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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRÔNICA: UMA NOITE DE CÃO - MARCOS REY - COM GABARITO

 Crônica: Uma noite de cão

         Marcos Rey

        ─ Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?

        ─ Não sente o cheiro? Passei n'O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não ia chegar de mãos abanando.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3K-m-4PI_JnIc6fW7sL0kteFZcgbiuR9WKU4jVb93you8D6ZrlPmQpJkWnubMlUhKLLOS_Kz-LUOMrThs4nFdEmw-D4zeyILvpxAdV5msA_oNklnpWobaPI9URuoPhF3_P2_ZSTdO1h-WZnnJ1dEYaGecgRzUCrZLOrihY_K5DecjhQXOIWxcxMOj9fE/s320/CAO.jpg


        Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre parecia em meu apartamento com grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.

        Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango para a cozinha. Desembrulhando sobre a mesa, era uma tentação.

        Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar novidades sombrias do Rio. Vivíamos tempos pesados, tensos. Suas informações eram verdadeiras bombas. Confidenciou:

        ─ Um dos sequestradores é meu amigo.

        Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sob as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei para minha mulher que deixou escapar um:

        ─ Meu Deus!

        ─ Vocês sabem de que falo, não? – perguntou, grave.

        Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes certamente à espera de autorização para iniciar a ceia. Erguei-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé. Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-Ihe a cabeça. A centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde estava o seu jantar; eu teria de me vestir; descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.

        ─ Não quer saber qual é o amigo nosso que está envolvido?

        Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.

        ─ Claro que quero.

        Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.

        Olhei para o teto.

        ─ Aquilo não é um inseto? – apontei.

        Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.

        ─ É apenas uma mancha – ele observou.

        ─ Detesto insetos andando pela casa.

        O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor. Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.

        ─ Gosto desse terraço – disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.

        Num salto, apaguei a luz.

        ─ Ele fica mais bonito no escuro, observe.

        Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.

        ─ Vamos ao frango – ele decidiu. – O cheirinho tomou conta do apartamento.

        ─ Primeiro sirvo um uísque.

        Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.

        ─ A cachorra deve ter se machucado.

        Agarrei-lhe o braço.

        ─ Tome o uísque. Então um dos sequestradores é nosso amigo?

        Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!

        Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!

        ─ O Rei do Frango Assado está com tudo – disse Ramalho no final. – Este estava demais! – E generoso:

        ─ Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?

         ─ Sei lá!

Marcos Rey. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1996. p. 25-28.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 150-152.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é Ramalho e por que suas visitas costumavam incomodar o narrador e sua esposa?

      Ramalho é um amigo do Rio de Janeiro que sempre passava pelo apartamento do narrador em São Paulo. Ele causava incômodo porque tinha o hábito de chegar muito tarde da noite e faminto, justamente no horário em que o casal já estava se preparando para dormir.

02 – O que Ramalho levou para o apartamento naquela noite e qual revelação séria ele pretendia fazer?

      Ramalho levou um frango assado comprado no estabelecimento "O Rei do Frango Assado". Além disso, ele pretendia compartilhar notícias sombrias e confidenciais sobre tempos políticos tensos, revelando que um dos sequestradores de um caso recente era amigo deles.

03 – Quem é Virgínia Woolf na história e que situação cômica e tensa ela provoca?

      Virgínia Woolf é a cadela dálmata do casal. A situação tensa começa quando ela consegue pegar o frango assado inteiro que estava na cozinha e entra no living, postando-se elegantemente ao lado de Ramalho com a ave inteira na boca, sem que o visitante perceba.

04 – Por que o narrador ficou tão desesperado para esconder o roubo do frango? O que ele queria evitar?

      O narrador queria evitar o constrangimento e o transtorno logístico de ter que sair de madrugada para comprar outro jantar. Ele pensou que, se Ramalho descobrisse o roubo, ele seria obrigado a se vestir, descer até a garagem lotada, manobrar o carro e rodar pela cidade à procura de outro frango em plena madrugada.

