segunda-feira, 8 de junho de 2026

CRÔNICA: ADOLESCÊNCIAM- ALCIONE ARAÚJO - COM GABARITO

 Crônica: Adolescência

                   Alcione Araujo

           Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que interdição, era o fim do nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires, nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A realidade é o princípio da morte.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUvEDBGqC1QzZP0KfpX_dipCbD_vjSBHMBeZzJOTI5t4UWLKLuqs0EWzOHgYpKnedbGY1DMXo4udhBN3B79kkpJLlDyTBelbaJXKlL0QxRqhAtQeOZMHjBf-i4_Oy6n2zqx-0k7e0TroPVEGdLQs2q1UlI6su6SNXSDK788_MyEW-HwtR2NNPtOqorgvU/s1600/adolescente.jpg


             Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James Dean, Pelé, Napoleão, Bethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se apagavam tão depressa, que não deixavam nenhuma luz no mundo.

             E fui tantos e quantos, que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois três. Qualquer filme, mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros (…). Não é que eu viva no passado, é que o passado está em mim.

             Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria, se eu conseguisse ser eu!

             Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem, atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada, era invejado, copiava-se até o penteado do seu cabelo. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval, com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.

             As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar. E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que (…) ninguém confia, ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça, você é suspeito de ser o autor.

             Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com andaimes, latas de tinta e pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se ninguém entende e reclama de você fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar onde ninguém vai lhe achar, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica lá em silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você, não se entendem entre si também.

             Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque deixou-se de ser uma coisa e ainda não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos, que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.

Entendendo o texto

01. No primeiro parágrafo, o autor afirma que a "realidade" era uma inimiga dos adolescentes. Por que ele pensava assim?

a) Porque na realidade eles eram obrigados a trabalhar e ganhar o próprio dinheiro.

b) Porque a realidade reduzia os jovens a "adolescentes espinhentos" e destruía a grandiosidade de seus sonhos.

c) Porque a realidade exigia que eles fossem heróis, santos e gênios o tempo todo.

d) Porque os pais controlavam tudo o que eles faziam no mundo real.

02. Para explicar a capacidade do adolescente de se recuperar dos problemas e voltar a sonhar, o autor faz uma comparação com:

a) Um fantasma de um cão adestrado.

b) Um edifício cheio de andaimes e latas de tinta.

c) Um escudo do seu time preferido de futebol.

d) As sete vidas de um gato.

03. O autor utiliza uma metáfora marcante para descrever o processo de crescimento e autoconhecimento na adolescência. Ele diz que o jovem é:

a) Um ser em obras, cheio de andaimes, latas de tinta e pincéis.

b) Um livro antigo com páginas rasgadas.

c) Uma camisa-de-força difícil de desamarrar.

d) Um ator de cinema que esqueceu o roteiro do filme.

04. De acordo com a visão do narrador sobre as garotas da mesma idade, elas:

a) Passavam pela adolescência de forma muito mais lenta e dolorosa que os meninos.

b) Sempre confiavam nos garotos e os ajudavam a espremer cravos.

c) Não sabiam o que era a adolescência, pois se transformavam em mulheres de repente.

d) Gostavam de usar roupas infantis para parecerem mais novas.

05. Ao contrário do que muitas pessoas dizem, qual é a opinião final do autor sobre a adolescência quando ele olha para o passado?

a) Foi a fase mais difícil e triste de sua vida, pois ele nunca se entendia.

b) Foi um período violento do qual ele prefere esquecer e não voltar no tempo.

c) Foi o período mais alegre de sua vida, onde ele precisava de muito pouco para ser feliz.

d) Foi uma época sem importância, já que ele vivia imitando os outros garotos.

 

 

CRÔNICA: PEGA LADRÃO, PAPAI NOEL! COM GABARITO

 Crônica: Pega ladrão, Papai Noel!

Ele não era bem um Papai Noel, pois trabalhava numa grande loja, a Emperor, aquela grande, da Avenida Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota. Mas seu visual, mesmo sem uniforma, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isto: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVujHWHm8gNKxCHXZdsOzSl55JjIysANwDqpz9ooGaDclJmn4mLhMBVYyeduX3Zic8ZSAtb6HYlL6JxoHh2PB3LdPu2pD-UpM_bIdKK7QCiL1es1xvdqD4QqK9IrOpRfXPCQkIDqP3ZmiGWIJpq6drXuWiYmQuhUYWO15cfm6nXEHDRVMfyYtD8g078Pg/s320/papai.png

-          Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a loja andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido nua bolsa. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, fez voz de vigia:

-          Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares, Aí, novamente, Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão, logo à saída da loja, chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o Aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase... Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

- Mas não comprei.

