Poesia: O DIA DA CRIAÇÃO – I – Fragmento
Vinícius de Moraes
Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNq5IT9q-Acd0WTglZNSDbRChQvdhROTXddUY5pTM_b5VVBanAQPGn1mYI6evz4rLTNP9ZLYHx4iCcABugm3zSJmNSo8Q-mVV_l-M_YyxfeD2WoOCFrN6raHDYi35x4KiuMLIJW5K6Kj5HLKrEmcMAWQ2DPvSxu1gvWIxpQyhbujRqi0jJPPcUAicJyB8/s320/images.jpg Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
[...]
Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.
Entendendo a poesia:
01
– O poema traz como epígrafe o trecho "Macho e fêmea os criou"
(Gênese 1, 27). Como essa citação da Bíblia dialoga com a última estrofe do
fragmento lido, na qual o eu lírico descreve o comportamento de homens,
namorados, maridos e mulheres?
A epígrafe resgata o mito
judaico-cristão da criação perfeita da humanidade por Deus. No entanto, o poema
subverte essa perfeição ao contrastá-la com o cotidiano humano no sábado. Na
última estrofe, a divisão em "macho e fêmea" ganha contornos de
rotina, tédio e automatismo: homens "vazios" nos bares, maridos
"funcionando regularmente" e mulheres em estado de permanente alerta.
A intertextualidade expõe o contraste entre o ideal sagrado da criação divina e
a realidade profana, mecânica e desencantada do mundo moderno.
02
– Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Amanhã não gosta de ver
ninguém bem / Hoje é que é o dia do presente". Qual é a visão de tempo
apresentada nesses versos e como ela justifica a relevância do sábado?
A visão de tempo
apresentada é a do imediatismo (carpe diem). O eu lírico enxerga o futuro
("amanhã", o domingo) com desconfiança e apreensão, associando-o ao
término do descanso, ao dever ou à incerteza. Em contrapartida, o sábado é o
"dia do presente", a única realidade tangível e vivível. Essa
percepção justifica a relevância do sábado como o dia em que todas as emoções,
fugas e excessos devem acontecer intensamente, pois o amanhã representa a
interrupção desse estado de suspensão.
03
– Nos versos "Os bondes andam em cima dos trilhos / E Nosso Senhor
Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar", o eu lírico aproxima um
fato cotidiano banal a um evento central da fé cristã. Qual é o efeito de
sentido produzido por essa aproximação?
O efeito de
sentido é a ironia e a denúncia da banalização do sagrado. Ao colocar no mesmo
patamar sintático e descritivo o movimento mecânico dos bondes e o sacrifício
supremo de Cristo, o poema revela como a sociedade moderna automatizou até
mesmo os dogmas religiosos. O sacrifício divino passa a ser visto apenas como
mais um dado ordinário da realidade, desprovido do seu impacto espiritual
transformador diante da rotina previsível e fria da cidade.
04
– Na última estrofe, o eu lírico menciona que "Neste momento todos os
bares estão repletos de homens vazios". Como o uso dessa imagem
contribui para a caracterização do sábado e da condição humana no poema?
A imagem cria um
paradoxo significativo: o espaço físico (os bares) está "repleto",
mas o conteúdo humano que o ocupa é "vazio". Isso demonstra que a
busca pelo lazer, pela bebida e pela sociabilidade no sábado muitas vezes não
passa de uma tentativa fútil de preencher um vazio existencial ou compensar a
opressão da rotina semanal. A expressão reforça a ideia de que, sob a aparente
descontração e vivacidade do sábado, subjaz uma profunda solidão e falta de
sentido na vida moderna.
05
– A frase "Hoje é sábado, amanhã é domingo" abre as três
primeiras estrofes do fragmento. Qual é a função dessa repetição na construção
do ritmo e do significado do texto?
A repetição
constante dessa constatação temporal funciona como um refrão que marca o ritmo
de uma ciranda ou de um martelar diário. Significa a inexorabilidade do tempo:
o tempo passa de forma mecânica e inevitável, independentemente dos dramas
humanos. A frase reafirma o sábado como uma constante que rege a conduta de
todos os indivíduos, servindo de gancho para que o eu lírico desenvolva suas
reflexões sobre a brevidade da vida, a necessidade de viver o presente e a
impossibilidade de fugir da "dura realidade".
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