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domingo, 26 de abril de 2026

CONTO: O BURRO E OS DONOS - TRADUÇÃO DE CURVO SEMEDO - COM GABARITO

 Conto: O burro e os donos

Tradução de Curvo Semedo


O burro de um hortelão

À Sorte se lamentava.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgN-Q0MU2jUKBi5YZLH4sR5TjFT2Jly_UujN4uTazNgFvPRqMgpz2T4upNbKZYYwBbplq0n6nECSKFT_s2TBRXula37gQbn5VFWmMUbomh5tbiOcUFxUVhH_VlOqK_BEv_zmlsSUwN8YE-1BYT35t4eLoNPU4R4FN2ekEDobI9qyCx196yrFtk7mcWydZ8/s320/BURRO.jpg


Dizendo que madrugava
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores –
O néscio burro dizia –
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
C’uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e b’ringelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado –
Dizia – andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da celga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»
Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! – diz a Sorte em fúria
– Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!
Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»
Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.

Entendendo o texto

 

01. Sobre a estrutura externa do texto, como ele se organiza formalmente?

a) o texto é organizado em parágrafos e frases contínuas, sem preocupação com a sonoridade.

b) o texto é composto por versos (linhas) e estrofes (conjuntos de versos), apresentando rimas ao longo da narrativa.

c) trata-se de um texto dramático, feito exclusivamente para ser encenado por atores em um palco.

d) é um texto puramente informativo, que utiliza uma linguagem técnica para descrever a vida dos burros.

02. O que se pode afirmar sobre as rimas presentes na primeira estrofe (hortelão/estação e lamentava/madrugava)?

a) são chamadas de rimas pobres, pois as palavras pertencem a classes gramaticais diferentes.

b) são rimas internas, pois ocorrem sempre no meio dos versos e não no final.

c) são rimas finais, que conferem musicalidade e ritmo ao poema através da repetição de sons semelhantes.

d) o texto não possui rimas, sendo composto apenas por versos livres e brancos.

03. Quem assume a voz que expressa sentimentos e opiniões dentro do poema (o equivalente ao narrador na prosa)?

a) o eu lírico (ou voz poética), que no desfecho reflete sobre a insatisfação humana.

b) o próprio autor curvo semedo, que entra na história para brigar com o burro.

c) a sorte, que é a única personagem que fala durante todo o texto. d) o hortelão, que expressa sua tristeza por ter perdido seu animal de carga.

04. Qual é o tema central abordado pelo eu lírico através da trajetória do burro?

a) a importância de se trocar de profissão sempre que estiver cansado.

b) a descrição detalhada de como funciona o comércio de hortaliças e carvão.

c) a ingratidão dos donos para com os animais de carga no passado.

d) a eterna insatisfação do ser vivente, que tende a reclamar do presente e valorizar o passado.

05. No trecho "A Sorte ouviu seu clamor", qual recurso de linguagem é utilizado para dar características humanas a um conceito abstrato?

a) metáfora, comparando a sorte a um objeto valioso e brilhante.

b) personificação (ou prosopopeia), atribuindo ações humanas, como ouvir e falar, à "Sorte".

c) hipérbole, pois há um exagero evidente na quantidade de hortaliças mencionadas.

d) aliteração, que é a repetição de sons consonantais para imitar o som do burro.

 

 

CONTO: QUEM SABE É O JARDINEIRO - ANTÓNIO TORRADO - COM GABARITO

 CONTO: QUEM SABE É O JARDINEIRO

                António Torrado

 

Era uma vez um rei que tinha, à roda do palácio, onde vivia, um enorme pomar muito bem tratado. Imensos jardineiros cuidavam desse pomar, que era a vaidade do rei.
Árvores de fruto de todas as espécies, algumas vindas de terras distantes, transformavam, na Primavera, o pomar num jardim magnífico, onde sobressaíam o cor-de-rosa, o azul, o branco e o amarelo das flores, sobre o verde fresco das folhas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0NlifHfrF38fgIPUYQwaCkQEVAGsLuwBAHZ3znroGgjG5XmNZ6_3_O2d2hecs7uU0Ju2iq-eHZEOhmbfiCFCt71br95rwPRY5-vC2z3QIv6aroAdhT6pW3rruUcuh9As9atDtwKlDKQ_up_83R_ulAnSAPQJGh7poTnJLx3KI5w309IUS85JucesVGpY/s320/passaro.jpg


E, quando os frutos começavam a ganhar forma, o perfume que inundava o pomar quase entontecia.
Estava, um dia, o rei a mostrar o pomar a uns primos, príncipes de reinos vizinhos, quando viu, caídos de um pessegueiro uns tantos frutos meio apodrecidos.
Mandou logo chamar o chefe dos jardineiros e perguntou-lhe, muito irritado:
- Explique-me este desleixo. Quem é o responsável?
- Foram os pássaros, Majestade, que bicaram os frutos mais apetitosos - explicou o jardineiro.
- Pássaros? - exclamou o rei. - Como se atrevem a entrar nos meus domínios e a bicar as minhas riquezas?
- Os pássaros têm asas e não conhecem muros - respondeu o jardineiro.
- Pois vou eu ensiná-los - indignou-se o rei. - Que podem os pássaros contra mim?
E o rei foi para o palácio, onde ditou um decreto para ser espalhado pelo reino, em que mandava matar todos os pássaros, passarinhos e passarocos, sem escapar um. As ordens do rei tinham de se cumprir. Foi uma mortandade.
No ano seguinte, realmente, já não havia pássaros atrevidos a bicar nos frutos do pomar real. Mas, em contrapartida, uma praga aflitiva de lagartas e insectos destruiu as colheitas, minou os frutos, empobreceu o reino.
- Como se explica isto? - perguntou o rei ao jardineiro. - Depois de guerrearmos os pássaros, temos agora de guerrear os mosquitos e as lagartas. Como se dá batalha às lagartas?
Sorrindo, o velho jardineiro respondeu:
- Para guerrear as lagartas, temos de nos aliar aos pássaros. São eles que as comem, mais às larvas e a todos os bichinhos miúdos da natureza.
- Podias ter explicado isso mais cedo - comentou o rei, fazendo-se esquecido.
Logo ali mandou anular o decreto, que tinha apagado as asas dos céus do reino. Os pássaros já podiam, de novo, voar livremente. E poisar onde lhes apetecesse.
Assim é que estava certo.

