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terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA: MEIO AMIGO - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Crônica: MEIO AMIGO

              José Fernandes 


        A conversa estava animada. Cada um defendia as virtudes de seu candidato com argumentos aparentemente irrefutáveis. Até aqueles candidatos que foram garis, engraxates, catadores de papel, e, hoje, são donos de mansões, castelos, bezerros de ouro, poderiam ser postos no altar, sem que o processo de canonização passasse pelos órgãos competentes. Os mais eloquentes diziam-se amigos desse ou daquele que, segundo seus valores, parecia ser o mais virtuoso. De repente, Empédocles se acorda de seu torpor schopenhaureano e vaticina:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt_4aTRqZIpOlmvPrShwexUEYnsjO0c1OCstCEXrHQWM8qvY7k63tQtpvs6Gn4dii8DDTM6fIDJMd7r3qW1Ocwu1hcCA46yKeym7jp9_TWA0gY2MJJ9pqneGrmbJQ76KIit4eappNkwvQhO92ue6gKkHrlrC9p7l7ZJHdlv3KL-Cl0ggEmoFNUTZcvsFc/s320/images.jpg


        — Em política, não há amigos. O que há são pessoas interessadas em cargos e benesses do poder. Aliás, não conheço quem realmente tem amigos. Existem necessidades que, para serem satisfeitas, requerem certos fingimentos sociais que se assemelham à amizade. Uma vez satisfeitas, o amigo fingidor se afasta, e a amizade se desfaz. 

        — Desculpe-me, Empédocles, mas, como você mesmo o disse, isso não é amizade. Para mim, ela é um sentimento profundo que leva as pessoas a se admirarem e a se respeitarem em um nível tal que ultrapassa o meramente humano. Ela é uma concórdia que não repousa, obrigatoriamente, na identidade de opiniões, mas na harmonia do semelhante e, muitas vezes, do contrário. Acima da amizade, só há o amor, que implica uma complementação que se opera em nível metafísico. O amor verdadeiro aproxima o homem dos deuses, à medida que, no ato supremo, ocorre a ultrapassagem do físico, chamado pequeno êxtase, que, na realidade, se configura como transubstanciação, mistério e enigma do bem-querer. 

        — Ora, Filófilo, você está filosofando demais! A humanidade está tão podre que não merece esta ontologia da amizade e, muito menos, do amor, que é apenas uma forma de duas pessoas se fingirem humanas! 

        — Acredito que a humanidade está como está, porque não tem sido pensada, e pensada no amor. Os indivíduos têm agido como se fossem eternos, voltados para si mesmos. Quando se é egoísta, não há lugar para a amizade e, muito menos, para o amor. O egoísta é incapaz de enxergar o outro. Enxerga apenas e unicamente o próprio umbigo. O seu mundo termina na ponta do nariz ou nos números de sua conta bancária. Por isso, ele não pode ter amigos. O egoísta é amigo de si mesmo! É um narciso que ama a própria imagem! 

        Creio que se não houver pessoas em quem pudermos confiar, a quem pudermos amar, a vida perde o sentido, porque todos os bens que a perfazem, são conservados mediante a participação do outro. Queiramos ou não, o outro, a despeito de Sartre havê-lo dito o inferno, é a razão da existência. Empédocles, você já se imaginou sozinho no universo, sem alguém que o ame, em quaisquer dos sentidos que os gregos atribuíam às relações humanas, ao ponto de haver cinco ou seis palavras para designar as diversas acepções do amor e da amizade? 

        — Eu não disse que os homens não necessitam uns dos outros! Disse que tudo não passa de jogos de interesses. Uma vez satisfeitos, não há mais razão para a amizade, uma vez que ela é inteira dependente da sinceridade, e homem, hipócrita como é, não calha com lealdade, com lhaneza. Caro Filófilo, Machado de Assis é que estava certo quando, em Memórias póstumas de Brás Cubas, no capítulo Das negativas, disse: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e um filósofo, de quem não me lembro o nome, disse que a humanidade é um mal incurável. Ora, se a humanidade não presta, essa história de amizade e amor, de fidelidade e gratidão, passa a ser história para boi dormir.

        — Empédocles, apesar de você ser inflexível, de meus argumentos lhe parecerem obsoletos, ou absurdos, para mim, o pior ato praticado por um ser humano é a ingratidão. Se alguém me tiver feito algum bem, seja ele qual for, serei sempre reconhecido. A amizade que se acaba, como já dissera Aristóteles, é aquela fundada na utilidade e no prazer. Aquela que tem por sustentáculo o bem, a gratidão e a fidelidade, dura sempre, porque traz em si um outro bem que manifesta a humanidade do homem: a verdade. 