- Ahn?

- Ganhei.

- De quem?

- De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir, Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

 
Entendendo o texto

 

01. Além de sorrir e ajudar nas vendas de Natal, qual era a outra função que a loja Emperor esperava que o Papai Noel exercesse? 

a) Limpar a seção de brinquedos eletrônicos.

b) Vigiar o local de forma disfarçada para evitar furtos.

c) Distribuir doces e trenzinhos de pilha de graça.

d) Cuidar das crianças enquanto os pais faziam compras.

02. Durante a correria dentro e fora da loja, o Papai Noel e o ladrão acabaram causando:

a) Um grande silêncio na avenida por causa do susto das pessoas. 

b) Muita confusão, derrubando brinquedos, pacotes e até um homem em pernas de pau.

c) Um grave acidente de trânsito que parou o Aeroporto de Congonhas.

d) Uma festa na rua onde as pessoas começaram a cantar músicas de Natal.

03. O narrador afirma que a perseguição passou pelo "Minhocão". Esse detalhe indica que a história se passa em qual ambiente?

a) Em uma floresta encantada cheia de animais.

b) No interior de um shopping center muito antigo.

c) Em uma grande cidade urbana (como São Paulo).

d) Em uma praia deserta durante o feriado.

04. No final do texto, como o menino reage ao receber o trenzinho eletrônico de presente?

a) Ele fica muito feliz e vai correndo brincar na rua com os amigos. 

b) Ele fica desconfiado e preocupado, pois sabia das dificuldades financeiras do pai.

c) Ele rejeita o presente porque queria ganhar um brinquedo que não usasse pilhas.

d) Ele chora de tristeza porque o brinquedo veio quebrado e não acendia as luzes.

05. Qual é a grande mentira (ou justificativa) que o pai conta ao filho para explicar como conseguiu o brinquedo?

a) Diz que achou o trenzinho jogado no lixo perto do Minhocão.

b) Diz que trabalhou na loja Emperor e recebeu o brinquedo como pagamento.

c) Diz que o próprio Papai Noel correu atrás dele para lhe entregar o presente.

d) Diz que juntou moedas durante o ano inteiro para poder comprar o trem.

 

CONTO: A HISTÓRIA DOS TRÊS PORQUINHOS SEGUNDO O LOBO MAU - COM GABARITO

 CONTO: A história dos Três Porquinhos segundo o Lobo Mau

 

     Cheguei agora a pouco do tribunal. O juiz deu-me ganho de causa ao condenar Cícero, Heitor e Prático a trezentos mil reais por danos morais e materiais. Cem mil para cada um daqueles malditos porcos. Também quem manda colocar o meu nome na lama por tanto tempo, fazendo com que gerações e mais gerações aprendessem uma história repleta de mentiras absurdas sobre o que aconteceu naquela manhã de setembro.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5zk5tDxma0KZHyqjwoanhjPLFZVjlA9er_3HJj_15_zIMS8PJA2i-ZJaXD50p81zvobZcN8gH4Wf00SZ5m0oR-p2trSmKz_WzK48BzsQYmwyILn1tQNn99yQwS1ReKOkZQX9d6pL6jOuXZq66PJawaBWWk_AYEKtR5KIlsxJN6vIFDzZv-o6qgbpYLIA/s320/LOBO.jpg


