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domingo, 29 de maio de 2022

CONTO: HERÓI - DOMINGOS PELLEGRINI - COM GABARITO

 Conto: Herói

           Domingos Pellegrini

        Meio século depois que, aos nove anos, meu avô João me levou à primeira pescaria, levo meu neto Caetano de quatro anos. Fui de trem, ele vai de cadeirinha, no banco traseiro do carro. Fui a um rio, ele vai a um pesque-pague. Pesquei com o vô num barranco, agora pescamos sentados em banco à beira da lagoa.

        Fiz em casa a massa para a isca, batendo no liquidificador ração de gato, colorau e farinha de trigo, depois sovando com ovo e missô, fica uma massa vermelha e cheirosa, muito mais atraente para os peixes do que a massa escura do pesqueiro. Logo pego a primeira tilápia, para mostrar a Caetano como se faz.

        Boto a tilápia no samburá, boto nova isca no anzol, boto a vara nas mãos dele. Ele olha a boia, enquanto digo que deve puxar a vara só quando ela afundar ou correr. A boia tremelica, ele puxa, nada pega, repito as instruções. Ele olha a boia, ela trisca, tremelica, sacode e afunda, ele ainda olhando fascinado. Grito para puxar a vara, ele puxa, e então me revejo no momento inesquecível, o peixe dá vida puxando para lá, o menino puxando para cá, a vara curvando e vibrando com o menino.

        Digo para ele cansar a tilápia, mas que, ele puxa até ela bater na beirada, então pego a linha e tiro o bicho da água. Agachamos olhando o peixe espantado na grama, enquanto o menino se espanta do próprio poderio, até levantar gritando:

        — Peguei, vô, peguei!

        Vou ensinando a botar isca e lançar a vara, coisas que ele faz mais ou menos, como também não atina com a hora certa de fisgar, mas puxar a vara, ah, puxa que só. Quando tiramos o terceiro peixe, uma mulher fala que ele é um grande pescador, e ele me olha orgulhoso. Depois da quarta tilápia, vamos ao bar para ele pegar suco de morango, e pergunto se quer fazer xixi, diz que não, quer pescar.

        Voltamos à lagoa, e, mais quatro tilápias depois, pergunto se quer fazer xixi, ele diz que não, quer mais suco de morango. Dou a ficha, ele vai sozinho ao bar, volta homenzinho com o suco. Uma menina vem admirar quando ele puxa mais uma tilápia, e depois vou ver as varas de espera que deixei numa lagoa maior. Quando volto, cadê ele?

        Vou gritando seu nome, olhando a beirada das lagoas, a água, meu Deus, a água. Vou ao bar, grito Caetano, ele responde lá do sanitário: tô aqui, vô! Volto a lagoa, e logo ele vem, as calças molhadas de xixi:

        — Não deu tempo, vô.

        Vamos ao carro trocar sua roupa, a menina olhando de longe, ele se envergonha, diz que não quer mais pescar. Digo que então deve voltar à lagoa, sim, para dar de presente à menina nossa massa tão pescadeira. Ele diz que não, emburrado. Digo que ele deve, porque é assim que fazem os heróis.

        — Todo herói tem sua fraqueza. O Super-Homem enfraquece perto dum a pedra verde chamada kriptonita. Sansão ficava fraco quando cortava o cabelo. O Homem-Aranha às vezes escorrega. Todo herói tem sua fraqueza.

        Ele pensa, pega a bola de massa, vai dar à menina. Vamos ver as varas de espera, e lá está um pacu, que ele ajuda puxar rodando o molinete, todo feliz. Digo que é seu primeiro peixe grande, que está virando um grande pescador, e ele passa a caminhar com passos maiores.

        Passando pela lagoa menor, a mãe da menina grita agradecendo, já pescaram três tilápias com nossa massa. A menina vem correndo e lhe dá uma bala, uma simples bala que ele vai levando no carro como se fosse uma medalha. Dorme. Em casa, deixo que continue dormindo no carro enquanto guardo as varas e os peixes. Depois cutuco para acordar, ele olha a bala na mão, vai correndo contar:

        — Peguei oito peixes, vó! E ganhei uma bala!

        Um herói.

                          Domingos Pellegrini. A caneta e o anzol: histórias de pescaria. São Paulo: Geração Editorial. 2012. p. 91-4.

       Fonte: Língua Portuguesa – Caminhar e transformar – Aos finais do ensino fundamental – 1ª edição – São Paulo – FTD, 2013. p. 88-92.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

·        Molinete: carretilha com manivela, fixada no cabo de uma vara de pescar.

