quinta-feira, 30 de julho de 2020

MÚSICA: LÍNGUA - CAETANO VELOSO - COM QUESTÕES GABARITADAS

Música: Língua

           

                                                     Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar a criar confusões de prosódias

E uma profusão de paródias

Que encurtem dores

E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa

Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E deixe os Portugais morrerem à míngua

Minha pátria é minha língua

Fala Mangueira! Fala!

 

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer

O que pode esta língua?

 

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas

E o falso inglês relax dos surfistas

Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!

Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda

E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate

E (xeque-mate) explique-nos Luanda

Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo

Sejamos o lobo do lobo do homem

Lobo do lobo do lobo do homem

Adoro nomes

Nomes em ã

De coisas como rã e ímã

Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã

Nomes de nomes

Como Scarlet, Moon, de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé

E Maria da Fé

 

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer

O que pode esta língua?

 

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção

Está provado que só é possível filosofar em alemão

Blitz quer dizer corisco

Hollywood quer dizer Azevedo

E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

Poesia concreta, prosa caótica

Ótica futura

Samba-rap, chic-left com banana

 

(Será que ele está no Pão de Açúcar?

Tá craude brô

Você e tu

Lhe amo

Qué queu te faço, nego?

Bote ligeiro!

Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!

Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!

I like to spend some time in Mozambique

Arigatô, arigatô!)

 

Nós canto-falamos como quem inveja negros

Que sofrem horrores no Gueto do Harlem

Livros, discos, vídeos à mancheia

E deixa que digam, que pensem, que falem.

                                  Composição: Caetano Veloso.

Entendendo a canção:

01 – Que temática é destacada nessa canção?

      O autor destaca a valorização da pluriculturalidade brasileira.

02 – No verso: “Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”, o que o poeta quis dizer?

      Ele relata que gosta de sentir sua língua roçar a língua de Luís de Camões, de falar, de escrever, se pronunciar e de se comunicar através da mesma língua que o poeta.

03 – Em que verso o poeta relata e valoriza a pluriculturalidade brasileira, que possui as mais variadas culturas, seja estas: musicais, poéticas, literárias entre diversas outras?

      “Encurtem a dores e furtem as cores como camaleões”.

04 – A quem o poeta se refere nesses versos: “Gosto do pessoa na pessoa / Da rosa no Rosa...”?

      Aqui temos a utilização dupla dos substantivos: Pessoa – Fernando Pessoa e Rosa – Guimarães Rosa, ambos sendo, ao mesmo tempo pessoas e rosas.

05 – Em toda a canção Caetano cita diversos personagens da música e da literatura. Escreva o nome de alguns.

      Luís de Camões, Fernando Pessoa, João Guimaraes Rosa, Carmem Miranda, Chico Buarque de Holanda, Arrigo Barnabé.

06 – Na expressão: “Nós canto-falamos como quem inveja negros”. Por que Caetano usa esta expressão?

      Ele metaforiza a fala dos brasileiros, incluindo-se por meio da marca linguística de primeira pessoa do plural “nós”.

07 – Que reflexão faz Caetano nessa canção?

      Reflete sua preocupação com o uso da língua, que deve ser feito a partir de cidadãos críticos, sabendo discernir o que é o bom uso, do que é mera cópia, e que por isso, não constrói sentidos.

08 – Em toda a canção Caetano faz menção a diversos personagens da música, da literatura, entre outros. Cite alguns.

·        Luís de Camões – poeta português.

·        Carmem Miranda – Cantora e atriz brasileira.

·        Fernando Pessoa – poeta, filósofo.

·        Guimarães Rosa – escritor, contista.

·        Chico Buarque de Holanda – músico, dramaturgo, escritor e ator.

·        Scarlet Moon – jornalista e atriz.

·        Glauco Mattoso – poeta, ficcionista.

·        Arrigo Barnabé – compositor.

·        Maria da Fé – poeta portuguesa.

09 – Leia as afirmativas abaixo sobre as ideias apresentadas no texto.

I – Em “Gosto de ser e de estar”, a ideia de plenitude, desejada pelo autor, é expressa com os verbos “ser” e “estar”, que implicam o aspecto do ser permanente e do ser transitório.

II – Utilizando a expressão “Fala Mangueira”, grito de guerra de uma escola de samba, o autor alude à ideia de que, sendo “pátria”, uma língua expressa os valores culturais de seu povo.