     Não nego que aprecio carne de porco. É um dos meus pratos prediletos, sobretudo se assado num fogão à lenha. Mas daí afirmar que eu queria comer aqueles três míseros porcos, isso já é demais. Primeiro porque o trio era muito amigo do meu filhote Wilber. Os quatro viviam brincando pelas redondezas, inclusive lá em casa, onde, se eu realmente quisesse, facilmente os teria devorado sem que ninguém soubesse.
     Depois, porque o mais velho salvou a vida de um primo meu no verão passado, quando tentava atravessar a nado uma represa aqui perto. A partir daí fiquei amigo dos irmãos porcos, pelo menos até o dia em que inventaram aquela história de que eu tentei invadir suas casas para almoçá-los. Os autos do processo da ação indenizatória que ajuizei contra eles mostram outra versão dos fatos. Senão, vejamos.
     Morávamos todos próximos uns dos outros, numa clareira localizada no extremo norte da Floresta Azul. Após três semanas sem chover na região, o verde da mata começou a dar lugar a uma folhagem seca, que, a qualquer sinal de fogo, poderia desencadear um incêndio devastador.
     Preocupado com a situação, resolvi estocar água e comida que fossem o suficiente para mim e meus filhotes passarmos, no mínimo, três meses sem sair de casa. Ainda tive a iniciativa de ajudar alguns vizinhos a fazer o mesmo, sobretudo os jabutis e as preguiças, por razões óbvias.
     E não deu outra. Um homem vindo da cidade andou cá por estas bandas, deixando cair da janela do seu possante (adivinha!) uma ponta de cigarro acessa. Algumas horas depois o fogo começou a tomar conta da parte leste da Floresta, matando tudo que era tipo de planta e bicho.
     Após uma hora, o incêndio chegou ao sul onde felizmente já estávamos de sobreaviso. Fui um dos primeiros a avistar a fumaça aproximando-se de nossas cabeças. Para piorar, o vento soprava barbaridade, ajudando a espalhar as chamas. Então resolvi ir de porta em porta avisar aos meus vizinhos da catástrofe que estava prestes a acontecer.
     Tudo ia relativamente bem, até que, por infelicidade minha, resolvi bater na porta de Heitor. Não sei por cargas d’água, ao me ver pela fresta da porta, o porco mais novo e mais preguiçoso dos três começou a gritar. Para completar, a ventania que servia de combustível para o incêndio (e não o meu assopro que mal apaga vela de aniversário) abalou a frágil estrutura da sua casa, feita, a contragosto do irmão Prático, de palha, fazendo com que o leitão saísse correndo como um louco até a casa de Cícero, seu irmão mais novo.
     Não percebi, entretanto, que aquela gritaria tivesse sido originada em razão da minha presença. Assim, corri atrás de Heitor, indo bater na porta do outro porco, pedindo – vejam só quanta ingenuidade de minha parte – para que procurassem um outro abrigo. Também ali o vento bateu forte, derrubando metade da casa de tábua em que se escondiam. Assustados, saíram em disparada até a sólida residência de Prático, o porco mais inteligente da família.
     Dando-me por vencido, resolvi voltar para minha toca, a fim de preparar meu filhote para fugir dali o quanto antes, quando, de repente, vi um lobo, ao que parecia bastante jovem, na casa de Prático, junto aos irmãos porcos. Imediatamente pensei: “Meu Deus! Wilber está aí dentro correndo perigo. Preciso fazer alguma coisa antes que seja tarde demais!”.
     Desesperado, bati na porta da casa de Prático com toda a minha força, sem saber que os malditos porcos estavam também desesperados com a minha presença. Impedido de entrar para pegar meu filhote, resolvi dá uma de Papai Noel. Com muito esforço – já não era mais aquele jovem de outrora – subi telhado acima, para, em seguida, descer cuidadosamente pela chaminé da casa.
     Acontece que os danados dos leitões colocaram um imenso caldeirão fervendo bem na descida da chaminé, onde eu caí e, por pouco, não morri afogado. Em seguida, com o couro pegando fogo, saí correndo feito um maluco porta a fora, gritando e pedindo por socorro. A dor era tanta que só me lembro de ter olhado de soslaio a procura do meu filho e ter encontrado, para alívio meu, apenas um lobo de pelúcia.
     Minutos depois reencontrei Wilber, em nossa toca, chorando pela minha ausência. O fogo já havia se alastrado floresta adentro e estava a poucos metros de onde estávamos. Mesmo sem condições físicas, consegui colocar meu “bambino” nas costas (só de pensar me arrepio da dor que senti) e saí atrás de um lugar seguro.
     Esse foi o maior incêndio da história da Floresta Azul. A fauna e a flora do local ficou em ruína. Das casas existentes, apenas uma ficou de pé: a do porco Prático. Graças a sua estrutura bem reforçada, ela continuou quase que inabalável depois do desastre. Temo, entretanto, que o seu dono tenha de vendê-la para pagar a indenização que ganhei na Justiça pelos danos suportados por mim e, principalmente, pelo meu filhote.
     Hoje, cego e entrevado numa cadeira de rodas, não guardo qualquer mágoa dos três irmãos porcos. Nem fico triste quando ouço os adultos contando erroneamente a história que acabei de narrar. Só não gosto de ser chamado de “Lobo Mau”, já que eu nunca tive maldade em meu coração nem nas minhas atitudes. Como disse ao juiz na audiência, o ruim dessa história não sou eu nem os porcos que quase acabaram com a minha vida. Afinal de contas, não somos nós que colocamos fogo em nossas matas, destruindo frágeis ecossistemas, seja por descuido, como foi o presente caso, ou pelo dinheiro, como o é na maioria das vezes.


