quarta-feira, 20 de maio de 2026

FÁBULA: O MORCEGO E A DONINHA - ESOPO - COM GABARITO

 Fábula: O Morcego e a Doninha

         Um dia, um Morcego caiu num buraco de uma Doninha e foi apanhado por ela. Pediu-lhe que lhe poupasse a vida, mas a Doninha recusou respondendo-lhe que não o podia fazer porque era inimiga dos pássaros.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgL7aO_KjJslHznTUNoUIVlrwdyFmsnZjkrwcvma4bi5h1iG57Fw4qhxxnhwXzFWRZa-CUKmGu-fux-CtptOZ11ots-yVzFpHQ2JYQr0rldFH9ODdcurL5S0aFhrPpYg1BaWVUF5JCt6sokw21HKWjnbvctJ-WzIw_g0eRehHCY9N9z0mForcwyLarXFCY/s320/morcego.jpg
 

        -- Mas eu não sou um pássaro, sou um rato! – argumentou o Morcego.

        Ouvindo isto, a Doninha poupou-lhe a vida e deixou-o partir.

        Pouco tempo depois, o Morcego voltou a cair e foi apanhado por outra Doninha. Desta vez, quando o Morcego lhe pediu que lhe poupasse a vida, a Doninha respondeu que não podia, porque detestava ratos.

        -- Mas eu não sou um rato, sou um pássaro! – respondeu-lhe o Morcego.

        A Doninha deixou-o partir, poupando-lhe a vida.

Moral da história: É bom sabermos adaptar-nos às circunstâncias.

Fábula de Esopo.

Entendendo a fábula:

01 – No primeiro encontro, por que a Doninha recusou inicialmente o pedido do Morcego para lhe poupar a vida e qual foi o argumento utilizado por ele para se salvar?

      A Doninha recusou poupar a vida do Morcego porque afirmou que era, por natureza, inimiga declarada dos pássaros. Para se salvar, o Morcego usou a sua anatomia ambígua a seu favor, argumentando que ele não era um pássaro, mas sim um rato. Ao ouvir essa justificativa, a Doninha mudou de ideias e libertou-o.

02 – O que aconteceu no segundo encontro do Morcego que o colocou novamente em perigo de vida? Como a ameaça desta segunda Doninha diferia da primeira?

      O Morcego cometeu o erro de cair novamente num buraco e foi capturado por uma segunda Doninha. A ameaça desta nova Doninha era exatamente o oposto da primeira: enquanto a primeira odiava pássaros, esta segunda afirmou que detestava ratos, o que invalidava o argumento anterior que o Morcego tinha utilizado para sobreviver.

03 – Como o Morcego conseguiu salvar-se da segunda Doninha, considerando que ela detestava a criatura que ele dizia ser no primeiro encontro?

      O Morcego adaptou rapidamente o seu discurso à nova ameaça. Como a segunda Doninha detestava ratos, ele alterou a sua identidade e afirmou: "Mas eu não sou um rato, sou um pássaro!". Mostrando as suas asas, ele convenceu o predador e conseguiu que a sua vida fosse poupada mais uma vez.

04 – As características físicas do morcego (ter asas como uma ave, mas corpo e feições semelhantes aos de um roedor) são fundamentais para o desenvolvimento da história. Explique como o personagem usou essa dualidade de forma estratégica.

      O Morcego usou a sua dualidade física como uma estratégia de sobrevivência baseada na conveniência. Ele não mentiu completamente em nenhuma das situações, mas escolheu omitir uma parte da sua natureza e enfatizar a outra dependendo de quem o atacava. Contra o inimigo dos pássaros, agiu como rato; contra o inimigo dos ratos, agiu como pássaro.

05 – A moral da história afirma que "É bom sabermos adaptar-nos às circunstâncias". De que forma as ações do Morcego exemplificam essa lição e como isso pode ser aplicado à vida real?

      O Morcego exemplifica a moral ao não demonstrar um comportamento rígido ou teimoso; ele avaliou o perigo de cada momento e mudou a sua postura para sobreviver. Na vida real, a fábula ensina que a flexibilidade e a astúcia são ferramentas essenciais. Em vez de nos lamentarmos perante as dificuldades, devemos analisar o cenário e ajustar o nosso comportamento e argumentos para superar os diferentes obstáculos que surgem.

 

CONTO: A VIRTUDE DA PACIÊNCIA - COM GABARITO

 Conto: A virtude da paciência

 

        Um mandarim foi nomeado para o seu primeiro posto oficial.

        Ele recebeu a visita de um amigo, que vinha se despedir dele.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOOfcgE6wG8LeOmeWx0ha8PGPkAP3r0qEMnD2UuoFQzrAp_g8r_vRn-idAAIQLjS2E2840awus6vZzhsIpjl9gb0QuPAwafKzJMzqz90d160JP5Ctj6aakd3iQaMTSotpeWVL1aGDjCVlZAU7MEHLaOuIrc8D29TsdbaydpGaXLYzFbvZqgHLwiTjKjQQ/s1600/o-mandarim.jpg


        -- Seja paciente, recomendou o amigo, se fores paciente, não vais ter nenhuma dificuldade no novo posto.

        O mandarim disse que iria se lembrar do conselho.

        Seu amigo repetiu a recomendação mais três vezes e a cada vez o mandarim dizia que iria se lembrar.

        Mas quando o mesmo conselho foi repetido pela quarta vez, ele irritou-se:
        -- Acha que eu sou um imbecil? É a quarta vez que me repete a mesma coisa!

        -- Estás vendo o quanto é difícil ter paciência? Bastou em dar o mesmo conselho duas vezes a mais e já ficaste com raiva.

 

Contos do Oriente.

Entendendo o conto:

 01 – Qual foi o principal conselho que o amigo deu ao mandarim antes de ele assumir seu novo posto oficial?

