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domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: A LÓGICA DO MALUCO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A lógica do maluco

            Lima Barreto 

 

        Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlf6iFS6ScvVksA7Ry9450NqHDBYg0GANK56G8KL6jc3AZ0L0PXvdoG9ixpAXLaAhMkUk4zHI18ORhxoWwELvdT5WnbJyM1uIEoLOqg7gnsCKGrwIEZx0LoKnQU0v7D_TwNHtpwDBH9tLUeVsmKxBD6f8pi7BuIKLj1754A7boUPTH_CFb_LoLEg6ZJcw/s320/images.jpg


        Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...

        A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que ne­la têm assento.

        O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.

        Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.

        O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:

        – Então, o que há, doutor?

        O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sen­tou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:

        – Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.

        – Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?

        – É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vi­tória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

        – Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.

        – Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.

        – Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.

        – Como?

        – Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?

        – Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...

        – Mas, você...

        – Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.

         Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o do­ente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:

        – Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor ju­rídico.

Careta, Rio, 8-10-1921.

Entendendo a crônica:

01 – O que torna o doente internado no Hospital Nacional de Alienados uma figura atípica entre os demais pacientes, segundo a narrativa?

      O doente destaca-se não pela gravidade ou estranheza de sua enfermidade mental — descrita como uma mania simples —, mas pelo seu nível de instrução, boa educação e cultura. Ele era bacharel (embora preferisse o título de "capitão") e pertencia à Academia de Letras da Vitória, no Espírito Santo, na condição de "membro extraordinário" ou "de fora".

 

02 – Como Lima Barreto ironiza a instituição da vaga de "membro extraordinário" na Academia de Letras da Vitória?

      Embora brinque com o fato de o título lembrar "coisas de bebês e cueiros", o cronista elogia satiricamente o mecanismo. Ele argumenta que a existência de uma fila de espera predefinida traz efeitos práticos positivos ao ambiente político-literário, pois evita arranjos de última hora, campanhas de promoção pessoal ("mandar organizar um livro às pressas") e as habituais baixezas das eleições acadêmicas.

 

03 – Qual foi o gatilho desencadeador da loucura do internado e como o médico buscou tratar o problema do paciente?

      O rapaz enlouqueceu ao ler a obra Comentários à Constituição, do jurista Carlos Maximiliano. Para atenuar o quadro, o médico Dr. Gotuzzo recolheu o texto de Maximiliano e o substituiu pela obra do jurista João Barbalho, o que gerou uma melhora expressiva no estado mental do paciente.

 

04 – Qual era a solicitação do interno ao Dr. Gotuzzo e de que maneira o médico tentou demovê-lo da ideia?

      O paciente solicitou permissão para conversar pessoalmente com o diretor do hospital, Dr. Juliano Moreira, a fim de conseguir autorização para buscar um emprego público por meio de sua influência com o senador Marcílio de Lacerda. O Dr. Gotuzzo argumentou contra a ideia lembrando que ele era um doente sob interdição judicial formal movida por sua família, o que o impossibilitaria legalmente de assumir tais funções.

 

05 – Qual foi o raciocínio dedutivo empregado pelo paciente para defender seu direito de ingressar no funcionalismo público?

      O paciente construiu um silogismo baseado no texto constitucional: argumentou que, segundo a Magna Carta, "os cargos públicos civis ou militares são acessíveis a todos os brasileiros"; sendo ele brasileiro, teria direito ao cargo. Ao ser lembrado de sua condição de interditado, equiparou sua situação jurídica à de outros grupos incapacitados civilmente (como mulheres e menores), pontuando que, se estes já ocupavam posições públicas, ele também poderia.

 

06 – Como o psiquiatra Juliano Moreira reagiu ao pedido do doente e qual foi a solução elegante adotada por ele?

      O Dr. Juliano Moreira acolheu o interno com calmaria, doçura e escuta atenta. Para contornar a insistência do paciente sem contrariar frontalmente sua lógica ou desencadear um surto, respondeu que não poderia conceder a licença de imediato porque precisaria antes consultar o parecer técnico de um "notável consultor jurídico".

 

07 – De que modo a crônica expõe a contradição do arcabouço jurídico e das regras institucionais brasileiras do período?