Entendendo o texto


01. O objetivo principal do Lobo ao narrar essa história é:

a) Explicar como a fauna e a flora da Floresta Azul foram destruídas pelo fogo.

b) Mostrar como seu filhote Wilber era amigo dos três porquinhos. 

c) Apresentar sua versão dos fatos para limpar sua reputação e desmentir a história tradicional.

d) Convencer o leitor de que a carne de porco não é um de seus pratos prediletos.

02. No trecho "O juiz deu-me ganho de causa ao condenar Cícero, Heitor e Prático...", a expressão em destaque significa que o Lobo: 

a) Perdeu o processo e teve que pagar uma multa.

b) Venceu a ação judicial e receberá uma indenização.

c) Foi condenado a pagar trezentos mil reais aos porcos.

d) Teve que fazer um acordo amigável com os porcos no tribunal.

03. De acordo com o texto, o que realmente causou a destruição das casas de palha e de madeira dos porquinhos?

a) O assopro forte e maldoso do Lobo Mau.

b) A fumaça densa provocada pelo caldeirão fervendo.

c) O susto provocado pelo filhote do lobo, Wilber.

d) Os ventos fortes da tempestade combinados com a fragilidade das estruturas.

04. Qual foi o mal-entendido que levou o Lobo a subir no telhado e descer pela chaminé da casa de Prático?

a) Ele queria entrar para devorar os porcos sem que ninguém soubesse.

b) Ele pensou que seu filhote Wilber corria perigo lá dentro ao confundir um lobo de pelúcia com ele.

c) Ele queria entregar presentes para os porcos vestido de Papai Noel para fazer as pazes.

d) Ele estava fugindo do incêndio e aquela era a única chaminé que não estava soltando fumaça.

05. Identifique a alternativa que apresenta uma consequência física grave que o Lobo sofreu devido aos acontecimentos daquela manhã:

a) Ele ficou cego e passou a depender de uma cadeira de rodas.

b) Ele perdeu todo o pelo do corpo devido à água fria do caldeirão. 

c) Ele quebrou as costas ao carregar seu filhote durante a fuga.

d) Ele perdeu a voz de tanto gritar por socorro na floresta.

06. No desfecho do texto, o Lobo faz uma reflexão que vai além de sua briga com os porcos. O verdadeiro "vilão" apontado por ele no final da narrativa é:

a) O juiz, que demorou muito tempo para dar a sentença do caso.

b) O porco Prático, por ter construído uma casa resistente demais. 

c) O ser humano, que destrói os ecossistemas por descuido ou ganância.

d) O vento forte, que espalhou o incêndio pela Floresta Azul.

07. A ironia principal que sustenta o humor de todo o texto baseia-se no fato de:

a) Um animal carnívoro e feroz se apresentar como a verdadeira e inocente vítima da história.

b) Os porquinhos serem muito mais ricos do que o Lobo imaginava. 

c) O lobo Wilber preferir brincar com porcos em vez de brincar com outros lobos.

d) O incêndio ter começado por causa de uma ponta de cigarro acesa.

domingo, 7 de junho de 2026

CRÔNICA: NA PALMA DA SUA MÃO - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: Na palma da sua mão (interpretação)

             


  

Entendendo o texto 

01. Esse texto é uma:

a. notícia                              c. carta

b. narração                          d. publicidade

02. Com que objetivo o homem foi consultar uma cartomante?

      Para saber quando e como morreria, a fim de evitar sua morte.

03. Leia: “Queria saber seu futuro para poder evitá-lo, pois tinha um plano para ludibriar a Morte”

a. O pronome em destaque se refere a que palavra no texto, evitando sua repetição?

       Futuro

b. A conjunção “pois” pode ser substituída, sem alteração de sentido, pela conjunção:

(  ) por isso  (  ) mas         (  ) portanto  ( x ) porque

04. De acordo com a cartomante, por que o homem não poderia enganar a morte?

        Porque a morte tem mil disfarces.