      O amigo recomendou expressamente que ele fosse paciente, afirmando que, se agisse com paciência, não encontraria nenhuma dificuldade em seu novo cargo.

02 – Como o mandarim reagiu nas primeiras vezes em que o amigo repetiu o conselho?

      Nas primeiras três vezes em que o amigo repetiu a recomendação, o mandarim reagiu de forma tranquila e educada, dizendo que iria se lembrar do conselho.

03 – O que fez com que o mandarim perdesse o controle e se irritasse?

      O mandarim perdeu o controle quando o amigo repetiu o mesmo conselho pela quarta vez. Ele se sentiu ofendido e questionou se o amigo o achava um imbecil por insistir tanto na mesma coisa.

04 – Qual foi a intenção do amigo ao repetir o conselho tantas vezes?

      A intenção do amigo era testar e demonstrar, na prática, o nível de paciência do mandarim, provando que falar sobre a paciência é fácil, mas exercitá-la diante da repetição ou do incômodo é muito mais difícil.

05 – Qual é a grande lição ou moral que esse conto nos transmite?

      O conto nos ensina que a paciência é uma virtude difícil de ser mantida e que muitas vezes superestimamos nossa própria capacidade de sermos pacientes. A verdadeira paciência é testada em situações de desconforto, e o mandarim falhou no teste logo na quarta repetição, mostrando que ainda precisava trabalhar essa virtude.

 



FÁBULA: A LAMPARINA - ESOPO - COM GABARITO

 Fábula: A lamparina

 

        Uma lamparina cheia de óleo gabava-se de ter um brilho superior ao do Sol.

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhWZ1mINa9LzGVhyWDTe4OzgXyloZVgolnTHRnGDZMPjifykiK7Ud0nFbpt1p7ldf0nphSw5_kX6YYj0-KouxOsF8ETYv-n1eylZeV6tZNQHfQ3lUMUkMo40uhCAj574TUVAqQuGnB-WFs2xBBg4FyKi1T0HCB_zjl08y3_Z14raWVYuQiIkJBUSN90jhs/s320/LAMPARINA.jpg


        Um assobio, uma rajada de vento e ela apagou-se.

        Acenderam-na de novo e lhe disseram:

        -- Ilumina e cala-te. O brilho dos astros não conhece o eclipse.

Moral da Estória:

        Que o brilho de uma vida gloriosa não te encha de orgulho. Nada do que adquirimos nos pertence de verdade.


Fábulas de Esopo

Entendendo a fábula:

01 – Por que a lamparina se gabava no início da fábula?

      A lamparina se gabava porque estava cheia de óleo e acreditava que o seu brilho era superior ao do próprio Sol.

02 – O que aconteceu para que a lamparina se apagasse?

      Bastaram um assobio e uma rajada de vento para que a chama da lamparina se apagasse completamente.

03 – O que disseram à lamparina depois que a acenderam novamente?

      Disseram para ela iluminar e calar-se, lembrando-lhe que o verdadeiro brilho dos astros (como o Sol e as estrelas) não sofre eclipses ou se apaga facilmente como ela.

04 – Qual é a principal crítica feita ao comportamento da lamparina?

      A crítica é direcionada à sua arrogância e vaidade. Ela se orgulhava de algo temporário e frágil (seu brilho alimentado por óleo) comparando-se a algo grandioso e permanente (o Sol).

05 – Qual é a moral da história e o que ela nos ensina sobre o orgulho?

      A moral é que o brilho de uma vida gloriosa não deve nos encher de orgulho, pois nada do que adquirimos nos pertence de verdade. Ela nos ensina que o sucesso e as posses materiais são passageiros e que devemos cultivar a humildade.

 

 

 

CONTO: O CORVO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 Conto: O corvo

          Era uma vez um corvo.

        Preto e luzidio como todos o são, este corvo sentia-se fadado para grandes voos.

        Mas que voos?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgDLO3RVw2A3UXBqeXp3hWFBiFnc7OcmqIw3BdZGLAi16NCGSsbKXeI-xjFgVPb7eqOPDnaIbRxk1j22lAZ8Qq3t8zX_ql0nmLXs5lgWHERcrcF6DZqCILRR9L1dzvwSZ3jU2cZDWBVyzx8A3KjGnwXLwYbCsh7PoUcjeOf4Z_r__VNnFQpoPPdaATlXCo/s320/corvo.jpg


        Assim vestido, como se usasse casaca, podia ser músico. Aí estava uma profissão bonita. Atrairia os olhares das plateias e os aplausos do público, seria conhecido e gabado. Ele, o corvo violinista ou pianista ou violoncelista, com o nome destacado em todos os cartazes de concertos, pelo mundo fora, não era sensacional?
Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de aprender música. Pois era. Aí é que estava o enfado. Aprender, estudar, ensaiar, em intermináveis sessões de trabalho, debruçado sobre pautas, repetindo, insistindo... Que enjoo!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser músico.

        Mas podia ser ilusionista. Com todos os holofotes concentrados sobre ele, num círculo mágico de luz, o corvo brilharia. Tirava um lenço do bolso e transformava-o numa borboleta. Abria um baralho em leque e adivinhava, de olhos fechados, o valor de cada carta. Soprava um balão e desfazia-o em poalha de espuma. E palmas, muitas palmas sempre, ao fim de cada número.

        Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de exercitar minuciosamente cada truque, preparar-se muito bem, experimentar, adestrar-se. Que canseira!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser ilusionista.

        Mas podia ser juiz. A presidir ao tribunal, com toda a autoridade de quem decide, sendo respeitado e temido, concentraria sobre ele a admiração de todos.

        Mas, para que isso acontecesse, tinha primeiro de ler os códigos, tinha de passar longas noites a consultar calhamaços, a avaliar os processos, a tirar apontamentos, a escrever pareceres, a decorar leis. Que aborrecimento!

