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domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: AS TEIXEIRAS E O FUTEBOL - FRAGMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: As Teixeiras e o futebol – Fragmento

            Rubem Braga

        Com os Andradas tínhamos feito uma espécie de pacto; a gente não jogava bola na rua defronte a casa deles, mas um pouco para cima, onde havia um muro que dava para o quintal da casa; em compensação, eles deixavam a gente pular o muro e apanhar a bola quando caía lá. Mas o muro não era bastante comprido, e assim o nosso campo abrangia, como eu ia dizendo, algumas janelas das Teixeiras. As quais, eu também já disse, não apreciavam o futebol. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhv1aLKEt_cLMG0A6WVl56iGdKxbOpbD0GDmbq7cCIfJjR1Qv06Hun01jlHBfKPcjw6P2zK9a8OQvb1WDCbxxJt2bsU4NdvXQhsRTD7ArZ4wrKlNf5Z6HxsBB0SJ-8FqQsPm66YrImK2fQIUCcxwD5KGRa0ZD2ClFxWuC_f_LKElXHCbe17974S51aJYA8/s320/images.jpg


        Quando a gritaria na rua era maior, uma das Teixeiras costumava nos passar um pito da janela, mandando a gente embora. O jogo parava um instante, ficávamos quietos, de cara no chão – e logo que ele saía da janela a peleja continuava. Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco – começavam por nos chamar de “meninos desobedientes” e acabavam nos chamando de “moleques”, o que nos ofendia muito (“Moleque é a senhora!” – gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

        Uma das Teixeiras era mais cordial, chamava um de nós pelo nome, dizia que éramos meninos inteligentes, filhos de gente boa, portanto poderíamos compreender que a bola poderia quebrar uma vidraça. “Não quebra não senhora! Não quebra não senhora!” – gritávamos com absoluta convicção, e tratávamos de tocar o jogo para frente para não ouvir novas observações.

        Um dia ela nos propôs jogar mais para baixo, então o Juquinha foi genial: “Não, senhora, lá não podemos porque tem a Dona Constança doente”, desculpa notável e prova de bom coração do nosso time.

        “Então por que vocês não jogam mais para cima? – propôs ela com certa astúcia, e falando um pouco baixo, como se temesse que os vizinhos de cima ouvissem: “Ah, não, lá o campo não presta!”, argumento, aliás sincero, de ordem técnica, e portanto irrespondível.

        “Eu vou falar com papai! Quando ele chegar vocês vão ver” – gritou certa vez uma das Teixeiras mais antipáticas. Pois naquele momento o coronel de bigodes brancos ia chegando, o jogo parou, ele perguntou à filha o que era, ela disse “esses meninos fazendo algazarra aí, é um inferno, qualquer hora quebram uma vidraça” – mas o velho ouviu calado e entrou calado, sem sequer nos olhar, nem dar qualquer importância ao fato. Sentimos que o velho, sim, era uma pessoa realmente importante e um homem direito, e superior, e continuamos a nossa partida.

        As queixas que algumas Teixeiras faziam em nossa casa eram bem recebidas por mamãe, que lhes dava toda razão – “esses meninos estão mesmo impossíveis” -, e uma ou duas vezes nos transmitiu essas queixas sem convicção. De outra feita, como a conversa lá em casa versasse sobre as Teixeiras, ouvimo-la dizer que fulana ou sicrana (duas das irmãs) eram muito boazinhas, muito simpáticas, mas beltrana, coitada, era tão enjoada, tão antipática, “ainda ontem esteve aqui fazendo queixas de meus filhos”. 

        Mamãe era a favor de nosso time; mamãe, no fundo, e papai também (hoje, que o time e eles dois morreram, esta súbita certeza, ao meditar no distante passado, tem um poder absurdo, inesperado de me comover, até sentir um ardor de lágrimas nos olhos) – eles sempre foram a favor do nosso time!

        [...]

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 31.

Entendendo a crônica:

01 – De que forma a atitude dos pais do narrador contrasta com o discurso público que a mãe adotava diante das vizinhas (as Teixeiras)?

      A mãe adotava uma postura formalmente compreensiva diante das vizinhas, fingindo dar-lhes razão e concordando que os meninos estavam "impossíveis" para manter a boa convivência na vizinhança. No entanto, internamente, o narrador percebe que essa atitude era apenas superficial ("sem convicção"), pois em casa a mãe criticava as irmãs mais antipáticas e defendia os filhos. No fim, o narrador conclui emotivamente que tanto a mãe quanto o pai sempre foram, no fundo, a favor do time dos meninos.

02 – Como os meninos rebatiam as sugestões da vizinha Teixeira mais cordial para mudar o local da partida de futebol, e quais foram os argumentos utilizados por eles?