III – O verso “Lusamérica latim em pó” alude não só à pulverização do latim que deu origem às línguas latinas como a divisão-união de Portugal e Brasil.

IV – Os neologismos “mátria” e “fátria” disfarçam o sentimento de união que o autor pretende esteja envolvido na sua percepção de “língua”.

Está(ão) correta(s) apenas:

a)   I, II e III.

b)   I, III e IV.

c)   II e IV.

d)   II.

e)   III e IV.

10 – Os enunciados abaixo referem-se aos recursos utilizados na criação de língua.

I – Com os versos “E sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade”, o autor estabelece uma relação de proporcionalidade.

II – O autor incorpora à sua canção elementos relacionados à expressão sensorial, como “roçar”, “dores”, “cores”.

III – Nos versos “Gosto do Pessoa na pessoa / Da rosa no Rosa”, o autor utiliza o recurso da inversão.

IV – Nas expressões “confusões de prosódia”, “profusão de paródias” e “furtem cores como camaleões”, perpassa a ideia comum de “pluralidade”.

Estão corretas:

a)   I, II e III apenas.

b)   I e IV apenas.

c)   I, II, III e IV.

d)   II e IV.

e)   III e IV.

 


TEXTO: SEJA UM DESERTOR, ESSA GUERRA NÃO É SUA - FOLHA DE SÃO PAULO - COM GABARITO

Texto: Seja um desertor, essa guerra não é sua

          

  Folha de São Paulo          

            "Resolvi cuidar mais de mim"

    "Meus pais se separaram há dois anos, quando eu tinha 16. Durante sete anos, eles discutiram muito. A separação foi horrível. Ele não estava querendo falar o motivo, e minha mãe pressionou até ele revelar que era por causa de outra. Ai ela ficou louca, começou a jogar coisas nele e o mandou embora.

        Fiquei mal. Peguei minha mãe querendo se matar, tomando remédios Ele foi arrumar as malas e mandou eu ligar para os amigos da mamãe e para os parentes para pedir ajuda.

        Fiquei envergonhada de ligar para os outros, pedindo ajuda para cuidar da mamãe e das minhas duas irmãs menores.

        Só fui pensar em mim quando comecei a fazer terapia um ano depois. Não aguentava mais servir de muleta para minha mãe. Eu mesma estava tendo dificuldade de me reestruturar. No começo eu me sentia muito responsável por ela, mas agora resolvi me distanciar um pouco, cuidar mais de mim.

        Tenho muita carência afetiva e dificuldade de me relacionar. Tive muito ciúmes quando vi meu pai com a outra pela primeira vez. Comecei a chorar e fui embora. Mas nunca tomei partido, achava que eles é que tinham que decidir, apesar de as brigas estarem afetando muito a mim e as minhas irmãs.

        Acho que nesses momentos as pessoas não devem se fechar, precisam conversar muito, precisam de colo dos amigos para se localizar no meio da confusão toda. Terapia é fundamental. Outra coisa que aprendi é que você não pode deixar sua rotina se desmantelar, porque ela é importante para sair da confusão. Você encontra nos outros ambientes, na escola, por exemplo, uma forma de desabafar.

                                   (Juliana, 18 anos) Folha de São Paulo, 25/Agosto/1997.

                             Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 54-5.

Entendendo o texto:

01 – O que é um desertor?

      Aquele que desiste da guerra, da luta.

02 – Qual é a guerra mencionada no título?

      A guerra entre os pais de Juliana.

03 – “Seja um desertor, essa guerra não é sua”.

a)   Há duas orações no título. Identifique-as.

Seja um desertor. / Essa guerra não é sua.

b)   A primeira frase apresenta um verbo no imperativo. Qual a sua função?

Dar uma ordem, um conselho.

c)   Qual a relação entre as duas orações?

A segunda justifica o conselho dado na primeira.

d)   A quem se dirige a frase do título?

Ela se dirige a outros filhos de pais separados.

04 – Considere a atitude de Juliana diante da separação dos pais.

a)   No primeiro ano após a separação, ela se comportou como uma desertora? Por quê?

Não, pois assumiu o controle da casa e até passou a apoiar a mãe e as irmãs.

b)   Após começar a fazer terapia, a atitude de Juliana mudou. Por quê?

Porque passou a distanciar um pouco dos problemas e responsabilidades dos pais e passou a cuidar melhor de si mesma.

c)   Você acha que Juliana desertou da família depois de ter começado a fazer terapia? Justifique sua resposta.

