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quinta-feira, 9 de julho de 2026

CRÔNICA: O CEGO E O DINHEIRO ENTERRADO - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Crônica: O CEGO E O DINHEIRO ENTERRADO

              Luís da Câmara Cascudo

 

        Um cego, muito econômico, guardava suas moedas em casa e, temendo os ladrões, resolveu esconder seu tesouro no quintal. Cavou um buraco ao pé de uma árvore, debaixo da raiz, e deixou seu dinheiro bem disfarçado.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiCFZK0g09nvHhFmeNCTbhZr4MPEiJuDFTnPR8fNqiA1dZ_nXb2qSoKrOMK-TMvje8dFO32kffwvQZ1PCChD1msQzeVyiTes8EIHaO66AZ-IOvUAuO9EZCMXRhpPkSdVYDDPQoXMx9mpLOk7gIT6UHjyK_8w8V-IaoOIbDJb7Rv6n50cc6_deNlvK96IJ4/s320/images.jpg


        Sucedeu que um vizinho seu, vendo-o ir tão cedo para o fundo do quintal, acompanhou-o, descobrindo o segredo. Quando anoiteceu, voltou à árvore e furtou todo o dinheiro que o cego enterrava.

        Pela manhã, o dono veio tateando, e verificou ter sido roubado. Como não resolvia chorar ou queixar-se, fingiu não ter sido visitado pelo ladrão e começou a pensar em uma forma de readquirir seu dinheiro, sem barulhos.

        Foi procurar o vizinho e lhe falou:

        — Vizinho, nesse tempo, ninguém pode ter confiança senão em si mesmo, apesar dos dentes morderem a língua e ambos viverem juntos. Juntei minhas economias e escondi num pé de árvore ali no meu quintal, pensando ser um lugar seguro. Acabo de receber um bom dinheiro e vim pedir conselho a você. Guardo tudo junto ou levo esse dinheiro para a cidade?

        O vizinho pensou logo em pegar todo o dinheiro do cego e aconselhou-o que deixasse tudo junto, no mesmo canto já antigo.

        E logo que escureceu, correu e foi levar o que havia tirado na noite anterior, para o cego não desconfiar. Cobriu tudo de areia, alisou, retirou-se. Mais tarde, o cego procurou o cantinho velho e tomou posse do seu dinheiro ali colocado pelo vizinho que sonhava ficar com tudo.

        E quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco oco, sem um níquel sequer.

 

Cascudo, Luís da Câmara. Literatura oral do Brasil. Belo Horizonte. Itariaia, 1984.p.303.

 

Entendendo a crônica:

01 – Onde o cego resolveu esconder suas economias e qual era o seu medo?

      O cego resolveu esconder seu tesouro no quintal, cavando um buraco debaixo da raiz de uma árvore e deixando o dinheiro bem disfarçado. O seu maior medo era a ação de ladrões.

02 – Como o vizinho conseguiu roubar o dinheiro do cego?

      O vizinho viu o cego indo muito cedo para o fundo do quintal e decidiu acompanhá-lo às escondidas, descobrindo o segredo. Quando anoiteceu, ele foi até a árvore e furtou todo o dinheiro que estava enterrado.

03 – Qual foi a reação do cego ao perceber que havia sido roubado?

      Em vez de chorar, queixar-se ou fazer barulho, o cego manteve a calma e fingiu que nada tinha acontecido. Ele começou a pensar estrategicamente em uma forma de recuperar seu dinheiro sem causar alarde.

04 – Qual foi o plano (a armadilha) que o cego usou para enganar o vizinho?

      O cego foi até o vizinho, fingiu que ainda confiava nele e pediu um conselho: disse que havia recebido mais uma boa quantia em dinheiro e perguntou se deveria guardá-la no mesmo "lugar seguro" (no pé da árvore) ou levá-la para a cidade.

05 – Por que o vizinho devolveu o dinheiro roubado e qual foi o desfecho da história?

      Movido pela ambição e pela ganância, o vizinho aconselhou o cego a guardar tudo junto no mesmo esconderijo. Para não levantar suspeitas e poder roubar uma quantia ainda maior depois, o vizinho devolveu na mesma noite o dinheiro que havia furtado. Mais tarde, o cego foi ao local, recuperou suas moedas e, quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco vazio.