António Torrado

 Entendendo o texto

 01. O que causou a irritação inicial do rei enquanto ele mostrava o pomar aos seus primos?

a) a falta de flores coloridas durante a primavera.

b) a presença de jardineiros que não estavam trabalhando.

c) a visão de alguns frutos meio apodrecidos caídos no chão.

d) a invasão de príncipes vizinhos que queriam roubar o pomar.

02. Qual foi a explicação dada pelo jardineiro para o estado dos frutos?

a) o excesso de sol que havia queimado a casca dos pêssegos.

b) os pássaros que bicaram os frutos mais apetitosos.

c) a falta de água para regar as árvores vindas de terras distantes. d) a presença de lagartas que haviam corroído o pomar.

03. Qual foi a medida drástica tomada pelo rei para proteger suas "riquezas"?

a) ditou um decreto mandando matar todos os pássaros do reino.

b) mandou construir muros mais altos para impedir a entrada de intrusos.

c) ordenou que os jardineiros vigiassem o pomar durante toda a noite.

d) decidiu vender todos os frutos antes que os pássaros os bicassem.

04. O que aconteceu no reino no ano seguinte à execução do decreto real?

a) o pomar tornou-se o mais produtivo e rico de toda a região.

b) os jardineiros foram demitidos por não terem mais trabalho.

c) os primos do rei voltaram para celebrar a ausência de passarinhos.

d) uma praga de lagartas e insetos destruiu as colheitas e empobreceu o reino.

05. Qual lição o jardineiro ensinou ao rei no final da história?

a) que os pássaros são inimigos naturais de todos os reis.

b) que é necessário usar venenos mais fortes contra os mosquitos. c) que, para combater as lagartas, é preciso se aliar aos pássaros, pois eles as comem.

d) que o rei deveria plantar apenas árvores que não atraíssem insetos.

CONTO: AS DUAS MELHORES AMIGAS - COM GABARITO

 Conto:As duas melhores amigas


Havia duas mulheres amigas, uma que podia ter filhos, e tinha muitos, e a outra não. Um dia, a mulher estéril foi a casa da amiga e convidou-a a visitá-la, dizendo:
- Amiga, tenho muitas coisas novas em casa, venha vê-las!
- Está bem. - concordou a outra.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjeNTNkZUTuAeaJ4pPWvwwHN5AZHueTEgJh2xQQI9NMr_20SqRP74KAXbBSaeHKrRoe4b29i8csE3cfY-ExkWC3phOpXVvhoGZhSHvtIM9ldOim8D9fdupjcioDVNEZ40UjzQUc-HZr30WXybnGasfSJf1KR6ov0ofgqvt_8FuIpu9pGYwLSs9kj5W6ZvQ/s1600/AMIGAS.jpg


De manhã cedo, a mulher que tinha muitos filhos foi visitar a amiga. Ao chegar a casa desta, chamou-a:
- Amiga, minha amiga! - trazia consigo um pano que a mulher estéril aceitou e guardou.
As duas amigas ficaram a conversar, tomando um chá que a dona da casa tinha preparado para as duas. Ao acabarem o chá, a dona da casa quis, então, mostrar à amiga as coisas que tinha comprado.
Passaram para a sala e a mulher estéril abriu uma mala mostrando à amiga roupa, brincos, prata e outras coisas de valor. No final da visita, a mulher que tinha muitos filhos agradeceu, dizendo:
- Um dia há-de ir a minha casa ver a mala que eu arranjei.
E, um certo dia, a mulher que não tinha filhos, foi a casa da amiga. Mal a viram, os filhos desta gritaram:
- A sua amiga está aqui! - agradeceram a peneira que ela trazia na cabeça e guardaram-na. Começaram, então, a preparar o chá. A mãe das crianças chamava-as uma a uma:
- Fátima!
- Mamã?
- Põe o chá ao lume!
- Mariamo!
- Sim?
- Vai partir lenha!
- Anja!
- Sim?
- Vai ao poço
- Muacisse!
- Mamã?
- Vai buscar açúcar!
- Muhamede!
- Sim?
- Traz um copo!
- Mariamo!
- Vamos lá, despacha-te com o chá!
Assim que o chá ficou pronto, tomaram-no e conversaram todos um pouco. Quando a amiga se ia embora, a mulher que tinha filhos disse:
- Minha amiga, eu chamei-a para ver a mala que arranjei, mas a minha mala não tem roupa nem brincos! A mala que lhe queria mostrar são os meus filhos!
A mulher que não podia ter filhos ficou muito triste e, antes de chegar a casa, sentiu-se muito mal, com dores de cabeça e acabou por morrer.
Comentário do narrador: coisa não é coisa, coisa é pessoa!

A missão principal da mulher é a procriação e o respeito que lhe é devido aumenta com a idade e com o número de filhos. Assim, ter filhos é muito importante e quantos mais se tiver melhor, pois eles são a riqueza e o futuro da família. Nas sociedades matrilineares, donde provém este conto (Norte de Moçambique), se as mulheres não tiverem filhos a sua linhagem não continua. Quando o homem é estéril, é repudiado de imediato; a esterilidade feminina é atribuída à pouca sorte, podendo, quer num caso quer noutro, tentar-se o tratamento junto do curandeiro.

Neste conto, após tudo ter tentado para poder engravidar e não o tendo conseguido, a mulher acabou por morrer de desgosto. A sua riqueza era feita só de bens materiais, enquanto que a riqueza da amiga eram os filhos. De realçar o costume de a visitante oferecer.

                                                                                                  Moçambique


Entendendo o texto

01. O que a mulher estéril mostrou para a amiga quando esta a visitou?

a) a sua numerosa família e seus servos.

b) uma mala com roupas, brincos, prata e objetos de valor.

c) uma plantação de trigo que havia sido poupada pelo fogo.

d) uma coleção de bules e xícaras de chá trazidos de longe.