      Lima Barreto usa a pretensa "loucura" do protagonista para expor incoerências do Direito e da burocracia do país. A capacidade do paciente de articular a Constituição com rigor lógico demonstra que a aplicação das leis na sociedade muitas vezes carece de coerência real: regras formais excluem sujeitos plenos enquanto interpretações casuísticas abrem brechas institucionais, tornando a fronteira entre a razão jurídica e o delírio extremamente tênue.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: O CONDE E O VISCONDE: DOIS GENEROSOS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O conde e o Visconde; Dois generosos

             Lima Barreto

 

        Jamais, desde aqueles memoráveis dias em que, na minha meninice, estudei história, deixei de me lembrar daquela ateniense que votava pelo ostracismo (banimento) de Aristides porque estava cansado de ouvir chamá-lo de justo.

        Muito depois de aprovado, ainda ia procurar o meu João Ribeiro, História Antiga (Oriente e Grécia), para lá ler a ane­dota histórica. Eis como o sábio professor a narra:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigY4SF_c50dMW1lr2ZqS5HHVXJPnaekmEnbq1SZ1fWxYharclifwO4J5OH7HhkMvpy4L4AuRkipIdnvby7RANTQ3bfeqF9mQnQbx2XL7UZa92fNDGTalRVcQryPuPczagcHFS-WueSj5tn_kb_npQlyHJebxq6kfuVCtBHrnD4ITuX7FBhvw46LlHSNE0/s320/images.jpg


        “Conta-se que durante a votação popular (para o banimento) um cidadão que não sabia ler nem escrever, pediu ao próprio Aristides, a quem não conhecia, que escrevesse o seu voto. – Mas, Aristides ofendeu-te? – Não, replicou o votante. Mas estou cansado de ouvir chamá-lo de justo.”

        Muitas coisas graves, interessantes e pitorescas andei aprendendo; mas, de todas elas, uma das que mais profun­damente ficou-me gravada no cérebro foi essa anedota.

        Quando vejo por aí toda a gente a dizer que fulano é justo, é sério, é virtuoso, é santo, não fico cansado para bem dizer, mas espero um dia para apea-lo do nicho e, se for ainda capaz de arrependimento, faze-lo ajoelhar-se e penitenciar-se da sua “homenagem à virtude” (vide La Rochefoucauld).

        Há nesta cidade dois homens conhecidíssimos por muitos motivos, um dos quais não é certamente as grandes fortunas de que são possuidores. Um é o conde da Pátena e o outro é o visconde de Loques. Um, é político brasileiro; o outro, não o é nem português, por economia.

        Ambos são tidos como homens de grande coração, genero­síssimos.

        Antigamente, não entrava ninguém num veículo que não ouvisse, a um canto, dizerem:

        – Oh! O Pátena! Aquilo sim é que é homem! Ele olha para a pobreza; ele atende aos pequeninos. Veja você só! Quando ele esteve na construção do túnel daqui para Niterói, quanta gente ele empregou? Era só chegar a ele e pedir.

        – Mas, Castrioto, a verba estourou e muita gente ainda está para receber dinheiro.

        – Que tem isto? Ele, ao menos empregava... O doutor Pátena não sabe dizer “não”. É um coração!

        – De fato – eu observei – quando o conde Pátena se põe à testa de um importante serviço público, as verbas não chegam nunca para pagar empregados e para faire marcher l’argent, até às algibeiras dos camaradas. É um mãos-abertas... Torna-se logo suntuosamente generoso com o dinheiro dos... cofres públicos. Os amigos do peito, arruinados ou pobres de origem, enriquecem em meses; e não há pobre-diabo que não consiga, quando Pátena está na ponta, arranjar com ele um emprego em que ganhe seis mil-réis por dia, para “engabelamento” da sua miséria, durante seis meses.

        Um outro milionário que gozava de igual fama, era o visconde de Loques. É uma figura curiosa. Os seus começos mo­destos, mesmo humildes, deram-lhe o hábito de usar um único fraque até esfarelar-se. Há uma anedota, naturalmente fan­tástica, que diz não ser permitido no Banco de Inglaterra espanarem-se as teias de aranha. Elas são a felicidade da casa...

        O visconde só muda de fraque quando este chega a fiapos. É tradição e segurança, de sua fortuna e prosperidade. Ele tem meia centena de milhares de contos; mas não com­pra dois fraques...

A fama no seu bom coração corria a cidade. Havia uma porção de anedotas a tal respeito.

        De manhã, diziam, o visconde quando chega de Paquetá, só na ponte das Barcas distribui mais de cem mil-réis de esmolas. E isto todos os dias!

        Certa manhã, depois de ter notivagado a noite, fui apreciar o espetáculo.

        Pus-me ao lado e talvez com a secreta vontade de lhe pedir também uma espórtula. Juvenal subia o Esquilino, pe­la manhã, embrulhado em trapos, curtindo frio, para mendigar alguns sestércios aos poderosos senadores de Roma...

