sexta-feira, 7 de junho de 2019

POEMA: A PALO SECO - JOÃO CABRAL DE MELO NETO - COM GABARITO

Poema: A palo seco       

              João Cabral de Melo Neto

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;
que o cante a palo seco
sem tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua.

O cante a palo seco
não é um cante a esmo:
exige ser cantado
com todo o ser aberto;
é um cante que exige
o ser-se ao meio-dia,
que é quando a sombra foge
e não medra a magia.

O silêncio é um metal
de epiderme gelada,
sempre incapaz das ondas
imediatas da água;
A pele do silêncio
pouca coisa arrepia:
o cante a palo seco
de diamante precisa.

Ou o silêncio é pesado,
é um líquido denso,
que jamais colabora
nem ajuda com ecos;
mais bem, esmaga o cante
e afoga-o, se indefeso:
a palo seco é um cante
submarino ao silêncio.

Ou o silêncio é levíssimo,
é líquido e sutil
que se ecoa nas frestas
que no cante sentiu;
o silêncio paciente
vagaroso se infiltra,
apodrecendo o cante
de dentro, pela espinha.

Ou o silêncio é uma tela
que difícil se rasga
e que quando se rasga
não demora rasgada;
quando a voz cessa, a tela
se apressa em se emendar:
tela que fosse de água,
ou como tela de ar.

A palo seco é o cante
de todos mais lacônico,
mesmo quando pareça
estirar-se um quilômetro:
enfrentar o silêncio
assim despido e pouco
tem de forçosamente
deixar mais curto o fôlego.

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

A palo seco é o cante
de caminhar mais lento:
por ser a contra-pelo,
por ser a contra-vento;
é cante que caminha
com passo paciente:
o vento do silêncio
tem a fibra de dente.

A palo seco é o cante
que mostra mais soberba;
e que não se oferece:
que se toma ou se deixa;
cante que não se enfeita,
que tanto se lhe dá;
é cante que não canta,
cante que aí está.

A palo seco canta
o pássaro sem bosque,
por exemplo: pousado
sobre um fio de cobre;
a palo seco canta
ainda melhor esse fio
quando sem qualquer pássaro
dá o seu assovio.

A palo seco cantam
a bigorna e o martelo,
o ferro sobre a pedra
o ferro contra o ferro;
a palo seco canta
aquele outro ferreiro:
o pássaro araponga
que inventa o próprio ferro.

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não o de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

A educação das pedras. Rio de Janeiro: Alfaguara.
Quaderna. In: Poesias Completas,1975, p.160.

Entendendo o poema:

01 – Releia estes versos do poema “A palo seco”, de João Cabral de Melo Neto: “Se diz a palo seco
                        O cante sem guitarra;

                        O cante sem; o cante;
                        O cante sem mais nada;”

        João Cabral, que viveu muitos anos na Espanha, emprega a expressão espanhola “A palo seco”, que se refere a algo simples e direto, sem rodeios.
a)   Aplicando esse conceito à poesia, o que seria um canto “A palo seco”?
É um canto seco, essencial, sem excessos.

b)   Nesses versos, o poeta constrói um canto “A palo seco”? Por quê?
Sim, pois o poeta vai reduzindo e enxugando verso ao seu limite, conforme se observa na sequência: O canto sem guitarra – O canto sem – O cante.

02 – João Cabral cita em seu poema o escritor Graciliano Ramos. Considerando o que conhece sobre esse autor, você concorda com o poeta quando ele diz que o estilo de Graciliano Ramos pode ser considerado “A palo seco”?
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Sim, pois ele também escreve com exatidão de arquiteto, d modo enxuto e racional.

03 – Na última estrofe, há uma oposição entre “aceitar o seco” e “empregar o seco”.
a)   Explique essa diferença.
“Aceitar o seco” é uma condição sem escolha.

b)   Segundo a perspectiva do texto, qual é a vantagem de escrever “A palo seco”?
O verso “A palo seco” tem mais força, é mais contundente.


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