segunda-feira, 17 de junho de 2019

TEXTO: SÃO PAULO, 2001 -(FRAGMENTO) - RAQUEL ROLNIK - COM QUESTÕES GABARITADAS

Texto: São Paulo, 2001
     
                                     Raquel Rolnik

        Madrugada, verão de janeiro, ano 2001. Um carro sai do estacionamento no subsolo de um prédio e, enquanto espera o sistema eletrônico acionar grades e portões, seu motorista olha para cima e vê ainda alguns andares iluminados pela luz dos computadores. Na calçada, duas pessoas estão remexendo o lixo à procura de latas, comida e papelão. O carro acelera rapidamente, temendo a possível abordagem de um adolescente, cabelo pixaim quase branco, que se aproxima.
        Percorrendo as ruas estreitas do bairro, o carro ´detido pela enorme fila de táxis e pelo movimento dos manobristas na saída de uma cada noturna. As mulheres loiras com vestidos brilhantes justíssimos e saltos agulha se misturam por um átimo aos homens e mulheres vestidos de jeans e camisetas e carregando sacolas de plástico que acabam de desembarcar do ônibus.
        Finalmente o carro atingi a avenida. Surpresa: congestionamento às seis e meia da manhã? No rádio, o repórter no helicóptero avisa: caminhão tombado em tal lugar, árvores caídas e pontos de alagamento que sobraram da tempestade do dia anterior; evitar rua tal, caminho tal. Da janela do carro, observa homens e mulheres vestidos com roupas esportivas, correndo ou caminhando rapidamente pelo canteiro central. Naquele instante, parecem estar envoltos por sua utopia de saúde, longevidade e beleza, uma espécie de redoma que os protege de perceber a paisagem onde estão.
        São sete e meia da manhã quando o motorista entra na estrada que o levará ao condomínio onde mora. Do outro lado da pista, a fila de caminhões e carros entrando na cidade é imensa e os vendedores de água, suco, eletrônicos e bonecos gigantes de plástico já instalaram seu drive-in comercial.
        Quilômetro 30 – o motorista para no estacionamento de uma das megalojas do caminho e, atravessando corredores, chega à padaria estilo country. Entre cestinhas decoradas com renda e flores do campo, ele escolhe baguettes e croissants. E lembra-se por um segundo de sua avó, nascida em casa de chão batido no meio do sertão do agreste, e da avó de sua mulher, que nunca esqueceu o porão do navio que a arrancou, menina, da aldeia à beira-mar do Japão.
        Oito e meia, passa pela guarita, guarda o carro no estacionamento de casa. Ao lado de seu lugar na mesa já posta, a pilha de contas para pagar: luz, água, telefone, internet, celular, bip, escola de inglês, academia, natação, prestação do carro, IPVA, seguro... Na TV, já ligada pela empregada na cozinha, vê a mesa arrumada do café da manhã e a família que acorda feliz por poder passar no pão aquela maravilhosa margarina.
        Enquanto limpa o barro do sapato, a empregada faz as contas de quanto vai precisar para comprar a laje para cobrir o cômodo que acabou de levantar no Jardim Progresso. Fica ali perto, do outro lado da pista e a apenas 15 minutos de caminhada até o ponto por onde passa o perueiro.

        São Paulo. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 72-74. (Folha explica).
Entendendo o texto:

01 – O texto de Raquel Rolnik chama-se “São Paulo, 2001”. A partir de sua vivência pessoal e das informações que tem pelos meios de comunicação, responda: os fatos mostrados no texto ocorrem exclusivamente na cidade de São Paulo ou poderiam acontecer em qualquer outra cidade? Justifique sua resposta.
      Sim. Todas as cidade grandes é possível encontrar cenas como as mostradas no texto.

02 – Observe como cada um dos parágrafos da narrativa se inicia: sempre há palavras ou expressões indicadoras de tempo (“madrugada”; “finalmente”; “são sete horas da manhã”; “oito e meia”; “enquanto limpa o barro do sapato”) ou de lugar (“percorrendo as ruas estreitas do bairro”; “quilômetro 30”). Na sua opinião, por que isso ocorre?
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Porque essas palavras ou expressões têm a função de situar o leitor nos espaços em que ocorre a narrativa e na passagem de tempo, desde a saída do homem do trabalho até sua chegada a sua casa.

03 – Observando-se as personagens presentes na narrativa, notam-se modos de vida contrastantes. Identifique para cada um dos itens apresentados a seguir outro que se oponha a ele. Observe o exemplo: “Homem que retorna para casa dirigindo o próprio carro se opõe a empregada que se locomove para o trabalho transportada por um perueiro.”
a)   Pessoas procurando comida no lixo.
Pães especiais na padaria estilo country.

b)   Pessoas deixando a casa noturna ao amanhecer.
Trabalhadores descendo do ônibus a caminho do trabalho ao amanhecer.

c)   Vendedores ambulantes oferecendo seus produtos nas estradas e avenidas.
Megalojas.

04 – Compare as contas que o homem e sua empregada devem pagar. O que elas revelam a respeito do tipo de vida que levam?
      Revelam que, enquanto o homem pode se dar ao luxo de usar seu dinheiro para academia, natação, internet; a empregada tem de se preocupar em resolver problemas básicos, como o de construção de sua moradia.

05 – Das cenas mostradas no texto, há alguma(s) que jamais correria(m) onde você vive? Quais são elas? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

06 – Esse texto se passa na cidade de São Paulo:
a)   Empregando dois adjetivos, de que forma você pode caracterizar a vida na cidade de São Paulo,2001?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Agitada, injusta, violenta, desigual, moderna.

b)   Se pudesse escolher, você gostaria de ser personagem na cidade de São Paulo, 2001?
Resposta pessoal do aluno.

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