05 – Quais foram os três truques ou estratégias que o narrador utilizou para impedir que Ramalho visse a dálmata com o frango?

      O narrador utilizou as seguintes estratégias visuais:

      Ficou de pé: Levantou-se repentinamente para forçar o visitante a olhar para cima.

      Mudou a mobília: Puxou um pufe para perto de Ramalho para diminuir seu ângulo de visão periférica.

      Inventou uma distração: Apontou para o teto fingindo ter visto um inseto, fazendo com que todos olhassem para o alto.

06 – Como o narrador agiu quando Ramalho decidiu ir até o terraço e, logo depois, quando a cadela começou a ganir no corredor?

      Quando Ramalho caminhou em direção ao terraço (onde a cadela se escondia com a presa), o narrador deu um salto e apagou a luz, alegando que o terraço ficava "mais bonito no escuro". Mais tarde, quando a cadela fujona faturou alguns ganidos no corredor, o narrador agarrou o braço de Ramalho, entregou-lhe um copo de uísque e mudou de assunto rapidamente, perguntando novamente sobre a identidade do sequestrador.

07 – Como a situação foi resolvida pela esposa do narrador e qual é a ironia no final da crônica?

      Enquanto o narrador distraía o amigo, a esposa conseguiu recuperar o frango (ou o que sobrou dele), preparou-o na cozinha e o serviu desossado para Ramalho. A grande ironia final é que Ramalho adora a refeição, elogia a qualidade do local onde comprou e, num gesto de generosidade, deixa um pedaço do peito para a cadela — sem ter a menor ideia de que ela já havia "temperado" e passado os dentes pelo frango inteiro minutos antes.

 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

CONTO DE ENIGMA: O INCRÍVEL ENIGMA DO GALINHEIRO - MARCOS REY - COM GABARITO

 CONTO DE ENIGMA: O INCRÍVEL ENIGMA DO GALINHEIRO

 

         Isso aconteceu numa época em que o grande detetive Sherlock Holmes estava aposentado e um tanto esquecido. Em Londres, onde morava, ninguém mais o chamava para elucidar mistérios. Conformava-se, dizendo: não se fazem mais bandidos como antigamente. Meu tio Clarimundo, leitor das aventuras de Sherlock, foi quem decidiu contratá-lo. Mas que não trouxesse seu secretário Dr. Watson, que só servia para ouvir no final de cada caso a mesma frase:

“Elementar, Watson”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgMejgubA-K6xZJz_fe1sLCw2NEwamm7l28F9wv4_aQlfp0zXh8G8-2AcU05bZx0Wr0MZ0LicnOjQa6mc0a-yO-FKN6ptRXsb_3wAOXJLJ2YUqHcjXYex9lPfquOXkqMTu5LfTIz1hllJmZVbP5rS9HXTIbyRGlIZD7xAEq25sz_xV_bHNPwV09y8eJlT8/s320/GALO.jpg


– Mas se trata dum caso tão insignificante – protestou mamãe. – Insignificante?

       Esse enigma está nos pondo malucos.

        Alguém andava assaltando nosso galinheiro. A cada dia sumia uma galinha. Quem faria isso, estando a casa cercada por paredes de imensos edifícios? Não havia muro para saltar. Nem grades para pular. E na casa só morávamos eu, meus pais, tio Clarimundo e Noca, a velha empregada. Um enigma muito enigmático, sim.

        Sherlock Holmes chegou e hospedou-se no quarto dos fundos. Ele, seu boné xadrez, seu cachimbo, lógico, e mais logicamente sua lupa, que aumentava tudo. Chegou anunciando:

        – Chamarei esta aventura “O caso das galinhas desaparecidas”. Ou ficaria melhor “O incrível enigma do galinheiro”?

        – Ambos são bons, mas...

