sábado, 8 de maio de 2021

POEMA: PASSAGEM DA NOITE - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

POEMA: PASSAGEM DA NOITE

           


    Carlos Drummond de Andrade

É noite. Sinto que é noite

não porque a sombra descesse

(bem me importa a face negra)

mas porque dentro de mim,

no fundo de mim, o grito

se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,

que palpitamos no escuro

e em noite dissolvemos.

Sinto que é noite no vento,

noite nas águas, na pedra.

 

 E que adianta uma lâmpada?

E que adianta uma voz?

É noite no meu amigo.

É noite no submarino.

É noite na roça grande.

É noite, não é morte, é noite

de sono espesso e sem praia.

Não é dor, nem paz, é noite,

é perfeitamente a noite.

 

Mas, salve, olhar de alegria!

E salve, dia que surge!

Os corpos saltam do sono,

o mundo se recompõe.

Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.

A fraterna entrega do pão.

Amar: mesmo nas canções.


De novo andar: as distâncias,

as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos

se nos confia outra vez.

Obrigado, coisas fiéis!

Saber que ainda há florestas,

sinos, palavras; que a terra

prossegue seu giro, e o tempo

não murchou; não nos diluímos!

Chupar o gosto do dia!

Clara manhã, obrigado,

o essencial é viver!

 (Reunião. 10. ed. Rio de Janeiro:José Olympio, 1980. p. 88.)

Fonte: Livro- Português: Linguagem, 1/ William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11.ed – São Paulo: Saraiva, 2016, p.74/75.

(Fonte: Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004, p. 132-133)

Fonte da imagem - https://www.google.com/imgres?imgurl=https%3A%2F%2Fwww.aluralingua.com.br%2Fartigos%2Fassets%2Fnight.jpg&imgrefurl=https%3A%2F%2Fwww.aluralingua.com.br%2Fartigos%2Fcomo-dizer-boa-noite-em-ingles&tbnid=g3FpYpZq5QqYcM&vet=12ahUKEwih6r-KsLvwAhUaNLkGHcjGAoUQMygBegUIARDZAQ..i&docid=1nxjXpll-7_W-M&w=1200&h=730&q=noite&hl=pt-BR&ved=2ahUKEwih6r-KsLvwAhUaNLkGHcjGAoUQMygBegUIARDZAQ

 

 ENTENDENDO O TEXTO

1. O poema está estruturado em três estrofes.

a) Que relação há entre a 3ª estrofe, iniciada pelo verso “Mas, salve, olhar de alegria!”, e as anteriores?

• contradição

• confirmação

• oposição

• aproximação

b) A relação entre as estrofes é representada por duas palavras. Quais são essas palavras?

São noite e dia.

2. A palavra noite, utilizada nas duas primeiras estrofes, está empregada em sentido figurado, ou seja, conotativo.

a) Que sentidos conotativos essa palavra tem no contexto?

Desânimo, desesperança.

b) Em que trechos do poema se nota o uso conotativo de noite?

“Sinto que é noite”, “Sinto que nós somos noite”, “Sinto que é noite no vento”, “É noite no meu amigo”.

 3. Na 3ª estrofe, a palavra dia também foi empregada em sentido conotativo e estabelece, portanto, oposição à noite.

a) Que sentidos conotativos essa palavra tem no contexto?

Alegria, prazer, esperança, vida.

b) Indique trechos do poema em que se observa o uso de sentidos conotativos de dia.

alegria: “salve, olhar de alegria!”, “salve, dia que surge!”; prazer: “Que gozo na bicicleta!”; esperança: “Saber que ainda há florestas, sinos, palavras”; vida: “o mundo se recompõe”, “Existir: seja como for”, “o essencial é viver!”

 4. O poema foi publicado no livro A rosa do povo, de 1945, que reúne textos escritos por Drummond durante a Segunda Guerra Mundial e a ditadura do Estado Novo, instaurada por Getúlio Vargas no Brasil. Considerando esse fato, indique as afirmativas verdadeiras:

a) A noite representa para o eu lírico um momento de tristeza e de desesperança, possivelmente relacionado com a guerra e a ditadura.

b) Apesar do descontentamento com o momento político, o poema manifesta a esperança de um futuro melhor.

c) As palavras noite e dia, empregadas conotativamente, representam respectivamente um tempo de dificuldades e um tempo de redenção.

d) Os sentimentos do eu lírico oscilam entre o modo como as pessoas, em geral, sentem a noite e o dia.

e) No poema, a contraposição entre dia e noite expressa o descontentamento do eu lírico com a passagem do tempo.

