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terça-feira, 20 de outubro de 2026

CRÔNICA: A UM JOVEM - FRAGMENTO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Crônica: A um jovem – Fragmento

            Carlos Drummond de Andrade

        [...]

        Recolha, pois, estes apontamentos, Alípio, e saiba que eu o estimo:

I – Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

II – Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgUk8bMHbfi7eaRFcZUeruwUppI2Il7re8gho1zqJLt_JQDFEta4FUYUqN43ytGn0V-st0sCIefH9Pj_4WLzmfw33PfJ4BK8Mos28P1Ey51BOJ-W0w_NDcrD9_751fH3l0HjEkx8-FlFLE12cOOub6t9uUaoEEMBrVneZXtQboxRgl7W9rATd8qlo8X__g/s1600/images.jpg


III – Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.

IV – Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

[...]

VII – Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.

[...]

IX – Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.

[...]

Habilidade EF06LP04.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A bolsa e a vida. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 96.

Fonte: Mapas de Progresso. Língua Portuguesa: 6º ano. Ensino Fundamental. Anos Finais. 3º bimestre. SEDUC. Rio de Janeiro, 2026. p. 6.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o conselho de Drummond em relação ao momento e à necessidade de se escrever um texto?

      O autor aconselha o jovem escritor a só escrever quando for absolutamente impossível deixar de fazê-lo. Além disso, pondera de forma irônica que "sempre se pode deixar", sugerindo cautela, disciplina e contenção diante do ato da escrita.

02 – Como o autor aborda a pretensão que muitos escritores têm de desvendar os grandes mistérios do mundo por meio de seus textos?

      Drummond afirma categoricamente que o escritor não "arrombará" os mistérios do mundo. Ele ressalta que nem mesmo os melhores escritores conseguem essa façanha, pois a função deles é, no máximo, reforçar esses mistérios.

03 – De acordo com o texto, qual deve ser a escolha do escritor ao se deparar com a dúvida entre dois adjetivos? O que esse conselho revela sobre o estilo de escrita defendido?

      Caso o escritor fique em dúvida entre dois adjetivos, a instrução é descartar ambos e utilizar apenas o substantivo. Isso demonstra uma preferência por um estilo de escrita mais direto, enxuto, preciso e sem excessos decorativos.

04 – De que maneira Drummond orienta o jovem a lidar com os conceitos de originalidade e banalidade?

      O autor recomenda não acreditar na originalidade absoluta, mas também alerta para que não se caia na banalidade, definindo-a com ironia como "a originalidade de todo mundo".

05 – O que Drummond aconselha a respeito das críticas e ataques literários recebidos pelo jovem autor?

      Ele orienta a não responder a ataques de pessoas sem categoria literária, pois isso seria perda de tempo ("pregar rabo em nambu"). Por outro lado, afirma que se o crítico tiver verdadeira categoria literária, nem chegará a atacar, pois terá coisas mais importantes para fazer.

 

 

sábado, 17 de outubro de 2026

CRÔNICA: O QUADRO - FRAGMENTO - LEWIS C. S. - COM GABARITO

 Crônica: O Quadro – Fragmento

          Lewis, C. S.

        "A nossa história começa numa tarde em que Edmundo e Lúcia aproveitavam juntos alguns minutos preciosos. Como é óbvio, falavam de Nárnia, nome do país secreto deles. Acho que todos nós temos um país secreto, que, para a maioria, é apenas um país imaginário. Edmundo e Lúcia eram bem mais felizes: o seu país secreto era real. (...) E lá tinham recebido uma promessa, ou algo muito próximo disso, de que voltariam algum dia.”

        [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgjOPxxTMbZxDbUT2HLCT9td43NxpFLj9FPx8bVwR6CCHJLd5RWmCvm5_NrE-T93R0zkw_fbJjyzB4a7BQ3VTJfxzsXYOObVCXbNV0JZXMNM1VxNelUEUFRpsSJvj-9ui-PePsnR-fCKXYa7kOkO5W6ya9GBm3TpozEDH_GynNiT5zyS5mLPu0WCwNvak0/s320/images.jpg


Habilidade EF67LP32.