        Afinal, pensando bem, já não queria ser juiz.

        O corvo via-se ao espelho e imaginava para a sua bela plumagem, para o requinte dos seus gestos, para a elegância da sua pose, os mais distintos atributos profissionais.

        Apetecia-lhe ser pregador, professor catedrático, diplomata, presidente da república, eu sei lá que mais, embora houvesse sempre uns preparos a cumprir, uns estudos a fazer, que antecipadamente o agoniavam.

        Em qualquer dos casos, sobre o preto brilhante das penas, a fieira de condecorações em destaque provaria que ele era um corvo distinto, diferente, especial, um corvo lançado em altos voos.

        Pois sim, mas... Há sempre um "mas" arreliador, ao cabo destas histórias.

        Alguém lhe lançou uma rede, enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos. Alguém o meteu num saco. Alguém o levou a uma feira. Alguém o expôs de pernas para o ar, presas com um atilho. Alguém o vendeu por pouco dinheiro.

        -- Quer que lhe corte as asas? – perguntou esse alguém ao comprador.

        -- É mais prudente. Assim já não pode fugir.

        Umas tantas tesouradas riparam-lhe as penas mais compridas das asas. Para sempre.

        O corvo trabalha agora num armazém de carvão. Faz de guarda. Usa uma corrente comprida presa à pata e grasna, a dar sinal, à presença de qualquer estranho.

        Os corvos são muito bons nisso.


António Torrado.

Entendendo o conto:

01 – O que motivava o corvo a imaginar-se em profissões de grande prestígio, como músico, ilusionista ou juiz? O que todas essas ambições tinham em comum?

      O corvo era movido pela vaidade e pelo desejo de reconhecimento social. Ele olhava para a sua plumagem preta e luzidia e sentia-se "fadado para grandes voos". O que todas as profissões sonhadas tinham em comum era o desejo pelos holofotes, aplausos, admiração e autoridade. Ele não se importava com a profissão em si, mas sim com o estatuto, a fama e as condecorações que ela lhe traria.

02 – Apesar dos seus grandes sonhos, o corvo desiste rapidamente de cada uma das profissões que imagina. Qual era o principal obstáculo que o impedia de concretizar os seus planos?

      O principal obstáculo era a sua total aversão ao esforço, ao estudo e ao trabalho. Sempre que pensava nas exigências práticas para alcançar o sucesso — como as intermináveis sessões de ensaio da música, o treino minucioso dos truques de ilusionismo ou as noites passadas a ler calhamaços de leis para ser juiz —, ele sentia preguiça e agonia. O corvo queria a glória do topo, mas rejeitava o sacrifício do processo.

03 – Como a distração do corvo com os seus próprios delírios de grandeza contribuiu para a sua captura?

      O corvo vivia tão alienado e focado nas suas fantasias de sucesso que perdeu a noção da realidade e do perigo ao seu redor. O texto afirma que ele foi capturado ("Alguém lhe lançou uma rede") justamente "enquanto ele se aturdia, no meio dos seus sonhos". A sua falta de atenção e o desprezo pelas ações práticas do presente tornaram-no uma presa fácil.

04 – No final do conto, as asas do corvo são cortadas. Qual é o significado simbólico desse ato em relação ao início da história?

      No início do conto, o corvo acreditava estar "fadado para grandes voos", uma metáfora para o sucesso e a liberdade de atingir grandes objetivos na vida. O corte das suas asas pelas tesouras do comprador simboliza a destruição definitiva dos seus sonhos e do seu potencial de crescimento. Ao perder as penas mais compridas, ele perde também a capacidade física e metafórica de "voar", ficando condenado a uma vida rasteira e limitada.

05 – Explique a ironia trágica presente no desfecho da vida do corvo, considerando o local onde ele vai trabalhar e a função que passa a desempenhar.

      A ironia é total e trágica por dois motivos:

      O local: O corvo, que tanto se orgulhava do brilho requintado das suas penas pretas e queria o luxo dos palcos e tribunais, acaba a trabalhar num armazém de carvão, um lugar sujo e escuro onde o seu brilho se apaga.

      A função: Ele, que sonhava ser uma exceção única e "um corvo diferente, especial", acaba preso por uma corrente à pata para fazer o trabalho genérico de um cão de guarda, cumprindo apenas aquilo em que "os corvos [em geral] são muito bons". Em vez da distinção, ele terminou na mais absoluta banalidade.

 

 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

MITOS E LENDAS: QUAL É A DIFERENÇA? (HABILIDADE EF67LP28) - COM GABARITO

 Mitos e Lendas: Qual é a diferença?(Habilidade EF67LP28)

 Embora pareçam iguais, os mitos e as lendas têm objetivos diferentes. Os mitos são histórias sagradas criadas por povos antigos para explicar como o mundo surgiu, como os seres humanos nasceram ou de onde vieram as forças da natureza (como o trovão ou o sol). Eles geralmente envolvem deuses e heróis poderosos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj-Zd49pBrPoX69LVXbxZXYzh1ehyphenhyphenJaVTkcx-BELgerefZ5c6vla_gWBr2vR99qtXJ4rRs-mYc1i6dXbW22TCHZzZPfAQekpRL7FGuv5FuUdyXF0wDGD1VAGNC0TCkLScE20Ix0v0DJ3YU94S7pYsEPIrRqAPg0GNA9mesoZKOgFA1VEEwvUtCN4UfGlz0/s320/mito-e-lenda.jpg
Já as lendas misturam um pouquinho de história real com imaginação. Elas nascem do povo e narram acontecimentos extraordinários, mistérios ou feitos de pessoas que realmente existiram no passado, mas que ganharam elementos mágicos com o passar do tempo.

