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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

CONTO: CALUNGA - FRAGMENTO - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Conto: Calunga – Fragmento

          Jorge de Lima

 

        As primeiras chuvas tinham feito poças ao redor da casa, tinham enchido os barreiros onde os sapos-cururus badernavam. Lula saiu com a lâmpada para ver os sapos cantar. Os seus passos possuíam essa orientação maravilhosa, meio trôpega mas certa, dos passos dos sonâmbulos. Os insetos despertados pela luz vieram rodar em torno da lâmpada. Vieram borboletas escuras, besouros, baratas-d’água, mosquitos. O homem estranho com sua lâmpada parecia ter um mundo luminoso na mão, em redor do qual uma população alada formigava. Parou à beira dum barreiro. A saparia espantada mergulhou na água suja. O coro esquisito ficou mudo de repente. O homem de alma mudada pela doença parou, esperando, sentado no chão frio.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiuBySWZA-8cHb1jsyTWAMnkqTGaJgDTfkfd2S7C6wEnRHIu-tTFPrsoUhY-G63gSPDe1gXMv_9XfvfH2yq-uuxT7Wue1N76Z8G_xLLlq6U7pjE-h0YI8ckcHVA2tEQ7hg4cewbAbksK8VMAiTnNzILQu2KJN-pY18xNYM4IMS3HkTwxMUBLum95XCxS00/s547/images.jpg


        Estava imóvel como a superfície do barreiro. A lâmpada embaciada pelo hálito da noite entretinha agora uns poucos insetos fanáticos da luz. Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridade. Engoliu um mosquito, baixou a cabeçorra, tragou um cascudinho, mergulhou de novo e, bum-bum, soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes o barreiro ficou sonoro como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tam-tans, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. Lula estava realmente num outro mundo, que era o mundo noturno de sua ilha, confinado, sonoro, povoado de vozes e de seres que não se viam durante o dia. 

        Daí a pouco, dentro da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes como dois vaga-lumes. Um sapo-cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximaram mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir, previa o perigo porque emudecera mas já não podia andar, imobilizado, os olhos feíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se desmesuradamente, envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil, entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E num minuto as perninhas do cururu lá se foram ainda vivas para as entranhas famintas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Surgiu uma outra cobra e segurou outro compadre sapo, deglutia-o porém com protestos apenas suaves do bicho que gemia uma coisa diferente de seu bum-bum habitual, agora mais canto, com uns tons de resignação diante da força do mais poderoso.

Jorge de Lima, trecho do romance "Calunga".

Entendendo o conto:

01 – Como o personagem Lula é descrito ao sair de casa e qual é a sua relação com a lâmpada que carrega?

      Lula é descrito como um homem de "alma mudada pela doença", com passos vacilantes, porém certos, semelhantes aos de um sonâmbulo. Ele carrega uma lâmpada que atrai diversos insetos da noite, fazendo-o parecer um homem com "um mundo luminoso na mão", em torno do qual a população alada formigava.

 02 – Qual é a reação imediata dos sapos no barreiro quando Lula aproxima sua luz do local?

      Assim que a luz de Lula chega à beira do barreiro, a saparia se assusta e mergulha na água suja, fazendo com que o coro de coaxares fique mudo de repente. A quietude só é quebrada depois que Lula se senta e permanece imóvel no chão frio, até que os sapos voltam a emergir e retomar o concerto.

03 – Como o autor utiliza a sonoridade para descrever o ambiente noturno no segundo parágrafo?

      O autor utiliza onomatopéias (como "bum-bum", "tam-tans", "foi-não-foi") e comparações ("sonoro como um convento de frades") para dar vida à atmosfera do barreiro. Ele combina vozes roucas, choros e esgoelamentos finos de rãs com o tom grave dos sapos, mostrando como o ambiente noturno da ilha se transforma em um mundo confinado e intensamente ruidoso.

 04 – De que maneira o primeiro sapo é capturado pela serpente e qual é o efeito que a luz dos olhos do réptil produz sobre ele?