 


POEMA: GRITO NEGRO - JOSÉ CRAVEIRINHA - COM GABARITO

 POEMA: GRITO NEGRO

     


  José Craveirinha

 

Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!

e tu acendes-me, patrão

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão

e tenho que arder, sim

e queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão

até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão

Tenho que arder

queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu serei o teu carvão, patrão!

 Fonte de imagem -https://www.google.com/url?sa=i&url=http%3A%2F%2Fmocambiquecp22014.blogspot.com%2F2014%2F06%2Fa-interpretacao-do-grito-negro.html&psig=AOvVaw0sXcE_M_WDlfwhSnB4xbBf&ust=1620603921166000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCPiaqaOiu_ACFQAAAAAdAAAAABAD

(In: Mário de Andrade, org. Antologia temática de poesia africana.

3. ed. Lisboa: Instituto Cabo-Verdeano do Livro, 1980. v. 1. p. 180.).

Fonte: Livro- Português: Linguagem, 1/ William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11.ed – São Paulo: Saraiva, 2016, p.19/20.

 

GLOSSÁRIO

alcatrão: um dos componentes do carvão.

motriz: que se move ou faz mover alguma coisa

 Entendendo o texto

1. O texto lido é um poema, um dos vários gêneros literários. Nos poemas, é comum o eu lírico expor seus sentimentos e pensamentos.

a) Qual é o tema do poema lido?

É a relação de exploração que há entre o patrão e o eu lírico, supostamente seu escravo ou empregado.

 b) O que predomina nesse poema: aspectos individuais ou sociais?

 Resposta pessoal. Espera-se que os alunos percebam que, além da relação social, a mais evidente, há também a exposição dos sentimentos do eu lírico.

2. Os poemas geralmente utilizam uma linguagem plurissignificativa, isto é, uma linguagem figurada, em que as palavras apresentam mais de um sentido. O eu lírico do poema lido, por exemplo, chama a si mesmo de carvão. Que sentidos têm as palavras carvão e mina no contexto?

 O carvão representa a força de trabalho do negro (“a força motriz”) e a mina representa o próprio negro, ou seja, o lugar de onde o patrão extrai sua riqueza. Logo, carvão e mina representam a exploração do homem pelo homem, ou a exploração do homem negro pelo homem branco.

 3.Para o patrão, o eu lírico é carvão, pois é a força motriz do  trabalho e da produção. O eu lírico aceita sua condição de “carvão”, mas com um sentido diferente do que tem para o patrão. Releia os versos finais do poema e interprete o último verso.

“Eu sou carvão

Tenho que arder

queimar tudo com o fogo da minha

[combustão.

Sim!

Eu serei o teu carvão, patrão!”

 Resposta pessoal. Sugestão: Embora o eu lírico afirme que é carvão, não pretende continuar sendo o combustível da exploração do patrão, e sim “queimar tudo”, isto é, destruir a própria figura do patrão, que representa a exploração..

 4.O poema de Craveirinha, além de expressar os sentimentos e as ideias do eu lírico, é também uma recriação da realidade. Por meio dessa recriação o poeta denuncia as condições de vida a que eram submetidos os negros em Moçambique antes do processo de independência. Na sua opinião, a literatura pode contribuir para transformar a realidade concreta? Explique

Resposta pessoal.

Espera-se que os alunos respondam que sim, pois, denunciando os problemas da realidade, a literatura sensibiliza as pessoas, preparando-as e estimulando-as para as mudanças sociais.

 5.O escritor e educador Rubem Alves afirma que o escritor “escreve para produzir prazer”. Em sua opinião, a literatura proporciona prazer ao ser humano, mesmo quando trata de problemas sociais, como ocorre no poema de Craveirinha? Justifique sua resposta.

Resposta pessoal. Espera-se que os alunos respondam que sim, pois, mesmo quando trata de problemas sociais, a literatura é capaz de provocar emoções e reflexões no ser humano.

 

 

CRÔNICA: A MULHER SEM MEDO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 TEXTO I

Cientistas americanos estudam o caso de uma mulher portadora de

uma rara condição, em resultado da qual ela não tem medo de nada.

(Folha de S. Paulo, 17/12/2010. Cotidiano.)

