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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONTO: AS CORES DO CREPÚSCULO - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: As cores do crepúsculo – Fragmento

            Rubem Alves

         [...]

        Mas a melhor coisa que pode acontecer na velhice é voltar a ser criança. Os velhos, tolos, querem continuar a ser úteis. Coitados! Ainda estão sob o domínio do olhar dos outros! Melhor seria se percebessem que o objetivo da vida não é ser útil. Útil é martelo, serrote, vassoura, fio dental, bicicleta. As coisas úteis, quando velhas, ficam inúteis. Inúteis, são jogadas fora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhsImalFJsGLo-tsW9zBNmJvaLUXTyzTXKl8cjpTSbMAa4LN0Iq-W-HnDjAoyAEDWPVy7ZGuYy64BtkDAjZsK_8L07lWSq-xk142BVKwRpzfzlIxh3sqimuNI6yoq3Wnz4DAbhaN7EItg9XsCXiJXVNyUFeAenfiMj3ulbxGA9rQdHv9d7sbVKGPgikNzY/s1600/SOL.jpg


        [...]

        Mas o objetivo da vida não é a utilidade. É a feliz inutilidade do brincar. Brinquedo é uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá. Pode ser formar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar… E, acima de tudo, brincar com as crianças. Melhor ainda se tiver netos com quem brincar. Há mesmo os velhos que, na velhice, descobrem o amor. Amar é brincar com a pessoa amada. Tão bonito, o amor dos velhos. Lembro-me de uma cena do filme Doutor Jivago, a que mais me comoveu: um velhinho dando um beijo no rosto enrugado e velho da sua mulher, adormecida…

        Fiquei mais velho. Mas sou grato. Na velhice estou tendo felicidades com que nunca sonhei, quando jovem. [...]

Rubem Alves. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 175-176.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o autor, qual é a "melhor coisa" que pode acontecer na velhice e por que ele sente pena dos velhos que insistem em querer continuar sendo úteis?

      A melhor coisa que pode acontecer na velhice é "voltar a ser criança". O autor sente pena dos idosos que tentam se manter úteis porque afirma que eles ainda estão presos e sofrendo "sob o domínio do olhar dos outros", sem perceber que o verdadeiro sentido da vida na maturidade não está ligado à produtividade ou à utilidade.

02 – Rubem Alves faz uma analogia entre pessoas que buscam a utilidade e objetos de trabalho. Como essa comparação é utilizada para alertar sobre os perigos de se viver apenas em função de ser útil?

      O autor compara a utilidade humana a objetos como martelo, serrote, vassoura e fio dental. Ele alerta que a lógica das coisas úteis é cruel: quando elas envelhecem, tornam-se inúteis e, consequentemente, são jogadas fora. Ao basear o valor da vida na utilidade, o idoso corre o risco de se sentir descartável quando o tempo passar.

03 – Como o autor define o conceito de "brinquedo" no texto e quais exemplos de atividades ele cita como formas de "brincar"?

      Rubem Alves define o brinquedo como "uma atividade inútil a que nos entregamos por causa da alegria que ela nos dá". Para ele, o objetivo da vida é essa "feliz inutilidade". Como exemplos, ele cita: montar quebra-cabeças, empinar pipas, ouvir música, ler literatura, cozinhar, caminhar, viajar, chupar sorvete, conversar, ver livros de arte, escrever, sonhar, cantar e brincar com crianças/netos.

04 – De que maneira Rubem Alves relaciona o sentimento do amor na velhice com o ato de brincar e qual cena cinematográfica ele utiliza para ilustrar essa beleza?

      O autor afirma que "amar é brincar com a pessoa amada", integrando o amor na mesma categoria de atividades prazerosas e "inúteis" (livres de obrigações) que trazem pura alegria. Para ilustrar a beleza do amor na velhice, ele resgata uma cena emocionante do filme Doutor Jivago, na qual um velhinho dá um beijo carinhoso no rosto enrugado de sua esposa adormecida.

05 – No fechamento do fragmento, o autor expressa um sentimento de gratidão. O que justifica esse agradecimento em relação à sua própria velhice?

      O autor é grato porque, ao envelhecer, ele descobriu e experimentou felicidades com as quais nunca havia sequer sonhado quando era jovem. Isso demonstra que, ao desapegar da cobrança pela utilidade e abraçar a leveza da infância recuperada, a velhice se tornou um período de surpreendente satisfação e contentamento.

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

CONTO: O PASSARINHO ENGAIOLADO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Conto: O passarinho engaiolado

          Rubem Alves

        Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEib2GPz4X23i4tjkMSAh9C8xy1_Y9L4orkG8JNjraOxyUZ2LWwp-tk5V61_o35T2rU_kGJvsHGUldH3yXdzba2m_372uZD5uKuNsdKvcyPL7qcaO2y_wrpCHhpD6bxHsB1Sk9SeqUCCf2mYv4b94A1kBlkKb4HQN551Tz6wAbh_euIjbjJvzoufbPsXKKU/s1600/PASSARINHO.jpg 


        Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

        Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

        Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!

        É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

        Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus voos tranquilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.

        Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

        Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas.

        O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

        – Ei, você! – era uma passarinha. – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá…

        Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

        Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

        Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

        – Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar…

Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo, Olho d’Água, 1994.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 223-225.

Entendendo o conto:

01 – No início do texto, o narrador compara a vida segura e tranquila do passarinho com a vida de "pessoas bem casadas" e de "funcionários públicos", mencionando que a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Explique, com base no conto, qual é a crítica social e psicológica que Rubem Alves constrói através dessa metáfora.

      O autor utiliza a gaiola como uma metáfora para as convenções sociais e escolhas de vida que priorizam a estabilidade em detrimento da liberdade e da autorrealização. A crítica social e psicológica reside no fato de que muitas pessoas buscam empregos estáveis ou relacionamentos previsíveis apenas pela segurança que eles oferecem. No entanto, o preço pago por essa escolha é a monotonia, o esmagamento dos sonhos ("por não haver espaço para baterem suas asas") e a criação de um "vazio na alma", mostrando que o excesso de segurança pode aprisionar o potencial humano.

02 – Quando o passarinho finalmente encontra a porta da gaiola aberta, ele experimenta uma série de sensações físicas e emocionais que o paralisam. Identifique pelo menos dois desses obstáculos enfrentados por ele no mundo exterior e explique por que ele não conseguiu superá-los.

      Ao sair da gaiola, o passarinho enfrenta o medo da altura (tontura), a falta de preparo físico (asas desacostumadas), a dificuldade de conseguir o próprio alimento (o inseto que fugiu) e o medo de predadores e perigos (o gato, os gambás, a noite e os meninos com estilingues). Ele não consegue superar esses obstáculos porque a vida inteira na gaiola o privou da autonomia e do aprendizado necessários para sobreviver por conta própria. A falta de hábito e, fundamentalmente, a falta de coragem diante do desconhecido o fizeram recuar.

03 – O narrador faz um contraste entre o poema de Guerra Junqueiro (onde a mãe prefere envenenar os filhos a vê-los presos) e os conselhos dados pela mãe do passarinho do conto. Como as palavras da mãe influenciaram o destino do protagonista?

      A mãe do passarinho representa a mentalidade que prioriza a sobrevivência e o conformismo. Ao dizer que as orações dela foram respondidas porque ele estava seguro e que ele deveria "se acostumar" e "cantar bonito", ela transmitiu ao filho uma visão de mundo onde o confinamento é um privilégio, não uma punição. Esses conselhos maternos moldaram a psicologia do passarinho, tornando-o dependente e temeroso, o que acabou sufocando seu instinto natural de liberdade.

04 – Próximo ao final do conto, o narrador afirma: "Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem." Explique o significado dessa afirmação dentro do contexto da narrativa.

      A afirmação mostra que a liberdade não significa apenas a ausência de grades, mas sim a capacidade de assumir responsabilidades, enfrentar riscos e lidar com a imprevisibilidade da vida. Para o passarinho, a gaiola — embora limitadora — resolvia todos os seus problemas básicos (comida, proteção, abrigo). Estar livre exigia dele uma coragem que ele não havia desenvolvido: a coragem de errar, de sentir fome e de se proteger sozinho. Portanto, a liberdade é "complicada" porque exige autonomia e bravura diante dos perigos do mundo real.

05 – No desfecho do conto, o dono da gaiola retorna, vê o pássaro lá dentro e o chama de "bobo" e "meio cego", afirmando que "passarinho de verdade não fica em gaiola". Analise a ironia contida na fala do dono e a percepção que ele tem do próprio animal.

      A ironia reside no fato de que o próprio dono é quem mantém o pássaro aprisionado, mas, ao ver que ele não fugiu, julga o animal por não agir como um "passarinho de verdade". O dono não percebe que o tempo de confinamento que ele mesmo impôs tirou a identidade e a natureza selvagem do pássaro. Para o homem, o pássaro é "bobo" ou "cego", quando na verdade o animal foi psicologicamente domesticado e quebrado pelo próprio sistema da gaiola, tornando-se incapaz de reconhecer a oportunidade de libertação.

 

 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CRÔNICA: CONCERTOS DE LEITURA - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Crônica: Concertos de leitura

              Rubem Alves

        Penso que, de tudo o que as escolas podem fazer com as crianças e os jovens, não há nada de importância maior que o ensino do prazer da leitura. Todos falam na importância de alfabetizar, saber transformar símbolos gráficos em palavras. Concordo. Mas isso não basta. É preciso que o ato de ler dê prazer. As escolas produzem, anualmente, milhares de pessoas com habilidade de ler mas que, vida afora, não vão ler um livro sequer. Acredito piamente no dito do evangelho: "No princípio está a Palavra…". É pela palavra que se entra no mundo humano.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhMSlvV9j6v37FzgAd7pIQEqvAEx6PaoYHph1dq7hC0_CbRh1zQKaxTiwf5o5yn6oOyvh7gzDsZywK4GrAvqHaxe_Lih7FLm16nFUeN8KsU9jUBaAyWGF2jC_VNN6WN8db500f544m8egwGdLnVvWnVCtZD-iUIn7tfn1c2unkVxP1BkdviZqZHK1vqduI/s320/20240320_GCR_9a_Semana_Senac_de_Leitura_v2_pecas_digitais_portal-1920x700.png