        – Na maior parte das vezes o culpado é o mordomo – informou Sherlock.

        – Onde está o suspeito?

        – Não temos mordomo – lamentou tio Clarimundo.

        – Então me levem à cena do crime.

        Levamos Sherlock ao quintal, pequeno e espremido entre os prédios. Ele tirou a lupa do bolso. Um palito ou folha de árvore, examinava concentradamente. Depois, tomava notas num caderno. Mas, como a viagem o cansara, foi dormir cedo. Na manhã seguinte minha mãe acordou-o com uma informação:

        – Sumiu outra galinha.

       – Esta noite dormirei no galinheiro.

       E dormiu mesmo, sentado numa poltrona. Desta vez eu que o acordei.

       – Mister Holmes, roubaram mais uma galinha.

       A notícia fez com que se decidisse:

       – A história se chamará mesmo “O incrível enigma do galinheiro”.

       – Não estamos preocupados com títulos – rebateu meu tio.

       – Mas meu editor está.

       Neste dia consegui ler o caderno de anotações do detetive. Li: nada, nada, nada. Um nada em cada página. Organizado, não? Também nesse dia Sherlock telefonou a Londres para trocar impressões com o fiel Dr. Watson. Uma fortuninha em chamados internacionais. E as galinhas continuavam desaparecendo, apesar de Sherlock Holmes dormir no galinheiro. Ele já andava falando sozinho.

        – Nem sinal de gato, cachorro, raposa, gambá. Todo o meu prestígio está em jogo. Por fim, restou apenas uma galinha.

        À hora do almoço o famoso detetive, sentindo-se velho e fracassado, sofreu uma crise, chorando na frente de todos. Nós nos comovemos muito com a situação. Um homem daqueles derramar lágrimas... Noca, então, deu um passo à frente e confessou:

       – Eu que roubava as galinhas. Dava às famílias pobres duma favela.

        Sherlock enxugou imediatamente as lágrimas na manga do paletó.

         – Já sabia. Fingi chorar para que ela confessasse.

         – Então desconfiava de Noca? – Perguntou tio Clarimundo. – Encontrei penas de galinha no quarto dela. Elementar, Clarimundo. E o que dizem de comermos a penosa que resta no galinheiro?

         Não sei se foi escrito “O incrível enigma do galinheiro”. Se foi, pobres leitores. Na verdade eu que roubava as galinhas para dar aos favelados. Inclusive quando o detetive dormia no galinheiro. Noca sabia disso e assumiu a culpa em meu lugar.

Elementar, Mister Sherlock Holmes.

(Marcos Rey, Em Vice-Versa ao Contrário. Org. Heloísa Prieto. São Paulo, Companhia das Letrinhas, 1993.)

 

01. Responda.

a. O que é um enigma?

Um enigma é algo de difícil compreensão, um mistério, um quebra-cabeça ou uma questão que precisa ser decifrada ou resolvida.

b. Qual o mistério que trata o texto?

O mistério que o texto trata é o desaparecimento misterioso de galinhas do galinheiro, sem que se saiba quem as está roubando, dada a dificuldade de acesso ao local.

02. Sobre os Elementos da Narrativa, pergunta-se: O narrador desse texto é

a.  Sherlock Holmes.

b. Tio Clarimundo.

c.  Noca. 

d. Sobrinho do tio Clarimundo.

03. Marque a alternativa que indica o momento de maior tensão na narrativa.

a. À chegada de Sherlock Holmes à casa do narrador.

b.  A crise de choro de Sherlock Holmes e a consequente confissão de Noca.

c. O momento que o narrador revela que ele é o ladrão de galinhas.

d. O momento em que Sherlock decide qual será o título da história.

 04. Quem decide contratar Sherlock Holmes?

     a.  A mãe do narrador.

     b. O narrador.

     c. O tio Clarimundo.

     d.  Noca, a empregada.