05. Qual foi a previsão da cartomante com relação à morte do homem?

        Que ele morreria em minutos.

 06. A previsão da cartomante se cumpriu? Por quê?

       Sim, porque ele morreu pouco depois.

07. De que forma o homem morreu?

      A cartomante passou sua unha envenenada sobre a linha da mão dele e ele morreu envenenado.

 08. Releia o final do texto: “E o homem morreu em minutos. A Morte tem mil disfarces”. No texto em questão, qual foi o disfarce usado pela morte?

A morte estava disfarçada de cartomante.

 

sábado, 6 de junho de 2026

TIRINHA - PREPOSIÇÕES - COM GABARITO

PREPOSIÇÕES 

01. O nome da tirinha é “Divã” e os 3 primeiros quadrinhos levam o leitor a pensar que a mulher estava em uma consulta com um psicólogo. O que surpreende o leitor no último quadrinho?

Que a mulher está no ponto de ônibus.

02. Circule as preposições nas falas da tirinha:

                a. Foi quando meu marido me abandonou com dois filhos.

                b. Desculpa eu te amolar com minhas lamúrias...

                c. Sem problemas...

                d. Só não vejo necessidade da senhora ficar deitada nesse banco.

          03. Em “Foi quando meu marido me abandonou com dois filhos”, a preposição destacada indica:

             a. modo        

             b. tempo      

             c. companhia          

             d. instrumento

         04. Numere a 2ª coluna de acordo com a 1ª, indicando o sentido das preposições destacadas:

        (1) Origem               ( 4 ) Não conversamos sobre política.

        (2) Tempo                ( 7 ) Esse brinco é da minha irmã.

        (3) Lugar                  ( 5 ) Juntei dinheiro para viajar.

        (4) Assunto              ( 8 ) Esse brinco é de ouro?

        (5) Finalidade           ( 10 ) Ele passou mal de tanto comer.

        (6) Instrumento         ( 1 ) Eu sou de Minas Gerais.

         (7) Posse                ( 9 ) Vou sair com minha tia.

        (8) Matéria              ( 6 ) Ele se cortou com a tesoura.

        (9) Companhia        ( 3 ) Vou ao shopping.

        (10) Causa              ( 2 ) Viajaremos em dois dias.


  

MAIO LARANJA - PROTEGER É DEVER DE TODOS! - LUCAS CESAR - COM GABARITO

 MAIO LARANJA

PROTEGER É DEVER DE TODOS!


 O dia 18 de maio é conhecido em todo o Brasil como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Essa data foi criada para lembrar a importância da proteção das crianças e adolescentes e para conscientizar a sociedade sobre esse problema.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0X32_IlLVE2_9-iccs25Pq1haeDwOhelnoPpNq8gJuiBdOvnKE1qzZd1MKwAOxWGkofB6eJrTk46z27s7gY2IFYGjBKDkkN-n12K1AvnRinVS47T9v3tW1Mj_iqHdKt-ZcfjyY682X4T3g6DMFnyesFATNhq-FLRKp0qwjhAQhULe_ACttgcswenHpAA/s320/maiolaranja_fb.jpg


A campanha Maio Laranja surgiu para fortalecer a luta contra todo tipo de violência sexual infantil. O dia 18 de maio foi escolhido em memória da menina Araceli Crespo, de apenas 8 anos, que desapareceu no Espírito Santo, em 1973, sendo encontrada dias depois vítima de violência. O caso chocou o país e se tornou símbolo da luta pelos direitos das crianças.

Todas as crianças já nascem com direitos garantidos por leis importantes, como a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Essas leis existem para garantir proteção, respeito, saúde, educação, segurança e infância feliz.

O abuso sexual infantil coloca em risco o bem-estar e o futuro de crianças e adolescentes. As vítimas podem apresentar medo, tristeza, ansiedade, dificuldade de aprendizagem, isolamento e outros problemas emocionais.

A família, a escola, o governo e toda a sociedade têm a responsabilidade de proteger as crianças. Por isso, é importante observar sinais, ouvir com atenção e denunciar qualquer situação suspeita.

Em casos de violência, o Disque 100 é um serviço gratuito e sigiloso que recebe denúncias e ajuda na proteção das vítimas.

Combater o abuso e a exploração sexual infantil é dever de todos!

 

INFÂNCIA: UM LUGAR DE FLORESCER

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.


Maio veste o laranja
Pra o país todo entender:
Proteger é compromisso
Que a gente deve ter.
Não se lava essa ferida
Com desculpa mal fingida,
Mas com ato de acolher.