        Tive a felicidade de aprender, muito cedo, a amar os livros. Lembro-me com enorme carinho do O livro de Lili, primeiro livro que li. "Olhem para mim. Eu me chamo Lili. Eu comi muito doce. Vocês gostam de doce? Eu gosto tanto de doce." Nunca me esqueci dessa primeira lição. Ficou gravada tão fundo dentro de mim que, faz uns meses, ao escrever o livro infantil A menina, a gaiola e a bicicleta a história me foi ditada (poesia e literatura são sempre ditadas; elas vêm de outro mundo) com ritmo preciso da primeira lição de O livro de Lili.

        O segundo livro foi minha grande aventura, voo solo, sozinho, no mundo das letras: A loja de brinquedos. Era fantástica a experiência de sozinho, ir andando pela floresta de letras e vendo um mundo. Quem não lê é cego. Só vê o que os olhos veem. Quem lê, ao contrário, tem muitos milhares de olhos: todos os olhos daqueles que escreveram. A leitura me deu alegria, mas a história me deu tristeza. Tanto assim que, 55 anos depois, eu escrevi um outro, A loja de brinquedos, para corrigir a tristeza do primeiro.

        Aprendi a ler. Mas isso não bastava. Faltava-me o domínio da técnica que faz da leitura algo suave como o voo de um urubu ou deslizante como um patim no gelo. Foi dona Iva — não sei se ela ainda vive — quem me ensinou que ler pode ser delicioso como voar ou como patinar. Ela lia para nós. Não era para aprender nada. Não havia provas sobre os livros lidos. Ela lia para que tivéssemos o prazer dos livros. Era pura alegria. Poliana, Heidi, Viagem ao céu, O saci. Ninguém faltava, ninguém piscava. A voz de dona Iva nos introduziu num mundo encantado. O tempo passava rápido demais. Era com tristeza que víamos a professora fechar o livro.

        A gente era pobre. Distrações não havia. Os jovens de hoje se sentem miseráveis se não podem viajar nas férias. Eu nunca viajei. Viagem, na melhor das possibilidades, era para a casa de algum parente. A gente ficava era em casa mesmo, com um tempo preguiçoso e vazio à nossa frente. Que fazer com o tempo? Meu pai entrou de sócio para um "clube do livro". Todo mês chegava um livro novo. Eram uns livros feios — brochuras de papel jornal, as páginas vinham grudadas — que a gente tinha que ir abrindo com uma faca à medida que lia. Isso me irritava porque interrompia o ritmo da leitura. Como eu não tinha outra coisa para fazer e desejando ter os poderes da professora, tornei-me um devorador de livros. Os livros do clube do livro eram literatura adulta. Mas para mim não fazia diferença. Ler um livro que eu não entendia era como viajar por uma terra cuja língua me era desconhecida: perdia muita coisa, mas, nos intervalos das incompreensões, havia os cenários. Tudo me espantava.

        As razões por que as pessoas não gostam de ler, eu as descobri acidentalmente muitos anos atrás. Uma aluna foi à minha sala e me disse: "Encontrei um poema lindo!". Em seguida disse a primeira linha. Fiquei contente porque era um de meus favoritos. Aí ela resolveu lê-lo inteiro. Foi o horror. Foi nesse momento que compreendi. Imagine uma valsa de Chopin, por exemplo a vulgarmente chamada "do minuto". Peço que o pianista Alexander Brailowiski a execute. Os dedos correm rápidos sobre as teclas, deslizando, subindo, descendo. É uma brincadeira, um riso. Aí eu pego a mesma partitura e peço que um pianeiro a execute. As notas são as mesmas. Mas a valsa fica um horror: tropeções, notas erradas, arritmias, confusões. O que a gente deseja é que ele pare.

        Pois a leitura é igual à música. Para que a leitura dê prazer é preciso que quem lê domine a técnica de ler. A leitura não dá prazer quando o leitor é igual ao pianeiro: sabem juntar as letras, dizer o que significam — mas não têm o domínio da técnica. O pianista dominou a técnica do piano quando não precisa pensar nos dedos e nas notas: ele só pensa na música. O leitor dominou a técnica da leitura quando não precisa pensar em letras e palavras: só pensa nos mundos que saem delas; quando ler é o mesmo que viajar.

        E o feitiço da leitura continua me espantando. Faz uns anos um amigo rico me convidou para passar uns dias no apartamento dele em Cabo Frio. Aceitei alegre, mas ele logo me advertiu: "Vão também cinco adolescentes…". Senti um calafrio. E tratei de me precaver. Fui a uma casa de armas, isto é, uma livraria, escolhi uma arma adequada, uma versão simplificada da Odisseia, de Homero, comprei-a e viajei, pronto para o combate. Primeiro dia, praia, almoço, modorra, sesta. Depois da sesta, aquela situação de não saber o que fazer. Foi então que eu, valendo-me do fato de que eles não me conheciam, e falando com a autoridade de um sargento, disse: "Ei, vocês aí. Venham até a sala que eu quero lhes mostrar uma coisa!". Eles obedeceram sem protestar. Aí, comecei a leitura. Não demorou muito. Todos eles estavam em transe. Daí para a frente foi aquela delícia, eles atrás de mim pedindo que continuasse a leitura.