      Os meninos rebatem as propostas usando desculpas estratégicas e sinceras. Quando a vizinha sugere jogar mais para baixo, o Juquinha inventa que lá mora a "Dona Constança doente", apelando para uma justificativa moral e de compaixão. Quando a vizinha sugere jogar mais para cima, eles recorrem a um argumento técnico: "lá o campo não presta". Com isso, conseguem desarmar as tentativas da vizinha de retirá-los dali.

03 – Qual foi a reação do pai das Teixeiras (o "coronel de bigodes brancos") ao ouvir as queixas da filha sobre a bagunça dos meninos, e de que forma os garotos interpretaram essa conduta?

      O coronel ouviu as reclamações da filha em silêncio e entrou em casa calado, sem olhar para os meninos ou dar qualquer importância à reclamação. Os garotos interpretaram o silêncio do velho como um gesto de autoridade, superioridade e moderação, passando a vê-lo como uma "pessoa realmente importante e um homem direito", o que lhes deu validação para continuar a partida.

04 – No texto, há uma transição de tom narrativo no último parágrafo. Explique qual é essa mudança e o efeito emocional produzido no leitor/narrador.

      O texto transita do tom cômico, nostálgico e bem-humorado da infância para um tom lírico e melancólico no trecho entre parênteses do último parágrafo. Ao lembrar que tanto o time de futebol quanto seus pais já faleceram ("hoje, que o time e eles dois morreram"), a memória da infância ganha um peso emocional profundo, provocando no narrador adulto um "ardor de lágrimas nos olhos" diante da saudade e do afeto familiar relembrado.

05 – O uso das palavras "meninos desobedientes" e "moleques" gera reações diferentes nos garotos. O que a palavra "moleque" representava para eles e como reagiram a essa ofensa?

      Enquanto "meninos desobedientes" era aceito como uma repreensão comum, a palavra "moleque" era vista pelos garotos como uma ofensa grave à sua classe ou conduta moral. A reação dos meninos foi de indignação e confronto direto, como demonstrado pelo personagem Chico ao rebater da janela: "Moleque é a senhora

CRÔNICA: OS TEIXEIRAS MORAVAM EM FRENTE - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Os Teixeiras moravam em frente

            Rubem Braga

        Para não dar nome certo digamos assim: os Teixeiras moravam quase defronte lá de casa.

        Não tínhamos nada contra eles: o velho, de bigodes brancos, era sério e cordial e às vezes até nos cumprimentava com deferência. O outro homem da casa tinha uma voz grossa e alta, mas nunca interferiu em nossa vida, e passava a maior parte do tempo em uma fazenda fora da cidade; além disso seu jeito de valentão nos agradava, porque ele torcia para o mesmo time que nós.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2MY-d32tuKnRG0X0tlOuNUzZG4iOPWCNJzPZIcrxW6mJNrou4m0tu6toJCkvO4nfEWubZw1IKM5Aqw4xy4IN-IYrKdFu-BRH_0B1vTytGd_nIYigFTcVTqOuUzVCHjOKawjWT0oMG4MONp8wNYD4VsRh-TFujqp9druE0-HDpDvugGHBIEK7FPdGMml4/s320/images.jpg


        Mas havia as Teixeiras. Quantas eram, oito ou vinte, as irmãs Teixeira? Sei que era uma casa térrea muito, muito longa, cheia de janelas que davam para rua, e em cada janela havia sempre uma Teixeira espiando. Havia umas que eram boazinhas, mas em conjunto as irmãs Teixeiras eram nossas inimigas, acho que principalmente as mais velhas e mais magras.

        As Teixeiras tinham um pecado fundamental: elas não compreendiam que em uma cidade estrangulada entre morros, nós, a infância, teríamos de andar muito para arranjar um campo de futebol; e, portanto, o nosso campo natural para chutar uma bola de borracha ou de meia era a rua mesmo.

        Jogávamos descalços, a rua era calçada de pedras irregulares (só muitos anos depois vieram os paralelepípedos , e eu me lembro que os achei feios, com sua cor de granito, sem a doçura das pedras polidas entre as quais medrava o capim; e achei o nome também horroroso, insuportável, paralelepípedos, nome que o prefeito dizia com muita importância, parece que a grande glória de Cachoeiro e o progresso supremo da humanidade residia nessa palavra imensa e antipática – paralelepípedos); mas, como eu ia dizendo, a gente dava tanta topada que todos tínhamos os pés escalavrados: as plantas dos pés eram couro grosso, e as unhas curtas, grossas e tortas, principalmente do dedão e do vizinho dele. Até ainda me lembro de um pedaço do “campo” que era melhor, era do lado da extrema direita de quem jogava de baixo para cima, tinha uma pedra grande, lisa, e depois um meio metro só de terra com capim, lugar esplendido para chutar em gol ou centrar.

        Tenho horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o Rio de Janeiro contando coisas de Cachoeiro, isto é uma injustiça; a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu é bem maior. Só que nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada, às vezes tapa a tapa.

