv4QCDCocLwmQseUc0NTLcv9BSwhTxw6SxeLAYNvVAXl2dLZtC6cUCnX6GnTWSbSBy8Omx1fn6jnCfcs2DZq_g2Gvs/s1600/BALBINO.jpg

        -- É só uma pequena mostra – falaram sorrindo.

        Os pistoleiros estavam com cara de loucos e ao mesmo tempo de deboche. Disseram que voltariam depois pra completar o serviço.

      A segunda invasão

        Era quase hora do almoço quando a polícia chegou. Não dava nem pra acreditar: um papel da Justiça dizia preto no branco que os nossos terrenos pertenciam a uma imobiliária e que os moradores iam ter que sair.

        Mas quem vendeu terreno por aqui? Ninguém.

        Então que história era essa?

        Não adiantava discutir, era ordem do juiz. Todas as famílias iam ter que sair do Balbino, que nem foi no Batoque.

        Mas o povo daqui fez resistência. As mulheres pareciam mais valentes que os homens, fechando a passagem dos policiais, com aquele bando de filhos atrás.

        Diante da coragem das mulheres, os policiais se acovardaram e começaram a apelar, berrando, cutucando as pessoas com o cano das espingardas e dando tiros de revólver pro alto.

        Um tiro disparado perto de casa fez meu ouvido ficar zunindo um tempão. Nem dava mais pra ouvir a gritaria das pessoas que corriam em bando, que nem gado acuado.

        Mas eu pude ver muito bem o fogaréu levantando por trás do coqueiral. Muita labareda alta e muita fumaça. [...]

        Os policiais jogavam gasolina e, quando botavam fogo, dava aquele estrondo e as casas lambiam inteirinhas.

        A casa do Chico, meu melhor amigo, foi a que queimou por último. Não posso me esquecer do desespero dele e do pai vendo tudo, tudinho, até aa rede de pesca, queimando lá dentro.

        Deu uma dor aqui no peito...

        O balanço de tudo

        A Arquidiocese de Fortaleza já estava sabendo das confusões e ajudou a apurar as coisas pra comunidade do Balbino. A primeira providência foi chamar um promotor público pra ver direito o caso na Justiça.

        Dona Francisca ia e vinha de Fortaleza trazendo as notícias que conseguia com o promotor, com os repórteres e com os padres. O documento da tal imobiliária era de um terreno lá pro interior. Terra ruim, sem valor nenhum.

        Mas o juiz levou dinheiro pra fazer toda a manobra: colocar os terrenos do Balbino, que sempre foram dos pescadores, como propriedade da imobiliária.

        Com uma simples troca de lugar, endereço, o juiz estava levando muita grana, a imobiliária lucrando bilhões...

        E os pescadores? Centenas de famílias, milhares de pessoas iriam ter que virar mendigos na cidade grande. Ainda bem que do Balbino ninguém saiu. [...].

        Final feliz

        A igreja, a imprensa e o promotor ajudaram o povo de Balbino até o fim. Ao contrário do juiz, que estava levando dinheiro pra prejudicar a gente, o promotor não recebeu nada e colocou a Comunidade de Balbino na Justiça contra a imobiliária – por todo o prejuízo que ela causou.

        Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental. [...].

        Nós vencemos na Justiça. Nossa história teve um final feliz, que nem em filme de julgamento que passa na TV. Só que em filme é tudo de mentirinha, nada machuca. E a nossa história foi mesmo de verdade, marcou nossa gente. marcou pra valer. Teve gente que perdeu tudo e foi obrigada a começar vida nova.

        Coragem e esperança foi o que moveu esse povo. Coragem pra enfrentar a injustiça. E esperança de tudo dar certo. [...].

        A gente agora vai contar pros filhos e pros netos tudo o que se passou com o povo aqui no Balbino e nos outros lugares do litoral.

        Assim, os mais novos vão aprender um pouco da nossa história e vão lutar pra que esse tipo de coisa não aconteça nunca mais.

Paula Saldanha. Balbino em chamas. São Paulo, FTD, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 126-129.

Entendendo o artigo:

01 – Como o narrador descreve a comunidade de Balbino antes das invasões e qual é a principal fonte de sustento e saúde dos moradores?

