Artigo de opinião: A diversidade como riqueza – Fragmento
— Estava aqui pensando... A gente acaba
convivendo com tantas coisas diferentes no dia a dia...
— Será que ainda vamos entender tudo
isso?
— E, mesmo que a gente entenda, será
que vamos ter de achar tudo bom?
— Deus me livre! Só faltava eu ter de
gostar de miolo! Será que não vamos mais poder fazer só o que gostamos?
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEha-ch7f17xKVCqvsQymy5gn5JulpGbTvEKRYS7ce-3yu3PIcfNnsyl53DRCGhggy7mukf-QwCx-tup5on5YhFmXmzTEpcql6_LJslsT9SEv-j3YbjAm2QbEriIjxdXShG98WxkKsyCeHd0w1t6xJb-RCKgSL8KxHeeknNzAZqApXYTSsYuW5vTreEWMAc/s320/images.jpg Gostar de tudo é a questão que queremos
discutir, afinal gostamos mais daquilo com que estamos acostumados. Se desde
pequenos comemos bife e batata frita, vai ser difícil passarmos a comer miolo.
Entretanto, acredite, há pessoas que gostam de miolo!
Do mesmo jeito, se só vemos filme de
ação, será que vamos acompanhar com prazer um filme que se desdobra lentamente,
por meio da apresentação de aspectos psicológicos dos personagens? Mas, por sua
vez, tem gente que gosta tanto de drama como de comédia, de ficção científica e
até de filmes de arte.
Com relação a pessoas acontece o mesmo:
gostamos dos nossos amigos porque temos alguma coisa em comum com eles, porque
desenvolvemos uma relação de amizade ao longo do tempo, não de uma hora para
outra. O que não quer dizer que as únicas pessoas legais do mundo sejam os
nossos amigos! Existem muitas outras pessoas que podemos conhecer e admirar!
O importante é compreender que a
diversidade existente no mundo é uma riqueza, é uma fonte inesgotável de novas
possibilidades para cada um de nós. Conhecer outros modos de pensar, de viver,
de falar, de crer nos dá a possibilidade de ver o mundo por uma perspectiva
diferente daquela com a qual estamos acostumados. Dessa forma a nossa
compreensão do mundo se amplia e temos a oportunidade de escolher como queremos
conduzir a nossa vida.
Assim
como temos o direito de ser a pessoa que somos e de escolher o que queremos
para nós, os outros também têm esse mesmo direito. Portanto, o respeito mútuo é
a chave da vida em sociedade: respeito pela natureza, por todos os seres
humanos, pelas diferentes culturas como expressões de experiências de vida e de
necessidades diversas.
[...]
Considerando o mundo cultural, vemos
que a riqueza se torna quase infinita. Da Pré-História até nossos dias, quantas
realizações humanas! Realizações políticas, religiosas, artísticas.
Acrescentam-se as formas de convivência social, familiar, os hábitos de nossa
vida diária, os costumes que regem nossa alimentação. Quantas línguas foram
criadas nesse espaço de tempo! A criatividade humana é realmente inesgotável e
é a pluralidade cultural que torna o mundo atraente, interessante, curioso e
surpreendente.
Cada um de nós nasce e cresce dentro de
uma cultura, aprendendo a língua materna seguindo hábitos e costumes de um
determinado grupo, crendo em certos princípios e dogmas religiosos. Essa
cultura comum fortalece os laços entre os indivíduos do grupo, faz com que eles
pensem não só como pessoas isoladas, mas também como um conjunto que partilha
uma mesma visão de mundo, os mesmos valores.
Toda
essa herança cultural pode ser transformada, alargada em seus horizontes, ao
contrário de nossa herança genética, que não pode ser mudada, pelo menos por
enquanto. Conhecer uma outra cultura é quase como tornar-se criança outra vez:
é enxergar a realidade por outros olhos. Exige de nós o esforço de nos
colocarmos dentro de um outro sistema de valores, de usos e costumes para
tentar compreendê-los em sua lógica interna.
Do ponto de vista cultural, não existe
cultura certa e cultura errada, superior ou inferior. A cultura do Rio Grande
do Sul, por exemplo, não é melhor ou pior do que a cultura do Piauí, assim como
a cultura norte-americana e a europeia não são superiores à cultura brasileira.
Cada cultura é adequada ao grupo que a cria para expressar a visão de mundo
específica desse grupo.
Muitas vezes, o modo pelo qual nos
habituamos a viver, a pensar o mundo e a nos relacionar com o divino pode nos
parecer como sendo o único modo certo. Entretanto, os outros modos culturais não
são errados, são apenas diferentes. Não precisamos adotá-los, só respeitá-los,
reconhecendo que têm tanto valor quanto os nossos. Comer
com hashi (aqueles pauzinhos japoneses) é diferente de comer com os
dedos ou com a colher e o garfo. Só isso.
É
claro, porém, que cada cultura propõe valores que sempre podem ser analisados
no sentido de saber se são adequados a toda a humanidade. Sabemos que existem
obras de cultura que promovem a violência, o racismo, o preconceito. É só
ligarmos a televisão para encontrarmos exemplos disso em filmes, novelas e
programas de variedades. Essa “cultura” precisa ser recusada porque nos leva à
barbárie, ao caos, e não nos ajuda a nos tornar mais humanos. Cultura é “aquilo
que é cultivado, cuidado”, que cimenta as relações humanas e ajuda a criar uma
sociedade mais justa.
O conhecimento de outras culturas,
portanto, nos torna mais flexíveis, mais tolerantes, mais respeitosos. Acima de
tudo, esse conhecimento nos possibilita descobrir do que realmente gostamos e
do que não gostamos; afina o nosso gosto, abre alternativas para a construção
de um projeto de vida mais rico, diferente e único. Porque é o nosso projeto,
de ninguém mais.