LEWIS, C. S. As crônicas de Nárnia. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. p. 404.

Fonte: Mapas de Progresso. Língua Portuguesa: 6º ano. Ensino Fundamental. Anos Finais. 3º bimestre. SEDUC. Rio de Janeiro, 2026. p. 10.

Entendendo a crônica:

01 – No fragmento apresentado, o autor estabelece uma distinção entre o "país secreto" da maioria das pessoas e o de Edmundo e Lúcia. Explique qual é essa diferença e o que ela revela sobre a percepção da realidade pelos irmãos.

      Enquanto para a maioria das pessoas o "país secreto" é apenas imaginário (fruto da fantasia ou da ficção), para Edmundo e Lúcia ele é real, pois eles realmente o vivenciaram. Isso revela que, no universo de Nárnia criado por C.S. Lewis, a fronteira entre o mundo físico e o mundo espiritual/mágico é tênue, e as experiências vividas lá possuem uma concretude palpável e verdadeira para os irmãos, indo muito além de um simples devaneio infantil.

02 – O texto menciona que Edmundo e Lúcia receberam "uma promessa, ou algo muito próximo disso, de que voltariam algum dia". Considerando o contexto das obras de C.S. Lewis (como As Crônicas de Nárnia), qual é o significado simbólico ou emocional dessa promessa para os personagens?

      A promessa de retorno funciona como uma âncora de esperança e consolo para Edmundo e Lúcia. Viver em nosso mundo após conhecerem Nárnia gera um sentimento de saudade e exílio. Portanto, a expectativa de voltar representa a fé em uma realidade maior e mais bela, mantendo viva a conexão deles com o divino ou com o transcendente que Nárnia frequentemente simboliza na obra do autor.

03 – O fragmento inicia afirmando que os irmãos aproveitavam "alguns minutos preciosos" para falar sobre Nárnia. Por que momentos como esse podem ser considerados tão valiosos para Edmundo e Lúcia dentro da narrativa?

      Esses momentos são preciosos porque funcionam como um refúgio emocional contra a realidade cinzenta ou comum do mundo em que vivem. Compartilhar memórias sobre Nárnia permite que eles mantenham viva a identidade heroica e as vivências profundas que tiveram lá, além de fortalecer o vínculo fraternal, já que Nárnia é um segredo e um patrimônio emocional exclusivo dos dois.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: QUEREIS ENCONTRAR MARIDO? - APRENDEI!... LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: Quereis encontrar marido? – Aprendei!...

            Lima Barreto

 

        A Livraria Schetino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis encontrar Mari­do? – Aprendei!...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzRxw2-AVecRrRMEA_lcoo2LoxqigAR0h_phf87kUzUyPs4MhdfDadpUXH-WLKR8OaI6nCCvBksbPzn6irHQHCV6Lcfyj9T63JhAoIw2gsxQf5wx_LlT0ZLcyvvW8TgmKP87x1f47XSuWFacjTNxwy9iyWtY5PHGHMza0v0wlpXdNVNzwaiYz83ZAOm3w/s320/images.jpg


        É autor do livro uma senhora, da. Diana D’Alteno, que, a seguir a regra geral, nunca encontrou o seu. Digo isto porque, na quase totalidade, todas as pessoas que se propõem a fornecer tal coisa ou outra aos seus semelhantes, não a possuem. Haja vista os feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos, hierofantes, que estão sempre prontos a dar fortuna aos outros, mas que, entretanto, não têm níquel, pois precisam de espórtulas e gratificações para os seus generosos serviços.

        Da. Diana D’Alteno começa o seu interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo tal e qual: “Gentis e amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O motivo que me induz a traçar estas linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais graves.”

        Depois desta invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no “argumento”.

        Sabem qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras: Permiti, pois, que vos fale disso como coisa nova.

        “Se trata do terrível dépeuplement!, a diminuição progressiva do crescimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as nações, aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de combatentes.”

        Vejam os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.

