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domingo, 20 de setembro de 2026

CRÔNICA: A LÓGICA DO MALUCO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A lógica do maluco

            Lima Barreto 

 

        Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjlf6iFS6ScvVksA7Ry9450NqHDBYg0GANK56G8KL6jc3AZ0L0PXvdoG9ixpAXLaAhMkUk4zHI18ORhxoWwELvdT5WnbJyM1uIEoLOqg7gnsCKGrwIEZx0LoKnQU0v7D_TwNHtpwDBH9tLUeVsmKxBD6f8pi7BuIKLj1754A7boUPTH_CFb_LoLEg6ZJcw/s320/images.jpg


        Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...

        A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que ne­la têm assento.

        O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.

        Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.

        O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:

        – Então, o que há, doutor?

        O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sen­tou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:

        – Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.

        – Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?

        – É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vi­tória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

        – Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.

        – Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.

        – Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.

        – Como?

        – Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?

        – Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...

        – Mas, você...

        – Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.

         Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o do­ente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:

        – Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor ju­rídico.

Careta, Rio, 8-10-1921.

Entendendo a crônica:

01 – O que torna o doente internado no Hospital Nacional de Alienados uma figura atípica entre os demais pacientes, segundo a narrativa?

      O doente destaca-se não pela gravidade ou estranheza de sua enfermidade mental — descrita como uma mania simples —, mas pelo seu nível de instrução, boa educação e cultura. Ele era bacharel (embora preferisse o título de "capitão") e pertencia à Academia de Letras da Vitória, no Espírito Santo, na condição de "membro extraordinário" ou "de fora".

 

02 – Como Lima Barreto ironiza a instituição da vaga de "membro extraordinário" na Academia de Letras da Vitória?

      Embora brinque com o fato de o título lembrar "coisas de bebês e cueiros", o cronista elogia satiricamente o mecanismo. Ele argumenta que a existência de uma fila de espera predefinida traz efeitos práticos positivos ao ambiente político-literário, pois evita arranjos de última hora, campanhas de promoção pessoal ("mandar organizar um livro às pressas") e as habituais baixezas das eleições acadêmicas.

 

03 – Qual foi o gatilho desencadeador da loucura do internado e como o médico buscou tratar o problema do paciente?

      O rapaz enlouqueceu ao ler a obra Comentários à Constituição, do jurista Carlos Maximiliano. Para atenuar o quadro, o médico Dr. Gotuzzo recolheu o texto de Maximiliano e o substituiu pela obra do jurista João Barbalho, o que gerou uma melhora expressiva no estado mental do paciente.

 

04 – Qual era a solicitação do interno ao Dr. Gotuzzo e de que maneira o médico tentou demovê-lo da ideia?

      O paciente solicitou permissão para conversar pessoalmente com o diretor do hospital, Dr. Juliano Moreira, a fim de conseguir autorização para buscar um emprego público por meio de sua influência com o senador Marcílio de Lacerda. O Dr. Gotuzzo argumentou contra a ideia lembrando que ele era um doente sob interdição judicial formal movida por sua família, o que o impossibilitaria legalmente de assumir tais funções.

 

05 – Qual foi o raciocínio dedutivo empregado pelo paciente para defender seu direito de ingressar no funcionalismo público?

      O paciente construiu um silogismo baseado no texto constitucional: argumentou que, segundo a Magna Carta, "os cargos públicos civis ou militares são acessíveis a todos os brasileiros"; sendo ele brasileiro, teria direito ao cargo. Ao ser lembrado de sua condição de interditado, equiparou sua situação jurídica à de outros grupos incapacitados civilmente (como mulheres e menores), pontuando que, se estes já ocupavam posições públicas, ele também poderia.

 

06 – Como o psiquiatra Juliano Moreira reagiu ao pedido do doente e qual foi a solução elegante adotada por ele?

