segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POEMA: PAROLAGEM DA VIDA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Poema: Parolagem da Vida

           Carlos Drummond de Andrade

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_DiJZ58DPR0IrN0XuMYyz18lob5HlyPcvXpFyH6kL6LF-IXfBQC204ms-lbulyJRnIqVXFnlk5A5QMDMd9DrHeyY10hK2upKlGWg1wV1KL1JZdB7oRHN0RISOksAFnxFXuqOTB90m6IrI1HG-s39T-Cv-aVJCpevZka70yoUuOyXrpOhyphenhyphenlqkgASG0hxk/s1600/images.png



Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 390.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 220.

Entendendo o poema:

01 – O título do poema utiliza a palavra "Parolagem" (verborragia, falação sem utilidade). Como essa escolha de título contrasta com a construção dos primeiros versos ("Como a vida muda. / Como a vida é muda...") e qual o efeito de sentido desse jogo fonético?

      A palavra "parolagem" sugere um excesso de palavras fúteis. Drummond usa essa ideia de forma irônica: o poema tenta definir a vida por meio de um acúmulo de tentativas linguísticas, mas esbarra na impossibilidade de enquadrá-la em um único conceito. Nos versos iniciais, o poeta joga com a paronímia entre as palavras "muda" (do verbo mudar) e "muda" (ausência de som/fala). Esse recurso demonstra a mobilidade inconstante da existência e, ao mesmo tempo, o seu silêncio enigmático diante das inquietações humanas, mostrando que a "parolagem" é a tentativa verbal do homem de dar sentido a algo que é mutável e calado.

02 – Ao longo de todo o poema, a vida é caracterizada por pares de opostos (antíteses e paradoxos), como em "Como a vida é nada. / Como a vida é tudo". Identifique outro paradoxo no texto e explique de que modo essa estrutura dialoga com a temática central da obra.

      Outro paradoxo marcante ocorre no verso "Como a vida é vida / ainda quando morte / esculpida em vida". Essa construção expressa que a finitude e a mortalidade fazem parte da própria substância do viver. A estrutura baseada em contradições é fundamental no poema porque reflete a visão drummondiana da existência como algo indecifrável, pleno de polaridades (tudo/nada, paz/guerra, ganho/perda). Para o poeta, a vida não é uma linha reta coerente, mas a convivência simultânea de forças antagônicas.

03 – Na estrofe "Como a vida é bela / sendo uma pantera / de garra quebrada", o eu lírico constrói uma metáfora singular para a beleza da vida. Qual é o significado da imagem da "pantera de garra quebrada"?

      A pantera é um animal associado à força, ao perigo, à selvageria e à elegância. No entanto, ao apresentá-la com a "garra quebrada", o poema insere o elemento da vulnerabilidade, do ferimento e da imperfeição. A beleza da vida, portanto, não reside em um estado intocado de perfeição ou controle, mas sim em sua capacidade de permanecer altiva, selvagem e fascinante mesmo quando ferida e fragilizada pelas adversidades da existência.

04 – Nos versos "Como a vida chora / de saber que é vida / e nunca nunca nunca / leva a sério o homem, / esse lobisomem", de que maneira o eu lírico caracteriza a figura humana e seu papel perante a existência?

      O homem é caracterizado ironicamente como um "lobisomem", metáfora que remete à sua dualidade, instabilidade e natureza bestial/irracional. A vida "nunca leva a sério o homem" porque as pretensões, vaidades e ilusões de controle da humanidade são insignificantes diante do fluxo maior do universo. A vida lamenta sua própria consciência de existir, enquanto assiste às contradições e ao papel quase caricato e trágico desempenhado pelo ser humano.

05 – Analise os versos "Como a vida toca / seu gasto realejo / fazendo da valsa / um puro Vivaldi". Qual é a metáfora presente no "realejo" e o que significa transformar a "valsa" em "Vivaldi"?

      O "gasto realejo" simboliza a rotina repetitiva, gasta e ordinária da existência. No entanto, a vida possui a capacidade de sublimar essa repetição mecânica: ao transformar uma simples "valsa" (música popular/dançante) em um "puro Vivaldi" (referência à alta música clássica e complexa), o poema indica a capacidade da existência de extrair arte, transcendência e sublime daquilo que é banal e desgastado no cotidiano.

06 – Na estrofe final, o eu lírico afirma que a vida é "sempre renascida / em flor e formiga / em seixo rolado / peito desolado / coração amante". De que forma a enumeração desses elementos representa a manifestação da vida?

      A enumeração reúne elementos do reino vegetal (flor), animal (formiga), mineral (seixo rolado) e subjetivo/humano (peito desolado, coração amante). Essa diversidade demonstra que a vida não se restringe à experiência humana nem às emoções nobres; ela é uma força impessoal, democrática e contínua que se renova em qualquer matéria ou estado, seja no sofrimento ("peito desolado") ou no afeto ("coração amante").

07 – O poema culmina nos versos "E como se salva / a uma só palavra / escrita no sangue / desde o nascimento: / amor, vidamor!". Qual é o papel da palavra "amor" e da neologização "vidamor" na conclusão da poesia?

      Após catalogar os absurdos, dores, ironias e contradições da existência, o poema encontra sua síntese e redenção na força do amor. A fusão vocabular neológica "vidamor" unifica visceralmente as duas instâncias: a vida só ganha sentido e salvação quando fundida intrinsecamente ao amor. Esse sentimento é apresentado como algo gravado biologicamente e existencialmente na essência humana ("escrita no sangue desde o nascimento"), funcionando como a resposta final para vencer o absurdo do mundo.

 

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