      O narrador descreve Balbino como um verdadeiro "paraíso": um lugar com mar verde, dunas, lagoas azuis e praias com coqueirais. A comunidade é autossustentável e rica em recursos naturais. Os moradores garantem o sustento através da pesca (peixe, siri, camarão) e do mangue (mariscos, caranguejo), colhem frutas variadas (caju, manga, abacate) e plantam alimentos (feijão, milho, mandioca) na terra preta e fofa (turfa). A saúde das crianças é boa e os dentes não estragam devido ao cálcio abundante dos peixes.

02 – O que atrai o interesse de pessoas ricas pela região de Balbino e qual é a postura inicial dos moradores diante das propostas de compra?

      O interesse da "gente rica" é despertado pelo fato de os terrenos na beira da praia serem os mais bonitos e valorizados. No entanto, a postura inicial dos moradores é de total recusa. Influenciados pelos conselhos dos mais velhos, que reconhecem o valor e a riqueza daquela terra, os pescadores afirmam categoricamente que ninguém vende terreno por ali e que não querem sair de lá nunca.

03 – Quem promoveu a "primeira invasão" a Balbino, como agiram e qual foi a justificativa ou aviso que deixaram para os moradores?

      A primeira invasão foi promovida por pistoleiros (capangas). Eles agiram com extrema violência e covardia: chegaram de manhã cedo, expulsaram as pessoas da cama apontando armas (espingardas e revólveres), gritaram com mulheres e crianças como se estivessem "tocando gado" e incendiaram quatro casas com os pertences dos pescadores dentro. Eles avisaram que todos teriam que sair por bem ou por mal e debocharam dizendo que o fogo era "só uma pequena mostra" e que voltariam para completar o serviço.

04 – Qual foi a grande surpresa dos moradores durante a "segunda invasão" e que justificativa legal foi apresentada para expulsá-los?

      A surpresa foi que, na segunda vez, quem apareceu para expulsá-los foi a própria polícia, trazendo uma ordem do juiz ("um papel da Justiça"). A justificativa legal apresentada era a de que, oficialmente, os terrenos pertenciam a uma imobiliária e que, portanto, todas as famílias teriam que desocupar a área.

05 – Como a comunidade reagiu à ação da polícia e quem se destacou na liderança da resistência?

      A comunidade não aceitou a ordem passivamente e ofereceu resistência. As mulheres se destacaram na liderança, mostrando-se ainda mais valentes que os homens ao fecharem a passagem dos policiais com os filhos atrás de si. Diante dessa coragem, os policiais apelaram para a violência física, empurrando as pessoas com canos de espingardas e dando tiros para o alto, além de incendiarem o restante das casas (incluindo a do melhor amigo do narrador, o Chico).

06 – Qual foi o esquema de corrupção descoberto com a ajuda da Arquidiocese de Fortaleza e do promotor público?

      Descobriu-se que o documento apresentado pela imobiliária era falso ou adulterado: referia-se, na verdade, a um terreno sem valor nenhum localizado no interior do estado. No entanto, o juiz responsável pelo caso aceitou suborno ("levou dinheiro") para fazer uma manobra jurídica, alterando o endereço do documento para que os valiosos terrenos litorâneos do Balbino passassem a constar como propriedade da imobiliária. Isso geraria bilhões de lucro para a empresa.

07 – Qual foi o desfecho da história na Justiça e qual lição o narrador pretende deixar para as próximas gerações?

      O desfecho foi a vitória da comunidade na Justiça, graças ao apoio da Igreja, da imprensa e de um promotor público íntegro. Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental e as famílias puderam ficar. A lição que o narrador quer deixar para os filhos e netos é a importância da coragem para enfrentar as injustiças e a esperança de lutar pelos seus direitos, para que abusos desse tipo nunca mais voltem a acontecer.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: NOSSA LÍNGUA BRASILEIRA - FRAGMENTO - WILSON LIBERATO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Nossa língua brasileira – Fragmento 

