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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ROMANCE: A HORA DA ESTRELA - FRAGMENTO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Romance: A hora da estrela – Fragmento

                Clarice Lispector

Trecho I

        Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...]

        Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhk5eE4nVXM9SVD2xwnEOVXKJsZeBPsS6-zUMyIZV_wyszsW8YJmJLAUZn3hXr2ilgLjhtM2V1KODQK2OYc8nxIYrGifSxiTBmrH8rv52ZcRJ1lnz2ANq23yJOl0eVp0ecDq9TR0sNVutqjVZuXlL2HgcOUXfGIMH08BgLGJr4zrnW5mcCkKjTp6JSzQH4/s320/images.jpg


        Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. [...].

        O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...]

        Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “que sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “que sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20.

Trecho II

        Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...]

        Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com o ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...]

        Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...]

        Talvez a nordestina já tivesse chagado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 234.

Entendendo o romance:

01 – No Trecho I, o narrador expressa um sentimento de dever em relação à história da moça nordestina. Qual é a principal motivação apresentada por ele para escrever essa narrativa?

a) A necessidade de resgatar memórias autobiográficas de sua infância no Nordeste.

b) A intenção de criar uma obra de ficção complexa e repleta de mistérios insolúveis.

c) O desejo de demonstrar sua alta habilidade e virtuosismo técnico na arte literária.

d) O compromisso ético e a obrigação de dar visibilidade à vida da moça.

02 – De acordo com as reflexões do narrador no Trecho I, por que a pergunta 'que sou eu?' seria perigosa para a protagonista?

a) Porque a questionamento gera uma necessidade de sentido que a personagem não saberia como satisfazer.

b) Porque essa pergunta a faria perceber que era mais inteligente do que as pessoas ao seu redor.

c) Porque o autoconhecimento a levaria a abandonar imediatamente sua vida no Rio de Janeiro.

d) Porque o ato de se questionar exigiria dela o aprendizado de teorias filosóficas complexas.

03 – No Trecho II, a expressão metafórica 'ela era café frio' é utilizada para descrever a moça. O que essa metáfora sugere sobre a percepção social da personagem?

a) A sua total insignificância e invisibilidade aos olhos das pessoas que passavam por ela.

b) O seu temperamento calmo e controlado diante das adversidades do cotidiano.

c) O seu ressentimento silencioso contra as injustiças da grande cidade.

d) A sua constante busca por momentos de descanso e pausa durante o trabalho.

04 – A analogia entre a moça e um cachorro ('assim como um cachorro não sabe que é cachorro'), apresentada no Trecho II, tem como finalidade explicitar:

a) O desprezo e a agressividade com que ela costumava tratar as pessoas ao seu redor.

b) A ausência de autoconsciência da personagem, o que a preservava de se sentir infeliz.

c) A incapacidade biológica da moça de se comunicar com outros seres humanos.

d) A fidelidade incondicional da personagem em relação aos seus patrões e colegas.

05 – Qual opção sintetiza adequadamente o modo de existência da moça descrito ao longo do Trecho II?

a) Uma trajetória marcada pela busca constante de ascensão social e realizações pessoais.

b) Uma postura de confronto aberto e revolta permanente diante da exclusão social.

c) Uma vida dominada por angústias filosóficas profundas e dor existencial diária.

d) Uma vivência puramente biológica e alienada, pautada no simples ato de vegetar ou respirar.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

ROMANCE: SOMBRAS DE REIS BARBUDOS (O ENSAIO) - FRAGMENTO - JOSÉ J. VEIGA - COM GABARITO

 Romance: Sombras de reis barbudos (O Ensaio) – Fragmento

               José J. Veiga

        O ensaio

        [...]

        Toda tarde íamos ensaiar em casa da professora, tinha lá sala grande que ela preparou para os ensaios riscando no chão todas as indicações do palco, bastava a gente passar por cima de uma meia-lua de giz para entrar ou sair de cena, quem estava de um lado do risco tinha de fingir que não via nem ouvia quem estava do outro; eu, por exemplo, ficava do lado de fora esperando a hora de entrar e ouvindo as maiores ofensas a mim; quando entrava e era recebido com elogios e rapapés, precisava me segurar muito para não rir nem me atrapalhar no papel. Não sei se a professora estava pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi-guFmciyVoDjoS6A8IIOQS0Pwl0jbqGeK2M_KhSL_vX-mf-iy46C2ccmQc02UvshOnkY15zeg9yhL9xG_tChhPfm-aeNrxJY-J4aPnikJMiokJidCrT4W_sB8rOu1Y-2OkJvr6S4jL9SYyVjy87qQVzCx2-_BReW-gCd8zufD2hEz8MxBl7tfWzfvfvo/s320/images.jpg


        Os ensaios estavam adiantados, ninguém errava mais as frases, a professora já tinha dado os modelos das roupas que íamos vestir no palco. Quando eu soube que tio Baltazar tinha dado ordem para a Companhia ajudar nas despesas de carpintaria e outras, e que na semana seguinte ia haver um ensaio com roupa para ele e tia Dulce, o meu entusiasmo pelo teatro começou a esfriar. Eu tinha medo de gaguejar em minha fala, ou de falar desafinado, e nunca mais me levantar do desastre.

        [...]

José J. Veiga. Sombras de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 97.

Entendendo o romance:

01 – No trecho "quem estava de um lado do risco tinha de fingir que não via nem ouvia quem estava do outro [...] Não sei se a professora estava pensando nisso quando disse que teatro ensina a viver", o narrador reflete sobre as regras do ensaio. Explique a relação metafórica entre o aprendizado teatral e a afirmação da professora de que "teatro ensina a viver".

      A metáfora estabelecida revela que a vida social, assim como o teatro, exige a aceitação de convenções e papéis sociais pré-determinados. Para interagir em sociedade, as pessoas muitas vezes precisam praticar a dissimulação e a tolerância — ouvindo ofensas ou falsidades ("rapapés") sem reagir impulsivamente e fingindo ignorar o que acontece "bastidores" das relações. A professora sugere que o teatro ensina a viver porque exercita o autocontrole, a adaptação às regras do jogo social e a capacidade de desempenhar um papel perante os outros.

02 – Identifique o tipo de narrador presente no fragmento e analise como a sua perspectiva influenciou a forma como os acontecimentos do ensaio e a figura de Tio Baltazar são apresentados.

      Trata-se de um narrador-personagem (foco narrativo em 1ª pessoa). A história é contada a partir da perspectiva juvenil ou infantil do protagonista, marcada pela subjetividade, pela inocência e pelo olhar atento às contradições dos adultos. A figura do Tio Baltazar e a presença da autoridade (a "Companhia") são vistas sob a ótica do temor e do constrangimento, o que faz com que a simples presença dos tios na plateia do ensaio transforme uma atividade divertida em uma fonte de ansiedade e opressão.

03 – O entusiasmo do narrador em relação ao teatro sofre uma alteração repentina no segundo parágrafo. O que motiva essa mudança de atitude e qual sentimento passa a dominar o personagem?

      A mudança é motivada pela notícia da interferência do Tio Baltazar e da "Companhia" no evento (financiando a carpintaria) e pela confirmação de que ele e a Tia Dulce assistiriam a um ensaio geral de figurino. O entusiasmo do narrador "esfria" porque a atividade lúdica e despretensiosa se transforma em um momento de cobrança e vigilância sob o olhar da autoridade familiar/social. O sentimento que passa a dominá-lo é o medo do fracasso (medo de gaguejar, desafinar e sofrer uma humilhação da qual "nunca mais se levantaria").

04 – José J. Veiga utiliza uma linguagem fluida e próxima do ritmo da fala. Observe a estruturação das frases no primeiro parágrafo e indique dois recursos sintáticos ou estilísticos que evidenciam o caráter de oralidade do texto.

      Dois recursos que evidenciam a oralidade são:

      Uso de períodos longos encadeados por pontuação leve (vírgulas) e conjunções coordenadas: O primeiro parágrafo é construído como um fluxo contínuo de pensamento, imitando a forma espontânea como uma história é contada oralmente.

      Uso de expressões populares e de registro coloquial: Termos e construções como "a gente", "fiquei me segurando muito" e "rapapés" conferem proximidade e informalidade ao discurso do narrador.

05 – Mesmo em um fragmento cotidiano sobre o ensaio de uma peça escolar, o texto de Sombras de reis barbudos traz elementos que dialogam com o tema central do romance (a chegada do autoritarismo e do controle social). Como a intervenção do "Tio Baltazar" e da "Companhia" no ensaio antecipa esse clima de controle?

      O romance Sombras de reis barbudos é uma alegoria sobre a infiltração gradual do autoritarismo e da perda de liberdade em uma comunidade. No fragmento, a chegada do Tio Baltazar — associado à "Companhia" (entidade corporativa/estatal que passa a dominar a cidade) — através do financiamento das despesas e da presença fiscalizadora no ensaio, simboliza a perda da autonomia lúdica dos moradores. A arte/teatro deixa de ser um espaço livre e puro de expressão para se tornar um espaço vigiado, gerando inibição, medo e paralisia no indivíduo.

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

ROMANCE: OS SERTÕES TRECHO II - EUCLIDES DA CUNHA - COM GABARITO

Romance: Os Sertões Trecho II – Fragmento

               Euclides da Cunha

        Os sintomas do flagelo despontam, lhe [para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... [...] 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh4N5rtgXvyCFu8Qjxw5HAJTDLiBHYJnoGoCmavTm8Lq8eEQSVkeoxx2gLYTrTtFPUDeyIaph_Krb5WUVykh43jvzk2Pb9ssxyiIxatzoqLVuJc3JsMEHTrEnjIUx5hEuWBTFSNNokeIXgcAxyHktQPmeBbjRjT-eAXrXlfDtbwXzL4UFErIR-JxMCL5U/s320/images.jpg


        Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. [...] 

        Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.[...] 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 148, 153-154.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 20.

Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Transuda: transpira

-- Sezão: febre cíclica 

-- Delido: aniquilado, destruído

-- Moqueadas: queimadas, tostadas

-- Marcescentes: que murcham, secam

-- Greta-se: racha-se 

-- Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos espinhosos 

-- Reverberando: repercutindo 

-- Canícula: calor muito forte

-- Assoberbado: dominado, humilhado

-- Reveses: Desgraças, infortúnios

-- Situação mais alta: situação mais favorável.

02 – Como Euclides da Cunha descreve a chegada da seca no primeiro parágrafo e qual metáfora principal ele utiliza para retratar esse fenômeno natural?

      O autor descreve a seca como um processo inevitável, gradativo e encadeado, que se manifesta por meio de sinais progressivos na paisagem (chuvas rápidas que evaporam, o chão que se greta e as cacimbas que secam). Para retratar esse fenômeno, Euclides da Cunha utiliza a metáfora de uma "moléstia cíclica" (uma doença da própria Terra), comparando os sinais da seca aos sintomas de uma enfermidade assustadora que se repete periodicamente, consumindo o meio ambiente.

03 – De que forma o meio ambiente (a caatinga) reflete o estado de escassez e o calor extremo no trecho analisado? Destaque elementos do texto que comprovam essa transformação.

      A caatinga reflete a aridez extrema ao se desidratar e mudar de aparência. O autor comprova isso através de imagens visuais e sensoriais marcantes:

      Vegetação: A mata ganha tufos pardos de árvores murchas ("marcescentes"), que parecem "cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas";

      Sol e Vento: O Sol espalha "os incêndios inextinguíveis da canícula" (calor extremo) no céu claro, enquanto o vento "nordeste" sopra forte e contínuo, zunindo e uivando entre os galhos secos da vegetação;

      Ausência de água: O chão se fenda ("greta-se"), o nível das águas subterrâneas cai e até a própria flora para de sinalizar umidade (a casca dos marizeiros já não transuda).

04 – Qual é o impacto psicológico e físico de todo esse cenário de privação sobre o sertanejo, segundo o segundo parágrafo?

      Diante do esgotamento total dos recursos naturais e da completa falta de perspectivas de chuva, o sertanejo chega ao seu limite de resistência. Sobrecarregado por sucessivas adversidades ("assoberbado de reveses"), ele acaba se curvando ("dobra-se afinal") perante a força implacável da natureza. O texto evidencia que, apesar de sua força e rusticidade, o sertanejo é momentaneamente vencido pelo rigor extremo do clima e pela impossibilidade de sobrevivência naquelas condições.

05 – Explique a tese determinista do autor expressa no trecho: "...em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária...".

      Nesse trecho, Euclides da Cunha aplica o determinismo meio-ambiental (conceito muito influente no final do século XIX), segundo o qual o ambiente físico molda as características biológicas e psicológicas do ser humano. O autor argumenta que a convivência diária e a luta constante contra uma natureza hostil e agressiva (a caatinga árida) forjaram no sertanejo um temperamento e um corpo igualmente rústicos, severos e resistentes, "estampando" nele a própria dureza do sertão.

06 – Aponte a denúncia social e política presente no início do último parágrafo ("Insulado deste modo no país que o não conhece...") e contextualize sua importância.

      A denúncia consiste no isolamento e no desconhecimento do sertanejo por parte do restante do Brasil (especialmente pelas elites e pelo poder público do Litoral). Euclides da Cunha evidencia a existência de "dois Brasões": um litoral urbanizado e voltado para a Europa, que ignora completamente a realidade, as necessidades e a existência do povo do interior sertanejo. Essa crítica é central em Os Sertões, pois mostra que o conflito de Canudos foi alimentado pelo preconceito e pela incompreensão do Estado em relação àquela população marginalizada.

  

terça-feira, 7 de julho de 2026

ROMANCE: SANGUE VERDE - PARTE 2 - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Romance: Sangue Verde – parte 2

         David Gonçalves

 

        Um garimpeiro, com mais de cinquenta anos, dizia com amargura alguns trechos de sua vida:

        — Se eu fosse jovem e forte, por Deus, não me enterraria aqui. Faria de tudo para partir. Isso é uma draga, chupa todas as forças. É ilusão pura. Não ficaria aqui chafurdando na lama, com gosto de barro na boca. Não mais colocaria minha vida numas poucas pepitas de ouro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi1whD38gsFY0_vytsO3cilmthrxTB2FttmEvR9eKnp63lNEBIr7UMbhsdpBEaa6goBzPd3zijvktuH4eD8bCjEdPzl436sbs1DGNaQFhHKZyME3F5IBFyWhGoJzp6Szz34V-WvvQkDfutS_NrZOhtflwy8JDjHs_Pq4DgL5LBQuxYgf4eAiPv2THAu3nQ/s320/71QWYoL+z6L._UF1000,1000_QL80_.jpg


        — Velho de uma figa! Cale essa boca!

        — Deixe ele falar. Pelo menos, sua alma se torna mais leve – ordenou Doca mirando as sombras das lamparinas dançando nas paredes.

        — Essa conversa me dá nojo! – confessou outro garimpeiro.

        — O que não dá nojo nessa vida?

        O velho principiou novamente com sua voz cansada e alterada.

        — Joguei minha vida fora. Queria a fortuna!

        — Quem não a quer? Ninguém está por aqui por bonito. É o ouro! O resto não importa.

        — Que ilusão! O que tenho hoje? Reumatismo, perebas e cansaço. Meus braços, que eram fortes, podiam até nocautear um boi, só com um soco, e hoje já não aguentam os trancos. Mas vocês, vejo por essa febre que está em cada olhar, jamais me ouvirão. Estão neste garimpo como urubus numa carniça. Sei lá por que estou falando nessas coisas...

        — Não se tocam urubus de cima de uma carniça – disse Doca, enfarado. – Só quando não houver nenhum naco de carne podre. Mesmo depois de Serra Pelada ter virado um açude, um alagado, água jorrando como um rio, ainda tem gente que vai todo dia contemplar a grande lâmina d’água, ainda enfeitiçado, à espera do borbulho do ouro...

        Voltou a enxugar o suor no rosto.

        — Bem, pessoal, vou dar uns giros. Estou vertendo água. Alguém me acompanha?

        Ninguém mostrou-se interessado. O calor os deixava prostrados, como sacos inúteis. Então saiu barraco afora. A rua torta estava enlameada. Garimpeiros, nas portas de seus barracos, trocavam conversa mole. 

        Que noite tivera! Foi de arrasar. Gastara o pouco dinheiro com aquela mulher. Por isso, sentia-se novamente homem. E isso era tudo que podia sentir de bom. Caminhou sem rumo. De repente, alguém o interpelou no escuro. Era o estranho da noite anterior. O tal de Antônio Russo. Também caminhava absorto. Doca queria ficar só. Cumprimentou e saiu a passos largos, mas o outro o interpelou novamente. 

        — Sente fogo sob os pés?

        — Esse mormaço! 

        — Pensei que fosse na casa de madame Teresa. Parece que se deu bem ontem. 

        — Fiz o que pude.

        — Aquela mulher é de revirar as ventas!

        — Estou apressado. Quero estar só. 

        E desapareceu no escuro. De fato estava atordoado. Aquela mulher fizera estragos em seus sentimentos. Chovera o dia todo e, recostado na rede, enquanto os demais no barraco jogavam baralho, ele ardia em desejos. 

        Matildes, Matildes, Matildes!. Tinha bom corpo e voz macia. Os cabelos longos e pretos desciam-lhe sobre os ombros nus. Sem dúvida, caíra como mosca no mel. Estava se debatendo no melaço e, quanto mais se debatia, mais ficava preso. Queria a todo custo espantar a sua presença e seu cheiro adocicado, mas não conseguia. Ele não era menino bobo, que se engabelava por qualquer fêmea. Experiente, calejado pelo andar da vida, sabia livrar-se de rabo de saia. Não era tolo de amarrar o burro num único pau. 

        Um luar esmaecido subia sobre a floresta.

        GARIMPO — terra rica de gente pobre...

        Um pedaço no meio da Amazônia transformado em turbulento reduto de aventureiros.

        Com as notícias de riqueza fácil, toda a espécie de gente acorria desordenada como um formigueiro desfeito. Vinha tentar a sorte. Cada forasteiro, sem nada nos bolsos, se mostrava mais ganancioso do que o outro.

        Era uma massa de gente que não prestava, desbandeirada, sem pouso nem destino certo. Por toda parte, existia gente que não prestava, mas em menor proporção. Ali, a maioria não valia um níquel, numa ânsia de enriquecer de qualquer jeito. Na luta pela posse do ouro, a ambição cega atropelava. Homens cegos sedentos por ganhos rápidos.

        A maioria vinha só, sem mulher e filhos. Para que levar a família no meio da floresta? Logo, entretanto, a fome por sexo falava mais alto. Não havia mulheres para todos e isso causava pânico. Os homens se tornavam nervosos e inquietos, como se os corpos ardessem em chamas. Então, bebiam. Por qualquer palavra desentendida, as brigas, seguidas de mortes, explodiam. O pequeno cemitério crescia como um organismo vivo.

        Já se cogitava em fabricar caixões. Zeca Maranhão percebera a necessidade e, numa marcenaria improvisada, desenhava caixões grotescos e os construía com tábuas toscas. Mas os enterros, em sua grande parte, aconteciam em redes, que ninguém queria pagar as despesas do defunto.

        O bom negócio, a princípio, se revelava desastroso. Zeca Maranhão esperava por dias melhores. De uma coisa tinha certeza: as mortes sucediam-se irremediavelmente. Quanto mais os homens sentiam necessidade de sexo, mais eles se tornavam insuportáveis e brigões.

        Mulheres eram disputadas à força. A cada leva de mulheres que chegava no cabaré era motivo de ansiosas conversas e expectativas. Mesmo os que nada tinham e estavam roendo as unhas queriam entrar no cabaré para espiar as madames recém-chegadas. Em geral, mulheres maltratadas pela vida, com seios caídos e cinturas deformadas, deixando ver abertamente dobras de gordura e calombos de celulite. Bem vestidas, com maquiagem espessa, sob as luzes fracas e coloridas, elas se transformavam em princesas aos olhos dos garimpeiros. 

        Sob o sol escaldante, os comentários circulavam pejados de angústias e desejos, e todos desejavam bamburrar, mesmo que fosse porção pequena de ouro, para que pudessem pagar àquelas princesas.

        — Desta vez, só uma se salva... aquela morena alta, de quadris redondos, seios erguidos...

        Outro rebatia:

        — Pra mim, mano velho, qualquer uma serve. Quem não tem cão, caça com gato! Estou a matar cachorro a grito...

        — Por que não usa o cinco contra um? — pilheriava o companheiro, sorrindo abertamente. — Pelo menos, você se livra de doenças.

        — Ah, de boa consciência, quem aqui neste fim de mundo já não usou? Estou até com cabelos nas mãos!

        E todos riam. Os desejos, entretanto, aumentavam, afloravam, e deixavam os homens irascíveis.

        O Pastor achava-se dono daquela riqueza. Para entrar no formigueiro desordenado, cobrava das pessoas. Com isso, ele ganhava na entrada, na igreja, na venda dos produtos do armazém, na venda do ouro e na saída. Os devedores fugitivos eram perseguidos por caçadores de recompensas.

        E a primeira coisa que o garimpeiro faz, quando acha uma boa pepita, é comprar uma arma e andar com ela na cintura, debaixo da camisa, desconfiado até da própria sombra. Depois do comércio do ouro, o de armas é o que mais prospera. Tio Nico, a cada três meses, aporta por lá com uma mala recheada de pistolas, todas da Fronteira, onde não há lei alguma e o tráfico corre solto. Para entrar no garimpo, Tio Nico dá polpudas comissões ao Pastor.

