Reportagem: O impacto do celular em aldeias indígenas – Fragmento
“Céu aberto para flutuar”: é assim que os índios batizaram a internet,
que está mudando profundamente a rotina nessas comunidades
Sérgio Matsuura
Índios de iPhone e conectados à
internet? Sim. E eles estão fazendo uso de novas tecnologias para promover e
preservar sua língua e cultura. Mas, se a janela aberta pelos smartphones e
pela internet serve para proteger manifestações culturais, o contato intenso
com o mundo dos “brancos” está promovendo mudanças profundas no cotidiano. [...].
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiKO34gjOx2eM_MZxVR1ki9r3vqwT6c3TC11dS673LCKwNPZa6gWGAVANWds69Hqbf5HXUJOhLQPLSSh9JHumuTxnhKPhyceavQr4KFQe94OAakOY6GEpY-oIJqv_i0CPI8hiZCGf3tQP-M-Eki8gTGP332AUXL6WG8fNVSSsM9t7o2pKvv6V1ukY0i4SY/s1600/INDIO.jpg
“Cresci sem internet, a gente brincava
com bola, ia para o mato caçar e pescar. Hoje, nossas crianças estão como os
filhos dos brancos”, criticou Ashaua Kuikúro, do povo cuicuro, no Parque
Indígena do Xingu. “Em vez de brincar, elas ficam no celular jogando.”
Na aldeia Piyulaga, do povo uaurá,
também no Xingu, a solução adotada para evitar que os jovens se distanciem da
cultura local foi radical.
“Quando tem algum ritual tradicional, a
gente desliga a internet para que todos participem da festa”, contou Pyrathá
Waurá. “Todos os grandes acontecimentos na aldeia são importantes para nós,
porque nosso aprendizado é pela oralidade e pela prática.”
Outra forma de adaptar as novas
tecnologias à cultura local foi dar nomes a elas. Em uaurá, língua da família
aruaque, internet virou enunakuwa — céu aberto para flutuar — e celular
yuntagapi — aquele que transmite informações. Professor na escola de Piyulaga,
Pyrathá é um dos responsáveis por passar o conhecimento tradicional, sobretudo
a língua, para as novas gerações. E a enunakuwa e o yuntagapi são ferramentas
poderosas nesse processo.
Ao lado de pesquisadores do Museu do
Índio, Pyrathá participa de um projeto para a construção de um dicionário
eletrônico uaurá. No momento, já existem cerca de 200 verbetes catalogados, com
a palavra escrita, exemplos de uso e a tradução para o português. Alguns
possuem áudios, vídeos ou imagens.
[...]
Com mais de uma década de experiência
na documentação da cultura ianomâmi, o linguista Helder Perri Ferreira, do
Instituto Socioambiental, destacou que esses dicionários são importantes não
apenas para o registro escrito, em nuvem, das línguas indígenas, mas para a
valorização, entre os próprios índios, de suas tradições.
[...]
No projeto que Ferreira desenvolve com
os ianomâmis, os indígenas recebem smartphones para a produção de conteúdo
sobre eles, para eles. Como a região não possui cobertura de internet, o
Instituto Socioambiental pretende instalar uma rede local, como uma intranet,
para servir algumas aldeias.
[...].
MATSUURA, Sérgio. O
impacto do celular em aldeias indígenas. Época, 6 fev. 2019. Disponível em: https://epoca.globo.com/o-impacto-do-celular-em-aldeias-indigenas-23408432.
Acesso em: 15 out. 2020.
Fonte: Coleção Rotas.
Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura
Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 214.
Entendendo a reportagem:
01
– Como os indígenas do povo Uaurá batizaram a "internet" e o
"celular" em sua língua nativa?
Eles deram nomes
poéticos e funcionais: a internet foi chamada de enunakuwa ("céu aberto
para flutuar") e o celular de yuntagapi ("aquele que transmite
informações").
02
– Qual é o lado positivo do uso de smartphones nas comunidades indígenas
mencionado no início do texto?
O texto destaca
que os indígenas estão utilizando as novas tecnologias como ferramentas para
promover e preservar sua língua e cultura, servindo como uma "janela
aberta" para proteger suas manifestações culturais.
03
– Qual é a crítica feita por Ashaua Kuikúro em relação ao comportamento das
crianças atuais?
Ele critica o
fato de que as crianças estão abandonando brincadeiras tradicionais, como
caçar, pescar e brincar com bola, para ficarem no celular jogando,
assemelhando-se ao comportamento dos "filhos dos brancos".
04
– Que medida radical a aldeia Piyulaga adotou para garantir a participação dos
jovens nos rituais tradicionais?
A comunidade
decidiu desligar a internet durante os rituais tradicionais. Isso é feito para garantir
que todos participem da festa, já que o aprendizado do povo depende da
oralidade e da prática presencial.
05
– Como a tecnologia está sendo usada especificamente para o ensino da língua
Uaurá?
O professor
Pyrathá Waurá utiliza a internet e o celular como ferramentas de ensino e
participa de um projeto de construção de um dicionário eletrônico. Esse
dicionário já possui cerca de 200 verbetes com escrita, áudio, vídeo e tradução
para o português.
06
– De acordo com o linguista Helder Perri Ferreira, qual é a importância dos
dicionários eletrônicos para os indígenas?
Eles são
importantes não apenas para o registro escrito e seguro (em nuvem) das línguas,
mas principalmente para a valorização das tradições entre os próprios
indígenas, fortalecendo sua identidade.
07
– Como o Instituto Socioambiental pretende resolver a falta de cobertura de
internet na região dos Ianomâmis?
O instituto
pretende instalar uma rede local (intranet) para servir algumas aldeias,
permitindo que os indígenas usem os smartphones para produzir e compartilhar
conteúdo sobre sua própria cultura, mesmo sem acesso à rede mundial.







