terça-feira, 3 de julho de 2018

CONTO: BÁRBARA - MURILO RUBIÃO - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO


Conto: Bárbara

    No conto “Bárbara”, o narrador relata a ambição dessa mulher que, ao fazer pedidos absurdos ao marido (um narrador homodiegético), assume proporções físicas colossais e heterotópicas.
       Em relação aos espaços heterotópicos, Foucault (2001, p. 416) nos alerta que “as heterotopias assumem, evidentemente, formas que são muitos variadas e, talvez, não se encontrasse um única forma de heterotopia que fosse absolutamente universal.” A heterotopia analisada nos contos de Murilo Rubião está relacionada aos diferentes espaços que os objetos e os personagens ocupam de forma real, no entanto, assumem formas inquietas e múltiplas, como as mutações e as transformações que os personagens sofrem, que se enquadram como heterotópicas, pelo fato de elas serem imprevisíveis em um mundo real.
        Murilo Rubião, em sua obra, lança mão de uma escrita direta que transporta o leitor, com facilidade, para um mundo onírico, construído por imagens e espaços que se apresentam entre o real e o fantástico. A hesitação no conto “Bárbara” surge como consequência da natureza dos próprios acontecimentos e dos espaços ficcionais que os objetos ocupam, no caso: um oceano, um baobá, um navio e uma minúscula estrela (ORIONE, 2012).
        O conto inicia-se com o narrador-personagem, o marido de Bárbara, apresentando de uma só vez a informação de que Bárbara, a protagonista, “gostava somente de pedir. Pedia e engordava” (RUBIÃO, 1979). Essa relação de pedir e engordar permeia a história toda, sendo o fio condutor do fantástico. Além disso, o pedir e o engordar remetem o leitor à insatisfação e à frustração permanente da personagem-título.
        Os pedidos de Bárbara ao marido estão ligados intimamente à carência das relações humanas. Bárbara projeta todo o seu vazio nesses pedidos. Por isso eles são tão absurdos na dimensão espacial, pois sua carência é não tem fim. Embora, Todorov nos alerte de que uma das condições para se ter o fantástico resida no fato do leitor ter que recusar tanto a interpretação alegórica quanto a poética, aqui nesse conto, Murilo Rubião trabalha com uma prosa poética fantástica. Dessa forma, ele provoca um balanceamento entre o poético e o fantástico, não descaracterizando o fantástico de sua obra, ao contrário, apenas enriquecendo-o.
        O primeiro estranhamento que podemos analisar se inicia como o modo do narrador descrever Bárbara, dizendo que “o crescimento do seu corpo se avolumava à medida que se ampliava sua ambição” (RUBIÂO, 1979, p. 33) e que seu corpo definhava “enquanto lhe crescia assustadoramente o ventre” (RUBIÂO, 1979, p. 34). O narrador, ao relatar a maneira como Bárbara vai adquirindo “formas mais amplas”, (RUBIÂO, 1979, p. 33) consegue provocar estranhamento no leitor, pois a imagem de Bárbara é insólita, é fantasiosa. No entanto, a hesitação finalmente toma seu ápice quando a personagem Bárbara faz o seu primeiro pedido: ela queria um oceano. Seu marido, sem nenhuma objeção, parte no mesmo dia rumo ao litoral para lhe satisfazer a vontade. O que não acontece literalmente, pois o marido de Bárbara com medo de ela engordar proporcionalmente ao pedido, traz-lhe somente “uma pequena garrafa contendo água do oceano” (RUBIÂO, 1979, p. 35) e ela fica satisfeita.
        O espaço ficcional que esse pedido nos apresenta causa um estranhamento duplo: primeiro, em consequência da personagem pedir o oceano, sendo algo inacessível de se ter para si, e, segundo, pela imensidão horizontal enorme que esse apresenta, uma imensidão não absorvida em sua totalidade.
        Depois do primeiro pedido de Bárbara ter sido atendido, o marido apreensivo volta a relatar como o corpo da protagonista sofre mudanças cada vez mais assustadoras. A descrição da metamorfose de Bárbara é feita de forma totalmente fantástica. Os próprios adjetivos e substantivos atribuídos ao novo corpo colaboram para o absurdo da situação, como “gordíssima”, “colossal barriga”, “terrivelmente gorda” e “excessiva obesidade”.  
        O corpo de Bárbara é um corpo heterotópico, multiforme em seu alargamento e surpreende pela sua metamorfose. Seguindo o pensamento de Foucault (2001), o espaço utópico é o que representa o desejo da sociedade aperfeiçoada, ou seja, o da irrealidade. Assim sendo, o desejo da sociedade é que ela não mais formulasse seus desejos e não engordasse, que ficasse com um corpo utópico. Assim, a personagem Bárbara não se enquadrava no desejo linear e esperado pela sociedade, como um corpo perfeito e sem mutações.
        O segundo pedido de Bárbara é ter um “baobá”, que se encontra no terreno ao lado de sua casa, no terreno alheio, proibido. O baobá “era demasiado frondoso, medindo cerca de dez metros de altura” (RUBIÂO, 1979, p.36). O espaço que essa árvore ocupa é de extensão vertical estrondosa. E o fato da personagem o querer para si é estranho, mas já coerente, se levarmos em conta que o seu primeiro pedido consistiu em ter um oceano. Dessa forma, o sobrenatural que Murilo Rubião propõe nesse conto é aceito e isso caracteriza, conforme Todorov, o fantástico maravilhoso.
        O terceiro pedido de Bárbara é um navio, uma embarcação de grande porte. A espacialidade desse objeto se assemelha ao primeiro pedido, o “oceano”, porque ambos possuem uma extensão horizontal e remetem à água. Mar/oceano e navio/barco, de acordo com Foucault (2001), são espaços heterotópicos por excelência. Para conceder o terceiro pedido, o marido faz muito esforço. Como consequência, Bárbara continuava a engordar ainda mais na proporção dos seus desejos.
        O quarto pedido da protagonista foi “uma minúscula estrela”, astro com luz própria e, mais uma vez, um desejo inacessível. Mas o narrador-marido, surpreendentemente, fica feliz porque o pedido de Bárbara foi o de conseguir “apenas” uma “minúscula estrela”, quase invisível a olho nu, já que ele supôs que ela fosse pedir a lua. E ele nos relata: “Fui buscá-la” (RUBIÂO, 1979, p. 39). Não determinamos esse como o seu último desejo, ainda que a narrativa termine logo depois do enunciado do marido. Nas narrativas de Rubião, quase nunca há conclusões e esse conto segue este padrão. Em suas narrativas surge sempre uma experiência extra para dar continuidade aos fatos. A espacialidade da estrela volta á dimensão vertical como o baobá. Nesse sentido, as espacialidades, embora todas imensamente estranhas pela dimensão que ocupam, seguiram um ciclo vertical horizontal, sugerindo o desejo da protagonista de tudo abarcar, para todos os lados, de todas as formas, heterotopicamente.

