quarta-feira, 13 de setembro de 2017

TEXTOS PARA ENSINO MÉDIO - COM QUESTÕES OBJETIVAS/GABARITO



Herói na contemporaneidade

    Quando eu era criança, passava todo o tempo desenhando super-heróis.
            Recorro ao historiador de mitologia Joseph Campbell, que diferenciava as duas figuras públicas: o herói (figura pública antiga) e a celebridade (a figura pública moderna). Enquanto a celebridade se populariza por viver para si mesma, o herói assim se tornava por viver servindo sua comunidade. Todo super-herói deve atravessar alguma via crucis. Gandhi, líder pacifista indiano, disse que, quanto maior nosso sacrifício, maior será nossa conquista. Como Hércules, como Batman.
            Toda história em quadrinhos traz em si alguma coisa de industrial e marginal, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Os filmes de super-herói, ainda que transpondo essa cultura para a grande e famigerada indústria, realizam uma outra façanha, que provavelmente sem eles não ocorreria: a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heroicos da Antiguidade para o homem moderno. O cineasta italiano Fellini afirmou uma vez que Stan Lee, o criador da editora Marvel e de diversos heróis populares, era o Homero dos quadrinhos.
        
Toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social. Homem-Aranha é um nerd, Hulk é um monstro amaldiçoado, Demolidor é um deficiente, os X-Men são indivíduos excepcionais, Batman é um órfão, Super-Homem é um alienígena expatriado. São todos símbolos da solidão, da sobrevivência e da abnegação humana.
            Não se ama um herói pelos seus poderes, mas pela sua dor. Nossos olhos podem até se voltar a eles por suas habilidades fantásticas, mas é na humanidade que eles crescem dentro do gosto popular. Os super-heróis que não sofrem ou simplesmente trabalham para o sistema vigente tendem a se tornar meio bobos, como o Tocha-Humana ou o Capitão América.
            Hulk e Homem-Aranha são seres que criticam a inconsequência da ciência, com sua energia atômica e suas experiências genéticas. Os X-Men nos advertem para a educação inclusiva. Super-Homem é aquele que mais se aproxima de Jesus Cristo, e por isso talvez seja o mais popular de todos, em seu sacrifício solitário em defesa dos seres humanos, mas também tem algo de Aquiles, com seu calcanhar que é a kriptonita. Humano e super-herói, como Gandhi.
            Não houve nenhuma literatura que tenha me marcado mais do que essas histórias em quadrinhos. Eu raramente as leio hoje em dia, mas quando assisto a bons filmes de super-heróis eu lembro que todos temos um lado ingênuo e bom, que pode ser capaz de suportar a dor da solidão por um princípio.

CHUÍ, Fernando. Adaptado de http://fernandochui.blogspot.com

1) (Uerj / 2009–Exame de Qualificação) A argumentação se estrutura por meio de diferentes mecanismos discursivos. No quarto parágrafo, o mecanismo empregado consiste na apresentação de:

(A) opinião apoiada em exemplos
(B) alegação partilhada por muitos
(C) construção caracterizada como dialética
(D) definição baseada em elementos válidos


        No quarto parágrafo, o autor defende sua opinião de que “toda boa história de super-herói é uma história de exclusão social”. Para isso, usa exemplos de super-heróis que são excluídos sociais, como Homem-Aranha, Hulk, Batman e os X-Men.

2) (Uerj / 2009 – Exame de Qualificação) A utilização de testemunhos autorizados, como o de Fellini, é uma conhecida estratégia retórica. O uso dessa estratégia produz, no texto, o efeito de:

(A) oposição entre estilos diversificados
(B) exemplificação de opiniões variadas
(C) delimitação de um contraponto temporal
(D) confirmação dos posicionamentos do autor

        O argumento de autoridade, como o enunciado da questão afirma, é uma conhecida estratégia argumentativa. Ele dá credibilidade à tese defendida, ao fazer com que o texto se apoie em um testemunho de alguém com autoridade para emitir opiniões em uma determinada área do conhecimento. Ao trazer para o seu texto a afirmação de um cineasta sobre um criador de histórias em quadrinhos (“Stan Lee era o Homero dos quadrinhos”), o autor confirma aquilo que é também a sua opinião: “Os filmes de super-herói (...) realizam uma outra façanha (...): a formação de novas mitologias reafirmando os mesmos ideais heroicos da Antiguidade para o homem moderno”.