        Não consigo me lembrar se a marcação naquele tempo era em diagonal ou por zona; em todo caso a técnica do futebol era diferente, o jogo era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre, por exemplo: não era preciso ter onze jogadores de cada lado, podia ser qualquer número, e mesmo às vezes jogavam cinco contra seis pois a gente punha dois menores para equilibrar um vaca-brava maior.

        Eu disse que as partidas eram emocionantes; até hoje não compreendo como as Teixeiras jamais se entusiasmaram pelos nossos prélios. Isso foi um erro, e na semana que vem eu contarei por quê.

Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 30.

Entendendo a crônica:

01 – Com base no texto, descreva como o narrador percebia a família Teixeira. Qual era a diferença entre a visão que as crianças tinham dos homens e das mulheres da casa?

      O narrador e seus amigos tinham uma relação neutra a simpática com os homens da família, enquanto viam as mulheres (as irmãs Teixeiras) como inimigas. O velho da casa era visto como sério, cordial e respeitoso; o outro homem, apesar do jeito de "valentão" e da voz alta, agradava aos meninos por torcer para o mesmo time de futebol. Já as irmãs Teixeiras, descritas como numerosas e sempre espiando pelas janelas, eram vistas como adversárias da infância, principalmente as mais velhas e magras, por não tolerarem os jogos de futebol na rua.

02 – Qual era o "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras segundo o narrador e por que, no contexto geográfico da cidade, o futebol de rua era inevitável para os meninos?

      O "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras era a falta de empatia e compreensão com as crianças da rua. Elas não entendiam a limitação geográfica do local: como a cidade de Cachoeiro era "estrangulada entre morros", os meninos teriam que andar distâncias muito longas para encontrar um campo de futebol adequado. Assim, a própria rua se tornava o único espaço natural e viável para que jogassem bola.

03 – Como o narrador descreve as condições físicas do "campo de futebol" e os impactos do jogo no corpo das crianças? Cite elementos da linguagem descritiva do autor.

      O campo de futebol era a própria rua, calçada com pedras irregulares. O jogo era bruto e cobrava um preço físico: as crianças jogavam descalças, sofriam constantemente com topadas e tinham os pés "escalavrados", com solas de couro grosso e unhas curtas, grossas e tortas. Apesar dessas condições adversas, o narrador guarda memórias afetivas detalhadas do espaço, como um trecho de pedra lisa com meio metro de terra e capim que era considerado o "lugar esplêndido para chutar em gol".

04 – No texto, o autor faz uma crítica sutil ao conceito de "progresso" ao comparar o antigo calçamento da rua com a chegada dos paralelepípedos. Explique como essa comparação revela a nostalgia do narrador pela infância.

      A chegada dos paralelepípedos é apresentada como o "progresso supremo" e a "glória" sob a ótica do prefeito da cidade, mas para o narrador criança tratava-se de algo feio, frio e antipático. O narrador preferia o calçamento antigo de pedras polidas e irregulares entre as quais nascia o capim, revelando que a visão infantil valoriza o afeto, a natureza e a organicidade do espaço brincável, enquanto a ideia de modernização/progresso dos adultos descaracterizava a doçura do ambiente de sua infância.

05 – Em tom bem-humorado e ironicamente ufanista, como o narrador compara o campo da rua de sua infância aos grandes estádios do Brasil, como o Maracanã e o Pacaembu?

      O narrador reconhece objetivamente que o Maracanã e o Pacaembu são maiores do que o campo da sua infância, mas argumenta que nenhum desses grandes estádios jamais foi tão emocionante quanto a rua onde jogavam. Segundo ele, as partidas da infância eram mais disputadas "palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada", enfatizando o caráter vivo, apaixonado e visceral do futebol de rua em comparação ao futebol formal.

 

 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

CRÔNICA: LUTO PELA FAMÍLIA SILVA - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Luto pela família Silva

             Rubem Braga

 

        A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9G9jsnp0KrYURV0aJGNvNXXl16sHH5zvdx23I2JU6mRroj8Twx16bRd05xuGWihyphenhyphengJSfPdHqgnhTFET_3Y11i-rOsJJpKnoeZYZ2rSzo1SmuEYq0k6fk0YpMLnRedLdlgNtY6yLPwAVfKblvavpOkfJ_hZEQ0CRw4IlqsiJtjdn1U7X87U_kOQFJtgm4/s1600/images.jpg


        João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.

        João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.

        Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.

 

BRAGA, Rubem. Luto da família Silva. In: Para gostar de ler. 4. Ed. São Paulo, Ática: 1984.

 

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o que se diz no primeiro parágrafo, o que aconteceu com João da Silva? Como isso aconteceu?

      De acordo com o primeiro parágrafo, João da Silva morreu de hemoptise. Ao verem o corpo de João na calçada, chamaram a assistência, mas ela não pôde fazer nada, uma vez que o sujeito já estava morto. Sendo assim, o homem então foi levado para o necrotério.

