Crônica: PAÍS RICO
Lima Barreto
Meu
amigo e colega Juvenal Calheiros é um pai exemplar que cuida com toda a
solicitude da educação dos filhos.
Procura
bons colégios, informa-se dos professores, segue as lições dos meninos – isto
tudo sem o menor desfalecimento.
De
resto, ele é um patriota, crente na grandeza do Brasil, nas suas riquezas e no
seu futuro; põe, portanto, todo o seu esforço em instilar no espírito dos seus
pimpolhos essa sua forte e virtuosa crença.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhI-rFbHwqv8MZF3KLJqc9nHUIBKIQvpUvdzUmyXI2Vi2IzrI1mX4gt3K5L881HEh6nEQtMwnsnIXQIqMI8EfNVS612I0zR-kKRMpVLTSEoKJ1nMbpf7cQY07bD1zRzwazzsO6swJbUar4zeMtx-4mJZQ5vdpmglmlz8zAiToUhzvJVcsM_aPClgtG1sA4/s320/images.jpg Damo-nos
muito, desde o colégio primário, e frequento-lhe a casa, vivo na intimidade de
sua família, o que me dá grande gosto, pois, não tendo propriamente família,
aprecio muito a família dos outros.
Não
sendo rico, tem Juvenal alguma coisa e vive com certa abastança, em uma boa
casa lá das bandas de Vila Isabel.
Domingo,
não tendo onde ir, nem mesmo às festanças da Quinta da Boa Vista, cujos
recantos, cuja placidez, cuja majestade de parque principesco me encantam
muito, quis ver o meu amigo.
É
preciso que eu lhes diga que não fui à quinta, porque não vou a lugares
públicos quando se paga. Julgo que, podendo eu ir sem pagar a certo lugar, não
vou gastar dinheiro para lá ir. Nesse ponto, não sou como o resto do Rio de Janeiro.
Continuo
a narração. Tomei o bonde conveniente e parti para a casa do meu amigo,
apreciando o domingo, cheio de rapazes endomingados, de damas de laçarotes, de
automóveis pejados de gente, de jogadores de football, de amadores de
corridas, – gente feliz por ter um dia em que não faz nada.
Cheguei
em boa hora à casa do meu amigo que conversava na chácara com a família. Ainda
liam, ele e os filhos, os jornais.
Não
quis interromper-lhes a leitura e acertei um jornal para, relendo-o, não
impedir a leitura deles.
A
dona da casa estava no interior tratando de negócios caseiros.
Num
dado momento, um dos filhos do meu amigo, descansando os jornais, perguntou ao
pai:
–
Papai, o Brasil não é um país muito rico?
–
É.
–
Tem ferro?
–
Tem.
–
Tem cobre?
–
Tem.
–
Tem zinco?
–
Tem. Porque tu perguntas isso?
–
É que vejo os jornais muito indignados porque querem exportar ferro velho,
cobre, etc. Se nós temos ferro, cobre na terra, porque tal zanga?
A
dona da casa veio convidar-nos para o almoço.
Careta, Rio, 31-7-1915.
Entendendo a crônica:
01 – Como o narrador
caracteriza seu amigo Juvenal Calheiros quanto à sua conduta como pai e em
relação ao seu sentimento pelo Brasil?
Juvenal é
descrito como um pai exemplar e solícito, que acompanha de perto a educação dos
filhos. Além disso, é um patriota convicto que acredita na grandeza, nas
riquezas e no futuro do Brasil, buscando incutir essa mesma crença na mente dos
filhos.
02 – Qual
peculiaridade a respeito de si mesmo o narrador revela ao explicar por que
decidiu visitar o amigo no domingo em vez de ir à Quinta da Boa Vista?
O narrador afirma
que não costuma frequentar lugares públicos onde se exige pagamento. Ele
declara que, tendo a opção de ir a locais gratuitos, recusa-se a gastar
dinheiro com passeios pagos, diferenciando-se, segundo ele, do "resto do
Rio de Janeiro".
03 – Que aspecto da
atmosfera urbana carioca em um dia de domingo é descrito pelo narrador durante
o seu trajeto de bonde até Vila Isabel?
O narrador
descreve um ambiente de lazer e descontração, composto por rapazes trajando
roupas de domingo, senhoras com laçarotes, automóveis cheios de passageiros,
jogadores de futebol e torcedores de corridas — um público feliz por desfrutar
de um dia livre de trabalho.
04 – Qual a dúvida
trazida pelo filho de Juvenal que gera o diálogo final da crônica e qual a
contradição perceptível nessa indagação?
O filho questiona
por que os jornais demonstram tanta indignação com a exportação de sucatas
(ferro velho, cobre), sendo que o Brasil é um país rico em minérios em seu
solo. A contradição está no contraste entre o discurso da abundância de
riquezas naturais e a reação exagerada diante do comércio de ferro velho.
05 – De que maneira
Lima Barreto utiliza a fala da criança e o desfecho da crônica para construir a
ironia do texto?
A inocência do
menino expõe a fragilidade da retórica patriótica de que o Brasil é um "país
rico": se o país é tão próspero, não faz sentido a indignação da imprensa
pelo ferro velho. A interrupção abrupta da conversa para o almoço deixa a
contradição sem resposta, usando o olhar infantil para ironizar o civismo
ufanista da época.
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