Texto para a questão 3


O mundo para todos

            Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.
            De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.
            Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
            Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
            Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
            Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.
            Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.
            Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.

BUARQUE, Cristovam. O Globo, 23/10/2000.

3) (Uerj / 2003 – Exame de Qualificação) Cristovam Buarque, ao revelar os interesses ocultos na defesa da internacionalização da Amazônia, utiliza um recurso argumentativo conhecido como “redução ao absurdo”. Esse recurso consiste na aceitação inicial de uma proposição para dela extrair decorrências absurdas ou inaceitáveis. O trecho que melhor exemplifica o uso deste recurso, em relação à proposta de internacionalização, é:

(A) “Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.”
(B) “Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.”
(C) “Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.”
(D) “Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA.”


        Ao longo de seu texto, Cristovam Buarque, utiliza diversas vezes a redução ao absurdo como estratégia argumentativa, quando afirma que deveriam internacionalizar, assim como querem fazer com a Amazônia, vários outros patrimônios, como as reservas de petróleo, o capital financeiro, os grandes museus do mundo, Nova York, os arsenais nucleares e as crianças pobres do planeta. Ao fazer isso, ele explica o motivo pelo qual deveríamos internacionalizar esses itens. Nas três primeiras alternativas o que temos são essas justificativas, a única que apresenta a redução ao absurdo é a D, em que primeiro há aceitação inicial de uma proposição (“Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia”) e, depois, a extração de decorrências absurdas ou inaceitáveis (“internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA”).

Sobre Métodos de Raciocínio

Texto para a questão 4


A pátria

            “Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
            O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.
            A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato, era a do Tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati.
            E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão, por uma ideia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa ideia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para os Menenanã, para tantas pessoas... Pareceu-lhe que essa ideia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas, no intuito de servir às suas próprias ambições...
            Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia sentir a Pátria?
            Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
            Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa?
            Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.”

                    BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Brasiliense, 1986.

4) (Uerj / 2001 – Exame de Qualificação) O personagem Policarpo Quaresma, no trecho acima, se encontra preso, prestes a ser executado pelo exército de Floriano Peixoto, por ter escrito uma carta ao presidente protestando contra o assassinato de prisioneiros. Antes de ser executado, ele reflete sobre a noção de pátria. Nos dois primeiros parágrafos, ele parte de suas próprias experiências, o que configura o seguinte método de raciocínio:

(A) indutivo, pensando do particular para o geral
(B) dedutivo, pensando do abstrato para o concreto
(C) dialético, pensando a partir das suas contradições
(D) sofismático, pensando do geral para o particular


        No momento de reflexão sobre a pátria, o personagem começa pelas suas experiências particulares (“Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades (...) Lembrou-se das suas cousas de Tupi, de Folclore, das suas tentativas agrícolas...”) e, em seguida, chega a uma ideia geral sobre o Brasil (“E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? (...) A pátria que quisera ter era um mito...”) Usa, portanto, o método indutivo, caracterizado pela passagem do particular para o geral.


Texto para a questão 5


O problema não é a escassez de recursos

            Assessor da ONU para o Desenvolvimento Sustentável, José Carlos Libânio diz que o levantamento sobre as condições de vida no Rio demonstra que a relação da instituição com o Brasil se dará cada vez mais no campo da informação e menos no de recursos financeiros.
            O GLOBO: Por que o Rio foi escolhido para ter o primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano de uma cidade?
            JOSÉ CARLOS LIBÂNIO: Primeiro, pela oferta de recursos intelectuais, que permitiu não só a criação de novos indicadores, como também desagregá-los. O Brasil foi o primeiro país a ter um índice para todas as cidades. Com a experiência, resolvemos enfrentar o desafio de fazer o mesmo em nível local. O Rio foi escolhido porque se destaca no imaginário nacional e mundial. Era preciso identificar suas peculiaridades e talentos para planejar o seu futuro.
            Em que situação de desenvolvimento humano o Rio se encontra?
            LIBÂNIO: Olhamos para a vida carioca por diversos prismas e aparece uma cidade inusitada. Está entre as quatro capitais com melhores condições de vida. Mas, se comparada a outras capitais, sofre uma intensa desproporção de renda. Em termos de desigualdades, está em 11º. Fica claro que a dificuldade da cidade é a repartição dos recursos. A Zona Sul, por exemplo, tem renda per capita cinco vezes maior do que a Zona Norte.
            Os problemas do Rio atingem a todos da mesma maneira?
            LIBÂNIO: A vantagem do relatório é justamente olhar a informação desagregada, fechando o zoom do microscópio, para identificar onde a cidade está bem e onde não está. Médias, normalmente, mais escondem do que revelam. Não podemos supor, por exemplo, que todas as áreas pobres da cidade têm as mesmas condições de saneamento e acesso à água.
            Como a ONU espera que o relatório seja aproveitado?
            LIBÂNIO: O Brasil está se graduando junto à ONU e ao Banco Mundial. Isso significa que virão menos recursos a fundo perdido destes dois organismos. Vai ser preciso que haja mobilização da sociedade, porque vemos que o problema não é a escassez de recursos. A tendência é de que a ONU mande mais recursos para África e Ásia. Para o Brasil, os recursos serão mandados em ordem decrescente. O país poderá continuar contando com a ONU, mas a colaboração para o desenvolvimento se dará cada vez mais no campo da informação e menos da mobilização dos recursos financeiros.