·        Samburá: cesto de bojo largo e boca estreita, usado pelos pescadores para guardar peixes e outros apetrechos.

·        Triscar: mexer-se, mover-se.

02 – Conte, de maneira breve, os fatos narrados no conto.

      O avô e o neto vão a um pesque-pague para a primeira pescaria do neto. O neto se recusa a ir fazer xixi. Depois de pescar tilápias e beber dois sucos de morango, o neto faz xixi nas calças e fica muito envergonhado. O avô o incentiva a enfrentar sua vergonha e entregar a massa pescadeira para uma garota que também estava pescando. O menino pega um pacu, ganha uma bala da menina e volta feliz e mais maduro para casa.

03 – Quem participa desse conto?

      O avô, o neto, a menina e sua mãe.

04 – Em que lugar se passa o conto?

      A história narrada no conto se passa no pesque-pague.

05 – O tempo em que se passa esse conto é delimitado?

      Sim. O conto durou algumas horas.

06 – Aquele que conta a história é chamado de narrador. Há narrador nesse conto? Comprove sua resposta com um trecho do texto.

     Logo no início do texto notamos a presença do narrador, como pode ser visto em: “Meio século depois que, aos nove anos, meu avô João me levou à primeira pescaria, levo meu neto Caetano de quatro anos”.

07 – Leia.

        O narrador-observador, ou narrador em 3ª pessoa, se posiciona fora dos fatos narrados.

        O narrador-personagem, ou narrador em 1ª pessoa, é aquele que participa diretamente da história como qualquer personagem.

Que tipo de narrador foi escolhido pelo autor do conto “Herói”?

      O narrador em 1ª pessoa – narrador-personagem.

08 – Nesse conto são usados o discurso direto e o discurso indireto. Escreva DD para discurso direto e DI para discurso indireto.

(DD) “— Peguei oito peixes, vó! E ganhei uma bala!”

(DI) “[...] pergunto se quer fazer xixi, ele diz que não, quer mais suco de morango”.

(DD) “— Não deu tempo, vô.”

(DI) “[...] um mulher fala que ele é um grande pescador [...]”.

09 – Leia.

        São elementos de uma narrativa: o enredo, o narrador, os personagens, o espaço e o tempo.

Encontre no conto estas informações sobre o enredo.

a)   Em que parágrafo localizamos a apresentação dos personagens e das primeiras ações do enredo?

No primeiro parágrafo.

b)   Qual é o momento de maior tensão da narrativa?

O momento em que o avô não sabe onde o neto está. O menino faz xixi nas calças e não quer mais pescar, porque supõe que uma menina viu o incidente.

c)   Como o conflito é resolvido nesse conto?

O avô conversa com o neto e o convence a enfrentar sua vergonha: levar a massa para a menina e pegar o último peixe.

10 – Releia este trecho.

        [...] Quando volto, cadê ele?

        Vou gritando seu nome, olhando a beirada das lagoas. A água, meu Deus, a água [...]. O que o avô imaginou que poderia ter acontecido ao neto?

      Ele pensou que o neto caíra em uma das lagoas e que poderia ter se afogado.

11 – No início do conto, o que o avô queria ensinar ao neto?

      O avô queria ensinar o neto a pescar.

12 – Ao final do conto, o avô ensinou mais do que pretendia no início. O que o neto aprendeu com o avô na pescaria?

      O neto aprendeu a enfrentar um problema e não só a pescar.

13 – Discuta com seus colegas e professor. Por que o conto recebeu o título de “Herói”?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: A fraqueza do menino foi ter feito xixi nas calças. E tal qual um herói de quadrinhos, ele enfrentou sua fraqueza e foi até a menina.

 

domingo, 10 de outubro de 2021

CRÔNICA: SOPA DE MACARRÃO - DOMINGOS PELLEGRINI - COM GABARITO

 CRÔNICA: SOPA DE MACARRÃO

                   Domingos Pellegrini

 O filho olha emburrado o prato vazio, o pai pergunta se não está com fome.

 — Com fome eu tô, não tô é com vontade de comer comida de velho.

 Lá da cozinha a mãe diz que decretou ― De-cre-tei! — que ou ele come legumes e verduras, ou vai passar fome.

 — Não quero filho meu engordando agora para ter problemas de saúde depois. Só quer batata frita e carne, carne e batata frita!

 Ela vem com a travessa de bifes, o pai tira um, ela senta e tira o outro, o filho continua com o prato vazio.

 — Nos Estados Unidos — continua ela — um jornalista passou um mês comendo só fastfood, engordou mais de seis quilos!

 — E como é que ele aguentou um mês só comendo isso?! — perguntou o pai, o filho responde:

 — Porque é gostoso! — E pega com nojo uma folhinha de alface, põe no prato e fica olhando como se fosse um bicho.

 A mãe diz que é preciso ao menos experimentar para saber o que é ou não gostoso, e o pai diz que, quando era da idade dele, comia cenoura crua, pepino, manga verde com sal, comia até milho verde cru.

— E devorava o cozido de legumes da sua avó! E essa alface? Pra comer, é preciso botar na boca...

 O filho enfia a alface na boca, mastiga fazendo careta, pega um bife, a mãe pula na cadeira, pega o bife de volta:

 — Não-senhor! Só com salada pra valer, arroz, feijão, tudo!

 — Ele continua olhando o prato vazio, até que resmunga:

 — Se vocês sempre comeram tão bem, como é que acabaram barrigudos assim?

 O pai diz que isso é da idade, o importante é ter saúde.

 — E você, se continuar comendo só fritura, carne, doce e refrigerante, na nossa idade vai pesar mais de cem quilos!

 — No Japão — resmunga ele — podia ser lutador de sumo e ganhar uma nota.

 — E no Natal — cantarola a mãe — vai ser Papai Noel né? E Rei Momo no carnaval...

 — Não tripudie — diz o pai. — Ele ainda vai comer de tudo. Quando eu era menino, detestava sopa. Aí um dia minha mãe fez sopa com macarrão de letrinhas, passei a gostar de sopa!

O filho pergunta o que é macarrão de letrinhas, o pai explica. Ele põe na boca uma rodela de tomate, o pai e a mãe trocam um vitorioso olhar. O pai faz uma voz doce:

— Está descobrindo que salada é gostoso, não está?

— Não, peguei tomate para tirar da boca o gosto nojento de alface, mas acabo de descobrir que tomate também é nojento.

— Mas catchup você come não é? Pois é feito de tomate!

— E ele também não come ovo — emenda a mãe — mas come maionese, que é feita de ovo!

O filho continua olhando o prato vazio.

— Coma ao menos feijão com arroz — diz o pai.

Ele pega uma colher de feijão, outra de arroz dizendo que viu um filme onde num campo de concentração só comiam assim pouquinho, só o suficiente pra sobreviver... Mastiga tristemente, até que o pai lhe bota o bife no prato de novo, mas a mãe retira novamente:

— Ou salada ou nada! Sem chantagem sentimental!

O pai come dolorosamente, a mãe come furiosamente, o filho olha o prato tristemente.

Depois a mãe retira a comida, ele continua olhando a mesa vazia. Na cozinha, o pai sussura para ela:

— Mas ele comeu duas folhas de alface, não pode comer dois pedaços de bife?!...

Ela diz que de jeito nenhum, desta vez é pra valer; então o pai vai ler o jornal, mas de passagem pelo filho, pergunta se ele não quer um sanduíche de bife — com salada, claro. Não, diz o filho, só quer saber de uma coisa da tal sopa de letras. O pai se anima:

— Pergunte, pergunte!

— Você podia escrever o que quisesse com as letras no prato?

— Claro! Por que, o que você quer escrever?

— Hambúrguer, maionese e catchup

 É teimoso que nem o pai, diz a mãe. Teimoso é quem teima comigo, diz o pai. O filho vai para o quarto, só sai na hora da janta: sopa de macarrão. Então, vai escrevendo, e engolindo as palavras: escravidão, carrascos, nojo, e enfim escreve amor, o pai e mãe lacrimejam, mas ele explica:

— Ainda não acabei, tá faltando letra pra escrever: amo rosbife com batata frita...

 Domingos Pellegrini – Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: (Salamandra, 2005. P.210-3.)

http://comunicaoeexpresso.blogspot.com/2017/

Entendendo o texto

01. O enredo do texto se dá quando

      a. o filho diz que tá com fome, não tá é com vontade de comer comida de velho.

       b. a mãe diz que decretou – está decretado – ou ele come legumes e verduras, ou vai passar fome.

       c. a mãe afirma que não quer o filho dela engordando para ter problemas de saúde depois.

       d. o filho só quer saber, agora, da tal sopa de letras.

