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sábado, 1 de agosto de 2026

CORDEL: O VENDEDOR DE OVOS - JOSÉ F. BORGES - COM GABARITO

 Cordel: O Vendedor de Ovos

           José F. Borges

Um homem vendia ovos

numa feira da usina.

Numa época de São João

uma senhora grã-fina

lhe encomendou ovos grandes

que não tivessem ruína.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgLDxcevAmOAyVGmmwDfCU6ww_9UksLe-d-1cC2ApR6x6uFizmUJzLHkuHsSfLRWA1mI-JFUpjsrFtv8dgdmjbKwGpQi_jvX9qazv9aAmhwbE-MON1RC7ApV09PC1oEhVvUc8mjQj3Awz3w80XC0osoxXtpW_DcW7wpeyi_w0TJHDsm2-qRg-8iYrob7gc/s320/images.jpg 

Ele carregou a égua

com dois pares de caixão

e os ovos da mulher

colocou no caldeirão

e amontou-se na égua

levando o mesmo na mão.

 

Ao passar na linha férrea

o maquinista lhe avistou

montado no meio da carga

o maquinista apitou

e com o apito da máquina

a égua se assustou.

 

E na corda do apito

o maquinista pendurou-se

com o apito estridente

a égua mais espantou-se

e o caldeirão com os ovos

da mulher, logo quebrou-se.

 

O homem pulou da carga

logo a cangalha virou

e as quatro caixas de ovos

de serra abaixo embalou

a égua vidrou os olhos

e no momento endoidou.

 

Correu da estrada afora

com o pescoço levantado

o homem foi pegar ela

caiu dentro dum valado

a estrada virou lama

fedendo a ovo quebrado

 

Voltou o pobre pra casa

com a roupa toda molhada

as caixas fedendo a ovos

e a cangalha quebrada

e a égua findou a vida

para sempre espantada.

 José Francisco Borges.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 206.

Entendendo o cordel:

01 – O texto que você acabou de ler está escrito em versos ou prosa?

      O texto está escrito em versos. Cada linha do poema corresponde a um verso, organizados em estrofes de seis linhas (sextilhas).

02 – Como é nomeado o texto escrito neste estilo?

      Trata-se de uma Literatura de Cordel (ou simplesmente Cordel). É um gênero literário popular, muito tradicional na região Nordeste do Brasil, tipicamente impresso em folhetos e frequentemente acompanhado de gravuras (xilogravuras).

03 – O texto “O vendedor de ovos” descreve um sentimento, narra acontecimentos do dia a dia de modo poético ou enumera características do povo nordestino?

      O texto narra acontecimentos do dia a dia de modo poético. Ele conta uma história rápida e bem-humorada (um entrevero/incidente) envolvendo a encomenda de uma cliente, o barulho do trem, o susto da égua e o prejuízo do feirante.

04 – Que nome recebe os sons que se repetem nas palavras, em geral, no final dos versos?

      Esses sons repetidos são chamados de rimas.

05 – Do ponto de vista gramatical e sonoro, podemos dizer que são rimas ricas ou pobres?

      São rimas pobres. Por quê? Na classificação gramatical, a rima é considerada pobre quando ocorre entre palavras de mesma classe gramatical (por exemplo, verbo com verbo ou substantivo com substantivo). No cordel analisado, a maioria das rimas ocorre entre verbos no mesmo tempo verbal ou entre substantivos:

-- usina / grã-fina / ruína (substantivo com adjetivo/substantivo)

-- caixão / caldeirão / mão (substantivos)

-- avistou / apitou / assustou (verbos no pretérito perfeito)

-- pendurou-se / espantou-se / quebrou-se (verbos no pretérito perfeito com pronome)

-- virou / embalou / endoidou (verbos no pretérito perfeito).

06 – Numa narrativa, o clímax é o ponto culminante, o momento mais tenso da história. Logo após o clímax, vem o desfecho, o final da história.

a) Qual é o clímax da narrativa lida?

      O clímax se dá a partir do momento em que a égua endoida e vai até a queda do homem no valado.

b) Qual é o desfecho?

      O desfecho da história ocorre na última estrofe.

07 – A literatura de cordel emprega uma linguagem popular. Por isso, incorpora ocorrências que fogem às regras gramaticais. Identifique na primeira estrofe:

a) Duas palavras que não estão de acordo com a ortografia oficial.

