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segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONTO: HISTÓRIA DE PASSARINHO - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: História de Passarinho

            Lygia Fagundes Telles


        Um ano depois, os moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que enlouqueceu e sumiu de casa.

        Ele era um santo, disse a mulher abrindo os braços. E as pessoas em redor não perguntaram nada e nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.

        Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o passarinho.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLsS4xuxVHU4_NDepxiE1YBT_gdQJxdazGDM2AvH0zQzI_YUZdXAQ5ts0jYv2b_u3qsRekLenPkRRTeMOdPIpy9JVW6tlnf5zAVUGdHF_pDfb10lzqtG7JZ6ZAR5g_XBp5HNhdvIWy6_0dgqS_BNfPl0JqDgjwKygwZHGbD4UF_wjoEqliH7tTZm6X6GQ/s1600/download.jpg


        Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô, Pai! caçoava o filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!

        O homem ruivo introduzia o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem de um amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.

        Não sei, filho, deve ter caído de algum ninho, peguei ele na rua, não sei que passarinho é esse.

        O menino mascava chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.

        Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele estava certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho cresceu, o homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele.

        Ai! o canto desse passarinho, queixava-se a mulher. Você quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os beiços, tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro que subia para o teto, Bicho mais chato, Pai, solta ele.

        Antes de sair para o trabalho, o homem ruivo costumava ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora pousando num pé ora noutro e cantando como se não pudesse parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era a despedida e o passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para a carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as grades, fugir, fugir. Algumas vezes, o homem assistiu a essas tentativas que deixavam o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais.

        A mulher punha-se então a falar, e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas todas que quisera ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o trem prateado descendo pela noite até o mar. Esse mar que, se não fosse o pai (que Deus o tenha!), ela jamais teria conhecido, porque em negra hora se casara com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.

        Ele continuava com o livro aberto no peito, gostava muito de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava, exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa, Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade avançada eu fosse trabalhar tanto assim. O homem ia tomar o café.

        Numa dessas vezes, esqueceu de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então sentou-se no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão. 

        Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pelo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo quando o menino, que presenciara a cena, desatou a rir, Passarinho burro! Fugiu e acabou aí, na boca do gato?

        Calmamente, sem a menor pressa, o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas, ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro!

        A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.

        Quando formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a contar isso tudo, mas não achou importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto, nunca tinha reparado antes como ele era alto. Não contou também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.

 

In: “Cadernos de Literatura Brasileira nº. 5”, editados pelo Instituto Moreira Salles, 1998.

 

Entendendo o conto:

01 – O que aconteceu com o homem de cabelo ruivo um ano antes do momento em que a história é contada?

      Um ano antes, o homem ruivo abandonou de repente tudo o que tinha — sua casa, seu emprego no cartório e seu único filho — e sumiu sem deixar rastros. Os moradores do bairro comentavam que ele havia enlouquecido.

02 – Como era o passarinho quando o homem ruivo o encontrou e o que o filho achava disso?

      O passarinho foi achado na rua, tendo provavelmente caído de um ninho. Ele era um filhote todo arrepiado, com pouca plumagem de cor amarelo-pálido e algumas peninhas cinza-claro. O filho caçoava do pai por ele não saber dizer se o bicho era um canário ou um pintassilgo, criticando-o por "não saber nada".

03 – Como o passarinho se comportava quando o homem ruivo se despedia dele para ir trabalhar?

      O passarinho cantava intensamente com as asas trêmulas e vinha receber o carinho do homem na grade da gaiola. Porém, assim que o homem se afastava, o animal se atirava desesperadamente contra as grades tentando fugir, a ponto de ficar exausto, com o peito palpitante e o bico ferido.

04 – Sobre o que a esposa do homem ruivo costumava reclamar durante "uns cinquenta minutos"?

      Ela reclamava de todas as coisas que gostaria de ter tido e que ele não havia lhe dado. Ela mencionava com frustração uma viagem para Pocinhos do Rio Verde e dizia que tinha se casado em "negra hora" com um homem que não prestava para nada. 

05 – Como o passarinho conseguiu escapar da gaiola e qual foi o seu trágico destino?

      O homem ruivo esqueceu a portinhola da gaiola aberta em uma noite. O passarinho fugiu, mas acabou sendo devorado pelo gato da vizinha. Na manhã seguinte, o gato apareceu sonolento e feliz, deixando escapar de seu pelo negro uma peninha amarelo-acinzentada.

06 – Qual foi a reação do filho e qual foi a reação do homem ruivo ao descobrirem que o gato havia comido o passarinho?

      O menino desatou a rir e chamou o pássaro de burro por ter fugido e acabado na boca do gato. Já o pai, calmamente e sem pressa, recolheu a peninha do chão, guardou-a no bolso do casaco e exibiu uma expressão tão estranha que parecia de contentamento, o que fez o menino parar de rir. 

07 – Que detalhes físicos e de comportamento sobre o pai o menino notou no momento da partida, mas decidiu esconder dos vizinhos?

