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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: A ROUPA NOVA DO IMPERADOR - HANS CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: A Roupa Nova do Imperador

         Hans Christian Andersen

        Há muitos anos, existiu um imperador tão obcecado por roupas novas que gastava todo o seu dinheiro em vestuário. Ele não se preocupava minimamente com seus soldados; tampouco se importava em ir ao teatro ou à caça, exceto pelas oportunidades que essas ocasiões lhe proporcionavam para exibir suas novas roupas. Ele tinha um traje diferente para cada hora do dia; e como se costuma dizer de qualquer outro rei ou imperador: "ele está reunido em conselho", dele sempre se dizia: "O Imperador está sentado em seu guarda-roupa".

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgoJ2WWDzb7bsCKo5rqwRpZfVQ-n3Dgahot2kZH3k9ZdCumVE2CbymM5c1_XwrXL43n1KJ1lYlT5UDs4HHBg-BogbXwVco-S5fNZ-h-qO7HACgh4zvp3I8v_fnJgBKKgka9FF4FNJXHtTo5avnf2mhOOFVqu4AAms_G71YTmRH0SAkIiMdEvwvN6U3HDas/s320/images.jpg


        O tempo passava alegremente na grande cidade que era sua capital; forasteiros chegavam todos os dias à corte. Certo dia, dois patifes, dizendo-se tecelões, apareceram. Alardearam que sabiam tecer tecidos das cores mais belas e padrões elaborados, cujas roupas teriam a maravilhosa propriedade de permanecer invisíveis para todos aqueles que fossem inaptos para o cargo que ocupavam, ou que tivessem um caráter extraordinariamente ingênuo.

        "Estas devem ser, de fato, roupas esplêndidas!", pensou o Imperador. "Se eu tivesse um traje assim, poderia descobrir imediatamente quais homens em meus reinos são inadequados para seus cargos, e também distinguir os sábios dos tolos! Este tecido deve ser tingido para mim imediatamente." E ordenou que grandes somas de dinheiro fossem dadas aos dois tecelões para que pudessem começar seu trabalho imediatamente.

        Então, os dois pretensos tecelões montaram dois teares e fingiram trabalhar muito, embora na realidade não fizessem absolutamente nada. Pediram a seda mais delicada e o fio de ouro mais puro; colocaram ambos em suas próprias mochilas; e então continuaram seu trabalho fingido nos teares vazios até tarde da noite.

        "Gostaria de saber como estão os tecelões com o meu tecido", disse o Imperador para si mesmo, após algum tempo; ficou, no entanto, um tanto constrangido ao lembrar que um simplório, ou alguém inadequado para o seu cargo, não seria capaz de ver a produção. Certamente, ele pensava que não tinha nada a perder pessoalmente; ainda assim, preferia enviar alguém para lhe trazer informações sobre os tecelões e o seu trabalho, antes de se preocupar com o assunto. Todos na cidade tinham ouvido falar das maravilhosas propriedades que o tecido possuía; e todos estavam ansiosos para saber o quão sábios, ou ignorantes, os seus vizinhos se revelariam.

        "Enviarei meu fiel e velho ministro aos tecelões", disse o Imperador finalmente, após alguma deliberação, "ele será o mais indicado para ver como o tecido está ficando; pois ele é um homem sensato, e ninguém poderia ser mais adequado para o cargo do que ele."

        Então o fiel pastor entrou no salão, onde os ladrões trabalhavam com todas as suas forças em seus teares vazios. "O que será isso?", pensou o velho, arregalando os olhos. "Não consigo encontrar um único fio nos teares." Contudo, ele não expressou seus pensamentos em voz alta.

        Os impostores pediram-lhe, com muita cortesia, que se aproximasse dos seus teares; e perguntaram-lhe se o desenho lhe agradava e se as cores não eram muito bonitas, apontando ao mesmo tempo para as molduras vazias. O pobre velho ministro olhou e olhou, mas não conseguiu descobrir nada nos teares, por uma razão muito simples: não havia nada lá. "O quê!", pensou ele novamente. "Será possível que eu seja um tolo? Nunca pensei assim; e ninguém deve saber agora se eu for. Será que sou inapto para o meu cargo? Não, isso também não deve ser dito. Nunca vou confessar que não consegui ver o tecido."

        "Bem, senhor ministro!" disse um dos patifes, ainda fingindo trabalhar. "O senhor não diz se a mercadoria lhe agrada."

        "Oh, é excelente!" respondeu o velho ministro, olhando para o tear através de seus óculos. "Este padrão, e as cores, sim, direi ao Imperador sem demora o quanto os acho belíssimos."

        "Ficaremos muito gratos", disseram os impostores, e então nomearam as diferentes cores e descreveram o padrão do suposto tecido. O velho ministro ouviu atentamente suas palavras, para que pudesse repeti-las ao Imperador; e então os patifes pediram mais seda e ouro, dizendo que era necessário para terminar o que haviam começado. Contudo, colocaram tudo o que lhes foi dado em suas mochilas e continuaram a trabalhar com a mesma aparente diligência de antes em seus teares vazios.

        O imperador enviou então outro oficial da corte para ver como estavam os trabalhos e para verificar se o tecido ficaria pronto em breve. Com este cavalheiro aconteceu exatamente a mesma coisa que com o ministro; ele examinou os teares por todos os lados, mas não conseguiu ver nada além das estruturas vazias.

        "Não vos parece tão belo quanto pareceu ao meu senhor, o ministro?", perguntaram os impostores do segundo embaixador do Imperador, repetindo os mesmos gestos de antes e falando do desenho e das cores que não existiam.

        "Certamente não sou estúpido!", pensou o mensageiro. "Deve ser que eu não seja adequado para o meu bom e proveitoso cargo! Isso é muito estranho; contudo, ninguém saberá nada a respeito." E, assim, elogiou o tecido que não podia ver e declarou-se encantado com as cores e os padrões. "De fato, peço a Vossa Majestade Imperial", disse ele ao seu soberano ao retornar, "o tecido que os tecelões estão preparando é extraordinariamente magnífico."

        Toda a cidade comentava sobre o esplêndido tecido que o Imperador mandara tecer às suas próprias custas.