         Wilson Liberato

        Fui dar um passeio por Rondônia. Lá pelas tantas, comecei a perceber que não estava entendendo a conversa do povo. Eu, que falo o português do centro-oeste mineiro, achei toada na fala da região. Cheguei numa beira de porto e pus sentido na prosa em redor. Decorei alguma coisa, que divido agora com o leitor. [...] Eis meu relato:

        O regatão saltou do alvarenga onde estava morcegando e berrou:

        -- Açaí, cajarana, cupuaçu e pupunha! Loção contra caravana, mucuim, mutuca e pium. Vai levar, patrão? [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjG2Hpaute8C5xsiwxf5GHUDYt97pIVG77G9JmgN4l4dFuP0DbzKOmOrqheaetaDv7RyPXR3204Skg6PiFc-BRR0ZAsGc2TjOviRr7MP9JkgApQJ0WRc7ci0ACwcXcml2Of4HAwkaLhGBvmeeIu6l6MPjpvZXNICyadbqKZ__GiQnFVWd6yAjG8r3y-17I/s1600/LINGUA.jpg


        Procurei um táxi, mas desanimei ao ouvir o informante dizer:

        -- Aqui, BK é só pra quem tá bamburrado. Tu tá?

        E saiu rindo, apontando para mim e falando:

        -- Brabo aqui vai de catraia! Vôte! [...]

        Logo que pude, abri buraqueira (fugi) para não ser forçado a fazer uso de uma assistência (ambulância) com destino a um hospício; nem para ser submetido a um baculejo (revista policial). Claro! Do jeito que fiquei, talvez pensassem que eu estava bodado (maluco) [...]. Logo eu, que sou tão virado (trabalhador)!

        É uma faceta (epa!) da nossa língua... brasileira ou portuguesa?

Wilson Liberato. Nossa língua brasileira. Jornal O Pergaminho, 21 out. 2000.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 118-119.

Entendendo o artigo:

01 – O que motivou o autor, Wilson Liberato, a escrever o relato apresentado no texto?

      O autor foi motivado por um passeio que fez a Rondônia, onde percebeu que não conseguia entender completamente a conversa dos habitantes locais. Por falar o português do centro-oeste mineiro, ele notou um sotaque e um vocabulário muito diferentes ("achei toada na fala da região") e decidiu registrar e compartilhar essas expressões regionais com o leitor.

02 – No segundo parágrafo, o autor cita a fala de um "regatão". Que tipo de termos esse personagem utiliza e o que eles revelam sobre a cultura da região visitada?

      O regatão utiliza termos que fazem referência direta à fauna, à flora e ao ambiente amazônico/nortista, como frutas regionais (açaí, cajarana, cupuaçu e pupunha) e insetos típicos da região (caravana, mucuim, mutuca e pium). Isso revela como a língua local é profundamente conectada com a natureza e a biodiversidade do território de Rondônia.

03 – Ao procurar um táxi, o autor recebe a seguinte resposta de um informante: “Aqui, BK é só pra quem tá bamburrado. Tu tá?”. O que o informante quis dizer com essa frase?

      O informante quis dizer que andar de táxi (ou usar aquele transporte específico, chamado ali de "BK") era algo muito caro, acessível apenas para quem estava com muito dinheiro ou enriquecido ("bamburrado"). Ao perguntar "Tu tá?", ele questiona se o autor tinha essa condição financeira.

04 – No quarto parágrafo, o autor utiliza uma estratégia de colocar palavras da região seguidas de parênteses. Qual é a função desses parênteses no texto?

      A função dos parênteses é "traduzir" as gírias e expressões regionais de Rondônia para o português padrão ou para termos mais comuns em outras regiões do Brasil. O autor faz isso para garantir que o leitor compreenda o significado de palavras como abrir buraqueira (fugir), assistência (ambulância), baculejo (revista policial), bodado (maluco) e virado (trabalhador).

05 – O autor termina o texto com o seguinte questionamento: “É uma faceta (epa!) da nossa língua... brasileira ou portuguesa?”. Qual é a reflexão que ele propõe com essa pergunta final?

      O autor propõe uma reflexão sobre a identidade linguística do Brasil. Ao mostrar como o português falado em Rondônia é tão diferente do falado em Minas Gerais (a ponto de parecer outro idioma), ele questiona se a nossa língua ainda deve ser chamada de "portuguesa" ou se as variações culturais e regionais já a transformaram em uma legítima "língua brasileira".