Entendendo o texto

01. Qual é o principal objetivo de um mito?

      Explicar a origem do mundo, dos seres ou das forças da natureza.

02. Que tipo de personagens costuma aparecer nos mitos?

       Deuses, semideuses e heróis poderosos.

03. O que as lendas usam como base para a sua história?

       Fatos históricos reais misturados com imaginação e elementos mágicos.

04. Se uma história conta como o Deus Sol criou a noite, ela é um mito ou uma lenda?

       É um mito, porque explica a criação/origem de algo no mundo.

05. Qual é a diferença entre o que o mito explica e o que a lenda narra?

        O mito explica a origem das coisas; a lenda narra acontecimentos extraordinários ou feitos do passado.

 

 

TEXTO INFORMATIVO: O MUNDO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - FRAGMENTO - LEILA R. IANNPNE E ROBERTO A. IANNONE - COM GABARITO

 Texto informativo: O mundo das histórias em quadrinhos – Fragmento

         Leila R. Iannone e Roberto A. Iannone

        Como surgiram as histórias em quadrinhos

        Desde o tempo das cavernas, o homem tem utilizado desenhos e outros elementos gráficos para retratar suas aventuras e misticismos. No entanto pode-se dizer que as precursoras das histórias em quadrinhos surgiram apenas no século passado (séc. XIX). Não apresentavam, ainda, a forma atual, mas estavam muito próximas. As ilustrações predominavam, e os textos, quando existiam, eram diminutos e apareciam sob cada quadro ou desenho. Em geral vinham em forma de prosa ou verso e o diálogo praticamente inexistia.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEijv3jZkMt1klzVZTW6GQf8_Q7e1XvbPsQZR1pWY3e3Zlk3o2XqDDYsdINNUxfNoN-XI7M2DdVcKynRV-9x9475rgfwIdpDiHz3RsyLXL0Di9sWTlJDTDiF941n2z2_zGh0-BfXl4Eh1CFTOOLbiM96LstFoMGDV2DB07t6fP3-Kg45a8u30LIruhMcNEI/s320/comic-cuts-considerada-a-primeira-revista-em-quadrinhos-1526567831799_v2_580x731.jpg


        No princípio, os desenhistas desenvolveram as ilustrações para retratar cenas ou contar histórias. Muitas vezes, tudo era mostrado em um único desenho. Em outras, as ilustrações apareciam em sequência, sem legendas. [...]

        As primeiras histórias e personagens

        Em 1897, Rudolph Dirks, jovem desenhista norte-americano da equipe do Morning Journal, apresentou um modelo de expressão cômico-gráfica que ficaria definitivamente conhecido como história em quadrinhos. [...]

        William Hearst [proprietário do jornal] incumbiu Dirks de desenvolver uma nova história, baseada nos personagens Max e Moritz, do desenhista alemão Wilhelm Busch. O exemplar inaugural da série chamou-se Acb, Those Katzenjammer Kids! (Ah! Esses garotos Katzenjammer), com os personagens Hans e Fritz. Driks [...] foi o primeiro autor a apresentar uma história em quadrinhos completa. [...].

        Pouco a pouco, as aventuras de Hans e Fritz consolidaram-se como a série pioneira dos comics. Depois, por volta de 1899, o autor já havia elaborado tantos desenhos da dupla que foi possível aponta-la também como a primeira série permanente do gênero.

        Uma curiosidade: a palavra alemã Katze significa “gato” e Katzenjamme, além de “miado”, é uma expressão de gíria que corresponde a “ressaca”. Sem dúvida, uma referência às consequências das travessuras dos garotos.

        Os personagens principais, os irmãos Hans (o loiro) e Fritz, viviam em guerra com o pai adotivo, o Capitão, e com o inspetor escolar, o Coronel. Todos eram alvos das traquinagens dos garotos, inclusive sua mãe, Dona Chucruts. [...] Essas histórias são publicadas até hoje, com o título de The Captain and The Kids (Os sobrinhos do Capitão). [...]

        Os elementos

        Os quadrinhos – Em sua estrutura usual, a história em quadrinhos compõe-se de quadros que combinam dois meios de comunicação distintos: desenho e texto. seu veículo principal é o próprio quadrinho, também denominado “vinheta”, criado para transmitir uma mensagem. Juntando-se dois ou mais quadros para contar uma história, obtém-se uma sequência. É ela que sugere o movimento ou, em outras palavras, a ação da história.

        Seu formato mais comum é o retângulo, delimitado por linhas retas (moldura). Esse traço que envolve o quadrinho não tem presença obrigatória, pois, na maioria dos casos, sua única função consiste na divisão (separação) das vinhetas. [...]

        A imagem – A imagem é o desenho contido no interior do quadrinho. Geralmente, apresenta uma cena (cenário) que traduz a mensagem do autor para seus leitores. Além da cena, o artista insere os textos (balões e letreiros), compondo o quadro (enquadramento). A análise de uma tira ou sequência permite constatar que o desenhista procura organizar a distribuição das imagens e orientar a leitura.

        O enquadramento – O artista “arranja” o cenário, isto é, o espaço interior do quadrinho para que as figuras associadas ao texto transmitam a sensação de movimento (ação) e facilitem a compreensão da mensagem. Isso significa que o desenhista procura a forma que melhor traduza sua intenção, ou seja, busca uma organização que permite o desenvolvimento da história.

        De modo semelhante ao que se faz no cinema ou na televisão, nos quadrinhos o desenho também pode ser apresentado em planos e ângulos de visão diferentes.

        Os tipos de plano variam de acordo com o destaque que o artista quer dar ao cenário ou aos personagens. Parece que o desenhista usa uma lente zoom, como no cinema ou na fotografia, para aproximar uma figura ou mostrar uma visão geral da cena. Por exemplo, para enfatizar a reação de um determinado personagem, ele pode desenhar apenas o rosto do herói, ocupando todo o quadrinho com essa imagem. [...]