      Granfina (grã-fina) e ruina (ruína).

b) Um problema de concordância.

      Ovos grandes é sujeito da forma verbal tivesse. O verbo deveria estar na 3ª pessoa do plural.

 

 

 

 

 

 

CORDEL: UM TESOURO SEM PAR - 100 ANOS DE CORDEL - COM GABARITO

 Cordel: Um tesouro sem par

        Antes de serem impressos no Brasil, as histórias de cordel eram contadas pelo povo e reproduziam outras, vindas de tempos e terras distantes, trazidas pelos portugueses.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEilf_gE5q4KJnpR2PTjneGE0RM6h_9axMGKOihfbvjZrdp1paO5LBIYKWzBCJaafKVQhcRSo3hjzQ4i2tYGwnyOLKDlq2MQoL-MXmMILJD-ysiBcARj5aHyTlaUlsL8WhJMCuMMm9eNn7lO9iiQijzGzqcpG14vqeXlSknhLdV-QJ9wHPTAE9oruEki2Rs/s320/images.jpg


        São narrativas de heróis, princesas de beleza deslumbrante, príncipes destemidos, reis, como Carlos Magno, e seus intrépidos guerreiros, que se transportaram da Idade Média para o imaginário do povo do nosso sertão.

        A literatura popular em versos desenvolveu-se aqui como em nenhuma outra parte do mundo. Mas, além de histórias fantásticas, os poetas cantadores faziam chegar aos pontos mais distantes do sertão nordestino notícias das coisas acontecidas, comentários políticos, as valentias de Lampião, os milagres do Padre Cícero.

        A imprensa instalou-se no Brasil, em 1808, com a chegada da família real portuguesa, mas a circulação dos jornais ficava limitada às cidades mais importantes. Assim, só nos últimos anos do século XIX, surgiram os primeiros folhetos.

        As ilustrações, os cabeçalhos e vinhetas dos folhetos de cordel eram feitos por xilogravura (gravura em madeira). A madeira preferida era a umburana, e os entalhes eram feitos com canivete, hastes de guarda-chuva, lâminas de barbear, etc.

        O Cordel inspirou escritores, como Jorge Amado, poetas, como João Cabral de Melo Neto, dramaturgos, como Ariano Suassuna, e está no cinema de Glauber Rocha, nas artes plásticas, como na obra de Gilvan Samico, e principalmente na música popular brasileira.

Fonte: 100 anos de cordel. São Paulo, Sesc, 2001.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 208.

Entendendo o cordel:

01 – De que maneira as narrativas de origem europeia se transformaram ao chegar ao Brasil e como passaram a fazer parte do imaginário popular?

      As histórias de cordel eram originalmente contadas pela tradição oral e foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores portugueses. Traziam temas europeus e medievais, como relatos de heróis, princesas, príncipes e figuras históricas como o rei Carlos Magno e seus guerreiros. Ao chegarem ao sertão nordestino, essas narrativas foram incorporadas e adaptadas à cultura local, mesclando a tradição literária da Idade Média com a realidade, o imaginário e o contexto do povo sertanejo.

02 – Além de contar histórias fantásticas, qual era a função social e informativa da literatura de cordel no sertão nordestino?

      O cordel desempenhava um papel fundamental de veículo de informação e jornalismo popular no sertão. Como a circulação dos jornais tradicionais ficava restrita às grandes cidades, os poetas cantadores levavam às regiões mais isoladas as notícias sobre os acontecimentos do país, comentários e debates políticos, relatos sobre o cangaço (como as valentias de Lampião) e aspectos da religiosidade popular (como os milagres do Padre Cícero).

03 – Como eram confeccionadas as ilustrações dos folhetos de cordel e quais recursos eram utilizados pelos artesãos?

      As ilustrações, cabeçalhos e vinhetas eram produzidos por meio da técnica da xilogravura, que consiste no entalhe da imagem em blocos de madeira. Para isso, os artesãos preferiam utilizar a madeira de umburana e usavam ferramentas adaptadas do cotidiano para fazer os cortes, tais como canivetes, hastes de guarda-chuva e lâminas de barbear.

04 – Qual foi o impacto da chegada da imprensa ao Brasil para o aparecimento do cordel impresso e quando surgiram os primeiros folhetos?

      Embora a imprensa tenha se instalado no Brasil em 1808 com a chegada da família real portuguesa, o acesso aos jornais permaneceu limitado aos centros urbanos de maior importância. Por essa razão, a produção e circulação dos primeiros folhetos impressos de cordel só ganharam força e se consolidaram no país nos últimos anos do século XIX.

