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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

CONTO: LI NA E O IMPERADOR - ANDREA LEIBERS - COM GABARITO

 Conto: Li Na e o Imperador

          Andrea Liebers

        Há muito, muito tempo, na China longínqua, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo. Chamava-se Li Na e era calígrafa.

        Li Na tinha trabalhado toda a vida para alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa folha.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsglTBp4XkS2hhXoHi6qQ7lVHxvNk5lWu8FLpBO7e7srY6ftThr3GW21kECgQyrlYsZ0iBIAOLg9JmGkZwLY3qPFecRee8bi5ABzl_PSu2Bi2j6FVTxP8dJn3bQX9-yS3uFv2S9bsPqyFMhw1TvkhAIpEYKuUCkgJhqlG8wQ2iLc2KmXEIRl93twCNVr8/s1600/images.jpg


        Por essa altura vivia na capital da China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os filhos tinham medo dele.

        Em contrapartida, toda a gente gostava da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte. — Desenha o signo do amor! — pediam-lhe. Ou então: — Queríamos oferecer à nossa mãe um ideograma que lhe devolva a alegria.

        Li Na molhava o seu pincel na tinta preta e, com gestos elegantes, traçava sobre o papel o ideograma do amor ou o da felicidade. E todos regressavam a casa, felizes e com uma sensação de plenitude.

        Felicidade, alegria, amor, amizade, perdão: Li Na experimentara todos estes sentimentos e podia, assim, exprimi-los através de um ideograma. Mas, às vezes, eram precisos dias ou semanas para que a velha calígrafa pudesse alcançar o sentido profundo de um signo.

        Para traduzir a verdade de uma flor, fora preciso que Li Na se transformasse numa flor. Tinha tido de sentir o que sente uma flor quando o orvalho vem pousar sobre as suas folhas, ou quando a corola se abre lentamente. E também precisara de sentir o que a flor sente quando murcha e perde as pétalas. Pois Li Na exercia a sua arte com mestria. A velha calígrafa tinha uma aluna, San Li, que vivia com ela no barco. San Li já conhecia a folha de papel adequada a cada ideograma. Também sabia preparar a tinta e tinha tido as primeiras aulas de caligrafia.

        Certa manhã, uma grande agitação veio perturbar as margens do Rio Amarelo. O Imperador aproximava-se do barco da velha calígrafa. Cem guerreiros precediam o seu palanque incrustado de ouro, cem guerreiros seguiam-no e cem guerreiros protegiam os seus flancos. O Imperador ordenou que parassem diante do barco de Li Na. Um criado chamou-a:

        — O Imperador ordena que lhe traces um ideograma. Nele deves exprimir a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável!

        Li Na empurrou a porta vacilante do seu barco e saiu. San Li, escondida atrás da porta, tentava avistar o Imperador. Mas as cortinas do palanque, tecidas em fio de prata, protegiam-no dos olhares. A sua voz era forte e sonora.

        — De quanto tempo vais precisar? — perguntou num tom imperioso que fez tremer San Li.

        — O tempo necessário para compreender a natureza do vosso poder! — respondeu, num tom firme, a velha calígrafa.

        San Li admirou o sangue frio da sua professora.

        — Um criado virá buscar a caligrafia dentro de uma semana.

        O Imperador bateu três vezes com o bastão da sua bengala na parede do palanque e partiu.

        Cheios de medo, os habitantes da aldeia tinham-se escondido nas suas casas ou nos seus barcos. O Imperador raramente saía do palácio, e raros eram os que o tinham visto com os seus próprios olhos. Como resplandecia o palanque! Como pareciam invencíveis os guerreiros! Seguros do seu poder, ostentavam as armas, e o chão tremia devido ao peso dos seus passos.

        Depois da visita do Imperador, a velha calígrafa tinha mergulhado num profundo silêncio. A ninguém dirigia a palavra, nem mesmo a San Li. Refletia, sentada na ponte do barco. Como poderia ela medir a grandeza do império, se nunca tinha entrado no palácio imperial? Como poderia imaginar a imensidão das riquezas, se nada possuía? Como poderia compreender o poder, se nunca tinha mandado em ninguém?

        Quando o sol se pôs sobre o Rio Amarelo, Li Na continuava sentada no mesmo sítio. Perdida nos seus pensamentos, fixava o rio. Não reagiu quando San Li lhe trouxe uma taça de arroz e um pouco de chá perfumado. Tinha adormecido e a lua fazia brilhar reflexos de prata nos seus cabelos.

        Passou-se uma semana. Um criado do palácio veio buscar a caligrafia. Desolada, a velha abanou a cabeça:

        — Lamento, mas não posso corresponder ao pedido do Imperador. Nunca entrei no palácio imperial, nada sei das cerimónias da corte. Império e poder são palavras que me são estranhas. Será que me podes trazer um objeto do palácio? Qualquer coisa em que o Imperador toque todos os dias.

        O criado prometeu fazê-lo. Uma semana mais tarde, trouxe-lhe um tapete sumptuoso e uma taça em ouro. Como Li Na não estava visível, entregou-os à aluna. San Li recebeu os objetos, a tremer.

        — Entrega-os à tua professora! — ordenou o criado do Imperador. — Mas ai de ti se os sujares ou estragares. O Imperador mandava-vos às duas para a prisão!

        Incapaz de proferir palavra, San Li abanou a cabeça.

        — Volto dentro de uma semana! A caligrafia tem de estar pronta!

        Passou-se uma semana e o criado voltou.

        — Não consigo traduzir para o papel o poder do Imperador — disse a velha numa voz trémula. — Traz-me uma espada ou outra arma qualquer com a qual o Imperador exerce o poder sobre os seus inimigos.

        — Verei o que posso fazer! — respondeu o criado e afastou-se a cavalo.

        Alguns dias mais tarde, trouxe uma espada pesada. Li Na estava sentada, imóvel e silenciosa. San Li cortava folhas de papel. Não havia vestígios de qualquer caligrafia, nem sequer de um esboço.

        — De quanto tempo precisas ainda? — perguntou o criado.

        Uma vez que a velha não respondia, dirigiu-se à aluna:

        — Quando estará pronta a caligrafia? O Imperador está impaciente.

        San Li encolheu os ombros.

        — Não sei — disse timidamente.

        O criado deixou passar três meses até voltar de novo à margem do Rio Amarelo. Desta vez a calígrafa entregaria o trabalho, pensava ele. Mas estava enganado.

        — Li Na deu ordens para que não a perturbassem, sob pretexto algum — anunciou-lhe a aluna. — Volta dentro de um mês e levarás a caligrafia do Imperador.