        Ensina-se, nas escolas, muita coisa que a gente nunca vai usar, depois, na vida inteira. Fui obrigado a aprender muita coisa que não era necessária, que eu poderia ter aprendido depois, quando e se a ocasião e sua necessidade o exigisse. É como ensinar a arte de velejar a quem mora no alto das montanhas… Nunca usei seno ou logaritmo, nunca tive oportunidade de usar meus conhecimentos sobre as causas da Guerra dos Cem Anos, nunca tive de empregar os saberes da genética para determinar a prole resultante do cruzamento de coelhos brancos com coelhos pretos, nunca houve ocasião que eu me valesse dos saberes sobre sulfetos. Mas aquela experiência infantil, a professora nos lendo literatura, isso mudou minha vida. Ao ler — acho que ela nem sabia disso — ela estava me dando a chave de abrir o mundo.

        Há concertos de música. Por que não concertos de leitura? Imagino uma situação impensável: o adolescente se prepara para sair com a namorada, e a mãe lhe pergunta: "Aonde é que você vai?". E ele responde: "Vou a um concerto de leitura. Hoje, no teatro, vai ser lido o conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa. Por que é que você não vai também com o pai?". Aí, pai e mãe, envergonhados, desligam o Jornal Nacional e vão se aprontar…

Extraído de: Entre a ciência e a sapiência - o dilema da educação, São Paulo, Editorial Loyola, 1996. Companhia das Letras, 1998. Edições Loyola, 1994. Ediouro, s.d. Outlet Books, 1996 Monteiro Lobato, Brasiliense, 1995. Idem.

Fonte: Programa de Formação de Professores Alfabetizadores. Coletânea de textos – Módulo 1. p. 232-233.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a principal importância do ensino da leitura para o autor, Rubem Alves?

      Para Rubem Alves, a maior importância é o ensino do prazer da leitura, pois, segundo ele, não basta apenas alfabetizar (transformar símbolos gráficos em palavras) se o ato de ler não proporcionar alegria e prazer.

02 – Quais foram os dois primeiros livros que marcaram a infância do autor e como ele os descreve?

      Os dois primeiros livros que marcaram sua infância foram "O livro de Lili", que ele lembra com carinho e que ditou o ritmo para um de seus livros infantis, e "A loja de brinquedos", que ele descreve como sua grande aventura no mundo das letras e que, apesar de lhe dar tristeza na época, o levou a reescrevê-lo 55 anos depois para corrigir essa sensação.

03 – Quem foi a pessoa que ensinou Rubem Alves a ver a leitura como algo prazeroso e como ela fazia isso?

      Foi Dona Iva quem o ensinou que ler pode ser delicioso. Ela lia para as crianças não para que aprendessem algo ou fizessem provas, mas sim para que tivessem o prazer dos livros, transformando a leitura em pura alegria e introduzindo-os em um mundo encantado.

04 – Como a falta de dinheiro e distrações na infância do autor contribuiu para seu hábito de leitura?

      Como a família era pobre e não havia muitas opções de distração ou viagens, o pai de Rubem Alves entrou para um "clube do livro". Isso fez com que ele, sem muito o que fazer, se tornasse um "devorador de livros", mesmo que fossem obras de literatura adulta que nem sempre compreendia completamente.

05 – Segundo o autor, qual é a principal razão pela qual as pessoas não gostam de ler?

      Ele compara a leitura à música e afirma que a principal razão é a falta de domínio da "técnica de ler". Assim como um "pianeiro" que não domina o instrumento torna uma música desagradável, um leitor que não domina a técnica da leitura não encontra prazer, pois ainda está focado nas letras e palavras em vez de se imergir nos mundos que elas criam.

06 – Que experimento Rubem Alves fez com adolescentes para provar o poder da leitura?

      Ele levou uma versão simplificada da "Odisseia" de Homero para um apartamento em Cabo Frio onde passaria uns dias com cinco adolescentes. Com a autoridade de um sargento, ele os chamou e começou a ler. Em pouco tempo, todos estavam em transe e depois pediam para que ele continuasse a leitura, demonstrando o fascínio que a leitura bem executada pode gerar.

07 – Qual é a visão utópica de Rubem Alves para o futuro da leitura, expressa no final da crônica?

      Ele imagina um futuro em que existam "concertos de leitura", assim como existem concertos de música. Neles, as pessoas (inclusive adolescentes) se preparariam para ir a um teatro ouvir um conto ou um livro ser lido, com a mesma naturalidade e entusiasmo que iriam a qualquer outro evento cultural, valorizando a experiência da leitura em voz alta.

