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terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA: O ASSALTO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Crônica: O Assalto

             Carlos Drummond de Andrade

 

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLH3TOIsFd7sg7__ZnU6QzqpFODEf57ijAkHAoBwWQetltxAqeJPkimLQTEWEN9mXBiyVipGzaY7UxmvImfZ0cV_KQo7XdOSWjLoZHgwVRBGbNpV4xI7SfTcf4L6EpAPC2vXZzohTZRJqfGUP_EuYpatw_0cgVeHmjdQ6v12tJ2KZRoIyuoS91fvSa80o/s320/assalto.png

        Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:

        — Isto é um assalto!

        Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de um admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?

        — Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado, escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.

        Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de bananas meio amassadas?

        — Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!

        O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um passageiro advertiu:

        — No que você vai a fim do assalto, eles assaltam sua caixa.

        Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até a idade do módulo lunar. Outros ônibus pararam, a rua entupiu.

        — Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.

        — É uma mulher que chefia o bando!

        — Já sei. A tal dondoca loira.

        — A loura assalta em São Paulo. Aqui é morena.

        — Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.

        — Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!

        — Vai ver que está caçando é marido.

        — Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!

        — Sangue nada, é tomate.

        Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão, braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.

        Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção; quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pelo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:

        — Pega! Pega! Correu pra lá!

        — Olha ela ali!

        — Eles entraram na Kombi ali adiante!

        — É um mascarado! Não, são dois mascarados!

        Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço uns caíam por cima de outros. Cessou o ruído, Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso?

        — Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga, pensando que era metralhadora!

        Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:

        — É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!
        A.ssal.to: substantivo masculino

1. agressão para roubo; 2. Ataque; 3. cada período de tempo de uma luta; 4. exorbitância de preço.

 

Entendendo a crônica:

01 – Ao dizer “Isto é um assalto!”, em que sentido a senhora utilizou a palavra assalto?

      Exorbitância de preço.

 

02 – A frase dita pela senhora provocou uma enorme confusão. Por quê?

      Porque as pessoas pensaram que era um assalto de verdade.

 

03 – Ocorreu comunicação entre as pessoas que estavam no local dos fatos relatados no texto? Justifique sua resposta.

      Não, porque ela disse uma coisa e as pessoas entenderam outra.

 

04 – A frase “Assim eles não podem dar no pé” está na linguagem informal. Reescreva-a na linguagem formal?

      Assim eles não podem fugir.

 

05 – “Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora”. O que levou as pessoas a pensarem que estavam ouvindo o barulho de uma metralhadora?

      Um escurinho trocando matraca.

 

06 – Que fato é responsável pelo humor da charge ao lado do texto?

      O fato de o homem querer parcelar o assalto em 12 vezes.

 

07 – Observe os significados da palavra assalto e responda: ela foi usada com o mesmo sentido na charge e no texto? Justifique sua resposta.

      Não, porque no texto foi usada como exorbitância de preço e na charge como agressão para roubo.

 

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

POEMA: DESEJOS - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: DESEJOS

           Carlos Drummond de Andrade

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhefAMkdC0UB1raOZgNYGQzkG54Jeb3Fq861fJjgHp-O751UUyx7clJELB0Igz1kZyyn_aHEboJkZ0imcGK8U7Zv1X0djLt_t4OeQDfHo0-Ok7Gwi9eUEi-93jAEp7Fq22JkA_SS9pkYtDeTvcfo8yydzX_ysOa00KG7n56pGGDF90zkUmSloNwfS4yzbE/s320/CACHOEIRA.jpg


Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade. Desejos. Poemas clássicos.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a principal característica das coisas desejadas pelo eu lírico no poema?

      A principal característica é a simplicidade. O eu lírico não deseja bens materiais grandiosos, luxo ou conquistas extraordinárias. Em vez disso, ele foca em pequenos prazeres cotidianos, momentos de paz e confortos simples da vida, como um "domingo sem chuva", um "banho de cachoeira", "ouvir a chuva no telhado" ou "calçar um velho chinelo".

02 – O poema faz referências diretas à cultura brasileira e à arte. Quais são os artistas ou obras explicitamente mencionados no texto?