        O homem ficou apavorado. Quando o Imperador ouvisse dizer que a caligrafia não estava pronta, culpá-lo-ia, decerto.

        — Porque demora tanto tempo? — perguntou à rapariga.

        — Li Na tem de compreender primeiro o poder do Imperador antes de pegar no pincel.

        San Li baixou os olhos.

        — A encomenda do Imperador exige algo de completamente diferente daquilo que a minha professora pintou até agora — disse em voz baixa.

        O criado abanou a cabeça, mostrando que compreendia. Mas será que o Imperador compreenderia? Mas o Imperador não compreendeu. Quando viu o criado voltar de mãos vazias, meteu-o na prisão. Como ousavam desafiar as suas ordens? Iria ele mesmo falar com a calígrafa e buscar o que lhe pertencia.

        Vestido de forma magnífica, pôs-se a caminho com a sua comitiva. Quando viram os soldados aproximarem-se do rio, os habitantes da aldeia meteram-se nas suas embarcações. San Li enfiou-se, aterrorizada, na cozinha, quando o palanque do Imperador parou diante do barco de Li Na.

        Acompanhado por quatro guardas, o Imperador entrou no quarto da calígrafa.

        — Onde está a caligrafia que te mandei pintar?

        Li Na aproximou-se. Tinha na mão um grande pincel, do qual ainda escorria tinta. Diante dela estava um rolo de papel. Sem proferir palavra, sem olhar para o Imperador, inclinou-se e, com alguns gestos precisos, traçou no papel o signo do poder.

        Aterrado, o Imperador recuou. Os guardas desembainharam as espadas para o proteger. O signo do poder era violento e cruel, ameaçador e hostil, duro e gelado. Dir-se-ia que dominava o quarto todo. Os guardas recuaram, a tremer. O Imperador empalideceu, mas esforçou-se por mostrar que não estava impressionado.

        — Por que me fizeste esperar tantos meses se conseguiste fazer a caligrafia em tão pouco tempo? — perguntou, enfurecido, a Li Na.

        — Precisei deste tempo para compreender o vosso poder — respondeu a velha calígrafa, numa voz doce, mas firme.

        Arrumou o pincel e olhou o Imperador nos olhos. Depois pegou no seu selo e imprimiu‑o no papel de arroz, ao lado do trabalho.

        Passaram-se vários minutos num silêncio absoluto. A tinta secou. Li Na fez sinal a dois guardas para pegarem no rolo de papel. Sem sequer esperarem pela autorização do Imperador, fizeram o que a calígrafa lhes ordenara. O Imperador compreendeu, então, que ela tinha captado a natureza do seu poder.

        Apressou-se a enrolar o papel e levou-o para o palácio. Uma vez lá chegado, retirou-se para os seus aposentos privados e deu ordens para que ninguém o perturbasse. Nem mesmo a sua família ou os seus ministros.

        Desenrolou no chão a caligrafia de Li Na e pôs-se a contemplá-la. Sentiu um frio imenso percorrer-lhe o corpo. A sua garganta parecia ter sido estrangulada. Era isso o frio glacial do medo. O punho de aço do pavor. O gosto amargo da crueldade. O poder da cupidez e da violência.

        Reinava no palácio um silêncio de morte. Após uma longa espera, o primeiro guarda do Imperador aproximou-se, hesitante, da porta do quarto do seu senhor.

        — Vossa Majestade não se sente bem? — perguntou, timidamente. Como não ouvisse resposta, abriu a porta, com prudência. O Imperador tinha os olhos cravados no chão, onde a caligrafia de Li Na se encontrava desenrolada. E chorava. O Imperador da China chorava! Sem soluços, sem gemidos. Nenhum som saía dos seus lábios. As lágrimas corriam silenciosas pelo seu rosto.

        — É isto o poder do Imperador? Angústia e medo? Serei assim tão cruel? — murmurava.

        Apercebeu-se da presença do guarda. Este, com um movimento lento da cabeça, assentiu:

        — Sim, Vossa Majestade é cruel.

        Falara num tom firme, com os olhos postos no Imperador. Este desviou os olhos da caligrafia e fixou o criado, estupefato. Abanou o punho, ameaçador. A tremer de cólera, abriu a boca. Contudo, baixou o braço e, sem proferir palavra, começou a chorar.

        No barco ancorado no Rio Amarelo, a velha calígrafa arrumava o seu material. Papel e pincel, pedra de tinta e selo tinham voltado ao seu lugar. Para terminar, Li Na estendeu o tapete do Imperador no chão e colocou a taça de ouro numa prateleira. Num canto pôs a espada incrustada de pedras preciosas. Sorria. Nessa manhã, o criado do palácio tinha voltado.

        — O Imperador dá-te estes objetos como paga pelo teu trabalho — explicou-lhe.

        — Foste preso? — perguntou San Li, curiosa.

        O homem abanou a cabeça:

        — Sua Majestade libertou todos os que tinham sido injustamente presos. Desde que pendurou a caligrafia de Li Na, tornou-se um homem diferente.

        Quando o criado se foi, Li Na chamou a sua aluna.

        — San Li, queres aprender o signo da verdade?

        — Sim, quero! — respondeu a menina, com entusiasmo.

       Excitada, olhou para a mão de Li Na que, calmamente, pegava no grande pincel.

Andrea Liebers. Li Na et l’empereur. Toulouse, Milan, 2002. (Tradução e adaptação).

Entendendo o conto:

01 – O que diferenciava a arte da velha calígrafa Li Na da escrita das outras pessoas e como ela conseguia alcançar a verdade de cada ideograma?

      Diferente das pessoas comuns que apenas sabiam escrever, Li Na conseguia exprimir a verdade através dos seus traços. Para alcançar a essência profunda de um signo, ela precisava mergulhar e vivenciar o sentimento ou o elemento que iria desenhar. Por exemplo, para traduzir a verdade de uma flor, precisou sentir-se como uma flor abrindo as pétalas, recebendo o orvalho e murchando.

02 – Qual foi a ordem dada pelo Imperador à calígrafa Li Na e qual foi a resposta dela quanto ao tempo necessário para realizar o trabalho?

      O Imperador ordenou que Li Na traçasse um ideograma que expressasse a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável. Corajosa e firme, Li Na respondeu que precisaria do tempo necessário para compreender a verdadeira natureza do poder do Imperador.

03 – Diante da dificuldade inicial em retratar o poder e o império, quais objetos Li Na solicitou ao criado do palácio e com qual finalidade?