 

CRÔNICA: AS METAMORFOSES DA VELHICE - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Crônica: As metamorfoses da velhice – Fragmento

              Rubem Alves

        Matsuó Bashô (1644-1694), poeta japonês, foi o mestre supremo dos haikais. Leminski, valendo-se de uma sugestão de Jorge Luís Borges, descreve um haicai como um objeto poético mínimo de peso intolerável.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhuIICK3YtwzcYUst0irrPJPx7boyxaopvhaVTzNfH7NyAkK1PeNlz3EGrj_N3XeHDTR6H48jiFdzz5KFtEzmlxyoir4dLi4in4uLfVxPBo_ttO5neYUQQQp_vffBerpj3JLk29LRF_0eOHzfpPK5J6-BdL97UDdMAFykyvkWzXLGnAtzzb9-Y2Y2BddcM/s320/cropped-imagem-cabecalho-metamorfose-1.jpeg


        Esse é um dos seus mais famosos haicais de Bashô:

        “Casca oca:

        a cigarra

        cantou-se toda.” 


        Bashô é apelido; significa “bananeira”. Era a árvore favorita do poeta. Trata-se de árvore estranha: dá um cacho de bananas somente. Seu caule extremamente macio deve então ser cortado – o que pode ser feito com um único golpe de facão. Cortado o caule, de dentro do cepo velho nasce um broto que cresce e vira outra bananeira. Eu havia cortado várias bananeiras que impediam o acesso a uma cachoeira, em Pocinhos do Rio Verde. Algumas semanas depois voltei àquele lugar, e esse haicai apareceu-me instantaneamente:

        “Bananeira cortada:

        no cepo velho

        um broto criança”.

        Entendi, então, a razão do gosto de Bashô pelas bananeiras: elas simbolizam a nova vida que brota sempre de dentro da vida velha, acabada. Foi isso que Bashô viu ao contemplar as cascas vazias das cigarras: [...].

        As cigarras são seres subterrâneos silenciosos – algumas chegam a ficar 17 anos enterradas sob a forma de larva. De repente saem da terra, arrebentam as cascas duras que as continham (eram ataúdes) e se tornam artistas, seres alados, cantantes. Antes mesmo de ter lido o haicai de Bashô colhi, no bosque onde caminho, algumas cascas vazias de cigarra e as coloquei num bonsai, no meu consultório: tinha esperança de que as pessoas entendessem aquele haicai sem palavras: seres subterrâneos podem se tornar seres alados!

        As lagartas, cuja vida se resume em devorar as folhas sobre que se arrastam, após esgotarem essa fase rastejante e gastronômica, entram num sarcófago que elas mesmas tecem, mergulham num sono profundo, e quando acordam não mais se reconhecem: tornaram-se uma outra coisa: seres coloridos, voantes de flor em flor, borboletas.

        Metamorfoses… acontecem sempre de repente – e embora não pareça, somos nós, seres humanos, aqueles que passam por elas com mais facilidade. Nossos corpos são mais leves que os corpos dos animais. É que nossas cascas, diferentes das dos animais, são feitas com palavras, carne e palavras misturadas. Basta que as palavras se alterem para que o corpo se metamorfoseie num outro.

        [...]

Rubem Alves. Livro sem fim. São Paulo: Edições Loyola, 2002. p. 43. (Fragmento adaptado).

Fonte: Língua Portuguesa: Singular & Plural. Laura de Figueiredo; Marisa Balthasar e Shirley Goulart – 7º ano – Moderna. 2ª edição, São Paulo, 2015. p. 192-193.

Entendendo a crônica:

01 – Quem foi Matsuó Bashô e como Leminski descreve o haicai, valendo-se de uma sugestão de Jorge Luís Borges?

      Matsuó Bashô foi um poeta japonês, considerado o mestre supremo dos haikais. Leminski, seguindo Borges, descreve o haicai como um "objeto poético mínimo de peso intolerável".

02 – Qual o significado do apelido "Bashô" e por que a bananeira era a árvore favorita do poeta?

      "Bashô" significa "bananeira". A árvore era sua favorita porque ela simboliza a nova vida que brota sempre de dentro da vida velha e acabada, pois, ao ser cortada, um novo broto nasce do cepo.

03 – Qual o haicai criado por Rubem Alves após cortar as bananeiras, e o que ele entendeu com isso?

      O haicai criado por Rubem Alves foi: "Bananeira cortada: no cepo velho um broto criança". Com ele, o autor entendeu a razão do gosto de Bashô pelas bananeiras, percebendo que elas simbolizam a renovação da vida.

04 – Descreva o processo de metamorfose da cigarra, conforme o texto.

      As cigarras são seres subterrâneos e silenciosos que podem passar até 17 anos como larvas. De repente, elas saem da terra, rompem suas cascas duras (como ataúdes) e se tornam artistas, seres alados e cantantes.

05 – Com que propósito Rubem Alves colocou cascas vazias de cigarra em um bonsai em seu consultório?

      Ele fez isso na esperança de que as pessoas entendessem "aquele haicai sem palavras", transmitindo a mensagem de que "seres subterrâneos podem se tornar seres alados!".

06 – Como o texto descreve a metamorfose das lagartas e o que elas se tornam ao final do processo?