        Os personagens – O personagem principal é o herói e os demais são os coadjuvantes (figuras secundárias ou auxiliares). Algumas histórias trazem mais de um personagem principal, como as estreladas pela dupla Batman e Robin, pela turminha da Mônica, pelo Pato Donald e seus sobrinhos Huguinho, Luizinho e Zezinho e tantos outros casos.

        Sempre que se fala em personagem, surge a questão da tipologia, ou seja, dos traços característicos dos personagens. Segundo a tradição (do cinema, do desenho animado e dos contos de fadas), o mocinho não pode ser confundido com o bandido, nem a heroína com a megera. Desse modo, o artista recorre, mais uma vez, ao traço do desenho para diferenciá-los. Na terminologia dos quadrinhos, o que distingue os diferentes personagens é o chamado “tipo”. Assim, de acordo com o traço e as feições utilizados pelo desenhista, o personagem assume um tipo, independentemente da sua descrição. Pode-se encontrar o tipo tímido, o galante, o espertalhão e assim por diante.

        Outra característica refere-se ao “modelo” que determinados personagens representam para o leitor. Assim, certos personagens acabam virando símbolos. No linguajar técnico, esse símbolo ou padrão é denominado “arquétipo” e, nesses casos, o tipo por si só determina as características do personagem. Tarzan exemplifica o modelo clássico de herói: é esbelto, bonito, esperto, inteligente e, principalmente,  justo. Já o bandido tem como marcas registradas o mau-caráter e a fisionomia abrutalhada.

        Nas histórias infantis, os personagens bons se diferenciam dos maus pela expressão e também pela figura. As aventuras de Disney estão repletas de bons exemplos. Como ele utiliza a imagem de bichos, procura transferir as características de determinado animal para o personagem. Assim, Tico e Teco são dois inocentes esquilos, preocupados basicamente com a estocagem de nozes nos troncos ocos das árvores. Já o Lobão, que é um vilão, passa todo o seu tempo perseguindo os pobres porquinhos. [...]

        Nada acontece por acidente nos comics. A rigor, eles não têm movimento, som e dimensão: essas sensações são apenas sugeridas e nisso residem o desafio e a arte do desenhista. No cinema ou diante da televisão, o público é o espectador. Já os quadrinhos exigem maior envolvimento do leitor, que precisa interpretar e co-participar da ação, como se houvesse uma interação com o artista.

Leila R. Iannone e Roberto A Iannone. O mundo das histórias em quadrinhos. São Paulo, Moderna, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 146-150.

Entendendo o texto:

01 – De acordo com o texto, quando surgiram as primeiras precursoras das histórias em quadrinhos e qual era a sua principal característica gráfica?

      As precursoras surgiram no século XIX (século passado). Elas se caracterizavam pelo predomínio de ilustrações, com textos diminutos que apareciam sob cada quadro ou desenho (geralmente em prosa ou verso), e o diálogo praticamente inexistia.

02 – Quem foi o desenhista norte-americano que apresentou, em 1897, o modelo de expressão cômico-gráfica definitivamente conhecido como história em quadrinhos?

      O jovem desenhista foi Rudolph Dirks, membro da equipe do jornal Morning Journal.

03 – Em quais personagens de um desenhista alemão Rudolph Dirks se baseou para criar a série pioneira "Ah! Esses garotos Katzenjammer"?

      Dirks baseou-se nos personagens Max e Moritz, criados pelo desenhista alemão Wilhelm Busch.

04 – O que é uma "vinheta" dentro da estrutura usual das histórias em quadrinhos e qual é a função da sequência de quadros?

      A vinheta é o próprio quadrinho, veículo principal criado para transmitir uma mensagem combinando desenho e texto. A junção de dois ou mais quadros forma uma sequência, que tem a função de sugerir o movimento ou a ação da história.

05 – Como o texto explica a variação dos tipos de plano no enquadramento e qual recurso tecnológico é comparado a essa técnica?

      Os tipos de plano variam de acordo com o destaque que o artista quer dar ao cenário ou aos personagens. O texto compara essa técnica ao uso de uma lente zoom do cinema ou da fotografia, utilizada para aproximar uma figura (como o rosto do herói para enfatizar uma reação) ou mostrar uma visão geral da cena.

06 – O que é um "arquétipo" no contexto dos personagens de quadrinhos, segundo os autores, e qual exemplo é citado para ilustrar o modelo clássico de herói?

      O arquétipo é um símbolo ou padrão no qual o tipo, por si só, determina as características marcantes do personagem. O exemplo citado é Tarzan, que representa o modelo clássico de herói: esbelto, bonito, esperto, inteligente e, principalmente, justo.

07 – Por que os quadrinhos exigem maior envolvimento do leitor em comparação com o cinema ou a televisão?

      Porque os quadrinhos não possuem movimento, som e dimensão reais; essas sensações são apenas sugeridas pelo desenhista. Assim, enquanto na TV o público é um mero espectador, nos quadrinhos o leitor precisa interpretar e co-participar da ação, interagindo diretamente com a arte.

