sábado, 30 de setembro de 2017

TEXTO: SE QUEIMAR, QUEIMOU... LÉO CUNHA - COM GABARITO

SE QUEIMAR, QUEIMOU...

"Não faço diário:
 Rabisco poemas,  
 Desenho janelas
 E vivo levado
 Em versos e vento.”

        Durante os lentos anos de minha infância, senti no garoto a frustração de habitar um mundo muito transparente. Os dias da minha casa não me encantavam com mistérios e segredos, as noites não me seduziam com absurdos e esquisitices.
        Não era por falta de “cadê?”. Eu bem que vasculhava por todos os cantos, mas não encontrava nunca uma passagem secreta, no quarto dos meus pais, em meus pais, em mim.
        Lembro que, de vez em quando, eu chegava a sonhar com portas falsas, um fundo falso de gaveta, uma história mal contada, qualquer coisa inexplicável pra me empolgar. Nada. A vida em minha casa deslizava cristalina, no jardim de rosas evidentes, na elegância fria do primeiro andar, nos corredores do segundo, tão eficazes e à-toa. Até mesmo o sótão, que eu tomava por companheiro de rebeldia e insatisfação, nada me revelou de extraordinário.
        Só quando fiz nove anos é que fui atinar: os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia da minha casa estavam me esperando, aquele tempo todo, nos livros da sala de estar.
        Naquelas páginas empoeiradas, eu passei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos ou aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.
        Eu tinha descoberto: a verdadeira passagem secreta estava escondida ali. Uma passagem discreta, encaixada entre versos e letras. Logo, logo, virei uma traça, devorei toda a literatura da casa.
        Mas o melhor foi quando descobri que as páginas em branco dos cadernos não serviam só pra dever de casa. Elas me convidavam a enchê-las de histórias, segredos e imaginação. Eu aprendi a ser aprendiz de poeta.
        Hoje, eu, com dezesseis anos, perdi até a conta do tanto de poemas que escrevi. Uma porção ou mais, como diria meu avô. Alguns alegres, outros tristes, uns bem simplesinhos, outros metidos a complicados... Pra falar a verdade, a maioria nem do rascunho passou.
        Mas nunca joguei nenhum fora, nem o primeiríssimo, sobre a professora de Português que não parava de piscar pra mim. Acabou que era só um tique nervoso da coitada.
        É, esses poemas contam mais a minha infância e adolescência do que qualquer diário, que eu não fiz. Ninguém no mundo poderia imaginar que algum dia eu fosse botar fogo em todos eles.
        Mas aqui estou, sentado no chão do meu quarto, com esta caixa de fósforos na mão.
        São duas da manhã. Desde a tardinha eu estou crescendo em coragem, os poemas empilhados à minha frente. Já resolvi: Vou queimar um por um e depois nunca mais escrevo. Nem uma estrofe.
        Meu avô acha que é uma loucura sem volta. Se queimar, queimou, era uma vez. Eu sei que é muito radical, mas não tenho outro remédio. Só de olhar para os poemas eu penso em Helena e, juro por Deus, não quero nunca mais pensar em Helena, lembrar que era ela a musa de tantos sonhos e versos. Lembrar... eu esperando feito um bobo no meio da zoeira de um shopping center lotado.
                                             
                                               Leo Cunha. As pilhas fracas do tempo.
                                                            São Paulo: Atual, 1994. p. 1-3.

1 – Por que o sótão de uma casa seria companheiro de rebeldia?
      Talvez por guardar segredos ou objetos a que ninguém dava importância ou atenção. Provavelmente era o local onde a personagem se isolava nos momentos de conflito.

2 – A personagem detém-se em fatos de sua infância. Qual a importância de:
a)   Afirmar que nada havia de misterioso em sua casa?
A infância é mostrada como algo desinteressante para contrastar com a vida da personagem após a descoberta da literatura. A vida da personagem passa a ser povoada de aventuras.

b)   Contar sua trajetória como escritor?
A trajetória da personagem primeiro como leitor e depois como escritor nos permite avaliar a importância de sua decisão de queimar todos os seus poemas.