      O poema cita os seguintes ícones culturais:

      Carlitos: O famoso personagem de Charlie Chaplin ("Filme do Carlitos").

      Rubem Braga: Um dos maiores cronistas do Brasil ("Crônica de Rubem Braga").

      Tom e Chico: Os grandes músicos Tom Jobim e Chico Buarque ("Música de Tom com letra de Chico").

      Chico Buarque (indiretamente): Através da menção à sua famosa música ("Ver a Banda passar").

      Maurice Ravel: O compositor francês ("Bolero de Ravel").

03 – Como o eu lírico aborda as relações humanas e os sentimentos afetivos no poema?

      As relações humanas são tratadas com base na reciprocidade, no companheirismo e na ausência de conflitos. Ele deseja o afeto romântico ("Sábado com seu amor", "Ter uma pessoa especial / E que ela goste de você"), a amizade verdadeira ("Chope com amigos", "Rever uma velha amizade", "Ter um ombro sempre amigo") e a harmonia social, expressa no desejo de "Viver sem inimigos".

04 – No trecho "Não ter que ouvir a palavra não / Nem nunca, nem jamais e adeus", qual é o sentimento que o eu lírico busca evitar para os seus destinatários?

      Ele busca evitar os sentimentos de rejeição, frustração e separação definitiva. As palavras "não", "nunca", "jamais" e "adeus" carregam um peso de corte, perda e finalidade dolorosa. O eu lírico deseja que a vida dos destinatários seja fluida, acolhedora e cheia de possibilidades positivas, livre dessas rupturas drásticas.

05 – Como o poema termina e qual é o "desejo final" que o eu lírico oferece?

      O poema termina criando uma atmosfera clássica, sensorial e íntima, mencionando "Vinho branco" e o "Bolero de Ravel". O desejo final, que sela todo o texto, é a entrega do afeto do próprio eu lírico: "E muito carinho meu". Isso transforma o poema não apenas em uma lista genérica de votos, mas em um presente pessoal e afetuoso para quem o lê.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CONTO: BOM TEMPO, SEM TEMPO - CARLOS DRUMMOND ANDRADE - COM GABARITO

 Conto: Bom tempo, sem tempo

           Carlos Drummond de Andrade

 

        Não chovia, meses a fio. Ou chovia demais. As plantas secavam, os animais morriam, os moradores emigravam. As plantas submergiam, os animais morriam, as pessoas não tinham tempo de emigrar. Assim era a vida naquele lugar privilegiado, onde medrava tudo para todos, havendo bom tempo. Mas não havia bom tempo. Havia o exagero dos elementos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAguKATKgc845IzYKoi1Qi1HOnnAh6wAnRGTP6FszVRV4gf1XJ5ZOq7UyuKQI1BJPpwiXmpFOVyS7IPTIT-SRfBHvRImwVA_Nx-doCUS6H2WNFe4wyYl1lO2xchVxyI7mgoBR5J0RoXTz0uIkYiBYdj75r-D8qy3UDoaR0BMW-ob1HGvbDlyazwgGudPE/s320/images.jpg


        O mágico chegou para reorganizar a vida, e mandou que as chuvas cessassem. Cessaram. Ordenou que a seca findasse. Findou. Sobreveio um tempo temperado, ameno, bom para tudo, e os moradores estranharam. Assim também não é possível, diziam. Podemos fazer tantas coisas boas ao mesmo tempo que não há tempo para fazê-las. Antes, quando estiava ou chovia um pouco - isto é, no intervalo das grandes enchentes ou das grandes secas -, a gente aproveitava para fazer alguma coisa. Se o sol abrasava, podíamos fugir. Se a água vinha em catadupa, os que escapavam tinham o que contar. Quem voltasse do êxodo vinha de alma nova. Quem sobrevivesse à enchente era proclamado herói. Mas agora, tudo normal, como aproveitar tantas condições estupendas, se não temos capacidade para isto?

        Queriam linchar o mágico, mas ele fugiu a toda.

 ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo, Record: 2006.

 

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Catadupa – cachoeira.

-- Êxodo – emigração de todo um povo ou saída de pessoas em massa.