        O despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível que ela qualifica mais adiante: “espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de boa parte do gênero humano”. A senhora D’Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa descoberta, não fica satisfeita. Parece que o seu gênio é como a atividade catequizadora de São Francisco Xavier; quer ir mais longe, mais longe. Amplius!

        Então toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para aqui as palavras da ilustre socióloga:

        “Pela segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar sem ambages qual seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É o caso de dizer: ‘a pequenas causas, grandes efeitos’ e na verdade, os matrimônios se tornam cada vez mais raros e mais difíceis.”

        Peço licença para observar à ilustre senhora coisas simples. Antes, tenho a dizer que nada entendo dessas coisas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não é ativi­dade da minha seara intelectual, mas já foi dito que cada qual tem o direito de ter uma opinião e de dize-la. Eu julgo que o casamento nada tem com o despovoamento. Pode haver multiplicação da humanidade sem ele, como pode ha­ver com ele. O “crescei e multiplicai-vos” não subentende casamento algum. Há muitas espécies animais que obedecem ao preceito bíblico e prescindem de semelhante cerimônia. Por acaso entre os nossos animais domésticos que crescem e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das cozinheiras, do choupo, etc., há pastores e sacerdotes encarregados de realizar casamentos? Não.

        Estou bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que, entretanto, não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas... Afirma da. Diana que “o homem (o grifo é dela) tem medo do matri­mônio. Um sacro terror se apoderou dele a tal palavra”.

        Ainda uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O “homem” não tem medo do matrimônio; o “homem” o quer sempre. A culpa é da mulher que escolhe muito. Se ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se daria. Eu, por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo que o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser um grão especial, a coisa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar razão nas suas penúltimas palavras que são estas:

        “Permanecei ‘mulher’, se quereis um dia ser mãe – a ‘Maternidade!’ é esta a maior vitória que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra.”

        Não falaria eu com tanto calor, mas diria a mesma coisa com simplicidade, chãmente. Vossa excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de faze-lo da forma que o fez.

        E essas suas palavras vêm à pelo agora quando várias senhoritas se assanham para entrar para a Estrada de Ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.

        Há nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social.

        Os de ordem política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em concurso para aspirar um cargo públi­co, quando a lei não permite que elas o exerçam.

        Não sou inimigo das mulheres, mas quero que a lei seja respeitada, para sentir que ela me garante.

        Nos países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os respectivos parlamentos têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não. Qualquer ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre matéria tão delicada. É um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.

        Quando era ministro Joaquim Murtinho – da Fazenda – é preciso saber – uma moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal autorizasse.

        Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos – autorizados pelo congresso – permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.

        Mulher não é, no nosso direito, cidadão.

        Está sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.

        Spencer, na Introdução à Ciência Social observa que desde que o serviço militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre dezoito e vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que compe­tiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os re­crutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração...

        Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso cumprimento da. Diana D’An­teno por ter escrito o seu interessante opúsculo: Quereis’ encontrar Marido? – Aprendei!

Hoje, Rio, 26-6-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a contradição inicial apontada por Lima Barreto em relação à autora do livro e de que maneira o cronista ironiza sua autoridade no assunto?

      Lima Barreto aponta a ironia de a autora, Da. Diana D’Alteno, ter escrito um guia sobre como encontrar marido sem nunca ter se casado. O cronista satiriza essa posição ao compará-la a charlatães — como cartomantes, adivinhos e feiticeiros —, que prometem riqueza e soluções aos outros, mas continuam sem recursos próprios e dependem de gratificações para sobreviver.

 

02 – Como a autora do opúsculo associa a queda nos casamentos ao cenário geopolítico global e qual é a crítica do autor a essa visão?

      A autora relaciona a escassez de matrimônios ao despovoamento (dépeuplement), prevendo que a falta de crescimento populacional gerará conflitos internacionais graves devido à desigualdade no número de soldados entre as nações. Lima Barreto ridiculariza a abordagem classificando-a como uma sociologia "obstétrica e ginecológica", criticando o alarmismo do argumento e desconstruindo o rigor de sua análise.