Resposta pessoal do aluno.

05 – Reescreva as frases a seguir, substituindo os trechos grifados sem alterar o sentido original do texto.

a)   “Meus pais se separaram há dois anos...”.

Faz dois anos.

b)   “... Até ele revelar que era por causa de outra”.

Tinha outra mulher / que tinha uma namorada.

c)   “... Aí ela ficou louca...”.

Então ela se descontrolou.

d)   “Fiquei mal”.

Fiquei deprimida.

e)   “Peguei minha mãe querendo se matar...”.

Flagrei, vi, surpreendi.

f)    “... precisam de colo dos amigos...”.

Precisam de ajuda / do carinho dos amigos.

06 – “Não aguentava mais servir de muleta para minha mãe”.

a)   Qual a função de uma muleta?

Dar apoio, sustentação.

b)   Considerando a resposta do item a, descreva a relação entre Juliana e sua mãe após a separação.

Juliana passou a dar apoio, sustentação para a mãe.

07 – Você conhece alguém que já tenha passado por uma situação semelhante à experimentada por Juliana? Conte como foi.

      Resposta pessoal do aluno.

 


TEXTO: EU TIVE FOME - PADRE GUILHERME - COM GABARITO

Texto: Eu Tive Fome

          

  Pe. Guilherme

        Eu tive fome, e tu deste minha comida ao teu gado de exportação.

        Eu tive fome, e tu continuaste te banqueteando como o ricaço da minha parábola.

        Eu tive fome, e tu plantaste, no lugar do meu feijão, imensidades de cana-de-açúcar.

        Eu tive fome, e tu fabricaste da cana-de-açúcar combustível para teu automóvel.

        Eu tive fome, e tu mataste com o esgoto da tua fábrica os peixes de nosso rio que diminuíram tantas vezes minha fome.

        Eu tive fome, e tu destruíste o mato onde eu colhia tanta coisa para comer.

        Eu tive fome, e tu destruíste no óleo 80.000 pintinhos para manter o preço alto.

        Eu tive fome, e tu despejaste no rio milhares de litros de leite, leite salvador para milhares de vida infantis.

        Eu tive fome, e tu jogaste no lixo toneladas de comida preciosa, sobrando nos ambientes de luxo.

        Eu tive fome, e tu me expulsaste da minha roça, com teu Projeto Pró-Álcool, para uma favela da cidade.

        Eu tive fome, e tu vendeste o estoque de nossa comida, por milhões de dólares, na exportação.

        Eu tive fome, e tu me encheste com armamentos destruidores de civilização.

        Eu tive fome, junto com milhares de criancinhas, e tu deixaste morrer mil delas por dia só na tua terra, que eu tanto abençoei com a riqueza natural.

        Eu tive fome, e tu não me deste de comer.

   Pe. Guilherme, Parada Angélica. Rio de Janeiro.

        Trecho bíblico, pertence ao Capítulo 25 de Mateus (versículos 31 a 46).

31 Quando, pois, vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;

32 E diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;

33 E porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda.

34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

35 Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes;

36 Estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e fostes ver-me.

37 Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?

38 Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos?

39 Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?

40 E, responder-lhe-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.

41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;

42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;

43 Sendo forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes.

44 Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?

45 Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.

46 E irão eles para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.

Entendendo o texto:

01 – O trecho bíblico é mais antigo que o texto escrito pelo Pe. Guilherme “Eu tive fome”. A partir dessa afirmação, responda:

a)   Comparando os dois textos, o que se percebe? Justifique sua resposta.

Que Pe. Guilherme partiu do trecho bíblico mudando cada versículo e adequando-o à realidade brasileira.

b)   O texto bíblico se refere aos justos, que estão à direita do Pai, e aos injustos, que estão à sua esquerda. E o que acontecerá a cada um deles?

Os justos merecerão o Reino dos Céus, a vida eterna. Os injustos receberão o castigo eterno.

c)   O texto do Pe. Guilherme também se refere a ambos? Aos justos e injustos? Justifique sua resposta a partir do texto.

Não. O texto se refere apenas aos injustos e a injustiça cometida pelos “poderosos”, pelo governo, pelos políticos e sua politicalha e, também, aos que têm possibilidade de ajudar o seu próximo e não o fazem.

d)   Agora, após a comparação dos dois textos, você já pode concluir o que é uma paráfrase, quem fez a paráfrase e qual a sua intenção ao parafrasear o texto. Se necessário, use o dicionário como auxílio para responder.