        — Ora, Filófilo, você não tem de ser fiel a vida toda, só porque seu amigo lhe fez um favor! Você é ingênuo demais! Acredita em coisas que existem apenas em sua imaginação. Onde já se viu acreditar na humanidade?! Entre humanos só existem meias amizades! 

        — Caro Empédocles, na minha concepção, existe meio mamão, meio abacate, meio da rua, meio de campo, meio da ponte; mas meio amigo, não. Como não há meio gol, meio grávida, meio seguro, também não existe meio amigo. Ou se é amigo, ou não se é! Adjuva nos, Domine!

José Fernandes.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o estopim da discussão entre os personagens e como o cenário inicial se conecta com a tese de Empédocles?

      O debate começa com uma conversa animada sobre política, onde as pessoas defendiam fervorosamente as "virtudes" de seus candidatos (inclusive criticando o enriquecimento rápido de alguns deles). Esse cenário de exaltação política serve de gancho perfeito para Empédocles intervir, pois, para ele, a política é o maior exemplo de que as relações humanas não são movidas por afeto, mas sim por interesses egoístas, cargos e benefícios.

02 – Como Filófilo conceitua a verdadeira amizade e o amor, diferenciando-os das relações utilitaristas?

      Para Filófilo, a verdadeira amizade é um sentimento profundo de admiração e respeito mútuo que supera o nível puramente humano, operando na harmonia entre semelhantes ou contrários. O amor estaria ainda acima, funcionando em um nível metafísico de complementação ("transubstanciação"). Para ele, essas relações só existem quando se supera o egoísmo e se é capaz de enxergar o outro de forma genuína.

03 – Empédocles utiliza referências literárias e filosóficas para sustentar seu pessimismo. Quais são elas e o que defendem?

      Ele é descrito inicialmente em um "torpor schopenhaureano" (referência ao pessimismo do filósofo Arthur Schopenhauer). Mais adiante, ele cita explicitamente Machado de Assis na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, relembrando a célebre frase sobre não transmitir a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria". Ele usa essas bases para defender que a humanidade é hipócrita, incurável e que sentimentos como fidelidade e gratidão são apenas ilusões ou "histórias para boi dormir".

04 – De acordo com Filófilo, por que a humanidade chegou ao estado de "podridão" mencionado por seu colega?

      Filófilo argumenta que a humanidade está degradada porque "não tem sido pensada no amor". Segundo sua visão, as pessoas têm agido de forma puramente egoísta, como se fossem eternas e voltadas apenas para si mesmas (olhando apenas para o próprio umbigo ou conta bancária). Para ele, o egoísmo cega o homem, impedindo-o de vivenciar a amizade verdadeira.

05 – Qual contraponto Filófilo faz à famosa frase de Jean-Paul Sartre de que "o inferno são os outros"?

      Embora reconheça a perspectiva existencialista de Sartre, Filófilo defende que, queiramos ou não, "o outro é a razão da existência". Ele argumenta que a vida perde totalmente o sentido no isolamento completo, pois todos os bens e experiências que tornam a vida plena dependem obrigatoriamente da participação e do compartilhamento com o outro.

06 – Como a visão de Aristóteles sobre a amizade é utilizada no texto para mediar o conflito entre os dois debatedores?

      Filófilo cita Aristóteles para dar razão parcial a Empédocles, explicando que as amizades que realmente acabam e se desfazem são aquelas fundadas exclusivamente na "utilidade" e no "prazer" (o jogo de interesses que Empédocles tanto critica). No entanto, Filófilo usa o filósofo grego para provar que existe outro tipo de amizade: aquela baseada no bem, na gratidão e na verdade, que é eterna.

07 – Qual é o argumento final de Filófilo que justifica o título da crônica "Meio Amigo"?

      Filófilo encerra o debate rejeitando categoricamente a expressão "meia amizade" usada por Empédocles. Ele argumenta através da lógica dos absolutos: assim como existem coisas que admitem metade (meio mamão, meio de campo), existem conceitos que são binários — ou existem plenamente ou não existem. Para ele, "amigo" entra na mesma regra de "grávida" ou "gol": não existe meio termo. Ou se é amigo por inteiro, ou não se é amigo de forma alguma.