05. Qual era o enigma a ser resolvido?

     a. O desaparecimento do mordomo.

     b. O roubo das galinhas.

     c. O título da história.

     d. O choro de Sherlock Holmes.

06. Onde Sherlock Holmes dormiu para tentar solucionar o caso?

     a.  No quarto dos fundos.

     b.  Na sala.

     c.  No quintal.

     d. No galinheiro.

07. Quem confessou ser o ladrão das galinhas?

    a. O narrador.

    b.  O tio Clarimundo.

    c.  Sherlock Holmes.

    d.  Noca.

08. Qual era a justificativa para o roubo das galinhas?

   a. Vender as galinhas.

   b. Alimentar a família.

   c. Dar às famílias pobres de uma favela.

   d.  Fazer um banquete.

domingo, 27 de novembro de 2022

FRAGMENTO DO LIVRO: O MISTÉRIO DO 5 ESTRELAS - MARCOS REY - COM GABARITO

 FRAGMENTO DO LIVRO: O MISTÉRIO DO 5 ESTRELAS

                                            Marcos Rey

                                    O 222

        Leo apertou a campainha do 222, recebera um chamado. Logo se abria um palmo de porta mostrando a cara e o sorriso largo do Barão. Embrulhado num robe azulão, ele parecia ainda mais gordo, mole e displicente.

        — Me traga os jornais de sempre — pediu o hóspede passando ao bellboy uma nota amassada.

        — Esse dinheiro não vai dar, senhor.

        — Tem razão. Um momento.

        Quando abriu o guarda-roupa para apanhar a carteira, Leo viu pelo espelho interno do móvel que o Barão tinha companhia: um homem pequeno, com pinta de índio vestindo roupas civilizadas, lavava concentradamente as mãos na pia do banheiro. Devia ser uma daquelas muitas pessoas que o Barão ajudava, pensou o rapaz.

         O volumoso hóspede do 222 demorava para encontrar a carteira nos bolsos de seus paletós, enquanto o bellboy aspirava vários cheiros do apartamento: o de charutos já fumados e amanhecidos, um mais agradável de lavanda e ainda outro de maçã, sempre vendo pelo espelho o tal homenzinho a lavar as mãos e a enxugá-las em toalhas de papel que ia jogando numa cesta. Depois, com o súbito receio de ser visto pelo espelho do guarda-roupa, fechou a porta do banheiro com uma cotovelada.

         Afinal o Barão reapareceu com mais dinheiro e um novo sorriso.

          — O troco é seu, meu filho. Leo disparou pelos corredores acarpetados do Emperor Park Hotel, esperou e apanhou o elevador e passou pela portaria. Novato ainda no emprego provava com a velocidade das pernas seu interesse pelo trabalho. À entrada do edifício, em seu belo uniforme branco com debruns dourados, viu o Guima (Guimarães), o porteiro, antigo amigo de sua família, a quem devia o salário, aquelas gorjetas todas e a nova profissão.  

          Ao entrar pela primeira vez com o Guima, há dois meses, no imenso e rico saguão do Park, como o chamavam simplesmente os funcionários, Leo ficou deslumbrado. No seu mundo da Bela Vista, o bairro do Bexiga, onde nascera e morava, jamais pisara num ambiente tão bonito, moderno e fofo. "Isso que é um cinco estrelas", explicou o porteiro com orgulho de proprietário. "Mas o que é um cinco estrelas?" Guima olhou-o como se sua ignorância lhe fizesse pena e disse que a qualidade dos hotéis é medida pela quantidade de estrelas que ostenta. Cinco é o máximo, só para estabelecimentos de nível internacional.

         Era uma sexta-feira; na segunda, já fardado e registrado, Leo começava a trabalhar no Emperor Park Hotel como bellboy, mensageiro, das 8 às 18 horas, quando voltava para casa, jantava às pressas e corria para a escola noturna. O horário era puxado e o serviço de cansar as pernas, mas as gratificações compensavam. Recebia gorjetas inclusive em dinheiro estrangeiro. Logo conheceu a cor do dólar, da libra, do peso, do franco, da peseta, que trocava por cruzeiros lá mesmo na casa de câmbio do Park.