Paráfrase: Segundo Antônio Houaiss, é a interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto que visa torna-lo mais inteligível ou que sugere novo enfoque para seu sentido. No caso, Pe. Guilherme parafraseou o trecho da bíblia para mostrar uma realidade existente no Brasil e no mundo.

02 – “Afinal o que é que sustenta esta estrutura de nossa civilização? Quais os valores nos quais o homem moderno coloca toda a sua fé, todo o seu amor, toda a sua esperança? Que Deus ou Deuses comandam o sentido da vida do homem, seu relacionamento com o outro, sua convivência social?”

      A riqueza, o poder, o Estado, o sexo, o prazer, o próprio homem, sua razão humana.

03 – Comente: “Tudo é esmagado em nome da riqueza. TER, TER MAIS, TER MUITO MAIS AINDA... consumir – produzir – consumir... o capital acima do trabalho, o econômico acima do social. Vale o homem que tem, que aparenta... Felicidade é a satisfação do desejo de posse de bens.”

      Esse homem não pode ser feliz. Como o será sem dignidade humana?

04 – O grande convite: humanizar e amar!

        A civilização do amor repudia o quê? A violência? O desperdício? Os desatinos morais? O egoísmo? A exploração? Comente todos os itens e diga o que eles representam no contexto do momento atual.

      Resposta pessoal do aluno.

05 – A passagem bíblica diz: “TIVE FOME e me destes de comer; SEDE e me destes de beber; ERA PEREGRINO e me acolhestes; ESTAVA NU e me vestistes; ENFERMO ou NA PRISÃO e me visitastes...” Quando foi que nós fizemos isso? Há muitos que o fazem. Cite alguns nomes nacionais e internacionais que lutam por essas causas justas.

      Resposta pessoal do aluno.

06 – Qual é a nossa missão hoje?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: “Trabalhar pela justiça, pela verdade, pelo amor e pela liberdade dentro dos parâmetros da comunhão e da participação é trabalhar pela paz universal.”

 


TEXTO: O RISCO E O PRAZER - BEATRIZ C. COTRIM - COM GABARITO

Texto: O Risco e o Prazer

      

       Beatriz C. Cotrim

        Correr riscos é algo que faz parte do ser humano. As pessoas gostam de desafiar, de ousar, porque quem ousa, quem arrisca, sente-se vivo, aprende mais sobre si próprio e sobre os outros, testa suas habilidades e passa a ter outras que não possuía.

        Além disso, arriscar dá prazer. Muitas vezes, o que se busca quando se corre algum risco, quando se desafia algum limite, é o prazer que isso nos dá – saber, como um jogo, que é possível ganhar ou perder. Vamos ver alguns exemplos para ilustrar essa questão envolvendo risco e prazer.

        Você pode pegar o dinheiro de uma mesada que economizou durante um bom tempo e gastar tudo na compra de uma guitarra, para formar um grupo de rock com os amigos.

        É um risco, porque você apostou tudo o que tinha em uma única coisa, um instrumento. E o que você pretende tirar disso? Prazer. Você pretende criar, fazer algo em comum com pessoas de quem gosta, tocar aquelas músicas. Mas pode ser que tudo dê errado, que a banda seja um fiasco, que as pessoas digam que o som que você faz, bem, não é lá essas coisas...

        E há o risco também de seus pais acharem essa sua ideia uma loucura e ficarem infernizando sua vida porque você gastou sua mesada – onde já se viu? – em uma guitarra. Eles esperavam que você guardasse seu dinheiro para a faculdade. E tocando músicas barulhentas, quando é que você vai arrumar tempo para estudar?

        Mas pode ser que tudo dê certo, que muita gente goste do som e que, ainda por cima, você passe no vestibular. Que tremendo prazer você vai sentir, não?

        Nessa linha de exemplos, resolver fazer uma viagem em cima da hora, para aproveitar um feriado, também tem seu grau de risco. A turma decidiu de repente, você nem imagina como é o lugar, mas e daí?

        Daí pode ser que você tenha de dormir acampado num lugar cheio de borrachudos, que seu café da manhã, seu almoço e sua janta sejam sempre pão de forma com enlatados, que não tenha água nos próximos três quilômetros. Pode ser, porém, que o barato – o prazer desse passeio – seja exatamente este: enfrentar o desconhecido e até passar por alguma privação. Talvez isso faça com que você se sinta mais vivo, de uma maneira muito gostosa.