        Fui apreciar, dizia eu, o espetáculo. Lá estavam a postos os clientes do visconde. Eram vinte ou trinta.

        Havia de tudo: um resumo do nosso povoamento.

        Ei-lo que chega. Atravessa verdadeiramente por uma ala. Dá uma moeda pra cá, dá outra pra lá; e vai-se.

        Aproximam-se do lugar onde estou, dois clientes do visconde.

        Pergunta um ao outro:

        – Quanto ele te deu?

        – Um cruzado. E a ti?

        – Duzentos réis. Foste mais feliz do que eu.

        Calcule. Na média, trezentos réis a cada um; são trinta, no máximo: logo – nove mil-réis. Eis aí em que ficaram os cem mil-réis diários!

        Ainda assim havia mais generosidade no visconde que no conde. Aqueles nove mil-réis eram dele, do seu bolso; e a magnificência do conde era à custa alheia, à custa do país.

        Passaram-se anos; os aluguéis de casa sobem pavorosamente e só ouço, nos trens, nos bondes, nos cafés, queixas contra os senhorios, principalmente contra o visconde e o conde que são grandes, senão os maiores proprietários na cida­de:

        – Você já viu?

        – O que?

        – Aquele sorna do visconde, logo de assentada, aumentou-me o valor do aluguel de um terço – veja você só.

        – Ué! Dizem que ele é tão bom de coração...

        – Vá atrás dele!

        Mais adiante escuto:

        – Não voto mais nesse malvado.

        – Em quem?

        – No Pátena.

        – Porque?

        – Aumentou de repente o aluguel de minha casa de quarenta por cento.

        – É coisa! Entretanto, ele é bom...

        – Pro fogo!

        Diante disto, continuo ainda a lembrar-me daquele ateniense que bania Aristides por estar cansado de ouvir chama-lo de justo. Há muito tempo, já teria eu banido esse visconde e esse conde, por estar cansado de ouvir chamá-los de generosos. E eu tinha razão, como estão vendo.

Careta, Rio, 6-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a anedota histórica sobre o ostracismo de Aristides citada por Lima Barreto e qual o seu papel no tema central da crônica?

      O cronista relembra o episódio grego em que um cidadão analfabeto pede ao próprio Aristides que escreva seu voto para bani-lo de Atenas, simplesmente porque estava cansado de ouvir todos o chamarem de "o Justo". Lima Barreto utiliza essa anedota para ilustrar seu ceticismo em relação às virtudes e reputações impecáveis atribuídas publicamente às pessoas, servindo de gancho para questionar a fama de "generosos" que o Conde da Pátena e o Visconde de Loques ostentavam na sociedade.

 

02 – Como é caracterizada a suposta generosidade do Conde da Pátena e qual é a crítica de Lima Barreto a essa conduta?

      O Conde da Pátena era visto pelo público como um homem de grande coração por dar empregos a amigos e necessitados sempre que liderava grandes obras públicas. O autor desmascara essa benevolência ao demonstrar que ela era exercida à custa dos cofres públicos: as verbas estouravam, as contas ficavam sem pagar e os amigos enriqueciam rapidamente. Trata-se de uma crítica ao fisiologismo e à falsa caridade feita com o dinheiro do Estado.

 

03 – Quais são as peculiaridades da figura do Visconde de Loques descritas no texto e qual era o mito em torno de sua caridade diária?

      O Visconde de Loques é retratado como um homem de origem humilde e dono de enorme fortuna, mas com hábitos de extrema pão-durice — como o de vestir o mesmo fraque até virar fiapos por superstição. A fama popular dizia que ele distribuía diariamente mais de cem mil-réis em esmolas para os pobres na ponte das barcas de Paquetá ao desembarcar na cidade.

 

04 – O que o cronista constatou pessoalmente ao presenciar a distribuição de esmolas pelo Visconde de Loques?

      Ao acompanhar o ritual de perto, o narrador ouviu a conversa entre dois beneficiados e descobriu que o Visconde dava quantias irrisórias (como 200 ou 400 réis), totalizando cerca de nove mil-réis para o grupo de trinta mendigos. O autor expõe o abismo entre a realidade da esmola e o boato popular, que multiplicava o valor doado por mais de dez vezes.

 

05 – Qual a comparação que o autor faz entre as "generosidades" do Conde da Pátena e do Visconde de Loques?