                                                                                 LIBÂNIO, José Carlos. O Globo, 24/03/2001.

5) (Uerj/Uenf / Sade / 2003 - Exame de Qualificação) Médias, normalmente, mais escondem do que revelam. Não podemos supor, por exemplo, que todas as áreas pobres da cidade têm as mesmas condições de saneamento e acesso à água.

O trecho transcrito acima critica um uso específico do seguinte método de raciocínio:

(A) dedutivo
(B) dialético
(C) indutivo
(D) silogístico


        O cálculo de médias está associado ao raciocínio indutivo porque parte de diversos casos particulares para se chegar a um número geral, que valerá para toda uma realidade. Por exemplo: imagine que, no boletim escolar, João tirou 10 em português, 8 em história, 8 em estudos sociais, 2 em matemática e 2 em ciências; sua média geral será 6. Já Maria tirou 6 em todas as matérias, de modo que sua média geral será também 6. Esse método em que as notas particulares de cada disciplina geram uma média geral que englobará todas as disciplinas “mais esconde do que revela” porque, pela média, parece que Maria e João são o mesmo tipo de aluno, já que têm a mesmíssima média. Contudo, ao ver as notas particulares, constatamos que João é muito bom em humanas e muito ruim em exatas, ao passo que Maria não é excelente em nada, mas também não é péssima em nada. A média, portanto, escondeu a grande diferença entre os desempenhos dos dois alunos.



Sobre Coesão Referencial


Texto para a questão 6

            A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele diacho de sagüi-açu (...) não era sagüim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina! O herói aprendendo calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa deusa de deveras forçuda, Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar.
            Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou? nem o herói!
            (...)
            Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só maquinando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina... Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no terraço dum arranha céu com os manos, Macunaíma concluiu:
            – Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate.
            (...)

ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.

6) (Uerj/2009 – Exame de Qualificação) Alguns vocábulos possuem a propriedade de retomar integralmente uma idéia já apresentada antes. Essa propriedade é observada no vocábulo grifado em:

(A) “Acordou com os berros da bicharia  em baixo”
(B) “Tomou-o um respeito cheio de inveja”
(C) “Então resolveu ir brincar com a Máquina”
(D) “Estava nostálgico assim.”


        A nostalgia que toma conta de Macunaíma é expressa na constatação que o herói faz acerca do tipo de relação existente entre a máquina e os homens. O vocábulo "assim" faz referência a essa forma de expressar o estado nostálgico. (Fonte: Revista Eletrônica do Vestibular).