 

03 – De que forma o autor rebate a ideia de que o casamento é indispensável para a preservação e o crescimento da espécie humana?

      O cronista desvincula o preceito de proliferação do matrimônio formal. Ele argumenta que o mandamento "crescei e multiplicai-vos" não exige ritos matrimoniais, exemplificando com os animais domésticos, que continuam a se multiplicar sem a necessidade de sacerdotes, pastores ou cerimônias cartorárias para formalizar a união.

 

04 – Qual é a divergência entre Lima Barreto e a autora no que diz respeito ao "medo do matrimônio" por parte dos homens?

      Enquanto a autora sustenta que os homens sentem um "sacro terror" do casamento, Lima Barreto afirma que os homens estão dispostos a se casar, mas atribui o entrave às exigências das mulheres na escolha dos parceiros. O autor utiliza a metáfora do grão de milho atirado ao terreiro: a semente germina facilmente, a menos que a terra exige condições excessivamente específicas.

 

05 – Qual é o posicionamento do cronista em relação ao ingresso das mulheres no serviço público e qual o argumento legal utilizado?

      Lima Barreto manifesta-se contrário à entrada de mulheres em cargos públicos sem legislação prévia favorável. O argumento central apoia-se no princípio da legalidade: por não serem consideradas cidadãs de pleno direito pela legislação da época e estarem juridicamente em "estado de menoridade", sua admissão por decisão unilateral de diretores ou ministros constituiria um abuso administrativo.

 

06 – Como o autor fundamenta seu protesto contra a atuação de autoridades no acesso de mulheres às repartições públicas, citando um exemplo histórico?

      O cronista cita a decisão do ex-ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, que indeferiu a inscrição de uma mulher em concurso público por falta de amparo legal. O autor destaca que a presença feminina só é legítima onde há regulamentação aprovada pelo Congresso — a exemplo dos Correios e Telégrafos —, classificando qualquer concessão fora dessas diretrizes como uma violação das leis vigentes.

 

07 – De que modo o texto articula as teorias de Spencer e Krafft-Ebing para respaldar a tese de que a função primordial da mulher seria o casamento?

      O autor recorre a Herbert Spencer para ilustrar como o trabalho físico feminino — decorrente do recrutamento militar dos homens na França — teria impactado negativamente a formação biológica das novas gerações. Na sequência, cita Krafft-Ebing para chancelar a tese de que a ocupação natural da mulher é o matrimônio. Com essa fundamentação, o cronista encerra o texto validando a premissa central do folheto de Diana D'Alteno.

 

 

 

CRÔNICA: O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O chefe político e o seu eleitor

            Lima Barreto

 

        Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

        – Que há?

        – Eu não voto no doutor Rui.

        – Como você vai votar no Epitácio?

        – Nem num nem noutro.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj0Gwsd8DhhF5XRAOb3qomZBaWBy5IFbKO_rYBsC5r9RtV97yEyrzyv7VaQUnjihWyvuavrcJxuG3lVXk1sgPAgnTkff_PiXsKTpfBCibIxc_3jJHwYDOs-d2DWuKwmYz-ScL3CVlzSYSknQ8fI0EruuzIneclS_t88vlhk7UZRMDuUdbeX-Xr6MIQqONo/s1600/images.jpg


        – Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

        – Eu não tenho sido companheiro para você?

        – Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

        – Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

        – Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

        – Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

        – Continuo no partido, doutor...

        – Como? Você não vota conosco...

        – Mas não voto no outro.

        – É o mesmo.

        – Não é doutor.

        – É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso, não é?

        – É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

        – Que foi que deu em você?

        – Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

        – Ouço, mas você não demora muito.

        – Não demoro não senhor.

        – Conte lá a história.

        – Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

        – Daí?

        – Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – pre­ciso cuidado. Não é doutor?

        – Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

        – Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

        – Vamos adiante.

        – Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

        – Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

        – Conheço. É um homem muito inteligente...

        – A maior glória do Brasil.

        – É um grande talento.