02. Na história, o que a mulher que tinha muitos filhos considerava ser a sua "mala"?

a) a casa espaçosa onde recebia as visitas.

b) o enxoval que preparava para o casamento das filhas.

c) os seus próprios filhos.

d) as joias que ganhou do marido ao longo dos anos. resposta: c

03. Como a mulher que não tinha filhos reagiu ao descobrir qual era a verdadeira riqueza da amiga?

a) ficou feliz pela amiga e prometeu ajudá-la a cuidar das crianças. b) sentiu-se mal, ficou triste e acabou morrendo de desgosto.

c) decidiu procurar um curandeiro para tentar engravidar novamente.

d) pediu para adotar um dos filhos da amiga, chamado muhamede.

04. De acordo com o comentário do narrador e o contexto cultural do texto, o que significa a frase "coisa não é coisa, coisa é pessoa"? a) que os objetos materiais são mais duráveis que os seres humanos.

b) que não se deve dar nomes de coisas para as pessoas.

c) que a verdadeira riqueza não está nos bens materiais, mas nas pessoas (filhos).

d) que é falta de educação comparar amigos com malas de roupa.

05. Qual é a importância dos filhos nas sociedades mencionadas no texto (Norte de Moçambique)?

a) eles servem apenas para realizar os trabalhos domésticos, como buscar lenha.

b) eles representam a continuação da linhagem, a riqueza e o futuro da família.

c) eles são responsáveis por organizar as festas de coroação da vila.

d) eles garantem que a mãe possa descansar e não precise mais cozinhar.

 

 

 

 

 

 


CONTO: CINDERELA E A AVELEIRA - IRMÃOS GRIMM - COM GABARITO

 Conto: Cinderela e a aveleira

            Irmãos Grimm

 

Há muito tempo, aconteceu que a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente e, sentindo seu fim se aproximar, chamou sua única filha e disse:
- Querida filha, continue piedosa e boa menina que Deus a protegerá sempre. Lá do céu olharei por você, e estarei sempre a seu lado. Mal acabou de dizer isso, fechou os olhos e morreu.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj2PUCMY_zzfXcNeRVmm3qFmqWBga9u79aCtgnZOKf0XJEhEffYyUxmfAbkZhwVkjZeVhaJHuFNzitLqxvDIZnmxrytFACLpeo6O7qtrGQypdgFLIgIF_A7cIghpZiTbeVlvxF00HOc7TZvXUMoZ_G3CZeA43eWAJXHZ672yKFHqBpootQN8-iszl7NXZs/s1600/Cinderela.jpg

A jovem ia todos os dias visitar o túmulo da mãe, sempre chorando muito.
Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com seu alvo manto.
Chegou a primavera, e o sol derreteu a neve. Foi então que o viúvo resolveu se casar outra vez.
A nova esposa trouxe suas duas filhas, ambas bonitas, mas só exteriormente. As duas tinham a alma feia e cruel.
A partir desse momento, dias difíceis começaram para a pobre enteada.
-  Essa imbecil não vai ficar no quarto conosco! _Reclamaram as moças.
-  O lugar dela é na cozinha! Se quiser comer pão, que trabalhe!
Tiraram-lhe o vestido bonito que ela usava, obrigaram-na a vestir outro, velho e desbotado, e a calçar tamancos.
- Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhosa princesinha de antes! -disseram a rir, levando-a para a cozinha.
A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite, nos serviços mais pesados.
Era obrigada a se levantar de madrugada, para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava para todos.
Como se tudo isso não bastasse, as irmãs caçoavam dela e a humilhavam.
Espalhavam lentilhas e feijões nas cinzas do fogão e obrigavam-na a catar um a um.
À noite, exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a se deitar nas cinzas do fogão. E, como andasse sempre suja e cheia de cinza, só a chamavam de Cinderela.
Uma vez, o pai resolveu ir a uma feira. Antes de sair, perguntou às enteadas o que desejavam que ele trouxesse.
- Vestidos bonitos- disse uma.
-  Pérolas e pedras preciosas - disse a outra.
- E você, Cinderela, o que vai querer? - perguntou o pai.

 - No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.
Ele partiu para a feira, comprou vestidos bonitos para uma das enteadas, pérolas e pedras preciosas para a outra e, de volta para casa, quando cavalgava por um bosque, um ramo de aveleira bateu no seu chapéu. Ele quebrou o ramo e levou-o.
Chegando em casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela, o ramo de aveleira.
Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali, e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Ele cresceu e se tornou uma aveleira linda.
Três vezes, todos os dias, a menina ia chorar e rezar embaixo dela.
Sempre que a via chegar, um passarinho branco voava para a árvore e, se a ouvia pedir baixinho alguma coisa, jogava-lhe o que ela havia pedido.
Um dia, o rei mandou anunciar uma festa, que duraria três dias.
Todas as jovens bonitas do reino seriam convidadas, pois o filho dele queria escolher entre elas aquela que seria sua futura esposa.
Quando souberam que também deveriam comparecer, as duas filhas da madrasta ficaram contentíssimas.
- Cinderela! - Gritaram. -  Venha pentear nosso cabelo, escovar nossos sapatos e nos ajudar a vestir, pois vamos a uma festa no castelo do rei!
Cinderela obedeceu chorando, porque ela também queria ir ao baile. Perguntou à madrasta se poderia ir, e esta respondeu:
- Você, Cinderela! Suja e cheia de pó, está querendo ir à festa? Como vai dançar, se não tem roupa nem sapatos?
Mas Cinderela insistiu tanto, que afinal ela disse:
-  Está bem. Eu despejei nas cinzas do fogão um tacho cheio de lentilhas. Se você conseguir catá-las todas em duas horas, poderá ir.
A jovem saiu pela porta dos fundos, correu para o quintal e chamou:
-  Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!
Logo entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir, vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.
As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. As outras avezinhas faziam o mesmo. Não levou nem uma hora, o tacho ficou cheio e as aves todas voaram para fora.
Cheia de alegria, a menina pegou o tacho e levou para a madrasta, certa de que agora poderia ir à festa. Porém a madrasta disse:
-  Não, Cinderela. Você não tem roupa e não sabe dançar. Só serviria de caçoada para os outros.
Como a menina começou a chorar, ela propôs:
- Se você conseguir catar dois tachos de lentilhas nas cinzas em uma hora, poderá ir conosco.
Enquanto isso, pensou consigo mesma: “Isso ela não vai conseguir…”
Assim que a madrasta acabou de espalhar os grãos nas cinzas, Cinderela correu para o quintal e chamou:
-  Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!
E entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.
As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. Os outros pássaros faziam o mesmo. Não passou nem meia hora, e os dois tachos ficaram cheios. As aves se foram voando pela janela.
Então, a menina levou os dois tachos para a madrasta, certa de que, desta vez, poderia ir à festa.
Porém, a madrasta disse:
- Não adianta, Cinderela! Você não vai ao baile! Não tem vestido, não sabe dançar e só nos faria passar vergonha!

