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terça-feira, 15 de setembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: OS MENINOS DO BRASIL - CLÓVIS ROSSI - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Os meninos do Brasil

         Clóvis Rossi

 

        SÃO PAULO – Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhx-jUCykB2LfiYYHoM-4SwUUQ_VclhwwqompXW0uK8oPy6qejAoc1a14XpYRe7hbwU1ypKe4B3Yo3bF8SCABk_hyzJKzDjyp9_yOesYtyLcqRBIo6A9dWX14qaCRtAMhxqxcywlXbFiLB0Q3yg2px7zDao3gSKMi6o8i5VK3g76AA497B-MpfPpNz8m8Q/s320/images.jpg


        Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.

        É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.

        O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.

        Consequência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.

        Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  

Folha de S. Paulo, 30/10/92.

Entendendo o artigo:

01 – O autor cita eventos em praias do Rio, Fortaleza, Belém, São Paulo e Londrina. Qual a intenção do autor ao mapear essa sequência de acontecimentos?

      Demonstrar que os "arrastões" e a violência praticada por jovens marginalizados deixaram de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros urbanos e se espalharam pelo país, atingindo até mesmo cidades médias conhecidas pela boa qualidade de vida.

 

02 – Segundo Clóvis Rossi, qual é o papel da mídia e da televisão na expansão dos "arrastões"?

      A mídia atua como um difusor de comportamentos (um "modismo"). Ao divulgar exaustivamente os episódios ocorridos nas grandes metrópoles, estimula a cópia da ação por grupos de jovens em outras regiões do país.

 

03 – O que o autor quer dizer com a metáfora "a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados" e qual sua relação com a estagnação econômica?

      A metáfora indica que a desigualdade, a má distribuição de renda e a crise econômica geram continuamente uma massa de pessoas na extrema pobreza. A falta de oportunidades (marginalização) aproxima esses jovens da criminalidade (marginalidade) e da violência.

 

04 – Qual é a crítica que o jornalista faz em relação aos discursos e às tentativas tradicionais de solução para o problema social da infância desamparada?

      O autor critica a "fábrica de produzir retórica", afirmando que os discursos políticos e teóricos tornaram-se inúteis e vazios. Além disso, aponta que o problema não será resolvido apenas pela ação isolada do poder público ou pela filantropia pontual de poucos.

 

05 – Por que o autor afirma no final do texto que "todo o país é vítima" dessa situação, mesmo quando há poucas vítimas físicas nos episódios?

      Porque o avanço da violência e da desigualdade corrói o tecido social, gerando um ambiente de medo e ruptura moral em que a elite (os "bacanas") passa a cultivar o ódio e o preconceito contra os jovens pobres (os "meninos do Brasil").

 

 

ARTIGO PESSOAL: VELHO CANIVETE - FRAGMENTO - DENIS RUSSO BURGIERMAN - COM GABARITO

 Artigo pessoal: Velho Canivete – Fragmento


        Já ganhei vários presentes. [...]

        Mas acho que, se alguém me forçasse a escolher o melhor presente que já recebi, eu ficaria mesmo com o canivete suíço que meu pai me deu 11 anos atrás. Não é um canivete qualquer: é daqueles gordos, com dezenas de ganchinhos, serrinhas, lâminas. Com caneta, pinça, lupa, tesoura, alicate. Ele ainda veio num estojo de couro, com lápis, pedra de amolar, band-aid, kit de costura, lixa. E um espelhinho acompanhado de um papel com o código morse – sim, para eu me comunicar refletindo a luz do sol em caso de naufrágio, ou terremoto, ou tsunami, sei lá.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbUV1qCrZfOYdHtiyQh4oakw2pgDzDN6Z-TpPaVJJSwXznRNF4rGNMT5-5qrHdc0vLFE0xWS8YeL3c4_ddGVdjdnZ5cqLhLazpA7MnYiglcjCEIA2VmsSNNo2_97ulwLuNjLjZTs-bJRLeLBjMlOZWTag7Qz7Vn8wDJOgh2-nelQkxqmg8VDyfcRlQqzM/s320/images.jpg


        O canivete já me salvou de várias [...]. Ele já passou por boas, e isso fica claro quando se mexe nele. As articulações já não são tão suaves, as molas endureceram, muitas peças estão tortas e não encaixam direito. A caneta sumiu, os band-aids suíços acabaram, as agulhas de costura estão com as pontas pretas de tanto serem colocados na chama para esterilizar antes de serem usadas para extrair espinhos. Apesar de ser de aço inox, há marcas de ferrugem por toda parte. Enfim, tudo nele dizia “está na hora de comprar um canivete novo”.

        Pois é, hoje em dia existem canivetes espetaculares, até com recursos eletrônicos (lanternas, pen drives e sei lá mais o quê). Aí comecei a lembrar a origem daquelas marquinhas – e cada uma delas me transportou para um lugar diferente. Cada uma era prova de que aquele canivete viveu. De que ele abriu latas, serrou cabos de aço, lixou unhas quebradas, aparou minha barba, arrombou portas, consertou bicicletas, tapou buracos de botas, ajustou óculos. De que ele esteve em todos os cantos do mundo e tomou banho de mar, de óleo de peixe em conserva, de molho de tomate, de vinho vagabundo. E me lembrei de quando ganhei o canivete de presente: eu estava de saída para a minha primeira longa temporada fora de casa – nove meses na estrada de mochila nas costas – e, como meu pai não podia ir comigo, aquele foi o melhor jeito que ele teve de me dizer “quer uma força?”