      Por nunca ter entrado no palácio, mandado em ninguém ou possuído riquezas, Li Na pediu primeiro um objeto em que o Imperador tocasse todos os dias (recebendo um tapete suntuoso e uma taça de ouro) e, depois, uma arma com a qual ele exercesse o poder sobre os inimigos (uma espada pesada). Ela solicitou esses itens para conseguir sentir, conectar-se e compreender a essência do poder e da rotina imperial.

04 – Como era visualmente a caligrafia do "signo do poder" traçada por Li Na e qual foi a reação imediata do Imperador e de seus guardas ao contemplá-la?

      O signo traçado era violento, cruel, ameaçador, hostil, duro e gelado, parecendo dominar todo o ambiente. Ao olharem para a obra, o Imperador e seus guardas ficaram aterrados; os guardas desembainharam as espadas para proteção, mas logo recuaram a tremer, enquanto o Imperador empalideceu diante da força assustadora do retrato de seu próprio poder.

05 – Ao examinar a caligrafia a sós em seus aposentos, o que o Imperador sentiu e qual revelação dolorosa ele teve sobre si mesmo?

      A sós no quarto, o Imperador sentiu um frio glacial de medo, um sufocamento na garganta e o gosto amargo da violência e da cupidez. Ele caiu em prantos ao compreender que o seu poder gerava apenas angústia e pavor, confrontando-se com a dura realidade de sua própria crueldade.

06 – Quais transformações ocorreram no comportamento do Imperador e na administração do reino após a entrega da caligrafia?

      Impactado pelo choque de realidade trazido pela arte de Li Na, o Imperador tornou-se um homem completamente diferente. Ele libertou todos aqueles que haviam sido injustamente presos (como o próprio criado), deixou de agir de forma tirânica e presenteou Li Na com o tapete, a taça de ouro e a espada em gratidão pelo ensinamento.

07 – No desfecho do conto, qual ensinamento a mestre Li Na se dispõe a transmitir à sua aluna San Li e qual é o significado desse momento para a narrativa?

      Li Na convida San Li a aprender o "signo da verdade". Esse momento simboliza a transmissão da verdadeira essência da arte caligráfica, mostrando que a verdadeira maestria não reside na adulação aos poderosos, mas na capacidade da arte de refletir a realidade com coragem, sensibilidade e sabedoria transformadora.

 

 

CONTO: A GUERRA - ANAIS VAUGELADE - COM GABARITO

 Conto: A guerra

         Anaïs Vaugelade

        Era a guerra. Todas as manhãs os homens partiam para os campos de batalha. Os que regressavam à noite traziam os mortos e os estropiados. Havia guerra há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão por que ela tinha começado.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh93AwuNX9fN83EmRKGC6eQVGtfKQ0vSxZIRg29365r4AyPHKPiQjMtTvblE-cwdlrTlszp5z1TR1DbDf9ClGw43c2_Rqjp1vRVZfRfiXGHglY0wDiUdTt9x0JQaBsmquzz_YVf3En-QEbVHFjhuV9lhvGkYdEU_c8V8MibhEgpHw_9wnVyjdEhGWqhLO0/s320/images.jpg


        Vítor II, rei dos Vermelhos, contava e recontava os soldados do seu reino. “Dez mais vinte faz trinta; ainda posso acrescentar cinquenta… Oitenta homens! Oitenta homens não chegam para ganhar a guerra.” E começava a chorar. Felizmente para ele, Vítor II, rei dos Vermelhos, tinha um filho que se chamava Júlio. Júlio entrava na sala do trono e dizia: — Coragem, Pai! — E o rei tornava a ter coragem.

        Armando – XII, rei dos Azuis, também só tinha oitenta soldados e um filho. Mas, quando Armando XII ficava desanimado, o filho não sabia o que dizer. O filho de Armando XII chamava-se Fabiano e interessava-se pouco pela guerra. Passava os dias no parque, sentado num ramo. Um dia, Fabiano recebeu uma carta do príncipe Júlio:

        Os nossos pais já quase não têm soldados; portanto, se és homem, pega no teu cavalo e na tua armadura. Marco-te encontro para amanhã de manhã no campo de batalha; bater-nos-emos em duelo e aquele que ganhar o combate ganhará ao mesmo tempo a guerra.

        Assinado: Júlio

        Fabiano suspirou. Nem por isso gostava muito de montar a cavalo. No dia seguinte, Fabiano chegou ao encontro montado numa ovelha.

        — Em guarda! — disse Júlio.

        — Béééé! — fez a ovelha.

        Isto assustou o cavalo que se empinou na vertical. Júlio caiu.

        — Estás ferido? — perguntou Fabiano.

        Mas Júlio estava mais do que ferido, estava morto. Os soldados vermelhos berraram: — O combate foi falseado!

        Fabiano quis explicar-lhes que tinha sido um acidente, mas, como eles tinham piques e lanças, preferiu fugir.

        Armando XII, rei dos Azuis, esperava-o.

        — Devias ter vergonha! — ralhou ele.

        — Mas eu não fiz nada — disse Fabiano.

        — Justamente — respondeu o pai. — Vergonha e vergonha a dobrar; expulso-te do meu reino.

        Fabiano escondeu-se no parque. Era de tarde e os soldados tinham recomeçado a guerra; então, Fabiano decidiu fazer uma coisa: decidiu escrever duas cartas, uma para Armando XII e outra para   Vítor II. As duas cartas diziam exatamente a mesma coisa:

        Estou em casa do rei Amarelo, Basílio IV, que me deu um grande exército. Portanto, se sois homens, pegai nos vossos cavalos e nas vossas armaduras. Marco-vos encontro para amanhã de manhã no campo de batalha.

        Assinado: Fabiano

        Armando XII recebeu a carta nessa noite. — A nulidade do meu filho, um grande exército? — disse ele. — Devem ser só para aí uns oito e eu faço picado deles.

        Quando Vítor II recebeu a carta, encolheu os ombros; declarou que esmagaria esse vencedor de combates falseados. Meteu a carta no bolso e foi deitar-se.

        Quando viu chegar o exército Azul, o rei dos Vermelhos exclamou:

        — Que fazeis vós aqui, Senhores? Nós temos encontro marcado com o exército Amarelo; portanto, abandonem este local.

        — Imaginai, Senhores, que nós também temos encontro marcado com o exército Amarelo.

        — Não compreendo — disse Vítor II, rei dos Vermelhos.

        — Eu também não — disse Armando XII, rei dos Azuis.

        Compararam as duas cartas.

        — Na sua opinião, quantos serão os Soldados Amarelos?