 

02. No trecho “A mãe diz que é preciso ao menos experimentar para saber o que é ou não gostoso, e o pai diz que, quando era da idade dele, comia cenoura crua, pepino, manga verde com sal, comia até milho verde cru.” A oração em destaque dá ideia de

a. adição. 

b. conformidade.

c. tempo.       

d. proporcional.

 

03. Marque o vocábulo que NÃO apresenta registro de informalidade.

     a.  “... não tô é com vontade de comer comida de velho.”

     b. “Não-senhor! Só com salada pra valer, arroz, feijão, tudo!”

     c. “Ainda não acabei, tá faltando letra pra escrever...”

     d. “... o filho olha o prato tristemente.”

04. No trecho “Está descobrindo que salada é gostoso, não está?”, de qual personagem é esta fala?

     a. pai.  

     b. filho.

     c. mãe.                                                     

     d. narrador.

 

05. Marque a opção que representa uma opinião.

      a. “É teimoso que nem o pai...”

      b. “O filho olha emburrado o prato vazio...”

      c.“... O filho vai para o quarto, ...”
      d. “O filho pergunta o que é macarrão de letrinhas, ...”

 

06. De acordo com a leitura do texto, o autor deixa a entender claramente

   a. que existe uma família à mesa, na hora do almoço.

   b.  que a mãe não se preocupa com a saúde do filho.

   c.  que o filho por si só, desperta interesse pela sopa de letrinhas.

   d. que o pai permite que o filho coma fritura, carne, doce e refrigerante.

 

07. Há traço de ironia em

      a.    “... a mãe pula na cadeira, pega o bife de volta.”

      b.  “E no Natal [...] vai ser Papai Noel, né? E rei Momo no carnaval...”

      c. “... um jornalista passou um mês comendo só fastfood, engordou mais de seis quilos!”

     d. “Lá da cozinha a mãe diz que decretou – de-cre-tei!...”  

 

08. No trecho “... não tô é com vontade de comer comida de velho”, o sentido da expressão em destaque é

    a.  sopa de macarrão.    

    b.  legumes e verduras.

    c.  feijão e arroz.         

    d. frituras e carnes.

 

09. O texto trata, principalmente
      a.  da alimentação balanceada.            

      b.  do uso das guloseimas.                    

      c. da escolha do que comer.

      d. dos hábitos alimentares do pai.

10.  A finalidade do texto é

      a. Informar.   

      b. Relatar.      

     c.  Entreter.     

     d.  Persuadir.

 

 

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

CONTO: O HERÓI - (FRAGMENTO) - DOMINGOS PELLEGRINI - COM GABARITO

Conto: O Herói – (Fragmento)

     O pai e a mãe enfezaram – Come, moleque! – depois amansaram – Come, filho, come. E ele não comeu nada. Depois a mãe e o pai começaram discussão sobre a melhor maneira de estragar uma criança, o pai dizendo que ela mimava demais, ela dizendo que o pai é que era mimado pela vó, e no fim das contas empurraram de novo o prato pra ele -  Come! [...]

Domingos Pellegrini. Contos brasileiros 3.18. ed. São Paulo: Ática, 2010. p. 88.
Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 8º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.194.
ENTENDENDO O CONTO
1)   O que os pais esperam que o filho faça?
Esperam que ele coma.

2)   De que modo eles tentam convencê-lo?
Primeiro eles brigam com o menino, depois falam com carinho, por fim empurram de novo o prato para ele.

3)   Que palavras os pais usam para se dirigirem ao filho?
Moleque, filho.

4)   No contexto em que são usadas, essas palavras expressam os sentimentos dos pais. Que sentimentos são esses?
A palavra moleque expressa irritação dos pais com a criança; a palavra filho mostra carinho por ela.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

