Ficção científica: Eu, robô – Fragmento
Isaac Asimov
Olhei para minhas anotações e não
gostei delas. Eu tinha passado três dias na U.S. Robots e poderia muito bem tê-los
passado em casa, com a Enciclopédia Telúrica.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQWyXYTyH0LY3MRgV8ZLQv-KZ4SjMqtq-jXax2TcmKiM4VvtRGE3z41ptdL-uD9wWxmu1d2you7aGThJlG6DU4rAaYJrPdh5ky2y4K-j6PpXa6IKkU7sCJlnMBmyN56fHKbKJ5THnIx_gzUcvCbaKpqX19gXvfcT7fnAUaoj-wMrZAVa_ZHw9x-P4xooc/s320/EU.jpg Susan Calvin havia nascido no ano de
1982, disseram-me, o que queria dizer que ela tinha setenta e cinco anos de
idade. [...] a U.S. Robots and Mechanical Men, Inc. também tinha setenta e
cinco anos, uma vez que fora no ano de nascimento da Dra. Calvin que Lawrence
Robertson conseguira os documentos de constituição do que viria a ser o mais
estranho gigante industrial da história da humanidade. [...]
Aos vinte anos, Susan Calvin participara
de um seminário específico sobre Psicomatemática, no qual o Dr. Alfred Lanning,
da U.S. Robots, apresenta o primeiro robô móvel a ser equipado com voz. Era um
robô grande, desajeitado e feio, cheirava a óleo de máquina e fora destinado a
trabalhar nas minas projetadas em Mercúrio. Mas podia falar e se fazer entender.
[...]
Ela se formou em bacharel na
Universidade de Columbia, em 2003, e começou a pós-graduação em cibernética.
Tudo o que havia sido feito em meados
do século XX em relação a “máquinas calculadoras” foi revirado por Robertson e por
suas vias de cérebro positrônico. Os quilômetros de retransmissões fotocélulas tinham
dado lugar ao globo esponjoso de platina-irídio mais ou menos do tamanho de um
cérebro humano.
Ela aprendeu a calcular os parâmetros
necessários para corrigir possíveis variáveis no “cérebro positrônico”; a construir
“cérebros” na teoria, de forma que as respostas dadas aos estímulos podiam ser
previstas com exatidão.
[...]
Em 2008, ela terminou o doutorado e começou
a trabalhar no quadro da U.S. Robôs, na qualidade de “psicóloga roboticista”,
tornando-se a primeira grande profissional de uma nova ciência. Lawrence
Robertson ainda era o presidente da companhia; Alfred Lanning tinha se tornado diretor
de pesquisas.
Durante cinquenta anos, ela observou o progresso
humano mudar de direção – e dar um salto adiante.
Agora ela estava se aposentando [...].
– Dra. Calvin, – disse eu [...] –, aos
olhos do público a senhora e a U.S. Robots são idênticos. Sua aposentadoria vai
encerrar uma era e...
– Você quer abordar o tema pelo ângulo do
interesse humano? – Ela não sorriu para mim. Acho que ela não sorria nunca. Mas
seu olhar era penetrante, embora não mostrasse raiva. Senti-o passando por mim
e atravessando meu occipício, e soube que eu era estranhamente transparente
para ela; que todos eram.
Mas eu respondi:
– Isso mesmo.
– Interesse humano em robôs? Isso é uma
contradição.
– Não, doutora. Interesse pela senhora.
– Bem, eu mesma já fui chamada de robô.
Com certeza já lhe disseram que não sou humana.
[...]
Ela voltou para a mesa e sentou. De
certo modo, ela não precisava de uma expressão no rosto para parecer triste.
– Quantos anos você tem? – ela quis
saber.
– Trinta e dois – respondi.