      Obs.: Hemoptise é a expectoração sanguínea através da tosse, proveniente de hemorragia nas vias respiratórias. É comum a várias doenças cardíacas e pulmonares.

 

02 – Quem fala e para quem no primeiro parágrafo? E do segundo parágrafo em diante?

      No primeiro parágrafo da crônica, quem fala parece ser alguém que não tem intimidade com o morto, tendo em vista a linguagem impessoal e objetiva utilizada para noticiar a morte de João da Silva.  Entretanto, do segundo parágrafo em diante, ocorre uma mudança de foco narrativo, isto é, passa-se a se utilizar a primeira pessoa do plural. Daí em diante quem fala são os amigos e familiares de João da Silva se dirigindo ao próprio defunto. Isso fica claro em passagens como: “Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem”.

 

03 – O que significa o fato de a morte do personagem ter sido noticiada na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco?

      A expressão “Fatos Diversos” indica que qualquer fato pode ser noticiado nesta seção, ou seja, são fatos sem importância e que não têm distinção uns dos outros, que não merecem serem publicados numa seção de maior destaque no jornal.

 

04 – Quem são, de fato, os Joões da Silva citados pelo autor no trecho: “Nós somos os populares Joões da Silva”?

      Os Joões da Silva que não tiveram muitas oportunidades na vida e que, por isso, geralmente ocupam os cargos cuja remuneração é mais baixa, vivem sob condições precárias de vida, não têm acesso à educação de qualidade. Esses Joões da Silva são as pessoas socialmente menos privilegiadas da sociedade e que, consequentemente, sofrem mais com os efeitos da desigualdade social.

 

05 – Veja o seguinte trecho da crônica de Rubem Braga: “Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. [...] Usamos o sobrenome ‘de Tal’”. O que significa usar o sobrenome ‘de Tal’ e por que se diz que “No fundo, somos os Silva.”?

      Silva é um sobrenome popular, muito comum, que não distingue as pessoas. Usar outro sobrenome “de Tal” seria uma forma de tentar não pertencer a essa família estigmatizada, sem privilégios e que sofre por pertencer a uma camada social que sobrevive com poucos recursos financeiros e condições precárias.

 

06 – Quando se diz “Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva”, quem são essas mulheres e por que se usa a palavra “até”?

      Mulher que não é de família é uma expressão que nos remete a mulheres entregues à prostituição, à vida promíscua. Sendo assim, utiliza-se a expressão até para mostrar o quanto as associações que se fazem à família Silva são pejorativas, ou seja, tudo ou quase tudo que há de ruim, de marginal, de servil, tem relação com a família Silva.

 

07 – Quando se refere ao sepultamento de João da Silva, o autor utiliza a expressão “vala comum”. Com que intenção ela foi utilizada no texto?

      Essa expressão foi utilizada para mostrar que os Silva não têm direito a sepultamento pomposo, com cerimônias de despedida ou coisa parecida. Pelo contrário, os Silva são todos enterrados num lugar comum, indiferente.

 

08 – Você acha que os Silva estão sempre fadados a terminar numa “vala comum”? Justifique sua resposta.

      Seria interessante nessa pergunta o professor trabalhar com a questão da comodidade, a princípio, característica injustamente associada do brasileiro. Comodidade essa que não deixaria um Silva ascender socialmente e que os torna fadados a terminarem na vala comum. Consequentemente, ao se falar em comodismo, certamente surgirão questões relacionas à desigualdade social, pois tudo parte daí. E uma vez trabalhando em prol da igualdade na sociedade, pode-se mudar essa “pré-destinação” dos Silva, por exemplo.

 

09 – No texto, são citadas várias famílias, como: “A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família.”. Qual a diferença entre essas famílias e a família Silva?

      A diferença é que essas famílias têm sobrenomes tradicionais, nobres, sobrenomes esses geralmente associados a famílias ricas, que têm poderes e privilégios na sociedade. Diferentemente da família Silva, cujo sobrenome tem forte relação, na sociedade, com sobrenomes de famílias mais humildes, mais populares. Daí a importância associada a um sobrenome como Rocha Miranda e o desprivilegio associado a sobrenomes como Silva. É como se o sobrenome servisse de identidade para mostrar a que classe social o indivíduo pertence.

 

10 – Como os Silva auxiliam essas famílias? O que há em comum entre essas profissões?

      Os Silva auxiliam essas famílias nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, quebrando pedra, fazendo telha de barro, laçando os bois, levantando os prédios, conduzindo os bondes, enchendo os porões dos navios, enfim, exercendo uma série de profissões que geralmente remuneram mal o funcionário. Sendo assim, os Silva geralmente são fadados a ocuparem as profissões de baixo prestígio na sociedade.

 

11 – Rubem Braga termina sua crônica utilizando a palavra “Apesar”. Justifique o uso dessa conjunção ao final do texto.