      O menino percebeu, pela primeira vez, que o pai era um homem alto. Ele também estranhou o andar do pai, que agora era firme e reto, bem diferente de antes. Ao ir embora, o homem ruivo deixou o portão aberto e simplesmente não olhou para trás.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

CONTO: MENINO - (FRAGMENTO) - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: Menino – Fragmento

             Lygia Fagundes Telles

        [...]

        Ela apertou-lhe o braço. Esse gesto ele conhecia bem e significava apenas: não insista!

        – Mas, mãe…

        Inclinando-se até ele, ela falou-lhe baixinho, naquele tom perigoso, meio entre os dentes e que era usado quando estava no auge, um tom tão macio que quem a ouvisse julgaria que ela lhe fazia um elogio. Mas só ele sabia o que havia debaixo daquela maciez.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj2Vg-Rg5fy2tNj4E7DnyzxtrcsjwP4q1cqoU8IBYFht-paIIBjZSgXz5yZwkAFBZtieJTRwAfTJ2LWNJ-srCpFPhk922FrMQIJBP-F_LwHNfkOQXS0m9xo4JN3Qa-X8_qbM3_qoLHUinzF9WYS8spLXM1c9JdXDAjvSwACrV85G3mfrK-6F0wdpPJFrz4/s320/MENINO.jpg


        – Não quero que mude de lugar, está me escutando? Não quero. E não insista mais.

        Contendo-se para não dar um forte pontapé na poltrona da frente, ele enrolou o pulôver como uma bola e sentou-se em cima. Gemeu. Mas por que aquilo tudo? Por que a mãe lhe falava daquele jeito, por quê? Não fizera nada de mal, só queria mudar de lugar, só isso… Não, desta vez ela não estava sendo nem um pouquinho camarada. Voltou-se então para lembrar-lhe que estava chegando muita gente, se não mudasse de lugar imediatamente, depois não poderia mais porque aquele era o último lugar vago que restava; Olha aí, mamãe, acho que aquele homem vem pra cá! Veio. Veio e sentou-se na poltrona vazia ao lado dela.

        [...]

Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. São Paulo: Ática, 1988. p. 74.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 8ª Série – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 4ª ed. – São Paulo: Atual Editora, 2006. p. 84.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o tema central do fragmento do conto?

      O tema central do fragmento é a dinâmica complexa e tensa entre mãe e filho. Lygia Fagundes Telles explora as sutilezas do poder e da comunicação, revelando como as palavras e os gestos podem esconder sentimentos e intenções conflitantes.

02 – Como a autora utiliza a linguagem para construir a tensão entre os personagens?

      A autora utiliza uma linguagem precisa e carregada de subentendidos. A descrição do tom de voz da mãe, "macio" mas "perigoso", e a referência ao gesto do braço, que "significava apenas: não insista!", criam uma atmosfera de tensão e apreensão. A aparente calma esconde uma ameaça velada, que o menino reconhece e teme.

03 – Qual o significado da insistência do menino em mudar de lugar?

      A insistência do menino em mudar de lugar pode ser interpretada como uma tentativa de afirmar sua individualidade e autonomia. Ele busca desafiar a autoridade da mãe, mesmo que de forma sutil, e expressar seu descontentamento com a situação.

04 – Como a chegada do homem ao lado da mãe afeta a dinâmica da cena?

      A chegada do homem ao lado da mãe intensifica a frustração do menino. Ele se sente impotente diante da situação, pois sua tentativa de alertar a mãe sobre a falta de lugares vagos é ignorada. A presença do homem também pode sugerir um ciúme velado por parte do menino, que se sente excluído da atenção da mãe.

05 – Qual a mensagem principal que Lygia Fagundes Telles transmite com esse fragmento?

      Lygia Fagundes Telles transmite uma mensagem sobre a complexidade das relações familiares, especialmente a relação entre mãe e filho. O fragmento revela como o amor e o poder podem se entrelaçar, gerando conflitos e frustrações. A autora também explora a fragilidade da comunicação, mostrando como as palavras podem esconder sentimentos e intenções ocultas.

 

 

sexta-feira, 28 de março de 2025

CONTO: CAVALOS SELVAGENS - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: Cavalos selvagens