      O Dr. Juliano Moreira acolheu o interno com calmaria, doçura e escuta atenta. Para contornar a insistência do paciente sem contrariar frontalmente sua lógica ou desencadear um surto, respondeu que não poderia conceder a licença de imediato porque precisaria antes consultar o parecer técnico de um "notável consultor jurídico".

 

07 – De que modo a crônica expõe a contradição do arcabouço jurídico e das regras institucionais brasileiras do período?

      Lima Barreto usa a pretensa "loucura" do protagonista para expor incoerências do Direito e da burocracia do país. A capacidade do paciente de articular a Constituição com rigor lógico demonstra que a aplicação das leis na sociedade muitas vezes carece de coerência real: regras formais excluem sujeitos plenos enquanto interpretações casuísticas abrem brechas institucionais, tornando a fronteira entre a razão jurídica e o delírio extremamente tênue.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: O CONDE E O VISCONDE: DOIS GENEROSOS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O conde e o Visconde; Dois generosos

             Lima Barreto

 

        Jamais, desde aqueles memoráveis dias em que, na minha meninice, estudei história, deixei de me lembrar daquela ateniense que votava pelo ostracismo (banimento) de Aristides porque estava cansado de ouvir chamá-lo de justo.

        Muito depois de aprovado, ainda ia procurar o meu João Ribeiro, História Antiga (Oriente e Grécia), para lá ler a ane­dota histórica. Eis como o sábio professor a narra:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigY4SF_c50dMW1lr2ZqS5HHVXJPnaekmEnbq1SZ1fWxYharclifwO4J5OH7HhkMvpy4L4AuRkipIdnvby7RANTQ3bfeqF9mQnQbx2XL7UZa92fNDGTalRVcQryPuPczagcHFS-WueSj5tn_kb_npQlyHJebxq6kfuVCtBHrnD4ITuX7FBhvw46LlHSNE0/s320/images.jpg


        “Conta-se que durante a votação popular (para o banimento) um cidadão que não sabia ler nem escrever, pediu ao próprio Aristides, a quem não conhecia, que escrevesse o seu voto. – Mas, Aristides ofendeu-te? – Não, replicou o votante. Mas estou cansado de ouvir chamá-lo de justo.”

        Muitas coisas graves, interessantes e pitorescas andei aprendendo; mas, de todas elas, uma das que mais profun­damente ficou-me gravada no cérebro foi essa anedota.

        Quando vejo por aí toda a gente a dizer que fulano é justo, é sério, é virtuoso, é santo, não fico cansado para bem dizer, mas espero um dia para apea-lo do nicho e, se for ainda capaz de arrependimento, faze-lo ajoelhar-se e penitenciar-se da sua “homenagem à virtude” (vide La Rochefoucauld).

        Há nesta cidade dois homens conhecidíssimos por muitos motivos, um dos quais não é certamente as grandes fortunas de que são possuidores. Um é o conde da Pátena e o outro é o visconde de Loques. Um, é político brasileiro; o outro, não o é nem português, por economia.

        Ambos são tidos como homens de grande coração, genero­síssimos.

        Antigamente, não entrava ninguém num veículo que não ouvisse, a um canto, dizerem:

        – Oh! O Pátena! Aquilo sim é que é homem! Ele olha para a pobreza; ele atende aos pequeninos. Veja você só! Quando ele esteve na construção do túnel daqui para Niterói, quanta gente ele empregou? Era só chegar a ele e pedir.

        – Mas, Castrioto, a verba estourou e muita gente ainda está para receber dinheiro.

        – Que tem isto? Ele, ao menos empregava... O doutor Pátena não sabe dizer “não”. É um coração!

        – De fato – eu observei – quando o conde Pátena se põe à testa de um importante serviço público, as verbas não chegam nunca para pagar empregados e para faire marcher l’argent, até às algibeiras dos camaradas. É um mãos-abertas... Torna-se logo suntuosamente generoso com o dinheiro dos... cofres públicos. Os amigos do peito, arruinados ou pobres de origem, enriquecem em meses; e não há pobre-diabo que não consiga, quando Pátena está na ponta, arranjar com ele um emprego em que ganhe seis mil-réis por dia, para “engabelamento” da sua miséria, durante seis meses.