TEXTO II

CRÔNICA: A MULHER SEM MEDO

    


               Moacyr Scliar

Ele não sabia o que o esperava quando, levado mais pela curiosidade do que pela paixão, começou a namorar a mulher sem medo. Na verdade havia aí também um elemento interesseiro; tinha um projeto secreto, que era o de escrever um livro chamado “A Vida com a Mulher sem Medo”, uma obra que, imaginava, poderia fazer enorme sucesso, trazendo-lhe fama e fortuna. Mas ele não tinha a menor ideia do que viria a acontecer.

Dominador, o homem queria ser o rei da casa. Suas ordens deveriam ser rigorosamente obedecidas pela mulher. Mas como impor sua vontade? Como muitos ele recorria a ameaças: quero o café servido às nove horas da manhã, senão… E aí vinham as advertências: senão eu grito com você, senão eu bato em você, senão eu deixo você sem comida.

Acontece que a mulher simplesmente não tomava conhecimento disso; ao contrário, ria às gargalhadas. Não temia gritos, não temia tapas, não temia qualquer tipo de castigo. E até dizia, gentil: “Bem que eu queria ficar assustada com suas ameaças, como prova de consideração e de afeto, mas você vê, não consigo”.

Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado. Meter medo na mulher transformou-se para ele em questão de honra.

Tinha de vê-la pálida, trêmula, gritando por socorro.

Como fazê-lo? Pensou muito a respeito e chegou a uma conclusão: para amedrontá-la só barata ou rato. Resolveu optar pela barata, por uma questão de facilidade: perto de onde moravam havia um velho depósito abandonado, cheio de baratas. Foi até lá e conseguiu quatro exemplares, que guardou num vidro de boca larga.

Voltou para casa e ficou esperando que a mulher chegasse, quando então soltaria as baratas.

Já antegozava a cena: ela sem dúvida subiria numa cadeira, gritando histericamente. E ele enfim se sentiria o vencedor.

Foi neste momento que o rato apareceu. Coisa surpreendente, porque ali não havia ratos, sobretudo um roedor como aquele, enorme, ameaçador, o Rei dos Ratos. Quando a mulher finalmente retornou encontrou-o de pé sobre uma cadeira, agarrado ao vidro com as baratas, gritando histericamente.

Fazendo jus à fama ela não demonstrou o menor temor; ao contrário, ria às gargalhadas. Foi buscar uma vassoura, caçou o rato pela sala, conseguiu encurralá-lo e liquidou-o sem maiores problemas. Feito que ajudou o homem, ainda trêmulo, a descer da cadeira.

E aí viu que ele segurava o vidro com as quatro baratas. O que deixou-a assombrada: o que pretendia ele fazer com os pobres insetos? Ou aquilo era um novo tipo de perversão?

Àquela altura ele já nem sabia o que dizer. Confessar que se tratava do derradeiro truque para assustá-la seria um vexame, mesmo porque, como ele agora o constatava, ela não tinha medo de baratas, assim como não tivera medo do rato. O jeito era aceitar a situação.

E admitir que viver com uma mulher sem medo era uma coisa no mínimo amedrontadora.

(Moacyr Scliar. Folha de S. Paulo, 17/1/2011.)

Fonte da imagem - https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fbr.depositphotos.com%2Fvector-images%2Fo-covarde.html&psig=AOvVaw20nSvWkeAvNdc0HieWUidc&ust=1620600361015000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCLjrkP2Uu_ACFQAAAAAdAAAAABAN

Fonte: Livro- Português: Linguagem, 1/ William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11.ed – São Paulo: Saraiva, 2016, p.13-15.

Entendendo o texto

1. O texto I é parte de uma notícia internacional.

a) Por que esse fato mereceu destaque no noticiário?

    Por ainda não se conhecer alguém que não tivesse algum tipo de medo.

 b) A que campo do conhecimento humano esse fato causa interesse?      Ao campo científico.

2. O texto II foi criado pelo escritor Moacyr Scliar a partir da notícia reproduzida no texto I.

a) Qual dos dois textos trata de um fato concreto da realidade?

     O texto I.

b) Qual deles cria uma história ficcional a partir de dados da realidade?

     O texto II.

3. O texto II, por ser uma crônica, apresenta vários componentes comuns a outros gêneros narrativos, como fatos, personagens, tempo, espaço e narrador. Além disso, apresenta também preocupação quanto ao modo como os fatos são narrados.

a) O que a narrativa revela quanto a características psicológicas do marido ao longo da história?