           Lygia Fagundes Telles

        O homem de grandes negócios fecha a pasta de zíper e tom o avião da tarde. O homem de negócios miúdos enche o bolso de miudezas e toma o ônibus da madrugada. A mulher elegante faz Cooper e sauna na quinta-feira. A mulher não elegante faz feira no sábado. A freira faz orações diariamente em horas certas. A prostituta faz o trottoir todos os dias em certas horas. O patriarca joga bridge e faz amor segundo o calendário. O operário joga bilhar e faz amor nos feriados. Homens, mulheres e crianças – todos com seus dias previstos e organizados: amanhã tem missa de sétimo dia, depois de amanhã tem casamento. Batizado na terça e, na quarta, macarronada, que a feijoada fica para sábado, comemoração prévia do futebol de domingo, vitória certa, ora sei!... As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, umas de ouro, outras de aço, estas mais simples, mais complexas aquelas lá adiante, azeitadas para o movimento que é uma fatalidade, taque-taque taque-taque… Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqW4pMBKTX_shbx8e65ecrB8dwWW8SDAD12NmiAdnOFjEUo0DQ38V_QAMsHVYGuE439d1PP6Y62weCNqyxDDrkFx7xzqk4xdB4Kcsq2uj_e6dCcY6A4e6Vqg6kSEGKGEqQexKGphdOO8Lg5W0KGdzYKdXT0J8faXBPiqvYR8P7RoKOtXGC5PYS7TWWwgE/s320/cavalosselvagens-240411195611-d94f9e7e-thumbnail.jpg


        Às vezes, por motivos obscuros ou claros, uma rodinha da engrenagem salta fora e fica desvairada além do tempo, do espaço – onde? A máquina prossegue no seu funcionamento que é uma condenação, apenas aquela rodinha já não faz parte dessa ordem. “É um desajustado” – diz o médico, o amigo íntimo, o primo, a mulher, a amante, o chefe. Há que readaptá-lo depressa à engrenagem familiar e social, apertar esses parafusos docemente frouxos. Se o desajustado é um adolescente, mais fácil reconduzi-lo com a ajuda psicólogos, analistas, padres, orientadores, educadores – mas por que ele ainda não está nos eixos? Por que tem que haver certas peças resistindo assim inconformadas? Não interessa curá-lo, mas neutralizá-lo, taque-taque taque-taque.

        Pronto, passou a crise? Todos concordam, ele está ótimo ou quase. Mas às vezes o olhar tem aquela expressão que ninguém alcança e volta o fervor antigo, cólera e gozo nos descompromissamentos e rupturas – aguda a lembrança violenta do cheiro de mato que recusa o asfalto, o elevador, a disciplina, ah! vontade de fugir sem olhar para trás, desatino e alegria de um cavalo selvagem, os fogosos cavalos de crina e narinas frementes, escapando do laço do caçador. Na história de Arthur Miller, eram os pobres cavalos selvagens destinados a uma fábrica que os transformaria num precioso produto enlatado. O instinto, só o instinto os advertia das armadilhas nas madrugadas. E fugiam galopando por montes, rios, vales – até quando?

        Inexperiência ou cansaço? Cavalos e homens acabam por voltar à engrenagem. Muitos esquecem mas alguns ainda se lembram e o olhar toma aquela expressão que ninguém entende, ânsia de liberdade. De paixão. Em fragmentos de tempo voltam a ser inabordáveis mas a máquina vigilante descobre os rebeldes e aciona o alarme, mais poderoso o apelo, taque-taque TAQUE-TAQUE! Inútil. Ei-los de novo desembestados: “Laçá-los é o mesmo que laçar um sonho”.

Lygia Fagundes Telles, A disciplina do amor. 2 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. p. 131-2.

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. Faraco & Moura – 1ª edição – 4ª impressão. Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 13-14.

Entendendo o conto:

01 – Qual é a metáfora central utilizada no conto "Cavalos Selvagens" para descrever a sociedade?

      A sociedade é comparada a uma máquina com engrenagens, representando a rotina e a padronização da vida cotidiana.

02 – O que representam os "cavalos selvagens" no contexto do conto?

      Os cavalos selvagens simbolizam a liberdade, o desejo de romper com a rotina e a resistência à conformidade social.

03 – Qual é a atitude da sociedade em relação àqueles que se desviam da norma?

      A sociedade busca "readaptar" os "desajustados", neutralizando sua individualidade e reconduzindo-os à engrenagem social.

04 – Como o conto aborda a questão da liberdade individual versus a conformidade social?

      O conto explora a tensão entre o desejo de liberdade e a pressão para se conformar às normas sociais, mostrando a luta entre a individualidade e a padronização.

05 – Qual é o significado da frase "Laçá-los é o mesmo que laçar um sonho"?

      Essa frase destaca a dificuldade de aprisionar o desejo de liberdade e a natureza intangível dos sonhos e aspirações individuais.

06 – De que forma Lygia Fagundes Telles usa a linguagem para transmitir a sensação de opressão e desejo de liberdade?

      A autora utiliza uma linguagem concisa e direta para descrever a rotina opressiva, intercalando com passagens poéticas que evocam a beleza e a intensidade da liberdade.

07 – Qual é a mensagem principal que Lygia Fagundes Telles busca transmitir com o conto "Cavalos Selvagens"?

      A mensagem principal é uma reflexão sobre a natureza da liberdade individual e a luta contra as forças da conformidade social, além de instigar o leitor a questionar a própria relação com a rotina e os desejos de liberdade.

 

 

domingo, 5 de janeiro de 2025

CONTO: AS CEREJAS - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: As cerejas

            Lygia Fagundes Telles

        Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de crochê com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, “vocês não viram onde deixei meus óculos?” A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, “esta receita é nova...” Tia Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, “fico exausta no calor...” Marcelo muito louro – porque não me lembro da voz dele? – agarrado à crina do cavalo, agarrado à cabeleira de tia Olívia, os dois tombando lividamente azuis sobre o divã. “Você levou as velas à tia Olívia?”, perguntou Madrinha lá embaixo. O relâmpago apagou-se. E no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencando no chão.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjgxvdYnmwNHpLRbLf6M2LMVPyTp5ZKFIcbzutFclcpkw4Jjten1Oss3qaBiq1L_9QTiyRZOTSnnDwgl20qlOc3HqVcs20GIfuvXgDts8Gt82TPAdPNmccuWqkh2FCfXKN1v7pvBbmTU1c5y2S_BEX7v0wc_9yNuPHyjtZhhZAELVDy14InauUGEkYQL0A/s320/CEREJAS.jpg

        A casa em meio do arvoredo, o rio, as tardes como que suspensas na poeira do ar – desapareceu tudo sem deixar vestígios. Ficaram as cerejas, só elas resistiram com sua vermelhidão de loucura. Basta abrir a gaveta: algumas foram roídas por alguma barata e nessas o algodão estoura, empelotado, não, tia Olívia, não eram de cera, eram de algodão suas cerejas vermelhas.

        Ela chegou inesperadamente. Um cavaleiro trouxe o recado do chefe da estação pedindo a charrete para a visita que acabara de desembarcar.

        -- É Olívia! – exclamou Madrinha. – É a prima! Alberto escreveu dizendo que ela viria, mas não disse quando, ficou de avisar. Eu ia mudar as cortinas, bordar umas fronhas e agora!...Justo Olívia. Vocês não podem fazer ideia, ela é de tanto luxo e a casa aqui é tão simples, não estou preparada, meus céus! O que é que eu faço, Dionísia, me diga agora o que é que eu faço!

        Dionísia folheava tranquilamente um livro de receitas. Tirou um lápis da carapinha tosada e marcou a página com uma cruz.

        -- Como se já não bastasse esse menino que também chegou sem aviso...

        O menino era Marcelo. Tinha apenas dois anos mais do que eu, mas era tão alto e parecia tão adulto com suas belas roupas de montaria, que tive vontade de entrar debaixo do armário quando o vi pela primeira vez.

        -- Um calor na viagem! – gemeu tia Olívia em meio de uma onda de perfumes e malas. – E quem é este rapazinho?

        -- Pois este é o Marcelo, filho do Romeu – disse Madrinha. – Você não se lembra do Romeu? Primo-irmão do Alberto...

        Tia Olívia desprendeu do chapeuzinho preto dois grandes alfinetes de pérola em formado de pera. O galho de cerejas estremeceu no vértice do decote da blusa transparente. Desabotoou o casaco.

        -- Ah, minha querida, Alberto tem tantos parentes, uma família enorme! Imagine se vou me lembrar de todos com esta minha memória. Ele veio passar as férias aqui?

        Por um breve instante Marcelo deteve em tia Olívia o olhar frio. Chegou a esboçar um sorriso, aquele mesmo sorriso que tivera quando Madrinha, na sua ingênua excitação, nos apresentou a ambos, “pronto, Marcelo, aí está sua priminha, agora vocês poderão brincar juntos”. Ele então apertou um pouco os olhos. E sorriu.

        -- Não estranhe, Olívia, que ele é por demais arisco – segredou Madrinha ao ver que Marcelo saía abruptamente da sala. – Se trocou comigo meia dúzia de palavras, foi muito. Aliás, toda a gente de Romeu é assim mesmo, são todos muito esquisitos. Esquisitíssimos!

        Tia Olívia ajeitou com as mãos em concha o farto coque preso na nuca. Umedeceu os lábios com a ponta da língua.

        -- Tem charme...

        Aproximei-me fascinada. Nunca tinha visto ninguém como tia Olívia, ninguém com aqueles olhos pintados de verde e com aquele decote assim fundo.

        -- É de cera? – perguntei tocando-lhe uma das cerejas.

        Ela acariciou-me a cabeça com um gesto distraído. Senti bem de perto seu perfume.

        -- Acho que sim, querida. Por quê? Você nunca viu cerejas?

        -- Só na folhinha.

        Ela teve um risinho cascateante. No rosto muito branco a boca parecia um largo talho aberto, com o mesmo brilho das cerejas.

        -- Na Europa são tão carnudas, tão frescas.

        Marcelo também tinha estado na Europa com o avô. Seria isso? Seria isso que os fazia infinitamente superiores a nós? Pareciam feitos de outra carne e pertencer a um outro mundo tão acima do nosso, ah! como éramos pobres e feios. Diante de Marcelo e tia Olívia, só diante dos dois é que eu pude avaliar como éramos pequenos: eu, de unhas roídas e vestidos feitos por Dionísia, vestidos que pareciam as camisolas das bonecas de jornal que Simão recortava com a tesoura do jardim. Madrinha, completamente estrábica e tonta em meio das suas rendas e crochês. Dionísia, tão preta quanto enfatuada com as tais receitas secretas.

        -- Não quero é dar trabalho – murmurou tia Olívia dirigindo-se ao quarto. Falava devagar, andava devagar. Sua voz foi se afastando com a mansidão de um gato subindo a escada. – Cansei-me muito, querida. Preciso apenas de um pouco de sossego...

        Agora só se ouvia a voz de Madrinha que tagarelava sem parar: a chácara era modesta, modestíssima, mas ela haveria de gostar, por que não? O clima era uma maravilha e o pomar nessa época do ano estava coalhado de mangas. Ela não gostava de mangas? Não?...Tinha também bons cavalos se quisesse montar, Marcelo poderia acompanhá-la, era um ótimo cavaleiro, vivia galopando dia e noite. Ah, o médico proibira? Bem, os passeios a pé também eram lindos, havia no fim do caminho dos bambus um lugar ideal para piqueniques, ela não achava graça num piquenique?

        Fui para a varanda e fiquei vendo as estrelas por entre a folhagem da paineira. Tia Olívia devia estar sorrindo, a umedecer com a ponta da língua os lábios brilhantes. Na Europa eram tão carnudas... Na Europa.

        Abri a caixa de sabonete escondida sob o tufo de samambaia. O escorpião foi saindo penosamente de dentro. Deixei-o caminhar um bom pedaço e só quando ele atingiu o centro da varanda é que me decidi a despejar a gasolina. Acendi o fósforo. As chamas azuis subiram num círculo fechado. O escorpião rodou sobre si mesmo, erguendo-se nas patas traseiras, procurando uma saída. A cauda contraiu-se desesperadamente. Encolheu-se. Investiu e recuou em meio das chamas que se apertavam mais.

        -- Será que você não se envergonha de fazer uma maldade dessas? Voltei-me. Marcelo cravou em mim o olhar feroz. Em seguida, avançando para o fogo, esmagou o escorpião no tacão da bota.

        -- Diz que ele se suicida, Marcelo...

        -- Era capaz mesmo quando descobrisse que o mundo está cheio de gente como você.

        Tive vontade de atirar-lhe a gasolina na cara. Tapei o vidro.

        -- E não adianta ficar furiosa, vamos, olhe para mim! Sua boba. Pare de chorar e prometa que não vai mais judiar dos bichos.

         Encarei-o. Através das lágrimas ele pareceu-me naquele instante tão belo quanto um deus, um deus de cabelos dourados e botas, todo banhado de luar. Fechei os olhos. Já não me envergonhava das lágrimas, já não me envergonhava de mais nada. Um dia ele iria embora do mesmo modo imprevisto como chegara, um dia ele sairia sem se despedir e desapareceria para sempre. Mas isso também já não tinha importância. Marcelo, Marcelo! chamei. E só meu coração ouviu.

        Quando ele me tomou pelo braço e entrou comigo na sala, parecia completamente esquecido do escorpião e do meu pranto. Voltou-lhe o sorriso.

        -- Então é essa a famosa tia Olívia? Ah, ah, ah.

        Enxuguei depressa os olhos na barra da saia.

        -- Ela é bonita, não?

        Ele bocejou.

        -- Usa um perfume muito forte. E aquele galho de cerejas dependurado no peito. Tão vulgar.

        -- Vulgar?

        Fiquei chocada. E contestei, mas em meio da paixão com que a defendi, senti uma obscura alegria ao perceber que estava sendo derrotada.

        -- E, além do mais, não é meu tipo – concluiu ele voltando o olhar indiferente para o trabalho de crochê que Madrinha deixara desdobrado na cadeira. Apontou para o anjinho esvoaçando entre grinaldas. - Um anjinho cego.

        -- Por que cego? – protestou Madrinha descendo a escada. Foi nessa noite que perdeu os óculos. – Cada ideia, Marcelo!

        Ele debruçara-se na janela e parecia agora pensar em outra coisa.

        -- Tem dois buracos em lugar dos olhos.

        -- Mas crochê é assim mesmo, menino! No lugar de cada olho deve ficar uma casa vazia – esclareceu ela sem muita convicção. Examinou o trabalho. E voltou-se nervosamente para mim. – Por que não vai buscar o dominó para vocês jogarem uma partida? E vê se encontra meus óculos que deixei por aí.

        Quando voltei com o dominó, Marcelo já não estava na sala. Fiz um castelo com as pedras. E soprei-o com força. Perdia-o sempre, sempre. Passava as manhãs galopando como louco. Almoçava rapidamente e mal terminava o almoço, fechava-se no quarto e só reaparecia no lanche, pronto para sair outra vez. Restava-me correr ao alpendre para vê-lo seguir em direção à estrada, cavalo e cavaleiro tão colados um ao outro que pareciam formar um corpo só.

        Como um só corpo os dois tombaram no divã, tão rápido o relâmpago e tão longa a imagem, ele tão grande, tão poderoso, com aquela mesma expressão com que galopava como que agarrado à crina do cavalo, arfando doloridamente na reta final.

        Foram dias de calor atroz os que antecederam à tempestade. A ansiedade estava no ar. Dionísia ficou mais casmurra. Madrinha ficou mais falante, procurando disfarçadamente os óculos nas latas de biscoitos ou nos potes de folhagens, esgotada a busca em gavetas e armários. Marcelo pareceu-me mais esquivo, mais crispado. Só tia Olívia continuava igual, sonolenta e lânguida no seu negligê branco. Estendia-se na rede. Desatava a cabeleira. E com um movimento brando ia se abanando com a ventarola. Às vezes vinha com as cerejas que se esparramavam no colo polvilhado de talco. Uma ou outra cereja resvalava por entre o rego dos seios e era então engolida pelo decote.

        -- Sofro tanto com o calor...

        Madrinha tentava animá-la.

        -- Chovendo, Olívia, chovendo você verá como vai refrescar.

        Ela sorria umedecendo os lábios com a ponta da língua.

        -- Você acha que vai chover?

        -- Mas claro, as nuvens estão baixando, a chuva já está aí. E vai ser um temporal daqueles, só tenho medo é que apanhe esse menino lá fora. Você já viu menino mais esquisito, Olívia? Tão fechado não? E sempre com aquele arzinho de desprezo.

        -- É da idade, querida. É da idade.

        -- Parecido com o pai. Romeu também tinha essa mesma mania com cavalo.

        -- Ele monta tão bem. Tão elegante.

        Defendia-o sempre enquanto ele a atacava, mordaz, implacável: “É afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco”. Eu contestava, mas de tal forma que o incitava a prosseguir atacando.

        Lembro-me de que as primeiras gotas de chuva caíram ao entardecer, mas a tempestade continuava ainda em suspenso, fazendo com que o jantar se desenrolasse numa atmosfera abafada. Densa. Pretextando dor de cabeça, tia Olívia recolheu-se mais cedo. Marcelo, silencioso como de costume, comeu de cabeça baixa. Duas vezes deixou cair o garfo.

        -- Vou ler um pouco – despediu-se assim que nos levantamos.

        Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente às escuras enquanto a tempestade desabava.

        -- Queimou o fusível! – gemeu Madrinha. – Vai, filha, vai depressa buscar o maço de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Olívia. E fósforos, não esqueça os fósforos!

        Subi a escada. A escuridão era tão viscosa, que se eu estendesse a mão poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do relâmpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enlaçados no divã.

        Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e lívida com os dois corpos rolando na ventania.

        -- Levou as velas para a tia Olívia? - perguntou Madrinha.

        Desabei num canto, fugindo da luz do castiçal aceso em cima da mesa.

        -- Ninguém respondeu, ela deve estar dormindo.

        -- E Marcelo?

        -- Não sei, deve estar dormindo também.

        Madrinha aproximou-se com o castiçal.

        -- Mas que é que você tem, menina? Está doente? Não está com febre? Hem?! Sua testa está queimando... Dionísia, traga uma aspirina, esta menina está com um febrão, olha aí!

        Até hoje não sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão.

        -- Foi um sarampo tão forte – disse Madrinha ao entrar certa manhã no quarto. – E como você chorava, dava pena ver como você chorava! Nunca vi um sarampo doer tanto assim.

        Sentei-me na cama e fiquei olhando uma borboleta branca pousada no pote de avencas da janela. Voltei-me em seguida para o céu limpo. Havia um passarinho cantando na paineira. Madrinha então disse:

        -- Marcelo foi-se embora ontem à noite, quando vi, já estava de mala pronta, sabe como ele é. Veio até aqui se despedir, mas você estava dormindo tão profundamente.

        Dois dias depois, tia Olívia partia também. Trazia o costume preto e o chapeuzinho com os alfinetes de pérola espetados no feltro. Na blusa branca, bem no vértice do decote, o galho de cerejas.

        Sentou-se na beirada da minha cama.

        -- Que susto você nos deu, querida – começou com sua voz pesada. – Pensei que fosse alguma doença grave. Agora está boazinha, não está?

        Prendi a respiração para não sentir seu perfume.

        -- Estou.

        -- Ótimo! Não te beijo porque ainda não tive sarampo – disse ela calçando as luvas. Riu o risinho cascateante. – E tem graça eu pegar nesta altura doença de criança?

        Cravei o olhar nas cerejas que se entrechocavam sonoras, rindo também entre os seios. Ela desprendeu-as rapidamente.

        -- Já vi que você gosta, pronto, uma lembrança minha.

        -- Mas ficam tão lindas aí – lamentou Madrinha. – Ela nem vai poder usar, bobagem, Olívia, leve suas cerejas!

        -- Comprarei outras.

        Durante o dia seu perfume ainda pairou pelo quarto. Ao anoitecer, Dionísia abriu as janelas. E só ficou o perfume delicado da noite.