02 – O fato que motiva a história é:

(A) a chegada do mágico.          

(B) a falta de chuva.

(C) a chuva muito frequente.      

(D) o mágico fugir correndo.

03 – No primeiro parágrafo, o narrador afirma que aquele era um "lugar privilegiado", mas logo em seguida se contradiz. Que figura de linguagem predomina nessa descrição e qual é a verdadeira situação do lugar?

      Predomina a ironia. O narrador chama o lugar de "privilegiado" e diz que lá "medrava tudo para todos, havendo bom tempo", mas imediatamente revela a dura realidade: nunca havia bom tempo, apenas o "exagero dos elementos" (ou seca extrema ou chuva destrutiva).

04 – Por que os moradores estranharam e rejeitaram o "tempo temperado e ameno" trazido pelo mágico?

      Porque a normalidade e a abundância de condições favoráveis paralisaram os moradores. Eles estavam tão acostumados a viver no limite da sobrevivência (fugindo da seca ou resistindo às enchentes) que não sabiam como agir ou o que fazer quando tudo estava perfeito. A falta de dificuldades tirou deles o senso de propósito e de heroísmo.

05 – De acordo com o desabafo dos moradores, quais eram as "vantagens" que eles viam nos tempos de tragédia climática (seca e enchente)?

      Eles viam vantagens emocionais e sociais: a seca permitia a experiência do êxodo, fazendo com que as pessoas voltassem "de alma nova"; já as enchentes davam a oportunidade de os sobreviventes serem "proclamados heróis" e terem histórias impactantes para contar.

06 – O que o desfecho do conto — com os moradores querendo linchar o mágico — sugere sobre a natureza humana?

      Sugere que o ser humano muitas vezes se acomoda ao sofrimento e à rotina do caos, desenvolvendo uma incapacidade de lidar com a perfeição, com a paz ou com a facilidade. A crônica de Drummond satiriza a tendência humana de reclamar de qualquer situação, mostrando que nem mesmo a solução exata para os problemas (o clima perfeito) foi capaz de satisfazer aquela população.

 

 

domingo, 22 de março de 2026

POEMA: O SOBREVIVENTE - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: O sobrevivente

              Carlos Drummond de Andrade

 

            Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

            Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.

            O último trovador morreu em 1914.

            Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

           

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxuygoD3TP9_j9DhAeNFHdFWBDd4NgMlGAc3ijmsBWY_0AZw0DljSvD0VmC2SAJjvaQIc7y_Uw4Od5ozbxoPHtBy3h0pL9C1Qnq586er3yXxPoHw0uZRJpLLtlOi_wQHKo5rv_bqbHzWUBPvslZOAzJ1pzB6qf9rWPR-XND1jDIKZ2e-274pGeNJEYYaI/s1600/CARLOS.jpg

            Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

            Se quer fumar um charuto aperte um botão.

            Paletós abotoam-se por eletricidade.

            Amor se faz pelo sem-fio.

            Não precisa estômago para digestão.

           

            Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta

            muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

            Mas até lá, felizmente, estarei morto.

           

            Os homens não melhoraram

            e matam-se como percevejos.

            Os percevejos heroicos renascem.

            Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

            E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

 

            (Desconfio que escrevi um poema.)

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

Entendendo o texto 

01. Por que o eu lírico (quem fala no poema) afirma ser "impossível" compor um poema "a essa altura da evolução"?

a. Porque as pessoas esqueceram como escrever à mão.

b. Porque não existem mais papéis ou canetas no mundo moderno. c. Porque a poesia foi proibida por uma lei internacional em 1914.

d. Porque ele acredita que a humanidade se tornou mecânica e perdeu a sensibilidade poética.

02. O poema menciona que existem "máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples". Qual é a crítica do autor nesse trecho?

a. Ele está elogiando como a tecnologia facilita a vida das pessoas.  b. Ele critica o exagero tecnológico que substitui gestos humanos e simples por botões e eletricidade.

c. Ele sugere que as pessoas deveriam aprender a consertar essas máquinas.

d. Ele afirma que as máquinas são necessárias para o amor e a digestão.