         Leo precisou de um mês para percorrer os vinte e tantos andares do hotel, sem contar os subterrâneos destinados às garagens, lavanderia, depósito de gêneros alimentícios, adega, almoxarifados, um labirinto frio e deserto em muitas horas do dia.

        Não era, porém, no proletário subsolo que o rapaz da Bela Vista encontrava satisfações e interesses. Gostava de vagar pelo saguão, sempre cheio de hóspedes que chegavam ou partiam, numa confusão de malas, rótulos e idiomas, de espiar a piscina, no quarto andar, com suas águas muito cloradas, dum verde para ricos, o restaurante, com seus odores caprichados, a luxuosa boate, o imponente salão de convenções, o tropical garden, pequena floresta onde serviam gelados e sanduíches, a sauna, que vendia calor e fumaça, a quadra de shopping, com suas lojas sofisticadas, e no alto, lá em cima, o belo bar-terraço, coisa de cinema, com pista de dança, solário e um mirante envidraçado para se ver São Paulo inteira, à luz do sol, elétrica ou de vela em jantares ou ocasiões especiais.

        A maioria dos hóspedes do Park também parecia ter cinco estrelas estampadas na testa: gente importante, preocupada com telefonemas internacionais, políticos, desportistas e artistas famosos que recebiam jornalistas ou deles fugiam, evitando fotos e entrevistas. Logo na primeira quinzena de Park Leo esteve a dois metros de distância de Vera Stuart, atriz do cinema norte-americano, carregou as malas dum automobilista francês de Fórmula 1, e levou uma garrafa de mineral ao apartamento de um dos reis do petróleo do Oriente Médio, vestido em trajes típicos.

         Havia, ainda, hóspedes que moravam no hotel: dona Balbina, viúva rica e solitária, Mister O'Hara, que embora muito idoso e doente dirigia uma grande empresa quase sem sair do apartamento, o anão Jujuba, ídolo infantil da televisão, e o Barão. Certamente Barão era apenas apelido do homem gordo que mandou Leo comprar jornais, conhecido benemérito, protetor de inúmeras instituições assistenciais.

         Leo voltou com os jornais e tocou a campainha do 222. Desta vez o hóspede não abriu de imediato a porta. Antes que o fizesse, o bellboy ouviu ruídos.

           — Quem é? — perguntou o Barão, o que nunca fazia.

           — Sou eu, o bellboy. Trouxe os jornais. A porta abriu pouco e lentamente, o suficiente apenas para mostrar o rosto do hóspede. O Barão muito pálido, como um doente, teimava em sorrir, mas não devia estar bem porque suas mãos, trêmulas, deixaram cair os jornais. Leo abaixou-se para apanhá-los quando viu, sob a cama, dois pés calçados, apontando para a porta. Pegou os jornais e ao levantar-se notou que havia uma mancha vermelha, provavelmente de sangue, no robe do gordo do 222.

          — Obrigado — disse o Barão, segurando confusamente os jornais e apressando-se em fechar a porta.

           Mesmo diante da porta fechada, Leo deteve-se ainda um momento para relembrar e fixar na memória a cena que acabara de ver. Daí por diante começariam seus problemas.

                      GUIMA, SABE O QUE EU VI?

            Leo desceu para o saguão desejando que ninguém o chamasse. Precisava contar ao Guima o que vira no 222. O porteiro, na rua, parava um táxi para um casal de hóspedes estrangeiros. Ele era bastante considerado pela gerência porque falava um pouco diversos idiomas, até japonês.

           Guima, assim que o viu, aproximou-se:

           — Diga a dona Iolanda que domingo passo lá pra filar macarronada.