3 – Na sua opinião, para onde levaria uma passagem secreta dentro da personagem?
      Poderia levar a uma parte de seu ser que lhe era desconhecida, que guardava segredos não revelados a ninguém, nem a ele próprio. Esses segredos e mistérios que dormiam dentro dele foram despertados pela literatura.

4 – É possível dizer que a personagem é dada a atitudes radicais? Por quê?
      Ele afirma que vai queimar os poemas, mas, depois de pensar muito, ainda tem dúvidas. Na verdade, é a raiva que sente por Helena que move a isso.

5 – Qual o significado simbólico de queimar todos os seus versos?
      Queimar os versos pode significar romper com a infância, com a adolescência, com um mundo do qual a personagem está saindo ao entrar na vida adulta. Pode ter, também, um dos outros significados do fogo: o de renascer após uma purificação: a personagem quer destruir as provas de seu amor por Helena, que está retratado nos poemas, e partir para uma nova vida. Depois da desilusão amorosa, escrever versos perdeu o sentido. Ele “nunca mais” será romântico.

6 – Verifique o recurso utilizado neste trecho:
      “Elas [as páginas em branco] me convidavam a enchê-las de histórias [...]”.
      É o recurso da personificação.
Transcreva as frases seguintes e use o mesmo recurso para completa-las.
a)   A velha gaveta da cômoda. Resposta pessoal.
b)   Aquela máquina fotográfica. Resposta pessoal.
c)   Uma britadeira. Resposta pessoal.
d)   Seu retrato na parede. Resposta pessoal.

7 – Aponte outros recursos expressivos no texto.
      Resposta pessoal do aluno. Observar:
      --- As adjetivações inéditas: rosas evidentes, corredores eficazes e à-toa, vida cristalina;
      --- Neologismo e metáforas: encantações; “a vida deslizava cristalina”; “virei uma traça”;
      --- Construções sintáticas inusuais e frases nominais: “os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava...”; “nada”; “nem uma estrofe”;
      --- Efeitos sonoros: passagem secreta / passagem discreta;
      --- Relação da vida da personagem com a literatura: “... enfrentei o gênio do crime...”; “Se queimar, queimou, era uma vez.”

8 – Releia este parágrafo:
      “Naquelas páginas empoeiradas, eu passei no sítio do Pica-pau Amarelo, viajei nos istos ou aquilos, enfrentei o gênio do crime, faturei o caneco de prata, fiquei maravilhado de encantações e doideiras.”
a)   Qual o processo de construção usado no período: coordenação ou subordinação? Por que o autor optou por esse processo?
O processo utilizado é o da coordenação. O autor optou por coordenar ações para mostrar a sequência de leituras realizadas por ele, quando menino.

b)   Que títulos de obras são citados? Por que aparecem com letra minúscula?
Sítio do Pica-pau Amarelo, como referências às obras de Monteiro Lobato; ou isto ou aquilo, poema de Cecília Meireles; o gênio do crime e Caneco de prata, livros infanto-juvenis de João Carlos Marinho. Os títulos aparecem com letra minúscula porque a personagem se apropria deles e os cita não mais como títulos de obras, mas como parte de sua experiência.

c)   O que é possível concluir sobre a relação da personagem com a literatura?
A personagem de tal forma incorpora a literatura à sua vida que se identifica com as personagens da história que leu. Na verdade, é a turma do Gordo que enfrenta o gênio do crime e não ele. Essa simbiose fica patente quando ele usa a expressão “era uma vez” para falar de sua própria vida.

9 – Reescreva as passagens a seguir, com suas palavras. Em seguida, faça um comentário sobre a escolha do autor.
a)   “[...] os mistérios e absurdos que eu tanto não encontrava no dia-a-dia [...]”.
Resposta pessoal do aluno.

b)   “[...] fiquei maravilhado de encantações e doideiras”.
Resposta pessoal do aluno.

10 – Considerando as características do texto, que público-alvo o autor quer atingir?
      O autor quer atingir o público adolescente porque retrata as experiências de um rapaz de dezesseis anos que enfrenta uma desilusão amorosa.





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