Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de setembro de 2026

POESIA: A PEDRA - ANTÔNIO RAMOS ROSA - COM GABARITO

 Poesia: A Pedra

           Antônio Ramos Rosa

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgqSF7-9FA-sg9BPAEg9m7XngfjQq-E7QSHEtPkRXZIp6w3WUJ47x25eQIZDZxB8de3ESRbvxxlPlfo6A5iSfSw6jWsAYq1bpooZtY3NU0Kss3LyYUYfgSdrU9xFUcF88ocVeQav5-RR_S4_nMXRqmh7bG_GMMZXvYkSrflm32TDPCZwkSeL6J82iC0dA8/s320/images.jpg


ANALISANDO O TEXTO

1. A adjetivação dos quatro primeiros versos cumpre um papel diferente do que é exercido pela adjetivação dos dois últimos versos. A adjetivação dos quatro primeiros versos indica os aspectos físicos do objeto, atuando com finalidades descritivas: "opaca", "escura", "baça", "terrosa", "avermelhada", "polvilhada de cinza" fazem a descrição da pedra. Porém, há uma exceção: o adjetivo "bela", que traz uma certa subjetividade. Já os adjetivos "evidente", "impenetrável" e "preciosa" indicam a subjetividade do eu lírico, que revela os sentimentos despertados pela contemplação da pedra. Detalhe: o último adjetivo, "preciosa", é capaz de causar uma ambiguidade no poema. Não parece indicar que a pedra possua alto valor comercial, mas que se tornou rica sob o olhar de quem a contempla por suas qualidades.

2. O eu lírico consegue transformar um elemento do mundo físico num elemento repleto de humanidade através da evolução nítida da adjetivação do texto. Esta passa claramente da caracterização física para a caracterização psicológica. Assim, o texto demonstra como os dados do mundo que nos rodeiam adquirem sentidos devido à ação de nossa sensibilidade a respeito deles.  

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a diferença de função entre a adjetivação presente nos quatro primeiros versos e a utilizada nos dois últimos versos do poema?

      Os adjetivos dos quatro primeiros versos ("opaca", "escura", "baça", "terrosa", "avermelhada", "polvilhada de cinza") têm função descritiva, caracterizando os aspectos físicos da pedra. Já os adjetivos dos dois últimos versos ("evidente", "impenetrável", "preciosa") expressam a subjetividade do eu lírico e as emoções despertadas pela contemplação do objeto.

02 – Apesar de os quatro primeiros versos focarem na descrição física do objeto, qual adjetivo foge a essa regra descritiva e por quê?

      O adjetivo "bela", pois ele não descreve uma propriedade física objetiva da pedra, mas sim introduz um juízo de valor e uma percepção subjetiva do eu lírico em relação ao objeto.

03 – Como a palavra "preciosa", no último verso, gera uma ambiguidade no sentido do poema?

      O termo não indica um valor comercial ou financeiro (como o de uma pedra preciosa/joia), mas sugere que a pedra comum se tornou rica e valiosa sob o olhar atento e sensível de quem a contempla.

04 – De que maneira o poema transforma um elemento inanimado e físico do mundo em algo repleto de humanidade?

      Através da evolução da adjetivação, que transita da caracterização física para uma espécie de caracterização psicológica e afetiva, mostrando como a sensibilidade humana atribui novos sentidos ao mundo ao seu redor.

05 – Qual comparação (metáfora/símile) o eu lírico faz no segundo verso ao manusear a pedra e o que essa imagem sugere?

      O eu lírico compara o ato de segurar a pedra a "pesar gostosamente um pão", sugerindo uma relação de proximidade, afeto, tato físico e apreciação sensorial com um elemento simples da natureza.

 

 

POESIA: JÁ - ALEXANDRE O'NEILL - COM GABARITO

 Poesia:

      Alexandre

já não é hoje?

    não é aquioje?

 

já foi ontem?

    será amanhã?

 

já quandonde foi?

    quandonde será?

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi3hcac-bFWYzQA0WVuHCjN2TTDWmJTvfF5hXHp3K8Njc_19RHlWoc3fxGr86JPSASgHPSuX3llObz-e7ip0_L3AaU1vHBcqYaa6R-sy4S1XjKqGPggLRVihsagjSohCKLqVr3LeTowgizJAtOxacmlNHv6oltfH51jtkT_RrtBJ8VxaJQCjrIIeYIqwSs/s320/images.png 

eu queria um jazinho que fosse

    aquijá

    tuoje aquijá.

Alexandre O'Neill – Poesias completas.

 

ANALISANDO O TEXTO

1. O processo de formação da palavra "aquioje" é a composição por justaposição. Note que a palavra "hoje" sofre alteração na grafia (cai o h), mas não alteração fonética. A palavra realiza a união das dimensões de espaço e de tempo: indica um lugar e também um momento. É óbvio que tal fato é permitido dentro da liberdade poética.

2. A composição por aglutinação é o processo de formação da palavra "quandonde", uma vez que ocorre alteração fonética com a perda do fonema /o/. Essa palavra constitui a interrogação que corresponde à fusão das dimensões de tempo e de espaço.

3. O processo de formação da palavra "jazinho" é a derivação sufixal ou sufixação. O diminutivo possui valor afetivo: indica o apreço de quem fala por aquilo de que fala.

4. As duas palavras que formam o último verso do poema, "tuoje" e "aquijá", apresentam o mesmo processo de formação, ou seja, a composição por justaposição. Em "tuoje", une-se a pessoa amada à dimensão do tempo; "aquijá" faz a união de espaço e tempo.

5. O português Alexandre O'Neill emprega no poema repetidamente o mesmo recurso do uso de neologismos obtidos pelo processo da composição. Isso coopera para a construção da expressividade do texto porque consegue dizer muito e para a construção de um texto sintético, com poucos vocábulos. Observe a importância da repetição do "já", que é a palavra-chave do texto.

 

Entendendo a poesia:

01 – Qual o processo de formação utilizado na palavra "aquioje" e quais duas dimensões da realidade essa palavra consegue unir?

      O processo de formação é a composição por justaposição (unindo "aqui" + "hoje", mantendo o som original). Essa palavra une as dimensões de espaço ("aqui") e de tempo ("hoje").

 

02 – Qual é a diferença no processo de formação das palavras "aquioje" e "quandonde"? Explique por que ocorre essa diferença.

      "Aquioje" é formada por justaposição, pois embora a palavra "hoje" perca a letra h na grafia, não há alteração fonética (o som permanece o mesmo).

      "Quandonde" é formada por aglutinação, pois ocorre perda fonética: o som /o/ do final de "quando" é eliminado na fusão com "onde" ("quando" + "onde").

 

03 – Como a palavra "jazinho" foi formada e qual o sentido que o uso do diminutivo traz para o poema?

      A palavra "jazinho" foi formada pelo processo de derivação sufixal (adicionando o sufixo -inho ao advérbio "já"). O uso do diminutivo possui valor afetivo, demonstrando o carinho ou apego do eu poético por esse instante presente que ele deseja capturar.

 

04 – Analisando o último verso do poema ("tuoje aquijá"), o que a criação da palavra "tuoje" expressa em termos de significado?

      A neologismo "tuoje" combina o pronome "tu" com a dimensão temporal "hoje", expressando a união e o desejo da presença imediata da pessoa amada no momento presente.

 

05 – De que maneira a criação constante de neologismos por composição contribui para a expressividade e a estrutura do poema de Alexandre O'Neill?

      O uso contínuo de neologismos por composição permite criar um texto altamente sintético (com poucas palavras), que consegue dizer muito condensando ideias. Além disso, esse recurso reforça o tema central da urgência do tempo, destacando a repetição da palavra-chave "já".

 

 

POESIA: COMO ERA BOM - CHACAL - COM GABARITO

 Poesia: Como era bom

            Chacal

O tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjiIOH4qjAFK_DtDhxIevbLSdl7jQ7R7bxRcHsJ-7SGEGkioSR9LQoxIVcMvsEXl9k-PjDul7_stAP8nT2MnlQjwutB28NfnlVxUy1OyGO4hXcbEAEdM6152zjAK_km1JMDwwwT-6Z72TcuwetZJCqlmAoWAFd9vD_38iLmGZHtmWOQl8fEBViZbpZEYps/s1600/images.jpg


que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia.

 Chacal, Poesia marginal – Antologia poética.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 252.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a crítica ou ironia contida no título "Como era bom" em relação ao corpo do poema?

      O título "Como era bom" expressa um tom nostálgico irônico. O eu lírico lembra de uma época em que o mundo parecia "simples", "clarinho" e "asséptico" porque grandes teorias (como o Marxismo e a Psicanálise) ofereciam respostas prontas e definitivas para tudo. No entanto, essa simplicidade era ilusória e asséptica (excessivamente limpa/distante da realidade crua). A nostalgia é irônica porque a vida real é desarrumada e imprevisível.

02 – Quais são os pensadores citados no poema e quais sistemas de pensamento eles representam?

      Karl Marx: Representa as teorias sociológicas e econômicas de explicação do mundo por meio da luta de classes.

      Sigmund Freud: Representa a psicanálise, exemplificada pela teoria do Complexo de Édipo, que buscava explicar o psiquismo humano de forma determinante.

      O poema aponta como ambos os sistemas tentavam enquadrar a complexidade humana em esquemas explicativos fechados.

03 – O que significam as expressões "rodado", "sambado" e "pirado" no contexto da poesia?

      Essas expressões (típicas da linguagem coloquial e da contracultura dos anos 1970/80) representam o acúmulo de vivências, desilusões e transformações do eu lírico. Estar "rodado, sambado, pirado" indica que o poeta viveu intensamente, enfrentou as desordens do mundo e abandonou as certezas teóricas e rígidas da juventude em prol da experiência prática.

04 – Como a linguagem do poema reflete os ideais da Poesia Marginal (Geração Mimeógrafo)?

      A Poesia Marginal buscava a democratização do verso através de:

      Uso do coloquialismo e gírias ("clarinho limpinho explicadinho", "pirado", "sambado").

      Ausência de pontuação e letras maiúsculas, priorizando o fluxo natural da fala.

      Humor e tom de conversa, desmistificando o tom solene tradicional da poesia erudita.

05 – Qual é a conclusão ou "lição" existencial expressa nos últimos versos do poema?

      Nos versos "descobri que é preciso / aprender a nascer todo dia", o poeta conclui que a vida não pode ser resolvida por fórmulas ou manuais prontos. Diante de um mundo mutável e caótico, o ser humano precisa se reinventar constantemente, mantendo-se aberto a novas aprendizagens e experiências cotidianas em vez de se apegar a dogmas do passado.

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

POESIA: LUA ADVERSA - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 Poesia: Lua adversa

         Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjGfGGlYgil9mYTOEqhpA47AQBdy6aZeJa5dzm3cCrVLh9uMM3c5pYQsHk96Isf2AwjT9nOq1c92f5zZGJIyLMR4OTaPeoYE0RqQinZrj8yzOrjZOK4JEPjtAekoJSPZq_X0D7UDnBbBn-GHLv-xCZLzmnjG5RAypaLF5IFYxXDETnrrn0wQvLD7J_dAUA/s320/images.jpg 



Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a principal metáfora utilizada pela eu lírico para descrever seu comportamento e estado emocional?

      A principal metáfora é a comparação com a lua ("Tenho fases, como a lua"). Assim como o satélite passa por fases cíclicas de mudança, o eu lírico descreve seus próprios momentos de recolhimento, extroversão, solitude e busca por convivência.

02 – Como o poema aborda o conflito entre a busca por solitude e a necessidade de convivência?

      O conflito é representado pelas alternâncias de atitude da eu lírico, que ora tem "fases de andar escondida", ora tem "fases de vir para a rua", assim como momentos em que deseja se entregar a alguém ("fases de ser tua") e outros em que prefere o isolamento ("outras de ser sozinha").

03 – O que significa a expressão "secreto calendário / que um astrólogo arbitrário / inventou para meu uso"?

      A expressão simboliza a imprevisibilidade e a falta de controle que o eu lírico tem sobre as próprias emoções e mudanças de humor. As fases do seu sentimento parecem regidas por uma força externa e misteriosa (o "astrólogo arbitrário"), sem seguir uma lógica racional.

04 – Qual é o sentido do verso "E roda a melancolia / seu interminável fuso!" no contexto do poema?

      O verso utiliza a imagem do fuso de fiar (que gira continuamente) para expressar o caráter repetitivo, dinâmico e contínuo do sentimento de melancolia. A melancolia é tecida e alimentada sem parar pelas constantes mudanças emocionais pelas quais o eu lírico passa.

05 – Por que o poema se intitula "Lua adversa"? Como os últimos versos justificam esse título?