      Lima Barreto conclui que, apesar de insignificante, a caridade do Visconde de Loques continha mais mérito real do que a do Conde da Pátena. A razão é que as moedas distribuídas pelo Visconde saíam do seu próprio bolso, enquanto a magnificência do Conde era custeada pelo Tesouro e com prejuízo para o país.

 

06 – Que evento posterior revelou a verdadeira face econômica dos dois aristocratas e transformou a opinião pública sobre eles?

      A alta avassaladora dos aluguéis na cidade expôs a ambição dos dois titulares, que figuravam entre os maiores proprietários de imóveis do Rio de Janeiro. Ao reajustarem os aluguéis de seus inquilinos em taxas abusivas (de um terço a 40%), ambos provocaram a revolta da população nos bondes e trens, desfazendo a ilusão da caridade e revelando a busca gananciosa pelo lucro.

 

07 – Como a metáfora final do banimento de Aristides é retomada para sintetizar a crítica social de Lima Barreto?

      No desfecho, o autor reafirma a validade do seu ceticismo inicial ao declarar que há muito tempo já teria "banido" o Conde e o Visconde pelo simples cansaço de ouví-los aclamados como generosos. A derrocada da boa fama dos dois personagens comprova a tese do cronista de que as reputações virtuosas construídas na esfera pública frequentemente escondem hipocrisia, interesses pessoais ou exploração.

 

 

 

 

CRÔNICA: AS TEIXEIRAS E O FUTEBOL - FRAGMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: As Teixeiras e o futebol – Fragmento

            Rubem Braga

        Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv1aLKEt_cLMG0A6WVl56iGdKxbOpbD0GDmbq7cCIfJjR1Qv06Hun01jlHBfKPcjw6P2zK9a8OQvb1WDCbxxJt2bsU4NdvXQhsRTD7ArZ4wrKlNf5Z6HxsBB0SJ-8FqQsPm66YrImK2fQIUCcxwD5KGRa0ZD2ClFxWuC_f_LKElXHCbe17974S51aJYA8/s320/images.jpg


        Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

        Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir novas observações.

        Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.

        “Então por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.

        “Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos a nossa partida.

        As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”. 

        Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor do nosso time!

        [...]

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 31.

Entendendo a crônica:

01 – De que forma a atitude dos pais do narrador contrasta com o discurso público que a mãe adotava diante das vizinhas (as Teixeiras)?

      A mãe adotava uma postura formalmente compreensiva diante das vizinhas, fingindo dar-lhes razão e concordando que os meninos estavam "impossíveis" para manter a boa convivência na vizinhança. No entanto, internamente, o narrador percebe que essa atitude era apenas superficial ("sem convicção"), pois em casa a mãe criticava as irmãs mais antipáticas e defendia os filhos. No fim, o narrador conclui emotivamente que tanto a mãe quanto o pai sempre foram, no fundo, a favor do time dos meninos.

02 – Como os meninos rebatiam as sugestões da vizinha Teixeira mais cordial para mudar o local da partida de futebol, e quais foram os argumentos utilizados por eles?

      Os meninos rebatem as propostas usando desculpas estratégicas e sinceras. Quando a vizinha sugere jogar mais para baixo, o Juquinha inventa que lá mora a "Dona Constança doente", apelando para uma justificativa moral e de compaixão. Quando a vizinha sugere jogar mais para cima, eles recorrem a um argumento técnico: "lá o campo não presta". Com isso, conseguem desarmar as tentativas da vizinha de retirá-los dali.

03 – Qual foi a reação do pai das Teixeiras (o "coronel de bigodes brancos") ao ouvir as queixas da filha sobre a bagunça dos meninos, e de que forma os garotos interpretaram essa conduta?

      O coronel ouviu as reclamações da filha em silêncio e entrou em casa calado, sem olhar para os meninos ou dar qualquer importância à reclamação. Os garotos interpretaram o silêncio do velho como um gesto de autoridade, superioridade e moderação, passando a vê-lo como uma "pessoa realmente importante e um homem direito", o que lhes deu validação para continuar a partida.

04 – No texto, há uma transição de tom narrativo no último parágrafo. Explique qual é essa mudança e o efeito emocional produzido no leitor/narrador.

      O texto transita do tom cômico, nostálgico e bem-humorado da infância para um tom lírico e melancólico no trecho entre parênteses do último parágrafo. Ao lembrar que tanto o time de futebol quanto seus pais já faleceram ("hoje, que o time e eles dois morreram"), a memória da infância ganha um peso emocional profundo, provocando no narrador adulto um "ardor de lágrimas nos olhos" diante da saudade e do afeto familiar relembrado.