Contos, fabulas e historinhas: Cinderela
E, dando-lhe as costas, partiu com suas orgulhosas filhas.
Quando ficou sozinha, Cinderela foi ao túmulo da mãe e embaixo da aveleira, disse:
-  Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!
Então o pássaro branco jogou para ela um vestido de ouro e prata e sapatos de seda bordada de prata. Cinderela se vestiu, a toda pressa, e foi para a festa.
Estava tão linda, no seu vestido dourado, que nem as irmãs, nem a madrasta a reconheceram. Pensaram que fosse uma princesa estrangeira, para elas, Cinderela só poderia estar em casa, catando lentilhas nas cinzas.
Logo que a viu, o príncipe veio a seu encontro e, pegando-lhe a mão, levou-a para dançar. Só dançou com ela, sem largar de sua mão por um instante.
Quando alguém a convidava para dançar, ele dizia:
-  Ela é minha dama.
Dançaram até altas horas da noite e, até que Cinderela quis voltar para casa.
-  Eu a acompanho - disse o príncipe. Na verdade, ele queria saber a que família ela pertencia.
Mas Cinderela conseguiu escapar dele, correu para casa e se escondeu no pombal. O príncipe esperou o pai dela chegar e contou-lhe que a jovem desconhecida tinha saltado para dentro do pombal.
“Deve ser Cinderela…”, pensou o pai. E mandou vir um machado para arrombar a porta do pombal. Mas não havia ninguém lá dentro.
Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas, dormindo nas cinzas, à luz mortiça de uma lamparina.
A verdade é que, assim que entrou no pombal, a menina saiu pelo lado de trás e correu para a aveleira. Ali, rapidamente tirou seu belo vestido e deixou-o sobre o túmulo. Veio o passarinho, apanhou o vestido e levou-o. Ela vestiu novamente seu vestidinho velho e sujo, correu para casa e se deitou nas cinzas da cozinha.
No dia seguinte, o segundo dia da festa, quando os pais e as irmãs partiram para o castelo, Cinderela foi até a aveleira e disse:
-  Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!
E o pássaro atirou para ela um vestido ainda mais bonito que o da véspera. Quando ela entrou no salão assim vestida, todos ficaram pasmados com sua beleza.
O príncipe, que a esperava, tomou-lhe a mão e só dançou com ela. Quando alguém convidava a jovem para dançar, ele dizia:
-  Ela é minha dama.
Já era noite avançada quando Cinderela quis ir embora.
O príncipe seguiu-a, para ver em que casa entraria.
A jovem seguiu seu caminho e, inesperadamente, entrou no quintal atrás da casa.
Ágil como um esquilo, subiu pela galharia de uma frondosa pereira carregada de frutos que havia ali. O príncipe não conseguiu descobri-la e, quando viu o pai dela chegar, disse:
-  A moça desconhecida escondeu-se nessa pereira.
“Deve ser Cinderela”, pensou o pai. Mandou buscar um machado e derrubou a pereira. Mas não encontraram ninguém na galharia.
Como na véspera, Cinderela já estava na cozinha dormindo nas cinzas, pois havia escorregado pelo outro lado da pereira, correra para a aveleira, e devolvera o lindo vestido ao pássaro. Depois, vestiu o feio vestidinho de sempre, e correu para casa.
No terceiro dia, assim que os pais e as irmãs saíram para a festa, Cinderela foi até o túmulo da mãe e pediu à aveleira:
-  Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!
E o pássaro atirou-lhe o vestido mais suntuoso e brilhante jamais visto, acompanhado de um par de sapatinhos de puro ouro.
Ela estava tão linda, tão linda, que, quando chegou ao castelo, todos emudeceram de assombro. O príncipe só dançou com ela e, como das outras vezes, dizia a todos que vinham tirá-la para dançar:
-  Ela é minha dama.
Já era noite alta, quando Cinderela quis voltar para casa. O príncipe tentou segui-la, mas ela escapuliu tão depressa, que ele não pode alcançá-la.
Dessa vez, porém, o príncipe usara um estratagema: untou com piche um degrau da escada e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. Ela deixou-o ali e continuou correndo.
O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro.
No outro dia, de manhã, ele procurou o pai e disse:
- Só me casarei com a dona do pé que couber neste sapato.
As irmãs de Cinderela ficaram felizes e esperançosas quando souberam disso, pois tinham pés delicados e bonitos.
Quando o príncipe chegou à casa delas, a mais velha foi para o quarto acompanhada da mãe e experimentou o sapato. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia meter dentro dele o dedo grande do pé. Então, a mãe deu-lhe uma faca, dizendo:
-  Corte fora o dedo. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.
Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele recebeu-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
Quando passavam pelo túmulo da mãe de Cinderela, que ficava bem no caminho, duas pombas pousaram na aveleira e cantaram:
-  Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!
O príncipe virou-se, olhou o pé da moça e logo viu o sangue escorrendo do sapato. Fez o cavalo voltar e levou-a para a casa dela.
Chegando lá, ordenou à outra filha da madrasta que calçasse o sapato. Ela foi para o quarto e calçou-o. Os dedos do pé entraram facilmente, mas o calcanhar era grande demais e ficou de fora. Então, a mãe deu-lhe uma faca dizendo:
-  Corte fora um pedaço do calcanhar. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.
Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele aceitou-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.
Quando passavam pela aveleira, duas pombinhas pousaram num dos ramos e cantaram:
-  Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!
O príncipe olhou o pé da moça, viu o sangue escorrendo e a meia branca, vermelha de sangue. Então virou seu cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse ao pai:
-  Esta também não é a verdadeira noiva. Vocês não têm outra filha?
-  Não!- respondeu o pai -  A não ser a pequena Cinderela, filha de minha falecida esposa. Mas é impossível que seja ela a noiva que procura.
O príncipe ordenou que fossem buscá-la.
-  Oh, não! Ela está sempre muito suja! Seria uma afronta trazê-la a vossa presença! - protestou a madrasta.
Porém o príncipe insistiu, exigindo que ela fosse chamada. Depois de lavar o rosto e as mãos ela veio, curvou-se diante do príncipe e pegou o sapato de ouro que ele lhe estendeu.
Sentou-se num banquinho, tirou do pé o pesado tamanco e calçou o sapato, que lhe serviu como uma luva.
Quando ela se levantou, o príncipe viu seu rosto e reconheceu logo a linda jovem com quem havia dançado.
-  É esta a noiva verdadeira! — exclamou, feliz.
A madrasta e as filhas levaram um susto e ficaram brancas de raiva. O príncipe ergueu Cinderela, colocou-a na garupa do seu cavalo e partiram. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas cantaram:
-  Olhe pare trás! Olhe pare trás!
Não há sangue no sapato,
que serviu bem demais!
Essa é a noiva certa.
Pode ir em paz!
E, quando acabaram de cantar, elas voaram e foram pousar, uma no ombro direito de Cinderela, outra no esquerdo; ali ficaram.
Quando o casamento de Cinderela com o príncipe se realizou, as falsas irmãs foram à festa. A mais velha ficou à direita do altar, e a mais nova, à esquerda.
Subitamente, sem que ninguém pudesse impedir, a pomba pousada no ombro direito da noiva voou para cima da irmã mais velha e furou-lhe os olhos. A pomba do ombro esquerdo fez o mesmo com a mais nova, e ambas ficaram cegas para o resto de suas vidas.