 

 

sábado, 21 de março de 2026

FÁBULA: O SAPO COM MEDO D'ÁGUA - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 FÁBULA: O SAPO COM MEDO D’ÁGUA

               Luís da Câmara Cascudo


O sapo é esperto. Uma vez o homem agarrou o sapo e levou-o para os filhos brincarem. Os meninos judiaram dele muito tempo e, quando se fartaram, resolveram matar o sapo.´

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjjvKmoxatdotl6CdAe-tAhJPk9Tl0BOT_gLH4lJU2olwKosUTItZD-Cg_heBUb-a5Zk7ayKzIGr1bfswmYGUV8Jte90UbEK1mGhnXEdJsfscY118XQU2K8_qqU0GZ5I3YpB1m_xviX_Pvq4AoB2u21d1d8i63R7D5Cowy8H7sSSQ7JVMsTv-nBnX7jmbM/s320/sapo.png 


Como haviam de fazer?

– Vamos jogar o sapo nos espinhos!

– Espinho não fura meu couro – dizia o sapo.

– Vamos queimar o sapo!

– Eu no fogo estou em casa!

– Vamos sacudir ele nas pedras!

– Pedra não mata sapo!

– Vamos furar de faca!

– Faca não me atravessa!

– Vamos botar o sapo dentro da lagoa!

Aí o sapo ficou triste e começou a pedir, com voz de choro:

– Me bote no fogo! Me bote no fogo! N’água eu me afogo! N’água eu me afogo!

– Vamos para a lagoa – Gritaram os meninos.

Foram, pegaram o sapo por uma perna e, t’xim bum, rebolaram lá no meio. O sapo mergulhou, veio em cima d’água, gritando, satisfeito:

– Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!

Por isso quando vemos alguém recusar o que mais gosta, dizemos:

– É sapo com medo d’água…

Entendendo o texto

01. No início da história, por que o homem levou o sapo para casa?

a. Para criar o sapo como um animal de estimação.                          

b. Para os seus filhos brincarem com ele.                                                

c. Para preparar uma sopa de sapo.                                                                       

d. Para soltá-lo no jardim.

02. Quando os meninos se cansaram de brincar e decidiram matar o sapo, o que o animal fez?

a.  Começou a chorar de verdade porque estava com medo.           

b. Tentou fugir correndo para a floresta.                                            

c. Fingiu ter medo da água para enganar os meninos.                     

d. Ficou em silêncio e não disse nada.

03. O que o sapo dizia quando os meninos sugeriam jogá-lo nos espinhos ou no fogo?                                                              

a. Que os espinhos furavam e o fogo o queimava.                           

b. Que os espinhos não furavam o seu couro e que no fogo ele estava em casa.                                                                           

c. Que preferia ser jogado na lagoa.                                                  

d. Que tinha muito medo de sentir dor.

04. Por que o sapo começou a gritar "N'água eu me afogo!"?    

a. Porque ele realmente não sabia nadar.                                         

b. Porque ele queria convencer os meninos de que a água era o seu maior perigo.                                                                               

c. Porque a água da lagoa estava muito gelada.                               

d. Porque ele estava com sono e queria dormir.

05. O que o sapo fez logo depois de ser jogado na lagoa pelos meninos?                                                                                

a. Afundou e não voltou mais.                                                                               b. Saiu correndo pela margem para se esconder.                                               

c. Mergulhou e apareceu gritando satisfeito que era um "bicho d'água".                                                                                                                                              

d. Pediu ajuda para sair de dentro da água.

 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

LENDA: ZUMBI VIVE - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Lenda: Zumbi vive

           Luís da Câmara Cascudo

        Na serra da Barriga, Alagoas, durante 63 anos viveram negros livres, no Quilombo dos Palmares. Fugiram de fazendas, engenhos, cidades e vilas e fundaram um Estado autônomo. Elegiam, vitaliciamente, um Zumbi, senhor da força militar e da lei tradicional. Não havia ricos nem pobres, furtos nem injustiças. Famílias nasceram e, com elas, cidadãos palmarinos.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEivQ5rLFVzeY1RjOI0rQBs620R4x5_TtrjlShwipEiXKIENY43SmfPLxVL73YJN6ZowU9epDZnC5OKSl_eQ3c46S-FjIfFF_PA5A3TGOsVkaeE_fpFFRU4T_uPdtYlAz0VsMa0KY3mqylMrdLK7Pb6aV0kM_c_jj7n4NPbZWkYuKxabOy2GRyuj92MUbuU/s1600/ZUMBI.jpg

     No pátio central, aringa africana (campo fortificado), residia Zumbi. Ali, distribuía justiça, exercitava tropas, comandava festas e acompanhava o culto, religião espontânea, aculturação de catolicismo com rituais do continente negro. Atraia esperança de todos os escravos chibateados que, de todos os cantos, vinham para
se juntar a Zumbi.

