CONTO(FRAGMENTO): ASA CURTA
Asa Curta era
um passarinho já muito velho, mas que ainda não sabia voar. Ele tinha
aprendido, em seus oito anos de vida, muita coisa que passarinho nenhum desse mundo
nunca haveria de saber.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiM9zO5BguBlmMgW9phamzRJm9EJLOfeDWYOPNTU29Z2sHj2Bwp4OfwAFEpTJcfBPj5I6JtWZEQfr_pUUK96L0pGKg_MHVwcy6lAQgjUDJcDXfIZRSd_ykjed7BszqTPnMGYM7gsgXKnXnu2T-Qa2JZ9yMCFrRoJ6VewA4fY53c_6HQk49WMG-h2WqOl8/s320/ASA.jpg
Quem já viu
passarinho nadar? – e esse nadava; quem já viu passarinho ler um livro? – e
esse lia; quem já viu passarinho dançar? – e esse dançava tudo que é dança que
gente sabe dançar: samba que nem o brasileiro, tango que nem o argentino, polca
como os russos, valsa como os austríacos, baião e xaxado que nem os
nordestinos, rock, tuíste, iê-iê-iê e essas danças todas que os americanos já
inventaram. Até mesmo algumas que ninguém nunca dançou, que ele mesmo tinha
inventado e até batizado: o saracoteio, o vira-e-mexe, o passo-do-passarinho, a
dança-do-bico-pro-ar...
E havia
ainda muita coisa mais que o Asa Curta fazia, diferente de tudo quanto os
outros passarinhos sabiam fazer. Ele era mesmo um artista, desses de ganhar
prêmio em programa de televisão: dava cambalhota como gente de circo, levantava
galho de árvore com uma pata só, imitava voz de homem e voz de mulher,
assoviava comendo alpiste...
Mas de que adiantava
fazer tudo isso – e muito mais, que ele só não fazia porque senão os outros iam
pensar que ele era um passarinho louco – , de que adiantava tudo isso, se ele
não sabia fazer o que o mais novo e o mais analfabeto passarinho de qualquer
floresta ou de qualquer cidade era capaz de fazer? De que adiantava ser o
passarinho mais famoso que já houve na terra dos passarinhos, se ele não sabia
voar?
– Não adianta
nada! – queixava-se o velho Asa Curta, em conversas com Andorinha Veloz, sua
maior amiga e a única criatura que conhecia esse seu segredo de não saber voar.
– Mas você é o passarinho mais perfeito que todo o mundo já viu, Asa Curta!
Sabe fazer casa como o João de Barro, canta que nem um Curió. E, depois, é
artista de dar inveja a toda a gente.
É, a
Andorinha Veloz tinha razão: ele podia fazer tudo isso, mas não se sentia nem
um pouco feliz porque não era capaz de voar. E por isso ele tinha poucos
amigos: como ia ter coragem de dizer para eles que não sabia voar? Por isso ele
nunca tinha pensado em se casar: depois, como ia fazer para ensinar seus
filhotes a voar, e para arranjar comida pra eles e pra sua mulher? (...)
Mas tristeza
mesmo ele tinha era quando seus amigos chegavam de viagem. Um dia era o Pardal
Ambulante, que tinha visitado a Argentina e corria logo pra contar ao Asa
Curta:
– Mas é
impressionante, companheiro, como que o povo lá dança tango igualzinho você
sabe dançar.
No outro dia,
era o Pica-Pau Leva-e-Traz, que tinha ido até a Rússia vender pau-brasil e
comprar madeira russa para os pica-paus brasileiros.
– Nossa, Asa
Curta, eu vi o pessoal dançando na rua uns troços do mesmo jeito que você dança
aqui.
Era a polca,
que Asa Curta tinha aprendido a dançar lendo uns livros russos. Ele morria de
vontade de ver como é que cada povo dançava a sua dança, mas não podia chegar a
lugar nenhum só andando. E então, quando os outros passarinhos lhe perguntavam
por que ele não viajava também, Asa Curta saía sempre com desculpas:
Eu já estou velho, não aguento mais essas
viagens.
Ou, então, era
obrigado a dizer uma mentira qualquer:
– Eu já viajei muito
quando era moço, aprendi muita coisa. Agora prefiro ficar por aqui mesmo.
Mas fazia uma cara tão triste nesses momentos,
que todos percebiam a mentira e que ele estava é com muita vontade de viajar
também. Então, por que motivo não viajava? Só a Andorinha Veloz sabia, mas não
contava a ninguém; ficava só consolando o amigo. E quando voltava de uma
viagem, não trazia só notícias para o Asa Curta, traz também presentes, livros,
revistas e fotografias. E assim Asa Curta ficava sabendo mais ainda das coisas.
Mas isso era pouco: ele já estava cansado
desse conhecimento só de livros, de revistas e de fotografias. Queria ir também aos lugares, conhecer os passarinhos de lá conversar
com eles, ver as coisas com seus próprios olhos sentir o mundo com seu próprio
bico.