        E então o próprio Imperador desejou ver a custosa manufatura, enquanto ainda estava no tear. Acompanhado por um seleto grupo de oficiais da corte, entre os quais estavam os dois homens honestos que já haviam admirado o tecido, ele foi até os astutos impostores, que, assim que perceberam a aproximação do Imperador, trabalharam com mais afinco do que nunca; embora ainda não tivessem passado um único fio pelos teares.

        "A obra não é absolutamente magnífica?", disseram os dois oficiais da coroa, já mencionados. "Se Vossa Majestade se dignasse a admirá-la! Que desenho esplêndido! Que cores gloriosas!", e ao mesmo tempo apontavam para as molduras vazias, pois imaginavam que todos os outros pudessem contemplar aquela primorosa obra de arte.

        "Como é isso?", disse o Imperador para si mesmo. "Não consigo ver nada! Isto é realmente terrível! Sou um simplório, ou sou inadequado para ser Imperador? Isso seria a pior coisa que poderia acontecer... Oh! O tecido é encantador", disse ele em voz alta. "Tem a minha total aprovação." E sorriu graciosamente e olhou atentamente para os teares vazios; pois de modo algum diria que não conseguia ver o que dois dos oficiais de sua corte tanto elogiaram. Toda a sua comitiva agora forçava a vista, na esperança de descobrir algo nos teares, mas não conseguiam ver mais do que os outros; no entanto, todos exclamaram: "Oh, que lindo!" e aconselharam Sua Majestade a mandar fazer novas roupas com esse esplêndido tecido para a procissão que se aproximava. "Magnífico! Encantador! Excelente!" ecoavam por todos os lados; e todos estavam extraordinariamente alegres. O Imperador compartilhou da satisfação geral; e presentearam os impostores com a fita de uma ordem de cavalaria, para ser usada em suas casas de botão, e o título de "Cavalheiros Tecelões".

        Os patifes passaram a noite inteira acordados antes do dia da procissão, com dezesseis luzes acesas, para que todos pudessem ver o quanto estavam ansiosos para terminar o novo traje do Imperador. Fingiram desenrolar o tecido dos teares, cortar o ar com suas tesouras e costurar com agulhas sem linha. "Vejam!", exclamaram, por fim. "As novas roupas do Imperador estão prontas!"

        E então o Imperador, com todos os nobres de sua corte, chegou aos tecelões; e os patifes ergueram os braços, como se estivessem segurando algo, dizendo: "Aqui estão as calças de Vossa Majestade! Aqui está o lenço! Aqui está o manto! O traje inteiro é leve como uma teia de aranha; alguém poderia pensar que não está vestindo nada, ao usá-lo; essa, porém, é a grande virtude deste tecido delicado."

        "Sim, sem dúvida!" disseram todos os cortesãos, embora nenhum deles pudesse ver nada daquela requintada manufatura.

        "Se Vossa Majestade Imperial tiver a gentileza de tirar as roupas, nós experimentaremos o novo terno em frente ao espelho."

        O Imperador foi então despido, e os patifes fingiram vesti-lo com seu novo traje; o Imperador girando de um lado para o outro diante do espelho.

        "Como Sua Majestade está esplêndido em suas novas vestes, e como elas lhe caem bem!" exclamaram todos. "Que modelo! Que cores! Estas são, de fato, vestes reais!"

        "O dossel que será carregado sobre Vossa Majestade na procissão já está à espera", anunciou o mestre de cerimônias.

        "Estou perfeitamente pronto", respondeu o Imperador. "Minhas roupas novas me servem bem?", perguntou ele, virando-se novamente diante do espelho, para que pudesse parecer que estava examinando seu elegante traje.

        Os camareiros, responsáveis ​​por carregar o séquito de Sua Majestade, tateavam o chão como se estivessem levantando as pontas do manto e fingiam carregar algo, pois de modo algum demonstrariam simplicidade ou inadequação para o cargo.

        Então o Imperador caminhava sob seu alto dossel, em meio à procissão, pelas ruas de sua capital; e todas as pessoas que estavam por perto, e as que estavam nas janelas, exclamavam: "Oh! Como são belas as novas vestes do nosso Imperador! Que cauda magnífica a do manto; e como o lenço cai graciosamente!" Em suma, ninguém admitiria que ele não pudesse ver essas vestes tão admiradas; porque, ao fazê-lo, ele se declararia ou um simplório ou inadequado para o seu cargo. Certamente, nenhum dos vários trajes do Imperador jamais causara tanta impressão quanto esses invisíveis.

        "Mas o Imperador não está vestindo absolutamente nada!" disse uma criancinha.

        "Escutem a voz da inocência!" exclamou o pai; e o que a criança dissera foi sussurrado de um para o outro.

        "Mas ele não está vestindo absolutamente nada!", exclamou finalmente todo o povo. O Imperador ficou contrariado, pois sabia que o povo tinha razão; mas achava que a procissão devia continuar! E os senhores dos aposentos se esforçaram ainda mais para fingir que estavam segurando uma cauda, ​​embora, na realidade, não houvesse cauda alguma para segurar.

Contos de Andersen Porto, Ed. AMBAR, 2002.

 

Entendendo o conto:

01 – Como a vaidade excessiva do imperador no início da história estabelece a vulnerabilidade necessária para que o golpe dos tecelões funcione?

      A obsessão do imperador por roupas novas fazia com que ele negligenciasse suas obrigações governamentais, militares e sociais, focando toda a sua atenção e recursos no vestuário. Esse desejo desmedido de ostentação o tornou vulnerável à manipulação, pois os golpistas ofereceram algo que atacava diretamente o seu ego: um traje exclusivo com o poder de testar a capacidade e a inteligência de seus súbditos. A vaidade cega do imperador o impediu de questionar a veracidade da proposta, tornando-o uma vítima fácil do engano.

02 – Qual é o papel da suposta "propriedade mágica" do tecido na manutenção da farsa entre os ministros e cortesãos?

      A propriedade mágica — de que o tecido permaneceria invisível para pessoas incapazes de exercer seus cargos ou de caráter extremamente ingênuo — funcionou como uma chantagem psicológica. Nenhum ministro ou oficial da corte ousou admitir que não enxergava nada, pois isso significaria confessar incompetência ou tolice perante o rei e a sociedade. Dessa forma, o medo do julgamento alheio e o desejo de preservar seus privilégios forçaram todos os subordinados a mentir e alimentar o engano coletivo.