        Em 1695, sete mil veteranos, comandados por grandes chefes de guerra, marcharam sobre Palmares. Zumbi venceu o combate. O inimigo recompunha-se, incendiava, prendia, trucidava.

        Quando a derradeira cerca se espatifou, Zumbi correu até o ponto mais alto, de onde o panorama era completo. Com seus companheiros, olhou o final da batalha. Brandiu a lança e saltou para o abismo. Seus generais o acompanharam, fiéis ao Rei e ao Reino vencidos. A data é dada como 20 de novembro de 1695.

        Em certos pontos da serra ainda estão visíveis as pedras negras das fortificações. E vive a lembrança do último Zumbi, Rei dos Palmares, guerreiro que viveu na morte seu direito de liberdade e de heroísmo.

        20/11 é o Dia Nacional da Consciência Negra.

Cascudo, Luís da Câmara. Lendas brasileiras. São Paulo: Global Editora, 2001. Almanaque. Brasil. São Paulo, n. 56, nov. 2003, p. 40.

Fonte: Português – José De Nicola – Ensino médio – Volume 1 – 1ª edição, São Paulo, 2009. Editora Scipione. p. 92.

Entendendo a lenda:

01 – Qual a importância do Quilombo dos Palmares na história do Brasil?

      O Quilombo dos Palmares representa um dos maiores símbolos de resistência à escravidão no Brasil. Foi um Estado livre, autossuficiente e democrático, onde negros fugidos construíram uma sociedade alternativa aos valores da colonização portuguesa.

02 – Quem era Zumbi e qual o seu papel no Quilombo dos Palmares?

      Zumbi era o líder militar e espiritual do Quilombo dos Palmares. Ele era responsável por liderar as tropas em batalhas contra os portugueses, tomar decisões importantes para a comunidade e manter a ordem interna do quilombo.

03 – Como era a vida no Quilombo dos Palmares?

      A vida no Quilombo dos Palmares era marcada pela liberdade, igualdade e autonomia. Os habitantes cultivavam a terra, criavam animais, praticavam suas próprias religiões e viviam em comunidade, sem a hierarquia social da sociedade escravista.

04 – Por que Zumbi e seus guerreiros escolheram a morte em vez da captura?

      A escolha pela morte demonstrava a profunda resistência e o amor à liberdade dos palmarinos. Preferiram a morte à escravidão e à submissão aos portugueses, perpetuando assim o legado de luta do quilombo.

05 – Qual o significado do dia 20 de novembro na história brasileira?

      O dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi, foi instituído como o Dia Nacional da Consciência Negra. Essa data serve para lembrar a luta dos negros escravizados no Brasil, celebrar a cultura afro-brasileira e promover a igualdade racial.

06 – Qual o legado de Zumbi dos Palmares para a sociedade brasileira atual?

      Zumbi é um símbolo de resistência, luta por liberdade e igualdade. Seu legado inspira movimentos sociais que buscam justiça social e racial, além de fortalecer a identidade negra no Brasil.

07 – Quais as principais características da religião praticada no Quilombo dos Palmares?

      A religião praticada no Quilombo dos Palmares era uma mistura de crenças africanas com elementos do catolicismo. Era uma religião sincrética, que expressava a espiritualidade dos africanos escravizados e permitia a manutenção de suas tradições culturais.

 

domingo, 29 de outubro de 2023

CONTO: O TOURO E O HOMEM - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

Conto: O touro e o homem

           Luís da Câmara Cascudo

        Um touro, que vivia nas montanhas, nunca tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por todos os animais que era ele o animal mais valente do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se resolveu a ir procurar o homem para saber se tal dito era verdadeiro.