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CRÔNICA: VIAGEM DE BONDE - FRAGMENTO - RAQUEL DE QUEIROZ - COM GABARITO

 Crônica: Viagem de Bonde – Fragmento

 

        Era o Bonde Engenho de Dentro, ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, empurrando sempre encaixa. O que provou ser otimismo, porque talvez encaixasse metade ou um quarto de pessoa magra, e a alentada senhora que se guindou ao alto estribo e enfrentou a plataforma traseira junto com um bombeiro e outros amáveis soldados, dela talvez coubesse um oitavo. Assim mesmo, e isso prova bem a favor da elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMM0_5JFYIC3JxuHGRDXtASYuRFX9NAOah84EiAIpzw4hss5V-R6S4X-bloBppip4eHWY9VQ0zmJ0HDxrdZ3JueM1DpjkooEOqWSdDV-VLpHx1KOzelsJjx2lKj_kOH5whQ5rUzqBfe_ovBCion-OAKByLnTQZJCLWEYxfJm8g3YfBhJSR7XD2RE1Lshw/s320/1968-fimdosbondes.png 


E tratava de acomodar-se gingando os ombros e os quadris à direita e à esquerda, quando o bonde parou em outro poste, e o soldado repetiu o tal slogan do encaixe. E foi subindo − logo quem! − uma baiana dos seus noventa quilos ... E aquela baiana pesava seus noventa quilos mas era nua, com licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava mesmo era aos cem...

 

O Melhor da crônica brasileira. Raquel de Queiroz / Viagem de Bonde. Editora Olympio. Rio de Janeiro/1980. p. 53. 

Entendendo a crônica:

01 – O trecho que apresenta característica de humor é:

(A) “Era o Bonde Engenho de Dentro, ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, ...”

(B) “Assim mesmo, e isso prova bem a favor da elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar.”

(C) “E aquela baiana pesava seus noventa quilos mas era nua, com licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava mesmo era aos cem...”.

(D) “quando o bonde parou em outro poste, o soldado repetiu o tal slogan do encaixe.”

 

02 – O que a expressão popular “empurrando sempre encaixa” mencionada no início do texto indica sobre a situação do bonde?

(A) Que o bonde estava vazio e os passageiros viajavam confortáveis.

(B) Que o bonde estava tão lotado que as pessoas acreditavam, com otimismo exagerado, que sempre caberia mais alguém.

(C) Que o motorista do bonde guiava de forma violenta, empurrando os outros veículos.

(D) Que os soldados expulsavam as pessoas do bonde para que os outros pudessem subir.

03 – De acordo com o narrador, por que o peso real da baiana passava de noventa para cerca de cem quilos?

(A) Por causa do peso das suas roupas engomadas e dos seus acessórios (balangandãs).

(B) Porque ela carregava muitas sacolas de compras pesadas.

(C) Devido ao movimento de balanço (gingado) que ela fazia ao subir no bonde.

(D) Porque ela estava acompanhada de outra pessoa no estribo do bonde.

 

04 – Para conseguir espaço e se acomodar em meio à multidão na plataforma do bonde, a "alentada senhora" utilizou qual estratégia física?

(A) Pediu educadamente para que os soldados e o bombeiro descessem.

(B) Sentou-se no chão da plataforma traseira.

(C) Insinuou-se para dentro gingando os ombros e os quadris para os lados.

(D) Esperou que o bonde esvaziasse no poste seguinte.

 

05 – Quem eram as pessoas que já estavam viajando especificamente na "plataforma traseira" junto com a senhora que subiu?

(A) Apenas a baiana de noventa quilos.

(B) Um bombeiro e outros amáveis soldados.

(C) O cobrador e o motorneiro do bonde Engenho de Dentro.

(D) Apenas passageiros magros que ocupavam um quarto do espaço.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

CRÔNICA: NINHO DE CUCO - DILÉIA FRATE - COM GABARITO

 Crônica: Ninho de Cuco


        O cuco é o mais mafioso dos pássaros. Não gosta muito de trabalhar e adora ocupar o ninho dos outros.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8kSC3x3gmleMwwYGgUjGFrokcSMaTeyyiSMinSNdawkFaHYqgiXdueCFq3E42WBFiYK_ieosX-0ENZ_riIAZguz0ypUS8OBJ44UlZX5OdWlKiaL4kyI4D45ey0d_1-_HAtxODvb0aiMsKxLxdKq1nuTC8QSAsf6D7Y4Z8yYQDCafbwXLdR_TJSN8K51I/s320/CUCO.jpg 


        Foi assim que, um dia, um pardal muito bondoso, emprestou o seu ninho para o cuco e pediu que, em troca, ele ficasse por algumas horas tomando conta da ninhada toda.

        Saiu. Quando voltou, encontrou o cuco numa zorra danada, bagunçando seus ovinhos:

        -- Quer dizer que eu lhe empresto o ninho e você faz essa bagunça?