05 – Com base no texto, demonstre como o cordel influenciou outras linguagens artísticas e culturais no Brasil.

      A literatura de cordel serviu de fonte de inspiração para diversos campos da cultura nacional. Na literatura e no teatro, influenciou grandes nomes como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna. No cinema, fez-se presente nas obras de Glauber Rocha; nas artes plásticas, destacou-se no trabalho de Gilvan Samico; e, de forma marcante, integrou-se à música popular brasileira.

 

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

CORDEL: CARTILHA DO POVO - FRAGMENTO - RAIMUNDO SANTA HELENA - COM GABARITO

 Cordel: Cartilha do Povo – Fragmento

           Raimundo Santa Helena

Ninguém nasceu neste mundo

Pra sofrer e virar Santo

Deus nos fez para gozar

Mais do que derramar pranto

Mas na panela do povo

Só tem farofa de ovo

Quando almoço não janto.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5jp_FHL-G11_XttepX_dxQyScecWx5IHwTDM4NKV_injnWYN_uzjQfFfHpMRmbH5JUV6leob0tpBh4cg064TyqPKqpIyCTsd8LhQff7-SXsDtf5vIqkG7mZRe8dXZzFvo_7jAxbrGNyuH_1M1jcUHLyOSl1UP7ctghB_Fy9h_fVxKo4VC9-VUDB1FWo8/s1600/images.jpg


E todo trabalhador

Ao teto vai ter direito

Um salário compatível

Pelo que faz ou foi feito

Quem lavrar terra é dono

Não haverá abandono

Para quem tiver defeito.

[...] 

Do progresso brasileiro

O povão não usufrui

Embora com seu suor

É o que mais contribui

Mas num regime que suga

O honesto que madruga

Nada que preste possui.

 

Ninguém aguenta mais

Abrangentes privações

Estrangeiros controlando

No Brasil nossas ações

Vamos revirar as normas

Decretar nossas reformas

A partir das eleições.

[...] 

Queremos Democracia

Plena e Constituinte.

Não queremos o menor

Vivendo como pedinte

O BNH dos nobres

Deve se virar pros pobres

Queremos mais o seguinte:

[...] 

Nosso povo apoiado

Na vida de mutirão

E queremos a mulher

Com mais valorização

Nosso meio ambiente

Puro como lá se sente

Nas florestas do sertão.

[...] 

Que haja maior respeito

Pelos grupos raciais

Também pelas minorias

Porque nós somos iguais

Um ensino democrático

Humano moderno prático

Justiça nos tribunais.

[...]

Nenhum Governo respeita

Povão que é desunido

O Lobo vira Senhor

Do cordeiro encolhido

Quem não se junta perece

Mas quem se une merece

Um viver evoluído.

[...]

Raimundo Santa Helena. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 203.

Entendendo o cordel:

01 – Na primeira estrofe, o autor faz um contraste entre o plano divino para a humanidade e a realidade material do povo trabalhador. Como esse contraste é construído e qual expressão popular ilustra a escassez vivida por eles?

      O contraste é construído ao afirmar que Deus criou o ser humano para gozar da vida e não para sofrer ou derramar pranto. No entanto, a realidade material contraria esse plano divino devido à pobreza. A expressão que ilustra essa escassez é "Quando almoço não janto", que, somada à "farofa de ovo" na panela, sintetiza a situação de insegurança alimentar e a falta de recursos básicos.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico aborda a contradição entre a força de trabalho e a divisão das riquezas no país. Segundo o texto, por que o trabalhador honesto "nada que preste possui"?

      O trabalhador não possui bens de qualidade porque o país vive sob um "regime que suga" o cidadão. O texto aponta a injustiça social de que, embora o "povão" seja quem mais contribui para o progresso brasileiro por meio do seu suor e de madrugar para trabalhar, ele é excluído dos benefícios desse desenvolvimento, não conseguindo usufruir daquilo que produz.

03 – O cordelista manifesta um forte desejo de soberania nacional e mudança política. De acordo com a quarta estrofe, quem está controlando as ações no Brasil e qual é o mecanismo proposto pelo autor para alterar essa situação?