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPA97t1gf7lboSGTA9AWL8dqAUkd5Zs0BW_4yFJqKtHcMXgYzvMVlIuD8oQSl_-Cc8F3g-_X772MUhePtIczPGZsPTBE3dcdJO9Q7g4fUZrpRT96U1BswS11s-f3foJyfSPLgBCRCWMWhP2B2gJEX99x7hDJLHIbQM_Lu030ouSKPkslpoIJBgdjHCNKM/s320/TOURO.jpeg


        Saiu das brenhas, e, ganhando uma estrada, seguiu por ela. Adiante encontrou um velho que caminhava apoiado a um bastão.

        Dirigindo-se a ele perguntou-lhe:

        — Você é o bicho homem?

        — Não! — respondeu-lhe o velho — já fui, mas não sou mais!

        O touro seguiu e adiante e encontrou uma velha:

        — Você é o bicho homem?

        — Não! — Sou a mãe do bicho homem!

        Adiante encontrou um menino:

        — Você é o bicho homem?

        — Não! — Ainda hei de ser; sou o filho do bicho homem.

        Adiante encontrou o bicho homem que vinha com um bacamarte no ombro.

        — Você é o bicho homem?

        — Está falando com ele!

        — Estou cansado de ouvir dizer que o bicho homem é o mais valente do mundo, e vim procurá-lo para saber se ele é mais do que eu!

        — Então, lá vai! — disse o homem armando o bacamarte, e disparando-lhe um tiro nas ventas.

        O touro desesperado de dor, meteu-se no mato e correu até sua casa, onde passou muito tempo se tratando do ferimento.

        Depois, estando ele numa reunião de animais, um lhe perguntou:

        — Então, camarada touro, encontrou o bicho homem?

        — Ah! meu amigo, só com um espirro que ele me deu na cara, olhe o estado em que fiquei!

Fonte: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967. pp 289-90.

Entendendo o conto:

01 – Por que o touro decidiu procurar o homem?

      O touro decidiu procurar o homem porque havia ouvido dizer que o homem era o animal mais valente do mundo e queria verificar se isso era verdade.

02 – Quem o touro encontrou primeiro em sua busca pelo homem?

      O touro encontrou primeiro um velho enquanto procurava o homem.

03 – Qual foi a reação do velho quando o touro perguntou se ele era o bicho homem?

      O velho respondeu que já tinha sido o bicho homem, mas não o era mais.

04 – Quem finalmente se revelou como o bicho homem na história?

      O homem que estava carregando um bacamarte no ombro se revelou como o bicho homem na história.

05 – Qual foi o resultado do encontro do touro com o bicho homem?

      O bicho homem disparou um tiro no touro, causando-lhe grande dor, e o touro fugiu desesperado para sua casa para se tratar do ferimento.

 

 

 

  

CONTO: O CARA DE PAU - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Conto: O Cara de Pau

           Luís da Câmara Cascudo

        Um rei tinha uma filha tão formosa que, ficando viúvo, quis casar-se com ela. A moça era afilhada de Nossa Senhora e ficou horrorizada com o pensamento do pai, mas esse ameaçou-a de morte se não o recebesse por marido. Não sabendo o que fazer, a moça rezou muito a Nossa Senhora pedindo seu auxílio e ouviu umas vozes dizendo:

        — Pede um vestido cor do campo com suas flores!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbQBsWxrgm-lEqViqdkFYBeat-VDX-no2zlsvwtsIHU7lVleWEx6UE3zeD_ZL_8HAFAdlM3zqW68pNJMiqn8Hoz1m649mN4nQKfG2uGoKoKqRQ6Y1Nsye-Kc29voMRiPegQA47BdjbYAo3oRBxAiA2GA_Bm1fFpUN71WLgc0VmaknKmNfkw6AdAIyec20/s320/campo.jpg


        A menina pediu o vestido e o pai mandou fazer e o trouxe feito, tão bonito que era uma maravilha. Outra vez foi a menina chorar e as vozes disseram:

        — Pede um vestido da cor do mar com todos os peixes.

        Feito o pedido, o rei juntou todos os artistas e conseguiu o vestido como era desejado. Novamente a menina correu aos pés de Nossa Senhora e as vozes ensinaram:

        — Pede um “vestido cor do céu com suas estrelas, o sol e a lua”.