        [...]

        Mas, e quando o assunto é drogas?

        Se as drogas não oferecessem nenhum tipo de prazer, a gente não se preocuparia com o consumo delas, porque simplesmente ninguém as usaria. E quanto aos riscos?

        Geralmente, as perguntas dizem respeito aos riscos que cada droga comporta. O problema é que esses riscos têm a ver com possibilidades, e não com certezas.

        Se fosse possível medir os riscos, tudo seria muito mais simples e este livro se resumiria a um conjunto de tabelas sobre doses, frequências e os riscos matematicamente exatos de cada droga.

        Mas as coisas não acontecem desse jeito e o que podemos fazer é discutir esses riscos. Para facilitar a discussão, vamos dividi-los em quatro grupos: os riscos relacionados aos efeitos das drogas, os riscos legais, os riscos sociais e os riscos de dependência.

          Riscos relacionados aos efeitos das drogas

        Geralmente, esses são os riscos mais discutidos. Todo mundo já ouviu falar que as drogas causam problemas no fígado, nos rins, nos pulmões, no coração. Que algumas podem matar por overdose. Que pessoas sob o efeito de drogas estão mais sujeitas a acidentes e à violência, na medida em que o controle delas sobre o corpo e a mente fica bastante alterado.

        As drogas têm uma maneira própria de atuar em cada organismo, fazendo com que qualquer tentativa de fazer previsões acerca dos riscos de cada uma caia no terreno das possibilidades.

        É claro que as drogas produzem os seus efeitos por conterem substâncias químicas. Por isso, elas podem ser estudadas em laboratórios, da mesma maneira que os medicamentos. Sendo assim, existem algumas variáveis que podem ser estabelecidas dentro de uma certa margem de precisão. [...]

          Riscos legais

        O outro conjunto de riscos é o que chamamos de legais. Todos nós estamos sujeitos às normas da sociedade, sejam elas formais (as que compõem a legislação que rege a sociedade), sejam elas as do dia-a-dia (as regras sociais do grupo em que vivemos).

        Mas, independentemente dos efeitos de qualquer droga, a pessoa que a usa não pode deixar de levar em conta a legislação do lugar onde mora.

        A legislação brasileira, quando se trata de drogas proibidas no país, é muito severa, porque não pune com prisão somente aquele que vende. Ela pune também aquele que passa a droga, mesmo que de graça; aquele que usa, ainda que experimentalmente, sem que isso cause dano a ninguém; aquele que cultiva no seu quintal duas “plantinhas quaisquer” só para usar de vez em quando, num local isolado com os amigos.

        Não dá, portanto, para reduzir a discussão do risco de se usar drogas aos males físicos que elas podem ou não causar ou às possibilidades que uma pessoa tem ou não de controlar os seus efeitos. Afinal, esse uso acontece num mundo que tem regras muito claras – no Brasil, elas são claríssimas – e que pune os que usam drogas.

        [...]

          Riscos Sociais

        Em alguns momentos, os riscos sociais se confundem com os legais, porque as leis, pelo menos teoricamente, espelham de certa maneira a imagem que a sociedade tem de si mesma.

        Pode existir uma pessoa que use drogas e que nunca tenha tido problemas com a polícia ou enfrentando riscos mais sérios advindos dos efeitos da substância que usa. Nem por isso ela está a salvo de um outro tipo de risco, que é o risco do preconceito, do estigma, de ser rejeitada, de não ter acesso a uma série de oportunidades na vida, porque a sociedade encara o uso de drogas como algo condenável, que deve ser punido.

        Vale aqui, novamente, a reflexão de que vivemos num mundo concreto, convivendo com pessoas e com o que elas pensam. Podemos gostar ou não, mas de alguma maneira temos de nos submeter a ele.

        E nesse mundo há um contraste interessante entre as drogas que a sociedade tolera e as que não tolera.

        Se uma pessoa usa de maneira muito intensa, e há vários anos, remédios para emagrecer à base de anfetamina, ela raramente vai estar sujeita a grandes preconceitos ou rejeições por causa disso.

        Ela pode ter começado com meio comprimido e atualmente estar tomando quatro. Isso lhe está trazendo sérios riscos à saúde, mas dificilmente alguém vai dizer que não quer conviver com essa pessoa ou que não quer que ela seja amiga da sua filha. Até porque raramente se vai saber que o remédio é à base de anfetamina.

