domingo, 26 de julho de 2026

CRÔNICA: A ATITUDE SUSPEITA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: A atitude suspeita

            Luís Fernando Veríssimo

 

        Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso “em atitude suspeita”. É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbWtE2rSwYe0ed3QojaHCEDi9QZ8ZPXRUpYIpwIqs-f45QAxaFyejenkfCPI1blPhkwgHOW-fM4Nzaq5I1CXMIVbFo4EQbQnl6VHKVU3I45gf6bwxeFtCTHv38___EMagl_fIlnIrZv_1phlaYTkJzRddCFDgFlTwiSn8Ei46IY079q5jkv3hed44h0hE/s320/images.jpg 


     -- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.

        -- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?

        -- Suspeita.

        -- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega?

        -- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.

        -- Humm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações.

        -- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!

        -- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

        -- Mas eu estava só esperando o ônibus!

        -- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

        -- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

        -- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

        -- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

        -- Não senhor delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

        -- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias para ir para casa! Sou inocente!

        -- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

        -- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

        -- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

        -- Fugir, como?

        -- Fugir no ônibus. Quando foi preso.

        -- Mas eu não estava tentando fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo sempre!

        -- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus, em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

        -- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.

        -- Ah, uma confissão!

        -- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

        -- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude suspeita?

        -- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

        -- Delegado...

        -- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

        -- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um pouco...

        -- Um pouco? Um pouco?

        -- Suspeita.

 

Entendendo a crônica:

01 – Quando o delegado pergunta "Ah, um daqueles, é?". O que ele quis dizer com isso?

      Que era um daqueles criminosos, um daqueles suspeitos.

02 – Por que se declarar inocente é algo suspeito?

      Porque todo culpado se diz inocente.

03 – Qual a teoria do delegado sobre as pessoas se declararem culpadas ou inocentes?

      Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente.

04 – O homem tentou mesmo fugir de ônibus? Explique.

      Não, era o ônibus que ele pegava todos os dias.

05 – Por que a atitude dos policiais também era suspeita?

      Porque eles fingiam que esperavam o ônibus e estavam vigiando o homem.

06 – E por que a atitude do delegado também era suspeita?

      Porque ele mandou soltar o suspeito.

07 – A expressão "atitude suspeita" significa:

a) atitude previsível                           

b) atitude criminosa

c) atitude comum                              

d) atitude duvidosa.

 

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