        A menina pediu o vestido e o rei, querendo casar com ela, mandou que se fizesse sob pena de morte. O vestido ficou lindo e a princesa chorou muito lembrando-se de que seu pai havia de querer o cumprimento de sua promessa. As vozes voltaram a dizer-lhe:

        — Junta tudo quanto for teu e foge do palácio. Para que ninguém saiba quem és, nunca deverás rir nem achar graça em cousa alguma.

        A moça guardou os vestidos numa maleta e fugiu do palácio, indo pelas estradas o mais longe que lhe foi possível. Andou muito e chegou a uma cidade onde procurou trabalho para viver e só encontrou lugar no palácio do rei como ajudante na cozinha. Aceitou e ficou com as tarefas mais pesadas e humildes da casa. Como vivia sempre sisuda e não achava graça em cousa alguma, chamavam-na Cara de Pau.

        Uma vez o rei preparou festas para os amigos e as moças todas da cidade deviam comparecer aos bailes que durariam três dias consecutivos.

        Quando do primeiro baile, todos foram olhar a festa das salas, e Cara de Pau ficou na cozinha, lavando as panelas. Vendo-se sozinha, correu ao seu quarto e vestiu-se com o vestido da cor do campo com suas flores, e compareceu ao salão, causando admiração a todos. O príncipe veio falar-lhe, prestando muita atenção e convidou-a a dançar com ele várias vezes.

        Antes que o baile terminasse, Cara de Pau abandonou o salão e fugiu para seu quarto onde voltou a vestir as roupas remendadas de criada.

        As criadas e cozinheiras conversaram sobre a moça da noite anterior e Cara de Pau não dava mostras de entender o que diziam. Na noite segunda fez o mesmo e o vestido cor do mar com todos os seus peixes causou admiração ainda maior.

        O príncipe, desde que a viu entrar, não mais a deixou, conversando com ela e dançando, a perguntar seu nome, de onde era, etc. A moça respondia por meias palavras e o príncipe estava verdadeiramente apaixonado por ela. Com habilidade conseguiu fugir antes do baile acabar e tornou às roupas feias com que servia na cozinha.

        Na última noite Cara de Pau foi a rainha da festa, com seu vestido cor do céu, com suas estrelas, o sol e a lua, dançando bem e agradando a todas. O príncipe, enamorado, deu-lhe um anel, pedindo-lhe a mão em casamento. Cara de Pau disse que ia pensar, esperando que o príncipe provasse que a amava deveras. Ainda uma vez pôde fugir sem ser apanhada.

        O príncipe procurou Cara de Pau por todos os recantos e casas da cidade, mandando escrever para outros reinos e ninguém dava notícias. De paixão, adoeceu e não queria comer. Ia enfraquecendo e os pais ficaram tristes porque não havia médico que acertasse em curar o príncipe. A rainha pensou em mandar fazer iguarias por todas as criadas da casa, uma de cada vez, para ver se o filho comia alguma cousa. Fizeram todas as criadas bolos e rebuçados mas o rapaz ia provando e recusava servir-se. Cara de Pau ofereceu-se para fazer um bolo e a cozinheira ficou zangada com o atrevimento: Pois logo você, uma suja e porcaIhona, ir fazer bolos para o príncipe?

        A rainha velha, então, disse que Cara de Pau fizesse um bolo como as outras tinham feito. Cara de Pau fez o bolo com cuidado e meteu dentro da massa o anel que o príncipe lhe havia dado. Cozido o bolo e mandado para a mesa do príncipe este apenas o olhou, mas a rainha tanto pedia que ele provasse que o rapaz cortou uma fatia e levou-a à boca. Logo sentiu um duro, e verificando reconheceu o anel que dera à moça dos três bailes. Ficou logo melhor de saúde, perguntando quem fizera o bolo e que viesse imediatamente à sua presença. A rainha mandou chamar criada que fizera o doce e quando chegou Cara de Pau ao quarto, tirou o vestido sujo e apresentou-se com um dos vestidos da festa. O príncipe beijou-lhe a mão e apresentou-a a todos como sua noiva. Casaram-se e viveram muito felizes.

                      Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.

Entendendo o conto:

01 – Qual era o desejo do rei em relação à sua filha no início do conto?

      O rei desejava casar-se com sua própria filha.

02 – Como a filha do rei conseguiu escapar dessa situação?

      Ela recebeu orientações de Nossa Senhora para pedir vestidos especiais e depois fugir do palácio.

03 – Por que a filha do rei recebeu o apelido "Cara de Pau"?

