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quarta-feira, 24 de abril de 2019

ARTIGO DE OPINIÃO: VIOLÊNCIA EPIDÊMICA - DRÁUZIO VARELLA - COM QUESTÕES GABARITADAS

ARTIGO DE OPINIÃO: Violência epidêmica
                            
              Dráuzio Varella

        A violência urbana é uma enfermidade contagiosa. Embora possa acometer indivíduos vulneráveis em todas as classes sociais, é nos bairros pobres que ela adquire características epidêmicas.
        A prevalência varia de um país para outro e entre as cidades de um mesmo país, mas, como regra, começa nos grandes centros urbanos e se dissemina pelo interior. A incidência nem sempre é crescente; mudança de fatores ambientais e medidas mais eficazes de repressão, por exemplo, podem interferir em sua escalada.
        As estratégias que as sociedades adotam para combater a violência flutuam ao sabor das emoções, raramente o conhecimento científico sobre o tema é levado em consideração. Como reflexo, a prevenção das causas e o tratamento das pessoas violentas evoluíram muito pouco no decorrer do século XX, ao contrário dos avanços ocorridos no campo das infecções, câncer, diabetes e outras enfermidades.
        A agressividade impulsiva é consequência de perturbações nos mecanismos biológicos de controle emocional. Tendências agressivas surgem em indivíduos com dificuldades adaptativas que os tornam despreparados para lidar com as frustrações de seus desejos.
        A violência urbana é uma doença com múltiplos fatores de risco, dos quais os mais relevantes são a pobreza e a vulnerabilidade biológica.
        Os mais vulneráveis são os que tiveram a personalidade formada num ambiente desfavorável ao desenvolvimento psicológico pleno. A revisão dos estudos científicos já publicados permite identificar três fatores principais na formação das personalidades com maior inclinação ao comportamento violento:
1) crianças que apanharam, foram abusadas sexualmente, humilhadas ou desprezadas nos primeiros anos de vida;
2) adolescência vivida em famílias que não lhes transmitiram valores sociais altruísticos, formação moral e não lhes impuseram limites de disciplina;
3) associação com grupos de jovens portadores de comportamento antissocial.
        Na periferia das cidades brasileiras vivem milhões de crianças que se enquadram nessas três condições de risco. Associadas à falta de acesso aos recursos materiais, à desigualdade social, à corrupção policial e ao péssimo exemplo de impunidade dado pelos chamados criminosos de colarinho-branco, esses fatores de risco criam o caldo de cultura que alimenta a violência crescente nas cidades.
        Na falta de outra alternativa, damos à criminalidade a resposta do aprisionamento. Embora pareça haver consenso de que essa seja a medida ideal e de que lugar de bandido é na cadeia, não se pode esquecer de que o custo social de tal solução está longe de ser desprezível. Além disso, seu efeito é passageiro: o criminoso fica impedido de delinquir apenas enquanto estiver preso. Ao sair, estará mais pobre, terá rompido laços familiares e sociais e dificilmente encontrará quem lhe dê emprego. Ao mesmo tempo, na prisão, terá criado novas amizades e conexões mais sólidas com o mundo do crime.
        Construir cadeias custa caro; administrá-las, mais ainda. Para agravar, obrigados a optar por uma repressão policial mais ativa, aumentaremos o número de prisioneiros a ponto de não conseguirmos edificar prisões na velocidade necessária para albergá-los. As cadeias continuarão superlotadas, e o poder dentro delas, nas mãos dos criminosos organizados.
        Seria mais sensato investir o que gastamos com as cadeias em educação, para prevenir a criminalidade e tratar os que ingressaram nela. Mas, como reagir diante da ousadia sem limites dos que fizeram do crime sua profissão sem investir pesado no aparelho repressor e no aprisionamento, mesmo reconhecendo que essa é uma guerra perdida?
        Estamos nesse impasse!
        Na verdade, não existe solução mágica a curto prazo. Precisamos de uma divisão de renda menos brutal, motivar os policiais a executar sua função com dignidade, criar leis que acabem com a impunidade dos criminosos bem sucedidos e construir cadeias novas para substituir as velhas, mas isso não resolverá o problema enquanto a fábrica de ladrões colocar em circulação mais criminosos do que nossa capacidade de aprisioná-los.
        Só teremos tranquilidade nas ruas quando entendermos que ela depende do envolvimento de cada um de nós na educação das crianças nascidas na periferia do tecido social. O desenvolvimento físico e psicológico das crianças acontece por imitação. Sem nunca ter visto um adulto, ela andará literalmente de quatro pelo resto da vida. Se não estivermos por perto para dar atenção e exemplo de condutas mais dignificantes para esse batalhão de meninos e meninas soltos nas ruas pobres das cidades brasileiras, vai faltar dinheiro para levantar prisões.
        Enquanto não aprendemos a educar e oferecer medidas preventivas para que os pais evitem ter filhos que não serão capazes de criar, cabe a nós a responsabilidade de integrá-los na sociedade por meio da educação formal de bom nível, das práticas esportivas e da oportunidade de desenvolvimento artístico.
                                        VARELLA, Dráuzio. In. Folha de São Paulo, 9 março 2002.
Entendendo o texto:
01 – No texto “Violência epidêmica”, afirma-se que nos bairros pobres a violência urbana “adquire características epidêmicas”. Considerando o conceito de epidemia (doença infecciosa que ataca simultaneamente grande número de indivíduos), explique como o autor justifica essa afirmação.
      Pessoas vulneráveis (que sofreram abusos quando crianças, que não foram bem orientadas pela família, que tiveram contato com jovens de comportamento anti-social) encontram terreno fértil (desigualdade social, corrupção, impunidade, etc.) e acabam “se contaminando” com a violência urbana – epidemia que se alastra sobretudo na periferia das cidades brasileiras.