    Revela que ele era um homem curioso, dominador, competitivo.

b) Que dados da história comprovam sua resposta?

     O fato de ele se casar com a mulher por curiosidade, e não por amor; pelas tentativas constantes de dominá-la; pela relação competitiva que estabeleceu com a mulher.

    4. Observe estes fragmentos do texto:

• “Aquilo, além de humilhá-lo profundamente, deixava-o completamente perturbado.”

• “E ele enfim se sentiria o vencedor.”

Com base nesses fragmentos, conclua: Como o homem encarava a característica da mulher de não sentir medo?

Encarava como um desafio pessoal, como uma limitação dele, e não como uma característica dela.

5. Em sua última tentativa de amedrontar a mulher, o homem pensa em baratas e ratos.

a) Por que ele imaginou que esses seres poderiam amedrontá-la? Porque boa parte das pessoas, principalmente mulheres, tem medo de baratas e ratos.

b) O que o resultado dessa experiência mostrou quanto a quem tinha medo desses seres?

Mostrou que ele é quem tinha medo de ratos e baratas, e não ela.

6. Você observou que os dois textos abordam o mesmo tema. Apesar disso, eles são bastante diferentes. Essas diferenças se devem à finalidade e ao gênero de cada um dos textos, bem como ao público a que cada um deles se destina.

a) Qual é a finalidade principal do texto I, considerando-se que se trata de uma reportagem jornalística?

 Informar o leitor sobre um acontecimento raro.

b) Qual é a finalidade principal do texto II, considerando-se que se trata de uma crônica literária?

Entreter o leitor, diverti-lo, além de provocar algumas reflexões sobre a natureza humana.

7. A fim de sintetizar as diferenças entre os dois textos, compare-os e responda:

a) Qual deles apresenta uma linguagem objetiva, utilitária, voltada para explicar um problema da realidade?

O texto I.

b) Em qual deles a linguagem é propositalmente organizada com o fim de criar expectativa ou envolvimento do leitor?

O texto II.

c) Qual deles tem a finalidade de informar o leitor sobre a realidade?

O texto I.

d) Qual deles tem a finalidade de entreter, divertir ou provocar reflexões no leitor a partir de um tema da realidade?

O texto II.

e) Considerando as reflexões que você fez sobre a linguagem dos textos em estudo, responda:

Qual deles é um texto literário? Por quê?

O texto II, por ser um texto que recria ficcionalmente a realidade; por ter uma linguagem propositalmente organizada com o fim de criar mais de um sentido; e por entreter e divertir o leitor, além de provocar reflexões sobre a vida e o mundo.

CONTO: SONHOS DE ROBÔ - ISAAC AZIMOV - COM GABARITO

 CONTO: SONHOS DE ROBÔ

                   Isaac Azimov

           

Fonte da imagem- https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fexame.com%2Fcarreira%2Fse-voce-tiver-estas-habilidades-robos-nao-vao-roubar-seu-emprego%2F&psig=AOvVaw2T_eVE3qz_n5tKlamoau5Q&ust=1620596392391000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCLjpl5qGu_ACFQAAAAAdAAAAABAD
    — Eu sonhei ontem à noite — disse LVX-1, calmamente.

Susan Calvin ficou em silêncio, mas seu rosto vincado de rugas, pleno de sabedoria e de experiência, teve um estremecimento quase imperceptível.

— Ouviu isto? — perguntou Linda Rash, nervosa. — Foi o que eu lhe disse.

[...]

— Elvex, você não pode mover-se ou falar ou nos ouvir até que eu diga seu nome novamente. Não houve resposta. [...]

As mãos de Linda Rash manipularam os controles durante alguns instantes; ela interrompeu o processo, recomeçou, e daí a pouco o visor se iluminou revelando um painel de padrões matemáticos.

— Com sua licença — disse a Dra. Calvin, sentando-se diante do computador.

[...]

Meticulosamente, a Dra. Calvin examinou o visor, fazendo com que as imagens corressem para um lado e para outro, depois subindo, e de repente digitou uma combinação com gestos tão rápidos que Linda não percebia o que tinha sido feito, mas o visor mostrava logo uma porção ampliada do padrão anterior. A Dra. Calvin prosseguiu em seu exame, avançando, recuando, [...].