      Ela recebeu esse apelido por nunca rir ou demonstrar alegria em nada.

04 – O que aconteceu quando "Cara de Pau" compareceu ao primeiro baile usando o vestido da cor do campo?

      Ela chamou a atenção do príncipe e dançou com ele várias vezes.

05 – Como "Cara de Pau" conseguiu fugir do baile sem ser notada na primeira noite?

      Ela deixou o baile antes do final e voltou às roupas de criada.

06 – O que o príncipe deu a "Cara de Pau" durante o segundo baile?

      O príncipe deu um anel a "Cara de Pau" durante o segundo baile.

07 – O que o príncipe fez quando não conseguiu encontrar "Cara de Pau" após os bailes?

      Ele procurou por ela em toda a cidade e em outros reinos.

08 – O que Cara de Pau fez para curar o príncipe quando ele estava doente?

      Ela fez um bolo especial e colocou o anel que o príncipe lhe deu dentro do bolo.

09 – Qual foi a reação do príncipe quando reconheceu o anel no bolo feito por "Cara de Pau"?

      Ele ficou melhor de saúde e pediu para que a criada que fez o bolo fosse trazida até ele.

10 – Como o conto "O Cara de Pau" termina?

      O príncipe beija a mão de "Cara de Pau", a apresenta como sua noiva e eles se casam, vivendo felizes.

 

 

 

CONTO: A MÚSICA DOS CHIFRES OCOS E PERFURADOS - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Conto: A MÚSICA DOS CHIFRES OCOS E PERFURADOS.

           Luís da Câmara Cascudo

        Na capoeira de Mamanguape pasta uma notável população de veados. Vivem soltos e perseguidos pelos caçadores impenitentes. Muitos vão dar na praia enlouquecidos pela perseguição. Ficam bêbedos de cansaço e desespero. Nestas circunstâncias não é difícil ser abatido pelos pescadores, que gostam muito de carne. O peixe é prato de todos os dias. Vez por outra não faz mal uma variação de alimento. E assim a espécie dos galhudos vai rareando.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbiHc9PTXqvuSF-9YB_x6ptSkUcArWwX85lmPHMvhmpMB3K4iOhKgPpq6WcTztArYeYz3L6G2LVoUQsa8dkm-JfgNJ9_mevz1p0M-klx3DM-YcHVx3-UOmzh4SmIIqKsBDZz0sFRsJnA4FBM3PerYC5KEsOqIqsE-0z4T0FZ7_B27lq59PIxLmq89kHSE/s320/MAMANGUAPE.jpg


        Entretanto, a maioria dos caçadores não lhe comem a carne e até a abandona em pleno mato. Tirado o couro, gostam é de chegar com o troféu, exibindo-o só pelo prazer de ostentá-lo, e mais nada. A caça verifica-se em certos dias. Não se faz assim de repente apenas pela alegria da aventura. Veado nem sem sempre pode ser pegado pelos cachorros e pelas balas da espingarda.

        O motivo da escolha cuidadosa da ocasião de persegui-lo vem de um fato bem notório que toda gente entendida no negócio proclama como absolutamente verdadeiro. Existem nas capoeiras alguns veados chefes de bando que costumam reunir o seu povo para um remoer mais demorado na tranquilidade. A convocação é feita por intermédio de uma harmonia de música que toca a todos os corações. Ninguém poderá ouvi-la sem ficar inteiramente dominado e vencido nos seus propósitos inferiores.

        A beleza tem disso: amolece as energias empregadas no sentido do mal. E como caçar não deixa de ser uma impiedade, fica adiada a perseguição, fica para outro dia, pois o caçador foi posto à margem, é supersticioso e não ama contrariar as forças da natureza quando elas se manifestam tão maravilhosamente.

        A demonstração de uma intensa melodia (notas estranhas e deliciosas já bem conhecidas do homem que corre as matas de arma ao ombro e sacola de balas a tiracolo) vem como sinal de advertência generosa. Quem transgredir a norma histórica terá de arcar com as consequências nem sempre agradáveis. As surpresas então se tornarão constantes e prejudiciais. E não há necessidade de enfrenta-las assim de caso pensado. O melhor é aguardar outra vez. Fica para amanhã. Fica para depois. Em qualquer tempo é tempo para o prazer da perseguição. Aquela música divina não é ouvida com frequência, é mesmo coisa um tanto rara nas sextas-feiras, nos sábados e nos domingos. Nos outros dias da semana, a caça não se faz de preferência por causa do trabalho de campo e outras obrigações de ganha-pão a que o homem ordinariamente se acha sujeito. Portanto, não convém ir de encontro às determinações dos deuses ocultos que dirigem os movimentos na floresta ou nos tabuleiros.