Entendendo o texto

01. O que a mãe de Cinderela pediu à filha antes de morrer?

a) que ela se tornasse a rainha do reino.

b) que ela continuasse piedosa e boa para ter a proteção de deus. c) que ela nunca deixasse seu pai se casar novamente.

d) que ela plantasse uma aveleira sobre o seu túmulo

02. Qual foi o pedido de Cinderela ao seu pai quando ele foi à feira? a) vestidos suntuosos feitos de ouro e prata.

b) pérolas e pedras preciosas para competir com as irmãs.

c) o primeiro ramo que batesse no chapéu dele no caminho de volta.

d) um par de sapatinhos de cristal para usar no baile do rei.

03. Como surgiu a árvore que ajudava Cinderela com seus desejos?

a) a madrasta plantou a árvore para zombar da enteada.

b) o ramo de aveleira foi regado pelas lágrimas de cinderela no túmulo da mãe.

c) o rei enviou a árvore como um presente para todas as jovens do reino.

d) as irmãs trouxeram a muda da feira e cinderela a roubou.

04. Qual estratégia a madrasta usou para tentar impedir Cinderela de ir ao baile?

a) jogou lentilhas nas cinzas para que a moça as catasse em pouco tempo.

b) trancou a jovem em um quarto escuro no sótão.

c) mandou que ela limpasse todas as chaminés da cidade.

d) escondeu todos os sapatos de madeira da enteada. resposta: c

05. Como o príncipe conseguiu fazer com que um dos sapatos de Cinderela ficasse no castelo?

a) ele pediu que ela o entregasse como uma prova de amor.

b) ele amarrou os cadarços da jovem sem que ela percebesse.

c) ele espalhou piche nos degraus da escada para que o sapato grudasse.

d) ele convenceu os passarinhos a roubarem o sapato da moça.

06. O que as irmãs postiças fizeram para tentar enganar o príncipe e calçar o sapato?

a) usaram meias grossas para preencher o espaço vazio.

b) cortaram partes dos próprios pés (dedo e calcanhar) para que coubessem.

c) pediram que uma fada madrinha diminuísse o tamanho de seus pés.

d) lixaram o sapato de ouro até que ele ficasse maior.

07. Como o príncipe descobriu que as irmãs não eram as noivas verdadeiras?

a) a madrasta confessou o crime por estar arrependida.

b) o sapato quebrou enquanto elas caminhavam para o cavalo.

c) cinderela apareceu no castelo gritando a verdade. resposta: c

d) as pombas avisaram que havia sangue escorrendo dos sapatos.


 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

CONTO: OS NAMORADOS - HANS CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: Os Namorados

              Hans Christian Andersen


O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjRkZKIBJPjUUTJZr5cfWEptVIx6g9lL5GD5LlzV8_YeX7CMr11j-P5zLebTleFSb7G-EjUS_s7YtilvZMv-3XxRRas6P1yoX8NKij-fPXaS8uA1EcLzYHJ2TI5rYAFOM9JmA5-HM3R3ooM-mHXHD1xnke-4lgvBEaOrYV3pembd-K6qMksyaB_mQypkkk/s1600/PIAO.jpg


No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar. Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.

Entendendo o texto

01. Qual foi a justificativa inicial da Bola para recusar o pedido de namoro do Pião?

a) Ela considerava o Pião feio e sem cores vibrantes.

b) Ela alegava ter uma origem nobre (feita de marroquim) e estar quase comprometida com um senhor Andorinha.

c) Ela pretendia fugir da gaveta para viver no jardim com o menino. d) Ela não gostava da forma como o Pião zunia e dançava quando girava.

02. O que aconteceu com a Bola durante a brincadeira que a afastou definitivamente do Pião por muitos anos?

a) Ela foi dada como presente para uma menina vizinha.

b) Ela murchou e perdeu a cortiça que tinha em seu interior.

c) Ela subiu muito alto pela nona vez e não voltou mais, sumindo da vista do menino.

d) Ela caiu dentro de uma barrica de lixo logo no primeiro dia de brincadeira.

03. Como o sentimento do Pião pela Bola se transformou enquanto ela estava desaparecida?

a) O seu amor aumentou pela impossibilidade de tê-la, tornando-a cada vez mais bonita em seus pensamentos.

b) Ele a esqueceu rapidamente e começou a namorar outros brinquedos da gaveta.

c) Ele sentiu raiva por ter sido abandonado e passou a odiar a Bola.

d) Ele ficou triste apenas no início, mas depois percebeu que o senhor Andorinha era um par melhor para ela.