        Ao que o cuco respondeu:

        -- Eu estou retribuindo a sua hospitalidade. Nós, cucos, somos assim mesmo: só posso ser como sou.

        O pardal, cheio de raiva, deu uma bicada no cuco, que, ofendido, disse:

        -- Mas o que é isso, amigo?

        E o pardal respondeu:

        -- Essa bicada é tudo o que eu lhe posso dar, no momento. Sinto muito, mas nós, pardais, somos organizados, e você e seu ovinho vão ter que cair fora do meu ninho.

        E o cuco, bagunceiro, foi baixar noutro terreiro: mais precisamente no buraco vazio de um relógio, onde, desde então, dá duro para sobreviver trabalhando em turnos de meia hora.
Cuco-cuco-cuco!

FRATE, Diléia. Histórias para acordar. Companhia das Letrinhas.


Entendendo a crônica:


01 – "Mas o que é isso, amigo?". Na frase acima, a palavra grifada se refere ao:
(A) cuco.
(B) pardal.
(C) relógio.
(D) ovinho.

02 – Na frase "... encontrou o cuco numa zorra danada", a expressão grifada significa que o cuco estava:
(A) fazendo pouco barulho.
(B) dormindo profundamente.
(C) chocando os ovinhos.
(D) desorganizando o ninho.

03 – O título do texto é Ninho de Cuco porque:
(A) o cuco se aproveita do ninho dos outros pássaros.
(B) o cuco constrói seu próprio ninho.
(C) o pardal dá seu ninho para o cuco.
(D) dentro de um relógio há um ninho de cuco.

04 – O pardal brigou com o cuco porque o cuco:
(A) não gosta de trabalhar.
(B) abandonou o ninho do pardal e foi para o relógio.
(C) bicou o pardal.
(D) bagunçou o ninho do pardal.

05 – O que aconteceu ao cuco depois que foi expulso do ninho do pardal?
(A) Foi parar no terreiro.
(B) Foi para o seu ninho.
(C) Foi morar no relógio.
(D) Foi cantar no terreiro.

06 – Na frase "E o cuco, bagunceiro, foi baixar noutro terreiro: mais precisamente no buraco vazio de um relógio...", qual a função dos dois pontos?
(A) Finalizar uma frase.
(B) Introduzir uma explicação.
(C) Interromper a frase.
(D) Destacar uma expressão.

terça-feira, 9 de junho de 2026

CRÔNICA: UMA PÁGINA DO DIÁRIO-DO- PAPAI-NOEL - JÔ SOARES - COM GABARITO

 Crônica: Uma página do Diário-do-Papai-Noel

               Jô Soares

 Querido diário, ando meio deprimido. Acho que esqueceram de mim. O Natal chegou e eu não recebi nem um cartão de boas-festas. As renas já estão atreladas no meu trenó, os anõezinhos já prepararam todos os presentes, mas não me sinto com ânimo pra sair. Foi um ano difícil. Quando eu penso que mudei aqui pro Polo Norte só por causa do aluguel que era mais barato. Agora o proprietário ameaçou cortar a calefação se eu não pagar o dobro. A crise está pegando todo mundo. Em novembro, os anõezinhos ameaçaram parar com os brinquedos se não tivessem 30% de aumento.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigal9cpmJCQyM5SPMIdTOWz77tmTjlbADgrPhyphenhyphen_ykB-nNsIVnbxYH6qvQN3UrrFwkZoc410XaGbq0wKtcIPnUeNvuy0j23sz7G_ZQ2nwel15UAPVlmAgBCX2ZUeBSAJKr3uFydokEHPeE7f9nvLtQYRXjc0ch2bMkiOOGudPVDZ5hbWFq6peq2NsQNego/s1600/images.jpg


            Está fazendo um frio de rachar. Já pensou o choque térmico que vai ser quando eu chegar no Brasil? Depois, enjoei de só me vestir de vermelho. Hoje em dia, com essa cor, só mesmo eu e o Chapeuzinho. O vermelho está fora de moda até na Rússia. Também me irrita muito ter de ficar o tempo todo rindo: “Ho! Ho! Ho!”. No ano passado uma criancinha de 8 anos me perguntou: “Está rindo de quê, velho bobo?” e deu um puxão na minha barba.

            Não existe mais respeito. Um outro menino brasileiro que estava aprendendo inglês descobriu que o meu nome lá nos Estados Unidos é “Santa Claus”, e quando eu passava ficava gritando: “Tá boa, Santa?” Pra piorar as coisas, nesta época, o trânsito fica um inferno. No ano passado peguei cinco multas por estacionar o trenó em lugar proibido. Além disso, devo confessar que engordei um pouco. Estou com medo de ficar entalado em alguma chaminé.

