terça-feira, 30 de abril de 2019

MÚSICA: ÚLTIMO DESEJO -(NOEL ROSA) COM MARTINHO DA VILA - COM QUESTÕES GABARITADAS


Música: Último Desejo
                 Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João

Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar

Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

                                                  Composição: Noel Rosa
Entendendo a canção:

01 – Baseando-se na letra da música Último Desejo, assinale a alternativa correta.
a)   O último desejo do narrador é mais um beijo da mulher amada.
b)   O poeta tem receio de que a mulher passe a falar mal dele para as pessoas em geral.
c)   Se a conjunção “mas” (no oitavo verso) fosse trocada por “pois”, não haveria alteração de sentido.
d)   Os termos “foguete”, “luar” e “violão” remetem ao clima da festa de São João, quando começou o romance entre o narrador e sua amada.
e)   O narrador deseja que a mulher o deteste, pois ele não presta e admite isso.

02 – Leia os versos a seguir, da canção “Último Desejo”, de Noel Rosa, confrontando o valor semântico das conjunções integrantes destacadas. “Se alguma pessoa amiga
                     Pedir que você lhe diga
                     Se você me quer ou não
                     Diga que você me adora
                     Que você lamenta e chora
                     A nossa separação”.

Que diferença de sentido há entre elas nesse contexto?
      O emprego da conjunção se imprime à oração o valor semântico de incerteza; o emprego do que, o sentido de certeza.

ROMANCE: TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA - (FRAGMENTO) - LIMA BARRETO


Romance: Triste fim de Policarpo Quaresma
                     
                       Fragmento 

                                  Lima Barreto
        [...]
        Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. Pois ele, o Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste fim?
        De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos, que venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas coisas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia.
        Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo cálculo aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
        Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.
        Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou claro, franca e nitidamente.
        Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
        O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente honrosa.
        Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixará de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
        Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
        O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.

                                             São Paulo: Saraiva, 2007. p. 199-201.
Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo;
·        Desora: tarde da noite, altas horas.
·        Feraz: muito produtivo, fecundo, fértil.
·        Fruir: desfrutar, aproveitar, gozar.
·        Mofa: zombaria, troça.
·        Pandegar: viver em festa.

02 – Policarpo Quaresma participava como voluntário na Revolta da Armada, ao lado de Floriano Peixoto, quando foi preso. De acordo com as pistas do texto, levante hipóteses:
a)   Por que Quaresma foi preso?
Por ter feito uma crítica ao modo como os presos eram tratados na prisão.

b)   O que provavelmente ele viu na prisão, e o teria levado a escrever a carta-denúncia?
Ele vira presos serem levados para serem fuzilados às escondidas.

c)   Como Quaresma supõe que Floriano Peixoto interpretou essa iniciativa dele?
Como traição.

03 – Na prisão, Quaresma faz uma retrospectiva e uma avaliação de sua vida, de sua conduta e de seus valores. A que conclusão chega?
      Ele chega à conclusão de que tudo fora inútil, pois não houve reconhecimento de seus esforços pelo bem do Brasil.

04 – Observe estes fragmentos do texto:
          “E, agora estava na velhice, como ela (a pátria) o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o.”
          “Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras?”

a)   Nesses fragmentos, a quem Quaresma atribui a responsabilidade, respectivamente, por sua prisão e pela violência da guerra?
À pátria e ao povo.

b)   Quem, na verdade, tinha responsabilidade por tais ocorrências?
O governo do Marechal Floriano.

c)   Apesar de Quaresma fazer uma autocrítica, que característica da personagem ainda se mantém nesses fragmentos?
A ingenuidade.

05 – No texto, é empregada a técnica do discurso indireto livre. Identifique um trecho em que tal recurso foi utilizado e explique o efeito de sentido que ele provoca no texto.
      Entre outros: “Como acabarei? Como acabarei?”. O emprego do discurso indireto livre permite retratar de modo mais aprofundado o estado psicológico de Quaresma na prisão.

06 – No final do texto se lê: “A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções”. Explique a diferença de sentido entre “série de decepções” e “encadeamento de decepções”.
      “Série de decepções” dá uma noção de sequência, apenas. Já “Encadeamento de decepções” dá uma ideia de causa e efeito, isto é, uma decepção leva a outra, e assim sucessivamente.

07 – Policarpo Quaresma, muitas vezes associado a D. Quixote, personagem de Miguel de Cervantes, é um típico herói problemático. Explique por quê?
      Porque era um idealista, um visionário, que se frustra ao ver que seus projetos não são compatíveis com a realidade do país.

08 – Pode-se dizer que o romance Triste fim de Policarpo Quaresma faz uma crítica à sociedade da época. Qual é o alvo dessa crítica?
      Entre outras possibilidades: por um lado, o nacionalismo ingênuo e desprovido de críticas cultivado por algumas pessoas e grupos sociais; por outro lado, o autoritarismo e a falta de valores éticos e morais dos governantes.



CRÔNICA: URUPÊS - FRAGMENTO - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

Crônica: Urupês – fragmento
         
     Monteiro Lobato
        [...]
        Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.
        Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d'esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
        "Não vê que...
        De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.
        De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquentá-lo", imitado da mulher e da prole.
        Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.
        Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.
        Pobre Jéca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
        Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo...
        Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.
        Nada Mais.
        Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.
        Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.
        Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas - para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?
        Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?
        No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.
        Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhos, um que traz no uso e outro na lavagem.
        Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.
        Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, ali pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.
        Da parede pende a espingarda pica-pau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.
        Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.
        Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.
        Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante...
        Remendo... Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam "apenas " nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.
        Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas consequências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.
        -- Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
        -- Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?
        Não obstante, "por via das dúvidas", quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.
        Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
        Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.
        Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque...
        -- "Mas, criatura, com um vedozinho por ali... A madeira está à mão, o cipó é tanto..."
        Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
        -- "Não paga a pena".
        Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.
        [...].

                         22. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978. p. 147-50.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
·        Biboca: casa pequena, com cobertura de palha.
·        Bosquímano: relativo aos bosquímanos, povo sul-africano.
·        Espipado: repuxado.
·        Gamela: vasilha de madeira ou de barro.
·        Grulhar: tagarelar.
·        Modorra: prostração, preguiça.

02 – O texto descreve Jéca Tatu em três papéis: o de mercador, o de lavrador e o de filósofo. Como se sai Jéca nesses papéis?
      Sai-se mal, pois não planta (o lavrador), só vende o que a natureza oferece (o mercador) e pensa (o filósofo) que “nada paga a pena”, pois a terra não é sua.

03 – Que comportamentos de Jéca comprovam a afirmação do narrador de que “Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço?
      O fato de consumir e vender apenas o que a natureza oferece e de não promover melhorias em sua casa.

04 – O Romantismo brasileiro, em sua vertente regionalista, enalteceu o homem rural, tanto o do Sul quanto o do Norte, idealizando-o como herói. A personagem Jéca Tatu, de Lobato, confirma ou nega o tratamento romântico dado ao homem rural?
      Nega, pois Jéca é o oposto do herói romântico. Lobato prega um nacionalismo crítico.

05 – Em suas obras, Lobato busca compreender as causas do comportamento desinteressado do caboclo paulista e acaba atribuindo à preguiça a responsabilidade principal. Contudo, o narrador, ou o próprio Lobato, afirma no texto lido: “Nada revelador de permanência”. Conforme esse dado com o texto que segue, do crítico Silviano Santiago:

        “Para se chegar ao diagnóstico sobre o atraso do Jéca Tatu, o médico [Lobato] neutralizou os efeitos nocivos causados por ele e seus pares na constituição do miserável objeto de estudo e, por isso, Lobato posava de libertador do povo e, no entanto, era injusto e impiedoso para com esse povo. Lobato se esqueceu de que ele e demais latifundiários amigos eram os verdadeiros parasitas dos antepassados dos atuais agregados, como o tinham sido dos velhos escravos. É na condição de também parasita que competia a ele diagnosticar os males do caboclo-parasita. Os defeitos do explorador do trabalho alheio (do latifundiário) se escondem para que mais salientem a indolência do explorado (do caboclo).”
                                   Um dínamo em movimento. Folha de São Paulo, 28/6/1998.

a)   Relacionando o comentário de Lobato ao do crítico Silviano Santiago, responda: Que outra causa social é responsável pela falta de apego do caboclo à terra?
A falta de uma reforma agrária que garantisse a posse da terra ao pequeno trabalhador rural.

b)   Explique este trecho de Silviano Santiago: “Lobato posava de libertador do povo e, no entanto, era injusto e impiedoso para com esse povo.”
Lobato gostaria de modificar o comportamento do caboclo e libertá-lo de sua inércia, porém, deixa de lembrar que há outras causas, sociais, responsáveis por esse comportamento, entre as quais a má distribuição de terras.

POEMA: CANTIGA DE AMIGO - MARTIM CODAX - QUESTÕES GABARITADAS


Poema: Cantiga de amigo
  
            Martim Codax

Ondas do mar de Vigo,
Se vistes meu amigo!
E ai, Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
Se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
O por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
Por que hei gram cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!

                                    In: Elsa Gonçalves. Op. cit. pág. 261.

Entendendo o poema:

01 – Qual a semelhança mais evidente entre esse poema e o poema de Cacaso?
      A semelhança mais evidente entre os dois, é a repetição de versos e o uso de refrão.

02 – A voz que fala na cantiga é uma voz masculina ou feminina?
      A voz que fala no poema é de uma mulher.

03 – A quem essa voz se dirige?
      Ela dirige-se às ondas do mar, na baía de Vigo.

04 – Qual a sua insistente pergunta?
      Ela pergunta se as ondas viram seu namorado.

05 – Qual o desejo expresso no refrão?
      No refrão a moça exprime o desejo de que o namorado retorne brevemente.



TEXTO: A SURPRESA PAULISTA - REVISTA OS CAMINHOS DA TERRA - COM GABARITO


Texto: A surpresa paulista

           Metade das cidades campeãs de preservação de mata Atlântica está em São Paulo

        O estado com a maior população, indústria e desenvolvimento da nação é aquele que tem a maior quantidade de municípios entre os campeões de preservação da mata Atlântica. Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisas Espaciais e pela organização S.O.S. Mata Atlântica revelou que cinco cidades paulistanas figuram entre as “Top 10” com maior área preservada da floresta que recobria a costa e parte do interior brasileiro do Sul ao Nordeste quando os portugueses aqui chegaram, em 1500. O município campeão é Ilhabela, no litoral norte, com 92% da sua mata Atlântica original. Mas, segundo os especialistas da S.O.S. Mata Atlântica, não há motivos para ninguém comemorar. No geral, o estado de São Paulo mantém apenas 15% da superfície original da floresta. Esse número é ainda pior para o resto do Brasil: 7,6%.
                                       Revista Os Caminhos da Terra. Ago. 2004.

Entendendo o texto:

01 – Em seu caderno escreva os verbos do texto que indicam processos atuais (presente) e os verbos que indicam processos que já aconteceram (passado)
      Atuais: é; tem; figuram; é; há; mantém; é.
      Passado: revelou; recobria; chegaram.

02 – Baseando nos verbos que você encontrou no item anterior, compare a porcentagem de mata Atlântica atual com a do passado.
      As estatísticas revelaram que o município de Ilhabela tem ainda hoje 92% da mata Atlântica original; o estado de São Paulo mantém apenas 15% e no restante do Brasil é pior: a superfície original da floresta é de apenas 7,6%.

03 – Entre os verbos que você encontrou, há verbos que indicam estado ou mudança de estado?
      Estado: é.

04 – Qual o sentido do verbo haver, escrito na forma há, no trecho: “Não há motivos para ninguém comemorar”? Reescreva no caderno a frase, substituindo esse verbo por outro com o mesmo sentido.
      indica existência, e pode ser substituído por existem.

05 – Pelo sentido geral do texto, você consegue explicar o que é uma cidade “Top 10”?
      Resposta pessoal do aluno.

domingo, 28 de abril de 2019

MÚSICA: CAMBAIO - CHICO BUARQUE - COM QUESTÕES GABARITADAS


Música: Cambaio
            
  Chico Buarque

Eu quero moça que me deixe perdido
Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha ideia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia

Desejo a moça prestes
A transformar-se em flor
A se tornar um luxo
Pro seu novo amor
Moça que vira bicho


Que é de fechar bordel
Que ateia fogo às vestes
Na lua-de-mel

Eu quero moça que me deixe maluco
Moça disposta a me deixar no bagaço
Essa moça zanzando na minha raia
Eu quero moça que me chame na chincha
Com sua flecha que me crave um buraco
Na cabeça e não saia
Que não abaixe a fronte
Que vai por onde quer
Que segue pelo cheiro
Quero essa mulher
Que é de rasgar dinheiro
Marido detonar
Se arremessar da ponte
E me carregar

Vejo fulana a festejar na revista
Vejo beltrana a bordejar no pedaço
Divinais garotas
Belas donzelas no salão de beleza
Altas gazelas nos jardins do palácio
Eu sou mais as putas.

                                    
Compositor: Chico Buarque & Edu Lobo.
                    Chico Buarque. Tantas palavras. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 420.

Entendendo a canção:
01 – A estrutura linguística desses versos lembra a de outro gênero textual.
a)   Qual é esse gênero?
O anúncio publicitário.

b)   Que papel a moça procurada desempenharia naquele gênero e na canção?
No gênero anúncio publicitário, a moça seria procurada para trabalhar; na canção, ela é procurada para ser o amor do eu lírico.

02 – Os versos fazem uso de orações adjetivas. Identifique-as e classifique-as.
      “Que me deixe perdido”; “Que me deixe pasmado”; “Que me deixe zarolho”; “Que me deixe cambaio” – Orações subordinadas adjetivas restritivas.
      “Zoando na minha ideia”; “Me fervendo na veia” – Orações subordinadas adjetivas reduzidas de gerúndio.

03 – O que justifica o emprego recorrente de orações adjetivas nessa canção?
      A recorrência se justifica porque as orações adjetivas restritivas restringem o perfil de moça que é procurada; ou seja, para ser a escolhida pelo eu lírico, a moça deve ter os atributos indicados pelas orações adjetivas.

ROMANCE: MACUNAÍMA - PIAIMÃ - FRAGMENTO - MÁRIO DE ANDRADE - COM GABARITO


Romance: MacunaímaPIAIMÃ – Fragmento 
             
     Mário de Andrade

        No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até a foz do Rio Negro pra deixar a consciência na ilha de Marapatá. Deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas. Voltou pro lugar onde os manos esperavam e no pino do dia os três rumaram pra margem esquerda da Sol.
        Muitos casos sucederam nessa viagem por caatingas rios corredeiras, gerais, corgos, corredores de tabatinga matos virgens e milagres do sertão. Macunaíma vinha com os dois manos pra São Paulo. Foi o Araguaia que facilitou-lhes a viagem. Por tantas conquistas e tantos feitos passados o herói não ajuntara um vintém só mas os tesouros herdados da icamiaba estrela estavam escondidos nas grunhas do Roraima lá. Desses tesouros Macunaíma apartou pra viagem nada menos de quarenta vezes quarenta milhões de bagos de cacau, a moeda tradicional. Calculou com eles um dilúvio de embarcações. E ficou lindo trepando pelo Araguaia aquele poder de igaras duma em uma duzentas em ajojo que-nem flecha na pele do rio. Na frente Macunaíma vinha de pé, carrancudo, procurando no longe a cidade. Matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela. Os manos remavam espantando os mosquitos e cada arranco dos remos repercutindo nas duzentas igaras ligadas, despejava uma batelada de bagos na pele do rio, deixando uma esteira de chocolate onde os camuatás pirapitingas dourados piracanjubas uarus-uarás e bacus de regalavam.
        Uma feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível por causa das piranhas tão vorazes que de quando em quando na luta pra pegar um naco de irmã espedaçada, pulavam aos cachos pra fora d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a marca dum pé-gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira.  Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.
        Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar com a cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:
        -- Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz.
        Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tupanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa. Macunaíma teve dó e consolou:
        -- Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu nosso tio Judas!
        E estava lindíssimo na Sol da Lapa os três manos um louro um vermelho outro negro, de pé bem erguidos e nus. Todos os seres do mato espiavam assombrados. O jacareúna o jacaretinga o jacaré-açu o jacaré-ururau de papo amarelo, todos esses jacarés botaram os olhos de rochedo pra fora d’água. Nos ramos das ingazeiras das aningas das mamoramas das embaúbas dos catauaris de beira-rio o macaco-prego o macaco-de-cheiro o guariba o bugio o cuatá o barrigudo o coxiú o cairara, todos os quarenta macacos do Brasil, todos, espiavam babando de inveja. E os sabiás, o o sabiacica o sabiapoca o sabiaúna o sabiapiranga o sabiagongá que quando come não me dá, o sabiá-barranco o sabiá-tropeiro o sabiá-laranjeira o sabiá-gute todos eles ficaram pasmos e esqueceram de acabar o trinado, vozeando vozeando com eloquência. Macunaíma teve ódio. Botou as mãos nas ancas e gritou pra natureza:
        -- Nunca viu não!
        Então os seres naturais debandavam vivendo e os três manos seguiram caminho outra vez.
        Porém entrando nas terras do Igarapé Tietê adonde o burbom vogava e a moeda tradicional não era mais cacau, em vez, chamva arame contos contecos milréis borós tostão duzentorréis quinhentorréis, cinquenta paus, noventa bagarotes, e pelegas cobres xenxéns caraminguás selos bicos-de-coruja massuni bolada calcáreo gimbra siridó bicha e pataracos, assim, adonde até liga pra meia ninguém comprava nem por vinte mil cacaus. Macunaíma ficou muito contrariado. Ter de trabucar, ele, herói... Murmurou desolado:
        -- Ai! Que preguiça! ...

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter.
Ed. Crítica de Telê Porto A. Lopez. Rio de Janeiro/São Paulo:
Livros Técnicos e Científicos/Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia. p. 33-4.

Entendendo o romance:
01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo.
·        Abicar: fazer chegar a proa da embarcação em terra.

·        Sumé: na mitologia dos índios Tupis e Guaranis, homem branco, barbado, que teria vivido entre os índios antes da chegada dos portugueses e que lhes havia transmitido uma série de ensinamentos. Os Jesuítas associaram essa figura a São Tomé, apóstolo que teria feito pregações ao redor do mundo, inclusive na América.

·        Burbom: café ou cafeeiro.

·        Grunha: parte côncava nas serras.

·        Icamiaba: referência a Ci, líder das índias icamiabas, com quem Macunaíma se casara e que virou estrela depois de morrer.

·        Igara: canoa escavada em um tronco de árvore.

·        Trabucar: trabalhar, labutar.

·        Lapa: grande pedra ou laje; gruta.

·        Ubá: o mesmo que cana-do-rio; planta da família das gramíneas que atinge até 10 metros de altura.

02 – Em Macunaíma, Mário de Andrade procurou fazer uso de uma “língua brasileira”, síntese da fusão do português com dialetos indígenas e africanos, mesclada de inúmeras variações linguísticas, com regionalismos, expressões coloquiais, estrangeirismos, etc.
Troque ideias com os colegas e tente descobrir a origem destas palavras e expressões:
a)   Ubá, Marapatá, mandacaru, tabatinga, igara, pirapitinga.
Origem indígena.

b)   Deu uma chegada, que-nem flecha, feito maluco, antes fanhoso que sem nariz, cinquenta paus, bolada.
Origem popular.

c)   Não se avexe.
Origem regional, nordestina.

d)   Burbom.
Origem na língua inglesa.

03 – Antes de escrever Macunaíma, Mário de Andrade viajou pelo Brasil, pesquisou e fez anotações relativas a diversos elementos da geografia, da fauna, da flora e da cultura das diferentes regiões do país. De que modo essa pesquisa se revela no trecho lido?
      Revela-se na aproximação de pontos geográficos distantes, como Rio Negro e São Paulo; na citação do nome de inúmeros peixes, aves e plantas típicos da natureza brasileira; na citação da lenda de Sumé.

04 – Observe o trecho em que os três irmãos se banham na água da cova feita pelo pé de Sumé.
a)   O que se explica, nessa cena, de forma folclórica?
A origem do negro, do índio e do branco, ou seja, as diferenças éticas no Brasil.

b)   Apesar de Jiguê ter se lavado, ele “só conseguiu ficar da cor do bronze novo”. E Macunaíma lhe diz: “branco você ficou não, porém pretume foi-se e antes fanhoso que sem nariz”. Na sua opinião, essa fala de Macunaíma é preconceituosa? Justifique sua resposta.
Resposta pessoal do aluno.

05 – Macunaíma é o imperador da mata virgem. Como tal, imagina chegar a São Paulo com muito cacau – que na floresta equivalia a dinheiro – e liderando uma comitiva de duzentas canoas.
a)   Na realidade, com quantas canoas Macunaíma chega à capital paulista?
Chega numa única canoa, acompanhado pelos irmãos.

b)   Que valor tinha na cidade o cacau que Macunaíma trouxera?
Nenhum valor.

c)   Como se posiciona Macunaíma diante da necessidade de trabalhar?
Não sente nenhuma vontade de trabalhar; mostra-se preguiçoso.

06 – As preocupações reveladas na obra Macunaíma quanto à busca dos elementos da paisagem nacional – a fauna, a flora, o homem, a língua e as tradições da cultura brasileira – lembram o projeto nacionalista do Romantismo. Comparando Macunaíma às obras indianistas românticas, responda:
a)   A personagem Macunaíma pode ser considerado um herói igual aos do Romantismo? Por quê?
Não. Macunaíma é uma espécie de anti-herói.

b)   Como conclusão do estudo feito, responda: O nacionalismo presente em Macunaíma é igual ao das obras do Romantismo? Justifique sua resposta.
Não. Mário procura valorizar os elementos nacionais, mas a partir de uma perspectiva crítica, mostrando as contradições tanto da realidade nacional quanto do homem brasileiro.