Linda estava abismada. Era impossível analisar um padrão daqueles sem contar com a ajuda de pelo menos um computador portátil, e no entanto a Velha Senhora apenas fitava os dados. Haveria um computador implantado em seu crânio? Ou aquilo se devia apenas ao seu cérebro que durante décadas não tinha feito outra coisa senão projetar, estudar e analisar os padrões dos cérebros positrônicos? [...]

Finalmente a Dra. Calvin disse:

— Diga-me, Dra. Rash... o que andou fazendo? Ela respondeu embaraçada:

— Utilizei geometria fractal.

— Sim, percebo que sim. Mas por quê?

— Nunca tinha sido feito. Achei que poderia produzir um padrão mental mais complexo, talvez mais próximo dos padrões humanos.

— Consultou alguém para isto? Ou fez tudo sozinha?

— Não consultei ninguém. Foi ideia minha, apenas.

Os olhos fatigados de Susan Calvin fitaram demoradamente

a jovem.

— Você não tinha esse direito. Seu nome é Rash, hem? Imprudente... Um nome muito adequado. Quem é você para fazer isto sem consultar ninguém?

[...]

— Tive medo de que me proibissem de continuar.

-— Isso com certeza teria acontecido.

— Será que... — a voz da jovem vacilou, a despeito

de seu esforço para mantê-la firme — ... que vou ser despedida?

— É bastante possível — disse a Dra. Calvin. — Ou promovida, quem sabe?

Tudo depende do que eu descobrir de agora em diante.

[...]

Ela percebeu de repente, com um pequeno choque, que a Dra. Calvin tinha uma pistola eletrônica no bolso de seu guarda-pó. A Velha Senhora tinha vindo preparada justamente para isso.

— Veremos — disse ela. — Talvez ele seja valioso demais para ser desativado.

— Mas como é possível que ele sonhe?

— Você tornou seu cérebro positrônico notavelmente semelhante a um cérebro humano. Os cérebros humanos precisam sonhar para se reorganizar, para se libertar, periodicamente, de emaranhados e de nódulos. Talvez o mesmo esteja acontecendo com este robô, pela mesma razão. [...] Agora vamos ver o que conseguimos descobrir. — Virou-se para o robô e disse, com voz clara:

— Elvex.

A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direção.

— Sim, Dra. Calvin?

— Como sabe que esteve sonhando, Elvex?

— Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin — disse ele. [...]

Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.

[...]

Linda fez rapidamente um gesto, calando o robô.

— Eu lhe dei um vocabulário semelhante ao dos humanos — disse ela. [...] — Pensei apenas que ele iria precisar do verbo. Algo como eu nunca sonhei que tal ou tal coisa pudesse acontecer... Algo assim.

A Dra. Calvin voltou a encarar o robô.

— Com que frequência tem sonhado, Elvex?

— Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.

— Dez noites — disse Linda, ansiosa. — Mas ele só me falou a respeito disso hoje pela manhã.

— Por que só revelou isto hoje, Elvex?

 — Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. [...]

— E o que acontece nos seus sonhos?

— É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.

— Robôs, Elvex? E seres humanos também?

— Não vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, [...]. Apenas robôs.

— E o que fazem esses robôs?

— Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano.

A Dra. Calvin voltou-se para Linda.

— Elvex tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estação de testes. Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes?

Linda olhou na direção de uma cadeira próxima como se estivesse ansiosa para se sentar [...]. Com voz apagada, respondeu:

— Achei que seria importante para ele saber algo sobre robótica e sobre o papel dos robôs no mundo. [...]

— Então você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície... Imagino que tenha visto o espaço, também.

— Também vi robôs trabalhando no espaço — disse Elvex. [...]

— O que mais você viu, Elvex?

— Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações [...].

— Mas os robôs — disse a Dra. Calvin — não estão curvados nem cansados.

Eles não precisam de repouso.

— [...] No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.

— Está citando a Terceira Lei da Robótica?

— Sim, Dra. Calvin.

— Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei. qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.

— [...] A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem a ordens. [...] Eles não estão fatigados nem necessitados de repouso.

— Sei que é assim na realidade, [...]. Mas o que descrevi foi o meu sonho.

— E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

— Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira [...].

[...]

— [...] mas no meu sonho a Lei se concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.

— Elvex, você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até que eu pronuncie seu nome novamente.

[...]

— Dra. Calvin, estou assustada. Eu não tinha ideia... Nunca me ocorreu que semelhante coisa fosse possível.

