terça-feira, 22 de janeiro de 2019

ENTREVISTA:LÍNGUA ENROLADA - REVISTA VEJA E PASQUALE - MARIO SABINO


Entrevista: Língua enrolada
     
   O professor de português mais conhecido do país fala sobre os maus-tratos cotidianos infligidos ao nosso idioma.
                                                                                  Mario Sabino.

        "O sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é um idiota"


        A agenda do paulista Pasquale Cipro Neto, de 42 anos, anda carregadíssima. Ele ministra cursos, mantém programas no rádio e na televisão, presta consultoria a jornais e está finalizando um livro. Em meio a tantas atividades, ainda encontrou tempo para estrelar um comercial de uma rede de lanchonetes. Poder-se-ia até pensar que se trata de um mago da autoajuda ou de um administrador com técnicas mirabolantes de reengenharia. Pasquale, no entanto, é professor de português um idioma que, de tão maltratado no dia-a-dia dos brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milhões que o têm como língua materna. Num intervalo de seus afazeres, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

        Veja – Por que o português é tão mal falado e tão mal escrito no Brasil?

        Pasquale – Há duas causas visíveis. Com o depauperamento geral da educação, o ensino da língua portuguesa acabou confiado a professores despreparados para a tarefa. Os brasileiros também leem pouco, o que resulta numa tremenda limitação de vocabulário. Existe, ainda, um motivo invisível para o estado trágico em que se encontra o português no Brasil: a má intenção. Uma grande parcela da população é mantida na ignorância, com o propósito de distanciá-la da sintaxe dominante. E é na sintaxe dominante que são redigidos os contratos e as leis, um exemplo cabal de que língua é poder. Sem ter acesso a ela, o povo é facilmente manobrado.

        Veja – Como o senhor vê o uso de tantas palavras inglesas no cotidiano dos brasileiros?

        Pasquale – Essa invasão é a face mais irritante de um país colonizado culturalmente como o nosso. Outro dia, presenciei uma cena surrealista no banheiro de um centro de compras, vulgo shopping center. Ao lavar as mãos, um sujeito quebrou a saboneteira porque traduziu "push", "empurrar" em inglês, por "puxar". Não há motivo para uma saboneteira no Brasil ter inscrições em outra língua. Sempre me pergunto por que as pizzarias que entregam por encomenda têm de ser "delivery". Sem falar no "disk", que é uma bobagem de origem indecifrável. O sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é, na minha opinião, um idiota. Evidentemente, não há mal nenhum em utilizar palavras estrangeiras que não têm correlato na nossa língua. Tenho muita simpatia, por 53 exemplo, pela palavra "dumping", que significa vender abaixo do preço de custo. É sintética e forte não existe em português uma palavra para substituí-la adequadamente.

        Veja – Em que lugar do Brasil se fala o melhor português?

        Pasquale – Certa vez fui ao Maranhão porque me disseram que lá se falava um português menos contaminado. Pura lenda. Acho que, no cômputo geral, o carioca é o que se expressa melhor sob a ótica da norma culta. Ele não come o "s" quando usa o plural, utiliza os pronomes com mais propriedade, não erra tanto nas concordâncias e tem uma linguagem mais criativa.

        Veja – E onde se fala o pior?

        Pasquale – A São Paulo que fala "dois pastel" e "acabou as ficha" é um horror. Não acredito que o fato de ser uma cidade com grande número de imigrantes seja uma explicação suficiente para esse português esquisito dos paulistanos. Na verdade, é inexplicável.

       Veja – O que o senhor acha da sintaxe do presidente Fernando Henrique Cardoso?

      Pasquale – O presidente segue aquilo que se chama norma urbana culta. É claro que, sob a luz da gramática normativa, há problemas em seus discursos, em especial naqueles feitos de improviso. Mas dá para entender as dificuldades de Fernando Henrique: se falar difícil, podem chamá-lo de pedante. Se falar muito fácil, haverá quem diga que se trata de um demagogo. De qualquer forma, ele tropeça muito menos no português do que o Fernando anterior.

        Veja – O ex-presidente Fernando Collor errava muito?