        — Talvez oito ou oitenta ou, talvez, oitocentos…

        — Que importa, se os Azuis são verdadeiros heróis? — disse Armando XII.

        E Vítor II replicou: — Os Vermelhos não temem ninguém.

        Ao meio-dia, os Amarelos ainda não tinham chegado. Embora bravos e não receando ninguém, o que é certo é que a espera enerva:

        — Senhores — disse Armando XII — creio que, face a oitocentos homens, devíamos aliar os nossos exércitos.

        — É justo! — respondeu Vítor II.

        Esperaram ainda toda a tarde. Às sete, os reis discutiram se haviam de regressar aos seus castelos, mas decidiram que não, que era melhor ficar, para o caso de os Amarelos chegarem de noite; e mandaram vir sanduíches. No dia seguinte, os Amarelos continuavam sem chegar. Então, começaram a instalar tendas e a acender fogueiras. Ao terceiro dia, as mulheres dos soldados vieram com as suas caçarolas e colheres, porque não era possível sustentar dois exércitos a sanduíches. Ao quarto dia, trouxeram os bebés. E, ao quinto dia, as outras crianças, que se aborreciam sozinhas em casa. Os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, o campo de batalha parecia uma aldeia.

        Fabiano pensou: “Não tenho exército nem nunca tive; mas, graças a mim, a guerra acabou.” Então Fabiano foi a casa de Basílio IV, rei dos Amarelos, para lhe contar a história. Basílio riu muito quando ele falou no exército imaginário, mas chorou um pouco pelo príncipe Júlio, morto tão estupidamente; e chorou até por todos os soldados dos quais nem mesmo sabia o nome.

        Basílio IV achou que Fabiano era o mais esperto e também o mais ajuizado; e, como não tinha filhos, pediu-lhe que fosse o príncipe dos Amarelos e que reinasse, mais tarde, no seu reino. O rei Fabiano foi um excelente rei. E, é claro, durante o seu reinado, nunca houve nenhuma guerra.

Anaïs Vaugelade. A guerra. Porto, Editora AMBAR, 2002. (Adaptação).

Entendendo o conto:

01 – No início do conto, o que a autora revela sobre a duração e a motivação da guerra entre os reinos? Que impacto isso tem na vida da população?

      A autora revela que a guerra durava há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão pela qual ela tinha começado. O impacto disso era devastador: todas as manhãs os homens partiam para os campos de batalha e, à noite, os sobreviventes regressavam trazendo apenas os mortos e os estropiados, reduzindo drasticamente as populações de ambos os reinos.

02 – Como Fabiano se diferencia dos príncipes tradicionais e do próprio príncipe Júlio no que diz respeito ao seu interesse pelo combate? Cite um exemplo da sua atitude.

      Diferente do príncipe Júlio, que era focado na guerra e no encorajamento do pai, Fabiano interessava-se muito pouco pelo combate e repudiava a lógica bélica. Um exemplo claro é quando ele aceita o duelo proposto por Júlio, mas decide ir ao campo de batalha montado numa ovelha e sem armadura adequada, em vez de usar um cavalo e trajes de combate.

03 – De que forma a morte acidental do príncipe Júlio altera o destino de Fabiano no conto?

      A morte acidental do príncipe Júlio — provocada pelo susto do cavalo com o balido da ovelha — faz com que os soldados Vermelhos acusem o combate de ter sido falseado. Quando Fabiano tenta se explicar, precisa fugir das lanças. Ao retornar para casa, é rejeitado e expulso do reino por seu próprio pai, Armando XII, que o acusa de ser uma vergonha. Isso o força a se esconder no parque e a articular uma nova estratégia para parar o conflito.

04 – Qual foi o plano arquitetado por Fabiano para interromper os combates entre os exércitos Vermelho e Azul?

      Fabiano escreveu duas cartas idênticas enviadas aos reis de ambos os lados, fingindo estar na casa do rei Amarelo (Basílio IV) à frente de um suposto "grande exército" e marcando um encontro no campo de batalha para o dia seguinte. A incerteza quanto ao tamanho do exército inimigo fez com que os Vermelhos e os Azuis chegassem ao local e ficassem em estado de espera.

05 – Como a espera prolongada pelo "exército Amarelo" transformou gradualmente a dinâmica do campo de batalha?

      À medida que os dias passavam sem a chegada dos Amarelos, a apreensão fez com que os dois reinos rivais decidissem se aliar. Para suportar a espera, começaram a montar tendas e fogueiras. Nos dias seguintes, as esposas trouxeram comida, depois vieram os bebês e as outras crianças, e os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, a lógica do combate deu lugar à convivência comunitária, transformando o campo de batalha numa verdadeira aldeia pacífica.

06 – Como o rei Basílio IV reage ao ouvir a história de Fabiano e qual decisão ele toma em relação ao futuro do príncipe?

      Basílio IV ri muito da ideia do exército imaginário criativamente inventado por Fabiano, mas demonstra sensibilidade ao chorar pela morte fútil de Júlio e por todos os soldados anônimos vitimados pela guerra. Reconhecendo a inteligência e o bom senso do jovem, e por não ter herdeiros, Basílio IV adota Fabiano como príncipe para que reine no futuro em seu lugar.

07 – Analisando o desfecho do conto, qual é a principal crítica ou lição central trazida pela obra em relação aos conflitos armados?

      O conto faz uma crítica à efemeridade e ao absurdo das guerras, que muitas vezes continuam por puro orgulho dos governantes, sem qualquer razão válida. A obra demonstra que a inteligência, o diálogo e a recusa em participar da violência são mais eficientes do que a força bruta, mostrando que a verdadeira liderança constrói a paz e o convívio comunitário.

 

 

CONTO: AS JANELAS DOURADAS - WILLIAM J. BENNETT - COM GABARITO

 Conto: As janelas douradas

          William J. Bennett 

 

        O menino trabalhava arduamente durante todo o dia, no campo, no estábulo e no armazém, pois os pais eram fazendeiros pobres e não podiam pagar a um ajudante. Mas, quando o sol se punha, o pai deixava-lhe aquela hora só para ele. O menino subia ao alto de um morro e ficava a olhar para um outro morro, alguns quilómetros ao longe. Nesse morro distante, via uma casa com janelas de ouro resplandecente e de diamantes. As janelas brilhavam e reluziam tanto que ele era obrigado a piscar os olhos. Mas, pouco depois, ao que parecia, as pessoas da casa fechavam as janelas por fora, e então a casa ficava igual a qualquer casa comum de fazenda. O menino achava que faziam isso por ser hora de jantar; então voltava para casa, jantava e ia deitar-se. Um dia, o pai do menino chamou-o e disse-lhe:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjjN2ESzsc6CbHIvs_aPQyMv1dioenodB590ImBZFd8knFKNKtC7BVqedFmLGg6VaLgGeE2reaww-dW707r4mbhDUx8wpHdhI9ofcK64xg6emoj3vpkeiVJQTRVw7ZxUm3AcJxY1WkmI_bL0K45CWHxX7KxGQhooPh53VymYIjekjDEzLLHSemh99NApms/s320/images.jpg


        — Tens sido um bom menino e ganhaste um dia livre. Tira esse dia para ti; mas lembra-te de que Deus o deu, e tenta usá-lo para aprenderes alguma coisa boa.