03. Na estrofe que fala sobre os homens que "matam-se como percevejos", o autor está se referindo a qual aspecto da humanidade?

a. À violência e à falta de valor que se dá à vida humana, especialmente em tempos de guerra.

b. À higiene pessoal e ao cuidado com os insetos.

c. Ao fato de os homens estarem ficando cada vez menores.

d. À inteligência dos seres humanos, que supera a dos insetos.

04. O que o autor quer dizer com o verso: "Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado"?

a. Que o mundo está ficando vazio porque as pessoas estão morrendo.

b. Que não há mais espaço físico para construir casas no planeta. c. Que as máquinas expulsaram os homens de suas moradias.

d. Que, embora o mundo esteja difícil e ruim de se viver (inabitável), a população continua crescendo.

05. No final do poema, entre parênteses, o autor escreve: "(Desconfio que escrevi um poema.)". Qual é o efeito dessa frase? a. Ela mostra que o autor esqueceu o que estava fazendo durante a escrita.

b. Ela cria uma ironia, pois, após dizer que era impossível escrever poesia, ele percebe que acabou criando uma.

c. Ela serve para pedir desculpas ao leitor por ter escrito um texto tão longo.

d. Ela indica que o texto, na verdade, é uma notícia de jornal e não um poema.

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

POEMA: QUERO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Quero

            Carlos Drummond de Andrade

 

Quero que todos os dias do ano

todos os dias da vida

de meia em meia hora

de 5 em 5 minutos

me digas: Eu te amo.

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjIjGsjTRyP27-w9RwcN0lycpgXZVIoWvgDzWk9ce7s7DYHpxOkTQfNk8gR1wYRR4XPqbU-PNHtf6JCt2il1rvekLJsOmtNlMlsaGj45It2TG0wfROfzGywvJh_4n4jCR3OOZg2m1smf3C1h7YmQTQLpdVbnVs3J2iuTyD-_fB1Y2SxqhkkKOFNMB-haeQ/s1600/AMO.jpg

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,

creio, no momento, que sou amado.

No momento anterior

e no seguinte,

como sabê-lo?

 

Quero que me repitas até a exaustão

que me amas que me amas que me amas.

Do contrário evapora-se a amação

pois ao dizer: Eu te amo,

desmentes

apagas

teu amor por mim.

 

Exijo de ti o perene comunicado.

Não exijo senão isto,

isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra

nem sei de outra maneira a não ser esta

de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:

amor na raiz da palavra

e na sua emissão,

amor

saltando da língua nacional,

amor

feito som

vibração espacial.

 

No momento em que não me dizes:

Eu te amo, 

inexoravelmente sei

que deixaste de amar-me,

que nunca me amaste antes.

 

Se não me disseres urgente repetido

Eu te amoamoamoamoamo,

verdade fulminante que acabas de desentranhar,

eu me precipito no caos,

essa coleção de objetos de não-amor.

 

Entendendo o texto

 

01. No poema, o eu lírico demonstra uma necessidade constante de ouvir a frase "Eu te amo". Qual é o principal motivo para essa exigência?

     a) Ele tem má memória e esquece o que as pessoas dizem.

     b) Ele acredita que o amor só existe no exato momento em que é dito em voz alta.

     c) Ele quer testar a paciência da pessoa amada todos os dias.

     d) Ele prefere ganhar presentes do que ouvir palavras de carinho.

02. Na terceira estrofe, o autor utiliza a expressão "até a exaustão". O que essa expressão sugere sobre o desejo do eu lírico?

    a) Que ele quer que a pessoa amada descanse e durma bastante.

    b) Que ele deseja que a declaração de amor seja repetida inúmeras vezes, sem parar.

    c) Que ele está cansado de amar e quer terminar o relacionamento.

    d) Que ele não gosta de conversar e prefere o silêncio.

03. Para o eu lírico de Drummond, como o amor é reconhecido de forma "perfeita"?

      a) Através de gestos e atitudes do dia a dia.

      b) Por meio de cartas escritas e enviadas pelo correio.

     c) Através da palavra falada, do som e da vibração da voz.

     d) Através de olhares profundos e silenciosos.