Se a criança pede ajuda,
Não é pra desmerecer.
A escuta é um abrigo
Que a pode socorrer.
Mais que lei ou papelada,
Ela quer ser respeitada
E poder sobreviver!


No jardim da esperança,

Flor laranja vem dizer:

Criança é vida delicada,

Há espaço pra crescer.

Não é enfeite ou fantasia,

Mas um símbolo de empatia,

Você precisa reconhecer.

É dever da sociedade
Acolher e proteger.
Seja pai, vizinho ou tia,
Todos podem perceber.
Se há algo “suspeitado”,
Ligue, fale, é o recado:
Disque 100 sem se esconder!


Que os versos se espalhem
Pra quem queira aprender
Que criança não se cala,
Que criança é pra viver
Com amor e consciência,
A infância (sua existência)

É um lugar de florescer.


  COMPREENSÃO DOS TEXTOS E REFEXÃO

1)   Qual é o tema principal dos dois textos?

O tema principal é o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, destacando a importância da campanha Maio Laranja e a responsabilidade de toda a sociedade em proteger a infância.

 2)   O que é a campanha Maio Laranja?

É uma campanha nacional criada para fortalecer a luta contra todo tipo de violência sexual infantil, conscientizar a população e lembrar a importância de proteger os direitos das crianças e adolescentes.

 3)   Quem foi Araceli Crespo e por que ela é lembrada no dia 18 de maio?

Araceli Crespo foi uma menina de 8 anos que desapareceu no Espírito Santo em 1973 e foi encontrada morta, vítima de violência. O dia 18 de maio foi escolhido em sua memória, tornando o seu caso um símbolo nacional da luta pelos direitos da criança.

4)   Cite duas leis mencionadas no primeiro texto que protegem crianças e adolescentes.

As duas leis são a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 5)   Segundo os textos, quem deve proteger as crianças e adolescentes?

A responsabilidade é de todos: a família, a escola, o governo e toda a sociedade (incluindo pais, vizinhos, tias, etc.).

 6)   Quais problemas o abuso sexual pode causar às vítimas?

Pode causar problemas emocionais e comportamentais como medo, tristeza, ansiedade, dificuldade de aprendizagem, isolamento e traumas (as "feridas" mencionadas no poema).

 7)   O que podemos interpretar destes versos do cordel: “Não se lava essa ferida / Com desculpa mal fingida, / Mas com ato de acolher.”?

Significa que a dor e o trauma causados pela violência não desaparecem com justificativas vazias ou negação do problema. A verdadeira reparação e ajuda começam quando a vítima é acolhida com empatia, respeito, escuta e proteção de verdade.

 8)   Qual serviço é citado nos textos para realizar denúncias?

O Disque 100, que é um serviço gratuito e sigiloso.

9)   Retire do cordel um verso que demonstre proteção ou acolhimento.

 “A escuta é um abrigo"

  "Mas com ato de acolher."

 "É dever da sociedade / Acolher e proteger."


10. Por que é importante denunciar casos de violência contra crianças e adolescentes?

Porque a denúncia interrompe o ciclo de violência, garante que a vítima receba o apoio necessário para se recuperar e pune os responsáveis, protegendo também o futuro de outras crianças.

 11)        O que significa a expressão “Faça bonito” presente na campanha Maio Laranja?

Embora a expressão exata não apareça escrita no corpo dos textos acima, ela é o slogan oficial da campanha nacional ("Faça Bonito. Proteja nossas crianças e adolescentes"). Significa agir com responsabilidade, não se calar diante de suspeitas, ser empático e cumprir o dever cidadão de proteger os mais vulneráveis.

 

12)        De acordo com os textos, quais sinais podem indicar que uma criança precisa de ajuda?

Sinais emocionais e de comportamento como: demonstrar medo, tristeza constante, ansiedade, apresentar dificuldade de aprendizagem, isolamento social ou quando a própria criança "pede ajuda" através da fala ou de mudanças bruscas.

 

13)        Na sua opinião, como a escola pode ajudar na proteção das crianças e adolescentes?

Sugestão: A escola pode ajudar promovendo palestras e conversas de conscientização, capacitando os professores para identificar mudanças no comportamento dos alunos, oferecendo um ambiente seguro onde a criança se sinta acolhida para falar e acionando o Conselho Tutelar sempre que notar algo suspeito.