      O título refere-se ao descompasso e ao desencontro amoroso provocados por essas oscilações. Os últimos versos explicam essa adversidade: quando a outra pessoa está disposta a estar com a eu lírico, não é a fase desta de se entregar; e quando o eu lírico finalmente está disposta, a outra pessoa já não está mais presente.

 

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

POESIA: - ME PAULO ALBERTO M. MONTEIRO DE - COM GABARITO

 Poesia: - Me

Gargal(h)o de mim

Lúcido-me tolo.

Olhos de análise, tudo sei

Menos o mim. Desminto-me.

Me mito ou me mato

Em suor e de lírio

Não sei se sei, se sou ou suo.

Cego, só ego sou

Cogito ergo sum.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgd82rdNBJlhSy6gX-R4Q8CVEX7hyphenhyphenUFWE8X2y5mJze402fNn8xMNCZT_iTLWkiBim7AFvcmh5aBhoA4IeH6m_6RvMhyphenhyphenEhIHY8SMQxhb-2IVLoth5uF0eU-EUv9tBbsN8Nxs30l_4D0AGhOEExVU-JZ1E7lTb366zSLyXWKWPqD4fuTJym2N9RMOQFt6fYc/s320/images.jpg


Inciente de mim

Não posso verme.

Imparcial, petulante,

Soslaio-me, infrutífero

E fero, voraz, implacável,

Tombo, incapaz-me 

Delirante luz.

BARROS, Paulo Alberto M. Monteiro de (Artur da Távola). Calentura.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central abordado no poema e como ele se relaciona com o título "-Me"?

      O tema central é a crise de identidade, a busca pelo autoconhecimento e a divisão do "eu". O título "-Me" e o uso constante do pronome oblíquo reflexivo evidenciam essa introspecção e a tentativa do eu lírico de analisar a si próprio como objeto de estudo.

02 – Como a frase filosófica "Cogito ergo sum" (Penso, logo existo), de René Descartes, é ressignificada e ironizada no poema?

      O eu lírico contrapõe o racionalismo de Descartes à sua própria ignorância e cegueira sobre si mesmo ("Olhos de análise, tudo sei / Menos o mim"). O pensamento lógico não o ajuda a se compreender, transformando o "Penso, logo existo" em um estado de dúvida e egocentrismo ("Cego, só ego sou").

03 – Qual o efeito de sentido produzido pelos jogos de palavras e sonoridades nos versos "Me mito ou me mato / Em suor e de lírio" e "Não sei se sei, se sou ou suo"?

      O poema utiliza aliterações, assonâncias e jogos de palavras (como "delírio" desmembrado em "de lírio") para expressar a confusão mental, a angústia existencial e o delírio do eu lírico, cujas certezas se dissolvem em dúvida sobre sua própria existência e sentimentos.

04 – De que forma o eu lírico explora a neologização e a inversão da colocação pronominal para expressar a tentativa de autoanálise?

      O poeta cria estruturas incomuns, como unir pronomes a adjetivos e substantivos (ex: "Lúcido-me tolo", "Incapaz-me"), ou usar o pronome antes de verbos que não admitem próclise na norma padrão ("Gargal(h)o de mim"). Isso reflete a tentativa constante, porém frustrada, de voltar a ação verbal contra si mesmo.

05 – Qual é a contradição vivida pelo eu lírico expressa nos versos finais do poema?

      A contradição está no fato de o eu lírico se ver como alguém "imparcial", "petulante" e analítico, mas ao mesmo tempo "incapaz" e "infrutífero" de enxergar a si mesmo. Ele cai/tomba diante de uma "delirante luz", demonstrando que excesso de análise não traz lucidez, mas sim cegueira e desintegração do "eu".

 



 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

POESIA/MÚSICA(ATIVIDADES): PRECISO ME ENCONTRAR - ANTÔNIO FILHO - COM GABARITO

 Poesia/música (Atividades): Preciso me encontrar

            Antônio Filho

 

Deixe-me ir, preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar

quero assistir ao sol nascer

ver as águas dos rios correr

ouvir os pássaros cantar

eu quero nascer, quero viver

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjoUkMJsxLj-RyivbefDClQg_xFbiCVkzOvXMSDmQSNHT1I_EABaQk0q6Q-xEgSP8hV5apLqKN8Bl__r2d3VF8lHJ7zGR-Pe5pjJ-Lyrh-h8dQA5bm6_8-UYgVka3JXP5-H6zYBERGhT2YbONUV_Ep9d9drQnmcIej4kCPPmNnTyA1yFoi8lmRBzZUbWd8/s320/images.jpg 


deixe-me ir, preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar

se alguém por mim perguntar

diga que eu só vou voltar

quando eu me encontrar

quero assistir ao sol nascer

ver as águas dos rios correr

ouvir os pássaros cantar

eu quero nascer, quero viver

deixe-me ir, preciso andar

vou por aí a procurar

rir pra não chorar.