           Depois, o espírito do Natal está muito diferente. Em tudo que é canto tem pessoas brigando. Juro que se eu aparecer no céu gritando “Paz no mundo! Paz no mundo!” vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: “Onde, Onde?”

            O Natal já não é o mesmo. Nem as crianças. Um menino me escreveu dizendo que só queria brinquedinhos movidos a bateria. Sabe pra quê? Pra ficar brincando com as pilhas.

             E as árvores? Está todo mundo reclamando do preço dos pinheiros. Realmente é um absurdo. Aliás, como foi Deus quem fez as árvores, era até melhor que Ele distribuísse diretamente da fábrica ao consumidor.

             Pois é, querido diário, eu fico aqui reclamando, mas daqui a pouco, como todo ano, parto pro trabalho. Afinal de contas, sou profissional. Seria tão bom passar um Natal em casa, com a família!

              A verdade é que eu não tenho mais jeito pra ser Papai Noel.

                                                                                                 (fragmentado)

 

Entendendo o texto

 

01. O texto traz o Papai Noel do reino da fantasia para os dias atuais.

Sobre esse Papai Noel, só não se pode afirmar que:

a.   Vivencia conflitos como dos homens comuns.

b.   Como a maioria das pessoas, não se preocupa com o desaparecimento do espírito do Natal.

c.   É criticado por sua aparência risonha num mundo que nem sempre oferece motivos para risadas.

d.   Como todos, também gosta de ser lembrado por ocasião das festas de fim de ano.

e.   Também sofre desrespeito por parte de alguns homens.

 

02. “Depois, o espírito do Natal está muito diferente.”

“O Natal já não é mais o mesmo.”

Em que aspectos, segundo o Papai Noel, o Natal mudou?

 Resposta: Pessoal de acordo com o texto.

Sugestão:  O comportamento das pessoas: O espírito natalino se perdeu, pois há pessoas brigando em todos os cantos em vez de haver paz.

 As crianças: Elas perderam a inocência e o respeito; agora são interesseiras (um menino só queria o brinquedo para brincar com as pilhas) e desrespeitosas com o Papai Noel.

 O comércio/consumismo: O preço dos pinheiros (árvores de Natal) tornou-se um absurdo.

 03. “O Natal chegou, (...) mas não me sinto com ânimo para sair.”

De acordo com o texto, o desânimo de Papai Noel tem como causa tudo isto, EXCETO:

 a.   O intenso congestionamento da época de Natal.

b.   As atitudes desrespeitosas das crianças.

c.   A insatisfação com a cor da roupa que o caracteriza.

d.   A melancolia que o atinge sempre nessa época do ano.

e.   A irritação sentida por ficar fazendo o que não deseja.

04. “Juro que se eu aparecer no céu gritando ‘paz no mundo! Paz no mundo!’, vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: ‘Onde? Onde?’”

Por essa fala do Papai Noel, só não se pode interpretar que a paz:

a.   Já não é comum na vida dos homens.

b.   É importante para alguns.

c.   Desperta ainda algum interesse.

d.   É motivo de sofrimento para determinadas pessoas.

e.   Ainda é uma busca dos homens.

Observe o fragmento de Carlos Drummond de Andrade:

“O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças.

E será Natal para sempre.”

                                                    Organizar o Natal

 

05. O poeta idealiza a criança como símbolo de um autêntico Natal.

Comparando a ideia acima com o texto lido, pode-se dizer que a relação entre eles é de:

a.   Contradição

b.   Confirmação

c.   Consequência

d.   Causa

e.   Coincidência

 

06. “A crise está pegando todo mundo.”

São sintomas dessa crise a que se refere Papai Noel, EXCETO:

a.   Valor elevado dos novos brinquedos eletrônicos.

b.   Ameaça de greve dos anões.

c.   O alto preço dos produtos natalinos.

d.   Valor do aluguel sujeito a reajustes.

e.   A mudança de Papai Noel para o Polo Norte.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

CRÔNICA: ADOLESCÊNCIA- ALCIONE ARAÚJO - COM GABARITO

 Crônica: Adolescência

                   Alcione Araujo

           Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que interdição, era o fim do nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires, nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A realidade é o princípio da morte.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUvEDBGqC1QzZP0KfpX_dipCbD_vjSBHMBeZzJOTI5t4UWLKLuqs0EWzOHgYpKnedbGY1DMXo4udhBN3B79kkpJLlDyTBelbaJXKlL0QxRqhAtQeOZMHjBf-i4_Oy6n2zqx-0k7e0TroPVEGdLQs2q1UlI6su6SNXSDK788_MyEW-HwtR2NNPtOqorgvU/s1600/adolescente.jpg


             Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James Dean, Pelé, Napoleão, Bethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se apagavam tão depressa, que não deixavam nenhuma luz no mundo.

