sexta-feira, 27 de julho de 2018

CRÔNICA: QUALIDADE DE VIDA - MARTHA MEDEIROS - COM GABARITO

CRÔNICA: Qualidade de vida
                 
              Martha Medeiros

        Os anos 90 insistiram numa ideia que virou sonho de consumo de todo mundo: qualidade de vida. Até hoje dá vontade de entrar numa loja e perguntar: tem qualidade de vida? Provavelmente nos responderiam que está em falta, muita procura, mas pode deixar encomendado.
        Qualidade de vida, se pudesse ser filmada, teria a cara de um comercial de margarina. Família bela e saudável, uma casa aconchegante, um dia de sol, café da manhã farto, papai empregado e filhos na escola. Qualidade de vida é um modelo de comportamento, qualidade de vida é um carro com um bagageiro enorme.
        E a qualidade das nossas emoções? Compra-se também. As mais fortes são as que têm mais saída. Tudo pelo preço de um ingresso de cinema.
        As pessoas têm estado cansadas demais para produzir seus próprios sentimentos. Assustadas demais para olhar para dentro. Confusas demais para reconhecer seus medos e desejos. Passivas demais para transformar tudo o que sentem em ativo. Procuram artigos prontos em vez de fabricá-los.
        Qualidade não vem com facilidade, não conquistamos com um estalar de dedos. Qualidade, essa palavra difícil de conceituar, só se consegue fazendo as coisas com amor, e eu mesma não me suporto dizendo uma coisa tão piegas, mas é que a pieguice tem lá seu cabimento e às vezes exige nossa rendição. Não há qualidade sem tratamento, sem olho atento, sem uma bela intenção.
        Qualidade é tudo o que a gente ordena sem precisar gritar, é a maneira educada com que nos relacionamos com as pessoas, é o cumprimento de nossas tarefas com responsabilidade, é o compromisso que estabelecemos com a gente mesmo de fazer as coisas da maneira menos estabanada.
        Qualidade é a verdade dos fatos, é não teatralizar a vida. É reconhecer-se humilde diante das nossas falhas, tantas. E tentar errar menos.
        Qualidade é viver de acordo com nossas possibilidades, administrar a vida com a humanidade de que dispomos, chorar de ódio por sermos vulneráveis, mas pensar que melhor isso do que não termos sensibilidade alguma.
        Qualidade é amor que se sustenta, é amizade que não é um blefe, é confiança que não é traída, é demonstrar o que se sente, apertar a mão com firmeza, dizer não e dizer sim com a mesma honestidade, é a inocência de uma fé generalizada e crença na própria natureza.
        Parece uma oração, eu que sou quase agnóstica. Mas é isso. Qualidade é tudo o que não se desmancha facilmente.

MEDEIROS, Martha. Non-stop. Crônicas do cotidiano.
Porto Alegre: L&PM, 2001.
Entendendo o texto
01 – Qual é a primeira definição de qualidade de vida que aparece no texto?
      Qualidade de vida é um modelo de comportamento.

02 – Em que parágrafos da crônica relaciona-se qualidade de vida a consumismo?
      Qualidade de vida, se pudesse ser filmada, teria a cara de um comercial de margarina. Família bela e saudável, uma casa aconchegante, um dia de sol, café da manhã farto, papai empregado e filhos na escola.

03 – No quarto parágrafo, que situações caracterizam as pessoas e reforçam a ideia de que elas “Procuram artigos prontos em vez de fabricá-los.”?
      As pessoas têm estado cansadas demais para produzir seus próprios sentimentos. Assustadas demais para olhar para dentro. Confusas demais para reconhecer seus medos e desejos. Passivas demais para transformar tudo o que sentem em ativo.  

04 – Qual o sentido de “estalar os dedos”, no texto?
      Tem o sentido que nada se consegue na vida com facilidade.

05 – Que frase do texto a cronista considera piegas?
      Não há qualidade sem tratamento, sem olho atento, sem uma bela intenção.

06 – A que se referem os termos destacados em “E a qualidade das nossas emoções? “Compra-se também. As mais fortes são as que têm mais saída. Tudo pelo preço de um ingresso de cinema.”
      Refere-se ao nossos sentimentos.

07 – Qual é o tema do texto?
      É a qualidade de vida.

 08 – Retire do texto um trecho que revele ironia.
      Qualidade é a verdade dos fatos, é não teatralizar a vida. É reconhecer-se humilde diante das nossas falhas, tantas. E tentar errar menos.

09 – Quem é o autor do texto?
      Martha Medeiros.

10 – No 9° parágrafo, a autora fala de alguns sentimentos. Quais são?
      Fala de amor, amizade, confiança, honestidade, inocência e crença.




2 comentários: