Conto: Lenda dos Estremoços
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiInzXAGAfNqfpL-VA35iZrq4WKuQFtDaVgvxx6g7_1hBGRmA5VMIeX2kr1tvSdICTaDzWWppspbBwTSJ29xl2V5xxWz1eI4INzCEmg_UvFcTUChSddxLgvoLjHDYZsQiAHNU6Q3aJwDhygqsXfkowTGJIlRbivKqAi5McQMdqU2r5N0MaBd4kHT7BPTg/s320/Estremo%C3%A7os.jpg De
súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem
refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a
mulher:
—
Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!
A
mulher concordou:
—
É das mais belas que tenho visto!
Curiosa,
a pequenita filha do casal perguntou logo:
—
Mãezinha, como se chama esta árvore?
Foi
o pai quem respondeu:
—
Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a
verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!
A
criança olhou os pais. E arriscou:
—
E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…
O
homem sorriu:
—
Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos à nossa
vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário
levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.
A
pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era
o Paraíso…
—
Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro
por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!...
O
homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente.
Atentamente.
—
Isto é grande! Mas não vejo ninguém... Tanto melhor!
E,
na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou
erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos
foragidos naquela terra de liberdade...
Porém,
uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho
forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao
interpelar os recém-chegados:
—
Com que direito entrastes nos meus domínios?
O
outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:
—
E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?
O
velho bateu com o bordão na terra:
—
Sou o dono de tudo isto... de todo este plaino... Do tremoceiro, que plantei
por minhas mãos... das árvores que há em redor...
— E nós somos viandantes... ou para
melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos...
O
velho resmungou, num ar de suspeita:
—
Talvez assassinos… ou ladrões...
Desta
vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu,
numa vozita indignada:
—
Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos...
O
senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:
—
O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se
no meu caminho!
O
viandante curvou-se:
—
É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de
insultar-nos!
Então,
a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:
—
Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!...
Saireis a bem... ou à força!
Altivo,
o homem que viera de longe retorquiu:
—
Pois já que nos ameaçais... dir-vos-ei que só à força sairemos... se tiverdes
poder para isso!
O
grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.
—
Já que assim o quereis... assim o tereis! Os meus homens não tardarão a
expulsar-vos!
E,
ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o
esperava — e abalou...
Mas, pouco tempo depois, voltou
com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para
encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava
em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:
—
Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos
odeiam! Porquê, meu Deus?... Porquê?
Mas
já o marido lhe recomendava, enérgico:
—
Defende tu aí essa entrada... Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um
fidalgo como eu se rendeu pela força...
Um
grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma
expressão apavorada.
—
A nossa filha?... A nossa filha onde está, que não a vejo?
Ele
inquietou-se:
—
Mas... vi-a há pouco, junto de ti!
—
Sim… enquanto estávamos descansando... Mas agora... Agora não sei dela!...
O
homem rangeu os dentes:
—
Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de
pagar-mo bem caro!
Entretanto,
indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados
e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando
este a viu perguntou, espantado:
—
Tu? Aqui? Como ousaste?
A
pequenina sorriu com candura:
—
Com a ajuda de Deus, meu senhor... Preciso falar-vos!
—
Falar comigo?
Havia
desconfiança na voz do velho.
—
Ah! Não será uma armadilha?
A
rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.
—
Armadilha? Oh... Não! Não poderia fazer-vos mal... Sou tão pequena ainda...
O
velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a
sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:
—
Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que
pretendes...
Ela
mostrou-se alegre.
—
Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!...
—
Tu... a pensar? E que foi?
—
Ora... Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia
construir-se uma povoação também bonita e grande... capaz de causar inveja às
outras povoações...
Foi
a vez do velho sorrir à criança.
—
Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?
—
Com boa amizade e paz.
O
velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio
pensamento.
—
Com boa amizade e paz…
Então
a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa,
esperando ordem de ataque.
—
Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o
senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e
aproveitando o trabalho dos seus homens…
O
velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.
—
Ora esta! Uma catraia como tu... com uma ideia tão grande! Donde te veio
semelhante pensamento?
Ela
sorriu, ingénua.
—
Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!
Houve
um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto
horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:
—
Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos
seremos bons amigos e companheiros!
E
nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto
de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o
velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:
—
Venho em missão de paz e amizade!
A
mulher respondeu-lhe, já com voz serena:
—
Sede bem-vindo, senhor!
Afável
também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de
confraternização.
—
Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!
O
velho acrescentou intencionalmente:
—
Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!
—
Como?
—
De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós... Sei que sois um
grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante...
O
homem interrompeu-o, perplexo:
—
O quê?... Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um
fidalgo... E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!
—
Mas... a vossa filha disse-me...
Houve
um leve sorriso nas expressões do casal.
—
Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós…
acreditastes...
O
velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e
receosa...
—
Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar...
Mas
a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina
pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e
falou devagar, espiando as reações dele:
—
Oh, meu Senhor... eu não vos enganei... Reparai no que vos disse:
Com
o auxílio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do
tremoceiro... Pois não é verdade?
O
velho voltou a sorrir.
—
Tens razão... O que é preciso é haver boa amizade e paz!
E
sublinhou, puxando-a para si com ternura:
—
Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!
Dentro em breve, o sonho da
rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando
esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a
sua primeira rua.
Agora,
sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que
conquistara de novo a felicidade.
E
a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe
voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.
—
Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu
a dar foral à nossa terra!
Foi
uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se,
como se todos fossem irmãos.
Depois,
o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:
—
Temos de dar um nome à nossa terra... Um nome bonito, sonante, que fique para a
posteridade... Qual deve ser esse nome?
As
opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de
cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros... Depressa se
estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade
incontestada, resolveu intervir:
—
Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa
capaz de nos indicar um nome bonito... Sabeis a quem me refiro, com certeza. A
ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um
nome para ela.
Todos
se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por
tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de
perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam
ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir
uma lição já decorada:
—
Bem... Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra... parece-me que o
melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa
sombra... Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a
Lua... Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!
Houve
um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que
estavam todos maravilhados.
E
foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:
—
Muito bem!... A garota falou como uma pequena sábia... Na verdade, devemos dar
à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços
foram o pão nosso de cada dia...
Pois
também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos
Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de
hoje... E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo
por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua... a perpetuar assim
pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que
falara, de facto, como uma menina sábia...
Depois,
com o correr dos tempos, tudo se foi alterando... O nome dos estremoços passou
a ser apenas tremoços... E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a
designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se
ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do
Alentejo.
Gentil Marques
Entendendo o conto:
01 – No início do
conto, quais as circunstâncias adversas que motivaram a viagem da família e
qual a importância do tremoceiro no momento em que decidem interromper a
jornada?
A família
encontrava-se em fuga devido a perseguições motivadas por "ódios
políticos" em sua terra natal, nos contrafortes da serra. Eles viajavam
sob um sol escaldante e abrasador na planície além do rio Tejo, sofrendo com o
pó do caminho, o cansaço e uma sede torturante. O tremoceiro surge nesse cenário
como uma "sombra larga e acolhedora", funcionando como um verdadeiro
oásis no deserto. A imponência e o frescor da árvore oferecem o alívio físico
imediato que a família precisava, motivando-os a montar ali a sua tenda de
campanha para se sentirem, finalmente, livres de inimigos.
02 – Ao confrontar a
família na manhã seguinte, o velho proprietário demonstra hostilidade. Como a
filha do casal reage a essa agressividade e de que forma essa primeira
interação prefigura o papel que a criança desempenhará na história?
Quando o velho
acusa a família de ter invadido as suas terras e insinua que eles poderiam ser
ladrões ou assassinos, a criança reage com extrema indignação e coragem,
interrompendo-o para defender a honra de seus pais. Embora o velho responda
inicialmente com ironia ("A formiga já tem catarro?"), a intervenção
da menina desarma temporariamente o tom colérico do proprietário. Essa primeira
interação prefigura que a criança, apesar de sua aparente fragilidade, possui
uma maturidade, audácia e senso de justiça incomuns, indicando que ela seria a
chave para a resolução dos conflitos futuros.
03 – Diante da
iminência de um ataque armado liderado pelo velho proprietário, a criança adota
uma estratégia inusitada. Explique a "mentira ingénua" que ela conta
ao velho e qual era o seu objetivo real.
Ao caminhar
destemidamente em direção ao velho chefe entre os homens armados, a menina
utiliza-se de uma estratégia de persuasão baseada na imaginação. Ela afirma que
seu pai é um "grande construtor" e sua mãe uma excelente ajudante,
sugerindo que, em vez de guerrearem, eles deveriam se unir para construir uma
grande e bela povoação ao redor do tremoceiro. O objetivo real da criança era
paralisar o ataque iminente e salvar a vida de seus pais, substituindo o
cenário de violência por uma proposta de cooperação, paz e amizade mútua.
04 – Como o casal
reage quando descobre a história inventada pela filha e como o velho
proprietário lida com o fato de ter sido, de certa forma, "enganado"
por uma criança?
O casal reage com
surpresa e um leve sorriso, esclarecendo prontamente ao velho que o homem é, na
verdade, um fidalgo e não um construtor, justificando que a filha possui uma
"imaginação prodigiosa". O velho proprietário, ao perceber que acreditou
na história de uma "fedelha", mostra-se inicialmente incrédulo, mas
reage de forma bonacheirão e simpática. Longe de ficar furioso, ele abraça a
ideia da menina com ternura, reconhecendo que a essência da proposta —
construir uma comunidade baseada na amizade e na paz — era válida e necessária,
independentemente do disfarce inicial.
05 – A lenda
menciona um importante marco histórico e político que impulsionou o
desenvolvimento da nova povoação. Que marco foi esse e como ele alterou o
status da comunidade que estava sendo erguida?
O marco histórico
e político foi a concessão do foral àquela terra por parte de El-rei D. Afonso
III. O foral era um documento real de extrema importância na Idade Média, pois
garantia autonomia jurídica, administrativa e privilégios aos moradores da nova
comunidade. Esse ato real oficializou a existência da povoação, transformando o
assentamento informal de foragidos e trabalhadores locais em uma vila
formalmente reconhecida pela Coroa, o que gerou imenso júbilo, celebração e um
sentimento de irmandade entre todos.
06 – Explique os
argumentos utilizados pela menina para sugerir o nome de "Estremoços"
para a nova terra e como o velho chefe complementou essa escolha.
A menina sugeriu
o nome "Estremoços" argumentando que a comunidade deveria homenagear
a árvore (o tremoceiro) que lhes havia garantido a sombra acolhedora no momento
mais difícil de suas vidas, destacando que ela foi a única companheira
constante da família, junto com o Sol e a Lua. O velho chefe apoiou e
complementou a escolha acrescentando uma razão prática e de sobrevivência: os
frutos da árvore (os "estremoços", na linguagem popular da época)
funcionaram como o "pão nosso de cada dia" para os trabalhadores
durante o esforço da construção, justificando a lealdade da comunidade àquela
planta abençoada.
07 – A narrativa
conecta elementos lendários à realidade histórica e geográfica de Portugal. De
acordo com o desfecho do texto, como a antiga "Terra dos Estremoços"
se reflete na geografia e na heráldica atuais?
A lenda explica
que a herança daquela época se reflete diretamente na identidade da atual
cidade de Estremoz, localizada no distrito de Évora, no Alentejo, cujo nome
atual é uma evolução linguística de "Estremoços" (antiga designação
popular para tremoços). Além disso, a narrativa justifica a composição do
brasão original da cidade, que trazia a representação de um tremoceiro encimado
pelo escudete das quinas (símbolo de Portugal) e ladeado pelo Sol e pela Lua,
imortalizando graficamente os elementos naturais citados pela menina sábia na
fundação da terra.
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