             E fui tantos e quantos, que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois três. Qualquer filme, mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros (…). Não é que eu viva no passado, é que o passado está em mim.

             Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria, se eu conseguisse ser eu!

             Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem, atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada, era invejado, copiava-se até o penteado do seu cabelo. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval, com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.

             As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar. E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que (…) ninguém confia, ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça, você é suspeito de ser o autor.

             Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com andaimes, latas de tinta e pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se ninguém entende e reclama de você fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar onde ninguém vai lhe achar, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica lá em silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você, não se entendem entre si também.

             Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque deixou-se de ser uma coisa e ainda não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos, que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.

Entendendo o texto

01. No primeiro parágrafo, o autor afirma que a "realidade" era uma inimiga dos adolescentes. Por que ele pensava assim?

a) Porque na realidade eles eram obrigados a trabalhar e ganhar o próprio dinheiro.

b) Porque a realidade reduzia os jovens a "adolescentes espinhentos" e destruía a grandiosidade de seus sonhos.

c) Porque a realidade exigia que eles fossem heróis, santos e gênios o tempo todo.

d) Porque os pais controlavam tudo o que eles faziam no mundo real.

02. Para explicar a capacidade do adolescente de se recuperar dos problemas e voltar a sonhar, o autor faz uma comparação com:

a) Um fantasma de um cão adestrado.

b) Um edifício cheio de andaimes e latas de tinta.

c) Um escudo do seu time preferido de futebol.

d) As sete vidas de um gato.

03. O autor utiliza uma metáfora marcante para descrever o processo de crescimento e autoconhecimento na adolescência. Ele diz que o jovem é:

a) Um ser em obras, cheio de andaimes, latas de tinta e pincéis.

b) Um livro antigo com páginas rasgadas.

c) Uma camisa-de-força difícil de desamarrar.

d) Um ator de cinema que esqueceu o roteiro do filme.

04. De acordo com a visão do narrador sobre as garotas da mesma idade, elas:

a) Passavam pela adolescência de forma muito mais lenta e dolorosa que os meninos.

b) Sempre confiavam nos garotos e os ajudavam a espremer cravos.

c) Não sabiam o que era a adolescência, pois se transformavam em mulheres de repente.

d) Gostavam de usar roupas infantis para parecerem mais novas.

05. Ao contrário do que muitas pessoas dizem, qual é a opinião final do autor sobre a adolescência quando ele olha para o passado?

a) Foi a fase mais difícil e triste de sua vida, pois ele nunca se entendia.

b) Foi um período violento do qual ele prefere esquecer e não voltar no tempo.

c) Foi o período mais alegre de sua vida, onde ele precisava de muito pouco para ser feliz.

d) Foi uma época sem importância, já que ele vivia imitando os outros garotos.

 

 

CRÔNICA: PEGA LADRÃO, PAPAI NOEL! COM GABARITO

 Crônica: Pega ladrão, Papai Noel!

Ele não era bem um Papai Noel, pois trabalhava numa grande loja, a Emperor, aquela grande, da Avenida Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota. Mas seu visual, mesmo sem uniforma, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isto: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVujHWHm8gNKxCHXZdsOzSl55JjIysANwDqpz9ooGaDclJmn4mLhMBVYyeduX3Zic8ZSAtb6HYlL6JxoHh2PB3LdPu2pD-UpM_bIdKK7QCiL1es1xvdqD4QqK9IrOpRfXPCQkIDqP3ZmiGWIJpq6drXuWiYmQuhUYWO15cfm6nXEHDRVMfyYtD8g078Pg/s320/papai.png

-          Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a loja andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido nua bolsa. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, fez voz de vigia:

-          Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares, Aí, novamente, Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão, logo à saída da loja, chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o Aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase... Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

- Mas não comprei.

- Ahn?

- Ganhei.

- De quem?

- De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir, Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

 
Entendendo o texto

 

01. Além de sorrir e ajudar nas vendas de Natal, qual era a outra função que a loja Emperor esperava que o Papai Noel exercesse? 

a) Limpar a seção de brinquedos eletrônicos.

b) Vigiar o local de forma disfarçada para evitar furtos.

c) Distribuir doces e trenzinhos de pilha de graça.

d) Cuidar das crianças enquanto os pais faziam compras.