 

14)        Escreva uma diferença e uma semelhança entre os dois textos lidos.

  Semelhança: Ambos tratam do mesmo assunto (a campanha Maio Laranja, o Disque 100 e o dever de proteger as crianças).

  Diferença: O primeiro texto é informativo/jornalístico (organizado em parágrafos, com linguagem direta e fatos históricos), enquanto o segundo texto é um poema de cordel (organizado em estrofes e versos com rimas, que utiliza uma linguagem mais emotiva e poética.

15)        Produza um pequeno verso, frase ou mensagem de conscientização sobre a campanha do Maio Laranja.

 

(Resposta pessoal, mas aqui estão duas opções criativas para você escolher ou se inspirar):

Opção de frase: "Proteger a infância é plantar um futuro de paz. No Maio Laranja e em todos os meses do ano, disque 100 e faça bonito!"

Opção de verso:

"A flor laranja no peito Vem o país lembrar: Criança merece respeito E nós devemos cuidar!"

 Proteger crianças e adolescentes é responsabilidades de todos!

Faça bonito: denuncie e ajude a combater qualquer forma de violência.

Denunciar é um ato de coragem, cuidado 

REPORTAGEM: CRIANÇAS NA DIREÇÃO - FRAGMENTO - RICARDO KOTSCHO - COM GABARITO

 Reportagem: Crianças na direção – Fragmento

            RICARDO KOTSCHO

        Nos confins da chapada do Araripe, em Nova Olinda, cidade sertaneja de 12 mil habitantes, a 580 quilômetros de Fortaleza (CE), esconde-se um pequeno império de arte e comunicação, a Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjY7j1mr9B3mI68NkAEJOCeJb7Jl02O7s6iBiCY1o9SEc_zBINwUK-kdlGGXFd_3D1nDy3joiQGvHzyv45oHYTL6Kb8BMLvD9TUR3JVqfpDICpBJfwZTBAifTgmil7UY5CBvf6-uHFmfi-QzmTd33gxON-4-hIoG6TwJv2yPX58sqTms6RD4miofxQfrYI/s320/cariri1.jpg


        Não chega a ser uma Fundação Roberto Marinho, mas a Casa Grande é uma ONG que já tem rádio, televisão, jornal, editora, museu, grupos de teatro e de música. Detalhe: tudo é tocado por 70 crianças e adolescentes da cidade, artistas multimídia com idades que vão dos três aos 18 anos.

        Como dizem lá no sertão, a história para ser bem entendida tem de ser contada desde o começo. Neste caso, vem de muito antigamente, de quando foi construída a primeira casa grande nas terras dos índios kariri, em 1717.

        Comprada e reformada em meados do século passado pela família de Neco Trajano, avô de Francisco Alemberg de Souza, 36, o Alemberg Quindins, a casa foi abandonada em 1975 e estava servindo de banheiro público.

        Músico e pesquisador, Alemberg rodou o Brasil por dez anos, trabalhando ao lado da mulher, Rosiane Limaverde, 36, cantora e percussionista. Em 92, o casal voltou para Nova Olinda. Como precisasse de um canto para guardar o material recolhido durante as viagens, no rastro do universo geográfico dos kariri, Alemberg pediu a velha casa à família e ajuda à prefeitura para restaurá-la.

        Quem conta essa história nos mínimos detalhes aos visitantes que chegam a Nova Olinda são os adolescentes Alderiana Tavares Siebra e Francisco Cordeiro Teles, os dois com 13 anos. Entre outras funções, eles são também os guias do museu. "O povo mais antigo foi contando as histórias para a gente", explica Francisco.

        Escola e trabalho

        A ideia de criar a Escola de Comunicação da Meninada do Sertão surgiu ainda durante as obras, quando algumas crianças começaram a se interessar pelo trabalho de Alemberg e Rosiane. "O nosso maior desafio era trocar as enxadas das crianças que largavam a escola para trabalhar na lavoura pela tecnologia da comunicação", lembra Alemberg.

        Além da prefeitura, o projeto foi ajudado desde o começo pelo Unicef, o que permitiu ao Casa Grande montar os laboratórios de rádio, televisão e editoração. Outras parcerias foram surgindo com o governo do Ceará, universidades e, mais recentemente, com o Instituto Airton Senna.