        Um outro milionário que gozava de igual fama, era o visconde de Loques. É uma figura curiosa. Os seus começos mo­destos, mesmo humildes, deram-lhe o hábito de usar um único fraque até esfarelar-se. Há uma anedota, naturalmente fan­tástica, que diz não ser permitido no Banco de Inglaterra espanarem-se as teias de aranha. Elas são a felicidade da casa...

        O visconde só muda de fraque quando este chega a fiapos. É tradição e segurança, de sua fortuna e prosperidade. Ele tem meia centena de milhares de contos; mas não com­pra dois fraques...

A fama no seu bom coração corria a cidade. Havia uma porção de anedotas a tal respeito.

        De manhã, diziam, o visconde quando chega de Paquetá, só na ponte das Barcas distribui mais de cem mil-réis de esmolas. E isto todos os dias!

        Certa manhã, depois de ter notivagado a noite, fui apreciar o espetáculo.

        Pus-me ao lado e talvez com a secreta vontade de lhe pedir também uma espórtula. Juvenal subia o Esquilino, pe­la manhã, embrulhado em trapos, curtindo frio, para mendigar alguns sestércios aos poderosos senadores de Roma...

        Fui apreciar, dizia eu, o espetáculo. Lá estavam a postos os clientes do visconde. Eram vinte ou trinta.

        Havia de tudo: um resumo do nosso povoamento.

        Ei-lo que chega. Atravessa verdadeiramente por uma ala. Dá uma moeda pra cá, dá outra pra lá; e vai-se.

        Aproximam-se do lugar onde estou, dois clientes do visconde.

        Pergunta um ao outro:

        – Quanto ele te deu?

        – Um cruzado. E a ti?

        – Duzentos réis. Foste mais feliz do que eu.

        Calcule. Na média, trezentos réis a cada um; são trinta, no máximo: logo – nove mil-réis. Eis aí em que ficaram os cem mil-réis diários!

        Ainda assim havia mais generosidade no visconde que no conde. Aqueles nove mil-réis eram dele, do seu bolso; e a magnificência do conde era à custa alheia, à custa do país.

        Passaram-se anos; os aluguéis de casa sobem pavorosamente e só ouço, nos trens, nos bondes, nos cafés, queixas contra os senhorios, principalmente contra o visconde e o conde que são grandes, senão os maiores proprietários na cida­de:

        – Você já viu?

        – O que?

        – Aquele sorna do visconde, logo de assentada, aumentou-me o valor do aluguel de um terço – veja você só.

        – Ué! Dizem que ele é tão bom de coração...

        – Vá atrás dele!

        Mais adiante escuto:

        – Não voto mais nesse malvado.

        – Em quem?

        – No Pátena.

        – Porque?

        – Aumentou de repente o aluguel de minha casa de quarenta por cento.

        – É coisa! Entretanto, ele é bom...

        – Pro fogo!

        Diante disto, continuo ainda a lembrar-me daquele ateniense que bania Aristides por estar cansado de ouvir chama-lo de justo. Há muito tempo, já teria eu banido esse visconde e esse conde, por estar cansado de ouvir chamá-los de generosos. E eu tinha razão, como estão vendo.

Careta, Rio, 6-8-1921.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a anedota histórica sobre o ostracismo de Aristides citada por Lima Barreto e qual o seu papel no tema central da crônica?

      O cronista relembra o episódio grego em que um cidadão analfabeto pede ao próprio Aristides que escreva seu voto para bani-lo de Atenas, simplesmente porque estava cansado de ouvir todos o chamarem de "o Justo". Lima Barreto utiliza essa anedota para ilustrar seu ceticismo em relação às virtudes e reputações impecáveis atribuídas publicamente às pessoas, servindo de gancho para questionar a fama de "generosos" que o Conde da Pátena e o Visconde de Loques ostentavam na sociedade.