        Ninguém está no garimpo para salvar o mundo. Todos desejam salvar a própria pele. 

        Há os que chegam e ainda trazem bons preceitos. A miséria os empurrou para este tipo de trabalho. Mas, com os dias se arrastando de forma selvagem, tudo passa. Dentro de algum tempo, compreendem que a vida não vale nada. Pois o que vale o homem? Exatamente o que ele tem nos bolsos.

        Levas de ambiciosos abandonavam suas terras distantes, reunindo apenas o indispensável para a viagem, e se dirigiam para o garimpo Boa Fortuna. Sem dinheiro para pagar o Pastor, eram despejados de volta, ou se arranchavam na ponta das ruelas, espalhando-se pelo formigueiro à procura de trabalho. Decepcionados, logo descobriam que o garimpo tinha donos, e um deles, sem dúvida, era o Pastor. Sem alternativas — os bolsos vazios, a fome rondando a cada dia, e a grande floresta como muralha, iam ficando, as ruelas cresciam, novos ranchos cobertos de buriti se ajuntavam. Viviam ao deus-dará, como podiam, com os seus cachorros magros e filhos carcomidos por vermes. 

        Garimpo — terra rica de gente pobre.

        NO POVOADO DESAPRUMADO havia uma meia-água tosca, com uma tabuleta pendente da porta, onde se lia “A FLUTARIA DU GARIMPU”, escrita a piche, as letras desengonçadas, fora do prumo. Mais pareciam bonecos desenhados por crianças.

        Havia chegado de barco uma carga de frutas, e o dono, um baiano, sabia que, naquele dia, não teria sossego. Frutas eram iguarias. No dia a dia, feijão, arroz, farofa e carne seca. Uma vez, a cada quinze dias, o barco trazia caixas de madeira com frutas – abacaxis, mangas, laranjas e tubérculos.

        — Tem abacaxi? — perguntou Doca, exausto, sujo de terra, no final da tarde, quando o sol se escondia na floresta feito uma bola de fogo.

        Zé do Coco picava fumo despreocupadamente, só de bermuda, nu da cintura para cima. Distraído, esmigalhava o fumo de corda com um canivete gasto de cabo de osso, lambendo a palha de milho para enrolar o cigarro.

        — Abacaxi, veio desta vez? — voltou a perguntar Doca. – Amanheci com as lombrigas atiçadas!

        Sonhara à noite com balaios lotados de abacaxis amarelos, cheirosos e suculentos. Revirava na rede. 

        — Lá vem o barco! – trabalhando na mina, ficava de olhos no rio, lembrando do sonho da noite. – Será que trouxe abacaxi?

        Era uma frutaria improvisada. Havia cachos de bananas pendurados, envolvidos por telas de nylon, para afastar os pássaros e os macacos famintos. Eram cachos raquíticos cultivados por ribeirinhos, ao longo do rio, ao deus--dará. Muitas vezes, apodreciam antes de madurar. Os ribeirinhos, antes de granar, vendiam, gananciosos. Protegidos por telas, os pássaros não conseguiam bicar, mas os macacos... Atacavam em bandos. Eram rápidos e ardilosos.

        — Tão aí, mininu!

        Em cima de uma banca de tábua suspensa por estaca, que também abrigava carás e mandioca já passados, os abacaxis espalhados, com parte da polpa apodrecida. O cheiro adocicado atiçava as abelhas, atiçando também a gula de Doca.

        — Tão aí, mininu, pode pegá, é deis real cada.

        Doca se assustou. 

        — Cada um?

        — Sim, mininu. Tá tudo muito caro. Vem di longi, ocê sabi. Pur metro, vai dobrano o preçu. Nu garimpu, custa o zóio da cara!

        Queria cinco abacaxis. Mas, no preço que estava, contentou-se com dois. Depois da janta, descascaria um.

        — Faz um desconto, seu Zé. Aí levo mais um.

        — Nun tem jeito, não. Tudo mundo qué ganhá o seu. Quandu chega nu garimpu, tá o zóio da cara!

        Uma velha desdentada, acompanhada de uma cabocla nova e de um menino sardento, que coçava constantemente a cabeça desalojando os piolhos que disputavam o sangue aguado pela maleita e pelas lombrigas, queria comprar fiado, pagar no fim do mês. Zé do Coco fechou os cenhos, alterou a voz:

        — Minha sinhora! Tenhu um loti de cabecinha chata, pançudu e lubriguentu pra criá, i a sinhora vem pedí fiadu. Pru inferno! Aqui, nu garimpu, só nu dinhêro! Nun adianta ficá cum essa cara de cachorro caídu de mudança, não. Quem tem coração moli nun vévi pur essas bandas...

        Doca se apiedou.

        — Que gente pobre... Coitados!

        — Coitadu é fio de rato que nasci peladu! Quem nun tem dinhêro qui nun si estabeleça! A lei da vida. Si eu for ter pena dessa genti, tô fudido e mal pagu. Vá pedi as coisa pru Pastor... Nun vai recebê nadinha! É um mão di vaca. 

        Sempre o Pastor, a mesma conversa.

