Diálogo: Sobre o João-de-barro
Língua falada: conversa entre duas
pessoas na praça
-- Você já viu um João-de-barro?
-- Eu já, porque lá no Norte tem
bastante.
-- Como é o ninho?
-- De barro.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjd_YQymnKCLWQ1AONwIBS0AmbbuIwzZ4kHrzkOaAey4k00BeA6qqGpJK8Gwu2iIS5eSwEl7_er-H_hTXm4e5UJ1V2fO5awdC8DfTzkNY2CICwlNd9GaRv_YA5UD4ORSmP64j_OUBwSDJXYha74-sEP9BJXukK8qPdYuHQJAQ4xk592-gBtvwUdRBY5M2k/s320/images.jpg -- Você sabe como ele faz?
-- Faz na árvore, de manhã cedo. Ele
vai na beira de um rio onde tem barro vermelho e mole.
-- E aí?
-- Aí ele começa a operação.
-- Que operação é essa?
-- De carregar o barro para cima da
árvore porque ele só faz em árvore. Ele vai levando o barro pra lá, é os dois
que faz.
-- Quem mais trabalha?
-- Parece que é o homem. Como a mulher
é menor que o homem, acho que é o homem.
-- Eles deixam alguém acompanhar o trabalho?
-- De longe.
-- Como é a casa deles?
-- A casa deles é de dois andares. Eles
fazem a sala e a cozinha. Na sala eles bota os ovinhos e na frente guarda um
monte de inseto, lagarta, pra alimentar os bichinho. Entendeu? Aí, quando eles
nascem, já tem um montão.
Língua escrita: João-de-barro
É admirável a habilidade com que esta
ave constrói a sua casa nos postes, nas traves das porteiras ou nos galhos de
árvores desnudas. O ninho consiste em uma bola de barro, dividida em dois
compartimentos. A porta, que permite ao pássaro entrar sem se abaixar, impede
que o vento atinja o interior, pois é sempre voltada para o norte. Macho e
fêmea ocupam-se ativamente da construção, transportando grandes bolas de barro
que são amassadas com os bicos e com os pés. No compartimento maior, forrado
com musgo, cabelos e penas, a fêmea deposita de 3 a 4 ovos brancos, três vezes
ao ano.
O joão-de-barro é pouco menor que um
sabiá, porém, mais delgado. Sua cor é cor de terra, com a garganta branca e a
cauda avermelhada. É uma ave alegre que gosta de conviver com o homem. vivem em
casais e passam os dias a gritar, em curiosos duetos.
Lúcia Helena Salvetti De Cicco. Disponível em: http://www.saudeanimal.com.br/jbarro_print.htm. Acesso em: set. 2002.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 204-205.
Entendendo o diálogo:
01
– Compare o primeiro texto (conversa na praça) com o segundo (texto
expositivo/informativo) e identifique duas marcas típicas da linguagem oral
presentes no diálogo que foram eliminadas na versão escrita formal.
No diálogo oral
observam-se várias marcas de informalidade e espontaneidade, tais como:
Desvios de concordância
verbal e nominal: Uso de construções como "é os dois que faz",
"eles bota" e "os bichinho";
Uso de conectivos e
marcadores de sequenciação típicos da fala: Repetição da palavra "aí"
("E aí?", "Aí ele começa...", "Aí, quando eles
nascem...") e vocativos/expressões de checagem de atenção ("Entendeu?").
No segundo texto, por
tratar-se da norma-padrão da língua escrita, essas marcas foram totalmente
substituídas por concordâncias gramaticais corretas e por uma estrutura frasal
mais formal e fluida.
02
– Quanto à divisão do trabalho entre o macho e a fêmea na construção do ninho,
como o conhecimento popular expresso no diálogo diverge da informação
explicitada no texto expositivo em língua escrita?
No diálogo oral,
o interlocutor apoia-se em uma suposição empírica/popular baseada em papéis de
gênero tradicionais humanas: ele supõe que o macho trabalha mais por ser maior
("Parece que é o homem. Como a mulher é menor que o homem, acho que é o
homem"). Já o texto escrito científico/expositivo apresenta um fato
biológico verificado: ambos os sexos colaboram ativamente e de forma
equivalente na construção ("Macho e fêmea ocupam-se ativamente da
construção, transportando grandes bolas de barro...").
03
– Ambos os textos descrevem a arquitetura do ninho do joão-de-barro. Compare as
explicações dadas nos dois textos para os dois compartimentos da
"casa" da ave.
No diálogo
(língua falada), o interlocutor utiliza termos do universo doméstico humano
para descrever o ninho: afirma que a casa tem "dois andares" com
"sala e cozinha", dizendo que a sala guarda os ovos e na frente
(cozinha) acumulam-se insetos para os filhotes. No texto escrito, a explicação
é objetiva e biologicamente precisa: descreve um ninho dividido em dois
compartimentos em que a porta é estrategicamente posicionada para bloquear o
vento, e o compartimento maior é forrado com musgo, cabelos e penas para o
depósito e incubação de 3 a 4 ovos.
04
– De acordo com o texto em língua escrita, onde o joão-de-barro costuma
construir seu ninho e como essa informação amplia o que foi afirmado pelo
entrevistado na conversa de praça?
Na conversa de
praça, o entrevistado afirma categoricamente que o joão-de-barro "só faz
em árvore". O texto em língua escrita amplia e corrige essa visão ao
demonstrar a capacidade adaptativa da ave e sua convivência com o meio
urbano/humano, explicando que ela constrói seus ninhos não apenas nos galhos de
árvores desnudas, mas também em estruturas criadas pelo homem, como postes e
traves de porteiras.
05
– O texto em língua escrita traz detalhes sobre o aspecto físico e o
comportamento da ave que não foram mencionados na conversa oral. Quais são
essas características?
O texto escrito
detalha a aparência física da ave (pouco menor que um sabiá, porém mais
delgado, cor de terra, com garganta branca e cauda avermelhada) e seu
comportamento social: destaca que é uma ave alegre, que vive em casais, gosta
de conviver perto do homem e passa os dias emitindo vocalizações em
"curiosos duetos". No diálogo oral, a descrição limita-se ao hábito
do pássaro de buscar barro vermelho na beira do rio.
06
– Análise a escolha de palavras no segundo texto. De que modo a seleção de
termos como "admirável", "desnudas", "delgado" e
"compartimentos" define a tipologia e o objetivo do texto em língua
escrita?
A seleção vocabular
formal e precisa caracteriza o texto como expositivo-informativo com marcas de
apreciação poética/descritiva. O uso desse repertório erudito atende à
norma-padrão da língua escrita, buscando transmitir informações claras e
organizadas ao leitor sobre a biologia da ave, ao mesmo tempo que expressa um
tom de encanto e valorização da natureza.
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