03 – Análise a reação do velho ministro ao visitar os tecelões. Por que um homem considerado "sensato e fiel" optou por mentir ao imperador?

      Ao se deparar com os teares vazios, o velho ministro entrou em conflito interno, duvidando de sua própria capacidade e inteligência. O receio de ser visto como um tolo ou de ser considerado inadequado para o cargo valioso que ocupava superou sua lealdade e honestidade para com o governante. Ele optou por mentir para proteger seu prestígio, sua autoimagem e sua posição na corte, demonstrando que o instinto de autopreservação política prevaleceu sobre a verdade.

04 – De que maneira o fenômeno da conformidade social ("efeito boiada") se manifesta na atitude da população durante a procissão?

      A conformidade social fica evidente quando toda a população, ciente da "regra" da invisibilidade do tecido, começa a elogiar efusivamente as roupas inexistentes do imperador. Ninguém queria ser o único a parecer tolo ou incapaz perante os vizinhos. As pessoas preferiram reproduzir uma mentira coletivamente aceita para se encaixarem no padrão social e não sofrerem rejeição, sacrificando a verdade do que seus próprios olhos viam em nome da aceitação pública.

05 – Qual é o significado simbólico do fato de ter sido uma criança a revelar a verdade sobre o imperador?

      A criança simboliza a inocência, a espontaneidade e a ausência das amarras e convenções sociais que corrompem os adultos. Como ainda não aprendeu a ter medo do julgamento dos outros, a temer autoridades ou a manipular a verdade para obter vantagens, a criança enxerga a realidade sem os filtros do ego e do preconceito. Sua fala sincera quebra o feitiço da ilusão coletiva, revelando a força da verdade simples em contraste com a hipocrisia do mundo adulto.

06 – Diante da revelação do povo, qual foi a atitude do imperador e o que essa atitude revela sobre o seu caráter?

      Mesmo percebendo internamente que o povo estava certo e que ele estava inteiramente nu, o imperador sentiu-se contrariado, mas decidiu continuar a marcha com ainda mais altivez. Os camareiros também continuaram segurando a cauda invisível. Essa atitude revela um caráter extremamente orgulhoso e inflexível, em que a manutenção das aparências e do poder formal é colocada acima da verdade e do ridículo. O imperador preferiu sustentar o absurdo a ter a humildade de admitir seu erro perante a nação.

07 – Que crítica social ou moral central Hans Christian Andersen busca transmitir por meio desse conto de fadas?

      Andersen critica a hipocrisia, a vaidade, a futilidade do poder e o medo irracional que as pessoas têm da opinião pública. A narrativa expõe como instituições poderosas e líderes arrogantes podem se tornar ridículos quando cercados por conselheiros aduladores que não dizem a verdade. A moral da história alerta sobre o perigo do autoengano e da complacência social, mostrando que muitas vezes a sociedade sustenta mentiras absurdas apenas para preservar aparências e hierarquias de poder.

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

CONTO: OS NAMORADOS - HANS CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: Os Namorados

              Hans Christian Andersen


O Pião e a Bola achavam-se numa gaveta, junto com outros brinquedos, e o Pião disse a Bola:
- Vamos ser namorados, já que estamos juntos na mesma gaveta?
A Bola, porém, feita de marroquim, e tão vaidosa como uma senhorita elegante, nem resposta quis dar a semelhante pergunta.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjRkZKIBJPjUUTJZr5cfWEptVIx6g9lL5GD5LlzV8_YeX7CMr11j-P5zLebTleFSb7G-EjUS_s7YtilvZMv-3XxRRas6P1yoX8NKij-fPXaS8uA1EcLzYHJ2TI5rYAFOM9JmA5-HM3R3ooM-mHXHD1xnke-4lgvBEaOrYV3pembd-K6qMksyaB_mQypkkk/s1600/PIAO.jpg


No dia seguinte, veio o menino, dono dos brinquedos. Pintou o Pião de vermelho e amarelo, e pregou-lhe bem no centro um prego de latão. Era muito bonito quando o Pião girava.
- Olhe para mim - disse o Pião à Bola - que diz você agora? Não vamos então ser namorados? Servimos muito bem um para o outro: você pula e eu danço. Ninguém poderá ser mais feliz que nós dois.
- É o que o senhor pensa - disse a Bola - certamente não sabe que meu pai e minha mãe foram chinelos de marroquim, e que tenho dentro de mim uma cortiça.
E eu sou feito de mogno - disse o Pião - o próprio prefeito me torneou em seu torno, o que lhe deu um grande prazer.
- Se eu pudesse acreditar nisso! - disse a Bola.
- Quero nunca mais ver uma fieira em toda a minha vida se for mentira o que eu disse - respondeu o Pião.
O senhor advoga bem a própria causa - disse a Bola - mas não posso namorar. Estou quase comprometida com um sr. Andorinha. Cada vez que subo ao espaço, ele põe a cabeça fora do ninho e pergunta:
"Quer? Quer?"
Ora, eu intimamente já disse que sim, o que equivale a um meio compromisso. Mas lhe prometo que nunca o esquecerei!
- E isso vai adiantar muito! - disse o Pião.
E nada mais disseram.
No dia seguinte vieram buscar a Bola. O Pião viu como ela subia a grande altura, como um pássaro, desaparecendo de vista. Voltava todas as vezes, mas dava um grande salto cada vez que tocava o chão. Devia ser por causa das saudades, ou por causa da cortiça que ela tinha dentro dela. A nona vez a Bola subiu ao alto, e não mais voltou. O menino procurou muito, e nada: a Bola sumira.
- Bem sei onde ela está - suspirou o Pião - está no ninho do sr. Andorinha e com ele se casou.
Quanto mais o Pião pensava naquilo, tanto mais se apaixonava pela Bola. Por não poder tê-la, seu amor por ela aumentava. O fato de ter ela ficado com outro, tornava o caso mais apaixonante. O Pião dançava ao redor e zunia, mas sempre pensava na Bola, que em seus pensamentos se foi tornando cada vez mais bonita. Passaram-se assim muitos anos e o amor do Pião transformou-se num velho sonho.
O Pião não era mais moço. Um dia, porém, foi inteiramente pintado de dourado. Nunca fora antes tão bonito. Era agora um Pião de Ouro, e pulava, deixando um zunido pairando no ar. Aquilo sim, era formidável! Mas de repente ele saltou alto demais - e sumiu.
Procuraram por toda a parte, até na adega, mas nada de aparecer o Pião.
- Onde estaria ele?
Pulara para dentro da barrica de lixo, onde jaziam amontoados talos de couve, cisco e entulho caído da calha.
"Estou bem arrumado" - pensou o Pião - "aqui a douração não tardará a sair de mim. E que gentalha é essa em cujo meio vim parar!" Olhou de esguelha para um longo talo de couve e para um estranho objeto redondo, que parecia uma maçã velha. Mas não era uma maçã. Era uma velha Bola que durante muitos anos estivera caída na calha, embebida de água.
- Graças a Deus, aí vem alguém com quem se pode falar - disse a Bola ao ver o Pião Dourado - eu, para falar a verdade, sou de marroquim, costurada pelas mãos de uma gentil senhorita, e tenho uma cortiça dentro de mim. Mas duvido que se veja isso agora. Eu estava prestes a casar-me com uma andorinha quando caí na calha, e ali estive por cinco anos, encharcada de água. É um longo tempo, pode crer, para uma jovem.
O Pião não respondeu. Pensava em sua antiga namorada, e quanto mais a ouvia, tanto mais certo estava de que era ela.
Nisto chegou a criada e quis virar a lata de lixo.
- Oh! Aqui está o Pião Dourado! - disse ela.
E o Pião retornou à sala, à antiga posição de respeito, mas da Bola nada mais se ouviu. O Pião nunca mais falou em seu antigo amor. O amor se extingue quando a amada passa cinco anos numa calha, embebendo-se de água. Nem a conhecem mais quando a encontram na lata de lixo.