 

 

CONTO: A PEDA DE ORO - SÔNIA QUEIROZ - COM GABARITO

 Conto: A PEDA DE ORO 

        Tinha um viúvo que tinha treis rapaz e o pai já era bastante avançado na idade, já num trabaiava mais. Os treis rapaz dentro de casa era muito obidiente do pai. Intão fazia lavora e tudo...

        Um dia os rapaz tá lá trabaiando na roça e passo um home.

        Chegô, oiô ês:

        – Bom dia!

        – Bom dia!

        – Uai!

        – Tá trabaiano, né, ôs minino?

        – É, nós tá trabaiano aqui, mas nosso pai tá bastante avançado na idade, coitado, num pode fazê mais nada. Agora nós é que trata dele. Nós faz tudo, pa meu pai.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVi8XmXejUg5oQiUHhFrayOHjThcw0twjq9bGt7UOJ4gIw9jmcAaXCVuNZ6yL2KPrtnIytmAYxpSIWJwsEzsldUNZ5N25QA3x2U_PfA9UvWXJA7XfCAxC86HHs-PV6apj5MpBdKMFBVYMmrjpy0_JlMAPzNQUT9NugKla3q_t5MHQ2FPDVKxSM2zVUOIs/s320/palavra-lingua-portuguesa-que-muitos-falam-errado.jpg

        O home assuntô ‘sim. Falô:

        – Ó, ocês é besta, moço! Cês tá pa saí po mundo, pocês trabaiá, arrumá suas vida. Se ocês ficá mais seu pai toda vida, cês num ‘ruma nada. Cês tem que largá ele. Dipois que ocês largá ele, ele dá o jeito dele, uai! Ocês fica só dento de casa trabaiano pa seu pai, cês num ruma nada procês não. E dispidiu dês e saiu.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Coordenado pela profa. Sônia Queiroz. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. p. 6-7.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 122.

Entendendo o conto:

01 – Quantos filhos tinha o viúvo e como o texto descreve o comportamento deles em relação ao pai?

      O viúvo tinha três filhos ("treis rapaz"). O texto descreve-os como muito obedientes, cuidando de todo o trabalho da lavoura e de casa para sustentar o pai, que já tinha uma idade muito avançada e não podia trabalhar.

02 – O que os rapazes estavam a fazer quando um homem passou por eles?

      Os rapazes estavam a trabalhar na roça (na lavoura) quando o homem passou e os cumprimentou.

03 – Qual foi o conselho dado pelo homem que passou pelos rapazes?

      O homem aconselhou os rapazes a abandonarem o pai ("largá ele") e a saírem pelo mundo para trabalharem e orientarem as suas próprias vidas. Ele afirmou que, se continuassem ali a cuidar do pai, nunca iriam conseguir conquistar nada para si mesmos.

04 – Como o homem justificou a ideia de que os rapazes deveriam deixar o pai idoso sozinho?

      Ele justificou dizendo que os rapazes eram "bestas" por ficarem presos a trabalhar apenas para o pai e garantiu que, se eles se fossem embora, o pai acabaria por arranjar uma forma de se sustentar sozinho ("ele dá o jeito dele").

05 – O que o dialeto e os erros gramaticais presentes no texto (como "treis rapaz", "num trabaiava", "home") revelam sobre a origem do conto?

      Revelam que se trata de um conto de tradição oral popular, registado de forma a preservar a linguagem e a variação linguística regional (frequentemente associada ao ambiente rural/caipira do Brasil), mantendo a autenticidade da forma como a história é contada pelo povo.