        Fui buscar uma escova de dentes velha e uma lata de querosene e comecei a limpar as entranhas dele. Foram umas duas horas de trabalho, esfregando, desentortando, enxugando. Não dá para dizer que o canivete ficou novo – as marcas continuam lá, e vão continuar sempre. Mas acho que ele está pronto para a próxima.


Denis Russo Burgierman. Vida Simples, nº 56. Editora Abril.

Entendendo o artigo:

01 – Qual é a importância afetiva e simbólica do canivete suíço para o narrador em comparação com os outros presentes que ele já ganhou?

      O narrador destaca que, embora tenha ganho vários presentes ao longo da vida, o canivete suíço dado por seu pai há 11 anos é o seu favorito. O valor do objeto vai muito além de sua utilidade material; ele carrega um significado simbólico profundo. O canivete representou o apoio e a presença paterna no momento em que o narrador se preparava para a sua primeira longa temporada fora de casa (nove meses na estrada de mochila). Sendo um presente enviado por um pai que não podia acompanhá-lo fisicamente, o canivete funcionou como uma forma tangível de dizer: "quer uma força?".

 

02 – De que maneira o estado físico do canivete reflete as experiências vividas pelo narrador ao longo dos anos?

      O desgaste físico do canivete (com articulações rígidas, peças tortas, marcas de ferrugem, agulhas com pontas pretas e a ausência de alguns acessórios originais) serve como um registro material da história de vida do narrador. Cada marca, arranhão ou defeito é o testemunho de uma situação real vivida: as aventuras pelo mundo, os consertos de bicicletas, o arrombamento de portas, a extração de espinhos e o contato com os mais diversos elementos (mar, óleo de peixe, molho de tomate, vinho). Em vez de defeitos descartáveis, os desgastes transformam-se em memórias visíveis de que o objeto "viveu".

 

03 – Por que o narrador reflete sobre a possibilidade de comprar um canivete novo e o que o faz mudar de ideia?

      O narrador considera comprar um canivete novo porque o objeto atual aparenta estar desgastado e obsoleto — especialmente diante de modelos modernos e tecnológicos disponíveis no mercado (com lanternas e pen drives). No entanto, ele muda de ideia ao olhar para as marcas de uso e lembrar a origem de cada uma delas. Ao perceber que cada imperfeição carrega uma lembrança e prova a utilidade e a parceria do objeto em todas as suas jornadas, o narrador ressignifica o desgaste: o que parecia sinal de descarte torna-se a identidade e a história do canivete.

 

04 – Qual é o significado da ação final do narrador (limpar e restaurar o canivete com querosene e uma escova de dentes) para o desfecho do texto?

      A ação de limpar o canivete simboliza um ato de cuidado, respeito e renovação de laços com o passado. Ao dedicar duas horas a esfregar, desentortar e enxugar o objeto, o narrador demonstra que não busca a perfeição ou a aparência de um item novo de fábrica, mas sim a preservação da essência e da história que o canivete carrega. O desfecho ("Mas acho que ele está pronto para a próxima") reforça a cumplicidade entre o dono e o objeto, mostrando que ambos continuam preparados para enfrentar novas jornadas.

 

05 – O texto apresenta características típicas de um artigo pessoal (ou crônica de memória). Como a escolha do tom e da linguagem contribui para envolver o leitor?

      O texto utiliza um tom confessional, intimista e coloquial, criando uma sensação de proximidade com o leitor. O uso de expressões cotidianas e reflexões pessoais (como "sei lá", "Pois é" e a descrição bem-humorada de itens como o kit de sobrevivência com código morse) humaniza o narrador. Essa linguagem descontraída, aliada a descrições sensoriais detalhadas (o cheiro, o tato, as marcas visuais), transforma um objeto banal do dia a dia em uma metáfora emocionante sobre o tempo, a memória e as marcas que a vida deixa em nós.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: UM RELATO VERÍDICO DE UMA CIDADÃ - IVANILDES SILVA - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Um relato verídico de uma cidadã

 

        Brasília pede socorro – Ivanildes Silva

 

        Domingo, noite de 14 de outubro de 2012, centro da cidade de Brasília, W3 Sul, Setor Comercial Sul. Eu e minha filha ao retornarmos de um passeio que julgava ser promissor, experimentamos os momentos de medo e terror em pleno centro da capital, a alguns metros da Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes. A volta para casa tinha tudo para terminar bem, porém não foi bem assim.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWcWedg4PGVCeahlpE32K2XDfeCVL-o_cx-HBEpm4KGpOIE9e_DZ1KtMwy_aky-G3VEl23ADirpLTn_BNYfi_7PGDS11fT96Ron2c0G7JfpPCUk-R8jgXthq44dYP9-8u8iSbMLSjy-gCjqlRaDQF9_jXDnMfgP7zpBhl2Jvgra2Z7GLfftWhOoozv-Is/s320/images.jpg


        Viemos de um shopping, perto da Nova Rodoviária. A Estação do Metrô fechou às 19 horas e foi necessário pegar um transporte para um local onde pudéssemos tomar outro até nosso destino final: Sobradinho. Perto da Nova Rodoviária, a parada de ônibus mal localizada, mal iluminada, e, na qual, embora estivesse uma placa de proibição de estacionamento, isso era desobedecido. Já que não havia fiscais para ordenar o tráfego no local, os passageiros ficaram no meio dos veículos estacionados. Tomamos o ônibus e a ideia era descer em um local mais seguro, pois em toda a extensão da W3 Sul, as paradas estavam vazias e escuras. A opção foi saltar em frente a um local mais movimentado e bem iluminado.