        Os remédios para emagrecer são tolerados pela sociedade e as pessoas os usam sem que esse comportamento seja associado a alguma coisa mais séria.

        Seria totalmente diferente se fosse alguém que fumasse maconha, por exemplo.

        O uso dessa substância está muito mais sujeito ao preconceito, ao estigma, ao afastamento, à perda de oportunidades na vida, porque a sociedade encara a maconha como algo extremamente perigoso, ameaçador. Afinal, trata-se de uma droga ilegal.

          Riscos de Dependência

        Há em geral um medo muito grande de que quem começa a usar drogas mais cedo ou mais tarde vá abandonar a família, seus valores e seus interesses e passar a viver exclusivamente em função da droga pela qual se “viciou”.

        De fato, existem pessoas assim, que investem seu tempo na busca e no uso de drogas: elas acham que não podem viver se não fizerem isso.

        Se formos dar uma olhada nas pesquisas, vamos ver que, entre os usuários de drogas, apenas uma minoria vai se comportar dessa maneira.

        Apesar disso, essa informação não pode ser considerada tranquilizadora, pois recuperar usuários compulsivos não é uma tarefa fácil. Calcula-se que apenas 30% dos que se tornam dependentes conseguem se livrar desse quadro.

        Por outro lado, o fato de as drogas não “viciarem” logo de início é uma notícia promissora para quem não quer mais usá-las.

        Mas quando se pode falar em “uso compulsivo”, em “vício”? [...].

          A síndrome de dependência

        A psiquiatria não usa o termo “viciado” para quem usa drogas. Para esse ramo da medicina, trata-se de uma palavra carregada de uma noção moral, em que o vício se contrapõe à virtude. Para a ciência, as pessoas que vivem constantemente atrás das drogas e não conseguem viver sem elas, ou pelo menos acham que não conseguem, não são pessoas com menor formação moral ou com defeito moral. Elas apresentam um distúrbio chamado síndrome de dependência.

        Para que seja dado um diagnóstico definitivo de dependência, a pessoa deverá ter apresentado três ou mais dos seguintes sintomas, contando um ano até a data da consulta:

·        Forte desejo ou compulsão para consumir a droga;

·        Dificuldades para controlar o consumo;

·        Diante da ausência ou diminuição da droga, surgem reações físicas que variam de ansiedade e distúrbios do sono a depressão e convulsões, constituindo o chamado estado de abstinência fisiológico;

·        Necessidade de doses cada vez maiores para conseguir os mesmos efeitos (tolerância). Exemplos claros de tolerância são os indivíduos dependentes de álcool e opiáceos, que podem tomar doses diárias suficientes para incapacitar ou matar pessoas que não sejam usuárias tolerantes;

·        Abandono progressivo de prazeres e outros interesses na vida para dedicar atenção quase exclusiva à droga;

·        Aumento do tempo necessário para usá-la e para se recuperar de seus efeitos;

·        Persistência no uso da droga, apesar das consequências claramente nocivas, como dano ao fígado devido ao álcool, estados depressivos decorrentes do consumo excessivo de determinadas drogas, etc.

          O que leva à dependência?

        O dependente, como se pôde ver acima, é alguém que desenvolveu um comportamento que em grande parte não pode controlar. Mas não há uma fórmula para se saber quem, entre os usuários de drogas, vai se tornar dependente. Aqui, o terreno é novamente de possibilidades, de riscos, de situações relativas...

        Atualmente, apesar de ainda haver polêmicas a respeito, considera-se que de fato existem características genéticas que favorecem o desenvolvimento da dependência em algumas pessoas. Mas elas não são as únicas: para a Ciência, hoje, a dependência é um fenômeno que tem causas múltiplas.

        Dentre essa causas, estariam os fatores psicológicos. Muitas pesquisas mostraram que pessoas sentindo-se infelizes, inseguras e com baixa autoestima tendem mais a usar drogas e a se deixar fascinar por elas.

        Outra causa importante é a pressão social. No caso dos rapazes, se houver um que não goste de bebida alcoólica num grupo de amigos, é muito provável que ele comece a beber só para que os outros parem de dizer gracinhas ou para que seja visto como um igual. Pode ser até que ele comece a abusar de bebidas para provar que é o tal, resistente, que é “machão”.