CRÔNICA: A CONSULTA - DOMINGOS PELLEGRINI - COM GABARITO

           CRÔNICA: A CONSULTA 
                                 Domingos Pellegrini


  Doutor: Bom dia. (Examina rapidamente a ficha de Coitado, que uma      secretária trouxe) Coitado de Tal – confere, seu Coitado?
        Coitado: Sou eu mesmo, doutor.
        Doutor: Quarenta e dois anos, casado, rua 1º de Maio – confere?
        Coitado: Confere, doutor, sou eu mesmo.
        Doutor: Porque tem muito Coitado de Tal no fichário, pode confundir.
        Coitado: Mas por falar em coitado, doutor, eu vim aqui porque…
      Doutor: O senhor pode ficar à vontade. (Faz Coitado sentar ao lado de uma máquina registradora) Muito bem, vamos com isso – o que é que o senhor sente, seu Coitado?
      Coitado: Bom, doutor, eu sinto que estou morrendo.
     Doutor: (Vai anotando na ficha) Muito bem, então o senhor sente que está morrendo. Todo dia, seu Coitado?
        Coitado: Todo dia, doutor. Tem dia que eu acho até que já morri, de tanta dor e fraqueza.
        Doutor: (Anotando) Acha que já morreu, muito bem. O senhor precisa ver um médico da cabeça, seu Coitado, um psiquiatra. Vou dar o endereço de um para o senhor. (Aciona a manivela da caixa registradora, tira um cartão da gaveta) O senhor entregue a ele este cartão, diga que fui eu quem mandei.
        Coitado: Muito obrigado, doutor – mas o senhor acha que o caso é na cabeça?
        Doutor: Não se incomode, seu Coitado, que o senhor já morreu. Mas me diga: e a urina?
        Coitado: Pois é, doutor, a urina…
        Doutor: Era o que eu pensava – vou indicar pro senhor um especialista em urina, um urologista. (Retira mais um cartão da registradora, entrega a Coitado) E as tonturas, seu Coitado?
        Coitado: Que tontura, doutor?
        Doutor: O senhor não disse que sente umas tonturas?
        Coitado: Deve ter sido outro coitado, eu não, doutor.
        Doutor: O senhor não deve esconder nada do médico, eu estou aqui para ajudar o senhor.
        Coitado: Pois é, doutor, mas…
    Doutor: Se o senhor me sonega alguma informação eu não posso estruturar o quadro clínico simplesmente porque foi solapada a anamnese, e o levantamento sindromático é base do quadro clínico. Toda a moderna medicina está pautada no relacionamento médico-paciente, entre os quais a confiança é fundamental.
        Coitado: O senhor tem razão, doutor, eu… eu não sabia que estava tão ruim.
        Doutor: Então só me responda sim ou não, por favor.
        Coitado: Tá certo, doutor, mas é que com tanta pergunta eu fico até meio tonto…
        Doutor: Ah! Que tipo de tontura, seu Coitado?
        Coitado: O senhor quem sabe, ué, doutor.
        Doutor: Não, não sei, seu Coitado, isto requer um especialista – vou indicar para o senhor um ótimo neurologista. (Retira um cartão da registradora, entrega a Coitado) E o apetite vai bem?
        Coitado: O meu, doutor? Nem me fale…
      Doutor: Não vou falar nada mesmo, seu Coitado, quem vai falar é um especialista – vou indicar um ótimo apetitista para o senhor. (Outro cartão)
        Coitado: Muito obrigado, doutor, mas o que eu sinto mesmo…
   Doutor: Com um bom tratamento o senhor não vai sentir mais nada. (Rapidamente levanta a camisa de Coitado e lhe ausculta as costas com o estetoscópio) Respire fundo. (Entra a enfermeira)
        Enfermeira: Telefone da clínica, doutor.
     Doutor: (Transfere o estetoscópio para o peito de Coitado) O senhor segura isto aqui no peito, assim, e vai respirando fundo. (O doutor sai. Coitado fica segurando o estetoscópio no peito e respirando fundo. Depois de algum tempo, o doutor volta, retira o estetoscópio)
        Doutor: Muito bem, seu Coitado. (Anota na ficha) Abra a boca e os olhos bem abertos. (Examina boca e olhos ao mesmo tempo) Deita. (Faz Coitado deitar rapidamente, lhe enfia o termômetro na boca, enquanto lhe apalpa a barriga e lhe dá pancadinhas com os dedos e marteladas nos joelhos) Sente alguma coisa, seu Coitado? Dói aqui? O que é que o senhor sente quando aperto aqui? E me diga uma coisa: o senhor bebe muito?
        Coitado: Eu…
        Doutor: Então o senhor controla a bebida, seu Coitado, controla para seu próprio bem. Pode levantar.
        Enfermeira: (Entrando rapidamente de novo) Estão chamando da clínica, doutor.
        Doutor: Vou receitar uns medicamentos (vai escrevendo a receita), mas o senhor não deve deixar de seguir as outras orientações.
        Coitado: Mas, doutor, eu queria saber…
       Doutor: O senhor não se incomode que isso vai passar, na vida tudo passa. O senhor volte aqui me trazendo um relatório de cada um dos especialistas que indiquei, e mais resultados de raio-x e dos outros exames que eles pedirem, de sangue, de urina, de fezes, eletroencefalograma, etc.
        Coitado: Mas até lá eu posso estar morto, doutor…!
        Doutor: O senhor já morreu demais, seu Coitado.