        Pasquale – E como! O curioso é que muitas pessoas que votaram nele justificaram sua escolha dizendo que o Lula era analfabeto. Ora, o Fernandinho detonava a língua. Ele costumava mandar bilhetinhos para seus assessores com erros de concordância. Certa vez escreveu "Causa-me espanto as repercussões", com o verbo no singular e o sujeito no plural. Fernandinho também dizia barbaridades do tipo "a polícia interviu" e tal coisa "não se adéqua". Ninguém falava nada. Em compensação, o mundo caiu em cima do ex-ministro Rogério Magri quando ele soltou o "imexível". Sabe por quê? Porque língua no Brasil é um incrível elemento de discriminação social. Os mesmos que apedrejam o Lula porque ele fala "penso de que" bancam os surdos ao ouvir um empresário cometer uma bobagem idêntica. Não há diferença entre a linguagem média do empresário brasileiro e a de um sindicalista. Estamos todos nivelados por baixo.

        Veja – De onde vem o famigerado "a nível de"?

      Pasquale – O "a nível de" é uma daquelas bizarrices que surgem da cabeça do cidadão que, na falta de conteúdo, tenta sofisticar seu discurso lascando no meio umas expressões de efeito. No caso específico do "a nível de", virou praga mundial. O pior é que em 99% das vezes não faz o menor sentido. Já ouvi gente dizendo que "o jogador sofreu uma contusão a nível de joelho", o que é ridículo. Assim como essa, existem outras expressões idiotas. Hoje, por exemplo, ninguém faz nada "para", mas "no sentido de". Usar a língua direito não é inventar rococós, é ser claro, direto.

        Veja – Por que os brasileiros se confundem tanto na hora de usar crase?

        Pasquale – O caso da crase espelha bem a desgraça do ensino de português no Brasil. Crase é uma coisa maravilhosa. É um fenômeno da língua portuguesa que pode ser explicado de uma forma muito simples: antes de mais nada, é preciso dizer para o aluno que a palavra "crase" vem do grego e significa "fusão", "mistura". Depois, o professor deve mostrar que uma crase normalmente é formada pela fusão da preposição "a" exigida pela palavra anterior com o artigo feminino "a" da palavra posterior. O aluno precisa entender ainda que, quando coloca o maldito acento chamado "grave", e não "acento crase", está indicando a ocorrência do fenômeno. É necessário mastigar todo o processo, o que poucos colegas fazem.

        Veja – O que o senhor acha do Dicionário Aurélio, o mais popular do Brasil?

        Pasquale – Um bom dicionário tem de ter critérios bem definidos, não pode oscilar entre o rigor absoluto com a língua e a condescendência. Desse ponto de vista, o Aurélio é inconsistente. Do verbo "conscientizar", para citar um exemplo, ele só registra a forma transitiva direta. No Aurélio, as pessoas "conscientizam o problema" e não "se conscientizam do problema", que é como todo mundo fala. Já "parabenizar", que não é português, transformou-se em um verbete. Há também erros de grafia, o que é imperdoável. No verbete "trólebus", a palavra está sem acento. Além disso, ele não tinha direito de escrever "fôrma", com o acento diferencial no "o". Esse acento diferencial de timbre caiu na reforma ortográfica de 1971. Como o Aurélio era contra a eliminação do diferencial, registrou a palavra do jeito dele.

        Veja – Como o senhor avalia o português falado na televisão?

        Pasquale – Não assisto a novelas e, por isso, não posso avaliar o que se passa nelas. Quanto aos apresentadores de telejornais, os que vêm do meio impresso parecem dominar melhor o português. No esporte, porém, é uma tragédia. Os locutores vivem inventando umas expressões bobas, como "correr atrás do prejuízo", usada para o time que precisa virar uma partida. Quem é o maluco que "corre atrás do prejuízo"? As pessoas correm atrás é do lucro. Outra 54 cretinice é o "handicap", "desvantagem" em inglês, que virou seu antônimo nas transmissões esportivas – a equipe que joga em casa no Brasil passou a ter um "handicap".

        Veja – Qual foi o pior erro que o senhor já cometeu?