05 – O uso das palavras "meninos desobedientes" e "moleques" gera reações diferentes nos garotos. O que a palavra "moleque" representava para eles e como reagiram a essa ofensa?

      Enquanto "meninos desobedientes" era aceito como uma repreensão comum, a palavra "moleque" era vista pelos garotos como uma ofensa grave à sua classe ou conduta moral. A reação dos meninos foi de indignação e confronto direto, como demonstrado pelo personagem Chico ao rebater da janela: "Moleque é a senhora

CRÔNICA: OS TEIXEIRAS MORAVAM EM FRENTE - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Os Teixeiras moravam em frente

            Rubem Braga

        Para não dar nome certo digamos assim: os Teixeiras moravam quase defronte lá de casa.

        Não tínhamos nada contra eles: o velho, de bigodes brancos, era sério e cordial e às vezes até nos cumprimentava com deferência. O outro homem da casa tinha uma voz grossa e alta, mas nunca interferiu em nossa vida, e passava a maior parte do tempo em uma fazenda fora da cidade; além disso seu jeito de valentão nos agradava, porque ele torcia para o mesmo time que nós.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2MY-d32tuKnRG0X0tlOuNUzZG4iOPWCNJzPZIcrxW6mJNrou4m0tu6toJCkvO4nfEWubZw1IKM5Aqw4xy4IN-IYrKdFu-BRH_0B1vTytGd_nIYigFTcVTqOuUzVCHjOKawjWT0oMG4MONp8wNYD4VsRh-TFujqp9druE0-HDpDvugGHBIEK7FPdGMml4/s320/images.jpg


        Mas havia as Teixeiras. Quantas eram, oito ou vinte, as irmãs Teixeira? Sei que era uma casa térrea muito, muito longa, cheia de janelas que davam para rua, e em cada janela havia sempre uma Teixeira espiando. Havia umas que eram boazinhas, mas em conjunto as irmãs Teixeiras eram nossas inimigas, acho que principalmente as mais velhas e mais magras.

        As Teixeiras tinham um pecado fundamental: elas não compreendiam que em uma cidade estrangulada entre morros, nós, a infância, teríamos de andar muito para arranjar um campo de futebol; e, portanto, o nosso campo natural para chutar uma bola de borracha ou de meia era a rua mesmo.

        Jogávamos descalços, a rua era calçada de pedras irregulares (só muitos anos depois vieram os paralelepípedos , e eu me lembro que os achei feios, com sua cor de granito, sem a doçura das pedras polidas entre as quais medrava o capim; e achei o nome também horroroso, insuportável, paralelepípedos, nome que o prefeito dizia com muita importância, parece que a grande glória de Cachoeiro e o progresso supremo da humanidade residia nessa palavra imensa e antipática – paralelepípedos); mas, como eu ia dizendo, a gente dava tanta topada que todos tínhamos os pés escalavrados: as plantas dos pés eram couro grosso, e as unhas curtas, grossas e tortas, principalmente do dedão e do vizinho dele. Até ainda me lembro de um pedaço do “campo” que era melhor, era do lado da extrema direita de quem jogava de baixo para cima, tinha uma pedra grande, lisa, e depois um meio metro só de terra com capim, lugar esplendido para chutar em gol ou centrar.

        Tenho horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o Rio de Janeiro contando coisas de Cachoeiro, isto é uma injustiça; a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu é bem maior. Só que nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada, às vezes tapa a tapa.

        Não consigo me lembrar se a marcação naquele tempo era em diagonal ou por zona; em todo caso a técnica do futebol era diferente, o jogo era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre, por exemplo: não era preciso ter onze jogadores de cada lado, podia ser qualquer número, e mesmo às vezes jogavam cinco contra seis pois a gente punha dois menores para equilibrar um vaca-brava maior.

        Eu disse que as partidas eram emocionantes; até hoje não compreendo como as Teixeiras jamais se entusiasmaram pelos nossos prélios. Isso foi um erro, e na semana que vem eu contarei por quê.

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 30.

Entendendo a crônica:

01 – Com base no texto, descreva como o narrador percebia a família Teixeira. Qual era a diferença entre a visão que as crianças tinham dos homens e das mulheres da casa?

      O narrador e seus amigos tinham uma relação neutra a simpática com os homens da família, enquanto viam as mulheres (as irmãs Teixeiras) como inimigas. O velho da casa era visto como sério, cordial e respeitoso; o outro homem, apesar do jeito de "valentão" e da voz alta, agradava aos meninos por torcer para o mesmo time de futebol. Já as irmãs Teixeiras, descritas como numerosas e sempre espiando pelas janelas, eram vistas como adversárias da infância, principalmente as mais velhas e magras, por não tolerarem os jogos de futebol na rua.