04. O que acontece com o eu lírico no momento em que ele não ouve a frase "Eu te amo"?

      a) Ele fica feliz porque finalmente tem um pouco de paz.

      b) Ele sente que o amor nunca existiu e se sente perdido no "caos".

      c) Ele resolve sair para caminhar e esquecer os problemas.

      d) Ele entende que a pessoa amada está apenas ocupada com outras coisas.

05. No final do poema, a palavra "Eu te amo" aparece escrita de forma grudada: "Eu te amoamoamoamoamo". Essa forma de escrever serve para representar:

     a) Um erro de digitação do autor que não foi corrigido.

     b) A pressa da pessoa amada para ir embora.

     c) A intensidade e a rapidez da repetição exigida pelo eu lírico.

     d) Que o amor é algo muito confuso e impossível de entender.

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

POEMA: O PLENO E O VAZIO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: O Pleno E o Vazio

            Carlos Drummond de Andrade

Oh se me lembro e quanto.
E se não me lembrasse?
Outra seria minh’alma,
bem diversa minha face.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjJ6wQ8fPmANMEdcXQL6RTpLXF5B0yzMLk-RhuTrXqT40WmU_fMqQiF07cght5Et4CrkzYYV84NHZ2sWZgNTvI76-lOxXWtF00rtSSLwccIWD6SdXiugN6ebWgKH1gm_hErE4sumjiEYB8nIxjjk_1wmyoQaAwfX0JtqQHRAHDzOLg3rqKnX1oNS326WIY/s1600/ALMA.jpg



Oh como esqueço e quanto.
E se não esquecesse?
Seria homem-espanto,
ambulando sem cabeça.

Oh como esqueço e lembro,
como lembro e esqueço
em correntezas iguais
e simultâneos enlaces.
Mas como posso, no fim,
recompor os meus disfarces?

Que caixa esquisita guarda
em mim sua névoa e cinza,
seu patrimônio de chamas,
enquanto a vida confere
seu limite, e cada hora
é uma hora devida
no balanço da memória
que chora e que ri, partida?

Corpo. Rio de Janeiro, Record, 1984.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 194.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a principal dicotomia (oposição) explorada nos dois primeiros quartetos do poema, e como ela afeta a identidade do eu lírico?

      A dicotomia principal é entre Lembrança (Pleno) e Esquecimento (Vazio).

      Lembrar ("Oh se me lembro e quanto") implica que a memória molda a identidade ("Outra seria minh’alma, / bem diversa minha face").

      Esquecer ("Oh como esqueço e quanto") é visto como um mecanismo de sobrevivência. A falta total de esquecimento ("E se não esquecesse?") o tornaria um "homem-espanto, / ambulando sem cabeça," sugerindo que a memória total e incessante seria destrutiva, impedindo a vida.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico descreve o ato de lembrar e esquecer como "em correntezas iguais / e simultâneos enlaces." O que essa imagem sugere sobre o processo da memória?

      Essa imagem sugere que lembrar e esquecer não são processos opostos e excludentes, mas sim forças coexistentes e igualmente poderosas que agem ao mesmo tempo. A memória não é um reservatório estático, mas um fluxo dinâmico ("correntezas") onde o pleno e o vazio estão continuamente se misturando e se interligando ("simultâneos enlaces").

03 – Por que o eu lírico questiona: "Mas como posso, no fim, / recompor os meus disfarces?" após refletir sobre a memória e o esquecimento?

      O questionamento revela uma crise de identidade. O "disfarce" representa a persona social ou a identidade coerente que o indivíduo apresenta ao mundo. Ao constatar que a memória e o esquecimento atuam em "correntezas iguais," ele percebe que seu ser é constantemente alterado e instável. Assim, ele duvida de sua capacidade de manter uma identidade fixa e crível (o disfarce) diante da complexidade e da inconstância de sua vida interior.

04 – O que a "caixa esquisita" mencionada na última estrofe simboliza e o que ela contém?

      A "caixa esquisita" simboliza o interior do ser humano, a mente ou a psique, especificamente o local onde a memória e a consciência residem. O que ela guarda é a totalidade das experiências:

      "névoa e cinza": o esquecimento, a dor e o que foi perdido.