        Assim que descemos do ônibus na W3 Sul, entre as 20 e 20h30min, percebemos um clima não muito agradável. Justo bem em frente a um grande e famoso shopping, estavam ali meninas, meninos, homens, crianças, comercializando drogas, disputando o local de venda de “seus produtos” com os transeuntes e intimidando os passageiros que esperavam o ônibus. A parada de ônibus foi completamente ocupada por essas pessoas. Os bancos foram ocupados e nós ficamos em pé, tentando nos distanciar daquilo e todos juntos, como se estivéssemos agarrados a uma tábua como único meio de salvação num barco que lentamente naufragava.

        A Praça do Setor Comercial Sul, um dos endereços mais famosos de Brasília, tinha sido tomada por “comerciantes” de todas as idades, transformando-se em um shopping popular. Enquanto isso, temíamos acontecer algo de mais grave conosco. Além disso, o outro problema era a demora do ônibus. Foi aterrorizante, pois imaginávamos que, a qualquer hora, alguém tomasse ou arrebatasse nossos pertences e nosso dinheiro. Toda hora vinha um pedir um trocado para comprar um lanche. Mas sabemos que aquela conversa era “para boi dormir”, pois, na verdade, queria angariar um dinheiro para alimentar seu vício. Isso era flagrante na feição do jovem. Quando um viu passar uma viatura, avisava aos demais que debandavam para as galerias do Setor Comercial Sul ou atravessavam para os arredores do shopping e se escondiam, momentaneamente, sabendo que nada aconteceria.

        Durante esses momentos de terror, nenhum carro da polícia parou ou fez alguma investida pelas imediações, o que nos causou espanto. Até os turistas sentiram-se intimidados com aquela situação e depois de longa espera, atravessavam no meio dos carros, em busca de um táxi em frente ao shopping. O comentário geral era que as ruas estavam entregues ao tráfico, assim como pairava um clima de tristeza, presenciando aquelas cenas terríveis. Muitos de nós nos lembrávamos de um passado não tão distante em que tínhamos a liberdade de transitar livremente pelo centro de Brasília em busca de diversão com nossas famílias. Logo depois, voltávamos tranquilamente para nossas casas, incólumes, no fim de semana.

        À medida que o tempo passava, todos iam se juntando ali num espaço pequeno, tentando se resguardar, assim como proteger a família: mulheres com crianças de colo, pessoas mais idosas, famílias, casais de namorados, jovens que saíram do shopping, assim como funcionários. Minha filha respirava forte e aflita, não só pelo que testemunhou como também pela demora do ônibus. Eu a acalmei, porém também estava também aterrorizada com o que via. Todos passavam pelo mesmo sentimento de terror e revolta. A perplexidade era enorme com o que víamos ali estampados em nossos olhos, em plena noite de domingo. O que dava mais medo era saber que o transporte demorava mais e o medo aumentava.

        Na tentativa de “fugir” daquele clima ameaçador, tivemos que pegar um ônibus até Rodoviária do Plano Piloto, a fim de encontrar o ônibus para Sobradinho. Mesmo assim, verificamos que, embora as ruas estivessem escuras, o local parecia mais tranquilo e seguro. Ali a ronda policial estava mais intensa e por isso, talvez, não tenhamos visto cenas deprimentes como as que vimos na W3 Sul. Toda hora passava uma viatura e o esquema ostensivo de policiais no local, diminuía o poder de ação dos infratores.

        Como cidadãos honestos que somos, pagamos altos impostos e taxas exorbitantes. Nessa hora, não temos o retorno disso, que ao menos se resumiria a uma ronda policial mais intensa, afastando aqueles indivíduos. Ao menos, poderiam zelar pela nossa integridade física e moral. Minha sensação de cidadã caiu por água a abaixo. O clima de insegurança da gente e a noção de impunidade daqueles menores e jovens infratores fazem com que as ruas sejam cada vez mais lotadas de gente como essa. Foi deprimente ver nossos familiares compartilharem esse clima de insegurança. Usuários fumavam ali mesmo, na W3 Sul, lugar central e privilegiado. Traficantes anunciavam e vendiam ao lado de demais pessoas. A quem recorrer? O que nos esperava?

        Apesar de a mídia divulgar, amplamente sobre a violência do centro da cidade, isto é, que as ruas de Brasília estão entregues aos meliantes, menores infratores e usuários de drogas, é difícil de acreditar. A ideia que temos é que há exagero nessas informações para ganhar pontos na audiência diária nas emissoras. Entretanto, o que vimos e passamos foi exemplo de que, realmente, a imprensa está certa. Infelizmente são dados concretos de que as vias públicas estão se tornando, cada vez mais palcos de impunidade por parte de pessoas inescrupulosas e que estão ali para “comercializarem” todo o tipo de produto ilícito.

        Pelo que eu, minha filha e outras pessoas pagadoras de seus impostos pudemos testemunhar, o problema da violência urbana está piorando a cada dia. Temo pelo que poderá acontecer em um futuro próximo. O clima gerado pela tensão só nos tira a vontade de jamais voltarmos àquele local com nossas famílias. Também foi fator negativo para os turistas, que, provavelmente farão um comercial negativo lá fora. Além disso, estamos prestes a receber dois grandes eventos: a Copa das Confederações em junho de 2013 e, em 2014, a Copa do Mundo. Brasília, portanto, a cidade sediará eventos internacionais dessa importância e precisa se adaptar à nova realidade, dando segurança, conforto e bem estar aos seus moradores, aos turistas nacionais e estrangeiros.

        Depois do que passamos, continuo a afirmar que o caso da violência no centro da cidade está grave. Chegou o momento de as autoridades, urgentemente, tomarem medidas eficazes em favor de nossa segurança. O intuito de tais ações efetivas é garantir mais qualidade de vida aos usuários do transporte urbano e também a outras pessoas. Deve haver maior fiscalização dos horários dos ônibus, aumento da frota e punição das empresas pelo descaso e descumprimento de horários, a fim de não deixarem os passageiros expostos a qualquer ameaça.

        É imprescindível também que haja, por meio dos poderes públicos, mais sensibilização para com os cidadãos. A carga tributária é muito alta e o retorno muito pouco ou quase nada em termos de segurança, saúde, educação e transporte, não só para os turistas, mas também para os habitantes dessa cidade, centro das grandes decisões e exemplo de modernidade para o resto do país. Com todos esses problemas vão se esvaziando ainda mais, a W3 Sul, a W3 Norte, o Setor Comercial Sul e Norte, as quadras e entrequadras da moderna Brasília. Aos poucos também vai morrendo um passado de glória e tradição em 52 anos de fundação da cidade. Brasília agoniza, pedindo socorro urgente às autoridades públicas, antes que morra à míngua, entregue à violência e entregue à sua própria sorte.

 

Entendendo o artigo:

01 – Qual é o principal acontecimento motivador que impulsionou a autora a redigir este artigo de opinião?

      O evento motivador foi a vivência de momentos de medo, terror e insegurança na noite de domingo de 14 de outubro de 2012, no centro de Brasília (W3 Sul e Setor Comercial Sul). A autora e sua filha, ao retornarem de um passeio, ficaram presas em uma parada de ônibus escura, mal localizada e tomada por traficantes, usuários de drogas e menores infratores, sem o apoio de policiamento ostensivo.

02 – De que maneira a autora caracteriza a infraestrutura do transporte público e as condições urbanas locais no trecho inicial de seu relato?

      A autora aponta sérias falhas estruturais, como o fechamento precoce do metrô aos domingos (às 19h), paradas de ônibus mal localizadas e mal iluminadas, ausência de fiscais de trânsito para ordenar veículos estacionados irregularmente e grande demora na circulação dos ônibus. Essa combinação deixou os passageiros vulneráveis, expostos e aglomerados em locais desprotegidos.

03 – Como o Setor Comercial Sul e a W3 Sul foram transformados, segundo a percepção e o relato testemunhal da autora?

      Os locais foram apropriados por traficantes, usuários e menores de idade de todas as idades, que comercializavam drogas abertamente, disputavam pontos de venda, intimidavam os pedestres e ocupavam completamente os bancos das paradas de ônibus. A praça e as vias públicas funcionavam, na prática, como um "shopping popular" do crime, provocando a fuga dos criminosos apenas de forma momentânea quando viaturas distantes eram avistadas.

04 – Qual era o sentimento predominante entre os cidadãos, famílias e turistas que aguardavam o transporte público naquele momento?

      O sentimento geral era de profundo terror, revolta, perplexidade e forte tensão. As pessoas se mantinham aglomeradas e juntas para tentar se proteger mutuamente, enquanto crianças, idosos, casais e turistas compartilhavam o temor de sofrer roubos ou agressões físicas diante da inércia das autoridades.

05 – Qual é a crítica central que a autora faz em relação à atuação do Estado e ao retorno dos impostos pagos pela população?

      A autora critica duramente a falta de retorno prático da alta carga tributária paga pelos cidadãos honestos. Ela aponta a total ausência de rondas policiais ostensivas nas áreas críticas, o que gera uma forte sensação de impunidade para os infratores e destrói o sentimento de cidadania e segurança da população que financia a máquina pública.

06 – Como a experiência vivida modificou a visão prévia da autora em relação às notícias veiculadas pela imprensa sobre a criminalidade na capital?

      Inicialmente, a autora e grande parte da população acreditavam que a mídia exagerava nos dados sobre a violência urbana no centro de Brasília com o objetivo exclusivo de alavancar a audiência diária. Contudo, após vivenciar diretamente o terror e a criminalidade escancarada nas ruas, ela concluiu que os jornais estavam corretos e que os dados divulgados são reais e concretos.

07 – Quais medidas urgentes a autora sugere que sejam tomadas pelas autoridades governamentais para sanar o problema antes da chegada de eventos internacionais?

      A autora exige ações eficazes de segurança pública, aumento da fiscalização e da frota de ônibus, punição para empresas de transporte negligentes, intensificação das rondas policiais e investimentos reais que garantam o bem-estar dos moradores e dos turistas que visitariam a cidade para a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo (2014).

 

ARTIGO DE OPINIÃO: O NÍVEL DE NOSSOS ALUNOS SERÁ O NÍVEL DE NOSSA SOCIEDADE - CASSILDO SOUZA - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: O nível de nossos alunos será o nível de nossa sociedade

               Cassildo Souza


        Fico a refletir a respeito dos alunos que estão sendo moldados na entrada do século XXI. Para tanto, lembro alguns fatores que poderiam servir de parâmetros a esta análise: hoje, o número de escolas existentes é infinitamente superior ao de há algumas décadas, a quantidade de profissionais com nível superior cresceu consideravelmente e cursos de capacitação foram criados para qualificar os professores. Além disso (com muitas dificuldades), houve avanços significativos na remuneração docente. Mas, honestamente, será que essas melhorias refletem-se na prática educativa? Nossos estudantes estão preparados a enfrentar o mundo? Acredito que, infelizmente, não.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQgA7iBmZsHKyUTO_K1aW7K0ahXhQlAZLLU58QfC1zDg8ac6zCbOBn7QDXWq3mpTOQaDyGogU-mRDiSwfcSjBe5qR8orBKO31cJ3oTpBYZks9aJ5EQX_lZ6BdKr8i26aBuuvIJVBFCgUf9uKT6ictiTyZRLBq7CwKjTZ8Fr1ntwVeRd5QhWXUpK3uswxI/s320/images.jpg


        Quem atua em sala de aula pode atestar com toda a autoridade que a base desses indivíduos, no geral, ainda é muito precária, especialmente no que tece à matemática e à língua, aspectos preponderantes para conhecimento. O nível de leitura e de escrita não tem sido um motivo de orgulho para as crianças do Brasil, que corriqueiramente ficam abaixo da média, se comparados aos outros países da América do Sul. A disciplina matemática não é bem-vinda por um inestimável número de estudantes que não veem a importância de certos conteúdos para o seu dia-a-dia. E se não percebem a relevância, provavelmente se interessam menos, aprendem menos.

        Não me atreveria, aqui, a ensaiar que motivos levam a essa incoerência. Adiante falarei sobre apenas um que considero fundamental. Mas, se acontecem esses fatos, o que podemos esperar desses alunos quando eles chegarem à universidade e, depois, quando saírem para o mercado de trabalho? Muitos são os casos em que o nível superior não corresponde à atuação profissional. E tudo por uma questão de base, pois aquilo que não se aprendeu nas instâncias inferiores do ensino não será milagrosamente absorvido em apenas 4 anos. O fato é que por essa má formação, temos professores que não sabem ler, advogados que não conhecem a lei, médicos que não descobrem doenças simples, jornalistas que não apuram os fatos e engenheiros cujas obras não se sustentam por muito tempo.

        Faço agora a referência que prometi no parágrafo anterior, acerca das razões que levam a um ensino precário. Vejo a falta de compromisso de certos profissionais da educação como a pior mazela que pode existir no processo educacional. Alguns deles se apoiam no fato de estarem no serviço público, não cumprindo suas obrigações e, por consequência, não atendendo às necessidades de seu público-alvo. Sem falar naqueles que concorrem ao cargo de professor e com pouquíssimo tempo recorrem a “padrinhos”, no intuito de não atuarem em sala de aula. Como não há uma cobrança rígida (nem interesse para que isso aconteça), ocorre uma reprodução perpétua como uma doença epidêmica e o resultado é catastrófico.

        Se queremos desenvolvimento, progresso, bem-estar para nós mesmos, precisamos, enquanto educadores, realizar um trabalho sério, não simplesmente para mostrarmos que somos “bonzinhos” e aparecermos como as referências da prática pedagógica ideal; mas para que amanhã não sejamos prejudicados em decorrência de uma sociedade mal instruída e sem conhecimento científico. Nossos descendentes dependerão daqueles que estamos ajudando a formar hoje. E se não o fizermos da maneira adequada seremos as próprias vítimas desse processo.

 

Entendendo o artigo:

01 – Quais avanços na área educacional o autor reconhece ter ocorrido nas últimas décadas?

      O autor destaca que o número de escolas aumentou significativamente, a quantidade de profissionais com ensino superior cresceu, foram criados cursos de capacitação docente e houve avanços (ainda que com dificuldades) na remuneração dos professores.

 02 – Qual é o diagnóstico do autor quanto ao preparo dos estudantes diante dos avanços citados?

      Apesar das melhorias estruturais, o autor avalia que o ensino não avançou na prática. Para ele, os alunos continuam despreparados e apresentam uma base muito precária, principalmente em Língua Portuguesa (leitura e escrita) e em Matemática.

03 – De acordo com o texto, por que muitos alunos demonstram falta de interesse pela disciplina de Matemática?

      Porque eles não conseguem perceber a relevância e a aplicação prática de certos conteúdos matemáticos em seu dia a dia. Sem enxergar essa importância, os estudantes se interessam menos e, consequentemente, aprendem menos.

04 – Que consequências a má formação na educação básica gera na atuação de profissionais formados no ensino superior?

      O autor aponta que deficiências da base não são corrigidas em quatro anos de faculdade, resultando em profissionais despreparados: professores que não sabem ler, advogados que desconhecem a lei, médicos incapazes de diagnosticar doenças simples, jornalistas que não apuram fatos e engenheiros que constroem obras sem sustentação.

 05 – Qual é a principal razão apontada pelo autor para a precariedade do ensino?

      A falta de compromisso de certos profissionais da educação. O autor critica aqueles que se apoiam na estabilidade do serviço público para não cumprir suas obrigações ou usam "padrinhos" políticos para se afastar da sala de aula, sem que haja uma cobrança rígida por parte do sistema.

06 – Por que o autor usa a metáfora de uma "doença epidêmica" para descrever a conduta de determinados educadores?

      Porque a falta de fiscalização e de rigor faz com que a irresponsabilidade e a negligência profissional se reproduzam perpetuamente entre os educadores, espalhando-se pelo sistema de ensino e gerando um resultado catastrófico para toda a formação escolar.

07 – Qual é o alerta final que o autor faz aos educadores sobre o impacto do seu trabalho no futuro?

      O autor adverte que um trabalho pedagógico sério não deve ser feito por vaidade, mas por necessidade. Se os educadores não formarem cidadãos bem instruídos e com conhecimento científico hoje, eles e seus descendentes serão as próprias vítimas de uma sociedade mal formada e sem progresso no futuro.

 

 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: PSICOLOGIA DA ADOLESCÊNCIA - DESPERTAR PARA A VIDA - FRAGMENTO - FERNANDA PAROLARI NOVELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Psicologia Da Adolescência – Despertar Para A Vida – Fragmento

        Fernanda Parolari Novello

        [...]

        Crise da adolescência, fase difícil, idade ingrata... são as taxações mais comuns. Você começa a ter reações que lhe são estranhas. Vêm à tona milhares de dúvidas inesperadas e persistentes que passam a martiriza-lo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh-DHeCH9Xc71oKP8uXSVrF4wA1FUUndnkhsmpWFOw_q2DCdzNg8RA8LEzG-IOEA_jVaa9FQq1VP9RjO5L2j7wuLJYnTGGu6ToNQZamC9-SJFLF6O-AbPtoRV5e_3Wjo1XpDvhJxYNuofqXvdrdS9wCfkFQamGrJq6XiPnDnZk7TUvhYy3mQ1CuQQmvJSA/s1600/images.jpg


        Durante a infância foi absorvido, sem valorização, seleção ou crítica, todo um cabedal de conhecimentos. Como uma semente, começa a germinar, a brotar uma força interior muito forte que necessita sair de dentro de você para a formação de seu Eu individual.

        Mudam as manifestações afetivas, você adquire maior capacidade de especulação, aguça-se o espírito crítico, a sexualidade evolui, surgem os problemas existenciais e a revolta contra os valores preestabelecidos pelos educadores.

        Tudo isso é natural, pois existe dentro de você a importância da criação de uma filosofia de vida sua, particular, que esteja de acordo com o que você é.

        A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois você sempre sente necessidade de se diferenciar deles. Ao tentar adquirir segurança em si mesmo, tudo parece embaralhar-se.

        Você não aceita o que lhe foi imposto, mas também não possui ainda ideias próprias. Contudo, as experiências passadas devem ser aproveitadas quando válidas, levando em conta os prós e os contras vivenciados.

        Você, que deixou de ser criança mas não é ainda adulto, começou uma longa caminhada para ao amadurecimento, que vem lento e gradual. Num entreabrir-se sereno.

        Em fase, embora às vezes lhe pareça uma barreira intransponível, passará mais depressa do que você imagina. Não desanime, tenha paciência e confiança em você. Nada é tão difícil nem impossível que não possa ser bem vivido.

        A convivência continuada com você, adolescente, e com o processo da psicologia moderna, permitem afirmar que as dificuldades são, em linhas gerais, as mesmas para todos os adolescentes, variando apenas de intensidade e duração.

        Indubitavelmente, se acompanhada de esclarecimentos físicos e psicológicos, esta evolução pode ser mais tranquila. Trata-se de preparar-se para enfrentar as dificuldades e prevenir-se contra problemas que podem atingir tanto você, adolescente, como seus pais.

        [...]

Fernanda Parolari Novello. Psicologia da adolescência: o despertar para a vida. São Paulo, Paulinas, 1990. p. 41-3.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 21-22.

Entendendo o artigo:

01 – Quais são as rotulações ou taxações mais comuns atribuídas à adolescência citadas no início do texto?

      As taxações mais comuns são "crise da adolescência", "fase difícil" e "idade ingrata".

02 – Como a autora descreve o processo de transformação interna que o adolescente vivencia em relação aos conhecimentos absorvidos na infância?

      Ela explica que o conhecimento absorvido na infância começa a germinar como uma semente, fazendo brotar uma força interior necessária para a formação do "Eu individual".

03 – Segundo o texto, o que acontece com a relação de confiança e apoio que o jovem tinha com os pais?

      A confiança e o apoio nos pais desaparecem repentinamente, pois o adolescente sente uma necessidade constante de se diferenciar deles para adquirir segurança própria.

04 – Qual é a justificativa da autora para o fato de o adolescente se revoltar contra os valores preestabelecidos?

      Ela afirma que essa revolta é natural, pois existe no jovem a necessidade de criar uma filosofia de vida própria e particular, alinhada com quem ele é.

05 – De acordo com o texto, o que pode tornar a evolução da adolescência um processo mais tranquilo?

      A evolução pode ser mais tranquila se for acompanhada por esclarecimentos físicos e psicológicos, ajudando a prevenir problemas tanto para o adolescente quanto para seus pais.

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: CRENÇAS PRIMITIVAS - MARCELO COELHO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Crenças primitivas

         Marcelo Coelho

 

        SÃO PAULO – O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sai sem dúvida fortalecido depois de 11 dias na prisão. Sua foto atrás das grades, lendo a Bíblia, não poderia deixar de ser vista por seus adeptos como uma espécie de martírio religioso; sabe-se, ademais, que as crenças e seus líderes ganham popularidade quando perseguidos pela lei.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhj4gzrzbv32FQtXjBNnCIpDB1qC4ZvbvE0Jftg6gB08KAhe91p6ZLrVWsnAhSzpnzzC-kcuH0Uc8HlsIVksw_UnWPYeGl0yVqkzdV_AomIjWdxTLhzPq02PO9SZmOttQnkP0tmoTmOJoDTwHVTUUSmbABla5CW_xOP_ZZtKluGT6lhScfS22uxoauG1Rs/s320/images.jpg 


        As acusações que pesam sobre Macedo – charlatanismo, curandeirismo e estelionato – terão ainda de ser examinadas pela Justiça. O processo envolve questões complexas, como a da liberdade de religião, e a de em que os métodos utilizados pelo bispo para angariar seus fundos diferem dos de outros cultos.

        Há, entretanto, dois aspectos neste episódio que transcendem o julgamento que se faça sobre as atividades de Edir Macedo. O primeiro é o da crescente demanda por todas as formas de crença que prometem alívio prático para as mazelas da existência, sem sutilezas teológicas; curas e milagres, em pleno final do século 20, são procurados sofregamente, paga-se por isso, e religiões mais cautelosas na mistificação tendem a perder adeptos. O fato pode ser desalentador, mas é dificilmente evitável.

        O segundo aspecto é o de que, na prisão de Edir Macedo, transparece um desejo bastante generalizado nos dias que correm: o de ver pessoas famosas na cadeia. A impunidade geral como que atiça a opinião pública para ver alguém importante literalmente atrás das grades. Como as execuções públicas no século passado, a prisão é hoje uma espécie de espetáculo. Ainda que a ideia da privação de liberdade seja em muitos casos considerada anacrônica do ponto de vista penal, são muitos os que lamentam, sem dúvida, o fato de esse espetáculo ser tão raro no Brasil. E tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio que a ideia de cadeia exerce na população – para nada dizer da pena de morte – talvez derivem de um mesmo primitivismo ideológico.  

Folha de S. Paulo, 6/6/92.

Entendendo o artigo:

01 – Segundo o autor, por que a prisão do bispo Edir Macedo acabou fortalecendo sua imagem perante seus seguidores?

      Porque a imagem do bispo atrás das grades lendo a Bíblia foi interpretada por seus adeptos como uma forma de martírio religioso. Além disso, líderes e crenças frequentemente ganham popularidade e apoio quando são perseguidos pela lei.

02 – Quais eram as acusações jurídicas que pesavam contra Edir Macedo e por que o processo envolvia questões complexas?

      As acusações eram de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. O processo era complexo por envolver discussões sobre a liberdade religiosa e a dificuldade de diferenciar os métodos de arrecadação de fundos da Igreja Universal dos métodos utilizados por outros cultos.

 

03 – Qual é o primeiro aspecto transcrito pelo autor a respeito do crescimento de certas práticas religiosas no final do século XX?

      O crescimento da busca por religiões que prometem alívio prático para os problemas da vida cotidiana (como curas e milagres imediatos), sem grandes aprofundamentos ou sutilezas teológicas, fazendo com que religiões mais cautelosas perdessem fiéis.

 

04 – Como o autor explica o fascínio da opinião pública pela prisão de figuras famosas e importantes?

      O fascínio ocorre devido ao sentimento generalizado de impunidade na sociedade. Diante disso, a prisão de alguém famoso passa a ser consumida como uma espécie de "espetáculo" público (semelhante às execuções públicas do século anterior).

 

05 – Qual é a relação que o autor estabelece entre a fé em milagres e o desejo da população por punições como a prisão e a pena de morte?

      Marcelo Coelho sugere no final do texto que tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio pelo encarceramento de figuras públicas derivam de um mesmo "primitivismo ideológico", ou seja, de uma busca por soluções simples, mágicas ou imediatas para problemas humanos e sociais complexos.

 

 

 

ARTIGO DE OPINIÃO: CULPA IRRADIADA - FOLHA DE S.PAULO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Culpa irradiada

        Cinco anos depois de uma cápsula com césio–137 radiativo ter sido exposta num ferro velho em Goiânia, matando quatro pessoas e causando lesões físicas em pelo menos 16, os responsáveis pelo incidente foram finalmente condenados pela Justiça.

        Apesar da morosidade excessiva do processo – marca infelizmente tradicional do Judiciário brasileiro –, não deixa de ser digno de nota o fato de que não prevaleceu, desta vez, a impunidade tão corriqueira no país.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZHC1_nnQWrziAGPzyiwvmf7dgf7jSDEeN8LJMkY62WCiKNGr7v88-fWEPnVVlUtJIbCTivLvUUL5Q4Zjwk27skIBV318IeKIUOMQAA6nBGHK3K4V860fhcGY1bahh1n6fLz9TyBsIJa7X8diMZ3O0vL0t19pTc4rKa5stD2L7HsFJ8LV10EsF5dNmKxU/s320/images.jpg


        Os acusados – três sócios do instituto de onde o césio foi retirado e o técnico responsável –, a quem cumpria guardar o produto radiativo, foram condenados por homicídio e lesões corporais culposos.

        Embora ainda caiba recurso, merece destaque desde já a punição cominada pelo juiz. Em lugar de uma contraproducente sentença de prisão – lamentavelmente comum mesmo para condenados que não oferecem risco social –, o magistrado optou pela prestação de serviços, tornando o cumprimento da pena útil, em vez de oneroso, para a comunidade.  

Folha de S. Paulo, 8/8/92.

Entendendo o artigo:

01 – Qual evento histórico e trágico ocorrido em Goiânia serve de pano de fundo para o artigo de opinião?

      O vazamento radioativo ocorrido após uma cápsula com Césio-137 ter sido exposta em um ferro-velho, o que provocou a morte de quatro pessoas e causou lesões físicas em pelo menos outras 16.

02 – Qual crítica o autor faz ao sistema judiciário brasileiro ao abordar o andamento do processo?

      O autor critica a morosidade excessiva do processo, que levou cinco anos para chegar a uma decisão, classificando o atraso como uma "marca infelizmente tradicional do Judiciário brasileiro".

03 – Quem foram as pessoas condenadas pela Justiça no episódio e por quais crimes foram responsabilizadas?

      Foram condenados três sócios do instituto de onde a cápsula foi retirada e o técnico responsável pela guarda do produto. Eles foram responsabilizados pelos crimes de homicídio e lesões corporais culposos (sem intenção de matar/ferir).

04 – Por que o autor elogia o tipo de pena aplicada pelo magistrado aos réus do caso?

      Porque o juiz optou pela prestação de serviços à comunidade em vez do encarceramento. O autor considera a prisão contraproducente para réus que não oferecem risco social, enquanto a prestação de serviços torna o cumprimento da pena útil para a sociedade.

05 – Apesar dos pontos críticos, qual o aspecto positivo do desfecho judicial destacado no texto?

      O fato de que não prevaleceu a impunidade, que costuma ser corriqueira no país, garantindo que os responsáveis pela negligência com o material radioativo fossem devidamente punidos.

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: O MITO DA CAVERNA - MARILENA CHAUI - COM GABARITO

 Artigo de opinião: O mito da Caverna

        Marilena Chaui

        Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semiobscuridade, enxergar o que se passa no interior. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgFD7HjdmemZTBzW0I8Dx6g6GpI3ySm6YYjCYwO74q1l0xTRzZbkhSYEByjqmZ5JqARlhiLqM9Sx94Ko1Os_pYkgdv9MQdTE9ldZ_6Ei-aY5HMFa6YwQrmUZJ-hTlouIiLddIRgbzGjV_jpRGGYQEfsiZp4u8B_nmRlZZmLM_jb1bHl59ae67hGiEqJa5A/s320/images.jpg


        A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros – no exterior, portanto – há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. 

        Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam. 

        Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna. 

        Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria. 

        Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. 

        Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. 

        Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. 

Marilena Chaui. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1997, p. 40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 212-213.

Entendendo o artigo:

01 – No início do texto, Marilena Chaui descreve os prisioneiros e afirma que eles "imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas". Por que os prisioneiros tomam as sombras como a realidade absoluta e o que essas sombras representam no plano filosófico?

      Os prisioneiros tomam as sombras como a própria realidade porque, estando imobilizados desde a infância, jamais viram qualquer outra coisa ou fonte de luz diversa. A experiência sensitiva deles é limitada à parede do fundo da caverna. No plano filosófico, as sombras representam o conhecimento sensível (as aparências, as opiniões/doxa e os preconceitos) que as pessoas tomam como verdade indiscutível por falta de reflexão crítica e por estarem presas ao senso comum.

02 – Ao descrever a saída do prisioneiro libertado, o texto aponta que, em um primeiro momento, ele ficaria "inteiramente ofuscado" e "completamente cego". Como se explica esse ofuscamento no processo de busca pelo conhecimento verdadeiro?

      O ofuscamento e a dor física simbolizam a transição do senso comum para o conhecimento racional/filosófico. Abandonar certezas antigas e confrontar a verdade não é um processo simples ou imediato; gera desconforto, dúvida e resistência. A cegueira momentânea mostra que a mente humana precisa de tempo e esforço reflexivo para se habituar à luz da verdade (o mundo das ideias/realidade) após passar a vida inteira na obscuridade da ilusão.

03 – O texto estabelece uma gradação entre as sombras, as estatuetas e as "próprias coisas" no exterior. Explique a diferença entre ser espectador das sombras e contemplar a "própria realidade", segundo a narrativa.

      Ser espectador das sombras significa estar no nível mais baixo do conhecimento: ver apenas cópias imperfeitas de objetos que já são, por si sós, representações (as estatuetas). Já contemplar a "própria realidade" no exterior significa sair do domínio das imagens indiretas para alcançar as coisas em sua essência, sob a luz do Sol (que representa a Razão ou a ideia do Bem). É a passagem da ilusão mediada para a apreensão direta da verdade.

04 – Por que o prisioneiro libertado decide regressar à caverna em vez de permanecer no exterior desfrutando da realidade descoberta? Qual é o papel que ele assume ao retornar?

      O prisioneiro regressa por um compromisso ético e pedagógico com os seus antigos companheiros. Ele assume o papel do educador/filósofo, cuja função social não é guardar a verdade para si em um isolamento contemplativo, mas compartilhar o conhecimento, conscientizar os outros sobre a sua condição de alienação e guiá-los no caminho da libertação e do pensamento crítico.

05 – Marilena Chaui relata que, ao retornar, o libertador enfrenta zombarias, agressões e a ameaça de morte por parte dos demais prisioneiros. O que essa reação violenta revela sobre a postura da sociedade diante de novas verdades?

      Essa reação revela a resistência dogmática ao novo e a zona de conforto proporcionada pela ignorância. A maioria das pessoas tende a apegar-se às suas crenças habituais, reagindo com hostilidade, negação e violência contra aqueles que questionam suas certezas ou expõem suas iludidas estruturas de pensamento. Historicamente, essa passagem também faz alusão ao julgamento e à condenação à morte de Sócrates, que foi executado por perturbar as certezas da sociedade ateniense com seus questionamentos.