02. Durante a correria dentro e fora da loja, o Papai Noel e o ladrão acabaram causando:

a) Um grande silêncio na avenida por causa do susto das pessoas. 

b) Muita confusão, derrubando brinquedos, pacotes e até um homem em pernas de pau.

c) Um grave acidente de trânsito que parou o Aeroporto de Congonhas.

d) Uma festa na rua onde as pessoas começaram a cantar músicas de Natal.

03. O narrador afirma que a perseguição passou pelo "Minhocão". Esse detalhe indica que a história se passa em qual ambiente?

a) Em uma floresta encantada cheia de animais.

b) No interior de um shopping center muito antigo.

c) Em uma grande cidade urbana (como São Paulo).

d) Em uma praia deserta durante o feriado.

04. No final do texto, como o menino reage ao receber o trenzinho eletrônico de presente?

a) Ele fica muito feliz e vai correndo brincar na rua com os amigos. 

b) Ele fica desconfiado e preocupado, pois sabia das dificuldades financeiras do pai.

c) Ele rejeita o presente porque queria ganhar um brinquedo que não usasse pilhas.

d) Ele chora de tristeza porque o brinquedo veio quebrado e não acendia as luzes.

05. Qual é a grande mentira (ou justificativa) que o pai conta ao filho para explicar como conseguiu o brinquedo?

a) Diz que achou o trenzinho jogado no lixo perto do Minhocão.

b) Diz que trabalhou na loja Emperor e recebeu o brinquedo como pagamento.

c) Diz que o próprio Papai Noel correu atrás dele para lhe entregar o presente.

d) Diz que juntou moedas durante o ano inteiro para poder comprar o trem.

 

domingo, 7 de junho de 2026

CRÔNICA: NA PALMA DA SUA MÃO - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: Na palma da sua mão (interpretação)

             


  

Entendendo o texto 

01. Esse texto é uma:

a. notícia                              c. carta

b. narração                          d. publicidade

02. Com que objetivo o homem foi consultar uma cartomante?

      Para saber quando e como morreria, a fim de evitar sua morte.

03. Leia: “Queria saber seu futuro para poder evitá-lo, pois tinha um plano para ludibriar a Morte”

a. O pronome em destaque se refere a que palavra no texto, evitando sua repetição?

       Futuro

b. A conjunção “pois” pode ser substituída, sem alteração de sentido, pela conjunção:

(  ) por isso  (  ) mas         (  ) portanto  ( x ) porque

04. De acordo com a cartomante, por que o homem não poderia enganar a morte?

        Porque a morte tem mil disfarces.

05. Qual foi a previsão da cartomante com relação à morte do homem?

        Que ele morreria em minutos.

 06. A previsão da cartomante se cumpriu? Por quê?

       Sim, porque ele morreu pouco depois.

07. De que forma o homem morreu?

      A cartomante passou sua unha envenenada sobre a linha da mão dele e ele morreu envenenado.

 08. Releia o final do texto: “E o homem morreu em minutos. A Morte tem mil disfarces”. No texto em questão, qual foi o disfarce usado pela morte?

A morte estava disfarçada de cartomante.

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

CRÔNICA: AO PERDEDOR, AS LATINHAS - ROGÉRIO MENEZES - COM GABARITO

 

Crônica: Ao perdedor, as latinhas

                Rogério Menezes

Nem a mais visionária das mães-dinás poderia imaginar: o ofício de catador de latinhas tornou-se uma profissão como outra qualquer. Com os ecos da crise econômica se abatendo sobre todos nós, o zé-povinho precisa usar a criatividade para continuar vivo – ou, pelo menos, emitindo alguns, ainda que mínimos, sinais vitais. Resultado: à Lavoisier, o lixo metálico produzido pelas classes A, B, C e D ajuda a comprar brioches para alimentar a classe Z, aquele lumpesinato que cada vez aumenta mais de consistência e volume nas grandes e pequenas cidades do país.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSqXFP4n-fQdQ9nYpJLY6FOqfobj4yYlf3GGvwtXfrodt8HfA4-9c6vk7tsfSSIA1ZHjR0kNeQO9H_N0CdxoMXWe8RKetBNFZnncc-IGy5EpZGQl6HzEhdzznHoXINlI-W9dz_2ivDmmxDtFR6DojW8-w4HA3Diir0n3dDanGl0mBOuq_P9WFP6fqC1Dk/s320/04LW486.jpg




Carnaval é festa esperada com ansiedade por essa nova categoria de profissionais que os IBGEs da vida ainda não catalogaram. Nada mais justo: nesse período, de alto consumo de produtos armazenados em invólucros de alumínio, tiram o pé da lama. E o que se viu por aí, pelas ruas do país, foi um aguerrido exército, sempre à espreita para catar aquela latinha que, displicentemente, alguém acabou de jogar no chão.