        — Vê si o home, essi tar de Pastor, vai pegá nu cabu du machadu pra rachá lenha, nem vai amassá barru, muitu meno trepá na iscada pra tirá goteira du ranchu. Nun vai pegá nu cabu da inxada pra plantá mantimenu, nem vai cavá o chão pra tirá ouro. O home manda e dismanda nesti garimpu. Aqui, o pobre se ferra e pur um nadinha é encontradu de boca pru chão, a boca cheia de furmiga. Sabi, seu moçu, eu só queru vendê minhas frutinhas. Queru ficá rico, não. Mais nem pobri. Remediadu, é mio. Os dedos da mão é iguá? Nun é. Tudo diferenti. Si tudo mundu fosse rico, morria tudo de sujeira. Sabe pur quê? Quem ia lavá rôpa? Quem ia cavucá o barru pra achá ouro? Quem ia vendê essas frutas? O que mai aborreci e não aceitu, e mi fais perdê o sonu, é qui os ricos nun gosta de pagá a genti direito. Eles pode comprá tudo, inté a justiça. Aí, que palavrão! Pur aqui, justiça é na basi do revólve, na bala de açu. Nun adianta gritá, os ricos, esse tar de Pastor, pode botá quarqué um fora du garimpu, ou intão mandá pro ôtro mundu. Já viu pobri tê razão?

        Anoitecia. Um vento forte, mas morno, vindo da mata próxima, passou repentinamente, agitando os cabelos de Doca. O menino sardento e empiolhado, enquanto Zé do Coco conversava, havia surrupiado várias frutas e, sorrateiro, saíra correndo. Doca o percebera, mas fizera de conta que não havia visto. Mais adiante, o menino se reuniu à mãe e seguiam pela rua tortuosa.

        Zé do Coco cuspiu violentamente e passou o chinelo enorme em cima da cusparada. No brilho de seus olhos havia raiva e decepção.

        — O sinhô veio da onde? Nun parece cabra encruadu cumo essa leva de genti de vesti esfarramada acenanu ao vento...

        Para disfarçar, Doca fez que não ouviu, jogando duas notas de dez reais sobre o balcão improvisado.

        — Vou levar dois, seu Zé. Outro dia, levo mais. Quando vem outra carga? Só de quinze dias?

        — Tá certu! Si nun qué falá, nun fale. Possu nun sê detetivi, mais nunca saio da pista. Cumo qui si diz, quem isquenta a cabeça é palitu di fósfo! Aprendi a respeitá, seu moçu. Pur aqui, o passadu é sempre feio. Em cada rostu, só a cobiça. Tudu mundu qué ficá ricu, bamburrá. A vida, pur aqui, inté pareci venda de bilheti de loteria. Sempri o memo consêio: “seu dia chegará!”. Mais, inté agora, só pôca genti viu a grandi sorti. Mais, prus pobri, chega nunca!

        — Há como sair daqui com o ouro, seu Zé?

        — Nun mi fale nistu. Daqui, ninguém sai cum o ouro. O Pastor nun deixa. A mina é dele. Já vi uma purção querê saí, e acabaro na valeta ou no riu, banqueti das piranha. Ocê já ouviu falá do Djalmão? O negão mata sem piscá os zóios! Notro dia memo, arrancô as pepita de ouro do rabu de um garimpêro. O pião tinha escondido o ouro no cu. Puis o Djalmão rancô as pepita lá di dentro. Tava cheio de merda. Qui nojeira! Mais nun perdeu o ouro. Aqui, é assim qui funciona. 

        Anoitecera. O lampião clareava frouxamente. Muriçocas atacavam famintas. Fregueses chegavam. Zé do Coco abandonou a conversa e foi atendê-los. Doca saiu em direção do rancho, carregando os abacaxis.

        Mais adiante, avistou Matildes, que entrara na loja “Butike de ouro”. Ela olhava as bugigangas, enquanto o negociante atendia os numerosos fregueses, na maioria prostitutas e garimpeiros gastadores. O mulherio comprava braceletes, brincos, sapatos e bolsas. Pelo balcão engendrado de caixotes de pinho viam-se cortes de tecido e bermudas, saias, sutiãs, calcinhas por preços absurdos. Os olhos de Doca apalparam avidamente o corpo da prostituta, de cima para baixo, de baixo para cima, feito olhar de bisturi. No meio da rua escura, quedou-se cheio de desejo, segurando um abacaxi em cada mão.

        — Para casa! – ordenou a si mesmo, contendo-se. – Sai, satanás! 

        Se fizesse como os outros garimpeiros, que gastavam tudo com mulheres, jamais sairia daquele inferno com os bolsos forrados. Naquele lugar, o mundo viera parar com todas as tentações, toda a sua hipocrisia, as suas grandezas e misérias. Ali, havia dinheiro, miséria e imundície a granel. O que aquelas mulheres queriam? Sapatos e vestidos bonitos, brincos, colares, bebidas que espumavam.

        — Depois de três trepadas, já não é uma aventura, mas um caso – ruminou, apressando os passos.

        No meio do caminho, um grupo de garimpeiros conversava alto:

        — Hoje, o Djalmão teve serviço!

        — Não diga! O que ele fez?

        — O de sempre! Esculhambou três cabras. Estavam escondendo ouro. Ouvi os urros de um. Aquilo deve ter ficado com a bunda sem conserto...

        Doca apressou mais os passos. Cachorros vadios perseguiam cadelas, num cortejo cego. Sobre a mata, a lua começava a pratear.

 

TRECHO 2 DO ROMANCE "SANGUE VERDE" DE DAVID GONÇALVES (Pg.12 a 18).

