quinta-feira, 1 de março de 2018

TEXTO: CONSUMO- O MUNDO DA SEDUÇÃO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

TEXTO:  CONSUMOO MUNDO DA SEDUÇÃO
               Carlos Drummond de Andrade


       É verão. Um rapaz está na praia. Passam por ele várias meninas bonitas que o ignoram. O calor é intenso e ele resolve tomar um refrigerante da marca X. De repente, como num passe de mágica, várias meninas bonitas se aproximam dele com olhar apaixonado. Penduradas em seu pescoço, provam do refrigerante, dizendo: “Torne o seu verão mais quente com o refrescante refrigerante X”. A publicidade cria mundos imaginários?

                       CRÔNICA: OLHADOR DE ANÚNCIO

        Eis que se aproxima o inverno, pelo menos nas revistas, cheias de anúncios de cobertores, lãs e malhas. O que é o desenvolvimento! Em outros tempos, se o indivíduo sentia frio, passava na loja e adquiria os seus agasalhos. Hoje são os agasalhos que lhe batem à porta, em belas mensagens coloridas.
        E nunca vêm sós. O cobertor traz consigo uma linda mulher, que se apresta para se recolher debaixo de sua “nova textura antialérgica”, e a legenda: “Nosso cobertor aquece os corpos de quem já tem o coração quente”. A mulher parece convidar-nos: “Venha também”. Ficamos perturbados. Faz calor, um calor daqueles. Mas a página aconchegante instala imediatamente o inverno, e sentimo-nos na aflita necessidade de proteger o irmão corpo sob a maciez desse cobertor, e...
        Não. A mulher absolutamente não faz parte do cobertor, que é que o senhor estava pensando? Nem adianta telefonar para a loja ou para a agência de publicidade, pedindo endereço da moça do cobertor antialérgico de textura nova. Modelo fotográfico é categoria profissional respeitável, como outra qualquer. Tome juízo, amigo. E leve só o cobertor.
        São decepções de olhado de anúncios. [...].
        Mas sempre é bom tomar conhecimento das mensagens, passada a frustração. É o mundo visto através da arte de vender. “As lojas fazem tudo por amor”. Já sabemos, pela estória do cobertormulher (uma palavra só) que esse tudo é muito relativo. “Em nossas vitrinas a japona é irresistível “Então, precavidos, não passaremos diante das vitrinas. E essa outra mensagem é, mesmo, de alta prudência: “Aprenda a ver com os dois olhos”. Precisamos deles para navegar na maré de surrealismo que cobre outro setor de publicidade: “Na liquidação nacional, a casa X tritura preços”. Os preços virando pó, num país inteiramente líquido: vejam a força da imagem. Rara espécie de animal aparece de repente: “Comprar na loja Y é supergalinha-morta”.
        Prosseguimos, invocados, sonhando “o sonho branco das noites de julho”: “Ponha uma onça no seu gravador”. “A alegria está no açúcar”. “Pneu de ombros arredondados é mais pneu”. “Tip-top tem sabor do céu”. “Use nossa palmilha voadora”. “Seus pés estão chorando por falta das meias Rouxinol, que rouxinolizam o andar”. “Neste relógio, você escolhe a hora”. “Ponha você neste perfume”. “Toda a sua família cabe neste refrigerador e ainda sobra lugar para o peru de Natal”. “Sirva nossa lingerie como champanha; é mais leve e mais espumante”.
        O olhador sente o prazer de novas associações de coisas, animais e pessoas; e esse prazer é poético. Quem disse que a poesia anda desvalorizadas? A bossa dos anúncios prova o contrário. E, ao vender-nos qualquer mercadoria, eles nos dão de presente “algo mais”, que é produto da imaginação e tem serventia, como as coisas concretas, que também de pão abstrato se nutre o homem.

                          Carlos Drummond de Andrade. O poder ultrajovem.
                                             Rio de Janeiro: Record, 1986. P. 151-2.