    Pasquale – Morro de vergonha de ter esquecido em certa ocasião, enquanto estava corrigindo uma prova do vestibular do ITA, a forma irregular do pretérito perfeito do verbo "prazer": "aprouve". Cometi um deslize também na gravação de um dos comerciais que fiz recentemente. Em determinado momento, cansado de gravar e regravar, soltei: "Portanto, você deve dizer para mim comer". O pessoal caiu na risada. Antes que eu me esqueça: o correto é "para eu comer".

        Veja – É mais confortável vender hambúrgueres do que hamburgers?

      Pasquale – Quando aceitei fazer os comerciais, impus a condição de não mencionar o produto. Não vendi hambúrgueres nem hamburgers. Divulguei a língua portuguesa.

     CIPRO NETO, Pasquale. Língua enrolada. Veja, Abril, São Paulo, ed. 1512, ano 30, n. 36, p. 9-122, 10 set. 1997. Entrevista concedida a Mario Sabino.

Entendendo a entrevista:
01 – Você deve ter percebido que o texto que leu é uma entrevista. Uma entrevista publicada em jornais e revistas, em geral, é organizada a partir de um formato fixo: o par pergunta – resposta, mesmo que a entrevista realizada oralmente não tenha sido tão ordenada assim. Quem é o entrevistado? Quem é o entrevistador?
      O entrevistado é Pasquale Cipro Neto e o entrevistador é Mario Sabino, da revista Veja.

02 – O objetivo de uma entrevista é, em tese, obter informações sobre um tema, um fato em especial, ou mesmo sobre a pessoa entrevistada. Qual foi o objetivo dessa entrevista?
      Obter informações sobre um tema: a língua portuguesa no Brasil.

03 – A maioria das entrevistas inclui uma pequena biografia da figura entrevistada. Esse mecanismo de apresentação justifica a entrevista. Por que se considera que o entrevistado tem algo a dizer sobre o tema, objetivo da entrevista?
      Porque é um professor de português que adquiriu notoriedade ao aparecer em programas e comerciais de TV. Em tese, é um especialista no assunto.

04 – Na apresentação, também é possível encontrar o ponto de vista do entrevistador sobre o entrevistado. Pasquale é descrito de forma positiva ou negativa?
      É descrito de forma positiva: comenta-se que é um profissional muitíssimo requisitado e que exerce várias atividades relacionadas à profissão de professor de língua portuguesa.

05 – Observe que a primeira pergunta do entrevistado já parte de um pressuposto, ou seja, de uma ideia preconcebida sobre língua e usuários da língua. Que ideia é essa?
      A de que o português é “mal falado e mal escrito” no Brasil.

06 – O entrevistado endossa essa ideia ou a rejeita? Explique.
      Endossa. Ele responde à questão, explicando as causas desse “problema”: o depauperamento geral da educação que acaba confiando o ensino de língua para professores despreparados, e o fato de os brasileiros lerem muito pouco.

07 – Observe que a terceira e a quarta perguntas também partem de pressupostos sobre a língua. Quais são?
      A de que existem lugares que falam “melhor” ou “pior” a língua portuguesa. Isso significa também que é possível supor que as pessoas de determinado estado ou região falam “igual” – não se consideram, portanto, diferenças de escolaridade (que existem em todos os estados brasileiros). Pode-se supor também que a língua portuguesa é uma só e deve ser falada da mesma forma em qualquer situação.

08 – Explique quais são as opiniões do entrevistado sobre os seguintes assuntos:
·        Uso de palavras estrangeiras no cotidiano: Considerado uma “invasão”, típica de países colonizados culturalmente. Aceita, caso não exista outra palavra em português para substituir o estrangeirismo adequadamente.

·        Uso da crase: Espelha a desgraça do ensino de português no Brasil.

·        Dicionário Aurélio: É inconsistente.

·        Português falado na TV: Os apresentadores de telejornais dominam a língua, mas os locutores esportivos incorrem em erros “trágicos”.

09 – O entrevistado cita um “erro” que cometeu quando corrigia provas de vestibular: o esquecimento do pretérito perfeito do verbo prazer, aprouve. Você já leu ou ouviu essa forma verbal? Ela é comum ou rara?
      Resposta pessoal do aluno. A forma verbal “aprouve” não é usual.

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