      De acordo com o texto, são os "estrangeiros" que estão controlando as ações dentro do Brasil, gerando privações que a população não aguenta mais. O mecanismo proposto pelo autor para mudar essa realidade, revirar as normas e decretar as reformas necessárias é a via democrática e institucional, especificamente através do voto nas "eleições".

04 – Nas estrofes centrais, o autor lista uma série de bandeiras e direitos sociais necessários para uma "Democracia Plena". Quais são as demandas apresentadas pelo eu lírico no que diz respeito à moradia, ecologia e igualdade social?

      No âmbito da moradia, ele exige que o BNH (Banco Nacional da Habitação, historicamente voltado aos nobres) seja direcionado para os pobres e que o menor não viva como pedinte. Na ecologia, demanda a preservação do meio ambiente puro, como as florestas do sertão. Já na igualdade social, defende a valorização da mulher, o respeito aos grupos raciais, às minorias e a garantia de que todos sejam tratados como iguais.

05 – Na última estrofe, o poeta utiliza a metáfora do "Lobo" e do "cordeiro". Qual é a lição moral que essa comparação transmite sobre a importância da organização popular frente aos governantes?

      A metáfora do "Lobo" (que representa os governantes opressores ou o poder instituído) e do "cordeiro encolhido" (que representa o povo acuado) serve para alertar que nenhum governo respeita uma população desunida. A lição moral é a de que a passividade e o isolamento levam à opressão ("quem não se junta perece"), enquanto a união do povo é a única ferramenta capaz de conquistar o respeito e um "viver evoluído".

 

CORDEL: A MULHER QUE MAIS AMEI - FRAGMENTO - PATATIVA DO ASSARÉ - COM GABARITO

 Cordel: A Mulher Que Mais Amei – Fragmento

           Patativa do Assaré

Era um modelo perfeito 
A mulher que mais amei, 
Linda e simpática de um jeito 
Que eu mesmo dizer não sei. 
Era bela, muito bela; 
Para comparar com ela, 
Outra coisa eu não arranjo 
E por isso tenho dito 
Que se anjo é mesmo bonito, 
Era o retrato dum anjo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGU6ezcijxL5acd4s2uGVQysE_kIkpOXxBGBplDyjdEFJ498tmhiGrBfa398m_gBreBZZ988mk8R__k3i3R20VFN2dJtUNtLZVBIUAEPHhx9aBhbaWXXEGQGNMEjxUyRI0_APsDKqrfq-aedLl0dRakOMuOZH5FD1wRtnIn1YCXxDkVECeTwtOgTkTCX8/s1600/PATATIVA.jpg


Sei que alguém não me acredita, 
Mas eu digo com razão, 
Foi a mulher mais bonita 
De cima de nosso chão; 
Era mesmo de encomenda 
E do amor daquela prenda 
Eu fui o merecedor, 
Eu era mesmo sozinho 
Dono de todo carinho 

Daquele anjo encantador.

Era bem firme a donzela, 

Só em mim vivia pensando. 
Quando eu olhava ela, 
Ela já estava me olhando. 
Para a gente conversar 
Quando eu não ia, ela vinha, 
Um do outro sempre bem perto 
Nosso amor dava tão certo 
Quem nem faca na bainha.

E por sorte ou por capricho, 

Eu tinha prata, ouro e cobre. 
Dinheiro em mim era lixo 
Em casa de gente pobre. 
Nós nunca perdíamos ato 
De cinema e de teatro 
De drama e mais diversão, 
Não faltava coisa alguma, 
As notas eu tinha de ruma 
Para nós andar de avião.

Meu grande contentamento, 
Não havia mais maior 
E nossos dois pensamentos 
Pensava uma coisa só. 
Para desfrutar a minha vida 
Perto de minha queria 
Eu não poupava dinheiro. 
Tanta sorte nós tivemos 
Que muitas viagens fizemos 
Nas terras do estrangeiro.

[...]

Era boa a nossa sorte 
E n]ao mudava um segundo 
Ninguém pensava na morte 
E o céu era aqui no mundo. 
Na refeição nós comia 
Das melhores iguarias 
Sem falar de carne e arroz 
E por isso muita gente 
Ficava rangendo os dentes 
Com ciúmes de nós dois.

Foi uma coisa badeja 
A vida que eu desfrutei, 
Mas para quem tiver inveja 
Dessa vida que levei 
Com tanta felicidade, 
Eu vou dizer a verdade, 
Pois não engano ninguém. 
Aquele anjinho risonho 
Eu vi foi durante um sonho; 
Mulher nunca me quis bem!

