quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: QUEM SÃO E O QUE QUEREM OS QUE NEGAM A INTERNET? - NICHOLAS CARR - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Quem são e o que querem os que negam a Internet?

              Nicholas Carr

 

        O Vale do Silício, conjunto monótono de centros comerciais, parques empresariais e complexos de fast-food, não parece um núcleo cultural, e, no entanto, se converteu exatamente nisso. Nos últimos 20 anos, a partir do exato momento em que a empresa de tecnologia norte-americana Netscape comercializou o navegador inventado pelo visionário inglês Tim Berners-Lee, o Silicon Valley tem remodelado os Estados Unidos e grande parte do mundo à sua imagem e semelhança. Provocou uma revolução na forma de trabalhar dos meios de comunicação, mudou a forma de conversar das pessoas e reescreveu as regras de realização, venda e valorização das obras de arte e outros trabalhos relacionados com o intelecto.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiLfVporn_ZUupkde4-OVQ_3MisaKPh-LMvCHhpBRBnACXNaqEAD2DxA5pgtvJyJHYQvmKMOohOUf6PXVoIwa-Wwv35YdyOvtn8_6tWsEElRhRvDjN7d7I0Dz45dcACCqE9TZLwH-6DBZMvOc09VA7u3pSLy1bVOZdYj-bPIIKpgeOJdrZGWVu3FVcMYMg/s320/images.jpg


        De bom grado, a maioria das pessoas foi outorgando ao setor tecnológico um crescente poder sobre suas mentes e suas vidas. No fim das contas, os computadores e a Internet são úteis e divertidos, e os empresários e engenheiros se dedicaram a fundo para inventar novas maneiras de fazer com que desfrutemos dos prazeres, benefícios e vantagens práticas da revolução tecnológica, geralmente sem ter que pagar por esse privilégio. Um bilhão de habitantes do planeta usam o Facebook diariamente. Cerca de dois bilhões levam consigo um smartphone a todos os lugares e costumam dar uma olhada no dispositivo a cada poucos minutos durante o tempo em que passam acordadas. Os números reforçam o que já sabemos: ansiamos pelas dádivas do Vale do Silício. Compramos no Amazon, viajamos com o Uber, dançamos com o Spotify e falamos por WhatsApp e Twitter.

        Mas as dúvidas sobre a chamada Revolução Digital têm crescido. A visão imaculada que as pessoas tinham do famoso vale tem ganhado uma sombra inclusive nos Estados Unidos, um país de apaixonados pelos equipamentos eletrônicos. Uma onda de artigos recentes, surgida após as revelações de Edward Snowden sobre a vigilância na Internet por parte dos serviços secretos, tem manchado a imagem positiva que os consumidores tinham do setor de informática. Dão a entender que, por trás da retórica sobre o empoderamento pessoal e a democratização, se esconde uma realidade que pode ser exploradora, manipuladora e até misantrópica.

        As investigações jornalísticas encontraram provas de que nos armazéns e escritórios do Amazon, assim como nas fábricas asiáticas de computadores, os trabalhadores enfrentam condições abusivas. Descobriu-se que o Facebook realiza experiências clandestinas para avaliar o efeito psicológico em seus usuários manipulando o “conteúdo emocional” das publicações e notícias sugeridas. As análises econômicas das chamadas empresas de serviços compartilhados, como Uber e Airbnb, indicam que, apesar de proporcionarem lucros a investidores privados, é possível que estejam empobrecendo as comunidades em que operam. Livros como The People’s Platform [A plataforma do povo], de Astra Taylor, publicado em 2014, mostram que com certeza a Internet está aprofundando as desigualdades econômicas e sociais, em vez de ajudar a reduzi-las.

        As incertezas políticas e econômicas ligadas aos efeitos do poder do Vale do Silício vão além, enquanto o impacto cultural dos meios de comunicação digitais se submete a uma severa reavaliação. Prestigiosos autores e intelectuais, entre eles o prêmio Nobel peruano Mario Vargas Llosa e o romancista norte-americano Jonathan Franzen, apresentam a Internet como causa e sintoma da homogeneização e da trivialização da cultura. No início deste ano, o editor e crítico social Leon Wieseltier publicou no The New York Times uma enérgica condenação do “tecnologicismo”, em que sustentou que os “gangsteres” empresariais e os filisteus tecnológicos confiscaram a cultura. “À medida que aumenta a frequência da expressão, sua força diminui”, disse, e “o debate cultural está sendo absorvido sem parar pelo debate empresarial”.

        Também no plano pessoal estão se multiplicando as preocupações sobre a nossa obsessão com os dispositivos fornecedores de dados. Em vários estudos recentes, os cientistas começaram a relacionar algumas perdas de memória e empatia com o uso de computadores e da Internet, e estão encontrando novas provas que corroboram descobertas anteriores de que as distrações do mundo digital podem dificultar nossas percepções e julgamentos. Quando o trivial nos invade, parece que perdemos o controle do que é essencial. Em Reclaiming Conversation [Recuperando a conversa], seu controverso novo livro, Sherry Turkle, professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), mostra como uma excessiva dependência das redes sociais e dos sistemas de mensagens eletrônicas pode empobrecer as nossas conversas e até mesmo nossos relacionamentos. Substituímos a verdadeira intimidade por uma simulada.

        Quando examinamos mais de perto a crença do Vale do Silício, descobrimos sua incoerência básica. É uma filosofia quimérica que abrange um amálgama estranho de credos, incluindo a fé neoliberal no livre mercado, a confiança maoísta no coletivismo, a desconfiança libertária na sociedade e a crença evangélica em um paraíso a caminho. Mas o que realmente motiva o Vale do Silício tem muito pouco a ver com ideologia e quase tudo com a forma de pensar de um adolescente. A veneração do setor de tecnologia pela ruptura se assemelha ao desejo de um adolescente por destruir coisas, sem conserto, mesmo que as consequências sejam as piores possíveis.