Texto para a questão 7


As palavras e as coisas

            Guimarães Rosa, possivelmente o maior escritor brasileiro depois de Machado de Assis, dizia que seu sonho era escrever um dicionário.
            Ignoro se Rosa gostava de futebol (até onde eu sei, nunca escreveu nada a respeito), mas certamente ele se encantaria com a riqueza vocabular associada ao esporte mais popular do mundo.
            Poliglota, cultor dos neologismos formados a partir de diversos idiomas, o autor de “Sagarana” devia se deliciar com as palavras de origem inglesa aclimatadas ao português do Brasil por obra e graça do jogo da bola.
            É certo que alguns desses termos ingleses caíram em de suso. É o caso de “off-side” (substituído por “impedimento”), “hands” (“toque” ou “mão”), “centerforward” (“centroavante”) etc.
            Outros, entretanto, foram devidamente abrasileirados e incorporados de tal maneira ao nosso idioma que raramente lembramos de sua origem: “chute” (versão de “shoot”), “beque” (de “back”), “pênalti” (de “penalty”) etc., sem falar no próprio “futebol” (“football”).
            Há ainda as palavras inglesas que mantiveram uma vigência praticamente apenas regional, como “córner”, ainda muito usada no Rio de Janeiro, mas substituída no resto do país por “escanteio”, “tiro de canto” ou somente “canto”.
            Rosa, se acompanhasse o futebol, se deliciaria com a variedade de metáforas produzidas para dar conta do que acontece dentro das quatro linhas.
            Há, por exemplo, o recurso a uma infinidade de objetos cujo formato ou movimento lembra o de certas jogadas: carrinho, chapéu, bicicleta, janelinha (expressão gaúcha para bola entre as pernas), ponte. Mas o ramo mais bonito, do ponto de vista de um escritor, deve ser o das metáforas extraídas da natureza: meia-lua, frango, peixinho, folha seca.
            Ao criar uma jogada dessas – como Didi, que “inventou” a folha seca -, ou executá-la com perfeição, um craque faz poesia pura, rivalizando com Deus e nomeando as coisas como se estivesse no primeiro dia da Criação.
            Guimarães Rosa, infelizmente, não produziu seu sonhado dicionário.
            Nunca saberemos, portanto, se o homem que criou a saga fantástica de Riobaldo e Diadorim sabia o significado, dentro do campo de futebol, de uma chaleira, um lençol, um chaveirinho ou um corta-luz. (...)
 COUTO, José Geraldo, Folha de São Paulo, 17/07/02.


7) (Cederj/2007 – Questões objetivas) Um dos recursos de coesão textual é o uso de vocábulos sinônimos ou quase sinônimos, a fim de evitar a repetição literal de um termo. No texto, ao utilizar essa estratégia, o autor substituiu a palavra “futebol” por:

(A) esporte;
(B) jogo da bola;
(C) quatro linhas;
(D) campo de futebol;
(E) jogada.


        Como todo o texto trata do assunto “futebol”, o autor substitui esta palavra por outras para evitar repetição. Ele faz isso no segundo parágrafo com a expressão “esporte mais popular do mundo” e no terceiro parágrafo com a expressão “jogo da bola”.


Texto para a questão 8


Qual será o futuro das cidades?

            As megacidades vão mudar de endereço no próximo milênio.
           Na periferia da globalização, as metrópoles subdesenvolvidas concentrarão não apenas população, mas também miséria. Crescendo num ritmo veloz, dificilmente conseguirão dar a tantas pessoas habitação, transportes e saneamento básico adequados. Mas não serão as únicas a enfrentar esses problemas. Mesmo metrópoles do topo da hierarquia global, como Nova York, já sofrem com congestionamentos, poluição e violência.        Independentemente de tamanho ou localização, as cidades vão enfrentar ao menos um desafio comum: o aumento da tensão urbana provocado pela crescente desigualdade entre seus moradores. Não há mágica tecnológica à vista capaz de resolver as dificuldades. Os urbanistas apontam o planejamento como antídoto para o caos. Os governos precisam apostar em parcerias com a iniciativa privada e a sociedade civil. Será necessário coordenar ações locais e iniciativas conjuntas entre cidades de uma mesma região.

Caderno Especial, Folha de São Paulo, p.1, 02/5/1999

8) (UFF/2000 – 2ª Etapa) A coesão referencial pode ser realizada por meio de formas cujo lexema (radical) forneça instrução de sentido que represente uma interpretação de partes antecedentes do texto.

Exemplo: Imagina-se que, no futuro, haverá aumento das tensões urbanas. Essa hipótese tem preocupado os cientistas sociais.

Transcreva, do texto acima, apenas a expressão que, na coesão referencial, exerce papel semelhante à do trecho sublinhado no exemplo acima.

       “...esses problemas...”



        Depois de tratar de alguns problemas enfrentados pelas metrópoles subdesenvolvidas, como a falta de habitação, transporte e saneamento básico, o autor afirma que “esses problemas” também serão enfrentados por grandes metrópoles, como Nova York. A expressão “esses problemas” cumpre a mesma função da expressão “essa hipótese”, ao retomar um elemento já citado antes.

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