quinta-feira, 27 de agosto de 2026

CRÔNICA: PAÍS RICO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: PAÍS RICO

            Lima Barreto 

 

        Meu amigo e colega Juvenal Calheiros é um pai exemplar que cuida com toda a solicitude da educação dos filhos.

        Procura bons colégios, informa-se dos professores, segue as lições dos meninos – isto tudo sem o menor desfalecimento.

        De resto, ele é um patriota, crente na grandeza do Brasil, nas suas riquezas e no seu futuro; põe, portanto, todo o seu esforço em instilar no espírito dos seus pimpolhos essa sua forte e virtuosa crença.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhI-rFbHwqv8MZF3KLJqc9nHUIBKIQvpUvdzUmyXI2Vi2IzrI1mX4gt3K5L881HEh6nEQtMwnsnIXQIqMI8EfNVS612I0zR-kKRMpVLTSEoKJ1nMbpf7cQY07bD1zRzwazzsO6swJbUar4zeMtx-4mJZQ5vdpmglmlz8zAiToUhzvJVcsM_aPClgtG1sA4/s320/images.jpg


        Damo-nos muito, desde o colégio primário, e frequento-lhe a casa, vivo na intimidade de sua família, o que me dá grande gosto, pois, não tendo propriamente família, aprecio muito a família dos outros.

        Não sendo rico, tem Juvenal alguma coisa e vive com certa abastança, em uma boa casa lá das bandas de Vila Isabel.

        Domingo, não tendo onde ir, nem mesmo às festanças da Quinta da Boa Vista, cujos recantos, cuja placidez, cuja majestade de parque principesco me encantam muito, quis ver o meu amigo.

        É preciso que eu lhes diga que não fui à quinta, porque não vou a lugares públicos quando se paga. Julgo que, po­dendo eu ir sem pagar a certo lugar, não vou gastar dinheiro para lá ir. Nesse ponto, não sou como o resto do Rio de Janeiro.

        Continuo a narração. Tomei o bonde conveniente e parti para a casa do meu amigo, apreciando o domingo, cheio de rapazes endomingados, de damas de laçarotes, de automóveis pejados de gente, de jogadores de football, de amadores de corridas, – gente feliz por ter um dia em que não faz nada.

        Cheguei em boa hora à casa do meu amigo que conversava na chácara com a família. Ainda liam, ele e os fi­lhos, os jornais.

        Não quis interromper-lhes a leitura e acertei um jornal para, relendo-o, não impedir a leitura deles.

        A dona da casa estava no interior tratando de negócios caseiros.

        Num dado momento, um dos filhos do meu amigo, descansando os jornais, perguntou ao pai:

        – Papai, o Brasil não é um país muito rico?

        – É.

        – Tem ferro?

        – Tem.

        – Tem cobre?

        – Tem.

        – Tem zinco?

        – Tem. Porque tu perguntas isso?

        – É que vejo os jornais muito indignados porque querem exportar ferro velho, cobre, etc. Se nós temos ferro, cobre na terra, porque tal zanga?

        A dona da casa veio convidar-nos para o almoço.

Careta, Rio, 31-7-1915.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador caracteriza seu amigo Juvenal Calheiros quanto à sua conduta como pai e em relação ao seu sentimento pelo Brasil?

      Juvenal é descrito como um pai exemplar e solícito, que acompanha de perto a educação dos filhos. Além disso, é um patriota convicto que acredita na grandeza, nas riquezas e no futuro do Brasil, buscando incutir essa mesma crença na mente dos filhos.

 

02 – Qual peculiaridade a respeito de si mesmo o narrador revela ao explicar por que decidiu visitar o amigo no domingo em vez de ir à Quinta da Boa Vista?

      O narrador afirma que não costuma frequentar lugares públicos onde se exige pagamento. Ele declara que, tendo a opção de ir a locais gratuitos, recusa-se a gastar dinheiro com passeios pagos, diferenciando-se, segundo ele, do "resto do Rio de Janeiro".

 

03 – Que aspecto da atmosfera urbana carioca em um dia de domingo é descrito pelo narrador durante o seu trajeto de bonde até Vila Isabel?

      O narrador descreve um ambiente de lazer e descontração, composto por rapazes trajando roupas de domingo, senhoras com laçarotes, automóveis cheios de passageiros, jogadores de futebol e torcedores de corridas — um público feliz por desfrutar de um dia livre de trabalho.

 

04 – Qual a dúvida trazida pelo filho de Juvenal que gera o diálogo final da crônica e qual a contradição perceptível nessa indagação?

      O filho questiona por que os jornais demonstram tanta indignação com a exportação de sucatas (ferro velho, cobre), sendo que o Brasil é um país rico em minérios em seu solo. A contradição está no contraste entre o discurso da abundância de riquezas naturais e a reação exagerada diante do comércio de ferro velho.

 

05 – De que maneira Lima Barreto utiliza a fala da criança e o desfecho da crônica para construir a ironia do texto?

      A inocência do menino expõe a fragilidade da retórica patriótica de que o Brasil é um "país rico": se o país é tão próspero, não faz sentido a indignação da imprensa pelo ferro velho. A interrupção abrupta da conversa para o almoço deixa a contradição sem resposta, usando o olhar infantil para ironizar o civismo ufanista da época.

 

 

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