      O apesar, utilizado no final do texto, mostra-nos que, mesmo sendo uma pessoa digna, de valor, mesmo tendo trabalhado toda uma vida, João da Silva será enterrado como qualquer um, na “vala comum da miséria”.  Mas, mesmo assim, há um desejo manifestado pelo narrador de que os Silvas ainda serão reconhecidos, ainda terão poder político (“nossa família um dia há de subir na política”).

 

domingo, 28 de junho de 2026

CRUZADINHA: RUBEM BRAGA - BIOGRAFIA - COM GABARITO

 Cruzadinha: Rubem Braga – Biografia

        Conhecendo o escritor: Rubem Braga

        "Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: Eu sou lá de Cachoeiro."

        Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no dia 12 de janeiro de 1913, é um dos doze filhos do casal Francisco de Carvalho Braga (dono de cartório e 1º prefeito da cidade) e Rachel Cardoso Coelho Braga (filha de um fazendeiro local). 

        Rubem publicou seu 1º texto aos 15 anos, no jornal Correio do Sul, de Cachoeiro. Nesta mesma época, aborrecido com um professor que o havia criticado, mudou-se para Niterói, o primeiro pouso entre muitas cidades, até fixar moradia no Rio de Janeiro. Formou-se em Direito.

        Graças à indicação do irmão Newton, jornalista, consegue uma vaga de repórter no Diário da Tarde, de Belo Horizonte, começando uma carreira que se estenderia, durante 58 anos, por diversas publicações brasileiras.

        Foi correspondente de guerra, editou páginas de polícia, fez copidesque e estabeleceu-se, acima de tudo, como cronista. Ele inventou a moderna crônica brasileira. Seu texto trouxe novas nuances de lirismo, humor, leveza e descompromisso, virtudes que atualizaram a crônica e a caracterizam hoje uma das atrações de maior sucesso nos jornais brasileiros.

 

Exercício:

Encontre no caça-palavras as 12 palavras em destaque no texto.



 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CRÔNICA: RECENSEAMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Recenseamento

              Rubem Braga

        São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas.  Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas.

 
 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLkrtjnzYjCHiu7zM12EL13nDgZa46EC0atqxOrKFhf2wwwk6gI4yxp5mfZnXuSYvsSqY8-2RJKN_fkYs2trvJ7EMf429RwHQtFW-wWQr6MZdv_vDQj-v0UCLruI9Zq2-2GeKVMUJHhhkRgO9PsXpAZoYoSDjbO54XPaiS6RAmgAQwpEYVLpWQgmYo-p8/s320/ibge-propoe-reduzir-questoes-do-censo-2-2.jpg



        O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:

        -- Quantos são aqui?

        Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:

        -- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.

        E outro:

        -- Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota de seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor.

        E outro:

        -- Eu? Tinha um amigo e um cachorro. O amigo se foi, levando minhas gravatas e deixando a conta da lavadeira. O cachorro está aí, chama-se Lord, tem três anos e meio e morde como um funcionário público.

        E outro:

        -- Oh! sede bem-vindo. Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!

        E outro:

        -- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê.  Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!

        E outro:

        -- Aqui moro eu. Quer saber o meu nome? Procure uma senhorita loura que mora na terceira casa da segunda esquina, à direita. O meu nome está escrito na palma de sua mão.

        E outro:

        -- Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum. Volte amanhã. Hein? Ah, o sr. é do recenseamento? Uff! Quantos somos? Somos vinte, somos mil. Tenho oito filhos e cinco filhas. Total: quinze pestes. Mas todos os parentes de minha mulher se instalaram aqui. Meu nome? Ahn... João Lourenço, seu criado. Jesus Cristo João Lourenço. A minha idade? Oh! pergunte à minha filha, pergunte. É aquela jovem sirigaita que está dando murros naquele piano. Ontem quis ir não sei onde com um patife que ela chama de "meu pequeno". Não deixei, está claro. Ela disse que eu sou da idade da pedra lascada. Escreva isso, cavalheiro, escreva. Nome: João Lourenço; profissão: idiota; idade: da pedra lascada.  Está satisfeito? Não, não faça caretas, cavalheiro. Creia que eu o aprecio muito. O sr. pelo menos não é parente da mulher. Isso é uma grande qualidade, cavalheiro! É a virtude que eu mais admiro! O sr. é divino, cavalheiro, o sr. é meu amigo íntimo desde já, para a vida e para a morte!

Rubem Braga. Para gostar de ler, vol. 3. São Paulo, Ática, 1979.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 158.

Entendendo a crônica:

01 – No primeiro parágrafo, qual é a principal ironia ou contraste estabelecido pelo cronista ao listar os elementos que serão "reduzidos a números" pelo governo?

      A ironia principal é a equiparação entre seres humanos, animais e plantações. Ao afirmar que "Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números," o cronista ridiculariza a visão puramente estatística do governo, que trata a complexidade da vida (mulheres) e a natureza (bois, algodoeiros) com a mesma frieza quantitativa.

