Poema: Vozes-Mulheres
Conceição
Evaristo
A
voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A
voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A
voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A
minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A
voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A
voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
(In: Poemas
de recordação e outros movimentos, 3.ed., p. 24-25)
Entendendo o texto
O poema percorre vários tempos históricos.
01. A
partir de qual estrofe revela-se o tempo presente?
Quarta estrofe.
02. Quais
situações vividas pela população negra, principalmente pelas mulheres, estão
retratadas nas estrofes iniciais?
A vinda para o Brasil nos navios
negreiros, o trabalho escravo e a permanência na condição de pobreza.
03. Na
terceira estrofe, retrata-se uma condição da mulher negra que persiste em nossa
sociedade. Que condição é essa? Por que ela ainda ocorre?
A condição de empregadas domésticas e
de lavadeiras, funções muito exercidas pela mulher negra, que tem menos
condições de estudar e por isso não consegue trabalhos que lhe propiciem uma renda melhor.
04. As
situações retratadas parecem referir-se apenas à família do eu lírico?
Não. São situações que se referem a
grande parte das mulheres negras do país.
05. Na quarta estrofe, o eu lírico diz “A minha
voz ainda/ecoa versos perplexos”
a. Que
palavra foi usada nesses versos para remeter aos versos anteriores?
Ainda.
b. Em sua
opinião, que sentimento o eu lírico transmite por meio desses versos?
O eu lírico experimenta os
sentimentos de dor r indignação vivenciados por sua mãe, avó e bisavó.
06. Na
última estrofe, o eu lírico demonstra confiar em sua filha como agente da
mudança. O que há de diferente no comportamento dessa filha?
A voz da filha do eu lírico está
associada à ação (“o ato”), como diz o trecho “A voz de minha filha/ recolhe em
si/ a fala e o ato”.