        – É um gênio.

        – Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

        – Porque?

        – Pode ser caprichoso, implicante ...

        – Ora!

        – Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

        – Não é bem isso...

        – Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

        – Não digo que ele seja...

        – E o Epitácio?

        – Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

        – Mas não é o Rui.

        – Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

        – Mas porque você não vota nele?

        – Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

        – Você não pensava assim – não é?

        – É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

        – Faz mal. O partido...

        – Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

        – Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

        – Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

        – Quem é?

        – É o doutor.

        – Eu?

        – Sim, é o senhor.

        – Mas, eu mesmo? Ora...

        – É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

        – De forma que você...

        – Voto no senhor, para presidente da república.

        – É voto perdido...

        – Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

        – Chega Felício.

        – Não é isso?

        – É, mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

        – Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

        – Você está com teorias estranhas, subversivas...

        – Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

        – Mas... já sou deputado.

        – Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

        – Não preciso, já ganho na clínica muito.

        – Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

        – Para nada.

        – Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho, Rio, 1-4-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o conflito principal estabelecido no diálogo entre o "doutor" (chefe político) e o seu eleitor, Felício?

      O conflito surge do fato de Felício decidir não votar nos candidatos oficiais indicados pelo partido para a presidência (Rui Barbosa e Epitácio Pessoa). O chefe político enxerga essa decisão como um ato de insubordinação partidária e rompimento de fidelidade ("quem não é por mim é contra mim"). Por outro lado, Felício argumenta que sua decisão se baseia em uma busca por coerência moral e na sua própria consciência, desafiando a lógica tradicional do voto cabresto e da disciplina cega do partido.

 

02 – Como a crônica retrata as práticas do clientelismo e do coronelismo da Primeira República no Brasil?

      A crônica evidencia o clientelismo por meio das alusões às trocas de favores entre o "doutor" e Felício. O chefe político lembra ao eleitor a ajuda prestada em momentos difíceis (atendimento médico da esposa, custos do enterro do filho e indicação para o emprego público). Em contrapartida, esperava-se a obediência cega no momento do voto. O chefe encara o voto não como um direito de escolha cívica do eleitor, mas como uma obrigação de retribuição ou subserviência partidária.

 

03 – Qual é a lógica utilizada por Felício para recusar o voto nos candidatos renomados como Rui Barbosa e Epitácio Pessoa?

      Felício argumenta que o Presidente da República exercerá um enorme poder direto sobre a vida do cidadão e de sua família. Para ele, inteligência ou reputação nacional (atributos de Rui e Epitácio) não garantem que esses líderes conheçam ou respeitem o eleitor comum. Felício defende que só deveria votar em alguém de cujo caráter e comportamento íntimo ele tivesse conhecimento direto e pessoal. Como não conhece os candidatos nacionais "de perto", prefere não lhes dar tal poder.

 

04 – Qual é a ironia contida na decisão de Felício em votar no próprio "doutor" para Presidente da República?

      A ironia reside no fato de Felício usar a própria retórica do partido ("obedecendo o dever de todo republicano de consultar sua consciência") e sua gratidão pessoal para votar em seu chefe local. Embora Felício acredite estar sendo plenamente coerente e gratificado, do ponto de vista do sistema político o seu voto no "doutor" é considerado um "voto perdido", já que o chefe não é candidato ao cargo. O gesto de Felício desarma o político, revelando que a lógica puramente formal do discurso partidário contraria o sentido prático cobrado nas urnas.

 

05 – De que forma o chefe político reage à autonomia de pensamento de Felício e o que essa reação revela sobre o sistema eleitoral da época?

      O chefe político reage com estranhamento e acusa Felício de estar "indisciplinado" e adotando "teorias estranhas, subversivas" simplesmente porque o eleitor começou a pensar por conta própria. Essa reação revela que, na Primeira República, a autonomia e o exercício crítico da cidadania por parte das classes populares eram vistos pelas elites políticas como uma ameaça ou uma anomalia, já que a manutenção do poder dependia do controle rígido sobre a massa votante.