 

domingo, 17 de maio de 2026

MITO: HERA, RAINHA DO OLIMPO - COM GABARITO

 Mito: Hera, rainha do Olimpo


Hera era a filha mais nova de Cronos (Saturno) e Réia (Cibele). Assim como o irmão Zeus, foi poupada de ser devorada pelo pai, através de um ardil da mãe, que a entregaria recém nascida aos cuidados de Tétis e das Horas.
Quando Zeus derrotou Cronos, após uma guerra sangrenta de dez anos, tornando-se o senhor dos deuses, procurou pela irmã. Fascinado por sua beleza, encantou-se por ela, declarando-lhe uma paixão arrebatadora. Mas Hera declinou diante da paixão do irmão, preferindo manter-se casta. Inconsolável, Zeus transformou-se em um cuco, surgindo na frente da amada como um pássaro triste e quase morto pelo frio. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_1KBDncGbSBBeNvMX7lPrMqTCD-1P7cBmmpV_RBJI2CDyzJtN7UlJwzMYozjyvXj7inwSGQ6xEfuGlOUKCNR7E196KWDfEWXyw8e5Jor38K1H217gq65fROw7SOnbDsqipO8hHQgHgPgUyrm-LvZonZCPxIGkT2wQruUGa-yV392xrTGz-cwOBAK_2SM/s320/HERA.JPG


Compadecida, Hera, pegou a ave, aquecendo-a no calor do seio. Tão logo se viu junto ao corpo da deusa, Zeus, entorpecido pelo desejo, tomou-a para si, violando-a.
Diante da vergonha e humilhação sofrida, Hera exigiu que o irmão reparasse o ultraje. Apaixonado e decidido a encontrar uma companheira, o senhor dos deuses tomou a irmã como esposa, em uma pomposa cerimônia no Olimpo, assistida por todos os deuses. Hera tornava-se, ao lado do marido, a rainha de todos os deuses do Olimpo.
Reza a lenda, que após a grandiosa festa de matrimônio, Hera e Zeus partiram para um longo período de núpcias que duraria trezentos anos. Após regressar das núpcias, a deusa foi até Náuplia, banhando-se na fonte de Cánatos, sendo ali, restituída a sua virgindade.

 Entendendo o texto

01. Quem foram os responsáveis por cuidar de Hera logo após o seu nascimento?

a. Cronos e Réia.

b. Tétis e as Horas.

c. Zeus e Saturno.

d. Náuplia e Cánatos.

02. Que estratégia Zeus utilizou para se aproximar de Hera após ela rejeitar a sua paixão?

a. Iniciou uma guerra sangrenta que durou dez anos.

b. Organizou uma cerimônia pomposa no Olimpo.

c. Transformou-se em um cuco triste e castigado pelo frio.

d. Levou-a para um período de núpcias de trezentos anos.

03. O que Hera exigiu de Zeus após ter sido violada por ele?

a. Exigiu que ele derrotasse Cronos imediatamente.

b. Exigiu que ele a devolvesse aos cuidados de Réia.

c. Exigiu que o irmão reparasse o ultraje, tornando-a sua esposa.

d. Exigiu banhar-se na fonte de Cánatos para recuperar a virgindade. 

04. De acordo com o texto, quanto tempo durou o período de núpcias de Hera e Zeus?

a. Dez anos.

b. Cem anos.

c. Trezentos anos.

d. Quinhentos anos.

05. O que aconteceu quando Hera se banhou na fonte de Cánatos, em Náuplia?

a. Ela foi coroada oficialmente como a rainha do Olimpo.

b. Ela teve a sua virgindade restituída.

c. Ela transformou-se em uma ave para fugir de Zeus.

d. Ela encontrou os seus pais, Cronos e Réia.


FÁBULA: AS CABRAS MONTANHESAS E O CABREIRO - ESOPO - COM GABARITO

Fábula: As cabras montanhesas e o cabreiro

              Esopo

         Levou um cabreiro a pastar a suas cabras e de pronto viu que as acompanhavam unas cabras montanhesas. Legada a noite, levou todas a sua gruta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvPhQ1W7tK3NvjY77F1EFs43WoP-uS25uz8QcMRygxaRggJGxBFUmm9K3Cvu3j7WtbUrt8EfMoYZIa4Q9vuGAZJbtOBcHRzusjOeKAhvJylWZukwwa0RmHNBnZAFbjF2pFrKX0scyTgtKigJFphGrp2mlwZ5i_xQBiZtMxIgkiEMNAzu0gXypuWeupf8g/s1600/CABRAS.jpg

         Na manhã seguinte caiu uma forte tormente e não podendo levá-las, cuidou lá mesmo. Porém, enquanto dava a suas próprias cabras um punhado de forragem, às montanhesas servia muito mais, com o propósito de ficar com elas. Terminou por fim o mau tempo, e saíram todas ao campo, porém as cabras montanhesas escaparam para a montanha. Acusou-as o pastor de ingratas, por abandoná-lo depois de tê-las atendido tão bem, mas elas lhe responderam:
- Maior razão para desconfiar de ti, porque se a nós recém chegadas nos tratou melhor que a tuas velhas e leais escravas, significa isto que se logo vierem outras cabras, tu nos depreciaria por elas.

       Nunca confíes em quem pretende tua nova amizade a ponto de abandonar a que já tinha.


Entendendo o texto

01. O que o cabreiro percebeu de diferente enquanto levava as suas cabras para pastar no início do texto?

a. percebeu que o lobo estava vigiando o seu rebanho de longe.

b. viu que algumas cabras montanhesas haviam se juntado às suas cabras.

c. notou que o pasto estava seco e que precisaria buscar abrigo em uma gruta.

d. descobriu que metade do seu rebanho havia fugido para a montanha.

 

02. Por qual motivo o pastor decidiu dar muito mais alimento (forragem) para as cabras montanhesas do que para as suas próprias cabras?

a. porque as cabras montanhesas estavam muito mais magras e doentes que as dele.

b. porque ele tinha medo de ser atacado pelas cabras montanhesas dentro da gruta.

c. porque ele tinha o propósito de agradá-las para que elas ficassem com ele definitivamente.

d. porque suas próprias cabras se recusavam a comer a forragem durante a tormenta.