A história não foi verdade, 
Todo sonho é mentiroso 
Aquela felicidade 
De tanto luxo e de gozo 
Sem o menor sacrifício, 
Foi negócio fictício, 
Não foi coisa verdadeira. 
Eu fiquei dando o cavaco: 
“Este alimento fraco 
Só dá para sonhar besteira.”

De noite eu tinha jantado 
Um mucunzá sem tempero 
E acordei alvoroçado 
Sem mulher e sem dinheiro; 
Ainda reparei bem 
Para vê se via alguém 
De junto de minha rede 
Mas, em vez de tudo aquilo 
Só ouvi cantando o grilo 
Nos buracos da parede.

Quando acordei estava só 
Sem ter ninguém do meu lado, 
Era muito mais melhor 
Que eu não tivesse sonhado. 
Quem já vai no fim da estrada 
Levando a carga pesada 
De sofrimento sem fim, 
Doente, cansado e fraco 
Vem um sonho enchendo o saco 
Piorar quem já está ruim.”

Patativa do Assaré. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 185-187.

Entendendo o cordel:

01 – Nos dois primeiros estrofes, o eu lírico faz uma descrição detalhada da aparência da mulher amada. Que recurso comparativo ele utiliza para expressar essa beleza e como ele define a reciprocidade desse amor?

      O eu lírico compara a mulher a um anjo, afirmando que ela era o "retrato dum anjo" e a criatura mais bonita "de cima de nosso chão". Quanto à reciprocidade, ele deixa claro que o sentimento era mútuo e exclusivo, pois afirma ter sido o único merecedor e "dono de todo carinho daquele anjo encantador".

02 – No terceiro estrofe, o poeta recorre a uma metáfora popular e a descrições cotidianas para explicar a sintonia do casal. Explique a metáfora utilizada e como era a dinâmica de comunicação entre eles.

      A sintonia do casal é coroada com a metáfora "Nem faca na bainha", que expressa um encaixe perfeito, ou seja, que eles combinavam perfeitamente. A dinâmica de comunicação era marcada pela busca mútua e atenção constante: quando se olhavam, já havia reciprocidade no olhar e, se um não podia ir conversar, o outro tomava a iniciativa de ir ao seu encontro.

03 – O eu lírico descreve uma vida de extrema riqueza e ostentação. Quais são os luxos e prazeres mencionados por ele que contrastam drasticamente com a realidade da maioria das pessoas?

      Ele menciona possuir "prata, ouro e cobre" em abundância, afirmando que o dinheiro em suas mãos era tanto que parecia "lixo em casa de gente pobre" e que tinha notas "de ruma". Entre os luxos usufruídos pelo casal, destacam-se as idas frequentes ao cinema, teatro e dramas, viagens de avião e viagens internacionais para "terras do estrangeiro", além do consumo de refeições com as "melhores iguarias".

04 – Qual é a grande reviravolta (clímax) que ocorre no poema e como ela altera o sentido de tudo o que foi narrado até então?

      A reviravolta ocorre quando o eu lírico revela que toda aquela vida de riqueza, viagens e felicidade ao lado da mulher perfeita não passou de um sonho. Ele confessa que "mulher nunca me quis bem" e que a história era mentira, transformando o tom do poema de um relato romântico e triunfante para uma realidade de solidão e desilusão.

05 – O que o eu lírico aponta, no plano real, como a causa física e biológica para ter tido um sonho tão fantasioso e cheio de luxos?

      O poeta atribui o sonho fantasioso à sua alimentação precária daquela noite. Ele revela ter jantado apenas "um mucunzá sem tempero" e conclui, de forma bem-humorada e irônica, que aquele "alimento fraco só dá para sonhar besteira".

06 – Ao acordar do sonho, qual é o cenário real que o eu lírico encontra ao seu redor e como esse ambiente é descrito?

      Ao acordar alvoroçado, ele se depara com a mais completa solidão e pobreza. Ele percebe que está deitado em uma rede, sem mulher e sem dinheiro. Em vez do luxo sonhado, o ambiente é silencioso e precário, restando-lhe apenas ouvir o canto de um grilo saindo "nos buracos da parede".

07 – No último estrofe, o eu lírico reflete sobre o impacto de sonhar acordado para quem já vive uma realidade difícil. Qual é a conclusão dele sobre os efeitos desse sonho em sua vida atual?