        O menino agradeceu ao pai e beijou a mãe. Em seguida partiu, tomando a direção da casa de janelas douradas.

        Foi uma caminhada agradável. Os pés descalços deixavam marcas na poeira branca e, quando olhava para trás, parecia que as pegadas o seguiam, fazendo-lhe companhia. A sombra também caminhava ao seu lado, dançando e correndo, tal como ele. Era muito divertido.

        Passado um longo tempo, chegou ao morro verde e alto. Quando subiu ao topo, lá estava a casa. Mas parecia que haviam fechado as janelas, pois ele não viu nada de dourado. Aproximou-se e sentiu vontade de chorar, porque as janelas eram de vidro comum, iguais a qualquer outra, sem nada que fizesse lembrar o ouro.

        Uma mulher chegou à porta e olhou carinhosamente para o menino, perguntando o que ele queria.

        — Eu vi as janelas de ouro lá do nosso morro — disse ele — e vim de propósito para as ver de perto, mas agora elas são só de vidro!

        A mulher meneou a cabeça e riu-se.

        — Nós somos fazendeiros pobres — disse — e não poderíamos ter janelas de ouro. E o vidro é muito melhor para se ver através dele!

        Convidou o menino a sentar-se no largo degrau de pedra e trouxe-lhe um copo de leite e uma fatia de bolo, dizendo-lhe que descansasse. Chamou então a filha, que era da idade do menino; dirigiu aos dois um aceno afetuoso de cabeça e voltou aos seus afazeres.

        A menina estava descalça como ele e usava um vestido de algodão castanho, mas os cabelos eram dourados como as janelas que ele tinha visto e os olhos eram azuis como o céu ao meio-dia. Ela passeou com o menino pela fazenda e mostrou-lhe o seu bezerro preto com uma estrela branca na testa; ele falou do bezerro que tinha em casa, e que era castanho-avermelhado com as quatro patas brancas. Depois de terem comido juntos uma maçã, e se terem assim tornado amigos, ele fez--lhe perguntas sobre as janelas douradas. A menina confirmou, dizendo que sabia tudo sobre elas, mas que ele se tinha enganado na casa.

        — Vieste numa direção completamente errada! — exclamou ela. — Vem comigo, vou te mostrar a casa de janelas douradas, para ficares a saber onde fica.

        Foram para um outeiro que se erguia atrás da casa, e, no caminho, a menina contou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma certa hora, perto do pôr-do-sol.

        — Eu sei, é isso mesmo! — confirmou o menino. 

        No cimo do outeiro, a menina virou-se e apontou: lá longe, num morro distante, havia uma casa com janelas de ouro resplandecente e de diamantes, exatamente como ele tinha visto. E quando olhou bem, o menino viu que era a sua própria casa!

        Apressou-se então a dizer à menina que precisava de se ir embora. Deu-lhe a sua melhor pedrinha, a branca com uma lista vermelha, que trazia há um ano no bolso. Ela deu-lhe três castanhas-da-índia: uma vermelha acetinada, outra pintada e outra branca como leite. Ele deu-lhe um beijo e prometeu voltar, mas não contou o que descobrira. Desceu o morro, enquanto a menina ficava a vê-lo afastar-se, na luz do sol poente.

        O caminho de volta era longo e já estava escuro quando chegou à casa dos pais. Mas o lampião e a lareira luziam através das janelas, tornando-as quase tão brilhantes como as vira do outeiro. Quando abriu a porta, a mãe veio beijá-lo e a irmãzinha correu a pendurar-se-lhe ao pescoço; sentado perto da lareira, o pai levantou os olhos e sorriu.

        — Tiveste um bom dia? — perguntou a mãe.

        — Sim! — o menino passara um dia óptimo. 

        — E aprendeste alguma coisa? — perguntou o pai.

        — Sim! — disse o menino. — Aprendi que a nossa casa tem janelas de ouro e de diamantes.

 William J. Bennett O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996.

Entendendo o conto:

01 – O que o menino observava diariamente ao pôr do sol do alto do morro e como ele explicava o fato de o brilho desaparecer algum tempo depois?

      Ao pôr do sol, o menino observava, em um morro distante, uma casa com janelas que pareciam feitas de ouro e diamantes resplandecentes. Ele imaginava que o brilho desaparecia porque os moradores daquela casa fechavam as janelas por fora para jantar, fazendo com que o imóvel voltasse a parecer uma fazenda comum.

02 – Ao conceder um dia livre ao filho, qual foi a recomendação dada pelo pai e de que forma essa orientação se relaciona com a jornada do menino?

      O pai recomendou que o menino aproveitasse o dia livre lembrando-se de que era um presente de Deus e tentando usar o tempo para aprender algo de bom. Essa orientação dá um sentido de aprendizado e amadurecimento à caminhada do garoto, que ao final do dia retorna para casa tendo compreendido uma importante lição de vida sobre a valorização do seu próprio lar.

03 – Como foi a reação do menino ao chegar à casa do morro distante e como a mãe da menina o acolheu?

      Ao chegar à casa e perceber que as janelas eram de vidro comum, o menino sentiu vontade de chorar por conta da decepção. No entanto, a mãe da menina o acolheu com carinho, rindo gentilmente ao explicar que eram fazendeiros pobres e que o vidro era melhor para enxergar. Em seguida, ofereceu-lhe descanso, um copo de leite e uma fatia de bolo, apresentando-o à sua filha.

04 – Qual foi a revelação feia pela menina no alto do outeiro e qual foi a surpresa do menino ao olhar na direção apontada por ela?

      A menina explicou que as janelas de ouro só podiam ser vistas a uma hora específica, perto do pôr do sol, e o levou ao topo do outeiro para mostrar a verdadeira casa com janelas douradas. Ao olhar na direção indicada, o menino surpreendeu-se ao constatar que a casa resplandecente como ouro e diamantes era, na verdade, a sua própria casa refletindo a luz do sol.