 

Entendendo o romance:

01 – Que visão o velho garimpeiro de cinquenta anos tem sobre a vida no garimpo e por que ele se arrepende do passado?

      O velho garimpeiro enxerga o local como uma "draga" que chupa todas as forças e classifica a busca pela riqueza fácil como "ilusão pura". Ele se arrepende profundamente de ter jogado sua vida fora chafurdando na lama por poucas pepitas de ouro, restando-lhe na velhice apenas reumatismo, feridas ("perebas") e cansaço.

02 – De que forma o personagem Doca utiliza a metáfora dos urubus na carniça para descrever o comportamento dos garimpeiros?

      Doca compara os garimpeiros a urubus em cima de uma carniça para ilustrar a ganância obstinada que os prende àquele lugar. Ele argumenta que os homens só vão embora dali quando não restar mais nenhum "naco de carne podre" (ouro), citando o exemplo de Serra Pelada que, mesmo após virar um açude alagado, continuava atraindo pessoas enfeitiçadas à espera de um sinal do metal precioso.

03 – Quem é Matildes e qual é o dilema interno que Doca enfrenta em relação a ela?

      Matildes é uma das prostitutas do cabaré local com quem Doca gastou seu pouco dinheiro na noite anterior. O dilema de Doca é que ele se vê perdidamente atraído por ela ("caíra como mosca no mel"), mas tenta a todo custo lutar contra esse desejo. Sendo um homem experiente, ele sabe que se gastar tudo com mulheres e luxos, jamais conseguirá sair daquele "inferno" com os bolsos cheios.

04 – Por que a violência e as mortes eram tão frequentes no garimpo Boa Fortuna e como ocorriam a maioria dos sepultamentos?

      A violência explodia devido à combinação de ganância, consumo de bebida alcoólica e a grave escassez de mulheres, deixando os homens irascíveis e nervosos. Embora o carpinteiro Zeca Maranhão tentasse vender caixões toscos de madeira, a maioria dos enterros no cemitério local acontecia usando apenas redes, já que ninguém queria arcar com as despesas do defunto.

05 – Qual é o papel do "Pastor" na estrutura de poder e na economia exploratória do garimpo?

      O Pastor é descrito como o verdadeiro dono e tirano do garimpo. Ele explora os trabalhadores cobrando taxas em todas as etapas: na entrada do perímetro, na igreja, na venda de produtos do armazém, na comercialização do ouro e até na saída. Ele também financia caçadores de recompensas para perseguir devedores e recebe comissões para permitir o tráfico ilegal de armas no local.

06 – Que crítica social Zé do Coco faz sobre a relação entre ricos, pobres e o conceito de justiça naquela região da Amazônia?

      Zé do Coco afirma que os ricos (representados pelo Pastor) não gostam de pagar o trabalhador direito e têm poder para comprar tudo, inclusive a justiça. Ele resume que, no garimpo, a palavra "justiça" não passa de um palavrão, pois a realidade local é resolvida na base do revólver e da bala de aço, onde o pobre nunca tem razão e pode ser mandado para o "outro mundo" por qualquer capricho dos poderosos.

07 – Quem é Djalmão e que história brutal Zé do Coco conta a Doca para ilustrar que ninguém consegue sair dali roubando ouro?

      Djalmão é o capanga encarregado de aplicar a violência brutal do garimpo a mando dos donos. Zé do Coco relata que Djalmão "mata sem piscar os olhos" e conta que, recentemente, ele descobriu que um peão havia escondido pepitas no próprio ânus. Sem qualquer hesitação, Djalmão arrancou à força o ouro dali de dentro, deixando o garimpeiro gravemente ferido e com a "bunda sem conserto".

 

 

 

 

domingo, 28 de junho de 2026

ROMANCE: ALMAS MORTAS - NIKOLAI GOGOL - COM GABARITO

 Romance: Almas Mortas

                Nikolai Gogol

 

        Almas Mortas é a última e mais marcante obra de Gogol e constitui uma referência importante na literatura russa na medida em que marcou a transição do Romantismo oitocentista para o realismo. Neste contexto, Gogol acabou por ser um dos maiores precursores dos grandes escritores russos Tolstoi e Dostoiévski. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmFYyS72kFj0O6diRD3WkpS-MV11RMhhI3yHE3RvjfmVFsScQp4pI3LXqaNaUVBJusl1e7q5q-xleYS1BavE3z9t8mXOhx4LmhS4lbOVaoyUVJkWUYDa1mJWuxDYF8QVYw0_WkenKAFNPTnlLE-oDgVKMzQLOrwfKuPPL0KLubLGIT77An9ic2AjystCA/s1600/images.jpg


        Almas Mortas foi uma obra maldita na época, pela crueza com que aborda a questão da servidão ainda em voga na Rússia naquela altura (1835). Num estilo direto e incisivo, Gogol aponta o dedo a uma sociedade anacrônica onde os servos constituíam propriedade dos seus senhores, que dispunham a seu bel-prazer das suas almas e dos seus corpos. O termo “almas” designa, na história da servidão russa os camponeses que eram propriedade dos seus senhores. O herói da narrativa, Chichiev, dispõe-se a comprar servos que haviam falecido, mas que ainda tinham existência legal por não terem sido abatidos nas listas de recenseamento. O objetivo destas transações só é revelado no final.

        O estilo de Gogol impressiona pela forma como constrói um verdadeiro diálogo com o leitor, constituindo uma proximidade que nos leva a ler como quem ouve uma estória.

