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terça-feira, 23 de junho de 2026

CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO - ANTON TCHEKHOV - COM GABARITO

 CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO

             Anton Tchekhov


        Dizia-se que havia aparecido à beira-mar uma nova personagem: uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gurov, que já passara em falta duas semanas e habituara-se àquela vida, começou a interessar-se também por caras novas. Sentado no pavilhão de Verne, viu passar à beira-mar uma jovem senhora, de mediana estatura, loura, de boina. Corria atrás dela um lulu branco.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJbUdbx2Vg7g_PmGoQJtTMi__AVmrDXFVdKcSweew2bDx3sjohcoN4b-r4xBtQi32mU0bgyG-3he0FA8YoetK37UUQaIB7ygOuEwlZfOXl0gKh4F-FV2Q-CABameoiguk6Hm-HhwlV41-2lJ4CEo7B2daWNHi8cDH81EIpNwdtqRGa8zq0vG5Z-R6nDRw/s320/71PMdV01dcL._AC_UL600_SR600,600_.jpg


        Mais tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque e nos jardinzinhos públicos. Passeava sozinha, sempre com a mesma boina e acompanhada do lulu branco. Ninguém sabia quem era e chamavam-na simplesmente: a dama do cachorrinho.

        "Se está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou Gurov, "não seria mal travar relações com ela".

        Embora com menos de quarenta anos, ele tinha já uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Haviam-no casado cedo, quando cursava ainda o segundo ano da universidade, e agora sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele. Era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido, importante, grave e "pensante", como ela mesma se chamava. Lia muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava o marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente, considerava-a pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a e não gostava de ficar em casa. Havia muito que passara a traí-la, fazia-o com frequência e, provavelmente por este motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres; quando, em sua presença, falavam nelas, exclamava:

        -- Raça inferior!

        Parecia-lhe que fora suficientemente instruído por sua amarga experiência, para chamá-las como lhe aprouvesse, mas, apesar de tudo, não poderia passar dois dias sem a "raça inferior". Aborrecia-se em companhia de homens e mostrava-se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio de mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e como se portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia delas. Em seu aspecto exterior, em seu gênio, em toda a sua personalidade, havia algo atraente, imperceptível, que predispunha as mulheres a seu favor, que as atraía; ele sabia disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.

        Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro, problema, extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

        Eis que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim, e a senhora de boina aproximou-se, em passo lento, para ocupar a mesa vizinha. A expressão de seu rosto, o andar, a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de boa sociedade, casada, estava em falta pela primeira vez, sozinha, e que se aborrecia.

        Havia muita mentira nas histórias que corriam sobre a depravação dos costumes locais, ele desprezava aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas por gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando a senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua, ele se lembrou daquelas histórias sobre fáceis conquistas e passeios na montanha, e tomou dele a ideia tentadora de uma ligação fulminante, de um romance com uma mulher desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.

        Chamou carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou, ameaçou-o com o dedo. O lulu rosnou. Gurov tornou a ameaçá-lo.

        A senhora olhou para ele e baixou os olhos.

        -- Não morde – disse ela e corou.

        -- Posso dar-lhe um osso? – e, quando ela assentiu com a cabeça, ele perguntou afavelmente: – A senhora chegou a falta há muito tempo?

        -- Há uns cinco dias.

        -- E eu já estou completando aqui a segunda semana.

        Seguiu-se um silêncio.

        -- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se aborrece tanto aqui! – disse ela, sem olhar o interlocutor.

        -- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido. Um habitante de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não se aborrece, mas, chegando aqui, repete: "Ah; que cacete! Ah, que poeira!". Pode-se pensar que chegou de Granada.

        Ela riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos.

Depois do jantar, porém, caminharam lado a lado e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona, de gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente aonde ir e do que falar, ficaram passeando e conversaram sobre o modo estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água tinha uma cor lilás, macia e tépida, e sobre ela a lua deitava uma faixa dourada. Falavam em como o ar ficava sufocante, após um dia de calor. Gurov contou que era moscovita, formado em Filologia, mas que trabalhava num banco; noutros tempos, preparara-se para cantar num teatro particular de ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por sua vez, soube dela que fora criada em Petersburgo, mas casara-se na cidade de S., onde residia havia dois anos, que passaria ainda em falta cerca de um mês e que era provável vir buscá-Ia o marido, que também queria descansar. Não sabia explicar direito em que repartição, ele trabalhava, e ela mesma achava engraçado esse fato. Gurov soube, ainda, que ela se chamava Ana Sierguéievna.

        Voltando para o quarto, pensou nela e em que, no dia seguinte; certamente haveria de encontrá-Ia. Deitando-se para dormir, lembrou-se de que, ainda há tão pouco tempo, ela estivera no colégio, estudara como agora a filha dele, lembrou-se também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda em seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido; provavelmente era a primeira vez que se encontrava sozinha, em tais circunstâncias, seguida e contemplada, e que alguém lhe dirigia a palavra, com um objetivo secreto que ela não podia deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço esguio, frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.

        "Apesar de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena", pensou, adormecendo.

        Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora sorvete. Ficava-se sem 'saber onde se meter.

        Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupo, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de falta: as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.

        Em virtude do mar agitado, o navio chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.

        A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.

        -- O tempo melhorou – disse ele – Aonde iremos agora? Vamos tomar um carro?

        Ela não respondeu.

        Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.

        -- Vamos a sua casa... – disse em voz baixa.

        E caminharam depressa.

        O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia comprado numa loja japonesa. 

        Olhando-a agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!". O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava ver escamas no rendado de suas roupas brancas.

        Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta.

        Ana Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-lhe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe tristemente dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada,

como a pecadora de um quadro antigo.

        -- Isto não está bem – disse ela. –  Você, agora, é o primeiro a não me estimar.

        No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar.

        Decorreu pelo menos meia hora em silêncio. Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto, mas se via que estava sofrendo.

        -- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? – perguntou Gurov. – Você mesma não sabe o que diz.

        -- Que Deus me perdoe! – disse ela e seus olhos marejaram-se. – Isto é horrível.

        -- Você parece que está se justificando.

        -- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade...você não compreende isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá... E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca... e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.

        Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um papel.

        -- Não compreendo – disse ele suavemente. – O que é que você quer?

        Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.

        -- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o diabo me tentou.

        -- Basta, basta, – balbuciou ele.

        Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.

        Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta, uma pequena lanterna. Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.

        -- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria está escrito "Von Dideritz" – disse Gurov. – Teu marido é alemão?

        -- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo.

        Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Falta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam falta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando

não existirmos mais.

        E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição imorredoura.

        Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana.

        Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas.

        -- A erva está coberta de orvalho – disse Ana Sierguéievna – depois de um silêncio.

        -- Sim. É tempo de ir para casa.

        Regressaram à cidade. Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado.

        Àquele ócio, completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente.

        Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.

        Esperavam a vinda do marido. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna apressou-se a voltar.

        -- É bom que eu parta – disse ela a Gurov. – É o próprio destino.

        Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal, ela disse:

        -- Deixe que olhe para você mais uma vez... uma vez mais. Assim. Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e. tremia-lhe

o rosto...

        -- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus...

        O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura.

        Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gurov ficou ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera, transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o dobro de idade.

        Durante todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade; por conseguinte, enganava-a sem querer...

        Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca. – "É tempo de partir também para o norte” pensou Gurov, saindo da plataforma. "É tempo!".

        Em casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto hibernal. Acendiam-se as estufas e, de manhã, quando as crianças preparavam-se para ir ao ginásio e tomavam chá, estava tão escuro que a babá acendia, por algum tempo, as luzes. Começou o frio. 

        Quando cai a primeira neve, no primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver a terra branca, os telhados brancos, respira-se suave e docemente e, nessa hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente, estão mais próximas do coração que os ciprestes e palmeiras, e, junto delas, não se quer mais pensar no mar e nas montanhas.

        Gurov era moscovita. Regressando a Moscou num dia bom, frio, vestindo a peliça e as luvas de inverno, passeando pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o som dos sinos, aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que vira perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco na vida moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia e afirmava não ler jornais moscovitas por uma questão de princípio. Sentia-se já atraído pelos restaurantes, pelos clubes, pelos jantares festivos, pelas homenagens a alguém, e já ficava lisonjeado pelo fato de ser visitado por advogados e artistas famosos e porque, no clube dos médicos, jogava baralho com um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção de sielianka com frituras...

        Passaria um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro aparecer-lhe-ia em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam. 

        No entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se a separação com Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia, os beijos. 

        Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o.

        Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso de suas roupas. 

        Na rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse... Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, porventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? 

        Tornava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

        -- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.

        Certa vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia de um funcionário, seu parceiro no jogo, não se conteve e disse:

        -- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!

        O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente, voltou-se e chamou-o:

        -- Dmítri Dmítritch!

        -- Que é?

        -- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!

        Aquelas palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado, sem que soubesse por que, pareceram-lhe humilhantes, impuras. Que selvagens costumes, que rostos! Que noites estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo desenfreado, a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre o mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as conversas invariáveis ocupavam a melhor parte do tempo, as melhores energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como se se estivesse num manicômio ou numa prisão!

        Ficou a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou o dia seguinte com dor de cabeça. Nas noites que se seguiram, dormiu mal também, ficava sentado na cama, pensando, ou andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se com as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar algum, de falar em coisa alguma.

        Nos feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo, a fim de pedir certos favores de pessoas influentes, para um jovem, mas viajou para S. Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha vontade de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma entrevista, se possível.

        Chegou a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel; o assoalho estava ali inteiramente forrado com pano cinzento, de uniforme militar; sobre a mesa, havia um tinteiro, pardo de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a cabeça e mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro deu-lhe as necessárias informações: Von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel, ele vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava: "Dridiritz".

        Gurov caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia e procurou a casa. Bem em frente, estendia-se um muro cinzento, comprido, coberto de pregos. "Qualquer um teria vontade de fugir de um muro assim", pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.

        Calculava: não era dia de expediente, e o marido estaria provavelmente em casa. Além disso, seria falta de tato entrar e deixá-la perturbada. Se mandasse um bilhete, este poderia cair nas mãos do marido e então tudo estaria perdido. O melhor seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo andando pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu atravessar o portão um mendigo, que foi assaltado por cachorros; passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons chegavam-lhe fracos, pouco nítidos. Provavelmente era Ana Sierguéievna quem tocava.

        De repente, abriu-se a porta principal e por ela saiu uma velha, acompanhada pelo lulu branco, que ele conhecia. Gurov quis chamar o cachorro, mas, de súbito, começou a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado, não conseguiu lembrar o nome do lulu.

        Ficou andando; odiava com intensidade crescente o muro cinzento e pensava já, com irritação, que Ana Sierguéievna esquecera-o e talvez já se divertisse com outro, o que seria muito natural na condição de mulher jovem, obrigada a ver, de manhã à noite, aquele maldito muro. 

        Voltou para o quarto do hotel e passou muito tempo sentado no divã, sem saber o que fazer; jantou, depois dormiu bastante. "Quanta estupidez e nervosismo", pensou, acordando e olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi não sei para quê. E o que vou fazer de noite?"

        Estava sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento, que parecia de hospital, e zombava de si mesmo, com despeito: "Aí tem você a dama do cachorrinho. Aí tem você uma aventura... Por isso mesmo, fique sentado aí."

        Ainda de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos um cartaz, de letras muito graúdas, anunciando a estreia de "Gueixa". Lembrou-se disso e foi ao teatro. "É bem possível que ela costume frequentar as estreias", pensou.

        O teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros de província, havia uma névoa pairando sobre os lustres, a galeria inquietava-se ruidosamente. Antes de começar o espetáculo, os elegantes locais ficavam de pé, na primeira fila, as mãos atrás.

        No camarote do governador, estava sentada, na frente, a filha deste, de boá, enquanto o próprio governador ocultava-se modestamente atrás de uma cortina, deixando aparecer apenas as mãos. O pano de cena balançava-se, os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando os instrumentos. 

        Enquanto os espectadores entravam e ocupavam os lugares, Gurov ficou procurando ansiosamente com os olhos. Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na terceira fila e, quando Gurov a olhou, sentiu apertar-se o coração e compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em todo o mundo, pessoa mais próxima, querida e importante.

        Aquela pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana, que não se distinguia das demais e tinha nas mãos um lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida, era sua aflição e sua alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da orquestra ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.

        Entrou com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um homem moço, de suíças pequenas, muito alto, um tanto curvado. A cada passo, balançava a cabeça e parecia estar cumprimentando incessantemente alguém. Era provavelmente o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá em Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado, nas suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com doçura e, na lapela. fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia também uma chapinha de lacaio.

        No primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu sentada. Gurov, que estava também na plateia, aproximou-se dela e disse, com voz trêmula e um sorriso forçado:

        -- Boa noite.

        Ela o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada, sem acreditar no que via, e apertou fortemente nas mãos, ao mesmo tempo, o leque e o lorgnon, lutando, sem dúvida, consigo mesma para não desmaiar. Permaneceram calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a perturbação dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos e a flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram a cantar, veio uma sensação de medo, tinham a impressão de que em todos os camarotes havia gente olhando para eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou depressa para

a saída; Gurov acompanhou-a. 

        Caminharam sem destino por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos seus olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante; de funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam senhoras, peliças em cabides, soprava um vento encanado, repassado do cheiro de tabaco. E Gurov, que tinha o coração batendo precipitadamente, pensou: "Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."

        Naquele momento, lembrou-se de repente de como, certa noite, numa estação de estrada de ferro, tendo acompanhado Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas, como estava longe ainda o fim de tudo!

        Ela deteve-se numa escada estreita e sombria perto da inscrição: "Entrada para o anfiteatro".

        -- Como você me assustou! – disse, respirando pesadamente e ainda pálida, atordoada. – Oh, como me assustou! Estou meio morta. Para que veio até aqui? Para quê?

        -- Mas, compreenda, Ana, compreenda... – disse ele a meia voz e apressadamente. – Eu lhe imploro, compreenda...

        Ela o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor, olhava-o fixamente, para reter com mais intensidade na memória os traços de seu rosto.

        -- Sofro tanto! – prosseguiu ela, sem o ouvir. – Todo esse tempo, só pensei em você, só vivi com esse pensamento. Ao mesmo tempo, tinha vontade de esquecer, esquecer, mas, para que, para que foi que você veio?"

        Mais em cima, entre dois lances de escada, havia dois ginasianos fumando e olhando para baixo, mas Gurov não se importava com coisa alguma, atraiu para si Ana Sierguéievna e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces, as mãos.

        -- Que está fazendo, que está fazendo? – disse ela horrorizada, afastando-o. – Perdemos a cabeça. Vá embora hoje mesmo, neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há

de sagrado, imploro-lhe... Vem gente aí! "

        Alguém estava subindo a escada... 

        -- Você deve ir... – prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas agora sou infeliz e jamais, jamais terei felicidade! Não me obrigue, então, a sofrer mais ainda! Juro-lhe que irei a Moscou. E agora, separemo-nos! Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos!

        Ela apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente a escada, voltando a cada momento a cabeça, e em seus olhos percebia-se que, realmente, não era feliz... Gurov permaneceu algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois, procurou o cabide e saiu do teatro.

        Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo.

   Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo.

        Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.

        Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

        -- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve – dizia Gurov à filha. – Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.

        -- Papai, e por que não há trovões no inverno?

        Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentira convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo.

        E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. 

        E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. 

        Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.

        Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como senão se tivessem visto uns dois anos.

        -- Bem, como vai a tua vida lá? – perguntou ele. Que há de novo? 

        -- Espere, vou dizer daqui a pouco... Não posso. Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos. "Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

        Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

        -- Ora, basta! – disse Gurov.

        Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.

        Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.

        A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor...

        E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.

        Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também.

        Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.

        Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

        -- Basta, minha boa menina, dizia ele. – Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.

        Depois, ficavam por muito tempo trocando conselhos, falavam em como libertar-se da necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes e ficar muito tempo sem se ver. Como libertar-se daqueles insuportáveis liames?

        -- Como? Como? – perguntava ele, pondo as mãos à cabeça. – Como?

        Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

 

Anton Tchekhov. CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Como Dmítri Gurov e Ana Sierguéievna se conhecem e iniciam o primeiro contato em Ialta?

      Gurov a observa passeando pela beira-mar com seu cão lulu branco e planeja uma aproximação. O contato inicial ocorre à noitinha em um jardim, quando ela se senta na mesa vizinha à dele. Para puxar assunto, Gurov chama carinhosamente o cachorrinho, que rosna. Após a intervenção de Ana dizendo que o cão não morde, Gurov pede permissão para dar um osso ao animal e lhe pergunta há quanto tempo ela havia chegado a Ialta.

 

02 – Qual era a visão que Gurov tinha das mulheres em geral no início do conto e como ele se referia a elas?

      Gurov, devido às suas experiências amargas e traições frequentes, costumava referir-se mal às mulheres, chamando-as secretamente de "raça inferior". Apesar disso, ironicamente admitia que não conseguia passar dois dias sem a companhia delas, sentindo-se muito mais despreocupado, loquaz e à vontade no meio feminino do que no masculino.

 

03 – Como Gurov descreve a personalidade e a aparência de sua esposa?

      Ele a considera pouco inteligente, tacanha e deselegante, admitindo que tinha medo dela e não gostava de ficar em casa. Descreve-a como uma mulher alta, de sobrancelhas escuras, porte rígido e grave, que se autodenominava "pensante". Ela lia muito, escrevia cartas simplificando a ortografia e chamava o marido de "Dimítri" em vez de "Dmítri".

 

04 – Qual foi o real motivo que levou Ana Sierguéievna a deixar sua cidade e viajar sozinha para Ialta?

      Ana revela que casou-se muito jovem, aos vinte anos, movida pela curiosidade e pelo forte desejo de viver e encontrar uma vida melhor. No entanto, passou a considerar o marido um "lacaio" (apesar de honesto) e a se sentir sufocada. Dominada por uma curiosidade que a abrasava, mentiu para o marido dizendo que estava doente para poder viajar e escapar daquela realidade.

 

05 – Como Ana Sierguéievna reage logo após a primeira noite de amor com Gurov no quarto de hotel?

      Ao contrário das aventuras anteriores de Gurov, Ana encara a situação de forma extremamente séria e trágica, enxergando o ocorrido como a sua própria perdição. Ela chora, desunha os cabelos e se compara à "pecadora de um quadro antigo", afirmando que não enganou o marido, mas sim a si mesma, e temendo que Gurov deixasse de estimá-la.

 

06 – Como Gurov reage inicialmente ao profundo arrependimento e choro de Ana?

      Inicialmente, Gurov fica aborrecido e irritado com o tom ingênuo e o arrependimento dela, achando-o inesperado e fora de propósito. Enquanto ela sofre e se confessa, ele corta um pedaço de melancia que estava sobre a mesa e começa a comê-lo calmamente, sem pressa, antes de tentar acalmá-la com carinhos e palavras ternas.

 

07 – O que acontece com os sentimentos de Gurov quando ele retorna a Moscou e mergulha na sua rotina habitual?

      Inicialmente, ele acredita que Ana se cobriria de bruma em sua memória em pouco tempo. No entanto, mesmo com o passar dos meses e o rigor do inverno, as recordações tornam-se cada vez mais intensas. Ana passa a acompanhá-lo por toda parte como uma sombra; ele começa a se sentir sufocado pela rotina fútil de Moscou e desenvolve um desejo desesperado de partilhar suas lembranças com alguém.

 

08 – Qual comentário comum de um amigo no clube dos médicos desperta a indignação e a crise existencial de Gurov?

      Ao sair do clube, Gurov tenta desabafar e diz a um funcionário parceiro de cartas: "Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!". O homem ignora o comentário romântico e responde apenas: "Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!". Essa resposta fútil faz Gurov perceber o quão selvagens, vazios e absurdos eram os costumes e as conversas da sociedade em que vivia.

 

09 – Como se dá o reencontro tenso entre Gurov e Ana na cidade de S.?

      Gurov viaja até a cidade de S. e decide ir ao teatro local na estreia da peça "Gueixa", imaginando que ela poderia frequentar o evento. Ele a encontra na terceira fila e, no primeiro intervalo, enquanto o marido dela sai para fumar, aproxima-se e diz "Boa noite". Ana empalidece, fica apavorada e foge pelos corredores e escadas do teatro, onde finalmente desabafa sobre o quanto sofreu pensando nele.

10 – Como o casal consegue manter o relacionamento após o reencontro no teatro da cidade de S.?

      Ana Sierguéievna passa a viajar para Moscou a cada dois ou três meses para se encontrar secretamente com Gurov. Ela justifica as viagens ao marido dizendo que vai consultar um professor de Medicina sobre uma "doença de senhora". Na capital, ela se hospeda no hotel "Bazar Eslavo" e envia um mensageiro de chapéu vermelho para avisar Gurov, permitindo que vivam uma vida dupla e clandestina.

 

            

 

 

 

 

 



domingo, 21 de junho de 2026

CONTO: O CAPOTE III - PARTE 3 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE III – PARTE 3

          Nicolai Gogól

 

        Ao entrar na antecâmara, Acaqui Acaquievich viu uma fila de taças. Entre estas, a meio do compartimento, fervia um samovar, que espargia volutas de vapor. Pelas paredes estavam pendurados os vários capotes e agasalhos, alguns dos quais tinham golas de castor ou de veludo. Ouviam-se por detrás da parede ruídos e diálogos, que se tornaram mais próximos quando um criado abriu a porta e saiu com chávenas e taças vazias, uma compoteira e uma bandeja com pastéis. Concluía-se que os funcionários se encontravam reunidos já há algum tempo e que acabavam de tomar a primeira chávena de chá.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiFuPZEH38BoGDOiXUFcJWHZZfLNfo8pNqaRx3qBnL5QlsTzyz-Vaa1SBkNL2iBdsyZacHqlOhtegIBHNXKnIzcFPJvr60ogGlzv3DiWM7cnRZEjHy9Ejc104FvDnvfQ1_8p6HI3uNCNDyABTAe_sKVf9u5oVM_OaUUgwHlIq8e8qjfn5JRhfEgTBN7i4g/s320/capote.jpg


        Acaqui Acaquievich despiu o capote sozinho e penetrou no salão; ante ele resplandeceram as velas, os funcionários, os cachimbos, as mesas de jogo, e surpreenderam-no confusamente os diversos ruídos; ouvia-se em todas as direções rumor de conversas e movimentos de cadeiras.

        Permaneceu atônito no centro do salão, pensando no que devia fazer. Mas já tinham reparado nele; rodearam-no, com alguns gritos, e levaram-no à antecâmara, para que lhes mostrasse o capote. Acaqui Acaquievich encontrava-se um tanto aflito, mas, como homem de bom coração, não pôde deixar de alegrar-se ao ver como todos elogiavam o seu capote. Depois, claro está, deixaram-no a ele e ao seu capote e voltaram para as mesas de jogo.

        Tudo aquilo – ruído, conversação, grande número de convivas – era para Acaqui Acaquievich como que um sonho. Não sabia verdadeiramente o que experimentava, nem onde havia de colocar as mãos, os pés, o seu próprio ser; por último, aproximou-se dos jogadores, olhou as cartas, contemplou ora um, ora outro, e pouco depois começou a bocejar, sentindo que se aborrecia, tanto mais que havia passado há muito a hora a que costumava deitar-se. Quis, por conseguinte, despedir-se do dono da casa, mas não lho consentiram, alegando que tinha de beber uma taça de champanhe em honra do novo elemento da sua indumentária.

        Uma hora mais tarde foi servida a ceia, composta de fiambre, vitela, empada, pastéis e champanhe. Acaqui Acaquievich teve de beber duas taças, sentindo que, depois delas, se tornava ainda mais alegre e ruidoso tudo quanto o cercava; entretanto, não se esqueceu de que dera já a meia-noite, e, portanto, muito tarde para estar fora de casa.

        A fim de que ninguém o obrigasse a permanecer ali, saiu silenciosamente do salão e procurou o seu capote, que, não sem íntimo desgosto, encontrou caído no chão; apanhou-o, sacudiu-o, limpou-o, pô-lo pelos ombros, desceu as escadas e encontrou-se ao ar livre.

        Na rua tudo estava iluminado. Algumas tabernas (que são os clubes dos porteiros e gente parecida) achavam-se ainda abertas; das outras, já fechadas, saiam longos feixes de luz por entre os interstícios das portas, mostrando que não estavam sem freguesia, criados certamente que se entretinham a falar e a dizer mal dos patrões.

        Acaqui Acaquievich caminhava com alegre disposição de ânimo e quase se sentiu capaz de correr atrás de uma dama que passou veloz por diante dele, dama cujo corpo se lhe afigurou extraordinariamente flexível. Dominou-se, no entanto, e prossegui muito lentamente, admirado de si próprio. 

        Em breve se estenderam ante ele as ruas desertas, onde de dia não se notava alegria alguma, quanto mais de noite. Apareciam-lhe agora mais profundas e isoladas, luziam os candeeiros cada vez menos, porque já o azeite se ia esgotando; começavam a surgir as casas de madeira dos bairros mais pobres; em parte alguma se via vivalma; a única luz era agora a que refletia a neve do chão; e sobre a neve recortavam-se lugubremente as sombras das baixas choupanas, de janelas cerradas. Aproximava-se do lugar em que a rua desembocava numa praça enorme, mal se podendo ver as casas do outro lado, como se se tratasse de um terrível deserto.

        Ao longe (só Deus sabe onde!) brilhava o fogo de alguma guarita, que parecia encontrar-se nos confins do mundo. A boa disposição de Acaqui Acaquievich passara já. Penetrou na praça, não sem certo terror, como se o seu coração pressentisse perigo. Olhou para trás de si e para o lado; em volta via-se apenas o espaço deserto. "É melhor não olhar", pensou.

        Continuou a avançar, de olhos fechados. Quando os abriu, para ver se estava já próximo do outro extremo da praça, observou que tinha diante de si gente de bigode. Mas nada mais pôde distinguir. Toldaram-se-lhe os olhos e recebeu uma pancada no peito. "Este capote é meu!", disse um dos homens, agarrando-lhe pela gola. Acaqui Acaquievich quis ainda gritar: "Ó da guarda!", mas o outro colocou-lhe a mão na boca e disse: "Desgraçado de ti se gritas!" O nosso herói só se deu conta de que lhe arrancavam o capote e de que lhe davam um violento pontapé. Caiu então de costas na neve e nada mais sentiu. 

        Voltou a si minutos depois, mas já não viu ninguém. Sentindo a frialdade do chão e a falta do capote, começou a gritar; parecia, entretanto, que a sua voz se perdia naquela praça enorme e não atingia o outro lado. 

        Desesperado, sem parar de gritar, pôs-se a correr em direção à guarita, atrás da qual estava um soldado apoiado à sua arma; parecia perguntar-se, com curiosidade, quem diabo era aquele que vinha assim a correr e a gritar com voz humana. 

        Acaqui Acaquievich chegou, ofegante, junto dele e começou, com voz aguda, a clamar que se tinha embriagado e que nada mais sabia senão que dois homens o tinham roubado. O soldado replicou nada ter visto; tinha observado apenas que dois homens o deixavam no meio da praça, mas supusera que eram seus amigos; acrescentou que, em vez de queixar-se ali, em vão, devia ir no dia seguinte à esquadra, onde por certo investigariam acerca de quem lhe roubara o capote.

        Acaqui Acaquievich dirigiu-se para casa num estado lamentável: os cabelos, que ainda lhe restavam, em pequenas quantidades, nas têmporas e na nuca, totalmente desgrenhados; o peito, as costas e as calças cobertos de neve. 

        A velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir aquela, segurando pudicamente a camisa contra os seios; mal abriu, ao ver Acaqui Acaquievich, esqueceu o seu pudor. 

        Quando o hóspede contou o que lhe sucedera, ela cruzou as mãos de espanto e disse ser preciso recorrer sem demora ao capitão da polícia, "porque o tenente nada mais faz que ouvir, fazer muitas promessas e dar tempo ao tempo"; melhor era ir diretamente ao capitão, de quem ela tinha boas informações, pois Ana, que fora sua cozinheira estava agora de ama em casa dele. Acrescentou que o via muitas vezes, principalmente ao domingo, na igreja, onde rezava com muita devoção e, ao mesmo tempo, olhava amigavelmente para toda a gente, parecendo um homem bondoso.

        Depois de ouvir este conselho, Acaqui Acaquievich, amargurado, retirou-se para a sua habitação. Como ele passou a noite... compreendê-lo-á quem tenha capacidade de se imaginar na situação de uma outra pessoa.

        Na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se ao Comissariado, mas disseram-lhe que o capitão estava ainda a dormir; foi às dez e disseram-lhe outra vez: "Está a dormir"; foi às onze e responderam-lhe: "Não está"; à hora de comer... Mas os amanuenses não lhe consentiam de maneira nenhuma vê-lo, e queriam saber exatamente do que se tratava e o que acontecera; de maneira que Acaqui Acaquievich quis provar, uma vez na vida, que tinha energia e disse, com ar decidido, que precisava de falar ao inspetor, que contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.

        O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror.

        A conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste gênero: "Como se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. 

        Se tratava com iguais, era um homem correto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como consequência de tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o homem que se aborrece".

 

Nicolai Gogól. Parte 3. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

01 – Como foi a reação dos funcionários da repartição ao verem o novo capote de Acaqui Acaquievich na festa?

      Os funcionários rodearam Acaqui com gritos assim que ele chegou e o levaram até a antecâmara para que mostrasse a nova vestimenta. Eles elogiaram bastante o capote, o que deixou Acaqui aflito, mas intimamente alegre. Logo após os elogios, no entanto, eles perderam o interesse e voltaram rapidamente para as mesas de jogo.

 

02 – Por que Acaqui resolveu ir embora da festa antes dos demais convidados e o que ele notou de desagradável ao pegar o seu capote?

      Ele resolveu ir embora silenciosamente porque já passava da meia-noite, horário muito tardio para ele, e sentia-se aborrecido e com sono observando o jogo. Ao procurar seu capote, sofreu um íntimo desgosto ao encontrá-lo jogado no chão; ele precisou apanhá-lo, sacudi-lo e limpá-lo antes de vestir.

 

03 – Como o cenário urbano se transforma enquanto Acaqui caminha de volta para casa e como isso afeta o seu estado de espírito?

      Inicialmente, ele caminha por ruas iluminadas e animadas, mantendo uma alegre disposição. Gradualmente, ele entra em ruas desertas, escuras (pois o azeite dos candeeiros estava no fim) e com habitações miseráveis de madeira. A alegria desaparece e dá lugar ao terror ao chegar a uma praça enorme e vazia, que lhe parecia um "terrível deserto" onde mal se viam as casas do outro lado.

 

04 – Como ocorreu o assalto a Acaqui Acaquievich e qual foi a reação do soldado que vigiava a guarita próxima?

      No meio da praça deserta, dois homens de bigode o interceptaram. Um deles desferiu uma pancada no peito de Acaqui e o segurou pela gola dizendo: "Este capote é meu!". Quando Acaqui tentou gritar por socorro, taparam-lhe a boca, ameaçaram-no, arrancaram-lhe o capote e deram-lhe um violento pontapé, deixando-o desmaiado na neve. O soldado da guarita afirmou não ter visto o crime; ele apenas notou dois homens deixando Acaqui na praça, mas achou que eram amigos dele.

 

05 – Qual foi o conselho dado pela velha patroa de Acaqui ao saber do roubo e qual era a justificativa dela para evitar o tenente?

      Ela aconselhou Acaqui a ir diretamente falar com o capitão da polícia. A justificativa era que o tenente apenas ouvia, fazia promessas e "dava tempo ao tempo", sem resolver nada. Ela recomendou o capitão por saber, através de uma ex-cozinheira, que ele era um homem bondoso e devoto, que olhava amigavelmente para todos na igreja.

 

06 – Que dificuldades Acaqui enfrentou na manhã seguinte ao tentar relatar o roubo no Comissariado?

      Acaqui foi ao Comissariado várias vezes desde muito cedo, mas em todas as ocasiões os amanuenses davam desculpas: primeiro que o capitão estava dormindo, depois que não estava. Os funcionários recusavam-se a deixá-lo entrar e queriam saber todos os detalhes antes. Acaqui só conseguiu ser atendido quando, num raro momento de energia, ameaçou queixar-se deles diretamente ao inspetor.

 

07 – Como o narrador descreve o caráter da "alta personalidade" e de que maneira o cargo de general afetou o comportamento desse homem?

      O fundamento principal do sistema da "alta personalidade" era a palavra "disciplina", usada para aterrorizar os subordinados com arrogância e frases autoritárias. Apesar de ser um homem de bom coração com seus iguais, a patente de general fez com que ele perdesse o senso comum. Ele tornou-se hirto, artificialmente distante e silencioso com os inferiores por medo de que a familiaridade fizesse sua dignidade perigar, o que o tornou um homem eternamente isolado e conhecido como "o homem que se aborrece".