04. Onde o Pião e a Bola finalmente se reencontraram após muitos anos?

a) Na sala de estar, onde ambos foram colocados em posição de respeito.

b) No ninho do senhor Andorinha, no alto do telhado.

c) Dentro de uma barrica de lixo, entre talos de couve e entulho.

d) No jardim, enquanto o menino procurava por seus antigos brinquedos.

05. Por que o Pião não quis reatar o seu amor pela Bola ao reencontrá-la no final do conto?

a) Porque ele agora era de ouro e se sentia superior a qualquer outro brinquedo.

b) Porque a Bola estava irreconhecível, velha e encharcada após passar cinco anos em uma calha.

c) Porque ele descobriu que ela realmente havia se casado com a andorinha.

d) Porque a criada o levou de volta para a sala antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

06.No começo da história, a Bola se recusa a namorar o Pião. Qual era a principal desculpa que ela dava para não aceitar o pedido dele?

A Bola dizia que não podia namorar porque era muito vaidosa e já estava quase comprometida com um senhor Andorinha, que sempre perguntava por ela quando ela subia ao céu durante as brincadeiras.

07. O tempo passou e os dois brinquedos mudaram bastante. Como o Pião e a Bola estavam fisicamente quando se reencontraram na lata de lixo?

O Pião estava muito bonito, pois tinha sido pintado de dourado e brilhava como se fosse de ouro. Já a Bola estava muito feia e velha, pois tinha passado cinco anos encharcada de água dentro de uma calha, parecendo uma maçã podre.

08. O Pião sempre dizia que amava a Bola. No final do conto, ele continua sentindo o mesmo? Por que ele mudou de ideia?

Não, ele deixou de amá-la. Ele mudou de ideia porque viu que a Bola estava feia, suja e velha na lata de lixo. O texto mostra que o amor dele acabou porque ele só se importava com a beleza e o brilho dela, e não a reconheceu mais naquela situação.

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

CONTO: O PEQUENO ÉDIPO - COM GABARITO

 Conto: O pequeno Édipo

O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta:
- Uma cerveja.
Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime.
A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos.

 
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhaTlpB8YYa9ul3niETeW3VPfX8hPV38NBCGkCPMUVaYQo8lHbaOku05VjrFLKITvi9urIJv6Y0cBzfFGiSpJO2sOrSPA26-YzBvlA5CCYQoet1gADjaWst8SycNYh_7Sl7unLHrgOQYqIB_tTnZXti5yXu39Ps_JoBGPYw2-w10EXeLLdPmzW0P55DAU4/s1600/EDIPO.jpg



- Vá brincar lá dentro – berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca.
O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante.
- Que tal? – perguntou a mulher, tentando animá-lo.
Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino.
- Que tal, é boa?
O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o “chapa” e a casa, uma pausa para relaxar.
À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo:
- Boa.
A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza.
O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera.
- Suca daqui! – ordenou a viúva.
Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe…
- Dá-lhe um pacote de “Maria” – disse o cara. E acrescentou, peremptório: – na minha conta.
Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço.
À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou:
- Boa como a própria dona?
Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra.
- Xixi cama! – berrou o homem.
O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões:
- Rua-rua-rua!
Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.

Conto de Moçambique

Entendendo o texto

01. No início do conto, como é descrito o estado de espírito e o comportamento do homem que chega à barraca?

a) Ele estava alegre e comunicativo, fazendo piadas com a mulher e o menino.

b) Ele demonstrava pressa e impaciência, exigindo ser atendido antes de todos.

c) Ele apresentava um humor azedo e uma atitude distante, pedindo a cerveja "como quem pede ao ar".

d) Ele estava emocionado ao reencontrar a mulher, que não via há muitos anos.

02. A mulher é descrita como alguém que atravessa o "mar alto da vida". O que essa expressão e a "roupa de viuvez" sugerem sobre ela?

a) Que ela é uma marinheira que vive de viagens constantes.

b) Que ela é uma pessoa que enfrentou muitas dificuldades e perdas, mas mantém a tenacidade.

c) Que ela é uma mulher rica que gosta de usar roupas pretas por ostentação.

d) Que ela detesta trabalhar na barraca e deseja mudar-se para a cidade.

03. Qual é a principal causa do conflito entre o cliente e o menino (o "rapazito")?

a) O fato de o homem ter se recusado a pagar o pacote de bolachas para o garoto.

b) O barulho que o menino fazia com o seu "guêime", que impedia o homem de relaxar.

c) A aproximação íntima e o comentário galanteador do homem em direção à mãe do menino.

d) O desejo do menino de querer beber a cerveja que o homem estava consumindo.

04. Por que o narrador chama o menino de "pequeno Édipo" no final do texto?

a) Porque o menino gostava de ler mitos gregos enquanto jogava seus jogos.

b) Porque, como no mito, o menino demonstra um instinto de proteção extrema pela mãe e rivalidade com a figura masculina estranha.

c) Porque o menino era muito inteligente e conseguia resolver qualquer enigma.

d) Porque o menino tinha um problema de visão e precisava de ajuda para caminhar.

05. Como termina o confronto entre o cliente e o garoto na barraca? a) O homem pede desculpas e vai embora calmamente após terminar a cerveja.

b) A mãe expulsa o homem da barraca para proteger o filho de um ataque.

c) O menino reage com fúria, gritando para que o homem saia e avançando com um vasilhame, deixando o desfecho em aberto.

d) O homem e o menino fazem as pazes após comerem juntos um pacote de bolacha Maria

 

CONTO: A ÚLTIMA VONTADE DO REI HIBBAM - COM GABARITO

 Conto: A última vontade do rei Hibbam


Naquele tempo, em Mokala, reinava o poderoso Hibban, um dos mais vaidosos monarcas que têm vivido em todos os tempos. Sua preocupação única era imitar os imperadores célebres e os vultos notáveis da História.
Ouvira ele contar que os soberanos mais famosos do mundo pronunciaram sempre, antes de morrer, palavras que se tornaram célebres. E não poderia ele, também glorificar a sua morte pronunciando uma frase notável, digna de figurar nos anais da História, uma frase fulgurante que ficasse perpetuada, através dos séculos, pela Fama e pela Glória?