        -- Tão encantadora a Olívia – suspirou Madrinha sentando-se ao meu lado com sua cesta de costura. – Vou sentir falta dela, um encanto de criatura. O mesmo já não posso dizer daquele menino. Romeu também era assim mesmo, o filho saiu igual. E só às voltas com cavalos, montando em pelo, feito índio. Eu quase tinha um enfarte quando via ele galopar.

        Exatamente um ano depois ela repetiria, num outro tom, esse mesmo comentário ao recebera carta onde Romeu comunicava que Marcelo tinha morrido de uma queda de cavalo.

        -- Anjinho cego, que ideia! – prosseguiu ela desdobrando o crochê nos joelhos. – Já estou com saudades de Olívia, mas dele?

        Sorriu alisando o crochê com as pontas dos dedos. Tinha encontrado os óculos.

As cerejas. São Paulo: Atual, 1992. p. 4-15.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 2 / William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 11. Ed. Ensino médio – São Paulo: Saraiva, 2016. p. 164-172.

Entendendo o conto:

01 – Qual o significado das cerejas no conto?

      As cerejas representam a sensualidade, a maturidade e a passagem para a vida adulta. Elas são um símbolo da beleza, do desejo e do proibido, contrastando com a inocência da infância representada pela narradora.

02 – Qual o papel de Tia Olívia na história?

      Tia Olívia é uma figura enigmática e sedutora, que representa a sensualidade e a experiência. Ela serve como catalisador para a despertar da sexualidade da narradora e para a descoberta de um mundo adulto e complexo.

03 – Qual o significado da tempestade no conto?

      A tempestade simboliza a perturbação interior da narradora, a descoberta da sexualidade e a desilusão com a figura de Marcelo. É um momento de transformação e de passagem para uma nova fase da vida.

04 – Qual o papel de Marcelo na história?

      Marcelo representa a figura do adolescente rebelde e misterioso, que desperta o interesse e a paixão da narradora. Ele é um símbolo da sexualidade masculina e da descoberta do corpo.

05 – Qual a importância do ambiente da chácara na narrativa?

      A chácara é o cenário da descoberta da sexualidade e da passagem da infância para a adolescência. É um lugar isolado e protegido, onde a narradora pode experimentar novas sensações e emoções.

06 – Qual o significado da cegueira do anjinho de crochê?

      A cegueira do anjinho simboliza a inocência perdida e a descoberta da realidade, que muitas vezes é cruel e dolorosa. É uma metáfora para a perda da ingenuidade infantil.

07 – Qual a importância da linguagem utilizada por Lygia Fagundes Telles no conto?

      A linguagem de Lygia Fagundes Telles é rica em simbolismo e sugestões, criando uma atmosfera sensível e poética. As descrições detalhadas dos personagens e do ambiente contribuem para a construção de um universo rico e complexo.

08 – Quais os temas abordados no conto "As Cerejas"?

      O conto aborda temas como a passagem da infância para a adolescência, a descoberta da sexualidade, a complexidade das relações humanas, a perda da inocência e a busca pela identidade.

09 – Qual a importância do final do conto?

      O final do conto é ambíguo e deixa margem para diversas interpretações. A narradora, agora adulta, relembra sua experiência com nostalgia e melancolia, revelando a marca que a adolescência deixou em sua vida.

10 – Qual a relevância de "As Cerejas" na obra de Lygia Fagundes Telles?

      "As Cerejas" é um conto representativo da obra de Lygia Fagundes Telles, que se destaca por sua sensibilidade na abordagem de temas como a sexualidade, a mulher e a passagem do tempo. O conto revela a habilidade da autora em criar personagens complexos e em construir narrativas ricas em simbolismo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

CONTO: MYSTERIUM - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: Mysterium

           Lygia Fagundes Telles

        “Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende do tempo e do acaso.” 

(Eclesiastes) 

        Ao tempo e ao acaso eu acrescento o grão de imprevisto. E o grão da loucura, a razoável loucura que é infinita na nossa finitude. Vejo minha vida e obra seguindo assim por trilhos paralelos e tão próximos, trilhos que podem se juntar (ou não) lá adiante mas tudo sem explicação, não tem explicação. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghtdfwsCTWFNPDPhGqkON7KBgkHt4CBtdTQe8BBiBkb4QW_8f8SwpXmyLhH-pIZIFTAY1oh-sy-6rKhVJUO-XvgEZhMrSXPYRCoq54Z3Nd5OtjDUEYm-HwSpnPR77pXQLa_wHcMZVSufdii83JYtFxf8ep1garbsqLuWuhPlP7gT69tyM_Vc-i95fgCzw/s320/IMPREVISTO.jpg


        Os leitores pedem explicações, são curiosos e fazem perguntas. Respondo. Mas se me estendo nas respostas, acabo por pular de um trilho para outro e começo a misturar a realidade com o imaginário, faço ficção em cima de ficção, Ah! Tanta vontade (disfarçada) de seduzir o leitor, esse leitor que gosta do devaneio. Do sonho. Queria estimular sua fantasia mas agora ele está pedindo lucidez, quer a luz da razão.