Entendendo o conto:
01 – Com base na leitura e análise do conto “Bárbara”, classifique as afirmações seguintes de verdadeiras ou falsas:
a)   (F) Trata-se de um conto narrado na terceira pessoa.
b)   (F) A mania de pedir coisas surgiu quando Bárbara estava grávida.
c)   (F) Na infância, Bárbara era franzina e nada pedia ao narrador.
d)   (V) Desde menina, Bárbara comprazia-se em pedir coisas absurdas ao narrador; à medida que os pedidos eram satisfeitos, engordava.
e)   (F) O filho de Bárbara nasceu raquítico porque o narrador recusou-se a dar à esposa o oceano que ela pediu na gravidez.
f)    (F) Bárbara deu à luz um filho gigante.

02 – Com base na leitura e análise do conto “Bárbara”, classifique as afirmações de verdadeiras ou falsas:
a)   (F) O filho de Bárbara era feio e raquítico; por isso, ela não o aceitou.
b)   (V) Bárbara recusava-se a aceitar o filho porque ele não era fruto de um pedido dela.
c)   (F) O filho de Bárbara cresceu rapidamente graças à fartura de leite que encontrou nos seios da mãe.
d)   (F) Bárbara pediu uma árvore ao narrador, mas contentou-se apenas com um pequeno galho da planta.
e)   (F) Bárbara exigiu que a árvore fosse transplantada para o quintal dela, e o narrador obedeceu.
f)    (F) O filho de Bárbara cresceu rapidamente e engordava tal qual a mãe.

03 – Com base na leitura e análise do conto “Bárbara”, classifique as afirmações seguintes de verdadeiras ou falsas:
a)   (F) O narrador descobriu uma maneira de fazer Bárbara emagrecer; bastava leva-la ao cinema ou ao estádio de futebol.
b)   (F) Bárbara só emagreceu quando pediu um navio ao narrador e teve o seu pedido frustrado.
c)   (F) O narrador comprou um navio para Bárbara, mas não pode montá-lo por falta de terreno.
d)   (V) Depois que o navio foi montado, Bárbara mudou-se para a embarcação e não desceu mais à terra.
e)   (F) Com a compra do navio, faltava dinheiro até para a alimentação. Só assim, passando fome, Bárbara conseguiu emagrecer.

04 – Com base na leitura e análise do conto “Barbara”, classifique as afirmações seguintes de verdadeiras ou falsas:
a)   (F) A história termina quando Bárbara pede a lua ao narrador.
b)   (F) O narrador desiste de Bárbara quando ela lhe pede a lua.
c)   (F) O narrador desiste de Bárbara quando ela lhe pede uma estrela.
d)   (V) Bárbara pede coisas absurdas ao narrador; também absurdo é o fato de ele satisfazê-la a qualquer custo.
e)   (V) Para Bárbara, o filho era mais importante que a sua obsessão pelos pedidos.

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