 

06 – Como a frase final de Felício — "Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres..." — sintetiza a visão do cidadão comum sobre a política institucional?

      A frase expressa o perplexo distanciamento do cidadão humilde em relação às contradições e negociatas da política profissional. Felício percebe que a política não opera com base na lógica moral ordinária ou na transparência, mas em um conjunto de dogmas, rituais e interesses ocultos (à semelhança dos "mistérios da religião") que fogem à compreensão das pessoas comuns e servem apenas para manter as elites no poder.

 

07 – Análise o papel da linguagem e do tom na crônica de Lima Barreto para a construção da crítica social.

      Lima Barreto utiliza um diálogo dinâmico e coloquial para contrapor dois mundos: o da política formal e burocrática (representado pelo "doutor") e o da vida concreta e do bom senso popular (representado por Felício). O tom predominantemente irônico e bem-humorado desconstrói as pretensões da elite política da época, mostrando como a pretensa racionalidade do sistema eleitoral da Primeira República era, na verdade, pautada por contradições, interesses pessoais e ausência de verdadeira representatividade democrática.

 

 

CRÔNICA: A REVOLTA DO MAR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A revolta do mar

           Lima Barreto

 

        A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda a vida. É assim o Mar um deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o meio mais eficaz de comunicação entre os povos.

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        Vence-se mais facilmente a mesma distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das grandes audácias e dos grandes audaciosos.

        O Mar é um deus ou um semideus.

        Como tal, tem merecido desde os tempos homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da Terra, a maior delas. Ainda agora recebo um livro de poesias – Asas no azul – de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o monstro:

 

ÂNSIA DO MAR

Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.

 

Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste…

 

E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.

 

À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.

 

        Mas, os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O Mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas “cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.

        De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio para aí e daí não passarás.

        Tais homens, porém, embotados pela sede de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o Mar por si só não fosse Beleza.

        No começo, entraram por ele adentro com timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham, porque não entraram no mistério das Cousas. Tomaram-se de audácia e foram levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.

        O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado.

Publicado originalmente na revista Careta, 23 de julho de 1921.

 

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o evento que motiva a reflexão de Lima Barreto na crônica "A revolta do mar"?

      O ponto de partida da crônica é uma forte ressaca marítima que atingiu e destruiu trechos da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. A partir desse desastre natural, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre a relação entre o progresso urbano, a exploração financeira e o desrespeito às forças da natureza.

 

02 – De que maneira o autor personifica e diviniza o mar no início do texto?

      Lima Barreto retrata o mar como um "deus ou semideus tutelar da nossa espécie", atribuindo-lhe papel fundamental na origem da vida e na integração entre as civilizações. O cronista ressalta sua grandeza, mistério e beleza, lembrando que o oceano é celebrado por poetas desde a Antiguidade homérica como a maior maravilha da Terra.

 

03 – Qual é a função da inclusão do soneto "Ânsia do Mar", de Mário José de Almeida, na estrutura da crônica?

      A citação do soneto serve para contrastar a dimensão poética, sublime e respeitosa com que a arte enxerga o mar em oposição à visão utilitarista e insensível dos "homens de negócios". A poesia reforça a ideia do mar como uma força viva e cheia de sentimentos ("queixume", "ânsia", "esperança"), preparando o terreno para a crítica aos que o veem apenas como objeto de exploração.

 

04 – Como Lima Barreto caracteriza os responsáveis pelas obras de aterro e expansão urbana na Beira-Mar?

      O cronista caracteriza esses indivíduos de forma pejorativa como "grosseiros homens do nosso tempo", formados nos bastidores do capital financeiro ("City londrina" e "Wall Street"). Ele os descreve como gananciosos, insensíveis à beleza natural e movidos unicamente pelo desejo de lucro, "cavações" e gratificações concedidas pelos grandes banqueiros.

 

05 – Qual é o verdadeiro motivo, segundo o cronista, por trás das obras apresentadas como "melhoramentos e embelezamentos" urbanos?