— [...] Você criou um cérebro robótico capaz de sonhar e, com isto, revelou nesses cérebros uma camada de pensamento que de outro modo teria continuado a passar despercebida até que o perigo se tornasse irremediável.

— Mas isto é impossível. Não pode estar achando que os demais robôs pensam a mesma coisa.

— [...] O que nos estaria reservado no futuro, quando os cérebros dos robôs fossem se tornando mais e mais complexos... se não tivéssemos sido prevenidos?

— Por Elvex?

— Pela senhora, Dra. Rash [...]. Devemos começar a pesquisar cérebros fractais de agora em diante, produzindo-os sob controle cuidadoso. [...] Não receberá nenhuma punição pelo que fez, mas a partir de agora trabalhará em conjunto com outras pessoas. Entendeu?

— Sim, Dra. Calvin. Mas... e quanto a Elvex?

— Não sei ainda.

A Dra. Calvin retirou do bolso a pistola eletrônica. Linda olhou para a arma com olhos fascinados. [...]

— Ele não pode ser destruído — disse Linda. — É importante para essa pesquisa.

— Não pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende do grau de perigo que ele pode representar.

Ela empertigou-se [...] e disse:

— Elvex, pode me ouvir?

— Sim, Dra. Calvin — disse o robô.

— Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?

— Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.

— Um homem? Não um robô?

— Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!

— O homem dizia isto?

— Sim, Dra. Calvin.

— E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?

— Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.

— E no sonho você reconhecia esse homem?

— Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.

— Quem era, então? E Elvex disse:

— Eu era esse homem.

Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.

ASIMOV, Isaac. Sonhos de robô. Histórias de ficção científica. 1. ed. São Paulo: Ática, 2006. (Coleção Para gostar de ler, 38).

Fonte: Livro - APROVA BRASIL - Língua Portuguesa, 9º ano, 3ª ed. São Paulo: Moderna, 2019, p.18 -23.

 

ENTENDENDO O TEXTO

1. O objetivo comunicativo do texto é

a) argumentar sobre a evolução da robótica.

b) narrar uma história de ficção tendo a robótica como tema.

c) relatar uma pesquisa sobre desenvolvimento de robôs.

d) transmitir conhecimentos sobre os avanços tecnológicos em robótica.

 

2. Descreva, de maneira sucinta, as três personagens do conto.

a) LVX-1, ou Elvex.

Robô que apresenta uma característica diferenciada, pois é capaz de sonhar.

b) Susan Calvin, ou Dra. Calvin.

Coordenadora de uma pesquisa que desenvolve robôs, tem personalidade forte e questionadora.

 

c) Linda Rash.

Responsável por um aprimoramento no cérebro do robô que resulta no fato de ele começar a sonhar.

3. Qual é o conflito da narrativa, ou seja, a situação-problema que desencadeia uma série de acontecimentos e gera o enredo?

O conflito se apresenta logo no início da história: o robô, Elvex, conta que é capaz de sonhar.

4. Qual era a causa da preocupação da Dra. Calvin em relação ao fato de o robô ser capaz de sonhar?

Pode-se inferir que a Dra. Calvin teme que a semelhança do robô com os humanos ponha em risco a supremacia dos humanos.

5. Releia o trecho a seguir.

“— Elvex, você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até

que eu pronuncie seu nome novamente.”

Pode-se inferir que o robô é ativado quando

a) é ligado.

b) ouve uma voz.

c) falam seu nome.

d) deseja algo.

6. Na conversa com Elvex, a Dra. Calvin cita três leis que devem ser seguidas pelos robôs. Essas leis parecem ter o objetivo de proteger quem: os robôs ou os seres humanos? Justifique.

As três leis estabelecem regras para a convivência entre robôs e humanos, criando uma relação de servilidade dos primeiros em relação aos segundos.

 

7.Releia o trecho:

“— Ele não pode ser destruído — disse Linda. — É importante para

essa pesquisa.

— Não pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende

do grau de perigo que ele pode representar.

Ela empertigou-se [...] e disse:

— Elvex, pode me ouvir?

— Sim, Dra. Calvin — disse o robô.

— Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de

início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?”

• Que palavras foram utilizadas no trecho para que não houvesse repetição do nome da personagem Elvex?

O pronome ele e o substantivo robô.

8. Por que o conto “Sonho de robô” é considerado um texto de ficção científica?

Porque sua temática é relativa ao desenvolvimento da robótica, que pode causar impactos na vida social em razão de as máquinas ganharem inteligência semelhante à dos seres humanos.