 

02 – Como é caracterizada a suposta generosidade do Conde da Pátena e qual é a crítica de Lima Barreto a essa conduta?

      O Conde da Pátena era visto pelo público como um homem de grande coração por dar empregos a amigos e necessitados sempre que liderava grandes obras públicas. O autor desmascara essa benevolência ao demonstrar que ela era exercida à custa dos cofres públicos: as verbas estouravam, as contas ficavam sem pagar e os amigos enriqueciam rapidamente. Trata-se de uma crítica ao fisiologismo e à falsa caridade feita com o dinheiro do Estado.

 

03 – Quais são as peculiaridades da figura do Visconde de Loques descritas no texto e qual era o mito em torno de sua caridade diária?

      O Visconde de Loques é retratado como um homem de origem humilde e dono de enorme fortuna, mas com hábitos de extrema pão-durice — como o de vestir o mesmo fraque até virar fiapos por superstição. A fama popular dizia que ele distribuía diariamente mais de cem mil-réis em esmolas para os pobres na ponte das barcas de Paquetá ao desembarcar na cidade.

 

04 – O que o cronista constatou pessoalmente ao presenciar a distribuição de esmolas pelo Visconde de Loques?

      Ao acompanhar o ritual de perto, o narrador ouviu a conversa entre dois beneficiados e descobriu que o Visconde dava quantias irrisórias (como 200 ou 400 réis), totalizando cerca de nove mil-réis para o grupo de trinta mendigos. O autor expõe o abismo entre a realidade da esmola e o boato popular, que multiplicava o valor doado por mais de dez vezes.

 

05 – Qual a comparação que o autor faz entre as "generosidades" do Conde da Pátena e do Visconde de Loques?

      Lima Barreto conclui que, apesar de insignificante, a caridade do Visconde de Loques continha mais mérito real do que a do Conde da Pátena. A razão é que as moedas distribuídas pelo Visconde saíam do seu próprio bolso, enquanto a magnificência do Conde era custeada pelo Tesouro e com prejuízo para o país.

 

06 – Que evento posterior revelou a verdadeira face econômica dos dois aristocratas e transformou a opinião pública sobre eles?

      A alta avassaladora dos aluguéis na cidade expôs a ambição dos dois titulares, que figuravam entre os maiores proprietários de imóveis do Rio de Janeiro. Ao reajustarem os aluguéis de seus inquilinos em taxas abusivas (de um terço a 40%), ambos provocaram a revolta da população nos bondes e trens, desfazendo a ilusão da caridade e revelando a busca gananciosa pelo lucro.

 

07 – Como a metáfora final do banimento de Aristides é retomada para sintetizar a crítica social de Lima Barreto?

      No desfecho, o autor reafirma a validade do seu ceticismo inicial ao declarar que há muito tempo já teria "banido" o Conde e o Visconde pelo simples cansaço de ouví-los aclamados como generosos. A derrocada da boa fama dos dois personagens comprova a tese do cronista de que as reputações virtuosas construídas na esfera pública frequentemente escondem hipocrisia, interesses pessoais ou exploração.

 

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: COMO BUDISTAS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COMO BUDISTAS...

             Lima Barreto

        Tenho tanto que escrever, sobre coisas tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo, eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano, deputado federal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhT6M2J0XpLbNg85PoNjfuOwYnit5NTU42nzcT4UHyk9PMaKZf6c_1OrbcBcb31qNEs-KlygzhAgegaQzkM_Q0UIQYCcNVOcH3RglewnIdSLRxhuODhn_DuIn_qu84gcH4VGj-tyUEXGcT38a8D5vI5AQKHFXaYIvyRR_g1QIZx21y9KJRLBfoQSgLzqBk/s320/images.jpg


        Há tanta coisa tão interessante, num e noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles, mais tarde.

        O que me absorve agora o pensamento é este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que, como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da maneira mais infame que os charlatães a receitam.

        Ela pensou que seu marido fosse um homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.

        Todos nós, inclusive eu, malgré tout, estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.

        O que há nisto tudo é a combinação do nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença universal do dinheiro.

        Essa moça não se casaria com esse moço, se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.

        E ele não iria procurá-la, se não estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.

        Houve um mútuo engano. Ele procurou enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enrique­cem.

        Mas, todos os dois se esqueceram que entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.

        Entre os dois só deve haver a máxima lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da mulher, escada para subir.

        Nós temos direito de ter ambições. Eu mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande paixão – Desdêmona. O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso, transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento da sua am­bição.

        Todos esses entes são sagrados; para todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.

        Quando a gente se quer bater, tem muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.

        A vida, apesar de não poder ser uma felicidade, deve ser uma coisa heroica.

        E não há homem que tenha esse sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.

        A mulher não é instrumento de ambição; a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas des­graças.

        Já fui muitas vezes jurado; já sofri muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de dona Julieta Melilo, eu a absolveria.

        Absolvia, minha senhora, porque não gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles de­viam amor.

        Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.

José Vieira (1880-1948), jornalista, poeta, cronista e romancista paraibano. A.B.C., Rio, 31-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o cronista inicia o texto, justificando seu arrependimento por ter escolhido comentar o caso policial de São Paulo?

      O cronista inicia afirmando que tinha muitos assuntos interessantes para tratar, como o livro Sol de Portugal, de José Vieira, e um extraordinário discurso do deputado federal Ildefonso Albano. Ele confessa que se arrependeu de ter desviado sua atenção para uma notícia policial, pois preferiria estar comentando as leituras enriquecedoras que guardava para o futuro.

02 – Qual foi o fator motivador central que levou a jovem mencionada na notícia a se envolver e se casar com o homem que acabou matando?

      O fator motivador foi a ilusão social em torno de títulos acadêmicos e status financeiro. O cronista aponta que a moça, carente de experiência de vida, foi seduzida pela falsa ideia de valor associada ao "anel" de doutor e aos "pergaminhos" alardeados pelos jornais, acreditando erroneamente que o marido possuía o valor moral correspondente à sua suposta posição social.

03 – Como Lima Barreto descreve a dinâmica do relacionamento e o "mútuo engano" que ocorreu entre o marido e a esposa antes do desfecho trágico?

      Lima Barreto define a relação como um acordo pautado pela ambição e pela falsidade de expectativas. O marido buscou enganar a mulher utilizando um título acadêmico como fachada (um "caçador de dotes"), enquanto a esposa e sua família tentaram usá-lo com base na riqueza material que ele supostamente representava, esquecendo-se de que o matrimônio deveria ser fundado na lealdade e na boa-fé mútua.

04 – Qual é a crítica central que o autor faz em relação à forma como algumas pessoas utilizam os entes queridos, especialmente as mulheres?

      A crítica central repousa na rejeição veemente à instrumentalização dos afetos. O autor argumenta que um homem ambicioso não pode transformar sua mulher, sua filha ou seus amigos mais íntimos em "escada para subir" ou em instrumentos para saciar suas ambições pessoais, ressaltando que esses entes são sagrados e merecem amor e proteção incondicionais, e não exploração egoísta.

05 – Qual é a visão de Lima Barreto sobre o papel que a mulher deve ocupar na vida de um homem?

      Para o cronista, a mulher jamais deve ser tratada como um meio para atingir fins utilitaristas. Ele defende que a mulher constitui um "consolo e um conforto" diante das adversidades, dos vícios e das desgraças humanas. O autor espera encontrar na mulher uma parceira dotada de heroísmo e dignidade, enxergando o relacionamento como um refúgio de paz, e não como um campo de batalha doméstico.

06 – Qual seria a decisão de Lima Barreto caso fizesse parte do tribunal do júri responsável pelo julgamento de dona Julieta Melilo, e qual justificativa ele apresenta?

      O autor declara categoricamente que, se fosse escolhido para compor o júri de dona Julieta Melilo (a ré do caso policial), votaria por sua absolvição. Ele justifica essa posição afirmando que não nutre simpatia por indivíduos prepotentes e repletos de títulos falsos que não demonstram amor e respeito genuínos pelas esposas a quem deviam zelar.

07 – O que o autor expressa por meio da frase final "Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida" em relação ao caso narrado?

      Ao se autodenominar "budista" e evocar o "esquecimento da vida", o cronista expressa um profundo cansaço e desencanto diante das mesquinharias, ambições cegas e tragédias cotidianas da sociedade humana. Essa frase funciona como um fecho irônico e melancólico, indicando que ele prefere afastar-se mentalmente de tanta sordidez e encerrar imediatamente suas reflexões sobre aquele episódio doloroso.

 

 

 

CRÔNICA: SOBRE O FOOTBALL - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: SOBRE O FOOTBALL

            Lima Barreto

 

        Nunca foi do meu gosto o que chamam Sport, esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho volun­tariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2z_ttI27QHZ4Gk9RgOjANdXl6fns3Awj7rJF5ZbGM2-Tl4xmnykr_-8DBNoxxe_wE83OHkWnEklEVhJruwPDHcU5Ed19RT9Yy_xG86pExMCp_OWt856z0GVfgbTO3Dwl39079fxY-fT0d1LSFYFSk6NbBSuJtDGldG8dPtbOu6wHVQhGm07wdKGvx0jU/s320/images.jpg 


        Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:

        “As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que ser­viu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”

        Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apai­xonado a um escritor?

        Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é dife­rente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...

        Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas. Puro front! Vejam só este período:

        “As nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”

        Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligên­cias entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito. Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.

        Continuei a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks, corners; mas havia uma “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de marinha: revolver vem de “revolver”, português, e commodoro de “comandante”.

        Passei o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava, não no ground; mas nas colunas jornalísticas.

        O órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!

        Esta minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que havia algum gênio mau que queria, com as histórias de football, dar-me tenebrosas apreensões.

        Há dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator do Parafuso e não menos valente diretor da A Rolha, mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe agradeci do fundo d’alma.

        Todos os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas, relendo o número de 14 de julho, da Rolha, fui dar com a sua seção “esportiva”.

        Tinha jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado naquele número da Rolha porque vi o título da crônica – “Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já tratei, foi nos pri­meiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem ti­vera notícias, e isso é tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós tínhamos os olhos vol­tados para ele. Leiam isto:

        “Rio versus São Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivésse­mos festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças ainda mal de­sabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca... Nas redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para jantares. Tudo isso... porque depois de dezoito anos de lutas o famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”

        Meu caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem al­cance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!

Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – O que leva o narrador, que afirma nunca ter sido partidário de esportes, a ler com atenção as notícias esportivas na imprensa?

      O narrador explica que lê sobre esportes apenas quando passa longos dias em casa devido a uma reclusão a qual se impõe voluntariamente. Nessas ocasiões de isolamento, seu hábito de ler os jornais "de cabo a rabo" faz com que acabe cruzando com essas editorias, gerando uma curiosidade momentânea sobre a repercussão pública dessas disputas.

 

02 – Qual foi a primeira reação do autor ao deparar-se com os títulos espalhafatosos e com a seriedade dos textos sobre a partida entre cariocas e paulistas?

      Inicialmente, o autor reagiu com um sorriso irônico, pensando que aqueles rapazes estavam fazendo "muito barulho por pouca coisa" (Much ado about nothing). No entanto, ao avançar na leitura e deparar-se com trechos que tratavam o jogo de forma excessivamente grave e passional, ele demonstrou grande espanto por ver um mero divertimento tratado com tanta hostilidade e combatividade.

 

03 – Que contraste o cronista estabelece entre o futebol praticado no Brasil e o esporte praticado nos Estados Unidos, conforme sua leitura de Jules Huret?

      O cronista reconhece que nos Estados Unidos, a partida anual entre Harvard e Yale é uma verdadeira batalha violenta — que envolve ambulâncias, feridos e até mortos —, reflexo do temperamento e do ambiente brutal do país e de seus ginásios. Em contrapartida, ele se espanta ao ver que, no Brasil, um esporte teoricamente lúdico e pacífico ("um jogo de bola jogado com os pés") também gerasse tanta paixão, ódios e termos bélicos na imprensa.

 

04 – O que o narrador pensa sobre o uso de termos estrangeiros na crônica esportiva e que curiosidade histórica ele aponta sobre isso?

      O narrador confessa não entender nada da terminologia técnica do esporte, achando que o texto parecia escrito em inglês devido ao uso excessivo de vocábulos como backs, forwards, kicks e corners. Ele diverte-se apenas com a palavra abrasileirada "chutada". Como reflexão histórica, ele observa que a adoção de termos estrangeiros não é de estranhar, lembrando que Portugal sempre esteve ligado à Inglaterra e incorporou termos marítimos britânicos ao seu vocabulário ao longo dos séculos.

 

05 – Qual foi a ofensa velada publicada por um jornal de São Paulo que provocou a indignação bem-humorada do autor?

      O jornal paulista publicou que os jogadores cariocas não eram propriamente "cariocas", mas sim "hebreus, curdos, anamitas", numa tentativa pejorativa de desqualificá-los. O autor reagiu com humor e espanto, afirmando que podia aceitar diversas origens ancestrais de sua árvore genealógica, mas recusava veementemente ser chamado de judeu ("Nem com dois milhões de contos!"), o que o levou a abandonar momentaneamente a leitura daquela seção.

 

06 – O que o semanário paulista A Rolha afirmava de forma exagerada sobre o clima na capital federal após a vitória do scratch carioca?

      O semanário ironizava o clima do Rio de Janeiro exagerando que a cidade estaria em festa máxima — com salvas de fortificações, bandas de música e champanhe correndo a rodo nas ruas —, como se a vitória do time carioca após dezoito anos de derrotas fosse o maior acontecimento histórico do mundo, envolvendo o júbilo de mais de um milhão de habitantes de todas as idades.

 

07 – A qual episódio histórico o autor faz referência ao comparar o fanatismo clubístico e qual conclusão final ele chega sobre os perigos reais dessas rivalidades?

      O autor faz referência ao Império Bizantino no tempo de Justiniano, época em que as disputas entre as facções de circo ("azuis e verdes") eram capazes de colocar o império em perigo. Contudo, concluindo sua crônica de forma irônica e aliviada, ele avalia que, no Rio de Janeiro, o fanatismo pelo futebol não passa de um divertimento infantil e restrito aos jornais, garantindo que a sociedade está livre de uma guerra civil ou de secessão por causa de uma partida de bola.

 

 

CRÔNICA: AS FORMIGAS E O PREFEITO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: AS FORMIGAS E O PREFEITO

             Lima Barreto

 

        Esse negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram sofrer, ao         tempo em que se improvisou agricultor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTxDmIfMQrL4Rpki6jmvup9vh4p3fe3-nfOkO6KRDQCfKIz0eGFrkcIxg2YQDwX9_gLfelwEx5kZ_HJ8XAafTpeY8XJvDaz3cywW_366DcOdSW4_ygjUMNAshanx70dRvoiPmXWDi5oZDQZKsoFfqeO3rMpkrfbI6chdf7jOD3IBgvlw4arAJRtLFebPw/s320/images.jpg
 

        Já narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.

        De uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insetos; e, se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.

        O senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto, sobremodo importante para todas espécies de cultura.

        Não li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.

        Sem ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.

        Essa velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente quem deve ma­tar as formigas.

        A lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra, as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras plantações.

        Nada entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...

        O senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que ocupam tal ou qual terreno.

        Podia o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não precisava brigadas: bastava um re­gimento de homens afeitos ao mister de extinguir formiguei­ros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os servi­ços deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.

        Não se faz e se fez isso com os mosquitos?

        Poder-se-ia, penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.

        Então, desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários com todo o rigor da lei.

        Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, es­tava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.

Lanterna, Rio, 4-5-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador introduz a sua preocupação com as saúvas e qual é a figura literária do próprio autor que ressurge nessa lembrança?

      O narrador revela que a preocupação com as formigas saúvas vem desde a infância, período em que ouviu o seu velho amigo Policarpo Quaresma narrar os suplícios sofridos por elas ao tentar se tornar agricultor. Essa menção resgata diretamente o protagonista do romance mais famoso de Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), servindo de gancho nostálgico e afetivo para introduzir a discussão sobre o combate a esses insetos.

 02 – Qual é a avaliação que o cronista faz sobre a nova medida adotada pelo senhor prefeito a respeito dos formigueiros?

      O cronista reconhece a importância do tema para a agricultura, mas aponta que a nova medida — um regulamento baixado pelo prefeito que obriga o proprietário, o arrendatário ou o locatário a extinguir os formigueiros — é ineficaz. Para ele, o texto legal repete o erro de velhas posturas municipais ao não definir com precisão de quem é a responsabilidade direta pela execução da tarefa.

 03 – Por que, segundo o texto, a indefinição da lei favorece a proliferação contínua das saúvas?

      A indefinição da lei gera o famoso "jogo de empurra". Como o regulamento cita três figuras diferentes ligadas ao terreno (o proprietário, o arrendatário e o locatário) sem apontar um culpado exclusivo, cada um transfere a obrigação para o outro. Enquanto os envolvidos discutem e evitam assumir o encargo, as formigas permanecem em paz, destruindo hortas, pomares e jardins sem qualquer interferência.

 04 – Como o narrador define sua própria relação ideológica com as leis e de que maneira ele ironiza essa posição no contexto da crônica?

      O narrador afirma de forma bem-humorada que nada entende de leis e que é radicalmente contra elas, considerando-se de algum modo um "maximalista". Contudo, ele ironiza sua própria postura ao dizer que está disposto a transigir e ceder exceções naquele momento específico, demonstrando que, apesar de sua repulsa teórica às normas, reconhece a necessidade de regras claras para solucionar problemas práticos da sociedade.

 05 – Qual é a solução prática e inovadora sugerida pelo cronista para que o poder público realmente ajude a combater as formigas na cidade?

      O cronista sugere que o governo municipal vá além da exigência legal e organize uma brigada ou um regimento de trabalhadores especializados na extinção de formigueiros. Esses profissionais deveriam ser acantonados em zonas críticas e oferecer seus serviços mediante um pagamento módico aos cidadãos que têm a obrigação legal de limpar seus terrenos, facilitando o extermínio prático dos insetos.

 06 – Qual analogia o autor utiliza para defender a viabilidade de sua proposta de combate às saúvas pela prefeitura?

      Para fundamentar sua ideia, o autor faz uma analogia direta com as medidas de saúde pública adotadas contra os mosquitos. Ele questiona se o mesmo esforço prático e organizado que já se fazia (e se faz) no combate aos vetores de doenças não poderia ser modestamente replicado para guerrear as formigas nas zonas urbanas e suburbanas.

 07 – Que motivos pessoais o próprio narrador utiliza para justificar o fato de não eliminar os formigueiros localizados em sua própria residência?

      Morando em uma pequena chácara no bairro de Todos os Santos com o porão cheio de formigueiros, o narrador justifica sua inércia com dois argumentos principais: primeiro, porque não sabe como matar formigas e desconhece quem saiba fazê-lo; segundo, porque mesmo que soubesse eliminá-las de forma humanitária, a ambiguidade da lei o faria preferir "empurrar a bucha" para o proprietário do imóvel, já que este detém maior poder financeiro ou jurídico.