            Leo estava agora mais assustado do que no momento em que vira os pés debaixo da cama.

             — Guima, sabe o que eu vi?

             O porteiro sentiu que o rapaz estava sob forte tensão e ficou muito preocupado. Para um bellboy não era interessante ver certas coisas. Aliás, o perfeito mensageiro não tem olhos nem ouvidos: apenas pernas e cortesia.

              — Alguma mulher sem roupa?

              — Não, acho que vi um cadáver.

              [...]

 Fonte: Maxi: ensino fundamental 2:multidisciplinar:6 º ao 9º ano/obra coletiva: Thais Ginicolo Cabral. 1.ed. São Paulo: Maxiprint,2019.7º ano Caderno 4 p.66 a 71.

 INTERAGINDO COM O TEXTO

01. Em geral, as histórias de detetive apresentam ao leitor algumas informações relacionadas ao espaço da narrativa.

a)   Identifique, no texto, o espaço em que os fatos narrados acontecem. Faça uma breve descrição desse espaço.

Os fatos narrados acontecem no Emperor Park Hotel, um cinco estrelas bonito, moderno e requintado.

b)   Há outros espaços mencionados na história. Identifique-os e explique por que eles são citados.

A Bela Vista, no bairro do Bixiga, é mencionada por ser o lugar onde Leo nasceu e morava.

c)   Você já ouviu falar sobre esses lugares? Esses lugares são fictícios, ou seja, foram inventados pelo autor? Justifique sua resposta.

Resposta pessoal.

Sugestão: Esses lugares não são fictícios. Bela Vista é um distrito situado na região central da cidade de São Paulo, onde fica localizado o bairro conhecido como Bixiga.

02. A descrição é um recurso que permite melhor visualização dos elementos que compõem a narrativa. Assim, aponte características que descrevem:

a)   o Hotel Emperor Park:

O saguão do hotel estava sempre cheio de hóspedes, a piscina tinha um verde para ricos, a boate era luxuosa, havia um imponente salão de convenções, quadra de shopping com lojas sofisticadas, um belo terraço-bar, etc.

b)   a maioria dos hóspedes do hotel:

Os hóspedes eram pessoas importantes, como atrizes de cinema, automobilistas, reis do petróleo, etc.

c)   os hóspedes que moravam no hotel:

Uma viúva rica e solitária; um idoso, que era diretor de uma grande empresa; um anão, ídolo infantil da televisão, etc.

03. Entre os personagens comuns nas narrativas de detetive estão a vítima, o(s) suspeito(s) e o detetive, ou alguém que desempenha o papel de esclarecer o mistério.

a)   É possível identificar esses personagens no trecho que você leu? Explique sua resposta.

Sim, provavelmente, o homem que Leo viu pelo reflexo do espelho é a vítima, o Barão e o suspeito e Leo é o personagem encarregado de esclarecer o mistério.

b)   Como esses personagens são caracterizados no texto?

O homem que Leo viu refletido no espelho era pequeno, tinha a aparência de índio vestindo roupas civilizadas; o Barão é descrito como gordo, mole e displicente, prestava assistência a inúmeras instituições; Leo nasceu e morava no Bela Vista, trabalhava como mensageiro no hotel das 8h às 18h e estudava à noite, demonstrava interesse pelo trabalho.

c)   O autor de histórias de detetive costuma deixar traços e pistas ao longo da história a fim de fazer revelações ou confundir o leitor, conduzindo a narrativa a um final quase sempre surpreendente. Que informações no texto permitiram que você identificasse esses personagens? Explique sua resposta.