 

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

CONTO: VIVA O NATÉRIO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Viva o Natério

             António Torrado

Lá na aldeia todos sabiam que ele era ladrão, mas tinham-lhe medo.
Diziam que ele assaltava viajantes, noite alta. Também contavam de assaltos a casas dos povoados próximos, estivessem lá moradores ou não. E era cruel, rancoroso, arrebatado, perverso. Um tojo, um cardo de malvadez.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiPi0reRUxJkXlv5T2HqdHOonOBDvdqkRmW-Kbf9lVeMOmQDQWp_Ieh_QueSDeoVLwG_CII9-I1B0Mp5MUvooRIr4KZAmq8FiRvkDydx_2y4Jl3LLVzDeY0B4A1OCXN_BovxVV7wNyx2sF3PcdSDwlmgX1pKxq4PvPj2idVYsrYA_xTwxG7EH66dKCkH1k/s320/natercio.jpg

 
A gente pacífica da aldeia não descortinava maneira de ver-se livre do malfeitor. No tempo em que esta história aconteceu, não havia polícia senão nas cidades maiores. Os caminhos para lá chegar eram demorados e pouco seguros.
Por isso, sem autoridades que lhes valessem, os aldeãos viviam em perpétuo terror.
Até que, um dia, o Natério, um dez-réis de gente, mas muito vivaço e destemido, resolveu dar a volta à história. Naquele estado de pavor geral é que as coisas não podiam continuar.
Antes de o ladrão ir ter à casa onde se acoitava, costumava passar por perto de um poço da aldeia. Quando lhe adivinhavam a sombra, as mulheres que vinham buscar água fugiam e até bilhas e celhas deixavam na borda.
Desta vez, o malfeitor encontrou um rapaz, que chorava baba e ranho, à beira do poço. Era o Natério.
Não que se impressionasse com as lágrimas, mas por curiosidade, o ladrão perguntou qual a razão da choradeira.
- Trazia uma pesada taça de prata, que a minha mãe tinha areado, a mando do senhor padre...
- Era pesada a taça, disseste tu? - interessou-se o maganão, de olhos a luzir.
O rapaz fez que sim e continuou o seu relato:
- Debrucei-me para o poço, à caça de uma lagartixa, e a taça caiu-me lá dentro. Uma desgraça! O que é que eu vou dizer à minha mãe? E ao senhor prior?
Como se temesse as respostas, o rapaz voltou ao berreiro.
- Deixa estar que eles escusam de saber - disse o ladrão, escarranchado no bordo do poço. - Eu trago-te a taça, não tarda.
Enfiou pelo poço abaixo, que era fundo e estava menos de meio.
- Não encontro a taça - dizia ele.
A voz ecoava na abóbada do poço. Era assustadora.
- Procure o senhor do seu lado direito, que ela caiu mais para esse lado.
O ladrão, que se segurava por uma corda presa à cintura, desceu mais um tanto, agarrado às paredes do poço. Valente era ele.
- Ainda não achei - dizia.
- Mas achámo-lo nós - gritou-lhe de cima o Natério.
Dos pinhais ao redor romperam mulheres e homens, à chamada do rapaz. Agarraram todos uma enorme pedra e puseram-na a tapar a boca do poço. O bandido gritou, mas de nada lhe valeu.
Já outros da aldeia tinham ido à cidade chamar a guarda. Dias depois, foi removida a pedra e o ladrão saiu a praguejar da armadilha que lhe tinham pregado. Chegando ao cimo, calou-se. Tinha guarda de honra à espera, uma fieira de canos de espingarda apontada para ele.
Os guardas levaram-no e nunca mais se soube do brutamontes.
O poço ganhou nome. Passou a ser conhecido pelo poço do Natério. E se, um dia, andarem por terras monfortinhas, a caminho de Castelo Branco, talvez ainda haja quem saiba dizer onde fica.

 

Entendendo o texto

01. Por que a população da aldeia não conseguia se ver livre do ladrão e vivia em perpétuo terror?

a. porque o ladrão era muito querido por parte dos moradores, que o protegiam da polícia.

b. porque o poço da aldeia pertencia ao bandido e ninguém podia pegar água sem a permissão dele.

c. porque não havia polícia na região, apenas nas cidades maiores, e os caminhos até lá eram demorados e inseguros.

d. porque o Natério ajudava o malfeitor a planejar os assaltos contra os viajantes.