                                                                            Domingos Pellegrini.

     Entendendo o texto:
     Após a leitura do texto teatral, responda a estas questões:
    01 – Que diferença há entre doutor e médico?
      Doutor – aquele que se formou numa universidade e recebeu a mais alta graduação após haver defendido uma tese (doutorado).
      Médico – aquele que estudou qualquer área da medicina e a exerce.

  02 – Nas frases abaixo foi usada a palavra “simpatia” com significados    diferentes. Dê o significado da palavra usada em cada frase.
a)   simpatia dessa mulher me faz esquecer que ela é muito feia.
Atitude amável no trato com as pessoas, tendência instintiva de aceitação entre as pessoas.

b)   Tomara que dê certo a simpatia que ela ensinou.
Ritual para prevenir ou curar enfermidades ou atrair objeto de desejo.

  03 – No texto teatral, há dois instrumentos médicos: estetoscópio e termômetro. Para serve cada um deles?
      Estetoscópio – serve para ampliar e ouvir sons internos do corpo humano como batidas do coração e a entrada e saída do ar nos pulmões.
      Termômetro – serve para medir a temperatura interno do corpo humano.

 04 – O paciente não entendeu a fala do médico e supôs que, pelo palavreado, estivesse muito mal. Como você daria essa mesma explicação de modo que o paciente entendesse?
      Resposta pessoal. A resposta mais óbvia é que se empregaria linguagem menos técnica e mais acessível à compreensão do paciente.

  05 – A medicina atual é altamente especializada e, por isso, muita gente se  atrapalha na escolha de médico. Complete as lacunas com a palavra correta  da especialidade médica a que se refere a frase:
   a) Eu tive uns problemas de urina e fui a um Urologista.
  b) Minha prima teve umas complicações próprias de mulher e procurou um   ginecologista.
  c) Meu sobrinho teve uns problemas nos pulmões e consultou um pneumologista.
  d) Eu estou com uns problemas de vista. Vou ao oftalmologista.
  e) Estou com meu coração batendo muito depressa e sempre me dá falta de  ar. Que você aconselha? Vá a um cardiologista.
 f) Estou com problemas de falta de dinheiro. O que eu faço? Ora, vá… (trabalhar!)

  06 – Podemos afirmar que o paciente procurou o médico tão logo percebeu sintomas de doença? Explique.
      Não. Porque o seu Coitado afirmou que sentia que estava morrendo e todo dia sentia dor e fraqueza, sinal que esses sintomas já aconteciam a algum tempo.

07 – Dando ao paciente o nome de Coitado de Tal, o autor pretendeu:
      a. (   ) demonstrar que as tentativas de cura fora da medicina maltratam as pessoas.
      b. (X) fazê-lo representar qualquer pessoa, sem lhe atribuir individualidade.
      c. (  ) evitar que o nome coincidisse com o de qualquer outra pessoa e a melindrasse.
      d. (   ) deixar claro que todos os doentes são iguais e merecem tratamentos iguais.

08– Que especialistas o médico indicou ao paciente?
      Um psiquiatra, um urologista, um neurologista, um apetitista.

09 – O Coitado de Tal disse: “eu não sabia que estava tão ruim”. O que o fez pensar assim?
      A linguagem muito técnica usada pelo médico, a qual o paciente não entendia. A explicação muito longa e confusa levou o paciente a achar que estava muito doente.

  10 – A enfermeira interrompeu a consulta duas vezes para anunciar chamado da clínica. O modo de agir do médico nas duas ocasiões insinua que ele:
a. (X) resolvia os casos de sua clínica por telefone, em horário de atendimento aos pacientes.
b. (   ) dava prioridade a quem o procurava pessoalmente.
c. (   ) considerava inoportunos os telefonemas da clínica.
d. (   ) se preocupava muito mais com sua clínica particular.

  11 – A caixa registradora é um elemento estranho a um consultório médico. Por que o autor a incluiu no cenário?
      Para indicar que a prioridade do médico era financeira e não a saúde dos pacientes.

  12 – Na sua opinião, a medicina é um comércio ou apenas há médicos que fazem da medicina um comércio? Explique.
      Resposta pessoal. Qualquer que seja a resposta, deverá apresentar argumentos plausíveis à afirmação, isto é, situações que comprovam a afirmação.