 

CANDEIA. Antônio Filho. "Preciso me encontrar". In: encarte do disco, Marisa Monte, 1989.

 

Entendendo a poesia/música:

01 – Qual é o objetivo principal do eu lírico ao pedir para ir embora e caminhar sem rumo fixo?

      O objetivo principal do eu lírico é a busca pelo autoconhecimento e pela própria identidade, expressa explicitamente no verso "quando eu me encontrar".

 

02 – Quais elementos da natureza o eu lírico deseja contemplar em sua jornada de libertação e renovação?

      O eu lírico deseja contemplar o nascer do sol, o correr das águas dos rios e o canto dos pássaros.

 

03 – O que a expressão "rir pra não chorar" sugere sobre o estado emocional do eu lírico antes ou durante essa decisão de partir?

      Sugere que ele está passando por um momento de sofrimento, tristeza ou desilusão, recorrendo ao riso como um mecanismo de defesa para mascarar a dor enquanto busca transformar sua vida.

 

04 – Qual é o recado que o eu lírico deixa para caso alguém pergunte por ele durante sua ausência?

      A instrução dada é para dizer que ele só voltará quando conseguir se encontrar (reconstruir sua própria identidade).

 

05 – Qual é o significado dos verbos de desejo repetidos no poema ("quero nascer, quero viver") dentro do contexto da caminhada?

      Os verbos "nascer" e "viver" simbolizam o desejo de um recomeço, de uma renascença pessoal e de ter uma vida plena, livre e com propósito, deixando para trás um passado sufocante.

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - III - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – III – Fragmento

           Vinícius de Moraes

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4XofF36UUBztJArGKbnAihabjrFm5eRe73fTkmgbHfVHlvfHj70-bC6W2U9G2aSBWziABg3s_Pe55TfJcBA9JYS5iV9hnxedUBLzNPOxnxXKG5TV0k5hw4T_2n5TE21mG5AOGZZzkZx4S1RLxBhcz6aaBDnVa9n26pDE8teIjqR3sJ_Kfly-mywLR0s8/s320/images.jpg


Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento III, o eu lírico faz uma clara alusão aos eventos narrados no livro do Gênesis. De que maneira ele avalia a decisão divina de criar a humanidade no Sexto Dia e qual subversão do texto sagrado ocorre nessa crítica?

      O eu lírico avalia a criação do homem e da mulher de forma francamente negativa, afirmando que "o homem não era necessário" e que seria melhor se Deus tivesse descansado antes de criá-los. A subversão da narrativa bíblica reside no fato de que, no Gênesis, a criação do ser humano é apresentada como o ápice perfeito da obra divina; no poema, porém, essa mesma ação é vista como um erro ou um impulso injustificado ("porque o Senhor cismou em não descansar"). O tom solene do texto religioso é desconstruído para apresentar a criação humana como a origem de todo o sofrimento e absurdo existencial.

02 – Ao se dirigir à figura feminina, o poema a define como "ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada". Como a mulher é caracterizada nesses versos e qual o seu papel na visão do eu lírico sobre a condição humana?

      A mulher é caracterizada por meio de uma metáfora que a conecta diretamente às forças primordiais e insaciáveis da natureza. Ao associá-la a um "ser vegetal" e detentora do "vórtice supremo da paixão", o eu lírico a coloca como o motor central dos desejos e da intensidade vital humana. Ela representa, ao mesmo tempo, o mistério insondável ("dona do abismo") e a atração irresistível que perpetua a existência da espécie humana, ligando o homem tanto à beleza natural quanto ao sofrimento das paixões inconselháveis.

03 – O eu lírico projeta como seria o planeta Terra caso o Criador não tivesse moldado o homem. Quais aspectos da natureza são enaltecidos nessa projeção e o que a ausência humana representaria para o mundo?