02 – Qual era o "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras segundo o narrador e por que, no contexto geográfico da cidade, o futebol de rua era inevitável para os meninos?

      O "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras era a falta de empatia e compreensão com as crianças da rua. Elas não entendiam a limitação geográfica do local: como a cidade de Cachoeiro era "estrangulada entre morros", os meninos teriam que andar distâncias muito longas para encontrar um campo de futebol adequado. Assim, a própria rua se tornava o único espaço natural e viável para que jogassem bola.

03 – Como o narrador descreve as condições físicas do "campo de futebol" e os impactos do jogo no corpo das crianças? Cite elementos da linguagem descritiva do autor.

      O campo de futebol era a própria rua, calçada com pedras irregulares. O jogo era bruto e cobrava um preço físico: as crianças jogavam descalças, sofriam constantemente com topadas e tinham os pés "escalavrados", com solas de couro grosso e unhas curtas, grossas e tortas. Apesar dessas condições adversas, o narrador guarda memórias afetivas detalhadas do espaço, como um trecho de pedra lisa com meio metro de terra e capim que era considerado o "lugar esplêndido para chutar em gol".

04 – No texto, o autor faz uma crítica sutil ao conceito de "progresso" ao comparar o antigo calçamento da rua com a chegada dos paralelepípedos. Explique como essa comparação revela a nostalgia do narrador pela infância.

      A chegada dos paralelepípedos é apresentada como o "progresso supremo" e a "glória" sob a ótica do prefeito da cidade, mas para o narrador criança tratava-se de algo feio, frio e antipático. O narrador preferia o calçamento antigo de pedras polidas e irregulares entre as quais nascia o capim, revelando que a visão infantil valoriza o afeto, a natureza e a organicidade do espaço brincável, enquanto a ideia de modernização/progresso dos adultos descaracterizava a doçura do ambiente de sua infância.

05 – Em tom bem-humorado e ironicamente ufanista, como o narrador compara o campo da rua de sua infância aos grandes estádios do Brasil, como o Maracanã e o Pacaembu?

      O narrador reconhece objetivamente que o Maracanã e o Pacaembu são maiores do que o campo da sua infância, mas argumenta que nenhum desses grandes estádios jamais foi tão emocionante quanto a rua onde jogavam. Segundo ele, as partidas da infância eram mais disputadas "palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada", enfatizando o caráter vivo, apaixonado e visceral do futebol de rua em comparação ao futebol formal.

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: CARTA A UM JOVEM QUE FOI ASSALTADO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 CRÔNICA: CARTA A UM JOVEM QUE FOI ASSALTADO

                    Moacyr Scliar

 

        “Foste assaltado. Bem, a primeira coisa a dizer é que isso não chega a ser um fato excepcional. Excepcional é ganhar um bom salário, acertar a loto: mas ser assaltado é uma experiência que faz parte do cotidiano de qualquer cidadão brasileiro. Os assaltantes são democráticos: não discriminam idade, nem sexo, nem cor, nem mesmo classe social – grande parte das vítimas é das vilas populares.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLssXh84qXLeZK8RDWMDxDlVptrcNnWyzz8KaH37mjZeo3L7d3jUhRvV7vlcaYylXQHCYVz_GQ0sTatbl3nNwH2aXAcPPjzY3IB_M01U5dncqgO0QRSU04h78ic3DEuuGQx1n4V9BycyOtPwk-eZ_ioSM2Ela9lBFx9WGOn_6FgPSTbMKjZE9HPKT5_Vk/s1600/images.jpg


        É claro que na hora não pensaste nisso. Ficaste chocado com a fria brutalidade com que o delinquente te ordenou que lhe entregasse a bicicleta (podia ser o tênis, a mochila, qualquer coisa).

        Entregaste e fizeste bem: outros pagaram com a vida a impaciência, a coragem ou até mesmo o medo – não poucos foram baleados pelas costas.

        Indignação foi o sentimento que te assaltou depois. Afinal, era o fruto do trabalho que o homem estava levando. Não fruto do teu trabalho – até poderia ser – mas o fruto do trabalho do teu pai, o que talvez te doeu mais.

        Ficaste imaginando o homem passando a bicicleta para o receptador, os dois satisfeitos com o bom negócio realizado. É possível que o assaltante tenha tido, nunca ganhei dinheiro tão fácil.