05 – Qual é a lição moral do conto expressa na resposta final do menino ao seu pai? Explique a metáfora das "janelas de ouro".

      Ao responder ao pai que aprendeu que a sua própria casa tinha janelas de ouro e diamantes, o menino demonstra ter compreendido que muitas vezes idealizamos a vida dos outros e não percebemos a beleza, o valor e a riqueza presentes em nosso próprio lar. A metáfora das "janelas de ouro" representa a ilusão das aparências à distância e a importância de cultivar a gratidão e o amor pelas coisas simples que já possuímos.

 

 

 

 

CONTO: O FIO MÁGICO - PACIÊNCIA - WILLIAN J.BENNETT - COM GABARITO

 Conto: O fio mágico – Paciência

          William J. Bennett 

 

        Era uma vez uma viúva que tinha um filho chamado Pedro. O menino era forte e saudável, mas não gostava de ir à escola e passava todo o tempo a sonhar acordado.

        — Pedro, com o que estás sonhar a uma hora destas? — perguntava-lhe a professora.

        — Estava a pensar no que serei quando crescer — respondia ele.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjCzyP2P8dJZR21DV3dR6DDrr1pcIBd8p8XX2LEW5YGJaNOqx8Z6_tgBgmStF_E5hwTEFENwuqbCW5gEspPfjgqDgCT3Z-LDEJsp42U74NCIS8vrtfR8oB13KRYc6FHv52gquSHCkOy7NdjqfDp3XKP1VhRuVMPVnPM-N7g7q2lLTrCwS4Q6-WLin1cSI8/s320/images.jpg


        — Sê paciente. Tens muito tempo para pensar nisso. Depois de crescido, nem tudo é divertimento, sabes? — dizia ela.

        Mas Pedro tinha dificuldade de apreciar alguma coisa que estivesse a fazer no momento, e ansiava sempre pelo que vinha a seguir. No Inverno, ansiava pelo retorno do Verão; no Verão, sonhava com passeios de esqui e trenó. Na escola, ansiava pelo fim das aulas, para poder voltar para casa; e, nas noites de domingo, suspirava dizendo: “Ah, se as férias chegassem depressa!” O que mais o entretinha era brincar com a amiga Lise. Era uma companheira tão boa como qualquer rapaz, e a ansiedade de Pedro não a afetava nem ofendia. “Quando crescer, vou casar-me com ela”, dizia Pedro consigo mesmo.

        Costumava perder-se em caminhadas pela floresta, sonhando com o futuro. Às vezes, deitava-se ao sol sobre o chão macio, com as mãos postas sob a cabeça, e ficava a olhar o céu através das copas altas das árvores. Uma tarde quente, quando estava quase a cair no sono, ouviu alguém chamando por ele. Abriu os olhos e sentou-se. Viu uma mulher idosa de pé à sua frente. Ela trazia na mão uma bola prateada, da qual pendia um fio de seda dourado.

        — Olha o que tenho aqui, Pedro — disse ela, oferecendo-lhe o objeto.

        — O que é isso? — perguntou, curioso, tocando o fino fio dourado.

        — É o fio da tua vida — retrucou a mulher. — Não toques nele e o tempo passará normalmente. Mas, se desejares que o tempo ande mais depressa, basta dares um leve puxão ao fio, e uma hora passará como se fosse um segundo. Mas devo avisar-te: uma vez que o fio tenha sido 139 puxado, não poderá ser colocado de volta dentro da bola. Ela desaparecerá como uma nuvem de fumo. A bola é tua. Mas se aceitares o meu presente, não contes a ninguém; se não, morrerás no mesmo dia. Agora diz-me, queres ficar com ela?

        Pedro tomou-lhe das mãos o presente, satisfeito. Era exatamente o que queria. Examinou--a. Era leve e sólida, feita de uma única peça. Havia apenas um furo de onde saía o fio brilhante. O menino colocou-a no bolso e foi a correr para casa. Quando chegou, depois de se certificar da ausência da mãe, examinou-a outra vez. O fio parecia sair lentamente de dentro da bola, tão devagar que era difícil perceber o movimento a olho nu. Sentiu vontade de lhe dar um rápido puxão, mas não teve coragem. Ainda não.

        No dia seguinte, na escola, Pedro imaginava o que fazer com o seu fio mágico. A professora repreendeu-o por não se concentrar nos deveres. “Se ao menos”, pensou ele, “já fossem horas de ir para casa!” Tateou a bola prateada que se encontrava dentro do bolso. Se desse apenas um pequeno puxão, logo o dia chegaria ao fim. Cuidadosamente, pegou no fio e puxou. De repente, a professora mandou que todos arrumassem as suas coisas e fossem embora, organizadamente. Pedro ficou maravilhado. Correu sem parar até chegar à casa. Como a vida seria fácil agora! Todos os seus problemas haviam terminado. Dali em diante, passou a puxar o fio, só um pouco, todos os dias.

        Entretanto, logo se apercebeu que era tolice puxar o fio apenas um pouco todos os dias. Se desse um puxão mais forte, o período escolar estaria concluído de uma vez. Poderia aprender uma profissão e casar-se com Lise. Naquela noite deu, então, um forte puxão ao fio, e acordou na manhã seguinte como aprendiz de um carpinteiro da cidade. Pedro adorou a sua nova vida, subindo aos telhados e andaimes, erguendo e colocando, à força de marteladas, enormes vigas que ainda exalavam o perfume da floresta. Mas, às vezes, quando o dia do pagamento demorava a chegar, dava um pequeno puxão ao fio e logo a semana terminava, já era a noite de sexta-feira e ele tinha dinheiro no bolso.

        Lise também se mudara para a cidade e morava com a tia, que lhe ensinava os afazeres do lar. Pedro começou a ficar impaciente a respeito do dia em que se casariam. Era difícil viver, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe dela. Perguntou-lhe, então, quando se poderiam casar.

        — No próximo ano — disse ela. — Eu já terei aprendido a ser uma boa esposa.

        Pedro tocou com os dedos a bola prateada dentro do bolso.

        — Ora, o tempo vai passar bem depressa — disse, com muita certeza.

        Naquela noite, não conseguiu dormir. Passou o tempo todo agitado, virando-se de um lado para o outro na cama. Tirou a bola mágica que estava debaixo do travesseiro. Hesitou um instante, mas logo a impaciência o dominou, e ele puxou o fio dourado. Pela manhã, descobriu que aquele ano já havia passado e que Lise concordara afinal com o casamento. Pedro sentiu-se realmente feliz.