      Segundo o autor, a justificativa oficial de criar "belos passeios" e promover o embelezamento da cidade era apenas um pretexto superficial. A real motivação do empreendimento era financeira: enriquecer especuladores, empreiteiros e banqueiros por meio do aterro e do estrangulamento do espaço marítimo.

 

06 – Como o autor explica a reação violenta do mar contra as intervenções humanas?

      O mar é apresentado como uma entidade que estabelece limites claros à terra. Diante da insistência dos homens em ignorar seus avisos iniciais e cobri-lo de lama para fins comerciais, o oceano reage com fúria. A ressaca que devasta a Avenida Beira-Mar é retratada como um ato de resposta e "revolta", no qual a natureza devolve à terra a lama com que foi agredida.

 

07 – Qual é a crítica central da crônica em relação à postura da sociedade moderna frente à natureza?

      A crítica central reside na denúncia da arrogância e do materialismo da civilização moderna, que tenta subjugar as forças naturais em nome do lucro imediato e da especulação imobiliária. Lima Barreto alerta que a falta de sensibilidade para compreender o "mistério das coisas" e o desrespeito aos limites do meio ambiente resultam inevitavelmente em tragédias e na reação destrutiva da própria natureza.

 

CRÔNICA: COM O LIRÓ - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COM O LIRÓ

            Lima Barreto

 

        Ultimamente só tenho nas minhas estrebarias um único animal: é a égua Scherazade. Antigamente, porém, isto é, há uns anos passados, havia nela, além dos animais de tiro, mais dois de sela: a Elisabeth e o Zadig. Scherazade é uma linda égua negra de meio sangue, com grandes olhos e porte altivo. Comprei-a ao conhecido criador e cronista esportivo Brioni Júnior por dez contos de reis, no que fiz bom negócio. Elisabeth era uma linda peça de um pelo alazão, liso e brilhante; era de um quarto de sangue. O Zadig não tinha sangue algum.

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        Por causa deles, vim a conhecer o Liró, meu vizinho, funcionário público, também amador de animais; mas ao jeito da terra. Ele só gosta de animais nacionais – crioulos; e dessas nossas selas rebarbativas, cheias de pelegos e anteparos, e dos nossos arreios faiscantes de prata.

        Habitualmente, passeamos a cavalo, pela manhã, pelos arredores das nossas casas. Uma manhã destas brumosas e frias, saímos nós a dar uma volta nas nossas alimárias. Ele, no Caboclo – um “pampa” marchador que devia ser magnífico, se não estivesse ao lado da soberbia da minha Scherazade. Era uma manhã feia, úmida e nublada. O Rio, cheio de Sol e luz, é uma alegria; mas, como estava naquela manhã, é uma sepultura.

        Seguimos o nosso destino que era ir até a cachoeira dos Urubus, na Boca do Mato. O subúrbio, em geral, é feio; mas, a parte que entesta com a montanha, tem trechos surpreen­dentes. Fomos e íamos conversando. Eu lhe contava histó­rias de cavalos célebres, do famoso Bayard, do paladino Ro­lando, do Bucéfalo de Alexandre; do Rocinante de d. Quixote, etc., etc. Pareceu-me, entretanto, que ele não me ouvia com atenção a conversa. Perguntei-lhe:

        – Liró, em que pensas?

        Nós atravessamos um resto de capoeira em que as raras árvores eram enriquecidas de verdura pela folhagem dos cipós abundantes.

        Ao ouvir a minha pergunta, Liró sobressaltou-se e logo disse:

        – Nesse negócio de candidaturas.

        – Tens interesse em algum dos candidatos?

        – Nenhum.

        – Então porque pensas nesse desinteressante negócio?

        – Porque dizem que o novo presidente vai demitir em massa os funcionários públicos.

        – Estás doido, Liró! Ele não fará isso...

        – Porque?

        – Porque não há Estado sem um grande corpo de funcio­nários.