        E, pensando nisso, a amargura te invade o coração. Onde está o exército?  Por que não prendem essa gente?

        Deixa-me dizer-te, antes de mais nada, que a tua indignação é absolutamente justa. Não há nada que justifique o crime, nem mesmo a pobreza.

        Há muito pobre que trabalha, que luta por salários maiores, que faz o que pode para melhorar a sua vida e a vida de sua família – sem recorrer ao roubo ou ao assalto. Mas tudo que eles levam, os ladrões e os assaltantes, são coisas materiais. E enquanto estiverem levando coisas materiais, o prejuízo, ainda que grande, será só material.

        Mas não deves deixar que te levem o mais importante. E o mais importante é a tua capacidade de pensar, de entender, de raciocinar.

        Sim, é preciso se proteger contra os criminosos, mas não é preciso viver sob a égide do medo.

        Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente. Deve-se repudiar o que fazem os bandidos, mas deve-se evitar o banditismo.

        Eles te roubaram. É muito ruim, isso. Mas que te roubem só aquilo que podes substituir. Que não te roubem o coração.” 

 

SCLIAR, Moacyr. Moacyr Scliar (seleção e prefácio de Luís Augusto Fischer). São Paulo: Global, 2004. p. 267-268 (Coleção Melhores Crônicas).

 

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o primeiro parágrafo da crônica, qual é a perspectiva do autor sobre a ocorrência de assaltos no cotidiano brasileiro?

a) É um fenômeno recente que afeta apenas quem anda com objetos de grande valor.

b) É um acontecimento raro que atinge principalmente a população de alto poder aquisitivo.

c) É um fato comum que afeta pessoas de diferentes classes e idades.

d) É uma situação inevitável que decorre exclusivamente do desemprego entre os jovens.

02 – Por que o autor afirma que o jovem 'fez bem' em entregar a bicicleta ao assaltante?

a) Porque a polícia recupera com facilidade bens roubados como bicicletas.

b) Porque o valor econômico do bem roubado era insignificante para a família.

c) Porque o jovem já pretendia comprar outro transporte mais moderno.

d) Porque a reação física poderia ter resultado na perda da própria vida.

03 – Qual é o posicionamento do narrador em relação ao sentimento de indignação do jovem assaltado?

a) Acha-a preconceituosa, por associar diretamente a pobreza à criminalidade.

b) Julga-a exagerada, visto que o jovem não sofreu agressões físicas graves.

c) Entende-a como ingênua, já que o jovem deveria estar acostumado com a violência.

d) Considera-a legítima, pois a pobreza não serve de justificativa para o crime.

04 – No trecho 'Deve-se botar trancas e alarmes nas portas, não em nossa mente', qual reflexão o autor propõe?

a) As medidas de segurança residencial são ineficazes se o cidadão continuar com medo na rua.

b) Deve-se adotar precauções físicas sem permitir que o medo paralise a capacidade crítica e a sensibilidade.

c) O trauma do assalto é superado apenas com investimentos em tecnologia de vigilância.

d) A solução para a violência depende do isolamento total das pessoas em suas residências.

05 – Ao concluir a crônica recomendando 'Que não te roubem o coração', o autor expressa o desejo de que o jovem:

a) Preserve sua humanidade e não se torne ressentido ou violento como os assaltantes.

b) Esqueça completamente o bem material roubado e compre um novo imediatamente.

c) Evite frequentar locais públicos para não passar novamente pela mesma experiência.

d) Busque justiça com as próprias mãos para recuperar a paz interior.

 

 

 

 

 

 

CRÔNICA: COMO BUDISTAS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COMO BUDISTAS...

             Lima Barreto

        Tenho tanto que escrever, sobre coisas tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo, eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano, deputado federal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhT6M2J0XpLbNg85PoNjfuOwYnit5NTU42nzcT4UHyk9PMaKZf6c_1OrbcBcb31qNEs-KlygzhAgegaQzkM_Q0UIQYCcNVOcH3RglewnIdSLRxhuODhn_DuIn_qu84gcH4VGj-tyUEXGcT38a8D5vI5AQKHFXaYIvyRR_g1QIZx21y9KJRLBfoQSgLzqBk/s320/images.jpg


        Há tanta coisa tão interessante, num e noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles, mais tarde.

        O que me absorve agora o pensamento é este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que, como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da maneira mais infame que os charlatães a receitam.

        Ela pensou que seu marido fosse um homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.

        Todos nós, inclusive eu, malgré tout, estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.

        O que há nisto tudo é a combinação do nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença universal do dinheiro.

        Essa moça não se casaria com esse moço, se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.