      Na ausência da humanidade, a natureza é descrita em um estado de "indizível beleza e harmonia", marcada pelo equilíbrio entre a flora, a fauna e os astros ("plano verde das terras e das águas em núpcias", "pureza maior do instinto"). A ausência humana representaria a preservação do mundo natural sem a violência da exploração (sem "degola dos animais e asfixia dos peixes") e sem o peso da dor moral. Sem o homem, o planeta seria um ecossistema puro, em que os seres vivos existiriam de acordo com seus instintos em uma paz perfeitamente integrada.

04 – O poema contrapõe o estado natural à existência em sociedade. Como a lista de obrigações e instituições civis/religiosas ("escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia") reforça a tese do poema sobre o fardo da vida moderna?

      A enumeração dessas instituições funciona como uma crítica à artificialidade da vida em sociedade. Cada um dos elementos citados representa uma amarra formal que disciplina, burocratiza ou pune o ser humano ao longo da vida (da infância com a escola até a morte com a missa de sétimo dia). Essa lista demonstra que o ato da criação divina não trouxe apenas a existência física ao homem, mas o condenou a uma estrutura social opressiva, em que a liberdade natural é sufocada por obrigações, dogmas e rotinas automáticas (como "rir sem vontade e até praticar amor sem vontade").

05 – Nos últimos versos do fragmento, o eu lírico sugere um motivo irônico para Deus ter criado o homem "à sua imagem e semelhança". Qual é esse motivo e como ele se conecta ao tema central de todo o poema?

      O motivo sugerido é que Deus criou o homem apenas "para não ficar com as vastas mãos abanando", impulsionado por um tédio criativo "porque era sábado". Essa justificativa humaniza e desmistifica a figura divina, reduzindo o ato da Criação a um mero passatempo de fim de semana. O desfecho consolida a ironia central de todo o poema: o sábado, tido como o dia das contradições e dos impulsos impensados na vida terrena, é projetado no próprio plano divino, sugerindo que a humanidade nasceu de um ato de tédio efêmero em um sábado cósmico.

 

 

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - I - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O DIA DA CRIAÇÃO – I – Fragmento

           Vinícius de Moraes

     Macho e fêmea os criou.
     Bíblia: Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNq5IT9q-Acd0WTglZNSDbRChQvdhROTXddUY5pTM_b5VVBanAQPGn1mYI6evz4rLTNP9ZLYHx4iCcABugm3zSJmNSo8Q-mVV_l-M_YyxfeD2WoOCFrN6raHDYi35x4KiuMLIJW5K6Kj5HLKrEmcMAWQ2DPvSxu1gvWIxpQyhbujRqi0jJPPcUAicJyB8/s320/images.jpg 



Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – O poema traz como epígrafe o trecho "Macho e fêmea os criou" (Gênese 1, 27). Como essa citação da Bíblia dialoga com a última estrofe do fragmento lido, na qual o eu lírico descreve o comportamento de homens, namorados, maridos e mulheres?

      A epígrafe resgata o mito judaico-cristão da criação perfeita da humanidade por Deus. No entanto, o poema subverte essa perfeição ao contrastá-la com o cotidiano humano no sábado. Na última estrofe, a divisão em "macho e fêmea" ganha contornos de rotina, tédio e automatismo: homens "vazios" nos bares, maridos "funcionando regularmente" e mulheres em estado de permanente alerta. A intertextualidade expõe o contraste entre o ideal sagrado da criação divina e a realidade profana, mecânica e desencantada do mundo moderno.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Amanhã não gosta de ver ninguém bem / Hoje é que é o dia do presente". Qual é a visão de tempo apresentada nesses versos e como ela justifica a relevância do sábado?

      A visão de tempo apresentada é a do imediatismo (carpe diem). O eu lírico enxerga o futuro ("amanhã", o domingo) com desconfiança e apreensão, associando-o ao término do descanso, ao dever ou à incerteza. Em contrapartida, o sábado é o "dia do presente", a única realidade tangível e vivível. Essa percepção justifica a relevância do sábado como o dia em que todas as emoções, fugas e excessos devem acontecer intensamente, pois o amanhã representa a interrupção desse estado de suspensão.

03 – Nos versos "Os bondes andam em cima dos trilhos / E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar", o eu lírico aproxima um fato cotidiano banal a um evento central da fé cristã. Qual é o efeito de sentido produzido por essa aproximação?