Conhecimento sozinho não basta. É
necessário que ele venha acompanhado da prática cotidiana do respeito e da
tolerância por todos aqueles que são diferentes de nós ou que pensam de modo
diferente, a partir de outros valores igualmente humanos.
Maria Helena Pires Martins. Somos todos diferentes!: convivendo com
a diversidade do mundo. São Paulo: Moderna, 2001.p.42-6. (Aprendendo a
com-viver).
Entendendo
o artigo:
01
– De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:
-- Dogmas: crenças.
-- Barbárie: selvageria.
02
– O texto é construído com base em uma ideia central.
a) Que
ideia é essa?
A diversidade
cultural e de opiniões é uma riqueza que amplia nossa visão de mundo e deve ser
acompanhada pelo respeito mútuo.
b) De
acordo com o texto como as pessoas devem agir em relação à diversidade cultural?
Com respeito,
tolerância e flexibilidade, reconhecendo que os hábitos e opiniões alheios têm
tanto valor quanto os nossos, mesmo que não precisemos adotá-los.
c) Segundo
a autora, qual é a importância de conhecer outras culturas?
Permite enxergar
a realidade por novos ângulos, amplia nossa compreensão do mundo, afina nosso
gosto pessoal e nos ajuda a construir nosso próprio projeto de vida.
03
– A autora explica o porquê de gostarmos de uma coisa e não de outra. Qual é a
justificativa que ela dá para isso?
A autora
justifica que gostamos mais daquilo com que estamos acostumados desde a
infância, pois o hábito e a convivência contínua constroem nossas preferências
(seja na alimentação, no cinema ou nas amizades).
04
– Em determinado momento do texto, é explicado como as pessoas se inserem em
uma cultura. De que forma isso ocorre?
Ocorre pelo fato
de nascermos e crescermos dentro de um grupo específico, aprendendo a
língua materna, assimilando hábitos, costumes, tradições e valores
compartilhados por essa comunidade.
05
– O texto evidencia a riqueza cultural, destacando seus aspectos positivos,
porém cita alguns exemplos negativos exibidos em filmes, novelas e programas de
televisão.
a) Identifique
alguns aspectos negativos.
Produções culturais que promovem a violência,
o racismo e o preconceito.
b) Segundo
a autora, por que eles devem ser evitados?
Porque nos levam à barbárie e ao caos, em
vez de nos humanizarem e contribuírem para uma sociedade mais justa.
06
– Em relação a outras culturas, a autora afirma que não é necessário tomá-las
como nossas. No entanto, destaca que é preciso aprendermos a respeitá-las, para
que sejamos mais flexíveis e tolerantes com a diversidade. O que a autora
propõe para isso?
A
autora propõe a prática cotidiana do respeito e da tolerância, além do
esforço empático de tentar compreender a lógica interna dos costumes do outro,
sem julgá-los como superiores ou inferiores.
07
– De acordo com o texto, a diversidade “nos dá a oportunidade de ver o mundo
por uma perspectiva diferente daquela com a qual estamos acostumados.”.
Explique essa afirmação.
Significa que entrar em contato com
outras formas de viver, pensar e crer nos tira do "piloto automático"
das nossas próprias rotinas. Isso nos faz perceber que o nosso modo de viver
não é o único e nos dá liberdade para escolher como queremos conduzir nossa
própria vida.
08
– Releia o seguinte trecho:
Assim como temos o direito de ser a
pessoa que somos e de escolher o que queremos para nós, os outros também têm
esse mesmo direito. Portanto, o respeito mútuo é a chave da vida em
sociedade...
a) Alguma
vez você se sentiu desrespeitado ou presenciou uma atitude de desrespeito por
outras pessoas? Como você se sentiu?
Sim. Em momentos de desrespeito à
individualidade ou às opiniões, é comum sentir frustração, mágoa ou injustiça,
pois todos desejam ter sua identidade acolhida.
b) É
possível afirmar que atitudes como as indicadas nesse trecho podem contribuir
para a construção de uma sociedade mais justa, sem preconceitos e rica
culturalmente? Por quê?
Sim. Quando
reconhecemos que o outro tem exatamente os mesmos direitos que nós, eliminamos
a ideia de que existe uma forma "certa" ou "superior" de
ser, abrindo espaço para a empatia, o diálogo e a convivência harmoniosa.
09
– Releia o seguinte trecho: “Entretanto, acredite, há pessoas que gostam de
miolo!”.
a) A
quem a autora está se dirigindo? Explique sua resposta.
Ao leitor, buscando estabelecer um
diálogo próximo e direto para persuadi-lo a aceitar um ponto de vista
diferente.
b) Quais
palavras a seguir podem substituir o termo em destaque, mantendo o sentido da
frase? mas – nem – porém – logo
Mas e porém.
c) Que
sentido essa palavra atribui à ideia expressa: soma, oposição ou conclusão?
Sentido de oposição (adversidade).
10
– As reticências assumem diferentes funções de acordo com o contexto em que são
inseridas. Elas podem interromper uma ideia, marcar uma hesitação ou também
apelar para a imaginação do leitor.
Com que objetivo as reticências foram
empregadas no trecho: “— Estava aqui pensando... A gente acaba convivendo
com tantas coisas diferentes no dia a dia...”?
As reticências foram empregadas para
indicar uma pausa reflexiva ou hesitação no pensamento do personagem,
simulando a espontaneidade da linguagem falada.
11
– No trecho “Comer com hashi [...]”, por que o termo foi
destacado em itálico?
O termo foi destacado em itálico por se
tratar de um estrangeirismo (uma palavra oriunda da língua japonesa que
não pertence originalmente ao vocabulário da língua portuguesa).
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