Entendendo o texto

01. Qual foi a justificativa inicial da Bola para recusar o pedido de namoro do Pião?

a) Ela considerava o Pião feio e sem cores vibrantes.

b) Ela alegava ter uma origem nobre (feita de marroquim) e estar quase comprometida com um senhor Andorinha.

c) Ela pretendia fugir da gaveta para viver no jardim com o menino. d) Ela não gostava da forma como o Pião zunia e dançava quando girava.

02. O que aconteceu com a Bola durante a brincadeira que a afastou definitivamente do Pião por muitos anos?

a) Ela foi dada como presente para uma menina vizinha.

b) Ela murchou e perdeu a cortiça que tinha em seu interior.

c) Ela subiu muito alto pela nona vez e não voltou mais, sumindo da vista do menino.

d) Ela caiu dentro de uma barrica de lixo logo no primeiro dia de brincadeira.

03. Como o sentimento do Pião pela Bola se transformou enquanto ela estava desaparecida?

a) O seu amor aumentou pela impossibilidade de tê-la, tornando-a cada vez mais bonita em seus pensamentos.

b) Ele a esqueceu rapidamente e começou a namorar outros brinquedos da gaveta.

c) Ele sentiu raiva por ter sido abandonado e passou a odiar a Bola.

d) Ele ficou triste apenas no início, mas depois percebeu que o senhor Andorinha era um par melhor para ela.

04. Onde o Pião e a Bola finalmente se reencontraram após muitos anos?

a) Na sala de estar, onde ambos foram colocados em posição de respeito.

b) No ninho do senhor Andorinha, no alto do telhado.

c) Dentro de uma barrica de lixo, entre talos de couve e entulho.

d) No jardim, enquanto o menino procurava por seus antigos brinquedos.

05. Por que o Pião não quis reatar o seu amor pela Bola ao reencontrá-la no final do conto?

a) Porque ele agora era de ouro e se sentia superior a qualquer outro brinquedo.

b) Porque a Bola estava irreconhecível, velha e encharcada após passar cinco anos em uma calha.

c) Porque ele descobriu que ela realmente havia se casado com a andorinha.

d) Porque a criada o levou de volta para a sala antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

06.No começo da história, a Bola se recusa a namorar o Pião. Qual era a principal desculpa que ela dava para não aceitar o pedido dele?

A Bola dizia que não podia namorar porque era muito vaidosa e já estava quase comprometida com um senhor Andorinha, que sempre perguntava por ela quando ela subia ao céu durante as brincadeiras.

07. O tempo passou e os dois brinquedos mudaram bastante. Como o Pião e a Bola estavam fisicamente quando se reencontraram na lata de lixo?

O Pião estava muito bonito, pois tinha sido pintado de dourado e brilhava como se fosse de ouro. Já a Bola estava muito feia e velha, pois tinha passado cinco anos encharcada de água dentro de uma calha, parecendo uma maçã podre.

08. O Pião sempre dizia que amava a Bola. No final do conto, ele continua sentindo o mesmo? Por que ele mudou de ideia?

Não, ele deixou de amá-la. Ele mudou de ideia porque viu que a Bola estava feia, suja e velha na lata de lixo. O texto mostra que o amor dele acabou porque ele só se importava com a beleza e o brilho dela, e não a reconheceu mais naquela situação.

 

 

domingo, 29 de março de 2026

CONTO: OS SALTEADORES - HANZ CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: Os Saltadores

              Hans Christian Andersen

 

Um dia a Pulga, o Gafanhoto e a Cigarra resolveram verificar qual deles dava o pulo mais alto; convidaram todo o mundo e mais alguém que quisesse assistir ao espetáculo podia vir. Eram na verdade três saltadores famosos os que estavam ali reunidos!