 

03. Como as cabras montanhesas reagiram assim que o mau tempo acabou e todos os animais saíram ao campo?

a. elas atacaram o pastor para defender as outras cabras.

b. elas agradeceram ao cabreiro e prometeram voltar no próximo inverno.

c. elas fugiram imediatamente de volta para a montanha.

d. elas decidiram expulsar as cabras velhas para liderar o rebanho.

 

04. O pastor acusou as cabras montanhesas de serem ingratas. Qual foi o argumento utilizado por elas para justificar a fuga?

a. disseram que preferiam a liberdade da montanha do que a comida da gruta.

b. explicaram que, se o pastor tratou as recém-chegadas melhor do que as suas velhas e leais escravas, ele faria o mesmo com elas se outras cabras surgissem no futuro.

c. afirmaram que a comida oferecida pelo pastor era de má qualidade e as deixou doentes.

d. responderam que o rebanho antigo do pastor não as aceitou bem e foi agressivo.

 

05. A moral da história alerta para nunca confiar em quem pretende uma nova amizade a ponto de abandonar a que já tinha. Na história, quem representa essa atitude criticada?

a. as cabras montanhesas, que abandonaram o pastor após comerem bastante.

b. as cabras antigas, que não defenderam o dono diante das estrangeiras.

c. a forte tormenta, que mudou o rumo dos animais sem aviso prévio.

d. o cabreiro, que desvalorizou suas companheiras leais e antigas para tentar bajular as novas cabras.

  

ARTIGO DE OPINIÃO: BALBINO EM CHAMAS - FRAGMENTO - PAULA SALDANHA - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Balbino em chamas – Fragmento

        Paraíso e morada dos pescadores

        O lugar onde a nossa gente mora é assim: mar verde, dunas de areia cercando lagoas azuis e praias com coqueirais. É claro que os terrenos na beira das praias são os mais bonitos e os mais valorizados. Por isso tudo é que gente rica fica de olho. Faz proposta para ao pescador, quer comprar... mas aqui na nossa região ninguém vende terreno, não.

        Os moradores mais velhos sempre dizem que a nossa terra é muito boa e muito rica, por isso nós não queremos sair daqui nunca!

        No mar tem o peixe, o siri, o camarão... No mangue tem os mariscos, o caranguejo, mais peixes... Na terra nascem os coqueiros, os pés de caju, manga, abacate, goiaba, limão, tangerina, mamão e um montão de outras frutas. Na turfa (terra preta e fofa), debaixo dos coqueirais, a gente planta feijão, milho, arroz, mandioca, inhame, abóbora... A água pra beber a gente tem limpinha nas cacimbas, que são poços abertos na areia, que a gente tampa e cuida pra não contaminar.

        Todo mundo aqui tem sempre comida boa – o dente das pessoas não estraga por causa do peixe, que tem muito cálcio – e as crianças crescem com saúde. [...]

        A primeira invasão

        Os pistoleiros começaram a rodear as casas do Balbino de manhã cedinho. Primeiro as casas perto do coqueiral, junto do mar. Depois vieram em direção às nossas casas, na beira da lagoa. Gritaram pra todo mundo sair. Viraram móveis e tiraram as pessoas da cama, ameaçando com espingardas e revólveres. [...]

        Capangas covardes. Gritavam com mulheres e crianças como se estivessem tocando o gado. Mostraram as armas e avisaram que todo mundo ia sair dos terrenos por bem ou por mal.

        Por fim, os caras derramaram gasolina e tocaram fogo em quatro casas, com tudo dos pescadores dentro.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiEQXl39enVGSuZfCiJzkujseDAfzKpLt1hNslkZ0bJBPGS4dOecPA6JOQBS-B__lZxthD41nK9ttiRMB1Wd3KZNZ02O9DsI11obGv4QCDCocLwmQseUc0NTLcv9BSwhTxw6SxeLAYNvVAXl2dLZtC6cUCnX6GnTWSbSBy8Omx1fn6jnCfcs2DZq_g2Gvs/s1600/BALBINO.jpg

        -- É só uma pequena mostra – falaram sorrindo.

        Os pistoleiros estavam com cara de loucos e ao mesmo tempo de deboche. Disseram que voltariam depois pra completar o serviço.

      A segunda invasão

        Era quase hora do almoço quando a polícia chegou. Não dava nem pra acreditar: um papel da Justiça dizia preto no branco que os nossos terrenos pertenciam a uma imobiliária e que os moradores iam ter que sair.

        Mas quem vendeu terreno por aqui? Ninguém.

        Então que história era essa?

        Não adiantava discutir, era ordem do juiz. Todas as famílias iam ter que sair do Balbino, que nem foi no Batoque.

        Mas o povo daqui fez resistência. As mulheres pareciam mais valentes que os homens, fechando a passagem dos policiais, com aquele bando de filhos atrás.

        Diante da coragem das mulheres, os policiais se acovardaram e começaram a apelar, berrando, cutucando as pessoas com o cano das espingardas e dando tiros de revólver pro alto.

        Um tiro disparado perto de casa fez meu ouvido ficar zunindo um tempão. Nem dava mais pra ouvir a gritaria das pessoas que corriam em bando, que nem gado acuado.

        Mas eu pude ver muito bem o fogaréu levantando por trás do coqueiral. Muita labareda alta e muita fumaça. [...]

        Os policiais jogavam gasolina e, quando botavam fogo, dava aquele estrondo e as casas lambiam inteirinhas.

        A casa do Chico, meu melhor amigo, foi a que queimou por último. Não posso me esquecer do desespero dele e do pai vendo tudo, tudinho, até aa rede de pesca, queimando lá dentro.

        Deu uma dor aqui no peito...

        O balanço de tudo

        A Arquidiocese de Fortaleza já estava sabendo das confusões e ajudou a apurar as coisas pra comunidade do Balbino. A primeira providência foi chamar um promotor público pra ver direito o caso na Justiça.