        "Aqui tudo se cria, nada se copia. Casa Grande FM, a rádio que educa. Amanhã, à uma da tarde em ponto, volto com a melhor música infantil aqui no programa ‘Submarino Amarelo’. Boa tarde", anuncia ao microfone a locutora Jossamiris Alves Muniz, 9, ao lado da aprendiz Ana, 5, filha de Alemberg e Rosiane.

        Produção, operação e apresentação, além das vinhetas montadas em computador, tudo na FM 105.9, que alcança cinco cidades vizinhas, fica por conta de crianças como Jossamiris.

        Há três anos no ar, das 5h às 22h, a rádio comunitária Casa Grande apresenta o noticiário da cidade, também preparado pelas crianças, de meia em meia hora. A programação musical vai do jazz e blues à música clássica, cantoria de viola, MPB e ao forró de pé de serra. Um dos grandes sucessos é o "Baú do Raul", um programa só com músicas de Raul Seixas.

        Só podem participar das atividades multimídias crianças e adolescentes que frequentam a escola regular e tiram boas notas. "Aqui ninguém ganha dinheiro, só se ganha conhecimento. E quem comanda tudo é a meninada", diz Alemberg, orgulhoso da sua obra, enquanto caminha pelos bem arborizados jardins da casa. Em volta, atrás de cada porta, há sempre grupos estudando e trabalhando.

        Meires Moreira, 16, gerente da editora, mostra a uma turma de sete crianças como foram produzidas as 11 publicações da Casa Grande. "São revistas de histórias em quadrinhos com material pedagógico, que tratam desde educação sexual até campanha contra o fumo", diz a jovem. Além disso, a editora já imprimiu 28 edições do "Karirizinho", jornal quinzenal de circulação interna com tiragem de dez cópias.

        [...]
        Toda a comunicação visual dos diferentes núcleos da Fundação Casa Grande e do Memorial do Homem Kariri foi desenvolvida pelos próprios meninos e meninas da chapada do Araripe, que acabaram mesmo trocando a enxada pela tecnologia digital em menos de uma década.

KOTSCHO, Ricardo. Crianças na direção. Folha de São Paulo, 11 jul. 2001, p. E1.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 96-98.

Entendendo a reportagem:

01 – O que é a Fundação Casa Grande e onde ela está localizada?

      A Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri é uma ONG descrita como um "pequeno império de arte e comunicação" que possui rádio, televisão, jornal, editora, museu, além de grupos de teatro e música. Ela fica localizada nos confins da chapada do Araripe, em Nova Olinda, uma cidade sertaneja com 12 mil habitantes, a 580 quilômetros de Fortaleza (CE).

02 – Quem são os responsáveis por comandar e tocar as atividades da Fundação Casa Grande?

      Todas as atividades e núcleos da Fundação são tocados por 70 crianças e adolescentes da própria cidade. Eles atuam como artistas multimídia e suas idades variam dos três aos 18 anos.

03 – Qual era o estado da "casa grande" antes de ser restaurada por Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde?

      A casa, construída originalmente em 1717 nas terras dos índios kariri e reformada no século passado pelo avô de Alemberg, havia sido abandonada em 1975 e estava servindo como banheiro público antes da restauração.

04 – Como surgiu a ideia de criar a "Escola de Comunicação da Meninada do Sertão"?

      A ideia surgiu durante as obras de restauração da velha casa, quando algumas crianças da região começaram a demonstrar interesse pelo trabalho de pesquisa e recolhimento de materiais que estava sendo feito por Alemberg e Rosiane.

05 – Qual foi o maior desafio apontado por Alemberg Quindins no início do projeto?

      O maior desafio era social e educativo: consistia em trocar as enxadas das crianças — que costumavam abandonar a escola regular para trabalhar na lavoura — pela tecnologia da comunicação.

06 – Quais são os requisitos obrigatórios para que as crianças e adolescentes possam participar das atividades multimídia da ONG?

      De acordo com o texto, só podem participar das atividades da Fundação Casa Grande os jovens e crianças que frequentam regularmente a escola tradicional e que tiram boas notas. Além disso, o trabalho não é remunerado ("ninguém ganha dinheiro, só se ganha conhecimento").

07 – O que a gerente Meires Moreira, de 16 anos, revela sobre as publicações produzidas pela editora da Fundação?

      Meires explica que a editora produziu 11 publicações, que consistem em revistas de histórias em quadrinhos com conteúdo pedagógico, abordando temas importantes como educação sexual e campanhas contra o fumo. Além disso, a editora também imprime o "Karirizinho", um jornal quinzenal de circulação interna.