        Mas, antes que o casamento pudesse realizar-se, recebeu uma carta com aspecto de documento oficial. Abriu-a, trémulo, e leu a notícia de que deveria apresentar-se no quartel do exército na semana seguinte, para servir por dois anos. Mostrou-a, desesperado, a Lise.

        — Ora — disse ela — não há nenhum problema, basta-nos esperar. Mas o tempo passará depressa, vais ver. Há tanto que preparar para nossa vida a dois!

        Pedro sorriu com galhardia, mas sabia que dois anos durariam uma eternidade a passar. Quando já se acostumara à vida no quartel, entretanto, começou a achar que não era tão má assim. Gostava de estar com os outros rapazes, e as tarefas não eram tão árduas como a princípio. Lembrou-se da mulher que o aconselhara a usar o fio mágico com sabedoria e evitou usá-lo por algum tempo. Mas depressa voltou a sentir-se inquieto. A vida no exército entediava-o, com as suas tarefas de rotina e a sua rígida disciplina. Começou a puxar o fio para acelerar o decurso da semana, a fim de que chegasse logo o domingo ou o dia da sua folga. E assim se passaram os dois anos, como se fosse um sonho.

        Terminado o serviço militar, Pedro decidiu não mais puxar o fio, exceto por uma necessidade absoluta. Afinal, era a melhor época da sua vida, conforme todos lhe diziam. Não queria que acabasse assim tão depressa. Mas deu um ou dois pequenos puxões ao fio, só para antecipar um pouco o dia do casamento. Tinha muita vontade de contar a Lise o seu segredo; mas sabia que, se contasse, morreria.

        No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive Pedro. Mal podia esperar para lhe mostrar a casa que construíra para ela. Durante a festa, lançou um rápido olhar na direção da mãe. Percebeu, pela primeira vez, que o cabelo dela estava a ficar grisalho. Envelhecera rapidamente. Pedro sentiu uma ponta de culpa por ter puxado o fio com tanta frequência. Dali em diante, seria muito mais parcimonioso no seu uso, e só o puxaria se fosse estritamente necessário.

        Alguns meses mais tarde, Lise anunciou que estava à espera de um filho. Pedro ficou entusiasmadíssimo, e mal podia esperar. Quando o bebé nasceu, ele achou que não iria querer mais nada na vida. Mas, sempre que o bebé adoecia ou passava uma noite em claro a chorar, ele puxava um pouco do fio para que o bebé tornasse a ficar saudável e alegre.

        Os tempos andavam difíceis. Os negócios iam mal e chegara ao poder um governo que mantinha o povo sob forte opressão e pesados impostos, e não tolerava oposição. Quem quer que fosse tido como agitador era preso sem julgamento, e um simples boato bastava para se condenar um homem. Pedro sempre fora conhecido por dizer o que pensava, e logo foi preso e lançado na cadeia. Por sorte, trazia a bola mágica consigo e deu um forte puxão ao fio. As paredes da prisão dissolveram-se diante dos seus olhos e os inimigos foram arremessados à distância, numa enorme explosão. Era a guerra que se insinuava, mas que logo acabou, como uma tempestade de Verão, deixando o rasto de uma paz exaurida. Pedro viu-se de volta ao lar com a família. Mas era agora um homem de meia-idade.

        Durante algum tempo, a vida correu sem percalços, e Pedro sentia-se relativamente satisfeito. Um dia, olhou para a bola mágica e surpreendeu-se ao ver que o fio passara da cor dourada para a prateada. Foi olhar-se ao espelho. O cabelo começava a ficar-lhe grisalho e o seu rosto apresentava rugas onde nem se podia imaginá-las. Sentiu um medo súbito e decidiu usar o fio com mais cuidado ainda do que antes. Lise dera-lhe outros filhos e ele parecia feliz como chefe da família que crescia. O seu modo imponente de ser fazia as pessoas pensarem que ele tinha perfil de chefe. Possuía uma certa de autoridade, como se tivesse nas mãos o destino de todos. Mantinha a bola mágica bem escondida, resguardada dos olhos curiosos dos filhos, sabendo que, se alguém a descobrisse, seria fatal.

        Cada vez tinha mais filhos, de modo que a casa foi ficando cheia de gente. Precisava de a ampliar, mas não dispunha do dinheiro necessário para a obra. Tinha também preocupações. A mãe estava a ficar idosa e, com a passagem dos dias, ia parecendo mais cansada. Não adiantava puxar o fio da bola mágica, pois isto só lhe aceleraria a chegada da morte. De repente, ela faleceu, e Pedro, parado diante do túmulo, pensou no modo como a vida passara tão rapidamente, mesmo sem fazer uso do fio mágico.

        Uma noite, deitado na cama, sem conseguir dormir, pensando nas suas preocupações, achou que a vida seria bem melhor se todos os filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um fortíssimo puxão ao fio, e acordou no dia seguinte vendo que os filhos já não estavam em casa, pois tinham arranjado empregos em diferentes pontos do país, e que ele e a mulher estavam sós. O cabelo estava quase todo branco e doíam-lhe as costas e as pernas quando subia uma escada, ou os braços quando levantava uma viga mais pesada. Lise também envelhecera, e estava quase sempre doente. Ele não aguentava vê-la sofrer, de tal forma que lançava mão do fio mágico cada vez mais frequentemente. Mas, sempre que o problema se resolvia, já outro surgia em seu lugar. Pensou que talvez a vida corresse melhor se ele se aposentasse. Assim, não teria de continuar a subir aos edifícios em obras, sujeito a lufadas de vento, e poderia cuidar de Lise sempre que ela adoecesse. O problema era a falta de dinheiro suficiente para sobreviver. Pegou na bola mágica, então, e ficou a olhar. Para seu espanto, viu que o fio já não era prateado, mas cinza, e perdera o brilho. Decidiu ir para a floresta dar um passeio e pensar melhor no significado de tudo aquilo.

        Já fazia muito tempo que não ia àquela parte da floresta. Os pequenos arbustos haviam crescido, transformando-se em árvores frondosas, e foi difícil encontrar o caminho que costumava percorrer. Acabou por chegar a um banco no meio de uma clareira. Sentou-se para descansar e caiu num sono leve. Foi despertado por uma voz que o chamava pelo nome: — Pedro! Pedro!

        Abriu os olhos e viu a mulher que encontrara havia tantos anos e lhe dera a bola prateada com o fio dourado mágico. Aparentava a mesma idade que tinha no dia em questão, exatamente igual. Ela sorriu-lhe.

        — E então, Pedro, a tua vida foi boa? — perguntou.