        Portanto, não surpreende que cada vez mais pessoas contemplem com olhar crítico e cético o legado do setor. Apesar de proliferarem, os críticos continuam, no entanto, constituindo a minoria. A fé da sociedade na tecnologia como uma panaceia para os males sociais e individuais permanece firme, e continua a haver uma forte resistência a qualquer questionamento ao Vale do Silício e seus produtos. Ainda hoje se costuma descartar os opositores da revolução digital chamando-os de nostálgicos retrógrados ou os tachando de “antitecnologia”.

        Tais acusações mostram como está distorcida a visão predominante da tecnologia. Ao confundir seu avanço com o progresso social, sacrificamos nossa capacidade de ver claramente a tecnologia e de diferenciar os seus efeitos. No melhor dos casos, a inovação tecnológica nos possibilita novas ferramentas para ampliar nossas aptidões, concentrar nosso pensamento e exercitar a nossa criatividade; amplia as possibilidades humanas e o poder de ação individual. Mas, com frequência demais, as tecnologias promulgadas pelo Vale do Silício têm o efeito oposto.

        As ferramentas da era digital geram uma cultura de distração e dependência, uma subordinação irreflexiva que acaba por restringir os horizontes das pessoas, em vez de ampliá-los.

        Colocar em dúvida o Vale do Silício não é se opor à tecnologia. É pedir mais aos nossos tecnólogos, a nossas ferramentas, a nós mesmos. É situar a tecnologia no plano humano que corresponde a ela. Olhando retrospectivamente, nos equivocamos ao ceder tanto poder sobre nossa cultura e nossa vida cotidiana a um punhado de grandes empresas da Costa Oeste dos Estados Unidos. Chegou o momento de corrigir o erro. 

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/23/tecnologia/1445612531_992107.html

Publicado em 25/10/2015. Acesso em 06/11/2017. [Adaptado].

Entendendo o artigo:

01 – Segundo o texto, de que maneira o Vale do Silício tem remodelado o mundo nos últimos 20 anos?

      O Vale do Silício tem remodelado os Estados Unidos e grande parte do mundo ao provocar uma revolução na forma como os meios de comunicação trabalham, mudar a forma como as pessoas conversam e reescrever as regras de realização, venda e valorização de obras de arte e outros trabalhos intelectuais.

 

02 – Por que a maioria das pessoas, de bom grado, outorgou ao setor tecnológico um crescente poder sobre suas vidas?

      As pessoas entregaram esse poder porque os computadores e a internet são úteis e divertidos, oferecendo prazeres, benefícios e vantagens práticas no cotidiano — frequentemente sem custo financeiro direto —, o que gera um forte anseio pelas facilidades proporcionadas por empresas como Amazon, Uber, Spotify e WhatsApp.

 

03 – Quais foram os principais fatores e revelações que começaram a manchar a imagem imaculada do setor tecnológico perante o público?

      A imagem positiva começou a ser manchada principalmente pelas revelações de Edward Snowden sobre a vigilância na internet pelos serviços secretos, além de investigações jornalísticas que expuseram condições abusivas de trabalho na Amazon e em fábricas asiáticas, experiências psicológicas clandestinas realizadas pelo Facebook e indícios de que serviços de economia compartilhada podem estar empobrecendo as comunidades onde operam.

 

04 – No plano pessoal e cognitivo, quais são os impactos negativos associados ao uso excessivo de dispositivos digitais apontados no texto?

      Estudos científicos citados no texto relacionam o uso de computadores e da internet a perdas de memória e empatia, além de mostrarem que as distrações digitais dificultam as percepções e os julgamentos humanos. Autores como Sherry Turkle também apontam que a dependência de redes sociais empobrece conversas e relacionamentos, substituindo a verdadeira intimidade por uma versão simulada.

 

05 – Como Nicholas Carr caracteriza a "filosofia" e a verdadeira motivação por trás do Vale do Silício no sétimo parágrafo?

        Carr caracteriza a crença do Vale do Silício como uma filosofia quimérica e incoerente que mistura livre mercado, coletivismo, desconfiança libertária e crença evangélica. No entanto, ele argumenta que a real motivação do setor tem pouco a ver com ideologia e muito com a forma de pensar de um adolescente, cuja veneração pela "ruptura" se assemelha ao desejo de destruir coisas sem se importar com as piores consequências.

 

06 – O que o autor quer dizer ao afirmar que a sociedade confunde "avanço tecnológico" com "progresso social"?

      Ao confundir avanço tecnológico com progresso social, a sociedade assume cegamente que qualquer inovação digital é inerentemente benéfica para a humanidade. Isso gera uma resistência a questionar o Vale do Silício, fazendo com que os críticos sejam rotulados erroneamente de "antitecnologia", enquanto se ignoram os efeitos colaterais negativos, como a distração, a dependência e o aprofundamento das desigualdades.

 

07 – Qual é a verdadeira proposta daqueles que colocam o Vale do Silício em dúvida, segundo a conclusão do artigo?

      Colocar o Vale do Silício em dúvida não significa ser contra a tecnologia, mas sim exigir mais dos tecnólogos, das ferramentas e de nós mesmos, situando a tecnologia no plano humano adequado. Significa reconhecer o erro de ter cedido tanto poder a um punhado de empresas e buscar corrigir essa dependência excessiva.

 

 

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