Não existe limitação de idade para o exercício da profissão de catador de latinhas. Também não exige formação específica, nem o ensino fundamental completo, nem rudimento de alfabetização. O básico para se tornar exímio profissional do setor é aquela condição humana que nos leva a fazer seja lá que diabo for para não virar comida de abutres.

Salvador, no Carnaval, uma das maiores usinas de geração de latinhas de cerveja e refrigerantes do planeta, é a Meca, o lugar ideal, a cidade dos sonhos de todos esses valentes profissionais que vivem das sobras do lixo ocidental: a Las Vegas deles.

Os catadores de latinhas podem ser família completa: pai, mãe e muitos filhos, todos imersos na faina diária de coletar o maior número possível de peças de alumínio para revenda. Ao final de suada semana de trabalho, podem faturar talvez R$5, talvez R$10, o que pode parecer pouco para gente como a gente, que está na base da pirâmide invertida, também conhecida como elite. Para eles, não. Serve ao menos para adiar a morte por fome, bala ou vício.

No Carnaval de Salvador, o espaço nobre para os catadores de latinhas é aquele, virtual, criado entre a passagem de um bloco de trio e outro. Em ritmo de emboscada, espremidos entre as paredes dos prédios e a multidão que saracoteia ao redor, mergulham sem medo  no lixo alumínico recém-jogado e enchem muitos sacos com as cobiçadas peças.

Ser catador de latinhas pode parecer fácil, mas não é. O.k., não precisa de exame vestibular. Muito menos daquela série de documentos que se costuma exigir quando somos admitidos em algum emprego. Mas o exercício dessa profissão requer rapidez, agilidade, disposição física, fôlego e certo estoicismo. Afinal de contas, não deve ser muito reconfortante para o ego viver das sobras do lixo produzido por outros homens, aparentemente tão filhos de Deus quanto.

De qualquer forma, não será de todo absurdo se, da próxima vez que perguntarmos a alguma criança da periferia das metrópoles o que gostaria de ser quando crescer, ouvirmos: “Quero ser catador de latinhas, tiô!”


(Rogério Menezes, Revista Época de 19 de março de 2001)

 

 

Interpretação de texto

 

01. Assinale a ÚNICA alternativa que NÃO corresponde às ideias apresentadas pelo autor.

a.     As pessoas são levadas a catar latinhas para não morrer de fome.

b.     A luta pela sobrevivência nas cidades fez surgir uma nova profissão: catador de latinhas.

c.     Catar latinhas é uma profissão rendosa, pois

permite aos seus profissionais comprar brioches.

d.     É humilhante precisar catar latinhas para sobreviver.

 

02. Neste texto, o autor critica

a.         as pessoas que jogam latinhas de cervejas ou

refrigerantes no chão, sujando as cidades. 

b.     a desigualdade social, fazendo com que algumas pessoas tenham que viver do lixo produzido por outras.

c.     o alto consumo de bebidas durante o Carnaval, gerando um aumento excessivo de lixo metálico.

d.     o fato de o zé-povinho catar latas na rua, atrapalhando a imagem do país no exterior.

 

03. Assinale a ÚNICA alternativa em que a palavra ou

expressão em destaque NÃO está adequadamente

interpretada de acordo com seu sentido no texto.

a.            “...pai, mãe e muitos filhos, todos imersos na faina 

diária de coletar o maior número possível de peças de alumínio...”

 (linhas 19-20) = trabalho

b.       “Nem a mais visionária das mães-dinás poderia

imaginar: o ofício de catador de latinhas tornou-se uma profissão...”

(linhas 1-2) = videntes

c.       “Resultado: à Lavoisier, o lixo metálico produzido pelas classes A, B, C e D ajuda a comprar brioches para alimentar a classe Z...” (linhas 4-5) = nada se perde, mas se transforma

d.       “...não será de todo absurdo se, da próxima vez que perguntarmos a alguma criança da periferia das metrópoles...” (linhas 33-34) = vizinhança

 

04. Assinale a ÚNICA alternativa em que as palavras ou

expressões NÃO denunciam as condições sub-humanas dos catadores de latinhas:

a.     profissionais que vivem das sobras do lixo ocidental.

b.     categoria de profissionais que os IBGEs da vida

ainda não catalogaram.

c.     classe Z.

d.     aguerrido exército.