quinta-feira, 2 de maio de 2019

MÚSICA: CÂNTICO NEGRO - MARIA BETHÂNIA - COM QUESTÕES GABARITADAS

Música: Cântico Negro
              Maria Bethânia

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
-- Sei que não vou por aí!

                Composição: José Régio.  Poemas de Deus e do diabo, cit. p. 57-9.

Entendendo a canção:
01 – O eu lírico dirige-se a seus interlocutores, criticando-os por seus valores e por sua visão de mundo. De acordo com o texto:
a)   Quem provavelmente são esses interlocutores e qual a sua visão de mundo?
Os interlocutores representam o grupo social dominante ou a sociedade como um todo. Com a visão de mundo conservadora, eles insistem em querer que todos aceitem seus valores, suas verdades e suas regras.

b)   Em que os valores do eu lírico diferem dos valores de seus interlocutores?
O eu lírico não aceita soluções prontas. Cioso de sua independência moral e ideológica, deseja ele mesmo traçar seu caminho e descobrir suas verdades.

c)   Como se sente o eu lírico em sua relação com o mundo?
Deslocado, inadequado.

02 – Na penúltima estrofe da canção, é apontada uma causa possível da inadaptação do eu ao mundo. Identifique-a e explique-a.
      O eu lírico associa o seu desencontro com a realidade à sua contradição espiritual, que o leva a ficar dividido entre o bem e o mal. Embora Deus e o diabo possam figurar apenas como metáforas de seu conflito emocional, o fato é que, no conjunto da obra do poeta, essas duas entidades têm importância decisiva.

03 – Com base nas ideias da canção, justifique o seu título.
      O título da canção se justifica pela postura de contestação a valores, verdades e regras sociais adotada pelo eu lírico, assim como pela influência que ele diz ser exercida sobre ele pelo diabo.

04 – José Régio persegue, na literatura portuguesa, a tradição de Guerra Junqueiro, cuja poesia é marcada por um tom grandiloquente e dramático. Em “Cântico Negro”, o caráter dramático do texto reside, sobretudo, no tom declamatório dos versos e na força de algumas imagens.

a)   Destaque alguns versos que comprovem essa afirmação.
Entre outros: “Eu tenho a minha Loucura! / Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, / E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...”.

b)   Que aspectos do poema se identificam com a representação teatral?
Principalmente as frases exclamativas, caracterizadas por um tom declamatório, e o suposto diálogo entre o eu lírico e o seu interlocutor.



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