 

02. Qual foi o argumento utilizado pelo Natério para atrair a atenção e despertar a ganância do ladrão à beira do poço?

a. ele fingiu que estava caçando lagartixas e que havia encontrado moedas de ouro no fundo do poço.

b. ele chorou e inventou que uma pesada taça de prata, que pertencia ao padre, havia caído lá dentro.

c. ele desafiou o bandido a provar a sua valentia descendo até o fundo do poço sem usar cordas.

d. ele prometeu revelar o esconderijo onde os aldeãos guardavam todas as suas bilhas e celhas.

 

03. Como o Natério e os moradores da aldeia conseguiram prender o criminoso antes da chegada das autoridades?

a. eles cortaram a corda que segurava o ladrão assim que ele chegou ao fundo.

b. eles jogaram pedras enormes na cabeça do bandido enquanto ele procurava a taça de prata.

c. eles saíram dos pinhais ao redor, chamados pelo rapaz, e taparam a boca do poço com uma enorme pedra.

d. eles esvaziaram toda a água do poço para deixar o malfeitor preso na lama.

 

04. O que aconteceu com o bandido após passar alguns dias preso na armadilha do poço?

a. ele conseguiu empurrar a pedra sozinho, mas foi cercado pelos moradores armados com foices.

b. ele se arrependeu de seus crimes, pediu perdão ao padre e foi libertado pelo Natério.

c. a pedra foi removida e ele saiu a praguejar, mas acabou preso pela guarda da cidade que já o esperava com espingardas apontadas.

d. ele fugiu pelos canais subterrâneos do poço e nunca mais voltou às terras monfortinhas.

 

05. De acordo com o final do texto, qual foi a homenagem ou marca que esse acontecimento deixou na região?

a. o vilão virou uma estátua de pedra que foi colocada na entrada da cidade.

b. o poço passou a ser conhecido como o "poço do Natério", local que fica a caminho de Castelo Branco.

c. o Natério foi nomeado o novo chefe da guarda e ganhou uma taça de prata real do prior.

d. os pinhais ao redor foram derrubados para que ninguém mais pudesse se esconder ali.

FÁBULA EM POEMA: O RATO CASEIRO E O RÚSTICO - LA FONTAINE - COM GABARITO

 Fábula em Poema: O rato caseiro e o rústico

                                 La Fontaine


Convida, uma vez, ratinho
Mui galante e cortesão,
Certo arganaz montesinho
A sobras dum perdigão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhELcOI97Xg0MdHhGrgqy5DR1fLQC-is1ZiqZzHQakBv7A41UztuxN974dNdWJs4PGsL0BC1RvgVSjuvzeZT4rLfk8pfgtukz9CEfKYfeKqyn19LKBn6t6GXtn8EwB5Cdf5bvXrSPbjHp8MLULs9kItiX4bezOKzrFuRMxwJA_0r3lPHo-Jx7_GDSgyCSY/s1600/rato.jpg



Em guedelhudo tapete
Luz o esplêndido talher.
São dois, mas valem por sete.
Que apetite! que roer!

Foi folgança regalada;
Nada inveja um tal festim.
Senão quando, na malhada,
Pilha-os súbito motim.

Passos à porta da sala...
Param os nossos heróis.
E o terror, que pronto os cala,
Lança em pronta fuga os dois.

Foi-se a bulha. Muito à mansa
Vêm-se chegando outra vez.
«Dêmos remate à folgança –
Diz o da corte ao montês.

– Nada. Mas vem tu comigo
Jantar amanhã; bem sei
Que lá me não gabo, amigo,
Desta vidinha de rei.

Mas ninguém me turba em meio
Do jantar; sobra o lazer.
E adeus. Figas ao prazer
Que pode aguar um recreio.»

Tradução de José de Sousa Monteiro

Entendendo o texto

01. No início do poema, o que motiva o encontro entre o rato cortesão (caseiro) e o arganaz montesinho (rústico)?

a. o rato do campo convida o rato da cidade para conhecer a vida na floresta.

b. o rato caseiro convida o rato do campo para um banquete com as sobras de um perdigão.

c. ambos decidem se unir para roubar comida da cozinha de um grande rei.

d. o rato rústico precisava de ajuda para fugir de um motim em sua toca.