        Não gosto de teorizar porque na teoria acabo por me embrulhar feito um caramelo em papel transparente, me dê um tempo! Eu peço. Quero ficar fria, espera. Espera que estou me aventurando na busca das descobertas. “Devagar já é pressa!”, disse Guimarães Rosa. Preciso agora atravessar o cipoal dos detalhes e são tantos! E tamanha a minha perplexidade diante do processo criador, Deus! Os indevassáveis signos e símbolos. Ainda assim, avanço em meio da névoa, quero ser clara em meio desse claro que de repente ficou escuro, estou perdida? 

        Mais perguntas, como nasce um conto? E um romance? Recorro a uma certa aula distante (Antônio Candido) onde aprendi que num texto literário há sempre três elementos: a ideia, o enredo e a personagem. A personagem, que pode ser aparente ou inaparente, não importa. Que pode ser única ou se repetir, tive uma personagem que recorreu à máscara para não ser descoberta, quis voltar num outro texto e usou disfarce, assim como faz qualquer ser humano para mudar de identidade. 

        Na tentativa de reter o questionador, acabo por inventar uma figuração na qual a ideia é representada por uma aranha. A teia dessa aranha seria o enredo. A trama. E a personagem, o inseto que chega naquele voo livre e acaba por cair na teia da qual não consegue fugir, enleado pelos fios grudentos. Então desce (ou sobe) a aranha e nhac! Prende e suga o inseto até abandoná-lo vazio. Oco. 

        O questionador acha a imagem meio dramática mas divertida, consegui fazê-lo sorrir? Acho que sim. Contudo, há aquele leitor desconfiado, que não se deixou seduzir porque quer ver as personagens em plena liberdade e nessa representação elas estão como que sujeitas a uma destinação. A uma condenação. E cita Jean-Paul Sartre que pregava a liberdade também para as personagens, ah! Odiosa essa fatalidade dos seres humanos (inventados ou não) caminhando para o bem e para o mal. Sem mistura.

        Começo a me sentir prisioneira dos próprios fios que fui inventar, melhor voltar às divagações iniciais onde vejo (como eu mesma) o meu próximo também embrulhado. Ou embuçado? Desembrulhando esse próximo, também vou me revelando e na revelação, me deslumbro para me obumbrar novamente nesta viragem-voragem do ofício. 

TELLES, Lygia Fagundes. Durante aquele estranho chá: perdidos e achados. Rio de Janeiro: Editora Rocco, Rio: 2002.

Fonte: Português – José De Nicola – Ensino médio – Volume 1 – 1ª edição, São Paulo, 2009. Editora Scipione. p. 203-204.

Entendendo o conto:

01 – Qual a principal temática abordada no conto?

      A principal temática é o processo criativo da escrita. Lygia Fagundes Telles reflete sobre as dificuldades e os prazeres de escrever, a relação entre o autor e o leitor, e a natureza da ficção.

02 – Qual a importância da citação de Eclesiastes no início do conto?

      A citação de Eclesiastes introduz a ideia da incerteza e da imprevisibilidade da vida. Ela estabelece um paralelo com o processo criativo, que também é marcado pela incerteza e pela busca por significado.

03 – Qual a metáfora utilizada pela autora para representar o processo de criação?

      A autora utiliza a metáfora da aranha e da teia para representar o processo de criação. A aranha tece a trama, que seria o enredo, e o inseto capturado representaria a personagem. Essa metáfora sugere que o escritor captura e manipula elementos da realidade para criar suas histórias.

04 – Qual a importância da interação entre o autor e o leitor para Lygia Fagundes Telles?

      A interação entre o autor e o leitor é fundamental para Lygia Fagundes Telles. Ela destaca a curiosidade dos leitores e a necessidade de explicar o processo criativo. Ao mesmo tempo, ela questiona a possibilidade de oferecer explicações definitivas e completas sobre a criação literária.

05 – Como a autora aborda a questão da liberdade e do destino nas personagens?

      A autora apresenta diferentes perspectivas sobre a liberdade e o destino das personagens. Por um lado, a metáfora da aranha e da teia sugere que as personagens estão presas a uma trama pré-determinada. Por outro lado, a autora reconhece a importância da liberdade e da autonomia das personagens.

06 – Qual a relação entre o conto e a vida real?

      O conto estabelece uma relação entre o processo criativo e a vida real. A autora utiliza elementos da realidade para construir suas histórias, mas também reconhece a importância da imaginação e da ficção. A busca por significado tanto na vida quanto na literatura é um tema central do conto.

07 – Qual a principal mensagem do conto "Mysterium"?

      A principal mensagem do conto é que o processo criativo é um mistério. Não há uma fórmula única para criar uma obra de arte, e cada escritor utiliza suas próprias ferramentas e estratégias. A escrita é uma jornada de descoberta e de autoconhecimento.