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgyyuoYvStDjQpkIayvhz3NiWejIYfq_PEFWCDnXa_SidH8-50N-jRfn40CtuQesYcv2saJpSuQ5sMm8bWeDOVhK-1HhPnN9Gk2SmTzMfGqBulavVTzhVQtHT3uix6Y00Xe8DlLzPbI3wRzmTgMCjkY3THhCvH6vNBjGEeC7ig26l2kLF8YOb56LMgnKV0/s1600/pulga.png


- Darei a minha filha ao que der o salto mais alto - disse o Rei - porque não teria graça nenhuma que esta gente desse pulos assim, por nada.
Foi o Pulgo quem saltou primeiro. Tinha muito boas maneiras; cumprimentou toda a assistência com muita elegância, porque tinha nas veias sangue nobre, que lhe vinha do lado materno e estava habituado à sociedade das criaturas humanas - o que traz muita diferença.
Veio depois o Gafanhoto. Era, está visto, um tanto pesado, mas ainda assim fazia muito boa figura, realçada por um uniforme verde, muito distinto. Além disso, aquele cavalheiro sustentava que pertencia a uma família do Egito, muito antiga, e que lá naquela terra era ele tido em muito alta conta. E tanto isso era verdade que tinham ido buscá-lo ao prado, e deram-lhe por moradia uma casa de campo de três andares, feita de cartas de baralho, com os lados das figuras virados para dentro. E as portas e janelas eram recortadas mesmo no corpo do rei de copas.
- Eu canto tão bem - dizia ele - que dezesseis grilos nativos, que tinham trilado desde a mais tenra infância, sem obter um chalé, emagreceram tanto que ficaram ainda mais finos do que já eram, depois de me ouvirem.
Pulgo e gafanhoto proclamaram, pois, no devido tempo, quem eram, e ambos declararam que se julgavam com direito à mão da princesa.
O Grilo nada disse, mas achava, é claro, que não lhes ficava atrás; e o Cão de Guarda, mal o farejou, declarou logo que o Grilo era de boa família, tirado do osso do peito de um ganso real. O velho Senador, que obtivera três mandados para ficar calado, sustentava que o Grilo era dotado do poder de profecia, e que por meio do seu osso a gente podia saber se o inverno iria ser suave ou rigoroso, coisa que ninguém podia deduzir dos ossos daquele que escreve o almanaque!
- Oh! Eu por mim não digo nada - disse o velho Rei - mas sigo meu antigo costume, e tenho cá minhas ideias, como as outras pessoas.
E chegou a hora da prova. O Pulgo saltou tão alto que ninguém pôde ver até onde chegou, e por isso teimavam que ele não tinha dado pulo algum, coisa digna de desprezo naquelas regiões. O Gafanhoto não chegou nem à metade daquela altura, mas pulou direto ao rosto do Rei - procedimento que sua majestade considerou altamente incorreto. O Grilo ficou quieto ainda um bom pedaço, ao que parecia, perdido em cismas; e já todos se inclinavam a crer que ele não podia dar salto algum.
- Tomara que ele não tenha adoecido! - disse o Cão de Guarda, farejando-o de novo.
Mas, vrrrrr! E lá saltou o Grilo, meio de lado, para o regaço da Princesa, que estava timidamente sentada em um tamborete de ouro.
Então o Rei declarou:
- O salto mais alto foi o que alvejou minha filha, porque significa um delicado cumprimento. Para ocorrer uma idéia assim, é preciso que a pessoa tenha cabeça! E o Grilo provou que tem cabeça. Foi, pois, o Grilo quem obteve a mão da Princesa.
- E, no entanto - dizia o Pulgo - eu saltei mais alto! Mas não faz mal... Ela que fique lá com o osso de ganso, com a caixinha de música e tudo! Quem deu o salto mais alto fui eu! Mas neste mundo a gente precisa ter um corpo volumoso, que apareça, é o que é. E o Pulgo foi servir no estrangeiro e dizem que por lá morreu.
O Gafanhoto sentou-se à beira de uma vala, meditando sobre os costumes do mundo. E também ele dizia:
- O corpo é tudo neste mundo! O corpo é tudo!
E pôs-se a cantar sua canção melancólica - que foi de onde tiramos esta história. Mas, ainda que ela tenha sido impressa, talvez não seja absolutamente verdadeira. Não é bom fiar!

 

Entendendo o texto

 

01. Qual foi a promessa feita pelo Rei para motivar a competição entre os saltadores?

a) O vencedor receberia um castelo feito de cartas de baralho.

b) O vencedor ganharia um título de nobreza e sangue real.

c) O Rei daria a mão de sua filha em casamento ao que desse o salto mais alto.

d) O vencedor seria nomeado o novo Senador do reino.

 

02. De acordo com o texto, qual era a origem da distinção e das boas maneiras do Pulgo?

a) O fato de ele ter vivido em uma casa de campo de três andares.

b) O sangue nobre que lhe vinha do lado materno e a convivência com humanos.

c) O uniforme verde e distinto que ele usava para saltar.

d) O poder de profecia herdado de sua família do Egito.

 

03. Como era a moradia do Gafanhoto e do que ela era feita?

a) Um osso de ganso real guardado em um tamborete de ouro.

b) Uma vala à beira da estrada onde ele meditava sobre o mundo.

c) Um chalé simples conquistado através do seu canto.

d) Uma casa de campo de três andares feita de cartas de baralho.

 

04. O que aconteceu durante o salto do Pulgo que gerou discussão entre os assistentes?

a) Ele saltou tão alto que ninguém conseguiu ver até onde ele chegou.

b) Ele errou o alvo e caiu diretamente no rosto do Rei.

c) Ele sentiu-se mal e não conseguiu sair do lugar.

d) Ele saltou de lado e caiu no regaço da Princesa.

 

05. Qual foi a atitude do Gafanhoto durante a prova que o Rei considerou "altamente incorreta"?

a) Ele recusou-se a saltar por se considerar pesado demais.

b) Ele saltou diretamente no rosto de sua majestade, o Rei.

c) Ele começou a cantar sua canção melancólica em vez de pular.

d) Ele tentou trapacear usando suas asas de família egípcia.

 

06. Por que o Rei decidiu que o Grilo foi o vencedor, apesar dos outros terem saltado?

a) Porque o Grilo provou ser o mais forte fisicamente entre os três.

b) Porque o salto do Grilo em direção à Princesa foi interpretado como um cumprimento delicado e inteligente.

c) Porque o Cão de Guarda confirmou que o Grilo tinha o osso de ganso real.

d) Porque o Grilo previu que o inverno seria rigoroso através de sua profecia.

07. Qual foi a conclusão amarga do Pulgo após perder a competição?

a) Que ele deveria ter treinado mais para o salto ser visível.

b) Que a Princesa não era bonita o suficiente para o seu sangue nobre.

c) Que, no mundo, é preciso ter um corpo volumoso que apareça para ser valorizado.

d) Que o Grilo tinha usado magia para conquistar o Rei.