        Tal como Tolstoi e Dostoievski, Gogol critica asperamente a subserviência dos russos, que desprezam os inferiores e bajulam os superiores de forma descaradamente interesseira. Todos os vendedores de almas que o autor descreve ilustram as facetas mais negativas da alma humana e do povo russo em particular. É o caso de Manilov, um pequeno proprietário preguiçoso, sem vontade própria e sem ambição; uma viúva sovina totalmente desprovida de inteligência; Nozdriov, bêbado, mentiroso, jogador inveterado que recusa vender as suas almas, mas dispõe-se de bom grado a jogá-las – símbolo do desprezo extremo pela alma humana; Sobakevitch diz mal de todos – é o exemplo da maledicência; Pliuskine é o mais avarento que se possa imaginar – tem mais de mil servos e os celeiros cheios, mas vive na miséria.

        Assim, o alvo maior da crítica de Gogol é a pequena aristocracia rural avarenta, uma espécie de classe média a que se juntam funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos. Este grupo contrasta com a alta aristocracia esbanjadora até ao extremo. Todos, sem excepção, são interesseiros e corruptos, usando muitas vezes uma delicadeza exagerada, mas hipócrita para tentar enganar as pessoas com quem negociam. Prevalece a inveja e mesmo o ódio dissimulado. O bem público e a moral são completamente esquecidos. Os servos, esses, constituem apenas instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação, sendo completamente esquecidos enquanto pessoas. Pelo contrário, são normalmente encarados como bêbados e preguiçosos e castigados duramente. A alienação interesseira das almas constitui o cúmulo, o expoente máximo do desprezo pelo ser humano.

        Gogol faz também uma caracterização mordaz das mulheres da alta sociedade. Quase desprovidas de inteligência, são capazes de alimentar os maiores dos boatos. Preocupam-se acima de tudo com as aparências e o seu comportamento social gira sempre em torno do “galanteio” ou então da maledicência. O que é certo é que Gogol acaba por apontar o dedo acusador aos homens que, na sua maioria, se deixam envolver pela maledicência, pondo em causa tudo e todos com os boatos mais torpes. Na Rússia as pessoas gostam de falar de escândalos, diz Gogol. O leitor não pode deixar de questionar: só na Rússia?

        O final do livro é absolutamente brilhante, com a resposta a dois mistérios que se mantinham desde o início: qual a verdadeira personalidade de Chichikov (que Gogol habilmente vai escondendo) e com que intenção comprava ele as almas. A surpresa das respostas é tal que o leitor é levado a rever todas as explicações que o seu espírito foi construindo ao longo da leitura. 

Nikolai Gogol. Romance Almas Mortas.

 

Entendendo o romance:

 

01 – Qual é a importância histórica e literária de Almas Mortas no cenário da literatura russa?

      A obra é um marco fundamental porque representou a transição do Romantismo do século XIX para o Realismo na Rússia. Com isso, Nikolai Gogol consolidou-se como um dos maiores precursores de gigantes da literatura mundial, como Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski.

02 – No contexto histórico da servidão russa retratado no livro, o que significava o termo "almas"?

      O termo "almas" era utilizado para designar os camponeses (servos) que eram tratados como propriedade legal de seus senhores. Os proprietários de terras tinham total controle sobre a vida, o corpo e o destino dessas pessoas.

03 – Qual é o plano central do protagonista Chíchikov na narrativa e que mistério o envolve?

      O plano de Chíchikov consiste em viajar pela Rússia para comprar servos (almas) que já haviam falecido, mas que ainda constavam como vivos nas listas oficiais de recenseamento do governo. A verdadeira intenção por trás dessas transações e a real personalidade do protagonista são mistérios mantidos por Gogol e revelados de forma surpreendente apenas no final do livro.

04 – Como o texto descreve a atitude dos russos da época em relação à hierarquia social, e quem é o alvo principal da crítica de Gogol?

      Gogol critica asperamente a profunda subserviência da sociedade russa, onde as pessoas costumavam desprezar os indivíduos de classes inferiores e bajular os superiores de maneira descarada e interesseira. O alvo principal de sua crítica é a pequena aristocracia rural avarenta (uma espécie de classe média), além de funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos.

05 – Os vendedores que negociam com Chíchikov representam facetas negativas da alma humana. Como o texto caracteriza os personagens Manilov e Pliúshkin?

      Manilov: É caracterizado como um pequeno proprietário extremamente preguiçoso, sem vontade própria e totalmente desprovido de ambição.

      Pliúshkin: Representa o ápice da avareza. Apesar de possuir mais de mil servos e os seus celeiros cheios de riquezas agrícolas, ele escolhe viver na mais absoluta miséria por puro apego material.

06 – De acordo com a obra, como os proprietários de terras enxergavam e tratavam os seus servos vivos?

      Os servos eram desumanizados, sendo vistos apenas como instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação. Os senhores costumavam rotulá-los como preguiçosos e bêbados, ignorando-os como seres humanos e aplicando-lhes castigos duríssimos.

07 – Como Nikolai Gogol caracteriza as mulheres da alta sociedade na obra e qual comportamento social ele estende também aos homens?

      As mulheres da alta sociedade são descritas de forma mordaz como pessoas quase desprovidas de inteligência, focadas apenas nas aparências, no galanteio e na fofoca. No entanto, o autor aponta que os homens não são diferentes: a maioria deles também se deixa envolver pela maledicência, espalhando e alimentando os boatos e escândalos mais torpes.