02 – Qual é a pergunta feita pelo recenseador ("Quantos são aqui?") e por que o cronista a classifica como uma "Pergunta triste"?

      O cronista a classifica como uma "Pergunta triste" porque, em vez de obter uma resposta numérica simples, a indagação abre espaço para revelações de abandono, perda e solidão. As respostas subsequentes não falam apenas de números, mas de ausências ("havia mulheres e criancinhas," "o amigo se foi"), frustrações e vazios existenciais.

03 – Cite dois exemplos de respostas dadas ao recenseador que demonstram ironia ou sarcasmo por parte dos entrevistados.

      Dois exemplos são:

      O homem que lista "mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas" e sarcasticamente convida: "Querendo levar todos, é favor." (Sugerindo o desejo de se livrar de alguns desses "membros" do agregado familiar).

      O homem que descreve o cachorro Lord, que "morde como um funcionário público" (uma crítica humorística à rigidez e à agressividade burocrática).

04 – Como a saudade é retratada em uma das respostas, mostrando que o número real de habitantes não corresponde ao número estatístico?

      A saudade é retratada na resposta "Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!" A saudade é personificada, tornando a pessoa ausente uma presença real e permanente no ambiente do eu lírico, alterando a contagem fria do recenseamento.

05 – No sexto parágrafo, o homem diz: "Aqui somos eu e ela, só nós dois. Mas nós dois somos apenas um. Breve, seremos três. Oh!" O que a afirmação "nós dois somos apenas um" sugere?

      Sugere a unidade afetiva e a fusão completa do casal apaixonado. No contexto do amor romântico, "nós dois somos apenas um" expressa uma identidade indivisível, que é mais importante do que a contagem individual do censo. O "Breve, seremos três" sugere, com alegria, a chegada de um filho.

06 – O que o último entrevistado (João Lourenço) revela sobre sua percepção do recenseamento, e como ele expressa seu desabafo pessoal?

      João Lourenço inicialmente confunde o recenseamento com um cobrador ("Hoje não é possível, não há dinheiro nenhum"). Ao perceber o erro, ele usa o recenseador como um receptor para um longo desabafo, classificando-se como "idiota" e sua idade como "da pedra lascada." Ele transfere a função do censo (quantificar) para a função catártica (desabafar frustrações pessoais e familiares).

07 – De que forma o tratamento que Rubem Braga dá ao tema "Recenseamento" ilustra uma característica fundamental da crônica?

      A crônica ilustra a característica de transformar um fato cotidiano e prosaico (o censo) em uma reflexão poética e humana. Rubem Braga utiliza a moldura do recenseamento para transcender o dado estatístico e acessar a subjetividade, o humor, a dor e os dramas ocultos por trás dos números, capturando a essência da vida em sociedade.

 

 

CRÔNICA: O FISCAL DA NOITE - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: O FISCAL DA NOITE

            Rubem Braga

        Fui eu que vi o Cruzeiro erguer-se do mar e mais tarde chegar até o horizonte de minha varanda; vi duas estrelas muito brilhantes nascerem depois dele e subir também. Analfabeto olhando as estrelas, segui sua navegação sem saber seus nomes; vigiei de meu imóvel tombadilho.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNGTzNKhh_qPVl3wRE-all6xXchKXrozviF8yKRxmaykhW4DP4TkpuYkJQ9k9tCmR5Vao-D8fi0zITbLHpq0F_a0m8FZuiNRDvDw-FPMZ01TnurtVcWxRmSF7d21ag-I5wbTNuo6qLhRXvbbk0l2lo2BvO7U91rEz4gD4Fho9tp4WlUPnpLFJHRtHXBv4/s320/PINTURA.jpg


        Estava solitário, mas não triste; lembrei o velho dito dos "A noite ainda é uma criança."

        Mas o tempo avança. Agora medito no seio de uma noite como à sombra de uma grande árvore; de raro em raro, madura cai uma estrela e se perde na escureza do céu ou do chão. Quase vejo o mar, apenas o pressinto e o sei arfando lânguido, sem vento.

        Deus me pôs nesta rede a olhar a noite. Não tenho sono nem de sair; não telefonarei para ninguém. Sou como um débil mental a quem houvessem dado o emprego de fiscalizar as estrelas, e acompanhado com paciência sua marcha lenta. Devo dizer que estão se comportando bem, tanto as mais novas como as mais velhas; andam de leste para de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distâncias. Se o major-fiscal me telefonar direi que não há nenhuma ração. O nascimento da lua está marcado para as 24h45m da madrugada; espero que seja pontual e não me dê aborrecimentos. O número de estrelas cadentes é diminuto.

        Informarei: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo foi mínimo e, creio, inevitável; nosso estoque é imenso, senhor major." O major comunicará ao coronel, este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente da República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.