 

 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

CONTO: O PATINHO FEIO - (FRAGMENTO) - HANS CHRISTIAN ANDERSEN - COM GABARITO

 Conto: O Patinho Feio – Fragmento

            Hans Christian Andersen

        A mamãe pata tinha escolhido um lugar ideal para fazer seu ninho: um cantinho bem protegido, no meio da folhagem, perto do rio que contornava o velho castelo.

        Mais adiante estendiam-se o bosque e um lindo jardim florido.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_8-1XZEu8FskSaHUApwdJzJXZJMXVI1vUKW9QChZWgqfLSHPThRHsIuNJWwgDWh9Y2lFuie3T4Iqg558yIz18vhoppDF-7zTq1BSCm9w4H8V5LPgAXhnnGhNuQQRNpmmfHJHpDtU-Bg9_akpd582EpTiwVmu7gUReDRllY73dc7RHTgi2mHZu6NbRbX4/s1600/PATINHO.jpg


        Naquele lugar sossegado, a pata agora aquecia pacientemente seus ovos. Por fim, após a longa espera, os ovos se abriram um após o outro, e das cascas rompidas surgiram, engraçadinhos e miúdos, os patinhos amarelos que, imediatamente, saltaram do ninho.

        Porém um dos ovos ainda não se abrira; era um ovo grande, e a pata pensou que não o chocara o suficiente.

        Impaciente, deu umas bicadas no ovão e ele começou a se romper.

        No entanto, em vez de um patinho amarelinho saiu uma ave cinzenta e desajeitada. Nem parecia um patinho.

        Para ter certeza de que o recém-nascido era um patinho, e não outra ave, a mãe-pata foi com ele até o rio e o obrigou a mergulhar junto com os outros. Quando viu que ele nadava com naturalidade e satisfação, suspirou aliviada. Era só um patinho muito, muito feio.

        Tranquilizada, levou sua numerosa família para conhecer os outros animais que viviam nos jardins do castelo.

        Todos parabenizaram a pata: a sua ninhada era realmente bonita. Exceto um. O horroroso e desajeitado das penas cinzentas!

        — É grande e sem graça! — falou o peru.

        — Tem um ar abobalhado — comentaram as galinhas.

        O porquinho nada disse, mas grunhiu com ar de desaprovação.

        Nos dias que se seguiram, as coisas pioraram. Todos os bichos, inclusive os patinhos, perseguiam a criaturinha feia.

        A pata, que no princípio defendia aquela sua estranha cria, agora também sentia vergonha e não queria tê-lo em sua companhia.

        O pobre patinho crescia só, malcuidado e desprezado. Sofria. As galinhas o bicavam a todo instante, os perus o perseguiam com ar ameaçador e até a empregada, que diariamente levava comida aos bichos, só pensava em enxotá-lo.

        Um dia, desesperado, o patinho feio fugiu. Queria ficar longe de todos que o perseguiam.

        Caminhou, caminhou e chegou perto de um grande brejo, onde viviam alguns marrecos. Foi recebido com indiferença: ninguém ligou para ele. Mas não foi maltratado nem ridicularizado; para ele, que até agora só sofrera, isso já era o suficiente.

        [...] Novamente caminhou, caminhou, procurando um lugar onde não sofresse. Ao entardecer chegou a uma cabana. A porta estava entreaberta, e ele conseguiu entrar sem ser notado. Lá dentro, cansado e tremendo de frio, se encolheu num cantinho e logo dormiu.

        Na cabana morava uma velha, em companhia de um gato, especialista em caçar ratos, e de uma galinha, que todos os dias botava o seu ovinho.

        Na manhã seguinte, quando a dona da cabana viu o patinho dormindo no canto, ficou toda contente.

        — Talvez seja uma patinha. Se for, cedo ou tarde botará ovos, e eu poderei preparar cremes, pudins e tortas, pois terei mais ovos. Estou com muita sorte!

        Mas o tempo passava, e nenhum ovo aparecia. A velha começou a perder a paciência. A galinha e o gato, que desde o começo não viam com bons olhos recém-chegado, foram ficando agressivos e briguentos.

        Mais uma vez, o coitadinho preferiu deixar a segurança da cabana e se aventurar pelo mundo.

        Caminhou, caminhou e achou um lugar tranquilo perto de uma lagoa, onde parou. [...]

        Sozinho, triste e esfomeado, o patinho pensava, preocupado, no inverno que se aproximava.

        Num final de tarde, viu surgir entre os arbustos um bando de grandes e lindíssimas aves. Tinham as plumas alvas, as asas grandes e um longo pescoço, delicado e sinuoso: eram cisnes, emigrando na direção de regiões quentes. Lançando estranhos sons, bateram as asas e levantaram voo, bem alto.

        O patinho ficou encantado, olhando a revoada, até que ela desaparecesse no horizonte. Sentiu uma grande tristeza, como se tivesse perdido amigos muito queridos.

        Com o coração apertado, lançou-se na lagoa e nadou durante longo tempo.

        Não conseguia tirar o pensamento daquelas maravilhosas criaturas, graciosas e elegantes.

        Foi se sentindo mais feio, mais sozinho e mais infeliz do que nunca.

        Naquele ano, o inverno chegou cedo e foi muito rigoroso. [...]

        — Agora morrerei — pensou. — Assim, terá fim todo meu sofrimento.

        Fechou os olhos, e o último pensamento que teve antes de cair num sono parecido com a morte foi para as grandes aves brancas.

        Na manhã seguinte, bem cedo, um camponês que passava por aqueles lados viu o pobre patinho, já meio morto de frio.

        Quebrou o gelo com um pedaço de pau, libertou o pobrezinho e levou-o para sua casa.

        Lá o patinho foi alimentado e aquecido, recuperando um pouco de suas forças. Logo que deu sinais de vida, os filhos do camponês se animaram:

        — Vamos fazê-lo voar!

        — Vamos escondê-lo em algum lugar!

        E seguravam o patinho, apertavam-no, esfregavam-no. Os meninos não tinham más intenções; mas o patinho, acostumado a ser maltratado, atormentado e ofendido, se assustou e tentou fugir. Fuga atrapalhada!

        Caiu de cabeça num balde cheio de leite e, esperneando para sair, derrubou tudo. A mulher do camponês começou a gritar, e o pobre patinho se assustou ainda mais.

