Texto: Conversa com o mar – Fragmento
Aníbal M. Machado
“Hoje vim mais cedo continuar a nossa
conversa. Trouxe banana e sanduíche, posso ficar mais tempo”.
Abriu o embrulho de comestíveis: “Vim como ontem, tal como me vês.” Estranho que outros não estejam aqui a te contemplar. Nem me lembro bem como foi a nossa conversa de ontem, pois a noite veio tão depressa e o sono, que até pensei que a mamãe estava perto. Eu deixei meus pais, um avô e três tias no planalto e ainda não sei dizer se fico por aqui. Sonhei com um peixe que me chamava. Foi quando escureceu que eu senti tua noite mais profunda que as noites da montanha. Agora vejo por que os namorados abusam tanto de teu luar. Mas não sei o teu mistério...
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpRQYwOEdQz1xEiym1weB-icBxyFyOKqk-r6yfWk3YbHfBaG4d8yNwkv2Kf0Aywpi-f6fnwSFqV8hTQCGm5T7P0-QYnkeWOsZ0ZZZm5xAaDyZ9OGPu3TtkqgJPzlTN-pL2IHCPThV_oA-fTqBrHXc9O1C5azCwwqEDxON8NKZVFxv1a0NRlvnNiK4kGYM/s320/images.jpg Será que vais guardar
esse jeito assim tão novo? Lá em casa, quando se ouvia a palavra mar, meu avô
se levantava agitado e perguntava se não estávamos sentindo cheiro de maresia.
E quando vinha o temporal, a casa boiava entre os vagalhões da Mantiqueira. Ah,
meu avô nunca disse por que se afastou de tuas águas!... Tu, agora, tão perto,
tão perto!... Os astros passam alto, as nuvens correm longe, o vento a gente
nem vê... Tu, não... tu chegas pertinho, e ficas. Agachar e brincas nas tuas
águas assusta. Custo acreditar que esteja tocando a tua pele. Pensar que
terminas nos meus dedos!... Outro dia me assustei também quando levantei os
olhos da pedra de uma igreja enorme. Mar, o que eu queria te dizer é que
pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. Posso um dia optar pelas
tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência...
As ondas mudando de cor. Ou seria
perturbação da vista. Começou a mastigar outra banana.
“Acho que aí no fundo, nas raízes do
rochedo, não há dor nem alegria. Se o rochedo falasse!...”.
Anibal M. Machado. João
Ternura. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 143.
Entendendo o texto:
01
– O texto é construído a partir da fala direta de uma personagem com o oceano ("Hoje
vim mais cedo continuar a nossa conversa..."). Qual recurso
estilístico fundamenta esse tipo de interlocução e de que maneira ele revela o
estado emocional e o isolamento da personagem?
O recurso
estilístico fundamental é a prosopopeia (ou personificação), em que o mar é
dotado de capacidade de escuta e presença quase humana ("Custo acreditar
que esteja tocando a tua pele"). Essa conversa unidirecional evidencia um
profundo isolamento e solidão: distante da família que ficou no planalto, a personagem
não encontra interlocutores humanos e busca no mar um ouvinte para suas
angústias, incertezas e desejos de evasão.
02
– Analise como o texto estabelece uma oposição entre o espaço de origem da
personagem (o planalto e a Mantiqueira) e o novo espaço em que ela se encontra
(a beira-mar). Qual é o significado simbólico do mar nessa transição?
O espaço de
origem (a montanha/Mantiqueira) representa a memória familiar, as raízes e a
proteção do lar ("Lá em casa..."). Em contrapartida, o mar representa
o desconhecido, o fascínio e o mistério ("não sei o teu
mistério..."). A transição do interior para o litoral simboliza uma
ruptura com o passado familiar e a atração por um elemento dinâmico e tátil
("tu chegas pertinho, e ficas"), que contrasta com a distância
imutável dos astros e das nuvens.
03
– No trecho final do diálogo, a personagem faz uma reflexão profunda sobre a
sua condição humana e o fundo do mar ("Posso um dia optar pelas tuas
águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência..."). Como essa
fala pode ser interpretada sob a perspectiva da evasão da realidade?
A fala expressa
um desejo de evasão radical e anulação do sofrimento. A personagem declara
pertencer a uma "espécie aborrecida" e vislumbra o fundo do mar como
um lugar neutro, pacífico e livre de angústias ("não há dor nem
alegria"). O ato de mergulhar e "ficar" surge como uma ideia de
refúgio definitivo ou dissolução da existência, no qual o esquecimento social
("Ninguém vai notar a ausência") funcionaria como libertação do peso
de viver.
04
– Qual é a importância da figura do avô nas lembranças trazidas pela personagem
e como essa memória se conecta com a presença do mar no presente?
O avô surge como
uma figura de conexão ancestral e misteriosa com o mar. Mesmo vivendo no
interior, a palavra "mar" o deixava agitado e à procura do
"cheiro de maresia", fazendo com que a própria casa parecesse boiar
nos "vagalhões da Mantiqueira". A lembrança do avô, que nunca
explicou por que se afastou das águas, lança uma aura de herança psicológica
sobre a personagem: ela parece dar continuidade à mesma atração enigmática que
o avô sentia, vivendo agora fisicamente a proximidade que ele apenas evocava na
memória.
05
– Identifique no fragmento dois recursos de linguagem que reforçam a dimensão
sensorial da experiência da personagem ao lado do mar.
A Sensopercepção
Tátil: O uso de metáforas que atribuem ao mar características físicas e
biológicas, como em "tocando a tua pele" e "terminas nos meus
dedos", tornando concreta e íntima a relação do corpo com a água.
A Percepção Visual e
Cromática: A observação do dinamismo das ondas e da luz ("As ondas mudando
de cor", "abusam tanto de teu luar"), aliada a atos cotidianos
simples como "mastigar outra banana", que contrapõem a grandiosidade
da natureza ao gesto humano comum.
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