        Adormeço na rede, e desperto assustado; mas o céu está em ordem, e as estrelas marcham sempre na mesma direção, como crianças bem-comportadas. Deus me pôs nesta rede, e o Diabo me fez dormir. Felizmente a lua ainda não nasceu. Risco um fósforo para olhar meu relógio ("a opinião do prefeito de Genebra. sobre a hora de Ipanema"), meu famoso relógio antimagnético, antiatômico e antilírico, e suspiro aliviado; ainda faltam 18 minutos para o nascimento da lua. Levanto-me e tomo posição em outro   ângulo da varanda, murmurando: "Vamos providenciar isso."

Rubem Braga. Para gostar de ler, vol. 4. São Paulo, Ática, 1979.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 175.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a atitude do narrador em relação às estrelas que observa no início da crônica?

      O narrador se descreve como um "Analfabeto olhando as estrelas", indicando que, embora as observe atentamente e siga sua "navegação" ("vigiei de meu imóvel tombadilho"), ele não sabe seus nomes.

02 – Qual é o estado de espírito do narrador ao meditar na varanda?

      Ele afirma que, embora estivesse "solitário, mas não triste", no início. Depois, ao meditar "no seio de uma noite como à sombra de uma grande árvore", ele não tem sono nem vontade de sair ou telefonar, assumindo o papel de observador paciente.

03 – Que comparação o narrador utiliza para descrever a sua função de observador da noite?

      Ele se compara a um "débil mental a quem houvessem dado o emprego de fiscalizar as estrelas, e acompanhado com paciência sua marcha lenta."

04 – Como o narrador avalia o comportamento das estrelas sob sua "fiscalização"?

      Ele informa que elas estão se comportando bem, "tanto as mais novas como as mais velhas", e que andam "de leste para de maneira morosa e sensata, guardando com atenção as respectivas distâncias."

05 – Qual é a única "preocupação" que o narrador tem com a chegada do novo astro?

      A preocupação dele é com o nascimento da lua, marcado para as 24h45m da madrugada. Ele espera que ela "seja pontual e não me dê aborrecimentos."

06 – Qual é o teor do relatório que o narrador planeja enviar ao "major-fiscal" sobre as estrelas cadentes?

      Ele planeja informar: "Pequenas baixas; o desperdício de estrelas durante a noite a meu cargo foi mínimo e, creio, inevitável; nosso estoque é imenso, senhor major."

07 – O que leva o narrador a despertar assustado na rede e o que o alivia?

      Ele adormece na rede e desperta assustado. O que o alivia é ver que "o céu está em ordem, e as estrelas marcham sempre na mesma direção, como crianças bem-comportadas", e constatar, olhando seu relógio, que a lua "ainda não nasceu", faltando 18 minutos para o seu horário marcado.

 

 

CRÔNICA: A BORBOLETA AMARELA - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: A borboleta amarela

             Rubem Braga

        Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgqjzr5iWOERo2K2W03a62cYK7t6-zpt0sneCJDmHLumkz3ua98fDp7SQzohwD9wFwjN6qWMtZJ5SRv5Fu2eUUwFZRlO6EiIgkntgRO4uL1gFasWjiVkmumVH55nmsCkvpVyqBptdc3cduaTswriR4Jke62THclDhIKSpJCwZVbS5pSM4fM1BJ_Qp4amzA/s320/BORBOLETA.jpg


        Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da ABI. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria uma jornalista? – pensei com certo tédio.

        Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na Rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse; ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento? Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. Nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa ideia. Quando eu o mandar fazer os jardins do meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare… Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.

        A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessando a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos – ou se vendo; só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um flamboyant; havia, naquela hora, um casal de namorados pobres em um banco, e dois ou três sujeitos espalhados pelos outros bancos, dos quais uns são de pedra, outros de madeira, sendo que estes são pintados de azul e branco. Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu sempre passo por ali; é que minha borboleta amarela me tornava sensível às cores.

        Ela borboleteou um instante sobre um casal de namorados; depois passou quase junto da cabeça de um mulato magro, sem gravata, que descansava num banco; e seguiu em direção à avenida. Amanhã eu conto mais.

Rubem Braga. Para gostar de ler. São Paulo, Ática, 1979.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 149.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o contraste fundamental que o cronista estabelece no início do texto ao descrever a borboleta e o cenário?

      O contraste fundamental é entre a fragilidade, a beleza e a liberdade da natureza (a borboleta amarela, "fagueira," "contente da vida") e a aridez, o cinza e a pressa da vida urbana (a esquina de ruas movimentadas, o "mármore negro," os "carros que passavam roncando"). A borboleta é um elemento estranho e fascinante nesse ambiente de concreto.

02 – O cronista demonstra humor e ironia ao pensar no que a borboleta poderia ser ao entrar na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Qual é o teor dessa ironia?

      O cronista manifesta ironia ao pensar se a borboleta "seria uma jornalista?" e sentir "certo tédio" em seguida. Isso satiriza a rotina, a seriedade e a trivialidade da vida profissional e intelectual urbana, que é vista como tediosa e oposta à beleza espontânea e livre da borboleta.