      As lagartas, após uma fase rastejante e gastronômica de devorar folhas, entram em um sarcófago que elas mesmas tecem, mergulham em um sono profundo e, ao acordar, se tornam borboletas, seres coloridos e voantes de flor em flor.

07 – Segundo Rubem Alves, por que os seres humanos são aqueles que passam por metamorfoses com mais facilidade, e o que as nossas "cascas" são feitas?

      Os seres humanos passam por metamorfoses com mais facilidade porque nossos corpos são mais leves que os dos animais e nossas cascas são feitas com palavras, carne e palavras misturadas. Basta que as palavras se alterem para que o corpo se metamorfoseie.

 

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

CRÔNICA: MUITO CEDO PARA DECIDIR - FRAGMENTO - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Crônica: Muito cedo para decidir – Fragmento

              Rubem Alves

        Gandhi se casou menino. Foi casado menino. O contrato, foram os grandes que assinaram. Os dois nem sabiam direito o que estava acontecendo, ainda não haviam completado 10 anos de idade, estavam interessados em brincar. Ninguém era culpado: todo mundo estava sendo levado de roldão pelas engrenagens dessa máquina chamada sociedade, que tudo ignora sobre a felicidade e vai moendo as pessoas nos seus dentes. Os dois passaram o resto da vida se arrastando, pesos enormes, cada um fazendo a infelicidade do outro. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjut1vW8kGK8ChY7vAq6qiCjVcmn9PDxRaiAJNxmL-MNjVoMl-AynogxPRGR0sDKfXb_L9wstNlegljE1ztPLb0moujf77zvA9j41DVq_iWib5hcm5kVbn8SHPNQ4u8s54B0bV5VSVWOSfeGJuL5gm7mQ-79fJruncQsSKvb2GEQQRn8x80M8VwZFfnzTE/s320/11B-Mahatma-Ghandi_pt_BR.jpg


        Vocês dirão que felizmente esse costume nunca existiu entre nós: obrigar crianças que nada sabem a entrar por caminhos nos quais terão de andar pelo resto da vida é coisa muito cruel e... burra! Além disso já existe entre nós remédio para casamento que não dá certo.

        [...]

        Pois dentro de poucos dias vai acontecer com nossos adolescentes coisa igual ou pior do que aconteceu com o Gandhi e a mulher dele, e ninguém se horroriza, ninguém grita, os pais até ajudam, concordam, empurram, fazem pressão, o filho não quer tomar a decisão, refuga, está com medo. "Tomar uma decisão para o resto da minha vida, meu pai! Não posso agora!" e o pai e a mãe perdem o sono, pensando que há algo errado com o menino ou a menina, e invocam o auxílio de psicólogos para ajudar...

        Está chegando para muitos o momento terrível do vestibular, quando vão ser obrigados por uma máquina, do mesmo jeito como o foram Gandhi e Casturbai (era esse o nome da menina), a escrever num espaço em branco o nome da profissão que vão ter.

        Do mesmo jeito não: a situação é muito mais grave. Porque casar e descasar são coisas que se resolvem rápido. Às vezes, antes de se descasar de uma ou de um, a pessoa já está com uma outra ou um outro. Mas, com a profissão não tem jeito de fazer assim.

        Pra casar, basta amar.

        Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer.

        A dor que os adolescentes enfrentam agora é que, na verdade, eles não têm condições de saber o que é que eles amam. Mas a máquina os obriga a tomar uma decisão para o resto da vida, mesmo sem saber.

        Saber que a gente gosta disso e gosta daquilo é fácil. O difícil é saber qual, dentre todas, é aquela de que a gente gosta supremamente. Pois, por causa dela, todas as outras terão de ser abandonadas. A isso que se dá o nome de "vocação"; que vem do latim, vocare, que quer dizer "chamar". É um chamado, que vem de dentro da gente, o sentimento de que existe alguma coisa bela, bonita e verdadeira à qual a gente deseja entregar a vida.

        [...]

        Um conselho aos pais e aos adolescentes: não levem muito a sério esse ato de colocar a profissão naquele lugar terrível. Aceitem que é muito cedo para uma decisão tão grave. Considerem que é possível que vocês, daqui a um ou dois anos, mudem de ideia. Eu mudei de ideia várias vezes, o que me fez muito bem. Se for necessário, comecem de novo. Não há pressa. Que diferença faz receber o diploma um ano antes ou um ano depois?

        [...]

        Assim, Raquel, não se aflija. A vida é uma ciranda com muitos começos.

        Coloque lá a profissão que você julgar a mais de acordo com o seu coração, sabendo que nada é definitivo. Nem o casamento. Nem a profissão. E nem a própria vida...

Rubem Alves. Estórias de quem gosta de ensinar: o fim dos vestibulares. Campinas: Papirus, 2000. p. 35-40.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 9º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 211.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é a principal crítica do autor em relação ao casamento de Gandhi?

      O autor critica o fato de que Gandhi e sua esposa foram forçados a se casar ainda crianças, sem entender o que estava acontecendo. Ele descreve o casamento como um ato cruel e "burro", uma decisão imposta pela sociedade que os levou a uma vida de infelicidade.