      O eu lírico conclui que o sonho, em vez de trazer alento, acabou por piorar o seu estado. Para quem já está no "fim da estrada" carregando uma "carga pesada de sofrimento sem fim", estar doente, cansado e fraco e ter um vislumbre de falsa felicidade só serve para "encher o saco" e trazer mais frustração ao acordar e encarar a dura realidade.

 

 

CORDEL: INFÂNCIA - UM LUGAR DE FLORESCER - COM GABARITO

 Cordel: Infância – Um lugar de florescer

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjby_hXPagDFWAQL7vv9HcLk2dbE0pZiET6k9MYuYZX7Jp2KEYwemRY8xKfWRtjv87EAEUFboHZEo6p1qqXWk0kg91Zf278DebvxoD9SOtd45D67RbHA-O57BLhEFyiErdN3btow1RscOh5Xb1n6_TvtpR5uDvOeeVRwIr99NkMORIvxXMwfl-huiZ-Cb4/s1600/CORDEL.jpg

Entendendo o cordel:

 

01 – Qual é o principal objetivo desse cordel?

      O objetivo principal do cordel é conscientizar as pessoas sobre a importância de proteger as crianças e adolescentes contra a violência, reforçando o dever de denunciar abusos e acolher as vítimas.

 

02 – No poema, o que a cor laranja e a flor simbolizam?

      A cor laranja representa a campanha de combate ao abuso infantil (Maio Laranja) e a flor simboliza a infância como uma "vida delicada" que precisa de cuidados, afeto e espaço seguro para crescer e florescer.

 

03 – De acordo com a terceira estrofe, como devemos agir quando uma criança pede ajuda?

      Devemos acolher o pedido com respeito e empatia. O texto destaca que a "escuta é um abrigo", ou seja, é preciso ouvir a criança com atenção e seriedade, indo além de leis ou burocracias ("papelada").

 

04 – Quem, segundo os versos, tem a responsabilidade de perceber e denunciar situações suspeitas?

      A responsabilidade é de toda a sociedade. O cordel deixa isso claro ao citar que "seja pai, vizinho ou tia", todos devem ficar atentos e agir.

 

05 – Qual é o canal de denúncia indicado no cordel e como ele deve ser usado?

      O canal indicado é o Disque 100. Ele deve ser usado sem medo ("sem se esconder") sempre que houver qualquer suspeita de violência ou abuso contra crianças e adolescentes.

06 – Explique o significado do último verso: "A infância é um lugar de florescer".

      Significa que a infância deve ser um período de vida seguro, saudável e feliz, onde a criança receba amor, proteção e estímulos para se desenvolver plenamente, livre de traumas e violências.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

CORDEL: A FORÇA DO PROFESSOR - BRÁULIO BESSA - COM GABARITO

 CORDEL: A Força do Professor 

                 Bráulio Bessa

 

Um guerreiro sem espada

sem faca, foice ou facão

armado só de amor

segurando um giz na mão

o livro é seu escudo

que lhe protege de tudo

que possa lhe causar dor

por isso eu tenho dito

Tenho fé e acredito

na força do professor.

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEika8LuMRRhkrOykf4ppiabuKHurdwZ-SA3WdmLOEgbwR8ZCY6S3wK6vaDFWDzF_hH7UQBrkO1Pjyn9KnDCf6gN56wAujc-yIR1oNrQECH5j9u4rIx3mlHWKOd9i8DjwawQ53NIlgERPZ1bnnSfCSpnlWTeqaXUnJT_Fpw9VLqJMq8nMyRPfCZ_0go66Uc/s320/PROFESSOR.jpg

Ah... se um dia governantes

prestassem mais atenção

nos verdadeiros heróis 

que constroem a nação

ah... se fizessem justiça 

sem corpo mole ou preguiça

lhe dando o real valor 

eu daria um grande grito

Tenho fé e acredito

na força do professor.

 

Porém não sinta vergonha

não se sinta derrotado

se o nosso país vai mal

você não é o culpado

Nas potências mundiais

são sempre heróis nacionais

e por aqui sem valor

mesmo triste e muito aflito

Tenho fé e acredito

na força do professor.

 

Um arquiteto de sonhos

Engenheiro do futuro 

Um motorista da vida

dirigindo no escuro

Um plantador de esperança

plantando em cada criança 

um adulto sonhador

e esse cordel foi escrito

por que ainda acredito

na força do professor.