02 – Esse texto apresenta introdução, desenvolvimento e conclusão. Identifique tal divisão.
      Introdução: “A violência urbana é uma enfermidade contagiosa (...) diabetes e outras enfermidades (1° e 3° parágrafo).
      Desenvolvimento: “A agressividade impulsiva é consequência (...). Estamos nesse impasse!” (4° e 11° parágrafo).  
     Conclusão: “Na verdade, não existe solução mágica (...) desenvolvimento artístico” (12° e 14° parágrafo).

03 – A organização de um texto pode ser observada ao se extrair de cada parágrafo a ideia desenvolvida em cada um. O texto “Violência epidêmica” tem 14 parágrafos. Qual é a ideia principal de cada um?
      1° – A violência é uma enfermidade contagiosa, epidêmica.
      2° – Ela começa nos grandes centros e se dissemina no interior.
      3° – Nas estratégias para combate-la, o conhecimento científico não é considerado.
      4° – A agressividade impulsiva deve-se às perturbações nos mecanismos biológicos de controle emocional.
      5° – A violência urbana é uma doença com fatores de risco.
      6° – Há três causas principais na formação de personalidades com inclinação ao comportamento violento: crianças que apanham ou foram abusada sexualmente; convivência com família que não transmite valores sociais e formação moral adequados; associação com jovens de comportamento anti-social.
      7° – Na periferia das cidades brasileiras milhões de crianças se enquadram em condições de risco, agravadas por outros fatores, aumentando a violência nas cidades.
      8° – Consenso de que lugar de bandido é na cadeia tem alto custo social e efeito passageiro.
      9° – Além de cadeias custarem caro, optar por repressão policial mais ativa aumentará o número de prisioneiros.
      10° – O mais sensato é investir em educação.
      11° – Há um impasse.
      12° – Vários fatores foram apontados como solução; melhor divisão de renda, motivar policiais, criar leis, construir novas cadeias.
      13° – É preciso o envolvimento de todos na educação de crianças menos favorecidas.
      14° – Uma solução seria aprender a educar, oferecer medidas preventivas e integrar essas crianças à sociedade.