      O efeito de sentido é a ironia e a denúncia da banalização do sagrado. Ao colocar no mesmo patamar sintático e descritivo o movimento mecânico dos bondes e o sacrifício supremo de Cristo, o poema revela como a sociedade moderna automatizou até mesmo os dogmas religiosos. O sacrifício divino passa a ser visto apenas como mais um dado ordinário da realidade, desprovido do seu impacto espiritual transformador diante da rotina previsível e fria da cidade.

04 – Na última estrofe, o eu lírico menciona que "Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios". Como o uso dessa imagem contribui para a caracterização do sábado e da condição humana no poema?

      A imagem cria um paradoxo significativo: o espaço físico (os bares) está "repleto", mas o conteúdo humano que o ocupa é "vazio". Isso demonstra que a busca pelo lazer, pela bebida e pela sociabilidade no sábado muitas vezes não passa de uma tentativa fútil de preencher um vazio existencial ou compensar a opressão da rotina semanal. A expressão reforça a ideia de que, sob a aparente descontração e vivacidade do sábado, subjaz uma profunda solidão e falta de sentido na vida moderna.

05 – A frase "Hoje é sábado, amanhã é domingo" abre as três primeiras estrofes do fragmento. Qual é a função dessa repetição na construção do ritmo e do significado do texto?

      A repetição constante dessa constatação temporal funciona como um refrão que marca o ritmo de uma ciranda ou de um martelar diário. Significa a inexorabilidade do tempo: o tempo passa de forma mecânica e inevitável, independentemente dos dramas humanos. A frase reafirma o sábado como uma constante que rege a conduta de todos os indivíduos, servindo de gancho para que o eu lírico desenvolva suas reflexões sobre a brevidade da vida, a necessidade de viver o presente e a impossibilidade de fugir da "dura realidade".

 

 

 

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - II - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAIS - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – II – Fragmento

           Vinícius de Morais

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3eyHrDK1H87i5SNsdGq2muyh2Qf-zPXStY2-9cd9C9WPg7T1KUxZBNBd5L8PtnH9Z2zGAgVmSNMWMz6rU0F7lnNuEcRANtVQmlcsoM9mNaY-SdN8Z8cJKqrsC0w9cUSCBG07NFqs2k_aZo4FumU-DR0tYnPR5cxE5GW9K-YIY0GpJ7NduT6w_bbHS64E/s1600/MUNDO.jpg


Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 224.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 193.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento lido, o verso "Porque hoje é sábado" é repetido ao final de cada estrofe/par de versos. Qual é o recurso estilístico empregado por meio dessa repetição e qual efeito de sentido ele produz no poema?

      O recurso utilizado é a anáfora (ou paralelismo sintático/repetição estrutural). Essa repetição constante funciona como uma espécie de refrão ritualístico que encadeia e justifica todas as ações retratadas no poema. O efeito de sentido criado é o de uma aparente contradição: ao atribuir a causa de eventos tão diversos, violentos ou banais ao simples fato de "ser sábado", o eu lírico ironiza a arbitrariedade da vida cotidiana e expõe o automatismo social, transformando o sábado em um dia síntese dos excessos, contradições e tragédias humanas.

02 – Aponte e explique o uso das contradições (antíteses) presentes nas primeiras estrofes do poema, relacionando-as à visão do eu lírico sobre a condição humana.

      As contradições aparecem logo no início ao colocar lado a lado eventos opostos, como "casamento" e "divórcio", além de unir a celebração de um espetáculo ou regata a episódios de violência e miséria ("uma mulher que apanha e cala", "criancinhas que não comem"). Essa justaposição de opostos revela que a condição humana é marcada pela coexistência simultânea da alegria e do sofrimento, do sagrado e do profano, da ordem e do caos. O eu lírico demonstra que o mesmo dia que traz a festa e a esperança também carrega a dor e a exclusão.

03 – Embora o poema possua um tom lírico e ritmado, há nele uma forte dimensão de crítica social. Identifique dois versos que exemplificam essa denúncia social e comente a relevância dessas imagens no texto.

      Dois exemplos marcantes de denúncia social são os versos "Há uma mulher que apanha e cala" e "Há criancinhas que não comem". Essas imagens expõem problemas estruturais graves, como a violência doméstica e a misoginia sustentadas pelo silêncio, além da extrema pobreza e da fome infantil. A relevância dessas imagens está no choque que provocam no leitor: em meio à atmosfera festiva comumente associada ao sábado (como regatas e espetáculos de gala), o poema lança luz sobre a realidade cruel e invisibilizada das populações vulneráveis.