        — Não tenho a certeza — disse ele. — A sua bola mágica é maravilhosa. Nunca na minha vida tive de suportar qualquer sofrimento ou esperar por qualquer coisa. Mas tudo foi tão rápido! Sinto como se não tivesse tido tempo de apreender tudo o que se passou comigo; nem as coisas boas, nem as más. E agora falta tão pouco tempo! Já não ouso puxar o fio, pois isso só anteciparia a minha morte. Acho que o seu presente não me trouxe sorte.

        — Mas que falta de gratidão! — disse a mulher — Gostarias que as coisas fossem diferentes?

        — Talvez se me tivesse dado uma outra bola, em que eu pudesse puxar o fio para fora e para dentro também. Talvez, então, eu pudesse reviver as coisas más.

        A mulher riu-se.

        — Estás a pedir muito! Achas que Deus nos permite viver as nossas vidas mais de uma vez? Mas posso conceder-te um último desejo, meu tonto exigente.

        — Qual? — perguntou ele.

        — Escolhe — disse ela. 

        Pedro pensou bastante. Ao fim de bastante tempo, disse:

        — Gostaria de voltar a viver a minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem a sua bola mágica. Assim, poderei experimentar as coisas más da mesma forma que as boas, sem encurtar a sua duração. Pelo menos, a minha vida não passará tão rapidamente e não se parecerá com um devaneio.

        — Seja — disse a mulher. — Devolve-me a bola.

        Ela esticou a mão e Pedro entregou-lhe a bola prateada. Em seguida, ele recostou-se e fechou os olhos, exausto. Quando acordou, estava na sua cama. A sua jovem mãe debruçava-se sobre ele, tentando acordá-lo carinhosamente.

        — Acorda, Pedro, não vás chegar atrasado à escola. Estavas a dormir como uma pedra!

        Ele olhou para ela, surpreendido e aliviado. 

        — Tive um sonho horrível, mãe. Sonhei que estava velho e doente e que minha vida passara como num piscar de olhos sem que eu sequer tivesse ficado com algo para contar. Nem ao menos algumas lembranças. 

        A mãe riu-se e fez que não com a cabeça.

        — Isso nunca vai acontecer — disse ela. — As lembranças são algo que todos temos, mesmo quando somos velhos. Agora, anda, vai-te vestir. A Lise está a tua espera, não deixes que ela se atrase por tua causa.

        A caminho da escola, em companhia da amiga, observou que estavam em pleno Verão e que fazia uma linda manhã, uma daquelas em que era óptimo estar-se vivo. Em poucos minutos, estariam a encontrar os amigos e colegas, e mesmo a perspectiva de enfrentar algumas aulas não parecia tão desagradável assim. Na verdade, ele não cabia em si de contente.

 

William J. Bennett O Livro das Virtudes Editora Nova Fronteira, 1995.

Entendendo o conto:

01 – Qual era a principal característica de Pedro quando criança e de que forma ela afetava a sua maneira de vivenciar o presente?

      Pedro era um menino sonhador e extremamente impaciente, que tinha uma enorme dificuldade em apreciar o momento presente. Ele vivia sempre ansiando pelo que viria a seguir: no inverno queria o verão, nas aulas desejava o fim do dia e, nos domingos à noite, suspirava pelas férias, incapaz de aproveitar as fases de sua vida à medida que aconteciam.

 

02 – Quais eram as regras e os avisos impostos pela mulher idosa ao entregar a bola prateada com o fio mágico a Pedro?

      A mulher explicou que, se Pedro não tocasse no fio, o tempo passaria normalmente. Caso quisesse acelerá-lo, bastaria dar um leve puxão no fio dourado para que uma hora passasse em um segundo. Ela advertiu que o fio puxado jamais poderia voltar para dentro da bola e que a bola desapareceria como fumaça no final. Além disso, Pedro deveria manter o presente em segredo absoluto, sob pena de morrer no mesmo dia se contasse a alguém.

 

03 – Como o uso da bola mágica alterou a juventude de Pedro e quais foram os momentos em que ele recorreu ao fio nessa fase?

      O uso da bola fez com que a juventude de Pedro passasse sem que ele vivenciasse verdadeiramente o processo de amadurecimento. Ele puxou o fio para terminar a escola rapidamente e virar aprendiz de carpinteiro, para acelerar os dias de pagamento, para pular um ano de espera até o casamento com Lise e para fazer passar rapidamente os dois anos de serviço militar obrigatório.

 

04 – Como Pedro percebeu pela primeira vez o impacto negativo que o uso constante do fio causava nas pessoas ao seu redor?

      Pedro percebeu esse impacto no dia do seu casamento quando, durante a festa, olhou para a sua mãe e notou que os cabelos dela estavam ficando grisalhos e que ela havia envelhecido rapidamente. Nesse momento, sentiu uma ponta de culpa, percebendo que ao acelerar o seu próprio tempo, também estava encurtando a juventude e a vida daqueles a quem amava.

 

05 – O que a mudança de cor do fio mágico (de dourado para prateado e depois para cinza) simboliza ao longo da vida de Pedro?

      A mudança de cor do fio simboliza o envelhecimento biológico de Pedro e o esgotamento irreversível do tempo de sua vida. O fio dourado representava a infância e a juventude cheias de energia; o prateado indicava a chegada da maturidade, com os cabelos grisalhos e as primeiras rugas; e o cinza sem brilho indicava a velhice avançada, o cansaço físico e a proximidade do fim da vida.

 

06 – Ao reencontrar a mulher idosa na floresta, qual foi a reflexão e o desabafo de Pedro sobre o impacto do presente em sua vida?

      Pedro desabafou que, embora nunca tivesse precisado suportar o sofrimento ou a espera, a sua vida passara tão rápido que ele sentia não ter tido tempo de apreender nada do que lhe acontecera — nem as coisas boas, nem as más. Ele concluiu que o presente não lhe trouxera sorte, pois sua vida parecia um mero devaneio, sem lembranças reais para guardar.

 

07 – Qual foi o último desejo concedido pela mulher idosa a Pedro e como a experiência transformou a sua atitude ao "acordar"?

      Pedro pediu para voltar a viver a sua vida desde o início, como se fosse a primeira vez, mas sem a bola mágica, aceitando experimentar tanto as coisas boas quanto as más sem acelerá-las. Ao "acordar" no seu quarto de infância, percebeu que tudo fora um aprendizado intenso; satisfeito e aliviado, ele passou a valorizar a caminhada, a companhia de Lise, o dia ensolarado e até mesmo a perspectiva das aulas na escola.