        Rebanhos enormes se reúnem em torno dos chamados “galhudos”. Estes no meio como que dirigindo a sessão. Em torno se encontra a veadaria deitada em remansoso descanso. Os mateiros mais afeitos se arrastam cautelosamente até lá com o fim de apreciar o concerto incomparável. Impõe-se muito cuidado para evitar o menor barulho. Qualquer atrito de folha seca é razão para que os ouvidos fiquem atentos. Ficam à escuta para uma arrancada louca de precipitação. Mas quando acontece tal curiosidade é porque prevaleceu o enfeitiçamento do caçador arrastado pelos encantos de uma música que tem qualquer coisa de sortilégio. Não tem preocupações de fazer mal. Chega mesmo a abandonar as armas para melhor facilitar a aproximação sutil nos seus movimentos de caçador.

        Os veados velhos mostram vinte e três chifres ocos e perfurados como flauta. O vento sopra com uma suavidade de nordeste. E faz arrancar dos chifres os sons mais sentidos de uma orquestra completa que toca para amenizar a vida perseguida-e mesmo infeliz de uma raça que entre os animais da região faz as vezes do judeu escorraçado pela inveja dos que não possuem predicados de inteligência e habilidade. A reunião prossegue pela noite adentro. Não é difícil apurar o ouvido e sentir na madrugada fria dos tabuleiros as melodias mais belas que o vento arranca dos vinte e três chifres ocos e perfurados como flauta.

        Depois vem a dispersão. Cada qual para o seu canto. E que trate de livrar-se da sanha criminosa dos seus perseguidores. O fim da semana é para se viver debaixo de toda cautela. Muito cuidado.
Ainda assim é quando o caçador consegue livremente exercer a sua diversão extravagante e injusta. Sai para matar sem levar na alma a menor sombra de preocupação com os imprevistos maus que lhe possam acontecer.

Relato popular recontado pelos professores Ademar Vidal e Luís da Câmara Cascudo.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o cenário principal do conto?

      O cenário principal do conto é a capoeira de Mamanguape, onde vive uma população notável de veados.

02 – Qual é o dilema enfrentado pelos veados na capoeira de Mamanguape?

      Os veados são perseguidos pelos caçadores, o que os leva a viver constantemente em risco de serem abatidos.

03 – Qual é o motivo que leva os caçadores a escolher cuidadosamente a ocasião para perseguir os veados?

      Os caçadores esperam por uma melodia especial que é tocada pelos veados chefes de bando como sinal de convocação. Esta música os impede de caçar, pois é considerada divina e hipnotizante.

04 – Como os veados se reúnem em torno dos "galhudos" quando a música é tocada?

      Os veados se reúnem em grandes grupos em torno dos veados chefes de bando, que parecem dirigir a sessão enquanto o resto da veadaria descansa.

05 – O que acontece quando um caçador é enfeitiçado pela música dos veados?

      O caçador se deixa levar pelo encanto da música e, às vezes, até abandona suas armas para se aproximar furtivamente dos veados.

06 – Qual é a peculiaridade dos chifres dos veados velhos?

      Os chifres dos veados velhos têm vinte e três buracos ocos e perfurados, e quando o vento sopra, eles produzem sons que se assemelham a uma orquestra tocando melodias para acalmar a vida dos veados perseguidos.

07 – O que acontece depois da reunião dos veados em torno dos "galhudos"?

      Após a reunião, os veados se dispersam e cada um vai para o seu canto, tentando evitar a perseguição dos caçadores. O final de semana é um período de particular cautela.

 

CONTO: BEM SE PAGA COM O BEM - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Conto: BEM SE PAGA COM O BEM

           Luís da Câmara Cascudo

        A onça caiu numa armadilha preparada pelos caçadores e, por mais que tentasse escapar, ficou prisioneira. Resignara-se a morrer, quando viu passar um homem. Chamou-o e lhe pediu que a libertasse.