 

02. O que interrompe a "folgança regalada" e o grande apetite dos dois ratos durante o banquete?

a. a chegada de um gato que destrói o tapete onde eles comiam.

b. a falta de comida, que acabou rápido demais por causa do apetite deles.

c. um barulho repentino de passos à porta da sala, que espalha o terror e os força a fugir.

d. uma briga entre os dois ratos para decidir quem comeria a melhor parte.

 

03. Após o barulho cessar ("foi-se a bulha"), qual é a reação do rato da corte?

a. ele sugere que eles terminem a festa e continuem comendo ("Dêmos remate à folgança").

b. ele desiste de morar na cidade e pede para ir embora com o amigo.

c. ele chora de medo e se recusa a sair do esconderijo.

d. ele briga com o rato rústico por ter feito barulho e chamado a atenção.

 

04. Por que o rato rústico (montesinho) recusa continuar o jantar na corte e convida o amigo para ir à sua casa no dia seguinte?

a. porque na sua casa a comida é muito mais sofisticada e saborosa do que os restos de perdigão.

b. porque ele prefere comer deitado no chão do que em cima de um tapete luxuoso.

c. porque, embora não tenha uma vida de rei, em sua casa ninguém perturba o jantar e há tranquilidade.

d porque ele ficou com raiva do rato caseiro por causa do susto que levou.

 

05. A expressão "Figas ao prazer / Que pode aguar um recreio" dita pelo rato do campo no final do texto significa que:

a. ele prefere passar fome a ter que comer carne de perdigão.

b. ele rejeita qualquer luxo ou prazer que venha acompanhado de medo, perigo e sobressaltos.

c. ele deseja sorte ao amigo cortesão para que ele continue aproveitando a vida na cidade.

d. ele acredita que o prazer de comer na corte compensa o risco de morrer.

 

CONTO: SORTE PARA O PINTASSILGO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: Sorte para o pintassilgo

              António Torrado

 

Era uma vez um velho lenhador. Andara a vida inteira a percorrer a floresta e, agora que as forças já lhe faltavam para empunhar o machado, passava os dias, tristemente, à porta do seu casebre.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjkVuf0oe3TrZom_-u5NZsVLAvRblkiDI8EOI67ZM3pXuUqp86xYGdYHHxS4kIN1NvPxvr-VdoQ1vGb6tPqZ3dgYCTs__sPinX_EcfR4YrjRtER4EBYyR-tnJcobOa-rNZMQOnImx23T4QSMLzO2Ylfsxaae62ZuZHdvDya3l4p-1i0ZE0hMLjSIcSb-CA/s320/pitassilgo.jpg


