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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CONTO: O SEGREDO - FRAGMENTO - LUIZ RUFFATO - COM GABARITO

Conto: O segredo – Fragmento

          Luiz Ruffato

VIII
        O Professor acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, arrumou o nó da gravata, compôs melhor o paletó, passou os dedos longos e secos pelo cabelo e espantou-se com o silêncio. Entrou na cozinha e Quede dona Conceição? Atônito, sentou-se à mesa vazia. Em quinze anos, aquela era a primeira vez que a empregada não chegava no horário.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPfjPkBz6fSlC3alSBnfwKvQqp524XlnNME9i2_JN4H-U0O9yqQoZBrexcy8QWbut2Vcp1OH788jccI7CZwGWnhBTa8S3Y-ri7oNCbaqY-7o_PhVPQcnqDUiNZDfXD0x1UQh97RgL-3fYVskgDfguwwa7WlHew4DP9Zju4A_TI9IHvLvCpchyIigTrA04/s320/images.jpg


        Refeito, deu de ombros, O que fazer?, encostou a porta e foi tomar o café da manhã na cantina do Colégio. Às cinco para as seis, entrou em casa e, decepcionado, constatou que a mulher não fora trabalhar naquele dia. Se quisesse jantar, teria que se deslocar até o Bar Elite, Que amolação! Será que aconteceu alguma coisa? Que nada, Ah, esse povo!, sempre tentando E agora o quê que vou comer? Vamos ver E se.

        Dia seguinte, acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, E a dona Conceição? "Dona Conceição! Ô dona Conceição!" Silêncio. Mas não é possível! "Dona Conceição!" A cozinha vazia irritou-o profundamente. Ê gente sem compromisso! Pegou a sovada pasta de couro, Depois mando embora vai lamentar Cheio de gente aí fora Dá pena Mulher honesta Mas se não for assim como, saiu pisando duro. Na calçada, um homem apeou da bicicleta e veio ao seu encontro, "Professor?" Assustou-se, apertou o passo. "Professor? O senhor é o Professor, não é? Sou vizinho da dona Conceição..." "Ah!" Parou. "O senhor é o Professor, não é? Pois então! Tinha certeza!, homem assim, que nem o senhor, só podia ser... O caso é que a dona Conceição, ela mora lá no Beco do Zé Pinto, o senhor sabe..." "Sei, sei". "Coitada, teve um troço lá, não veio trabalhar ontem, nem vai poder trabalhar hoje não..." "Ô meu deus! Mas o quê que ela tem?" "Uma macacoa besta lá... Preocupa não... Diz ela que segunda-feira está de volta, se deus quiser..." "Então, não é nada muito sério, não?" "Nada... Acho que não... Ela até mandou perguntar pro senhor se tem roupa pra lavar. Se tiver, é só falar, eu levo, a comadre dela cuida... Direitinho..." "Não, não... Segunda-feira ela volta, então?" "Segunda-feira, se deus quiser..." "Qual é mesmo a sua graça?" "Vanim. Vanim às suas ordens" "Pois bem, seu Vanim, eu já estou meio atrasado... Vamos fazer o seguinte... Diga pra dona Conceição que eu... estimo suas melhoras... E... quem sabe... Bom... E que eu espero ela na segunda-feira..." Vanim sentou no selim da Monark laranja. "De qualquer maneira, muito obrigado, senhor..." "Vanim. Vanim às suas ordens!" O Professor mudou de calçada. Vanim pedalou alguns metros, parou. "O senhor quer uma carona?, pode montar aí na garupeira, levo o senhor..." "Não, meu rapaz, muito obrigado." "O senhor é quem sabe... Precisando da gente..." E desapareceu no meio da cerração.

 Entendendo o conto:

01 – Qual é a rotina matinal descrita do Professor antes de ele ir à cozinha?

      O Professor acorda, ajoelha-se junto a um pequeno nicho iluminado por uma luz azul para rezar o Credo e o Pai-Nosso, vai ao quintal lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, veste o terno e arruma a gravata, o paletó e o cabelo em frente ao espelho da chapeleira.

 02 – O que causa o espanto e a estranheza do Professor logo no primeiro dia narrado?

      O silêncio na casa e a ausência de dona Conceição, a empregada doméstica. Essa situação o surpreende porque, em quinze anos de trabalho, foi a primeira vez que ela não chegou no horário.

 03 – Como o Professor reage inicialmente à ausência da empregada no segundo dia?

      Ele fica profundamente irritado com a cozinha vazia, chama por ela e faz julgamentos sobre os trabalhadores ("gente sem compromisso"), pensando inclusive em demiti-la, embora reconheça internamente que ela é uma mulher honesta.

 04 – Quem aborda o Professor na rua e qual é o motivo da abordagem?

      Ele é abordado por Vanim, um vizinho de dona Conceição. Vanim veio avisar que a empregada não pôde ir trabalhar porque teve uma "macacoa" (estava doente), mas que pretendia retornar na segunda-feira.

05 – Que atitude do Professor ao longo do texto evidencia seu distanciamento social em relação a Vanim e dona Conceição?

      O Professor demonstra um comportamento distante e preconceituoso: assusta-se ao ser abordado na rua, muda de calçada durante a conversa, recusa a oferta de carona na bicicleta de Vanim e demonstra preocupação excessiva apenas com os próprios incômodos (onde comer, suas roupas e o atraso), mantendo uma postura de superioridade em relação às pessoas mais simples.

 

 

 

 


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