        No caso das garotas, se uma delas tem amigas que acham que a única maneira de ficarem mais magras é tomando remédios à base d anfetaminas, é possível que ela passe a compra-los e usá-los constantemente. A pressão sobre quem está acima do peso é muito grande; assim, a garota que começou com um comprimido pode facilmente aumentar a dose...

                                 Drogas, mitos e verdades, Beatriz C. Cotrim.

                              Fonte: Livro – Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa – 8ª Série – Marilda Prates – Ed. Moderna, 2005 – p. 40-5.

Entendendo o texto:

01 – Por que é próprio do ser humano ter o prazer de correr riscos?

      Porque é próprio do ser humano desafiar, ousar para sentir-se vivo, testar suas habilidades e sentir-se mais próximo dos outros, e, finalmente, por prazer, sabendo que poderá ganhar ou perder.

02 – Risco e prazer têm ligação? Qual?

      Sim. Correr risco pode ser uma forma de prazer.

03 – Comente o primeiro exemplo dado pelo autor sobre o risco e o prazer.

      Apostar todo o dinheiro para comprar um instrumento que falta a uma banda a fim de que seus componentes possam realizar seu sonho. O risco está no sucesso ou fracasso da banda, na possibilidade de ficar sem o dinheiro da mesada.

04 – Argumente sobre o segundo exemplo dado pelo autor sobre risco e prazer. Sempre justificando sua opinião.

      Enfrentar um passeio sem conhecer o lugar, suas limitações, perigos, desafios. Mas isso poderá trazer: arrependimento se não se tiver espírito de aventura; muito prazer se se tiver o espírito de aventura, mesmo enfrentando dificuldades.

05 – O que o autor fala sobre drogas? Por que as pessoas fumam, cheiram e bebem? Isso dá prazer? É aí que mora o perigo?

      Pelo prazer, pela curiosidade de “experimentar”, por desespero, são inúmeros os motivos. E o perigo é a pessoa se tornar dependente.

06 – Você sabe o que é overdose?

      Dose excessiva.

07 – Cite algumas consequências do uso frequente de drogas.

      Problemas de saúde, depressão, ansiedade, dificuldade de levar uma vida equilibrada.

08 – As drogas atuam da mesma maneira em cada pessoa? Por quê?

      Não. O efeito varia de pessoa para pessoa, porque cada ser humano é único na sua estrutura física e psicológica.

09 – Como é a legislação brasileira em relação às drogas? Quem é punido? Como é punido?

      A droga é ilegal, por isso a legislação brasileira prevê punição severa para os traficantes. Para o usuário, estão previstas consequências mais leves, mas o porte de drogas é sempre ilegal.

10 – O que são riscos sociais no uso da droga? Por que as pessoas têm preconceito contra aqueles que a usam? Argumente.

      A pessoa passa a ser isolada por seu grupo, por ter atitudes e hábitos que não conduzem com o que é comum numa sociedade equilibrada. O uso de drogas, por ser ilegal, torna “foras da lei” aqueles que o praticam.

11 – Por que os remédios para emagrecer, quando já se tornaram um vício, são vistos como drogas pela não sociedade? Opine.

      Porque a sociedade estimula o emagrecimento a qualquer preço, a manutenção de certos padrões estéticos acima da preservação da saúde.

12 – O que acontece quando a pessoa se torna dependente da droga? Por quê?

      Ela passa a viver em função da droga.

13 – É fácil deixar de ser dependente da droga? Por quê?

      Não. Porque a dependência torna a pessoa frágil e o vício, em determinado estágio, não é fácil de ser combatido.

14 – O que significa o uso compulsivo da droga?

      A perda de controle sobre si mesma, a necessidade de consumir sempre a droga.

15 – Por que os que usam drogas não são chamados pela psiquiatria de viciados?

      Para evitar que sejam estigmatizados.

16 – Qual é a principal característica da síndrome da dependência?

      A necessidade de usar a droga constantemente e o aparecimento de sintomas se houver abstinência.

17 – Comente os sintomas das pessoas dependentes.

      São pessoas que sofrem de depressão, distúrbios do sono, convulsões, etc.

18 – Por que algumas meninas e meninos usam as drogas? Comente.

      Para mostrar ao grupo com que convivem que não são “caretas” e que topam tudo. No caso das meninas, para se manterem “esbeltas”, dentro dos padrões estéticos estabelecidos.