        -- Deus me livre! – disse o transeunte. – Se você ficar solta, vai me devorar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhylo4YKLJwzFVnhyphenhyphen5dSDQDdDID5Re0KI3ynvV7wSfkU-e3vDBfJdpkg3NNVaESJfyBAc74ShXE3PNJBkAC9uWpkkUb4M6JPtcUbFnAMo3LcJBQrAzpEpZLeCZjfm5WvL3xYrGHdKpHG1K0iKU-Ii5lWFYp1Z4ntYp_u9Dy3jlpq4C4nakzg3Kt3TiKgIc/s1600/ON%C3%87A.jpg


        A onça jurou que seria eternamente agradecida, e o homem desatou as cordas que seguravam a tampa do alçapão e ajudou a onça a deixar a cova. Logo que esta se encontrou livre, agarrou seu salvador por um braço dizendo:

        -- Agora você é meu jantar.

        Debalde o homem pediu e rogou. A onça, finalmente, decidiu:

        -- Vamos combinar uma coisa. Ouvirei a sentença de três animais. Se a maioria for favorável ao meu desejo, eu o como.

        O homem aceitou e saíram os dois. Encontraram um cavalo, velho, doente, abandonado. A onça narrou o caso. O cavalo disse:

        -- Quando eu era moço e forte, trabalhei e ajudei o homem a enriquecer. Qual foi o meu pagamento? Largaram-se aqui para morrer, sem um auxílio. O bem só se paga com o mal.

        Adiante depararam-se com um boi. Consultado, opinou pela razão da onça. Contou sua vida de serviços ao homem e, quando julgava que ia ser recompensado, soube que fora vendido para ser morto e retalhado pelo açougueiro. O bem só se paga com o mal.

        O homem, triste, acompanhava a onça que lambia o beiço, quando viram o macaco. Chamaram o macaco e pediram seu parecer. O macaco começou a rir. E saltava, fazendo caretas e rindo. A onça ia-se zangando:

        -- Por que tanta risada, camarada macaco?

        -- Não é fazendo pouco – explicou o macaco –, é que eu não acredito que o homem caísse na armadilha que ele mesmo preparou.

        -- Ele não caiu. Quem caiu fui eu – contava a onça.

        -- Foi você? Então como é que esse homem fraquinho pôde libertar um bicho tão grande e forte como a camarada onça?

        A onça, despeitada pelo macaco julgá-la mentirosa, foi até o alçapão e saltou para o fundo do fosso, gritando lá de baixo:

        -- Está vendo? Foi assim!

        Mais que depressa o macaco empurrou o engradado de varas pesadas que fazia de tampa e a onça tornou a ficar prisioneira.

        -- Camarada onça – sentenciou o macaco – o bem só se paga com o bem. E você fez o mal, receba o mal.

        E se foi embora com o homem, deixando a onça na armadilha.

          CASCUDO, Luís da Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. São Paulo: Global Editora, 2003. p. 12 – 16.

Entendendo o conto:

01 – Qual foi a situação inicial da onça no conto?

      A onça caiu em uma armadilha preparada por caçadores e estava prisioneira.

02 – O que a onça pediu a um homem que a encontrou presa na armadilha?

      A onça pediu ao homem que a libertasse da armadilha.

03 – Qual foi a reação do homem ao pedido da onça?

      O homem inicialmente recusou a soltar a onça, com medo de ser devorado por ela.

04 – Como a onça convenceu o homem a libertá-la?

      A onça prometeu ser eternamente agradecida e concordou em ouvir a sentença de três animais antes de decidir o destino do homem.

05 – O que os três animais consultados pela onça disseram sobre o destino do homem?

      Tanto o cavalo quanto o boi disseram que o bem só se paga com o mal, defendendo a ideia de que o homem merecia ser devorado. No entanto, o macaco duvidou da história da onça e a enganou, resultando na reclusão da onça na armadilha.

06 – Qual foi a reviravolta final no conto?

      O macaco enganou a onça, fazendo-a voltar para a armadilha, e explicou que o bem só se paga com o bem. O homem foi embora com o macaco, deixando a onça prisioneira novamente.

07 – Qual é a lição moral ou mensagem que o conto transmite?

      O conto transmite a mensagem de que o bem deve ser retribuído com o bem, e que tentar enganar os outros pode resultar em consequências negativas. É uma história que enfatiza a importância da honestidade e da reciprocidade.