        Acabou se enfiando no balde da manteiga, engordurando-se até os olhos e, finalmente se enfiou num saco de farinha, levantando uma poeira sem fim. A cozinha parecia um campo de batalha. Fora de si, a mulher do camponês pegara a vassoura e procurava golpear o patinho. As crianças corriam atrás do coitadinho, divertindo-se muito.

        Meio cego pela farinha, molhado de leite e engordurado de manteiga, esbarrando aqui e ali, o pobrezinho por sorte conseguiu afinal encontrar a porta e fugir, escapando da curiosidade das crianças e da fúria da mulher. Ora esvoaçando, ora se arrastando na neve, ele se afastou da casa do camponês e somente parou quando lhe faltaram as forças.

        Nos meses seguintes, o patinho viveu num lago, se abrigando do gelo onde encontrava relva seca.

        Finalmente, a primavera derrotou o inverno. Lá no alto, voavam muitas aves. Um dia, observando-as, o patinho sentiu um inexplicável e incontrolável desejo de voar.

        [...] Voou. Voou. Voou longamente, até que avistou um imenso jardim repleto de flores e de árvores; do meio das árvores saíram três aves brancas. O patinho reconheceu as lindas aves que já vira antes, e se sentiu invadir por uma emoção estranha, como se fosse um grande amor por elas.

        — Quero me aproximar dessas esplêndidas criaturas — murmurou. — Talvez me humilhem e me matem a bicadas, mas não importa. É melhor morrer perto delas do que continuar vivendo atormentado por todos.

        Com um leve toque das asas, abaixou-se até o pequeno lago e pousou tranquilamente na água.

        — Podem matar-me, se quiserem — disse, resignado, o infeliz.

        E abaixou a cabeça, aguardando a morte. Ao fazer isso, viu a própria imagem refletida na água, e seu coração entristecido deu um pulo. O que via não era a criatura desengonçada, cinzenta e sem graça de outrora. Enxergava as penas brancas, as grandes asas e um pescoço longo e sinuoso.

        Ele era um cisne! Um cisne, como as aves que tanto admirava.

        — Bem-vindo entre nós! — disseram-lhe os três cisnes, curvando os pescoços, em sinal de saudação.

        Aquele que num tempo distante tinha sido um patinho feio, humilhado, desprezado e atormentado se sentia agora tão feliz que se perguntava se não era um sonho!

        Mas, não! Não estava sonhando. Nadava em companhia de outros, com o coração cheio de felicidade.

        Mais tarde, chegaram ao jardim três meninos, para dar comida aos cisnes. O menorzinho disse, surpreso:

        — Tem um cisne novo! E é o mais belo de todos! E correu para chamar os pais.

        — É mesmo uma esplêndida criatura! — disseram os pais.

        E jogaram pedacinhos de biscoito e de bolo. Tímido diante de tantos elogios, o cisne escondeu a cabeça embaixo da asa.

        Talvez um outro, em seu lugar, tivesse ficado envaidecido. Mas não ele. Seu coração era muito bom, e ele sofrera muito, antes de alcançar a sonhada felicidade.

Disponível em: www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/roteiropedagogico/publicacao/8105_0_patinho_feio.pdf. Acesso em: 28 fev. 2022.

Fonte: Língua Portuguesa. Linguagens – Séries finais, caderno 1. 8º ano – Larissa G. Paris & Maria C. Pina – 1ª ed. 2ª impressão – FGV – MAXI – São Paulo, 2023. p. 60-62.

Entendendo o conto:

01 – Por que o patinho era considerado feio pelos outros animais?

      O patinho era considerado feio porque tinha uma aparência diferente dos outros animais da granja. Ele era maior, cinzento e desajeitado, enquanto os outros patinhos eram amarelos e graciosos.

02 – Como os outros animais tratavam o patinho feio?

      Os outros animais, como galinhas, perus e até mesmo os outros patinhos, zombavam e maltratavam o patinho feio. Ele era constantemente humilhado e rejeitado por sua aparência diferente.

03 – Por que a pata, mãe do patinho feio, acabou se envergonhando dele?

      Inicialmente, a pata defendia seu filho, mesmo ele sendo diferente. No entanto, diante da rejeição dos outros animais e da própria insegurança, ela também passou a sentir vergonha do patinho feio.

04 – Quais as dificuldades enfrentadas pelo patinho feio após fugir da granja?

      Após fugir da granja, o patinho feio enfrentou diversas dificuldades, como a rejeição dos outros animais, a solidão, o frio e a fome. Ele peregrinou por diversos lugares em busca de um lugar onde pudesse ser aceito.

05 – Qual a importância da descoberta do patinho sobre sua verdadeira identidade?

      A descoberta de que era um cisne foi um momento transformador para o patinho feio. Ele finalmente encontrou seu lugar no mundo e compreendeu que sua diferença não era um motivo para ser rejeitado, mas sim uma característica que o tornava especial.

06 – Qual a mensagem principal do conto "O Patinho Feio"?

      A mensagem principal do conto é que as aparências enganam e que a beleza está nos olhos de quem vê. O patinho feio nos ensina a aceitar nossas diferenças, a não nos deixarmos abater pelas críticas e a acreditar em nós mesmos, mesmo quando os outros não o fazem.

07 – Como o conto "O Patinho Feio" pode ser interpretado como uma alegoria?

      O conto pode ser interpretado como uma alegoria sobre a importância de sermos nós mesmos e de não nos conformarmos com os padrões estabelecidos pela sociedade. O patinho feio representa aqueles que são diferentes e que sofrem por causa disso, mas que, no final, encontram seu lugar no mundo e são valorizados por sua singularidade.

08 – Qual o papel da natureza na história do patinho feio?

      A natureza desempenha um papel fundamental na história do patinho feio. É na natureza que ele encontra abrigo, alimento e, finalmente, sua verdadeira identidade. A natureza representa um espaço de liberdade e de possibilidades, onde o patinho pode ser quem ele realmente é.

09 – Como a história do patinho feio pode ser relacionada com a vida real?

      A história do patinho feio pode ser relacionada com a vida real, pois muitas pessoas se sentem diferentes ou excluídas por alguma razão. O conto nos mostra que é importante sermos resilientes, buscarmos nosso próprio caminho e não nos deixarmos abater pelas críticas dos outros.