02 – Qual é a analogia que o autor faz entre o casamento de Gandhi e o vestibular?

      Rubem Alves compara o vestibular com o casamento de Gandhi, pois ambos são situações em que adolescentes são forçados a tomar uma decisão grave e definitiva para suas vidas sem ter a maturidade e o conhecimento necessários para tal escolha.

03 – Por que o autor considera a decisão do vestibular "muito mais grave" do que o casamento?

      O autor argumenta que a escolha da profissão é mais grave porque, ao contrário do casamento que pode ser desfeito, a profissão exige tempo para o saber crescer. Não é algo que se resolve rapidamente e, uma vez trilhado o caminho, as outras opções são abandonadas.

04 – O que o texto define como "vocação"?

      O autor define "vocação" como um "chamado" que vem de dentro da pessoa, um sentimento de que existe algo "belo, bonito e verdadeiro" ao qual ela deseja dedicar sua vida. É a escolha suprema que faz com que as outras sejam deixadas de lado.

05 – Qual conselho o autor dá aos pais e adolescentes que estão nesse dilema?

      O autor aconselha que não levem a decisão da profissão "muito a sério", pois é muito cedo para uma escolha tão grave. Ele sugere que aceitem a possibilidade de mudar de ideia, que, se necessário, comecem de novo, e que não há pressa.

06 – Por que o autor usa sua própria experiência para dar conselhos?

      O autor usa sua própria experiência de ter mudado de ideia várias vezes para mostrar que a vida é uma jornada de múltiplos começos e que isso o fez muito bem. É uma forma de encorajar os adolescentes a não encararem a decisão como algo definitivo.

07 – Qual a mensagem final do autor para a leitora chamada Raquel?

      Para Raquel, a mensagem é para que não se aflija, pois a vida é uma ciranda com muitos começos. Ele a encoraja a escolher a profissão que mais se alinha com o seu coração, mas com a consciência de que nada é definitivo, nem a profissão, nem o casamento, nem a própria vida.

 

 

 

 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

CRÔNICA: O PRAZER DA LEITURA - RUBEM ALVES - COM GABARITO

 Crônica: O prazer da leitura

               Rubem Alves

        Este texto, eu o dedico aos professores e professoras que fazem o que de mais importante existe na educação: seduzir as crianças para o prazer que mora nos livros.

        Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de "alfabeto". "Alfabeto" é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que "abecedário". A palavra "alfabeto" é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: "alfa" e "beta". E "abecedário", com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: "a", "b", "c" e "d". Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que "abecederizar", palavra inexistente, pudesse ser sinônima de "alfabetizar"...

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEikZxyr649XDWhtr6f6-JuGa4x5GjQGGA-OnpIhaLmFC0wf1suujthqKssLVBlmACxjkfyqNbbUQjUtWO87oSY0XWXriTuAf-YDsAKYKMQSZHqbE67k5K3b46cd1hpI1ZA8wj9K7zJaLGF8TdONxSQBJtD3PZ74_7gFSJsOAIFl-yZ-aJ5kIVZzMNRzC9I/s320/como-alfabetizar-letrando.jpg


        "Alfabetizar", palavra aparentemente inocente, contém uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...

        E assim era. Lembro-me da criançada repetindo em coro, sob a regência da professora: "be-a-ba; be-e-be; be-i-bi; be-o-bo; be-u-bu"... Estou olhando para um cartão-postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina cacheada, deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê "fa", "fe", "fi", "fo", "fu"... (Centro de Referência do Professor, Centro de Memória, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, Minas Gerais).

        Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música deveria se chamar "dorremizar": aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...

        Todo mundo sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega o nenezinho e o embala, cantando uma canção de ninar. E o nenezinho entende a canção. O que o nenezinho ouve é a música e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas! Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: minha mãe as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes.

        Isso é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. "Erotizada" – sim, erotizada! – pelas delícias da leitura ouvida, a criança se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.

        No primeiro momento as delícias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o "seio bom", o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. As aulas de leitura ninguém faltava; ninguém falava. Queríamos ouvir a professora lendo. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa de leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...

        Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor maternagem: continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: "Por favor, me ensine! Eu quero poder entrar no livro por conta própria...".

        Toda aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontecerá. Há aquele velho ditado: "E fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber". Traduzido pela Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo. Quero é fome". Metáfora para o professor: cozinheiro, Babette que serve o aperitivo para que a criança tenha fome e deseje comer o texto...

        Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema – aquele poema que eu amava – estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua "letra" está gravada no papel: as notas. Mas, como partitura, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretação do concerto n.° 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres...), as toca: seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.

        Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras – a beleza acontece. O texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas em "fortes" e "pianos" – a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a prática de "concertos de leitura". Se há concertos de música erudita, jazz e MPB – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos aprenderão a difícil e deliciosa arte de ler. E acontece, então, com a leitura, o mesmo que acontece com a música: depois de provar o seu gosto é impossível parar. Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula "se", dígrafos, encontros consonantais, análise sintática – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: o aprendizado da anatomia do texto impede que se aprenda a erótica do texto. E esse aprendizado se inicia antes que as crianças saibam as letras. Sem que saibam as letras o seu corpo já é sensível à beleza que mora nos livros...