Quando Leo bate à porta, atendendo ao chamado do Barão, é recebido com um sorriso largo, e o homem pequeno com aparência de índio, pelo reflexo do espelho, fecha a porta do banheiro com uma cotovelada, com receio de ser visto. Quando Leo bate à porta novamente para entregar os jornais, o Barão pergunta quem é, o que nunca fazia, demora para atende-lo e, ao abrir a porta, o que faz pouco e lentamente, mostra-se pálido, teimando em sorrir. Não parecia bem, pois suas mãos estavam trêmulas, deixando cair os jornais. Leo, então, abaixa-se para apanhá-los, quando vê, sob a cama, dois pés calçados apontando para a porta, pega os jornais e, ao se levantar, nota que havia uma mancha vermelha no robe do Barão, provavelmente de sangue.

04. Outro elemento que caracteriza as histórias de detetive é um crime ou um mistério a ser desvendado. Identifique esse elemento no trecho lido.

O enigma a ser desvendado é se os pés visto sob a cama eram do homem visto anteriormente no quarto, descobrir se ele realmente está morto e, em caso afirmativo, descobrir onde está o corpo e provar quem o matou.

 

 

 

 

 

sábado, 9 de julho de 2022

CONTO: PEGA LADRÃO, PAPAI NOEL! - MARCOS REY - COM GABARITO

 CONTO: Pega ladrão, Papai Noel!

                 Marcos Rey

Ele não era bem um Papai Noel, pois trabalhava numa grande loja, a Emperor, aquela grande, da avenida. Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota. Mas seu visual, mesmo sem uniforma, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isto: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

         -Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a loja andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido nua bolsa. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, fez voz de vigia:

          -Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ldrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares, Aí, novamente, Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão, logo à saída da loja, chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase... Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

- Mas não comprei.

- Ahn?

- Ganhei.

- De quem?

               - De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir, Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

In: Antônio de AlcântArA MAchAdo et al. De conto em conto. São Paulo: Ática, 2006. p. 42-46. (Coleção Quero Ler: Contos).

http://biaatividades.blogspot.com/2013/01/texto-pega-ladrao-papai-noel.html

Desvendando o texto

01. Por que o homem roubou o trenzinho de pilha?

      Para presentear seu filho na noite de Natal.

02. O que você acha da atitude do ladrão?

      Responda pessoal.

03. Você acha que o presente é o que mais importa no Natal?

       Resposta pessoal.

04. Relacione o texto com a frase: “Os fins não justificam os meios”.

      O fato de ele querer dar um presente para seu filho, não ter como comprar e por isso roubar. Nada justifica esta atitude.

05. O conto se inicia com a apresentação de um personagem: um Papai Noel recém-contratado.

a) Que características tornavam aquele homem ideal para o cargo?

     Era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente.

b) Além das habituais funções, esse Papai Noel teria um trabalho especial. Qual? Por que ele havia se tornado necessário?

Um olheiro, um insuspeito fiscal de seção, porque aumentou o número de furtos no departamento de brinquedos eletrônicos.

06. Releia o seguinte trecho. “Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê?”

Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha.

a)    A expressão “juntamente com seu sorriso” contribui para a impressão de que o Papai Noel age de modo simpático, divertido ou fingido? Por quê?

Para que ninguém suspeite que também está fiscalizando o departamento.

b)    Por que você acha que o narrador usou a expressão “quando viu. Viu o quê?” em lugar de contar diretamente o que foi visto?

Resposta pessoal.

c)     O que o Papai Noel fez depois de ter visto o que viu? Por que ele agiu assim?

Papai Noel deu um passo firme e fez voz de vigia:

 - Por favor, me deixe ver essa bolsa!

07. A partir do sexto parágrafo, a narrativa começa a ficar parecida com cenas de filmes de ação.

a) Por que temos essa impressão?

    Porque o ladrão corre e o Papai Noel o persegue incansavelmente, sem se importar com as pessoas nas ruas.

   b) A relação com o cinema é explorada pelo próprio narrador no oitavo parágrafo. Que palavras ou expressões do texto se referem a essa arte?

         A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.”

c)   A narrativa se passa em São Paulo. Quais características dessa cidade contribuem para a construção das cenas de perseguição? 