        Dona Francisca ia e vinha de Fortaleza trazendo as notícias que conseguia com o promotor, com os repórteres e com os padres. O documento da tal imobiliária era de um terreno lá pro interior. Terra ruim, sem valor nenhum.

        Mas o juiz levou dinheiro pra fazer toda a manobra: colocar os terrenos do Balbino, que sempre foram dos pescadores, como propriedade da imobiliária.

        Com uma simples troca de lugar, endereço, o juiz estava levando muita grana, a imobiliária lucrando bilhões...

        E os pescadores? Centenas de famílias, milhares de pessoas iriam ter que virar mendigos na cidade grande. Ainda bem que do Balbino ninguém saiu. [...].

        Final feliz

        A igreja, a imprensa e o promotor ajudaram o povo de Balbino até o fim. Ao contrário do juiz, que estava levando dinheiro pra prejudicar a gente, o promotor não recebeu nada e colocou a Comunidade de Balbino na Justiça contra a imobiliária – por todo o prejuízo que ela causou.

        Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental. [...].

        Nós vencemos na Justiça. Nossa história teve um final feliz, que nem em filme de julgamento que passa na TV. Só que em filme é tudo de mentirinha, nada machuca. E a nossa história foi mesmo de verdade, marcou nossa gente. marcou pra valer. Teve gente que perdeu tudo e foi obrigada a começar vida nova.

        Coragem e esperança foi o que moveu esse povo. Coragem pra enfrentar a injustiça. E esperança de tudo dar certo. [...].

        A gente agora vai contar pros filhos e pros netos tudo o que se passou com o povo aqui no Balbino e nos outros lugares do litoral.

        Assim, os mais novos vão aprender um pouco da nossa história e vão lutar pra que esse tipo de coisa não aconteça nunca mais.

Paula Saldanha. Balbino em chamas. São Paulo, FTD, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 126-129.

Entendendo o artigo:

01 – Como o narrador descreve a comunidade de Balbino antes das invasões e qual é a principal fonte de sustento e saúde dos moradores?

      O narrador descreve Balbino como um verdadeiro "paraíso": um lugar com mar verde, dunas, lagoas azuis e praias com coqueirais. A comunidade é autossustentável e rica em recursos naturais. Os moradores garantem o sustento através da pesca (peixe, siri, camarão) e do mangue (mariscos, caranguejo), colhem frutas variadas (caju, manga, abacate) e plantam alimentos (feijão, milho, mandioca) na terra preta e fofa (turfa). A saúde das crianças é boa e os dentes não estragam devido ao cálcio abundante dos peixes.

02 – O que atrai o interesse de pessoas ricas pela região de Balbino e qual é a postura inicial dos moradores diante das propostas de compra?

      O interesse da "gente rica" é despertado pelo fato de os terrenos na beira da praia serem os mais bonitos e valorizados. No entanto, a postura inicial dos moradores é de total recusa. Influenciados pelos conselhos dos mais velhos, que reconhecem o valor e a riqueza daquela terra, os pescadores afirmam categoricamente que ninguém vende terreno por ali e que não querem sair de lá nunca.

03 – Quem promoveu a "primeira invasão" a Balbino, como agiram e qual foi a justificativa ou aviso que deixaram para os moradores?

      A primeira invasão foi promovida por pistoleiros (capangas). Eles agiram com extrema violência e covardia: chegaram de manhã cedo, expulsaram as pessoas da cama apontando armas (espingardas e revólveres), gritaram com mulheres e crianças como se estivessem "tocando gado" e incendiaram quatro casas com os pertences dos pescadores dentro. Eles avisaram que todos teriam que sair por bem ou por mal e debocharam dizendo que o fogo era "só uma pequena mostra" e que voltariam para completar o serviço.

04 – Qual foi a grande surpresa dos moradores durante a "segunda invasão" e que justificativa legal foi apresentada para expulsá-los?

      A surpresa foi que, na segunda vez, quem apareceu para expulsá-los foi a própria polícia, trazendo uma ordem do juiz ("um papel da Justiça"). A justificativa legal apresentada era a de que, oficialmente, os terrenos pertenciam a uma imobiliária e que, portanto, todas as famílias teriam que desocupar a área.

05 – Como a comunidade reagiu à ação da polícia e quem se destacou na liderança da resistência?

      A comunidade não aceitou a ordem passivamente e ofereceu resistência. As mulheres se destacaram na liderança, mostrando-se ainda mais valentes que os homens ao fecharem a passagem dos policiais com os filhos atrás de si. Diante dessa coragem, os policiais apelaram para a violência física, empurrando as pessoas com canos de espingardas e dando tiros para o alto, além de incendiarem o restante das casas (incluindo a do melhor amigo do narrador, o Chico).

06 – Qual foi o esquema de corrupção descoberto com a ajuda da Arquidiocese de Fortaleza e do promotor público?

      Descobriu-se que o documento apresentado pela imobiliária era falso ou adulterado: referia-se, na verdade, a um terreno sem valor nenhum localizado no interior do estado. No entanto, o juiz responsável pelo caso aceitou suborno ("levou dinheiro") para fazer uma manobra jurídica, alterando o endereço do documento para que os valiosos terrenos litorâneos do Balbino passassem a constar como propriedade da imobiliária. Isso geraria bilhões de lucro para a empresa.

07 – Qual foi o desfecho da história na Justiça e qual lição o narrador pretende deixar para as próximas gerações?

      O desfecho foi a vitória da comunidade na Justiça, graças ao apoio da Igreja, da imprensa e de um promotor público íntegro. Hoje, Balbino é uma área de proteção ambiental e as famílias puderam ficar. A lição que o narrador quer deixar para os filhos e netos é a importância da coragem para enfrentar as injustiças e a esperança de lutar pelos seus direitos, para que abusos desse tipo nunca mais voltem a acontecer.