      "patrimônio de chamas": as lembranças intensas, a paixão e a vitalidade do que foi vivido. É o repositório paradoxal que contém a destruição e a riqueza emocional da vida.

05 – Como a última estrofe relaciona a memória ("balanço da memória") com o conceito de tempo ("cada hora / é uma hora devida")?

      A última estrofe estabelece uma relação direta entre a memória e o tempo vivido como uma dívida existencial. O "balanço da memória" é a contabilidade que a vida faz, comparando o que foi vivido com o que resta. A frase "cada hora / é uma hora devida" sugere que o tempo não é apenas passado, mas uma responsabilidade ou um compromisso com o ser. A memória, ao fazer esse balanço e estar "partida" (entre o riso e o choro), é o instrumento que nos força a enfrentar o preço emocional do tempo.

 

 

POEMA: DIANTE DE UMA CRIANÇA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Diante de uma criança

          Carlos Drummond de Andrade

Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgsU9664caxkVv94aYKysYoYdcSW1NOhDylsu6Tc2DYfCmNhpot2zfimi7oOFGc1QjfN2VU0tpfPBmHpXal9C7nSDeVeiyAyGkQqzzTln01On1RPhYNvroMonTj4jwfG1VBp1lYnaO13Y0OUJ6BrOIR-y47fNx3TwluWhzD99IOBxtAQobUXWvAlKdO7H4/s320/CRIAN%C3%87A.jpg



vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-me à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E, se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

Carlos Drummond de Andrade. Farewell. Rio de Janeiro, Record, 1996.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 76.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a "interrogação" central que confronta o eu lírico e como ele caracteriza a sua própria capacidade intelectual de responder a ela no início do poema?

      A interrogação central é: "Como fazer feliz meu filho?" O eu lírico, que se define como um "vaidoso intelectual" cheio de "saber" e "brilho," reconhece que todo esse conhecimento "vacila" diante da simplicidade e da profundidade da questão. Isso estabelece a falha da razão pura frente ao problema existencial e afetivo.

02 – Que técnica estrutural Drummond utiliza nas estrofes 2 a 5 para abordar as possíveis "receitas" de felicidade, e qual é o efeito dessa técnica?

      Drummond utiliza a técnica da enumeração e da interrogação retórica. Ele lista exaustivamente soluções materialistas e permissivas ("Bola, bombons," "mesadas," "liberdade alheia a limites") e as apresenta em forma de perguntas, como se estivesse testando e, implicitamente, refutando cada uma delas. O efeito é construir um argumento progressivo que demonstra o esgotamento das soluções superficiais.

03 – Cite três exemplos de soluções materiais ou permissivas que o eu lírico questiona no poema e qual é o risco final dessas atitudes.

      Bens materiais: "Bola, bombons, patinação" ou "milhões de coisas desejadas."

      Excesso de mesada: "Imprevistas, fartas mesadas."

      Permissividade: "Liberdade alheia a limites," "perdão de erros, sem julgamento."

      O risco final é que a criança se sinta "pobre, sem paz e sem arrimo, alma vazia, amargamente," ou seja, o vazio existencial provocado pela superabundância material e pela falta de limites.

04 – Na quinta estrofe, o eu lírico pergunta se deve dar ao filho "tudo aquilo que há / de entontecer um grão-vizir." Qual é o significado dessa metáfora?

      A metáfora do "grão-vizir" (alto dignitário de um império oriental, associado a poder e riqueza absolutos) é usada para expressar a ideia de opulência e poder excessivos. O eu lírico questiona se deve entregar ao filho um nível de privilégios e submissão que seria suficiente para "entontecer" (tornar tolo, desorientar) até mesmo uma figura habituada ao máximo de riqueza.

05 – Nas estrofes 8 e 9, de onde vem a resposta para o dilema do eu lírico, já que a razão falhou? Qual metáfora ele usa para descrever essa revelação?

      A resposta não vem da mente, mas sim do "coração," que "acode" (socorre) o eu lírico. O coração oferece a lição "como uma flor," uma metáfora que sugere que a verdade é simples, pura, espontânea e delicada, contrastando com a complexidade e a aridez das "receitas" intelectuais que foram previamente descartadas.