Entre as lembranças mais antigas que lhe preenchiam a memória, recordava-se de uma história que o tinha encantado, na infância. Nela se contava que havia, na floresta, anõezinhos tão pequenos que nem um palmo mediriam. Os anões ou gnomos, tanto faz, guardavam, num esconderijo, pedras de ouro puro, acumuladas, ao longo de séculos pelo trabalho incansável de várias gerações de mineiros anõezinhos.
O lenhador, que conhecia a floresta de lés a lés, nunca vira um gnomo nem, a bem dizer, acreditava que a história correspondesse à verdade.
- Invenções para entreter meninos. E velhos... - dizia ele de si para si, com um sorriso desencantado.
Mas não é que, um dia, descobriu mesmo um gnomo?
Um gnomo a dormir, de boca aberta, junto à raiz de um pinheiro da floresta, era uma descoberta fantástica.
O lenhador agarrou-o pela cintura como quem agarra um gafanhoto e gritou-lhe:
- Afinal, sempre é verdade. Agora, só falta saber o segredo do tesouro dos gnomos...
O homenzinho, preso entre o polegar e o indicador do homenzarrão, debatia-se e protestava que nunca tinha ouvido falar em tal tesouro.
- Se não me dizes, onde o esconderam, aperto-te a barriga, que nem tempo tens para dizer ? Chega - ameaçou o lenhador.
E era bem capaz... A possibilidade imprevista de vir a ficar rico, riquíssimo, quase o enlouquecia.
- Diz-me onde está o tesouro ou esborracho-te - insistiu o lenhador.
O gnomo, não tendo outra alternativa, acabou por apontar uma árvore, confessando que, debaixo da raiz da árvore, numa loca, estava, agasalhado entre musgos, o maior tesouro do mundo.
- Já vamos saber se é como contas - disse o lenhador.
Mas entardecia. Era Inverno, estação do ano em que, como se sabe, a noite cai cedo e depressa. O lenhador, contrariado por ter de guardar para o dia seguinte o que queria resolver naquele dia, fez uma cruz a canivete, no tronco da árvore indicada, e disse:
- Amanhã voltamos cá e, pelo seguro, tu hoje à noite vais ficar hospedado em minha casa.
Maneira de dizer... Hospedado no casebre, isto é, prisioneiro na gaiola, donde despejou um pintassilgo. Sorte para o pintassilgo.
O lenhador, nessa noite, dormiu mal. Quanto ao gnomo, nunca saberemos se dormiu bem ou não, visto que, na manhã seguinte, o lenhador deu com a gaiola vazia.
- Mas o tesouro há-de estar onde ele apontou - animou-se o lenhador.
De enxadão ao ombro, avançou para a floresta.
- Cá está a árvore que eu marquei - exclamou.
Efectivamente, a árvore tinha uma cruz, no tronco, riscada a canivete. Mas outras árvores perto e outras longe tinham uma cruz igual. Não havia uma única árvore da imensa floresta que não exibisse uma cruz, em cheio, no dorso do tronco.
Os gnomos, pela calada da noite, tinham trabalhado bem.
O lenhador, a sentir-se ainda mais velho e ainda mais cansado, deixou o enxadão encostado a uma das árvores, e voltou para casa, de cabeça baixa. Nada ganhara e até o pintassilgo da gaiola ele tinha perdido...

 

António Torrado

Entendendo o texto

01. O que o velho lenhador costumava fazer nos seus dias atuais, agora que as forças já lhe faltavam para o trabalho?

a) passava os dias tristemente à porta do seu casebre, pois não conseguia mais empunhar o machado.

b) percorria a floresta inteira à procura de pistas sobre o tesouro dos gnomos.

c) divertia as crianças da região contando histórias que ouviu na sua infância.

d) dedicava o seu tempo a criar e cuidar de um pintassilgo em uma gaiola.

 

02. Como o lenhador reagia, inicialmente, à história sobre o tesouro dos gnomos que tinha ouvido quando era criança?

a) ele acreditava piamente e passou a vida inteira cavando buracos sob os pinheiros.

b) ele achava que eram apenas invenções para entreter meninos e velhos, demonstrando desencanto.

c) ele tinha medo dos gnomos e evitava entrar nas partes mais densas da floresta.

d) ele procurava os gnomos apenas para pedir que libertassem as aves da floresta.

 

03. Para garantir que encontraria o tesouro no dia seguinte, já que estava escurecendo, quais medidas o lenhador tomou?

a) amarrou o gnomo no pinheiro e cobriu a raiz da árvore com musgo para ninguém ver.

b) levou o enxadão para a floresta e começou a cavar imediatamente, mesmo no escuro.

c) fez uma cruz a canivete no tronco da árvore indicada e levou o gnomo preso para casa.

d) desenhou um mapa detalhado da floresta e soltou o gnomo como recompensa.

 

04. Por que o título do texto faz uma referência à "Sorte para o pintassilgo"?

a) porque o pintassilgo ganhou o tesouro dos gnomos no final da história.

b) porque o lenhador resolveu soltar a ave por pura bondade antes de ir dormir.

c) porque o gnomo ajudou o pássaro a fugir da gaiola durante a madrugada.

d) porque o lenhador despejou o pássaro da gaiola para poder prender o gnomo lá dentro.

 

05. Qual foi a estratégia utilizada pelos gnomos para proteger o tesouro e enganar o lenhador durante a noite?

a) eles mudaram o tesouro de lugar e o esconderam em uma loca sob outra raiz.

b) eles apagaram a marca que o lenhador tinha feito no tronco da árvore com o canivete.

c) eles fizeram uma cruz idêntica no tronco de absolutamente todas as árvores da imensa floresta.

d) eles prenderam o lenhador dentro do seu próprio casebre para que ele não voltasse à floresta.