      A serpente atrai o sapo com seus olhos fosforescentes, que parecem dois vaga-lumes ou pequenos holofotes. O sapo fica fascinado e deslumbrado pela beleza daquela luz, sendo paralisado pelo medo e pelo fascínio. Ele reconhece o perigo e emudece, mas perde a capacidade de reagir ou fugir, entregando-se docemente ao bote e à deglutição do réptil.

 05 – Qual é o significado simbólico do ataque das serpentes aos sapos no contexto do ecossistema do barreiro?

      O ataque simboliza a crueldade e a inevitabilidade das leis da natureza (a cadeia alimentar e a força do mais poderoso sobre o mais fraco). Enquanto os sapos são devorados um a um com gemidos de resignação, o coro do barreiro continua coaxando sem perceber o destino trágico de seus "cantores", evidenciando a indiferença do ciclo natural diante da morte individual.

  

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

POEMA: CAMINHOS DE MINHA TERRA - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poema: Caminhos de minha terra

             Jorge de Lima

Caminhos inventados

por quem não tem pressa de ir embora.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjdzwqJmoltLHT-t9RvMJn4cKqcSf-y3C0Kq993_6Y7FeReHqiatKHh3pEFRk7X-nfjs-W9kRTVM4-6FEdi-_CLwe1x5NQIvI1dn2-KXNfl-rLSBE1l4aQaInTa8cB2dPlHwC54CLd0AimPlkdaKph0GjkAnBYb0Kc2Q6CPFmbUP41oaS49jXzpA8WaIy4/s1600/jorge_de_lima2.jpg 

Pelos que vão à escola.

Pelos que vão à vila trabalhar.

Pelos que vão ao eito.

Pelos que levam quem se despede da vida, que é tão bela…

 

À minha terra ninguém chega: ela é tão pobre…

Dizem que tem bons ares para os tísicos –

Mas os tísicos não vão lá: é tão difícil de ir-se lá…

 

Caminhos de minha terra onde perdi

os olhos e o passo de meditação…

Caminhos em que ceguinhos e aleijados podem

ir sem olhos e sem pernas: eles não atropelam os pobrezinhos.

Alguém quer partir e eles dizem:

 

– “Não vás: toma lá uma goiaba madura,

uma pitanga, um ingá e dão como

as mãos dos missionários que dão tudo,

cajus, pitombas, araçás a todos os meninos do lugar”.

 

Caminhos que ainda têm orvalhos e sonambrilos bacurais,

E têm ninhos suspensos nas ramadas.

 

Ali perto, na curva do encanto

Onde mataram de emboscada um cangaceiro,

Há uma cruz de pitombeira…

Quem passa joga uma pedra,

Reza baixinho: “Padre nosso que estais no céu

santificado seja o vosso nome

venha a nós…”

Aquela cruz do cangaceiro é milagrosa.

Já me curou de um puchado que

Eu peguei na escola da professora –

Minha tia Bárbara de Oliveira Cunha Lima.

 

Mundaú! – soube depois

Que quer dizer rio torto.

Quem te inventou Mundaú, das minhas lavadeiras

Seminus,

Dos meus pescadores de traíras?

Mundaú! – rio torto – caminho de curvas,

Por onde eu vim para a cidade

Onde ninguém sabe o que é caminho.

Os melhores poemas. São Paulo, Global, 1994.

Entendendo o poema:

01 – Que tipo de pessoas utilizam os caminhos da terra do eu lírico, e o que isso revela sobre a vida local?

      Os caminhos são utilizados por uma variedade de pessoas: estudantes que vão à escola, trabalhadores que se dirigem à vila ou ao eito (roça), e até mesmo por aqueles que levam os que se despedem da vida. Isso revela uma vida simples e rural, onde os caminhos são essenciais para as atividades cotidianas e para os ritos de passagem.

02 – Por que, segundo o poema, "ninguém chega" à terra do eu lírico, apesar de ter "bons ares para os tísicos"?

      Ninguém chega à terra do eu lírico porque "ela é tão pobre" e "tão difícil de ir-se lá". Embora se diga que o local tem "bons ares para os tísicos" (pessoas com tuberculose), a dificuldade de acesso e a pobreza desencorajam até mesmo aqueles que poderiam se beneficiar de seu clima.

03 – Como os caminhos da terra do eu lírico se relacionam com a ideia de acolhimento e doação?

      Os caminhos são apresentados como um lugar de acolhimento e doação. Quando "alguém quer partir", os caminhos "dizem: – 'Não vás: toma lá uma goiaba madura, uma pitanga, um ingá'". Essa oferta de frutas é comparada às "mãos dos missionários que dão tudo", simbolizando a generosidade e a tentativa de reter quem parte.

04 – Qual é o significado da "cruz de pitombeira" mencionada no poema e qual sua relação com a memória local?

      A "cruz de pitombeira" marca o local onde "mataram de emboscada um cangaceiro". Essa cruz é considerada milagrosa, e quem passa joga uma pedra e reza. A cruz se torna um ponto de devoção popular, ligando a violência do passado à fé e à cura, como o eu lírico que foi curado de um "puchado" (mau-olhado ou doença).

05 – O que representa o rio Mundaú para o eu lírico e qual o contraste que ele estabelece com a vida na cidade?

      O rio Mundaú, que significa "rio torto", representa os caminhos de origem do eu lírico, por onde ele veio para a cidade. O rio é associado às suas "lavadeiras seminus" e "pescadores de traíras", evocando uma vida rural e autêntica. O contraste se dá com a cidade, onde "ninguém sabe o que é caminho", sugerindo uma perda de sentido, de direção ou de conexão com as raízes, diferente da clareza e da organicidade dos caminhos de sua terra natal.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

POESIA: O ACENDEDOR DE LAMPIÕES - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poesia: O ACENDEDOR DE LAMPIOES

             Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjMCt6FccCsDuh0gL-i1rVumYczqS8S-nd6sKj3xHIXg8Ku0F3qZdfhU76Zqchy8RZhyphenhyphenVjRqv4l-x-TD40SUR-khCjqze55FwUZF0FYdA3pcE9aofLbTHBK7OgUpddMsTS8vY1eZeVjaGlnWk2dmly4gA0xOvADW4LTNgWWBPsE1U-DfuSmGY9vfmxOjJE/s320/hqdefault.jpg


 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas se presente.

 

Triste ironia atroz o senso humano irrita:-

Ele que doira a noite ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões da rua!

LIMA, Jorge de. Acendedor de lampiões. In: Poesias completas. Rio de Janeiro, Aguilar, 1974. v. 1. p. 62.

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. João Domingues Maia – Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 358.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a principal ironia presente no poema?

      A principal ironia é a de que o acendedor de lampiões, que ilumina a cidade, possivelmente vive na escuridão de sua própria casa. Essa ironia serve para criticar a hipocrisia e a desigualdade social.

02 – Como o trabalho do acendedor de lampiões é descrito no poema?

      O trabalho do acendedor é descrito como algo constante e infatigável. Ele acende os lampiões à medida que a noite cai, parodiando o sol e associando-se à lua, em um ciclo repetitivo.

03 – Qual a comparação feita no último verso do poema?

      O eu lírico compara o acendedor de lampiões àqueles que "insinuam crenças, religiões, amor, felicidade" aos outros, sugerindo que muitas vezes oferecemos aos outros o que nós mesmos não possuímos.

04 – Que tom o poema utiliza para descrever a realidade do acendedor de lampiões?

      O poema utiliza um tom de melancolia e ironia para descrever a realidade do acendedor. Há uma tristeza implícita na constatação da desigualdade e da hipocrisia presentes na sociedade.

05 – Qual a relevância do acendedor de lampiões como figura poética?

      O acendedor de lampiões simboliza a figura do trabalhador anônimo, que cumpre sua função sem reconhecimento, e ao mesmo tempo representa a contradição entre a aparência e a realidade, entre o que se oferece e o que se possui.

 

domingo, 23 de março de 2025

SONETO: ESSA PAVANA É PARA UMA DEFUNTA - JORGE DE LIMA

 Soneto: Essa pavana é para uma defunta

             Jorge de Lima

Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhS63TnXK_q7_TKJZzQcoFaheclPdYs49V_iuFRYPrxMnBZ6m_r-MRtqO6ieci6JBnxOTFXP9iwmtUUWkt2ITJYmAD7s5BTiRQE_COBA1YDBPlkfuFLTQ-tXBv3xqAeDrh5j_fEe2jAUgu0vV0JV9Vhn8CESiGsc4UDc-nKmmW0EQikFPyH65f8cD0ea70/s320/pavana-para-um-jovem-no-morro.jpeg



de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,

sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra.

a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.

Jorge de Lima. Obra poética. ed. compl. org. por Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro, Getúlio Costa, 1950. p. 609.

Fonte: Lições de texto. Leitura e redação. José Luiz Fiorin / Francisco Platão Savioli. Editora Ática – 4ª edição – 3ª impressão – 2001 – São Paulo. p. 365.

Entendendo o soneto:

01 – Qual o tema central do poema?

      O tema central do poema é a morte de uma jovem infanta, idealizada e santificada, e a melancolia que a envolve. A pavana, uma dança lenta e solene, serve como um lamento fúnebre eterno.

02 – Qual o significado da pavana no contexto do poema?

      A pavana simboliza um ritual de luto contínuo e incessante. Ela é repetida eternamente, representando a dor e a saudade que persistem após a morte da infanta.

03 – Como a figura da defunta infanta é apresentada no poema?

      A infanta é apresentada de forma idealizada e santificada, descrita como "bem-amada, ungida e santa". Ela é envolta em um mistério poético, com seu sepulcro coberto por ramos de salgueiro, sugerindo um afastamento do mundo terreno.

04 – Quais elementos da natureza são utilizados no poema e qual o efeito que eles causam?

      O poema utiliza elementos como "salgueiros silvestres" e "ventanias" para criar uma atmosfera sombria e melancólica. Esses elementos reforçam a sensação de isolamento e a ideia de que a morte da infanta foi um evento trágico e irremediável.

05 – Qual a interpretação da "chama inapagada" mencionada no poema?

      A "chama inapagada" pode ser interpretada como a memória eterna da infanta, ou a persistência da dor e do amor que ela inspirou. Também pode simbolizar a essência da alma que permanece, apesar da morte física.

 

 

terça-feira, 18 de março de 2025

CONTO: O CURURU - (FRAGMENTO) - JORGE DELIMA - COM GABARITO

 Conto: O Cururu – Fragmento

           Jorge de Lima

        Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semiescuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes, o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tãs-tãs, bum-buns, choros, esguelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos, respondiam-se.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLTMFpDgkNCR6fgA2iENHx5OvE8NauyfdWaH4ZREGjspR4HR4TfcyLkTH4xBkIaPYEw-TGPOeGfWXow4_PALfkSRYGV8myRdywiU0xy_yFmiFHnLfABXcbGSH-Tbu8OxE0gVK5BnD-H9t_kiS-vC-0G2JEPIdO09uScYmceO1BTcQx8EPY08anlt6lH2I/s320/Sapo-B-arenarum-Itapeva-1024x768.jpg


        Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. (…) Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os dois olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes aproximavam-se mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já não podia andar, imobilizado; os olhos feiíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas agitando as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram, ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um de seus cantores.

Jorge de Lima. Calunga; O anjo. 3. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p. 160-161.

Fonte: Lições de texto. Leitura e redação. José Luiz Fiorin / Francisco Platão Savioli. Editora Ática – 4ª edição – 3ª impressão – 2001 – São Paulo. p. 93.

Entendendo o conto:

01 – Qual é a atmosfera inicial do conto?

      O conto começa com uma atmosfera de quietude e semiescuridão, quebrada pelo surgimento do primeiro cururu na margem do barreiro. A descrição detalhada do ambiente e dos sons cria uma sensação de imersão na natureza.

02 – Como o autor descreve o som produzido pelos animais no barreiro?

      O autor utiliza uma linguagem rica em onomatopeias para descrever os sons dos animais: "bum-bum", "tãs-tãs", "choros", "esguelamentos finos de rãs", "acompanhamentos profundos de sapos". Esses sons criam um "concerto interrompido" e transformam o barreiro em um "convento de frades", sugerindo uma atmosfera ritualística.

03 – Qual é a reação do sapo cururu ao avistar os olhos luminosos na escuridão?

      O sapo cururu fica deslumbrado e fascinado pelos olhos luminosos, que o hipnotizam e o imobilizam. Ele é incapaz de fugir, mesmo pressentindo o perigo iminente.

04 – Como a serpente ataca o sapo cururu?

      A serpente se aproxima lentamente, como "dois pequenos holofotes", e abocanha o sapo cururu com um bote rápido. A boca da serpente se dilata para engolir o sapo por inteiro, em um ato de violência e voracidade.

05 – Qual é o significado da frase "Ele não podia fugir àquele beijo"?

      Essa frase utiliza uma metáfora para descrever a morte do sapo cururu. O "beijo" representa o ataque fatal da serpente, que é irresistível e inevitável.

06 – Como o autor descreve a morte do sapo cururu?

      A morte do sapo cururu é descrita de forma crua e brutal. Ele é engolido vivo pela serpente, com suas perninhas ainda se debatendo nas entranhas do predador.

07 – Qual é o contraste entre a morte do sapo cururu e o coro dos outros animais?

      Enquanto o sapo cururu é devorado pela serpente, o "coro imenso" dos outros animais continua cantando, alheio ao que aconteceu. Esse contraste destaca a indiferença da natureza diante da morte individual e a continuidade do ciclo da vida.

 

 

quinta-feira, 6 de março de 2025

POEMA NARRATIVO: O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poema narrativo: O Grande Desastre Aéreo de ontem

            Jorge de Lima

        Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjda0cBrTO4vxm7XpwfzMeNyL4x59L2MQD4c02xdjgkDXgLB-HAzfkEOvx2PR5mlicx9r3A6WeD0OIZQpE7jb2Fz0JAr1ggQbgH4PxA_Prd4qhvP_nPkwEJ4DIabb6Hv2ieCmCBcWk6ODnNWhYd_xDX9VqxVWfTDBq3Fl9AXyrjC0Ny5Ec72Pt0e5XtQUw/s1600/AVIAO.jpg


LIMA, Jorge de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.

Fonte: Português – Novas Palavras – Ensino Médio – Emília Amaral; Mauro Ferreira; Ricardo Leite; Severino Antônio – Vol. Único – FTD – São Paulo – 2ª edição. 2003. p. 529.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema "O Grande Desastre Aéreo de ontem"?

      O poema descreve um acidente aéreo de forma vívida e impactante, explorando a fragilidade da vida, a brutalidade da morte e a reação humana diante da tragédia.

02 – Quais imagens e metáforas são usadas para descrever o desastre?

      O poema utiliza imagens fortes e chocantes, como "sangue no ar", "mãos e pernas de dançarinas arremessadas", "corpos irreconhecíveis" e "chuva de sangue". Metáforas como "o Grande Reconhecedor" (a morte) e "poetas míopes que pensam que é o arrebol" (a incompreensão da tragédia) também são utilizadas.

03 – Como o poema retrata as vítimas do desastre?

      As vítimas são individualizadas e humanizadas, com detalhes sobre suas vidas e sonhos interrompidos: o piloto com a flor para a noiva, o violinista com seu Stradivarius, a nadadora, as três meninas, a louca com o ramalhete, a prima-dona com a cauda de lantejoulas, a moça adormecida, o paralítico.

04 – Qual é o significado da repetição da frase "Vejo sangue no ar"?

      A repetição enfatiza a violência e a brutalidade do desastre, criando uma atmosfera de horror e choque. Também serve para unificar as diversas cenas e personagens do poema, conectando-os à tragédia central.

05 – Qual a importância do poema "O Grande Desastre Aéreo de ontem" no contexto da obra de Jorge de Lima?

      O poema exemplifica a fase da poesia de Jorge de Lima em que ele explorou temas sociais e existenciais, utilizando uma linguagem mais direta e expressiva. A obra reflete a preocupação do autor com a condição humana e a sua capacidade de criar imagens poderosas e impactantes.

 

 

domingo, 2 de março de 2025

POESIA: OLÁ! NEGRO - FRAGMENTO - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poesia: OLÁ! NEGRO – Fragmento

             Jorge de Lima

Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos

e a quarta e quinta gerações de teu sangue sofredor

tentarão apagar a tua cor!

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxBnzzhQqRV-PxQbGnYZBt1mpEg6Gl4IHUGYTmkjlIjxqKq3kMPDVo31y9B2UgWshyhmlHQNqcv4eh6ze7edCobg0_mbFvIXrZ7QPlHlcgrZvPmxomP4y7_QYvVocDkhD83rlSNhQuaeXt8_9wFwzI-oktSWva1qgAIkcV6HrKe2nXIIUbtQCHswvDUHU/s1600/%7B41AF3DFA-0BD3-42E9-BBB5-4E6774780187%7D_os241_zumbi.jpg


E as gerações dessas gerações quando apagarem

a tua tatuagem execranda,

não apagarão de suas almas, a tua alma, negro!

Pai-João, Mãe-negra, Fulô, Zumbi,

negro-fujão, negro cativo, negro rebelde

negro cabinda, negro congo, negro ioruba,

negro que foste para o algodão de U.S.A.

para os canaviais do Brasil,

para o tronco, para o colar de ferro, para a canga

de todos os senhores do mundo;

eu melhor compreendo agora os teus blues

nesta hora triste da raça branca, negro!

                         Olá, Negro! Olá, Negro!

A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!

[...]

Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes,

com tuas danças, com tuas gargalhadas! 

Olá, Negro! O dia está nascendo! 

O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

                          Olá, Negro! 

                          Olá, Negro!

[...]

Poesia completa. @ by Maria Thereza Jorge de Lima e Lia Corrêa Lima Alves de Lima. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.

Fonte: Português – Novas Palavras – Ensino Médio – Emília Amaral; Mauro Ferreira; Ricardo Leite; Severino Antônio – Vol. Único – FTD – São Paulo – 2ª edição. 2003. p. 286-287.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é o tema central do poema?

      O poema aborda a questão da identidade negra, a resistência contra a opressão e a celebração da cultura afro-brasileira.

02 – Que aspectos da história da população negra no Brasil são mencionados no poema?

      O poema menciona a escravidão ("negro cativo", "tronco", "colar de ferro", "canga"), a fuga ("negro-fujão"), a rebeldia ("negro rebelde") e a diversidade de origens ("negro cabinda, negro congo, negro ioruba"). Também há menção ao trabalho nos campos de algodão nos Estados Unidos e nos canaviais do Brasil.

03 – Qual é o significado da expressão "a tua tatuagem execranda"?

      A expressão "a tua tatuagem execranda" refere-se à marca da escravidão e do preconceito racial, que as gerações futuras tentarão apagar. No entanto, o poeta afirma que a alma do negro permanecerá viva.

04 – Como o poeta descreve a relação entre a cultura negra e a cultura branca?

      O poeta reconhece a influência da cultura negra na cultura branca, mencionando o jazz, as danças e as gargalhadas. Ele também sugere que a cultura branca está em declínio ("A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!").

05 – Qual é a mensagem final do poema?

      A mensagem final do poema é de esperança e celebração da identidade negra. O "dia nascendo" e a "gargalhada" do negro simbolizam um futuro de libertação e reconhecimento.

 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

POEMA: À BEM-AMADA - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 POEMA: À BEM-AMADA

               Jorge de Lima

Amada, não penses,

escutemos a chuva que o inverno chegou. 

Sejamos as árvores que Deus semeou 

sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar 

serenos, morramos sem nos separar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt8_FM3IgOO12CWIm6L86CbBuHiHrFoh3-rrTDUjLCqdQKax1fPiRTbCCtXTDeziPQGPy7kQrP0lc3Y4n4dAN9eBGiK6mDNbS600DcUDBfyDfCwKyq98e2odzVW73XsCDWM0mK6koKSUtJTgbLt6awsgJnZAgpsIUfjVLdsix1QLwdbCIXSsuAwW3mR68/s320/CHUVA.jpg


 

Renunciemos, amada, os vãos pensamentos, 

cumpramos apenas a lei do Senhor 

sem nunca O ouvir, sem nunca O tocar, 

sem nunca duvidar, duvidar, duvidar.

 

Soframos, amada, sem nos lamentar. 

Sejamos as árvores que Deus esqueceu, 

que o vento abalou e o raio abateu.

 

Amada! Amada!

Bem-aventurado quem já morreu. 

Escutemos a chuva, 

que a chuva é de Deus!

LIMA, Jorge de. Poemas Negros. Rio de Janeiro: Alfaguará, 2016, p. 158.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema "À Bem-Amada"?

      O poema reflete sobre a aceitação do destino e a entrega à vontade divina, mesmo diante do sofrimento e da incerteza. Através da metáfora das árvores, o poeta expressa a ideia de uma existência passiva e resignada, que se cumpre sem questionamentos.

02 – Qual o significado da repetição do verso "sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar"?

      A repetição enfatiza a ideia de uma fé cega, desprovida de contato ou compreensão. As árvores, que servem de metáfora para o casal, representam a crença sem questionamentos, a aceitação do destino sem a necessidade de entender os desígnios divinos.

03 – Que papel a natureza desempenha no poema?

      A natureza, representada pela chuva, pelas árvores, pelo vento e pelo raio, assume um papel central no poema. Ela simboliza tanto a força implacável do destino quanto a presença divina. A chuva, em particular, é vista como uma manifestação de Deus.

04 – Qual a importância da figura da "Bem-Amada" no poema?

      A "Bem-Amada" é a interlocutora do poeta, a quem ele dirige suas reflexões sobre a vida, a fé e o sofrimento. Ela representa a companheira ideal para compartilhar a jornada de aceitação e entrega ao destino.

05 – Qual o tom geral do poema "À Bem-Amada"?

      O poema possui um tom de resignação e entrega. O poeta convida a amada a aceitar o destino com serenidade, sem lamentações, assim como as árvores que "morrem sem se separar". Há, no entanto, um vislumbre de esperança na crença de que a chuva é uma manifestação divina.

 

POEMA: BICHO ENCANTADO - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poema: Bicho encantado

             Jorge de Lima

Este bicho é encantado:

não tem barriga,

não tem tripas,

não tem bofes,

não é maribondo,

não é mangangá,

não é caranguejeira.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTUEOFwOK__slhWtHFm0LcmOLzMtGO9sxGrLRvd9oZtnNW4cufmm5Kk0IwvR0AV1wg597VtU_y7XLqVHVZsI2BpcyV0_nKXNUdLGD7bzrGu_CH7rDpbYgIOCzK5qEvUmWGVDRc3EwngmFq5wnovTbY1U54PPTxp4H74ktOsFHQX-WDq5M_q4o9z4K-UP8/s320/ESTRELA.jpg


Que é que é Janjão?

 

É a Estrela-do-mar que quer me levar.

 

Só tem olhos,

só tem sombra.

Babau!

Não é jimbo,

não é muçum,

não é sariema.

Que é que é Janjão?

 

É a Estrela-do-mar que quer me afogar.

 

Esse bicho é encantado:

não quer de-comer,

não quer munguzá,

não quer caruru,

não quer quigombô.

Só quer te comer.

Que é que é Janjão?

 

É a Estrela-do-mar que quer me esconder.

 

Babau!

Fonte: "Novos poemas; Poemas escolhidos; Poemas negros", Editora Lacerda, 1997.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o mistério central apresentado no poema "Bicho Encantado"?

      O poema gira em torno da pergunta "Que é que é Janjão?". O leitor é convidado a decifrar a identidade desse bicho misterioso que possui características incomuns e aparentemente assustadoras.

02 – Que características do "bicho encantado" são apresentadas no poema?

      O poema descreve o "bicho encantado" como algo que não tem órgãos internos ("não tem barriga, não tem tripas, não tem bofes"), não é um inseto conhecido ("não é maribondo, não é mangangá, não é caranguejeira"), possui apenas olhos e sombra, não se alimenta como outros animais ("não quer de-comer, não quer mungunzá, não quer caruru, não quer quigombô") e tem a intenção de "comer", "levar", "afogar" ou "esconder" o eu lírico.

03 – Qual é a resposta para o enigma "Que é que é Janjão?" revelada no poema?

      A resposta para o enigma é revelada nos versos "É a Estrela-do-mar que quer me levar", "É a Estrela-do-mar que quer me afogar" e "É a Estrela-do-mar que quer me esconder". Janjão é, portanto, uma personificação da estrela-do-mar, um ser que habita o oceano e que representa um perigo para o eu lírico.

04 – Qual é o tom geral do poema "Bicho Encantado"?

      O poema apresenta um tom de mistério, suspense e até mesmo de certo medo. A repetição da pergunta "Que é que é Janjão?" e a descrição do bicho como algo que "quer me comer" criam uma atmosfera de apreensão e alerta.

05 – Qual é a importância do poema "Bicho Encantado" de Jorge de Lima para a literatura brasileira?

      O poema "Bicho Encantado" é importante por sua linguagem lúdica e criativa, por sua capacidade de despertar a curiosidade do leitor e por sua forma inovadora de abordar um tema aparentemente simples, como a natureza. Jorge de Lima utiliza elementos da cultura popular e da linguagem infantil para criar um poema original e expressivo.

 

POEMA: QUICHIMBI SEREIA NEGRA - JORGE DE LIMA - COM GABARITO

 Poema: Quichimbi Sereia Negra

              Jorge de Lima

Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
que tem partes de chigonga
não tem cabelos no corpo,
é lisa que nem muçum,
é ligeira que nem buru
não tem matungo e é donzela,
ao mesmo tempo pariu
jurará sem urucaia.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiB2Kr16xyVR4_bsGOGQw42uuWzgrGhBm8uAQ_xs3T3SXfKQbEfUcC0W_4wm8XjJns21pQFRALUh2W7Wm0nQ7P3y1H972KyYfCWIxYaTdtYn6z8fffIJKdbin8kwQ5Z__OnYyd9W52ujsRhsyeKJtsC5TYp5vkkEvSS1K10hw0RCByHBM2vKp7PIRqAOmY/s320/SEREIA.png


Quichimbi vive nas ondas
coberta de espuma branca,
dormindo com o boto azul,
conservando a virgindade
tão difícil de sofrer.
Quichimbi segue nas ondas
dez mil anos caminhando,
dez mil anos assistindo
as terras mudar de dono,
o mar servindo de escravo
ao homem branco das terras.
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
dormindo com o boto azul,
não sabe de nada, não.

Jorge de Lima. Fonte: "Novos poemas; Poemas escolhidos; Poemas negros", Editora Lacerda, 1997.

Entendendo o poema:

01 – Quem é Quichimbi e quais são suas características principais, de acordo com o poema?

      Quichimbi é uma sereia negra, descrita como bonita como os amores. Ela possui características peculiares, como ter "partes de chigonga" (possivelmente uma referência à sua origem africana ou a alguma divindade), não ter cabelos no corpo, ser lisa como um muçum e ligeira como um buru (tipo de peixe). Apesar de ser donzela, ela também "pariu", numa aparente contradição que pode simbolizar a fertilidade e a força da natureza.

02 – Qual é o significado da afirmação de que Quichimbi "jurará sem urucaia"?

      A "urucaia" é uma semente utilizada em jogos de adivinhação e feitiçaria. A afirmação de que Quichimbi jurará sem urucaia sugere que sua palavra é verdadeira e confiável, não necessitando de artifícios ou subterfúgios.

03 – Onde Quichimbi vive e o que ela faz, segundo o poema?

      Quichimbi vive nas ondas do mar, coberta de espuma branca. Ela dorme com o boto azul, um símbolo de sedução e mistério, mas conserva sua virgindade, o que é descrito como algo difícil de alcançar.

04 – Qual é a relação de Quichimbi com o tempo e com a história, conforme expresso no poema?

      Quichimbi é apresentada como uma figura atemporal, que "segue nas ondas dez mil anos caminhando" e "dez mil anos assistindo" às mudanças na terra e no domínio do mar. Ela testemunha a passagem do tempo e as transformações da humanidade, mas permanece alheia a elas, como se estivesse em um plano diferente da realidade.

05 – Qual é o tom geral do poema "Quichimbi Sereia Negra"?

      O poema apresenta um tom de encantamento e mistério, com elementos da cultura afro-brasileira e da mitologia. Quichimbi é uma figura enigmática, que representa a força da natureza, a beleza e a sabedoria ancestral. O poema celebra a figura da sereia negra como um símbolo de resistência e de conexão com o divino.