        APERITIVOS

        -- A menininha de nove anos me explicou como as crianças na sua escola aprendiam a ler: "Aqui na Escola da Ponte não aprendemos letras e sílabas. Só aprendemos totalidades...".

        -- "Analfabeto não é a pessoa que não sabe ler. É a pessoa que, sabendo ler, não gosta de ler." (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mário Quintana.)

        -- Os compositores colocam em suas partituras indicações para orientar o intérprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam fazer o mesmo com os seus textos. Há textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente não precisa dessas indicações. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.

        -- "Mais valem dois marimbondos voando que um na mão" (Almanak do aluá).

        -- Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola, lhe ensinaram um ditado: "Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém". Ele repetia o ditado mas ficava com uma dúvida: "Quem será esse 'Tertião'?".

Rubem Alves.

Fonte: Letra e Vida. Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – Coletânea de textos – Módulo 3 – CENP - São Paulo – 2005. p. 17-20.

Entendendo a crônica:

01 – A quem Rubem Alves dedica este texto e qual é a principal tarefa que ele lhes atribui?

      Rubem Alves dedica o texto aos professores e professoras. A principal tarefa que ele lhes atribui é seduzir as crianças para o prazer que mora nos livros, enfatizando que essa é a coisa mais importante na educação.

02 – Qual a crítica do autor à forma tradicional de ensinar a ler, baseada no significado da palavra "alfabetizar"?

      O autor critica a forma tradicional de ensinar a ler que foca primeiro nas letras, depois nas sílabas e, por fim, nas palavras, baseando-se na etimologia de "alfabetizar" (aprender o alfabeto). Ele a compara ironicamente ao ensino de música focado apenas nas notas, sem a experiência da melodia, sugerindo que essa abordagem não gera prazer nem compreensão real.

03 – Como Rubem Alves compara o aprendizado da leitura ao aprendizado da música?

      Ele compara o aprendizado da leitura ao da música, afirmando que ambos começam pela percepção de uma totalidade e não pelo conhecimento das partes. Assim como uma criança ouve e entende uma canção de ninar sem saber as notas, o prazer da leitura começa com a escuta fascinada da história, antes mesmo de conhecer as letras.

04 – O que o autor quer dizer com a expressão "Erotizada" pelas delícias da leitura ouvida?

      Com a expressão "Erotizada", o autor se refere à sensação de encantamento e atração intensa que a criança sente pelas histórias lidas em voz alta. Essa "erotização" é o desejo profundo de acessar o mundo de prazer que o livro oferece, levando a criança a querer decifrar as letras para ter autonomia na leitura.

05 – Qual o papel do professor como "seio bom" na visão do autor?

      O professor, no ato de ler para os alunos, atua como o "seio bom", uma metáfora de Melanie Klein. Isso significa que ele é o mediador inicial que conecta o aluno ao prazer do texto, nutrindo esse desejo pela leitura de forma afetiva e prazerosa, sem a imposição de avaliações.

06 – Qual a incompatibilidade que Rubem Alves aponta entre a leitura prazerosa e as práticas escolares comuns?

      O autor aponta uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa de leitura e a prática de ler para responder questionários de interpretação e compreensão. Para ele, a leitura para provas mata o prazer "vagabundo" (livre, descompromissado) da experiência literária.

07 – Segundo o autor, qual é o "aperitivo" essencial para despertar o desejo de ler nas crianças?

      O "aperitivo" essencial é a experiência original de um adulto (mãe, pai ou professor) lendo para a criança. Essa vivência afetiva e prazerosa de ouvir histórias cria um desejo e uma "fome" pela leitura, fazendo com que a criança queira, por si mesma, ter acesso a esse mundo.

08 – Como Rubem Alves explica a "música" presente em todo texto literário?

      Rubem Alves explica que todo texto literário tem dois elementos: as palavras (com seu significado) e a música. Ele compara o texto a uma partitura musical, onde as palavras são as notas. Para que o texto ganhe vida e produza prazer, é preciso que o leitor seja um "artista" que domine a técnica e "surfe" sobre as palavras, dando-lhes a melodia e a expressão adequadas.

09 – Qual a proposta do autor para ensinar a "difícil e deliciosa arte de ler"?

      O autor propõe o estabelecimento da prática de "concertos de leitura" nas escolas. Assim como há concertos de música, ele sugere que os alunos deveriam ouvir leituras artísticas e expressivas de textos literários. Através dessa audição prazerosa, os alunos seriam seduzidos e aprenderiam a "difícil e deliciosa arte de ler".

10 – Qual é a principal razão, segundo o autor, para que muitos jovens não gostem de ler?

      A principal razão, para Rubem Alves, é que os jovens foram forçados a aprender excessivamente sobre a "anatomia do texto" (gramática, análise sintática, etc.) em vez de serem iniciados na "beleza musical" ou na "erótica do texto". Essa abordagem excessivamente técnica impede o desenvolvimento do prazer pela leitura, que deveria começar antes mesmo do conhecimento das letras.