        Desde o Império Romano até o Britânico que se tem verificado que a existência do Estado supõe a de uma chusma de funcionários.      Ainda mais: o duque Audiffret-Pasquier disse até: “Morrem os impérios, nascem as repúblicas; mas as se­cretarias ficam”. Deve ser isto mais ou menos. O que, po­rém, ressalta do pensamento do duque, sejam quais forem as suas palavras, é essa capacidade da burocracia, em atravessar regimes diversos, com uma inalterabilidade que lhe dá o aspecto de um verdadeiro fenômeno natural.

        – Dizem também que ele quer acabar com a aposentadoria. E possível?

        – Liró: a aposentadoria é coisa constitucional. Para que ele acabasse com a aposentadoria, teria que violar a Constituição. O Senhor Bernardes, por mais capaz, não terá esse to­pete. Ele é mineiro e não mete mão em cumbuca. Irá para o Catete, se for; aparará mais os seus fraques, aumentará o número dos seus pince-nez e assinará decretos de... nomea­ções.

        – Irá mesmo? Ou será o Nilo?

        Ia dizer “não sei”, quando um porco, subitamente, atravessou na nossa frente, de um lado para outro da estrada.

        Nossos cavalos se espantaram. Liró foi ao chão; eu, porém, fiquei firme na sela.

        Depois que Liró recavalgou, eu lhe disse:

        – Vê tu como são as coisas. Montas muito melhor do que eu. Tua sela, à mexicana, é cheia de segurança no arção e no sant’antônio. Entretanto, tu foste ao chão e eu fiquei em cima da Scherazade. Como é isto?

        – Não sabes de uma coisa que o povo diz por aí: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga.

Careta, Rio, 23-7-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Como a crônica contrapõe o perfil do narrador ao de seu vizinho Liró no que diz respeito à montaria e aos hábitos de passeio?

      O narrador possui uma inclinação mais cosmopolita e literária, montando uma égua de meio-sangue negra (Scherazade) e citando montarias históricas e mitológicas ao longo do trajeto. Já Liró é retratado como um apreciador das tradições locais: é funcionário público, prefere cavalos crioulos nacionais (como seu pampa Caboclo) e utiliza selas rebarbativas ornamentadas com pelegos e prata ao estilo tradicional do país.

 

 

02 – Qual é o motivo da preocupação de Liró durante o passeio e de que forma o narrador busca tranquilizá-lo?

      Liró demonstra apreensão em relação às disputas presidenciais por conta do boato de que o futuro presidente demitiria os funcionários públicos em massa e extinguiria as aposentadorias. O narrador o tranquiliza recorrendo à história e à teoria política, citando a célebre máxima do Duque Audiffret-Pasquier de que as repúblicas e impérios passam, mas a burocracia das secretarias permanece inalterada como uma força permanente do Estado.

 

03 – De que maneira o narrador caracteriza a figura do candidato Arthur Bernardes e sua relação com a Constituição?

      O cronista ironiza o perfil cauteloso do político mineiro Arthur Bernardes, afirmando que ele jamais violaria a Constituição para extinguir a aposentadoria por ser um homem prudente que "não mete a mão em cumbuca". Com humor, o autor prevê que, caso assumisse o Palácio do Catete, Bernardes se limitaria a ajustar a vestimenta, usar seus pince-nez e assinar decretos ordinários de nomeação.

 

04 – Qual incidente interrompe a conversa política dos cavaleiros e quais foram as suas consequências imediatas?

      A discussão sobre a eleição entre Bernardes e Nilo Peçanha é bruscamente interrompida quando um porco cruza a estrada na frente dos animais. O susto faz com que os cavalos se espantem, arremessando Liró ao chão, enquanto o narrador consegue se manter firme sobre a sela de sua égua Scherazade.

 

05 – Qual é a ironia contida na queda de Liró e como ele justifica o acontecimento?

      A ironia reside no fato de Liró ser um cavaleiro muito mais experiente do que o narrador e utilizar uma sela no estilo mexicano, projetada para dar maior firmeza e segurança ao montador. Diante do paradoxo de ter caído mesmo sendo superior na arte da montaria, Liró recorre ao saber popular e encerra o debate citando o ditado: "mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga".