domingo, 8 de julho de 2018

CRÔNICA: PROTESTO TÍMIDO - FERNANDO SABINO - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO


Crônica: PROTESTO TÍMIDO
  
                                         Fernando Sabino


      Ainda há pouco eu vinha para casa a pé, feliz da minha vida e faltavam dez minutos para a meia-noite. Perto da Praça General Osório, olhei para o lado e vi, junto à parede, antes da esquina, algo que me pareceu uma trouxa de roupa, um saco de lixo. Alguns passos mais e pude ver que era um menino.
        Escurinho, de seus seis ou sete anos, não mais. Deitado de lado, braços dobrados como dois gravetos, as mãos protegendo a cabeça. Tinha os gambitos também encolhidos e enfiados dentro da camisa de meia esburacada, para se defender contra o frio da noite. Estava dormindo, como podia estar morto. Outros, como eu, iam passando, sem tomar conhecimento de sua existência. Não era um ser humano, era um bicho, um saco de lixo mesmo, um traste inútil, abandonado sobre a calçada. Um menor abandonado.
        Quem nunca viu um menor abandonado? A cinco passos, na casa de sucos de frutas, vários casais de jovens tomavam sucos de frutas, alguns mastigavam sanduíches. Além, na esquina da praça, o carro da radiopatrulha estacionado, dois boinas-pretas conversando do lado de fora. Ninguém tomava conhecimento da existência do menino.
        Segundo as estatísticas, como ele existem nada menos que 25 milhões no Brasil, que se pode fazer? Qual seria a reação do menino se eu o acordasse para lhe dar todo o dinheiro que trazia no bolso? Resolveria o seu problema? O problema do menor abandonado? A injustiça social?
        (....)
        Vinte e cinco milhões de menores – um dado abstrato, que a imaginação não alcança. Um menino sem pai nem mãe, sem o que comer nem onde dormir – isto é um menor abandonado. Para entender, só mesmo imaginando meu filho largado no mundo aos seis, oito ou dez anos de idade, sem ter para onde ir nem para quem apelar. Imagino que ele venha a ser um desses que se esgueiram como ratos em torno aos botequins e lanchonetes e nos importunam cutucando-nos de leve – gesto que nos desperta mal contida irritação – para nos pedir um trocado. Não temos disposição sequer para olhá-lo e simplesmente o atendemos (ou não) para nos livrarmos depressa de sua incômoda presença. Com o sentimento que sufocamos no coração, escreveríamos toda a obra de Dickens. Mas estamos em pleno século XX, vivendo a era do progresso para o Brasil, conquistando um futuro melhor para os nossos filhos. Até lá, que o menor abandonado não chateie, isto é problema para o juizado de menores. Mesmo porque são todos delinquentes, pivetes na escola do crime, cedo terminarão na cadeia ou crivados de balas pelo Esquadrão da Morte.
        Pode ser. Mas a verdade é que hoje eu vi meu filho dormindo na rua, exposto ao frio da noite, e além de nada ter feito por ele, ainda o confundi com um monte de lixo.

Entendendo o crônica:     
   
01 – Uma crônica, como a que você acaba de ler, tem como melhor definição:
(A) registro de fatos históricos em ordem cronológica;
(B) pequeno texto descritivo geralmente baseado em fatos do cotidiano;
(C) seção ou coluna de jornal sobre tema especializado;
(D) texto narrativo de pequena extensão, de conteúdo e estrutura bastante variados;
(E) pequeno conto com comentários, sobre temas atuais.

02 – O texto começa com os tempos verbais no pretérito imperfeito – vinha, faltavam – e, depois, ocorre a mudança para o pretérito perfeito – olhei, vi etc.; essa mudança marca a passagem:
(A) do passado para o presente;
(B) da descrição para a narração;
(C) do impessoal para o pessoal;
(D) do geral para o específico;
(E) do positivo para o negativo.

03 – “...olhei para o lado e vi, junto à parede, antes da esquina, ALGO que me pareceu uma trouxa de roupa...”; o uso do termo destacado se deve a que:
(A) o autor pretende comparar o menino a uma coisa;
(B) o cronista antecipa a visão do menor abandonado como um traste inútil;
(C) a situação do fato não permite a perfeita identificação do menino;
(D) esse pronome indefinido tem valor pejorativo;
(E) o emprego desse pronome ocorre em relação a coisas ou a pessoas.

04 – “Ainda há pouco eu vinha para casa a pé, ...”; veja as quatro frases a seguir:
I – Daqui há pouco vou sair.
II – Está no Rio há duas semanas.
III – Não almoço há cerca de três dias.
IV – Estamos há cerca de três dias de nosso destino.
As frases que apresentam corretamente o emprego do verbo haver são:
(A) I – II
(B) I - III
(C) II - IV
(D) I - IV
(E) II – III

05 – O comentário correto sobre os elementos do primeiro parágrafo do texto é:
(A) o cronista situa no tempo e no espaço os acontecimentos abordados na crônica;
(B) o cronista sofre uma limitação psicológica ao ver o menino abandonado;
(C) a semelhança entre o menino abandonado e uma trouxa de roupa é a sujeira;
(D) a localização do fato perto da meia-noite não tem importância para o texto;
(E) os fatos abordados nesse parágrafo já justificam o título da crônica.

06 – Boinas-pretas é um substantivo composto que faz o plural da mesma forma que:
(A) salvo-conduto;
(B) abaixo-assinado;
(C) salário-família;
(D) banana-prata;
(E) alto-falante.

07 – A descrição do menino abandonado é feita no segundo parágrafo do texto; o que NÃO se pode dizer do processo empregado para isso é que o autor:
(A) se utiliza de comparações depreciativas;
(B) lança mão de vocábulo animalizador;
(C) centraliza sua atenção nos aspectos físicos do menino;
(D) mostra precisão em todos os dados fornecidos;
(E) usa grande número de termos adjetivadores.

08 – “Estava dormindo, como podia estar morto”; esse segmento do texto significa que:
(A) a aparência do menino não permitia saber se dormia ou estava morto;
(B) a posição do menino era idêntica à de um morto;
(C) para os transeuntes, não fazia diferença estar o menino dormindo ou morto;
(D) não havia diferença, para a descrição feita, se o menino estava dormindo ou morto;
(E) o cronista não sabia sobre a real situação do menino.

09 – Alguns textos, como este, trazem referências de outros momentos históricos de nosso país; o segmento do texto em que isso ocorre é:
(A) “Perto da Praça General Osório, olhei para o lado e vi...”;
(B) “...ou crivados de balas pelo Esquadrão da Morte”;
(C) “...escreveríamos toda a obra de Dickens”;
(D) “...isto é problema para o juizado de menores”;
(E) “Escurinho, de seus seis ou sete anos, não mais”.

10 – “... era um bicho...”; a figura de linguagem presente neste segmento do texto é uma:
(A) metonímia;
(B) comparação ou símile;
(C) metáfora;
(D) prosopopeia;
(E) personificação.



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