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiqE3NfaIFMDi2-9HMBEUWjVzrGQtplXeT9CXb5QVPWpf6OIVVCOupRqPbDY7av4KgrBHkFHI2Y7sQpxlQ7FIrxPEQ73YwLvN95CFjIjhbrxTmU15JDJDoT_RZ6Wiu0La8KEqFhyphenhyphenA2kwAs0K4492ragNMfKq_Tv562MpcYPvSkG10eiQMQiR9PSliXtHuo/s320/rei.jpg 


Mas qual seria? Que deveria ele dizer aos súditos mokalenses no derradeiro momento de sua vida? Um conselho? Uma imprecação? Um pensamento famoso?
Na dúvida - e como não lhe ocorresse uma ideia aproveitável - mandou o rei Hibban chamar o seu talentoso secretário Salin Sady, homem de sua inteira confiança, e contou-lhe, pedindo-lhe absoluto segredo, o grande desejo de sua vaidade doentia.
Depois de meditar algum tempo, o digno secretário respondeu:
- Conheço um verso de Masuk, o celébre poeta kurdo, que é magistral! Se pronunciar esse verso em dialeto kurdo, fará uma coisa original, nunca vista. Ademais, o verso a que me refiro, exprime um desejo nobre, um pensamento genial, digno de um verdadeiro rei.
- É exatamente um verso emocionante que mais me agrada e que melhor poderá servir ao rei de Mokalla. Mas qual é, afinal, o verso do grande Mazuk? Quero decora-lo.
E o inteligente Salin Sady ensinou ao bom monarca o verso magistral de Mazuk, o maior dos poetas do Afeganistão:
'Naib aq vast y harde nosteby katib.'
Cuja tradução (declarou Sady) seria: 'Esquecei meus erros, pois só errei com a intenção de acertar'.
Guardou o rei Hibban de memória o verso. Um dia sentindo-se muito doente, mandou chamar seus conselheiros, vizires, cadis e todos os grandes dignitários do reino e pronunciou sua última vontade, bem alto, devagar e solene para que todos ouvissem. E tão violenta comoção daquele momento, que o vaidoso rei morreu.
A cena impressionou profundamente a todos os presentes.
- Mas o que tinha dito o Rei Hibban? - perguntavam uns aos outros, pois ninguém conhecia o complicado dialeto kurdo.
Dez escribas registraram palavra por palavra, traduzida depois pelos doutores mais ilustres de Mokala. A tradução caiu como uma bomba no meio da nobreza.
Puderam rodos verificar, com assombro, que o poderoso rei, senhor de Mokala, havia dito, apenas o seguinte: 'Deixo tudo o que tenho para o meu bom secretário!

 

Entendendo o texto

01. Qual era a principal preocupação e característica marcante do rei Hibban, segundo o início do texto?

a) Sua grande sabedoria e preocupação com o bem-estar do povo de Mokala.

b) Sua vaidade extrema e o desejo de imitar grandes figuras da História.

c) Seu medo constante de ser traído por seus secretários e vizires. d) Sua paixão pela poesia kurda e pelo estudo de novos dialetos.

02. Por que o rei Hibban procurou seu secretário, Salin Sady, em segredo?

a) Porque precisava de ajuda para encontrar uma frase famosa para dizer antes de morrer.

b) Porque queria que ele escrevesse um livro sobre todas as suas vitórias em guerra.

c) Porque desejava fugir do reino sem que os seus conselheiros percebessem.

d) Porque queria que Salin Sady o ensinasse a governar com mais justiça.

03. O que Salin Sady afirmou ao rei sobre o verso em dialeto kurdo que lhe ensinou?

a) Que o verso era uma maldição para afastar os inimigos do trono.

b) Que o verso era um agradecimento aos deuses pela riqueza de Mokala.

d) Que o verso era uma ordem para que o povo nunca esquecesse seu nome.

d) Que o verso significava: "Esquecei meus erros, pois só errei com a intenção de acertar".

04. O que aconteceu logo após o rei Hibban pronunciar as palavras solenes diante de seus conselheiros?

a) Ele recuperou a saúde milagrosamente devido à força das palavras.

b) Os conselheiros começaram a chorar porque entenderam o dialeto kurdo.

c) Ele morreu imediatamente devido à violenta comoção do momento.

d) O secretário Salin Sady confessou que o verso era uma brincadeira.

05. Qual foi a grande surpresa (o "assombro") revelada pela tradução real dos escribas e doutores?

a) O rei havia amaldiçoado todos os habitantes de Mokala antes de partir.

b) O rei declarou que não tinha herdeiros e que o reino deveria ser dividido.

c) As palavras ditas pelo rei, na verdade, deixavam todos os seus bens para o secretário.

d) O rei havia confessado crimes terríveis que cometeu durante o seu reinado.

 

domingo, 12 de abril de 2026

FICÇÃO CIENTÍFICA: EU, ROBÔ - FRAGMENTO - ISAAC ASIMOV - COM GABARITO

 Ficção científica: Eu, robô – Fragmento

             Isaac Asimov

        Olhei para minhas anotações e não gostei delas. Eu tinha passado três dias na U.S. Robots e poderia muito bem tê-los passado em casa, com a Enciclopédia Telúrica.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQWyXYTyH0LY3MRgV8ZLQv-KZ4SjMqtq-jXax2TcmKiM4VvtRGE3z41ptdL-uD9wWxmu1d2you7aGThJlG6DU4rAaYJrPdh5ky2y4K-j6PpXa6IKkU7sCJlnMBmyN56fHKbKJ5THnIx_gzUcvCbaKpqX19gXvfcT7fnAUaoj-wMrZAVa_ZHw9x-P4xooc/s320/EU.jpg


        Susan Calvin havia nascido no ano de 1982, disseram-me, o que queria dizer que ela tinha setenta e cinco anos de idade. [...] a U.S. Robots and Mechanical Men, Inc. também tinha setenta e cinco anos, uma vez que fora no ano de nascimento da Dra. Calvin que Lawrence Robertson conseguira os documentos de constituição do que viria a ser o mais estranho gigante industrial da história da humanidade. [...]