(MANSUR, Gilberto.
Um outro jeito de voar. Belo Horizonte: Formato, 1989.)
Entendendo
o texto
01. Qual é o grande
segredo e a principal causa da tristeza de Asa Curta?
a.
Ele não conseguia aprender a dançar o tango argentino.
b. Apesar de ser um artista talentoso e saber fazer muitas coisas,
ele não sabia voar.
c.
Ele tinha medo de altura e por isso preferia nadar no rio.
d.
Ele era um passarinho muito jovem que ainda não tinha idade para sair do ninho
02. O texto lista diversas
habilidades extraordinárias de Asa Curta. Qual dessas ações é algo que
"passarinho nenhum desse mundo" costuma fazer?
a.
Cantar de manhã cedo para acordar a floresta.
b.
Construir ninhos em árvores altas usando gravetos.
c. Ler livros, nadar e dançar ritmos como samba, polca e rock.
d.
Comer alpiste e voar para longe quando sente perigo.
03. Quem é a única
personagem que conhece o segredo de Asa Curta e tenta consolá-lo?
a.
O Pica-Pau Leva-e-Traz, que viaja para a Rússia.
b.
O Pardal Ambulante, que conhece a Argentina.
c. A Andorinha Veloz, sua maior amiga.
d.
O João de Barro, que o ensinou a construir casas.
04. Por que Asa Curta
evitava se casar e ter poucos amigos, segundo a narrativa?
a.
Porque ele era muito orgulhoso e se achava melhor que os outros.
b. Por medo e vergonha de que descobrissem que ele não sabia voar e
não poderia ensinar seus filhotes.
c.
Porque ele passava o dia todo viajando pelo mundo para fazer shows.
d.
Porque ele preferia morar sozinho em sua biblioteca lendo livros russos.
05. Como Asa Curta
aprendeu a dançar ritmos de países distantes, como a polca russa, se ele não
podia viajar para fora?
a.
Assistindo a programas de dança na televisão dos homens.
b. Através da leitura de livros sobre a cultura desses povos.
c.
Ouvindo o rádio de um lavrador que morava perto da floresta.
d.
Tendo aulas particulares com a Andorinha Veloz.
06. Qual é a reação de
Asa Curta quando os outros passarinhos contam sobre as viagens que fizeram?
a.
Ele fica feliz e pede para eles o levarem na próxima viagem.
b. Ele sente uma tristeza profunda ("morria de vontade de
ver"), mas inventa desculpas para não revelar sua limitação.
c.
Ele finge que já conhece todos esses lugares e conta mentiras. d. Ele
começa a dançar para mostrar que é mais talentoso que os estrangeiros.
07. A frase "De que
adiantava ser o passarinho mais famoso [...] se ele não sabia voar?"
sugere que:
a.
Voar é a habilidade mais inútil para um pássaro artista.
b. Para o personagem, o talento e a fama não substituíam a
necessidade de exercer sua natureza essencial (voar).
c.
Asa Curta preferia ser um homem em vez de ser um passarinho. d. A
fama traz muita infelicidade para quem vive na floresta.
08. Após leitura atenta do texto, é CORRETO
afirmar que Asa Curta
a. vive um dilema muito grande por ser diferente,
mas não deixa de fazer absolutamente nada do que os outros pássaros fazem.
b. acostumou-se com sua diferença, não vendo mais
necessidade de ser igual ou parecido com os outros pássaros.
c. dedica-se
a levar uma vida plena de realizações, embora deseje, também, realizar os
feitos que sua diferença o impedem de fazer.
d. acostumou-se a ser diferente e, mesmo não podendo
fazer tudo, sente-se realizado e feliz.
e. vive um dilema grande, uma vez que sua diferença o
isolou do convívio com os demais pássaros.
09. Quanto à conduta de Asa Curta, conclui-se que
ele é um pássaro
a. vivaz, sem conflitos e que não se importa com a
opinião alheia.
b. autêntico, feliz e plenamente realizado.
c. confiante, alegre e, apesar de suas limitações,
satisfeito com a vida.
d. ativo,
inteligente e preocupado com a opinião dos outros em relação a suas atitudes.
e. criativo, autêntico e acomodado em sua realidade.
10. A palavra “queixava-se” não poderia
ser substituída, no contexto, por
a.
orgulhava-se.
b. lamentava-se.
c. desgostava-se.
d. lastimava-se.
e. lamuriava-se.
11. Com base na leitura do texto, a proposição
INCORRETA é que
a. “mas” introduz uma ideia de oposição.
b. o termo
“tudo isso” se refere ao fato de Asa Curta poder voar.
c. a palavra “quando” expressa a mesma circunstância
da expressão “um dia”.
d. a palavra “se” estabelece, no contexto, uma ideia de condição.
e. o vocábulo “amiga” refere-se a Andorinha Veloz.