06 – Qual é a "doçura desta lição" oferecida pelo coração e qual a sua relação com a "fagulha de confiança" da criança?

      A lição central é a importância irrefutável do amor incondicional, resumida na frase: "dar a meu filho meu amor." O amor é apresentado como o único elemento capaz de acender a "fagulha de confiança" na criança, preenchendo o vazio existencial que nem os bens materiais nem a permissividade conseguiram suprir.

07 – De acordo com a estrofe final, quais são os quatro grandes poderes do amor na natureza humana?

      O amor é apresentado como a força suprema que: Resgata a pobreza (espiritual); Vence o tédio; Ilumina o dia; Instaura em nossa natureza a imperecível alegria.

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

POEMA: O SEGUNDO, QUE ME VIGIA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: O Segundo, Que Me Vigia

           Carlos Drummond de Andrade

Implacável ponteiro dos segundos.
Não, não quero este decassílabo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfW3-SovoDS_NlOPbjbx_oPdAxIDY4CJm05d_kD-UDciLptV1oiw9_nCt2N0s1O8VLcEKhSa6eGhsKqvJ4OkuvUw5-R37kFsmy7_u8yUCWzbe6D4S16ASi4KzsO2jzLGJ-QUt0pnuDWMpSrOmvvNSFwe2zOmP73eP9Sno_Qmo-MxUL3Yrtx22UhzmUpL4/s320/RELOGIO.jpg


O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo, é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
ou apressada
por quantos segundos?

Carlos Drummond de Andrade. Farewell. Rio de Janeiro, Record, 1996.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 24.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a correção ou a distinção que o eu lírico faz logo no início do poema, e por que ele a considera importante?

      O eu lírico corrige a ideia inicial do "Implacável ponteiro dos segundos," rejeitando o verso por ser um decassílabo (métrica poética) e, principalmente, por ser impreciso. A correção é: "O segundo, não o tempo, é implacável." Essa distinção é crucial porque ele quer isolar a menor e mais rápida unidade de tempo, o segundo, como o agente da implacabilidade. O tempo em suas unidades maiores (minuto, hora, dia) é tolerável; o segundo, por sua constância e rapidez, é o que realmente oprime e vigia.

02 – Por que o eu lírico afirma que as unidades de tempo maiores ("minuto," "hora," "dia," "vida") são mais toleráveis que o segundo?

      O eu lírico sugere que as unidades maiores dão uma ilusão de controle, extensão ou pausa. O minuto, a hora e a vida podem ser "tolerados," "suportados" ou "admitidos" porque oferecem um horizonte mais vasto. Já o segundo, por ser a unidade de medida mais imediata e constante, representa a pressão incessante e ininterrupta do presente que escapa a todo instante, tornando-se o verdadeiro símbolo da implacabilidade.

03 – Quais ações o eu lírico atribui ao segundo que reforçam seu caráter de "vigilante" impiedoso?

      O segundo é personificado com ações de vigilância e falta de piedade. Ele está "Sempre vigiando e correndo e vigiando," e dele se diz que "não se condói, não para, não perdoa." Essas ações atribuem ao segundo uma qualidade de observador constante e juiz severo que não tem empatia pela condição humana e não concede trégua ao sujeito poético.

04 – Qual é a principal relação que o segundo estabelece com a morte na estrofe final?

      O segundo é relacionado à morte como um anunciador ou agente de medida da finitude. A pergunta retórica (o segundo "Avisa talvez que a morte foi adiada / ou apressada / por quantos segundos?") sugere que o segundo é a unidade pela qual se mede o quanto a vida foi prolongada ou encurtada. Ele representa o limite temporal inegociável da existência, sendo a unidade mínima que determina o momento do fim.

05 – O que o poema, em sua brevidade e foco em uma única unidade de tempo, comunica sobre a experiência da passagem do tempo na modernidade ou na consciência individual?

      O poema comunica a ansiedade e a opressão geradas pela passagem do tempo em sua forma mais fragmentada e ininterrupta. Ao focar no segundo, Drummond reflete sobre a percepção aguda da finitude e a sensação de que a vida é constantemente drenada, grão por grão. A implacabilidade do segundo espelha a consciência angustiante de que a vida está sempre correndo, sob vigilância, sem nunca poder ser verdadeiramente detida ou controlada.