10 – Qual a importância de histórias como "O Patinho Feio" para a educação infantil?

      Histórias como "O Patinho Feio" são importantes para a educação infantil, pois ajudam as crianças a desenvolverem a autoestima, a empatia e a tolerância às diferenças. Ao se identificarem com o patinho feio, as crianças aprendem que é normal ser diferente e que cada um tem suas próprias qualidades.

 

domingo, 17 de setembro de 2017

O CONTADOR DE HISTÓRIAS - COM GABARITO

 TEXTO: O CONTADOR DE HISTÓRIAS
                 Hans Christian

      Tanto tempo, 200 anos, dois séculos.
      Foi no dia dois de abril de 1805 que nasceu, numa pequena cidade da
Dinamarca, o menino Hans Christian.
      Como ele um dia viria a dizer, “a vida de cada pessoa é um conto de fadas,
escrito pela mão de Deus”; também a sua vida mais parece uma história
daquelas que os nossos pais nos contam quando, à noite, na
cama, nos preparamos para dormir e sonhar.
       O pequenino Hans perdeu o pai muito cedo, e a mãe o o acompanhou
no crescimento e nunca lhe contou uma história.
       Por isso, o Hans foi crescendo a inventar as suas próprias histórias e
com a certeza de que, um dia, seria famoso.
       Hei de ser cantor! murmurou uma noite, quando soprava a vela
que lhe iluminava o quarto; sim, porque, duzentos anos, não havia
luz elétrica.
       Mudou de cidade e foi para Copenhaga, a capital da Dinamarca, um
país lindo mas muito frio, no Norte da Europa.
       Bateu à porta do teatro da terra e
       Venho oferecer-me para cantor… – titubeou.
       Não precisamos! – respondeu uma voz antipática.
       E para ator? – tentou de novo.
       Não queremos garotos a representar! a mesma voz.
        sei. Tenho muito jeito para bailarino… o Hans insistia de novo.
       Não te queremos, nem para cantor, nem ator, nem bailarino!
       E zás, a porta fechou-se-lhe na cara.
      Tão triste ficou o nosso Hans que decidiu partir em viagem. Sem
dinheiro e com a mala só cheia de sonhos, visitou outros países, apren-
deu outras línguas e foi escrevendo as histórias que nasciam na sua
cabeça.
       Quando voltou à terra natal, trazia tantas que fez um livro chamado
Hisrias contadas às crianças”.
        Mal ele sabia que, passados estes anos, quase todas as crianças as
conhecem de cor e salteado.

Júlio ISIDRO, 2007. 100 Histórias para Contar e Sonhar. Porto: ASA
 PARA COMPREENDER…

1.Assinala as seguintes afirmações como verdadeiras (V) ou falsas (F).



a.O menino Hans Christian teve uma vida semelhante à de qualquer criança da sua idade. F

b. O seu sonho de criança era ser poeta. F

c. Quando chegou a Copenhaga, foi ao teatro oferecer-se para cantor. V

d. Como não foi bem-sucedido no teatro de Copenhaga, resolveu partir em viagem. V


1.1. Corrige as afirmações falsas.

2. Assinala a resposta correta de acordo com o sentido do texto.
2.1. A história do texto
a. é recente.
b. passou-se algum tempo.
c. passou-se há muito tempo.
2.2. A vida de Hans parece
a. irreal.
b. um sonho.
c. uma hisria.

2.3. Hans partiu em viagem
a. porque queria conhecer o mundo.
b. para procurar amigos.
c. devido à tristeza de ninguém o aceitar.

2.4. Hans Christian Andersen
a. transformou-se num famoso escritor.
b. acabou por ser ator.
c. conquistou a fama como cantor.

3. Justifica o título do texto.
     E que ele contou a história de sua vida.

4. Hans foi crescendo a inventar as suas próprias histórias. Porquê?
     Porque não teve uma mãe para contar histórias.

5. Completa as seguintes frases a partir das informações fornecidas pelo texto.
Hans Christian Andersen nasceu em uma pequena cidade, na Dinamarca.
O seu pai morreu muito cedo e a sua mãe não o acompanhou no seu crescimento.
Assim, Hans inventava as suas próprias histórias a partiu para outros lugares mesmo sem ter dinheiro, quando regressou, já tinha escrito as histórias do livro Histórias contadas às crianças.


6. Explica por palavras tuas a expressão: () com a mala só cheia de sonhos (…).
     Respostas pessoal do aluno.

7. Achas que a infância de Hans influenciou as histórias que escreveu? Justifica a tua resposta.
      Com certeza, pois se inspirava no mundo de fadas e duendes e na tradição popular da Dinamarca.


PARA CONHECER… A LÍNGUA

1. Indica a classe a que pertencem as palavras sublinhadas, colocando  na frente de cada frase:
Nome: Adjetivo -Verbo -Determinante -Quantificador -Interjeição.

a. o menino Hans : Determinante.
b. “O pequenino Hans : Adjetivo.
c. “Mudou de cidade : Determinante.
d. E zás, a porta fechou-se-lhe na cara: Interjeição.

e. Tão triste ficou: Verbo.
f. todas as crianças : Quantificador.


2. Completa as frases, escrevendo os verbos indicados nos tempos do modo indicativo apresentados entre parênteses.

a. Este rapaz perdeu (perder – pretérito perfeito) o pai muito cedo.
b. Hans criava (criar – pretérito imperfeito) as suas próprias histórias.
c. Ele não pode (poder – pretérito perfeito) ter uma infância como as outras.
d. O futuro escritor preparava (preparar – pretérito imperfeito) o seu sucesso.

  
3. Assinala as frases que incluem verbos transitivos diretos.
a. Hans nasceu na Dinamarca.
b. O pai de Hans nunca lhe contou uma hisria.
c. Com o tempo, o jovem inventou as suas narrativas.
d. Em adulto, Hans viajou pela Europa.


4. Coloca no plural os nomes transcritos do texto.
a. “Mão”: mãos.                              b. “Luz”: luzes.
c. “Viagem”: viagens.                      d. “Voz”: vozes.

5. Escreve agora os seguintes nomes no feminino.
a. “Cantor”: cantora.                        b. “Ator”: atriz.
c. “Garoto”: garota.                          d. “Bailarino”: bailarina.