 FONTE:https://www.recantodasletras.com.br

 

Entendendo o texto

 

01.  No poema, o professor é chamado de 'guerreiro sem espada' e 'verdadeiro herói'. Qual figura de linguagem predomina nessas caracterizações para exaltar a importância do docente?

          a. Eufemismo

          b. Personificação

          c. Metáfora

          d. Hipérbole

02. Sobre a postura do eu lírico em relação aos professores, é correto afirmar que ele demonstra:

        a.  Admiração e solidariedade perante as dificuldades da profissão.

        b. Indiferença diante dos problemas educacionais do país.

        c. Pessimismo total quanto ao futuro da educação brasileira.

        d. Arrogância ao exigir que os professores façam mais pela nação.

 

03.O poema apresenta uma crítica social direcionada principalmente a qual setor?

       a. Aos próprios professores por sentirem vergonha da profissão.

       b. Às potências mundiais que roubam os heróis nacionais brasileiros.

       c. Aos governantes pela falta de valorização e atenção à classe docente.

       d. Às crianças que não desejam se tornar adultos sonhadores.

 04. Na última estrofe, o professor é chamado de 'motorista da vida / dirigindo no escuro'. O que essa expressão sugere sobre os desafios da profissão?

      a. O perigo físico que as estradas brasileiras oferecem aos educadores.

      b. A necessidade de os professores trabalharem no turno da noite.

     c. A facilidade de guiar alunos que já sabem o que querem.

     d. O ato de guiar vidas mesmo diante de incertezas e falta de recursos.

         05. O poema utiliza uma série de metáforas no campo semântico da "guerra" e da "construção" para definir a figura do professor. Analise como essas figuras de linguagem contribuem para a construção do sentido do texto e qual é a principal arma utilizada por esse "guerreiro", segundo o eu lírico.

        O eu lírico utiliza metáforas de guerra (como "guerreiro", "escudo", "armado") para enfatizar que o ensino, no contexto brasileiro, é uma forma de luta e resistência. Ao mesmo tempo, usa termos da construção civil ("arquiteto", "engenheiro") para mostrar que o professor é a base estrutural da sociedade. A principal "arma" mencionada não é um objeto de violência (faca ou facão), mas sim o amor, o giz e o livro, simbolizando que o conhecimento e o afeto são os instrumentos de transformação social do educador.

 

       06. Na terceira estrofe, o autor estabelece uma comparação entre o Brasil e as "potências mundiais". Explique qual é a crítica social presente nesse trecho e de que maneira o eu lírico tenta consolar o professor diante da realidade educacional do país.

        A crítica social reside na desvalorização do profissional da educação no Brasil em contraste com outros países desenvolvidos, onde os professores são tratados como "heróis nacionais". O eu lírico consola o professor ao afirmar que ele não deve sentir vergonha nem se sentir culpado pelo fracasso do país ("se o nosso país vai mal / você não é o culpado"), transferindo a responsabilidade da crise educacional para a falta de atenção e justiça por parte dos governantes, mencionada anteriormente no texto.

sábado, 21 de março de 2026

CORDEL: CAUSOS E PERSONAGENS DO INTERIOR - ABDIAS CAMPOS - COM GABARITO

 CAUSOS E PERSONAGENS DO INTERIOR (Poema de Cordel)

                      Autor: Abdias Campos


Foi numa briga em família
Por causa de uma partilha
De terra á beira de um rio
Que Afrísio, o maioral
Foi parar no tribunal
E em volta do corrupio

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnqgeAaYfiUdaPUPu7o58vwZuhhMbv6UBstEtY48vDsbr-2r0faADrkyCXfV_0Wa2GGeXmHLRtX8VUlqUkGrd_3ZXWuaRXwzO6qhf0HdS7mSm7VZd89bJ3b5OInsGklwGPBdwtq4LJqtzerwQ9zp-jr6doEvYsbgvTXGEOHxNMdZeTbwjFkmGDySylKBE/s1600/JUIZ.jpg



O juiz se atrapalhou
E disse: você botou
No rio seu próprio teto?
E ele lhe respostou
Eu vou dizer ao senhor:
Pergunta de analfabeto

“Eu lhe meto na cadeia
Sujeito cabra da peia
Você está sob escolta”
E de cabeça erguida
Com uma voz espremida
Disse pro juiz: Mas solta

Tem um outro no Sertão
Que mesmo com precisão
Não dá o braço a torcer
Gosta é de contar vantagem
Modificando a imagem
Do que aparenta ter

Outro dia em sua casa
Com o fogo ainda em brasa
Após ter feito o almoço
Chegaram de supetão
Três amigos no oitão
E foi aquele alvoroço

Mandou os cabra apear
E pela cozinha entrar
Se sentar e se servir
Foi comida a vontade
Mesmo assim pela metade
Ele começou pedir:
Maria traz mais feijão!
De lá de dentro: “tem não!
Uma carninha? Acabou!
Um arrozinho? Não tem
Suspirou e disse: amém
Eu comi feito um doutor!