 

 

POEMA: TÂNATOS TANAJURA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Tânatos Tanajura

          Carlos Drummond de Andrade

I
Tanajura
flor de chuva
chuviflor
em revoo
de arco-íris.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgKwgvrCUOQz2WthyphenhyphenvH1QtJHVmdWpY4xMq68IvNYJ4qtcn-uMuUIublQHioaGMUqqqhPsK9y95328hsC8FZO9ArsMHoJf44I1yKZIlbnGGYRS9esMJwJs-41GGuUOI91BtERy_AeQzwieL8pX1uJ8WUlkqc7pMoU4P51M9B_B4jnXu1or_-ZwIBq0o76Jg/s320/ARCO%20IRIS.jpg



Erráticas
no ar escuro
que se aclara
ao sol da caça.

Foi o trovão,
tanajura,
tempo de amar,
tanajura,
tempinho de botar ovo
e de morrer,
tanajura.

II
Corre-corre na rua
a colher na enxurrada
a chuvatanajura.

Na tonta procura,
qual a mais gordinha
rainha do reino obscuro?
Oi, tana, tana, tanajura,
morte bailante
na tarde impura.

Esta hei de guardá-la,
esta hei de querer-lhe
como ao gato, ao caramujo
de minha estimação.

Carlos Drummond de Andrade. Farewell. Rio de Janeiro, Record, 1996.

Fonte: Gramática da Língua Portuguesa Uso e Abuso. Suzana d’Avila – Volume Único. Editora do Brasil S/A. Ensino de 1º grau. 1997. p. 70.

Entendendo o poema:

01 – Qual é a principal dualidade temática explorada no título e ao longo do poema "Tânatos Tanajura"?

      A principal dualidade temática é a oposição e a união entre Vida e Morte. O termo Tânatos (personificação grega da Morte) e Tanajura (um inseto de vida breve e cíclica) juntos exploram a natureza efêmera da existência, onde o tempo de voar, amar e botar ovo é, simultaneamente, o "tempinho... de morrer".

02 – Explique o significado das expressões "flor de chuva" e "chuviflor" aplicadas à Tanajura na primeira estrofe da Parte I?

      Essas expressões são metáforas que associam a Tanajura à beleza, fragilidade e efemeridade das flores. Elas sublinham que a aparição do inseto é diretamente ligada à chuva (fenômeno sazonal), indicando uma existência breve e uma beleza passageira, como o florescer que dura apenas um momento.

03 – Na terceira estrofe da Parte I, a repetição do vocativo "tanajura" em versos sucessivos confere qual efeito ao ritmo e ao tom do poema?

        “Foi o trovão, tanajura, tempo de amar, tanajura, tempinho de botar ovo e de morrer, tanajura.”

      A repetição (anáfora/vocativo) estabelece um tom de cantiga, lamento ou oração ritmada. Ela confere ao trecho um efeito de ternura melancólica e reforça a fatalidade e a simplicidade do ciclo de vida do inseto, quase como se o eu lírico estivesse se despedindo.

04 – Na Parte II, o que a frase "morte bailante na tarde impura" sugere sobre o destino das tanajuras e a relação humana com elas?

      A frase sugere um forte contraste trágico: o "bailante" remete ao voo gracioso e à liberdade do inseto, que é subitamente interrompido pela "morte" causada pela caça humana. O termo "tarde impura" pode ser uma reflexão do eu lírico sobre a visão predatória e o abate em massa dos insetos pelos coletores.

05 – Qual é o significado do verso final na Parte II, quando o eu lírico afirma que irá "guardá-la" e "querer-lhe / como ao gato, ao caramujo de minha estimação"?

      Este verso representa um ato de individualização e afeto que contrasta com a caça em massa. O eu lírico retira uma Tanajura específica do destino coletivo (ser comida) para conceder-lhe um valor individual e sentimental, elevando o inseto efêmero ao status de um animal de estimação, demonstrando ternura e uma crítica sutil à indiferença humana.