04 – Na introdução, é apresentada a tese, para inteirar o leitor do que será desenvolvido em seguida. Identifique essa tese.
      A violência urbana é uma enfermidade contagiosa.

05 – Segundo o texto, o conhecimento cientifico é pouco aplicado na prevenção das causas e no tratamento das pessoas violentas. Qual seria a utilidade desse conhecimentos?
      De acordo com o autor, a agressividade impulsiva é consequência de perturbações nos mecanismos biológicos de controle emocional, devendo, portanto, ser tratada cientificamente e não “flutuar ao sabor das emoções”.

06 – Enumeração é uma das características do texto dissertativo. Nesse texto o Varella, foi utilizada para apontar as causas pela formação de personalidades com maior inclinação ao comportamento violento. Escreva, com suas próprias palavras, quais são essas causas.
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: a) Crianças que apanharam, foram abusadas sexualmente, humilhadas ou desprezadas nos primeiros anos de vida. b) Adolescentes mal orientados pela família. c) Companhia de jovens com comportamento anti-social.

07 – No desenvolvimento, o autor seleciona aspectos que desenvolvem a tese de forma ordenada, evitando detalhes desnecessários e incoerência em relação ao que é afirmado no início. Quais são esses aspectos?
      Pobreza e vulnerabilidade biológica como fatores de risco da violência; enumeração de fatores responsáveis por personalidades com inclinação ao comportamento violento; condições que agravam esses fatores; aprisionamento como método ineficaz empregado para combater a violência.

08 – Procurando instigar o leitor a refletir, o argumentador de “Violência epidêmica” também recorre ao questionamento do senso comum. Cite o trecho em que ele utiliza esse recurso.
      “Embora pareça haver consenso de que essa seja a medida ideal e de lugar de bandido é na cadeia, não se pode esquecer (...)”

09 – O autor é favor da construção de cadeias novas em substituição às velhas. A partir dessa posição, ele defende o argumento de que “lugar de bandido é na cadeia”? Justifique sua resposta.
      Não. Segundo ele, o criminoso não se recupera nas cadeias, que são dispendiosas e insuficientes para o número crescente de marginais. Presos, eles convivem com elementos perniciosos que agravam sua agressividade e, quando saem das prisões, não têm o apoio da família e da sociedade. Sem emprego, o criminoso se torna muito mais violento.

10 – Referindo-se à criança, Dráuzio Varella afirma: “Sem nunca ter visto um adulto, ela andará literalmente de quatro pelo resto da vida”. Que conclusão está implícita nessa afirmação?
      As crianças se desenvolvem física e psicologicamente por imitação. Precisam, portanto, de pessoas que lhes deem o exemplo de condutas mais dignificantes, tanto na família como na sociedade, o que por si só já reduziria a violência.

11 – Para defender sua tese de que a violência urbana é epidêmica, o autor recorre a vários argumentos, procurando convencer o leitor. Identifique um trecho em que a argumentação se baseie na relação de causa e consequência.
      Sugestão: “Associadas à falta de acesso aos recursos materiais (...) esses fatores de risco criam o caldo de cultura que alimenta a violência crescente nas cidades.”

12 – O texto dissertativo procura convidar o leitor a participar de uma discussão. Sê um exemplo, no texto de Dráuzio Varella, em que isso pode ser percebido.
      Sugestão: “Seria mais sensato investir (...) mesmo reconhecendo que isso é uma guerra perdida?”.

13 – Na conclusão, o argumentador retorna o que foi dito no início: a violência é uma doença contagiosa. Ele afirma que não existe solução mágica para o problema da violência urbana, portanto é preciso adotar algumas medidas. Quais são elas?
      Melhor divisão de renda, motivação de policiais, criação de leis contra a impunidade, novas cadeias para substituir as velhas, envolvimento de todos na educação de crianças menos favorecidas, exemplos de condutas mais dignificantes, integração à sociedade por meio de educação formal de bom nível, práticas esportivas e desenvolvimento artístico.