1 – A crônica “Olhador de anúncio”, como é próprio do gênero, nasce da observação de situações do cotidiano e promove reflexões sobre a realidade.
      a)   Que fato despertou inicialmente a atenção do narrador e serve para introduzir o assunto da crônica lida?
A presença de anúncios de produtos de inverno (cobertores, lãs e malhas) em revistas.

       b)  Que tipo de reflexão o texto promove sobre a realidade?
O texto promove uma reflexão sobre os mecanismos de persuasão (convencimento) da publicidade.

2 – No primeiro parágrafo, o narrador diz:” Eis que se aproxima o inverno, pelo menos nas revistas”. Depois, nesse parágrafo e no seguinte, descreve e comenta o anúncio do cobertor.
    a)  Explique por que o narrador emprega a expressão pelo menos nesse contexto.
Emprega a expressão pelo menos porque não está fazendo frio. Esta calor, mas, nas revistas, já começou a campanha publicitária de inverno.

    b)   Levante hipóteses: Provavelmente, como o narrador completaria a frase “e sentimo-nos na aflita necessidade de proteger o irmão corpo sob a maciez desse cobertor, e...”?
Resposta pessoal.

    c)   Conclua: De que recursos – argumentos, imagens, sensações, etc. – o anunciante se vale para convencer o leitor a consumir o cobertor anunciado?
Os recursos são diversos; eles tentam seduzir o consumidor pelo tato, sugerindo a “nova textura antialérgica”, pelas emoções (“o coração quente”) e pelo erotismo (“venha também”).

3 – Observe o quinto parágrafo do texto. Nele, há várias frases entre aspas, seguidas de outras frases, sem aspas, como neste caso:
        “As lojas fazem tudo por amor. Já sabemos, pela estória do cobertomulher (uma palavra só) que esse tudo é muito relativo”.
      a)   Explique: Por que a afirmação de que “esse tudo é muito relativo”?
O texto deixa claro que a mulher não vai junto com o cobertor; a imagem dela no anúncio é apenas uma forma de atrair a atenção do consumidor.

       b)   O que lembram as frases entre aspas nesse parágrafo?
Slogans utilizados em vários anúncios publicitários.

        c)   Qual é o papel das frases que se seguem às frases entre aspas?
São comentários do narrador sobre os slogans, feitos com o propósito de procurar desmascarar o argumento utilizado pelo anúncio.

4 – Observe estes slogans publicitários destacados pelo narrador:
        - “o sonho branco das noites de julho”
        - “A alegria está no açúcar”
        - “[...] meias Rouxinol, que rouxinolizam o andar”
        - “Sirva nossa lingerie como champanha”

        a) O que esses slogans têm em comum?
            Todos eles procuram associar ao produto uma ideia positiva:
         “sonho branco”, “alegria”,”rouxinolizam”, “champanha”.

       b)Por que o narrador vê semelhança entre esses slogans e a poesia?
    Professor: Sugerimos abrir a discussão com a classe, pois pode ser que alguns alunos tenham dificuldade para responder a questão. Conforme o texto, “O olhador sente o prazer de novas associações de coisas, animais e pessoas; e esse prazer é poético”. Ou seja, a publicidade, assim como a poesia, trabalha a linguagem explorando associações, como as metonímias e as metáforas.

5 – No último parágrafo, o narrador afirma que os anúncios, ao nos venderem mercadorias, nos presenteiam com “algo mais”.
        a)  De acordo com o texto, esse “algo mais” é produto do que?
Esse “algo mais” é produto da imaginação do olhador, origina-se do desejo dele de sonhar ou de se transportar para um mundo especial, sensível, poético.

      b)  Explique a frase final do texto: “que também de pão abstrato se nutre o homem”.
Professor: Sugerimos abrir a discussão com a classe. O narrador se refere à necessidade que o ser humano tem de viver momentos de poesia, sonhar, imaginar, transportar-se para outros mundos.

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