        E ele não iria procurá-la, se não estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.

        Houve um mútuo engano. Ele procurou enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enrique­cem.

        Mas, todos os dois se esqueceram que entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.

        Entre os dois só deve haver a máxima lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da mulher, escada para subir.

        Nós temos direito de ter ambições. Eu mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande paixão – Desdêmona. O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso, transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento da sua am­bição.

        Todos esses entes são sagrados; para todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.

        Quando a gente se quer bater, tem muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.

        A vida, apesar de não poder ser uma felicidade, deve ser uma coisa heroica.

        E não há homem que tenha esse sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.

        A mulher não é instrumento de ambição; a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas des­graças.

        Já fui muitas vezes jurado; já sofri muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de dona Julieta Melilo, eu a absolveria.

        Absolvia, minha senhora, porque não gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles de­viam amor.

        Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.

José Vieira (1880-1948), jornalista, poeta, cronista e romancista paraibano. A.B.C., Rio, 31-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o cronista inicia o texto, justificando seu arrependimento por ter escolhido comentar o caso policial de São Paulo?

      O cronista inicia afirmando que tinha muitos assuntos interessantes para tratar, como o livro Sol de Portugal, de José Vieira, e um extraordinário discurso do deputado federal Ildefonso Albano. Ele confessa que se arrependeu de ter desviado sua atenção para uma notícia policial, pois preferiria estar comentando as leituras enriquecedoras que guardava para o futuro.

02 – Qual foi o fator motivador central que levou a jovem mencionada na notícia a se envolver e se casar com o homem que acabou matando?

      O fator motivador foi a ilusão social em torno de títulos acadêmicos e status financeiro. O cronista aponta que a moça, carente de experiência de vida, foi seduzida pela falsa ideia de valor associada ao "anel" de doutor e aos "pergaminhos" alardeados pelos jornais, acreditando erroneamente que o marido possuía o valor moral correspondente à sua suposta posição social.

03 – Como Lima Barreto descreve a dinâmica do relacionamento e o "mútuo engano" que ocorreu entre o marido e a esposa antes do desfecho trágico?

      Lima Barreto define a relação como um acordo pautado pela ambição e pela falsidade de expectativas. O marido buscou enganar a mulher utilizando um título acadêmico como fachada (um "caçador de dotes"), enquanto a esposa e sua família tentaram usá-lo com base na riqueza material que ele supostamente representava, esquecendo-se de que o matrimônio deveria ser fundado na lealdade e na boa-fé mútua.

04 – Qual é a crítica central que o autor faz em relação à forma como algumas pessoas utilizam os entes queridos, especialmente as mulheres?

      A crítica central repousa na rejeição veemente à instrumentalização dos afetos. O autor argumenta que um homem ambicioso não pode transformar sua mulher, sua filha ou seus amigos mais íntimos em "escada para subir" ou em instrumentos para saciar suas ambições pessoais, ressaltando que esses entes são sagrados e merecem amor e proteção incondicionais, e não exploração egoísta.

05 – Qual é a visão de Lima Barreto sobre o papel que a mulher deve ocupar na vida de um homem?

      Para o cronista, a mulher jamais deve ser tratada como um meio para atingir fins utilitaristas. Ele defende que a mulher constitui um "consolo e um conforto" diante das adversidades, dos vícios e das desgraças humanas. O autor espera encontrar na mulher uma parceira dotada de heroísmo e dignidade, enxergando o relacionamento como um refúgio de paz, e não como um campo de batalha doméstico.

06 – Qual seria a decisão de Lima Barreto caso fizesse parte do tribunal do júri responsável pelo julgamento de dona Julieta Melilo, e qual justificativa ele apresenta?

      O autor declara categoricamente que, se fosse escolhido para compor o júri de dona Julieta Melilo (a ré do caso policial), votaria por sua absolvição. Ele justifica essa posição afirmando que não nutre simpatia por indivíduos prepotentes e repletos de títulos falsos que não demonstram amor e respeito genuínos pelas esposas a quem deviam zelar.

07 – O que o autor expressa por meio da frase final "Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida" em relação ao caso narrado?

      Ao se autodenominar "budista" e evocar o "esquecimento da vida", o cronista expressa um profundo cansaço e desencanto diante das mesquinharias, ambições cegas e tragédias cotidianas da sociedade humana. Essa frase funciona como um fecho irônico e melancólico, indicando que ele prefere afastar-se mentalmente de tanta sordidez e encerrar imediatamente suas reflexões sobre aquele episódio doloroso.