03 – A borboleta provoca uma grande mudança na percepção do cronista. Qual é o principal efeito que ela causa no seu olhar, conforme ele mesmo relata no quarto parágrafo?

      A borboleta o torna "sensível às cores" e aos detalhes do ambiente que ele antes ignorava, apesar de passar por ali diariamente. Ele nota a cor dos bancos e a presença de "namorados pobres," indicando que a borboleta o tira da alienação e aguça sua sensibilidade para a poesia e a vida ao seu redor.

04 – No quarto parágrafo, o eu lírico afirma que a borboleta era "minha." O que esse sentimento de posse inesperado sugere sobre sua conexão com o inseto?

      O sentimento de posse sugere que a borboleta despertou uma forte conexão afetiva e um desejo de contemplação exclusiva. Ao compará-la a "meu cão ou minha amada de vestido amarelo," o cronista transfere para o inseto o afeto e a fidelidade que se tem por um ser querido, elevando a borboleta a um símbolo pessoal de beleza e inspiração.

05 – Qual é a reação dos outros transeuntes à borboleta e o que essa indiferença sublinha sobre o tema da crônica?

      Os transeuntes não olham para a borboleta, passando "vendo vagamente outras coisas" (casas, veículos). Essa indiferença sublinha o tema da alienação e da cegueira urbana. O cronista é o único capaz de quebrar sua rotina e notar, e valorizar, a beleza efêmera da natureza.

06 – O cronista passa algum tempo especulando sobre a origem da borboleta (morro de São Bento, Tijuca, jardim do Ministério da Educação). O que essa especulação reforça no texto?

      A especulação reforça o mistério, a efemeridade e a natureza imprevisível da beleza. Ao não saber de onde a borboleta veio, o cronista enfatiza que a inspiração e a poesia são dádivas que irrompem inesperadamente na rotina, vindo de um lugar desconhecido, puro e incontrolável (a natureza).

07 – De que forma a atitude do cronista de "correr" para não perder a borboleta ilustra uma característica fundamental do gênero crônica?

      O ato de correr para não perder de vista o objeto de sua atenção ilustra a característica da observação minuciosa do cotidiano e a valorização do efêmero. A crônica transforma um fato banal (uma borboleta na rua) em um momento de reflexão e poesia, mostrando a capacidade do cronista de capturar a beleza passageira do dia a dia antes que ela desapareça.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CRÔNICA: MÃE - FRAGMENTO - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Mãe – Fragmento

              Rubem Braga

        [...] 

        Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — “que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel” — “que presente de casamento vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa” — e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZPxQbRhL19lo4m8W4fVo9pJCJ9pIMwa2SRfKuiW_J0Nd1BJrJhT6e0bnDroQgF_rRy8it2PsJh7cHSMQKuBqDTjPU6-wjwt7H4ZX9JqKXol7kKPg8EcPr-ALZ718XFjypRaVhLdPgMEAIX6-s8SFQ1sU_RpyJNFX-0Mrv8vjKan6fWuIn6cPBK3ypslg/s320/mae(1).png

        — Cadê Joãozinho?

        O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

        — Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

        O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

        — O menino tem OITO anos, Maria!

        — OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!

        [...]

Rubem Braga. A cidade e a roça. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 57. (Fragmento).

Fonte: Língua Portuguesa: Singular & Plural. Laura de Figueiredo; Marisa Balthasar e Shirley Goulart – 6º ano – Moderna. 2ª edição, São Paulo, 2015. p. 284.

Entendendo a crônica:

01 – Como o garoto, Joãozinho, reage quando o pai o chama para sair do mar?

      Joãozinho fingiu não ouvir o pai três vezes antes de sair do mar, resmungando, mas logo em seguida se interessou novamente por brincar de bola com o amigo.

02 – O que a mãe estava fazendo e sobre o que ela conversava antes de notar a ausência do filho?

      A mãe estava folheando uma revista mundana e conversava sobre "que vestido horroroso o da Marieta" e "que presente de casamento vamos dar à Lúcia?", entre outros pequenos assuntos sociais.

03 – Qual foi a pergunta que a mãe fez de repente, indicando sua preocupação?

      A pergunta que a mãe fez de repente foi: "Cadê Joãozinho?"

04 – Onde o amigo de Joãozinho informou que ele havia ido?

      O amigo de Joãozinho informou que ele havia ido em casa apanhar uma bola maior.

05 – Qual foi o argumento da mãe para a preocupação com Joãozinho atravessando a rua, e como o pai reagiu a isso?

      A mãe argumentou que, apesar de Joãozinho ter oito anos, ele era uma criança e que, se adultos morrem atropelados, o que dirá um menino distraído. O pai, por sua vez, achou que não era necessário se preocupar tanto, destacando que o menino tinha "OITO anos".