São histórias de valor
Desse almanaque folclórico
Dia a dia de um povo

Que deixa o legado histórico

A natureza matuta.

 

De um jeito categórico.

Chico de Dedez, eufórico

Recém-casado, pegou

Uma toalha limpinha

Tomou banho, se enxugou

Ao invés de estendê-la

Num canto qualquer jogou.

 

A esposa perguntou

Com aquele jeitinho manso

Por que num botou no sol?

Ele disse: Não alcanço!

Perguntas e respostas ditas

Sem existência de ranço.

 

Entendendo o texto

01. No início do poema, por qual motivo o personagem Afrísio foi parar no tribunal?

a. Por causa de uma briga em família devido à divisão (partilha) de terras.

b. Porque ele foi acusado de roubar um "berço pequenino".

c. Por ter desobedecido às ordens do juiz durante uma pescaria no rio.

d. Por não querer pagar os impostos do seu teto à beira do rio.

02. Na interação entre Afrísio e o Juiz, o personagem demonstra qual traço de personalidade?

a. Submissão, pois ele pede desculpas ao juiz imediatamente.

b. Ironia e altivez, pois ele responde com audácia ao juiz, chegando a chamá-lo de "analfabeto".

c. Medo, pois ele começa a chorar ao ouvir que será preso.

d. Silêncio, pois ele se recusa a responder qualquer pergunta no tribunal.

03. O segundo causo narra a história de um sertanejo que "gosta é de contar vantagem". O que aconteceu quando três amigos chegaram de surpresa para o almoço?

a. Ele expulsou os amigos por não ter comida suficiente na cozinha. b. Ele fingiu que ainda havia muita comida (pedindo feijão e carne), mesmo sabendo que os alimentos já tinham acabado.

c. Ele dividiu o pouco que tinha e confessou que estava passando necessidade.

d. Ele saiu para caçar um veado na quaresma para servir aos convidados.

04. No trecho "Maria traz mais feijão! / De lá de dentro: 'tem não!'", o que a resposta da esposa revela sobre a situação real da casa?

a. Que Maria estava com preguiça de servir os convidados no oitão. b. Que, apesar das aparências e da "vantagem" contada pelo marido, a comida era escassa e já havia terminado.

c.  Que Maria não gostava dos amigos que chegaram de supetão. d. Que o fogão de brasa havia apagado antes de cozinhar o feijão.

05. No terceiro causo, o personagem Chico de Dedez dá uma resposta inusitada à esposa sobre a toalha de banho. O que ele quis dizer com "Não alcanço!"?

a. Que ele era muito baixo e não conseguia atingir o varal de roupas.

b. Foi uma resposta literal (e possivelmente irônica ou preguiçosa) para justificar por que não colocou a toalha no sol.

c. Que o sol estava muito longe no céu e, por isso, ele não conseguia chegar até ele.

d. Que ele não tinha braços compridos o suficiente para estender a toalha.

06. O autor afirma que essas histórias fazem parte de um "almanaque folclórico". Qual é o principal objetivo desse tipo de literatura de cordel?

a. Ensinar leis jurídicas complexas para o povo do sertão.

b. Preservar e celebrar o legado histórico, a natureza matuta e o jeito de ser do povo do interior.

c. Convencer as pessoas a não se casarem, como aconteceu com Chico de Dedez.

d. Criticar o uso de toalhas limpas em regiões onde o sol é muito forte.

07. Uma característica marcante da linguagem deste poema, típica do Cordel, é:

a. O uso de termos científicos e palavras em outras línguas.

b. A presença de rimas e expressões da fala popular regional (como "apear", "oitão", "cabra da peia").

c. A ausência total de diálogos entre os personagens.

d. Uma estrutura em prosa, sem divisão de estrofes ou versos.