        Aos vinte anos, Susan Calvin participara de um seminário específico sobre Psicomatemática, no qual o Dr. Alfred Lanning, da U.S. Robots, apresenta o primeiro robô móvel a ser equipado com voz. Era um robô grande, desajeitado e feio, cheirava a óleo de máquina e fora destinado a trabalhar nas minas projetadas em Mercúrio. Mas podia falar e se fazer entender.

        [...]

        Ela se formou em bacharel na Universidade de Columbia, em 2003, e começou a pós-graduação em cibernética.

        Tudo o que havia sido feito em meados do século XX em relação a “máquinas calculadoras” foi revirado por Robertson e por suas vias de cérebro positrônico. Os quilômetros de retransmissões fotocélulas tinham dado lugar ao globo esponjoso de platina-irídio mais ou menos do tamanho de um cérebro humano.

        Ela aprendeu a calcular os parâmetros necessários para corrigir possíveis variáveis no “cérebro positrônico”; a construir “cérebros” na teoria, de forma que as respostas dadas aos estímulos podiam ser previstas com exatidão.

        [...]

        Em 2008, ela terminou o doutorado e começou a trabalhar no quadro da U.S. Robôs, na qualidade de “psicóloga roboticista”, tornando-se a primeira grande profissional de uma nova ciência. Lawrence Robertson ainda era o presidente da companhia; Alfred Lanning tinha se tornado diretor de pesquisas.

        Durante cinquenta anos, ela observou o progresso humano mudar de direção – e dar um salto adiante.

        Agora ela estava se aposentando [...].

        – Dra. Calvin, – disse eu [...] –, aos olhos do público a senhora e a U.S. Robots são idênticos. Sua aposentadoria vai encerrar uma era e...

        – Você quer abordar o tema pelo ângulo do interesse humano? – Ela não sorriu para mim. Acho que ela não sorria nunca. Mas seu olhar era penetrante, embora não mostrasse raiva. Senti-o passando por mim e atravessando meu occipício, e soube que eu era estranhamente transparente para ela; que todos eram.

        Mas eu respondi:

        – Isso mesmo.

        – Interesse humano em robôs? Isso é uma contradição.

        – Não, doutora. Interesse pela senhora.

        – Bem, eu mesma já fui chamada de robô. Com certeza já lhe disseram que não sou humana.

        [...]

        Ela voltou para a mesa e sentou. De certo modo, ela não precisava de uma expressão no rosto para parecer triste.

        – Quantos anos você tem? – ela quis saber.

        – Trinta e dois – respondi.

        – Então não se lembra de um mundo sem os robôs. Houve um tempo em que a homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio, mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais sozinha. Já pensou sobre essa questão desse modo? [...] Para você, um robô é um robô. Engrenagens e metal; eletricidade e pósitrons. Mente e ferro! Fabricado por humanos! Se necessário, destruído por humanos! Mas você não trabalhou com eles, então não os conhece. Eles são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.

        [...].

ASIMOV, Isaac. Eu, robô. Tradução de Aline Storto Pereira. São Paulo: Editora Aleph, 2014. p. 13-15. (Adaptado).

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 132-133.

Entendendo a ficção científica:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Cérebro positrônico: invenção do autor para fazer referência ao cérebro dos robôs.

-- Cibernética: ciência que estuda os sistemas de comunicação e controle tanto nos seres vivos quanto nas máquinas.

-- Fotocélula: dispositivo que transforma a radiação luminosa em eletricidade.

-- Platina-irídio: elemento químico.

-- Telúrico: referente ao planeta Terra.

-- Occipício: parte posterior e inferior da cabeça.

-- Pósitrons: antipartículas dos elétrons. Possuem carga positiva e são utilizados, por exemplo, em exames médicos como ressonâncias e tomografias.

02 – De acordo com o texto, qual é a coincidência temporal entre o nascimento de Susan Calvin e a U.S. Robots?

a) Ambos surgiram no ano de 1982.

b) A Dra. Calvin nasceu quando a empresa completou 20 anos.

c) A U.S. Robots foi criada após o seminário de Psicomatemática.

d) A empresa foi fundada quando Susan se formou em 2003.

03 – Como era o primeiro robô móvel equipado com voz que Susan Calvin viu aos vinte anos?

a) Grande, desajeitado e com cheiro de óleo de máquina.

b) Pequeno, ágil e com aparência humana.

c) Um globo esponjoso de platina-irídio sem corpo fixo.

d) Uma máquina calculadora imóvel e silenciosa.

04 – Qual foi a grande inovação tecnológica que substituiu as antigas máquinas calculadoras do século XX?

a) O cérebro positrônico feito de platina-irídio.

b) A Enciclopédia Telúrica digital.

c) O sistema de voz para robôs mineiros.

d) A criação de robôs que não precisam de estímulos.

05 – Qual cargo Susan Calvin passou a ocupar na U.S. Robots após terminar seu doutorado em 2008?

a) Presidente da Companhia.

b) Engenheira de minas em Mercúrio.

c) Diretora de Pesquisas.

d) Psicóloga roboticista.

06 – No diálogo com o narrador, como Susan Calvin descreve a diferença entre a visão dela e a do público sobre os robôs?

a) Ela os vê como simples ferramentas de metal e eletricidade.

b) Ela acredita que os robôs são perigosos e precisam ser destruídos.

c) Ela os vê como máquinas desprovidas de qualquer tipo de mente.

d) Ela os considera uma espécie melhor e mais perfeita que a humana.

07 – O que Susan Calvin quer dizer ao afirmar que o homem costumava enfrentar o universo 'sozinho e sem amigos'?

a) Que a humanidade vivia em guerra constante antes de 1982.

b) Que os robôs substituirão os amigos humanos completamente.

c) Que a criação dos robôs trouxe companheiros fiéis e úteis para a espécie humana.

d) Que não existiam outras empresas além da U.S. Robots.

08 – Qual é a reação de Susan Calvin ao ser confrontada com o tema do 'interesse humano' na entrevista?

a) Ela considera contraditório o interesse humano em robôs.

b) Ela sorri para o entrevistador pela primeira vez.

c) Ela fica entusiasmada por poder contar sua história de vida.

d) Ela se sente ofendida por ser comparada a um robô.