 O aeroporto de Congonhas, a   galeria da Barão e o  Minhocão.

08. O final da história surpreende o leitor.

       A história se passa em uma época específica do ano. Como ela ajuda a justificar a ação do personagem?

    A época é Natal. Nesse tempo as pessoas ficam mais sensíveis, porque comemora o nascimento do menino Jesus.

09. Releia um dos parágrafos do final do conto. “A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.”

 a) A que se refere o termo ?

      Refere-se a criança recebendo o presente de Natal.

b) Se a história terminasse aqui, falaria de um roubo. O que muda quando o narrador dá continuidade a ela.

     Muda o espaço onde a história se passa, pois agora já é o ambiente da casa, onde a criança recebe o presente.

10- Durante a perseguição, você torcia pela captura do ladrão? Por quê?

     Resposta pessoal.

11.  Enumere os fatos na ordem em que apareceram no texto:

     ( 3  ) A fuga e a perseguição

     (  5  )  A entrega do presente

     (  1  )  A apresentação do Papai Noel

     (  4  ) A interferência do narrador

     (  2  )  O roubo e o flagrante

12.  “Ele não era bem um Papai Noel, pois trabalhava numa grande loja.”

      Por essa passagem, entende-se que:

     a) Não existe Papai Noel de verdade.

     b)   O verdadeiro Papai Noel não precisa trabalhar em lugar nenhum.

     c)   Há muitas pessoas que se fazem passar pelo bom velhinho.

     d)  As lojas enganam os seus compradores com falsos velhinhos.

    e)   Nem todo Papai Noel gosta do seu trabalho.  

13.  Observando o primeiro parágrafo, pode-se afirmar que um Papai Noel deve ter todas estas características, exceto:

     a) doçura no olhar

     b)  sorriso constante

     c)  aparência favorável

     d)   voz forte e imponente

     e)  vocação para o papel

14.  A relação causa-consequência se encontra incorreta em:

       a)   A loja vendera pouco. X Contrataram o Papai Noel.

       b)   Havia muitos furtos na loja. X O Papai Noel deveria fiscalizar os compradores.

       c)  O Papai Noel viu um homem roubando um brinquedo. X O homem fugiu, levando o que roubara.

       d)   Havia muitos obstáculos dentro e fora da loja. X Papai Noel não conseguia alcançar o ladrão.

       e)  Papai Noel entendeu o motivo de o homem ter roubado o trenzinho. X  Papai Noel desistiu da perseguição.

 15. Todos os motivos contribuíram para o insucesso do papai Noel, exceto:

     a)  A localização da seção de brinquedos.

    b)   O peso do próprio corpo.

    c)   A agilidade do homem “ladrão”.

    d)   O movimento de clientes dentro da loja.

    e)   O trânsito confuso =nas avenidas por onde passaram.

16.  A partir do sexto parágrafo, a narrativa começa a ficar parecida com cenas de filmes de ação.

      a) Por que temos essa impressão?

      (  ) porque narra a passagem de um furacão devastando uma loja de brinquedos.

     (  ) porque narra detalhes de um desastre e suas dificuldades.

     (  ) porque narra o drama de um ladrão.

    (x ) porque narra uma perseguição, com momentos em que o ladrão é quase capturado.

      b) A relação com o cinema é explorada pelo próprio narrador no oitavo parágrafo. Que palavras ou expressões do texto se referem a essa arte?

      (  ) ladrão, brinquedo, galeria.

      (  ) Papai Noel, brinquedo, bom velhinho.

      (x ) espectadores, câmera 2, fotogramas ( ) impressão, milhas, quilômetros.

     c) A narrativa se passa em São Paulo. Quais características dessa cidade contribuem para a construção das cenas de perseguição?

      (x ) cidade populosa e movimentada.

      (  ) cidade com poucos habitantes.

     (  ) cidade tranquila e sem movimento.

     (  ) cidade pequena e sem conflitos.