04 – Na tradição judaico-cristã, o sábado é o dia do descanso e do término da Criação divina. Como a representação do sábado no poema de Vinicius de Moraes dialoga (ou se opõe) a essa tradição religiosa?

      Na tradição religiosa, o sábado representa a consumação da criação divina, um momento de paz, descanso e santificação. No poema, Vinicius de Moraes subverte essa ideia ao apresentar o sábado não como um dia de repouso contemplativo, mas como o ápice das paixões humanas, do caos e da imperfeição. O sábado torna-se o dia em que ocorrem crimes, suicídios, injustiças e celebrações efêmeras, mostrando que a "criação" no mundo humano é imperfeita, contraditória e carregada de profanidade.

05 – Observe a repetição do verbo "Há" no início de quase todos os versos ímpares do fragmento. Qual é a função sintático-semântica dessa escolha verbal no texto?

      Sintaticamente, o verbo "haver" é empregado como impessoal (no sentido de existir ou ocorrer), criando orações sem sujeito. Semântica e expressivamente, essa escolha confere ao poema um caráter constatativo, panorâmico e impessoal. O verbo atua como um catálogo de fatos da existência humana, transmitindo a ideia de que esses eventos simplesmente acontecem inevitavelmente, como um espetáculo inevitável da vida sobre o qual não se tem controle.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

POESIA: ESTÁTUA FALSA - FRAGMENTO - MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO - COM GABARITO

 Poesia: Estátua Falsa – Fragmento

         Mário de Sá-Carneiro

Só de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.


[...]

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgy2GKlM5U9exjn_GsP60uIuuz5Bl3Bj0jMqOZFlfn5o2xvWkysm9RbRnx4Ri09LIVcjs4TyjyNxzpSOpbHX9o8gy9IfocGTMJsJt4PF_fKRPi2DlVF56B0lmafHYp1xLl6IyOHw5s6bluCEH84S-DOgnM2OTtzqv-jr-8MuiR4y9KGQnnpk3216JGyQDw/s320/images.jpg

Mário de Sá-Carneiro. Poesias completas. Porto: Orfeu, p. 24.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 95.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema principal abordado neste fragmento de Mário de Sá-Carneiro?

      O tema principal é o vácuo existencial, o sentimento de inadaptação e o desapego emocional do eu lírico. O poema expressa uma profunda melancolia decorrente do desencanto com a vida, da perda de ideal e de uma autoimagem marcada pela falsidade e pela ruína interior.

02 – O que significa a metáfora "Esfinge sem mistério" no contexto do poema?

      A esfinge é tradicionalmente associada ao mistério e ao enigma. Ao se definir como uma "esfinge sem mistério", o eu lírico revela que, por trás de sua aparência exterior imponente ou enigmática, não há profundidade, propósito ou segredo a revelar; há apenas um vazio interior e uma casca sem conteúdo vital.

03 – Como o eu lírico reage às experiências da vida na segunda estrofe citada?

      Ele reage com total apatia e indiferença. Nos versos "Já não estremeço em face do segredo" e "E nem sequer um arrepio de medo!", o poeta mostra estar imune tanto às fascinações quanto aos terrores da vida. A vida acontece e passa ("em guerra"), mas ele permanece insensível, incapaz de sentir medo ou entusiasmo.

04 – Analise o efeito do verso "A tristeza das coisas que não foram". Qual sentimento ele evoca?

      Esse verso evoca o sentimento do desapontamento com o irrealizado, a nostalgia do que poderia ter sido e não foi. É uma tristeza profunda voltada para os sonhos, desejos e potenciais não concretizados, característica marcante da poesia sa-carneiriana e do Sensacionismo/Modernismo português.

05 – Qual é o papel das metaforizações utilizadas na última estrofe ("estrela ébria", "sereia louca", "templo prestes a ruir", "estátua falsa")?

      Essas metáforas servem para intensificar o estado de deslocamento, degradação e desespero existencial. Elas mostram seres ou objetos deslocados do seu habitat natural ou de seu propósito essencial (uma estrela fora dos céus, uma sereia fora do mar, um templo sem deus), culminando na imagem da "estátua falsa", que se mantém erguida apenas como uma aparência sem substância.