– Então não se lembra de um mundo sem
os robôs. Houve um tempo em que a homem enfrentou o universo sozinho e sem
amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio,
mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais
sozinha. Já pensou sobre essa questão desse modo? [...] Para você, um robô é um
robô. Engrenagens e metal; eletricidade e pósitrons. Mente e ferro! Fabricado por
humanos! Se necessário, destruído por humanos! Mas você não trabalhou com eles,
então não os conhece. Eles são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.
[...].
ASIMOV, Isaac. Eu,
robô. Tradução de Aline Storto Pereira. São Paulo: Editora Aleph, 2014. p.
13-15. (Adaptado).
Fonte: Coleção Rotas.
Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura
Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 132-133.
Entendendo a ficção
científica:
01 – De acordo com o texto,
qual o significado das palavras abaixo:
-- Cérebro positrônico: invenção do autor para fazer referência ao cérebro dos robôs.
-- Cibernética: ciência que estuda os sistemas de comunicação e controle
tanto nos seres vivos quanto nas máquinas.
-- Fotocélula: dispositivo que transforma a radiação luminosa em
eletricidade.
-- Platina-irídio: elemento químico.
-- Telúrico: referente ao planeta Terra.
-- Occipício: parte posterior e inferior da cabeça.
-- Pósitrons: antipartículas dos elétrons. Possuem carga positiva e são
utilizados, por exemplo, em exames médicos como ressonâncias e tomografias.
02 – De acordo com o texto, qual é a coincidência
temporal entre o nascimento de Susan Calvin e a U.S. Robots?
a) Ambos surgiram no ano de 1982.
b) A
Dra. Calvin nasceu quando a empresa completou 20 anos.
c) A
U.S. Robots foi criada após o seminário de Psicomatemática.
d) A
empresa foi fundada quando Susan se formou em 2003.
03
– Como era o primeiro robô móvel equipado com voz que Susan Calvin viu aos
vinte anos?
a) Grande, desajeitado e com cheiro de óleo de máquina.
b) Pequeno,
ágil e com aparência humana.
c) Um
globo esponjoso de platina-irídio sem corpo fixo.
d) Uma
máquina calculadora imóvel e silenciosa.
04 –
Qual foi a grande inovação tecnológica que substituiu as antigas máquinas
calculadoras do século XX?
a) O cérebro positrônico feito de platina-irídio.
b) A
Enciclopédia Telúrica digital.
c) O
sistema de voz para robôs mineiros.
d) A
criação de robôs que não precisam de estímulos.
05
– Qual cargo Susan Calvin passou a ocupar na U.S. Robots após terminar seu
doutorado em 2008?
a) Presidente
da Companhia.
b) Engenheira
de minas em Mercúrio.
c) Diretora
de Pesquisas.
d) Psicóloga roboticista.
06
– No diálogo com o narrador, como Susan Calvin descreve a diferença entre a
visão dela e a do público sobre os robôs?
a) Ela
os vê como simples ferramentas de metal e eletricidade.
b) Ela
acredita que os robôs são perigosos e precisam ser destruídos.
c) Ela
os vê como máquinas desprovidas de qualquer tipo de mente.
d) Ela os considera uma espécie melhor e mais perfeita que a humana.
07
– O que Susan Calvin quer dizer ao afirmar que o homem costumava enfrentar o
universo 'sozinho e sem amigos'?
a) Que
a humanidade vivia em guerra constante antes de 1982.
b) Que
os robôs substituirão os amigos humanos completamente.
c) Que a criação dos robôs trouxe companheiros fiéis e úteis para a
espécie humana.
d) Que
não existiam outras empresas além da U.S. Robots.
08
– Qual é a reação de Susan Calvin ao ser confrontada com o tema do 'interesse
humano' na entrevista?
a) Ela considera contraditório o interesse humano em robôs.
b) Ela
sorri para o entrevistador pela primeira vez.
c) Ela
fica entusiasmada por poder contar sua história de vida.
d) Ela
se sente ofendida por ser comparada a um robô.
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