Poema: Parolagem da Vida
Carlos Drummond de Andrade
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_DiJZ58DPR0IrN0XuMYyz18lob5HlyPcvXpFyH6kL6LF-IXfBQC204ms-lbulyJRnIqVXFnlk5A5QMDMd9DrHeyY10hK2upKlGWg1wV1KL1JZdB7oRHN0RISOksAFnxFXuqOTB90m6IrI1HG-s39T-Cv-aVJCpevZka70yoUuOyXrpOhyphenhyphenlqkgASG0hxk/s1600/images.png
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1988, p. 390.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 220.
Entendendo o poema:
01
– O título do poema utiliza a palavra "Parolagem" (verborragia,
falação sem utilidade). Como essa escolha de título contrasta com a construção
dos primeiros versos ("Como a vida muda. / Como a vida é muda...") e
qual o efeito de sentido desse jogo fonético?
A palavra
"parolagem" sugere um excesso de palavras fúteis. Drummond usa essa
ideia de forma irônica: o poema tenta definir a vida por meio de um acúmulo de
tentativas linguísticas, mas esbarra na impossibilidade de enquadrá-la em um
único conceito. Nos versos iniciais, o poeta joga com a paronímia entre as
palavras "muda" (do verbo mudar) e "muda" (ausência de
som/fala). Esse recurso demonstra a mobilidade inconstante da existência e, ao
mesmo tempo, o seu silêncio enigmático diante das inquietações humanas, mostrando
que a "parolagem" é a tentativa verbal do homem de dar sentido a algo
que é mutável e calado.
02
– Ao longo de todo o poema, a vida é caracterizada por pares de opostos
(antíteses e paradoxos), como em "Como a vida é nada. / Como a vida é
tudo". Identifique outro paradoxo no texto e explique de que modo essa
estrutura dialoga com a temática central da obra.
Outro paradoxo
marcante ocorre no verso "Como a vida é vida / ainda quando morte /
esculpida em vida". Essa construção expressa que a finitude e a
mortalidade fazem parte da própria substância do viver. A estrutura baseada em
contradições é fundamental no poema porque reflete a visão drummondiana da
existência como algo indecifrável, pleno de polaridades (tudo/nada, paz/guerra,
ganho/perda). Para o poeta, a vida não é uma linha reta coerente, mas a
convivência simultânea de forças antagônicas.
03
– Na estrofe "Como a vida é bela / sendo uma pantera / de garra
quebrada", o eu lírico constrói uma metáfora singular para a beleza da
vida. Qual é o significado da imagem da "pantera de garra quebrada"?
A pantera é um
animal associado à força, ao perigo, à selvageria e à elegância. No entanto, ao
apresentá-la com a "garra quebrada", o poema insere o elemento da
vulnerabilidade, do ferimento e da imperfeição. A beleza da vida, portanto, não
reside em um estado intocado de perfeição ou controle, mas sim em sua
capacidade de permanecer altiva, selvagem e fascinante mesmo quando ferida e
fragilizada pelas adversidades da existência.
04
– Nos versos "Como a vida chora / de saber que é vida / e nunca nunca
nunca / leva a sério o homem, / esse lobisomem", de que maneira o eu
lírico caracteriza a figura humana e seu papel perante a existência?
O homem é
caracterizado ironicamente como um "lobisomem", metáfora que remete à
sua dualidade, instabilidade e natureza bestial/irracional. A vida "nunca
leva a sério o homem" porque as pretensões, vaidades e ilusões de controle
da humanidade são insignificantes diante do fluxo maior do universo. A vida
lamenta sua própria consciência de existir, enquanto assiste às contradições e
ao papel quase caricato e trágico desempenhado pelo ser humano.
05
– Analise os versos "Como a vida toca / seu gasto realejo / fazendo da
valsa / um puro Vivaldi". Qual é a metáfora presente no
"realejo" e o que significa transformar a "valsa" em
"Vivaldi"?
O "gasto
realejo" simboliza a rotina repetitiva, gasta e ordinária da existência.
No entanto, a vida possui a capacidade de sublimar essa repetição mecânica: ao
transformar uma simples "valsa" (música popular/dançante) em um
"puro Vivaldi" (referência à alta música clássica e complexa), o
poema indica a capacidade da existência de extrair arte, transcendência e
sublime daquilo que é banal e desgastado no cotidiano.
06
– Na estrofe final, o eu lírico afirma que a vida é "sempre renascida /
em flor e formiga / em seixo rolado / peito desolado / coração amante".
De que forma a enumeração desses elementos representa a manifestação da vida?
A enumeração
reúne elementos do reino vegetal (flor), animal (formiga), mineral (seixo
rolado) e subjetivo/humano (peito desolado, coração amante). Essa diversidade
demonstra que a vida não se restringe à experiência humana nem às emoções
nobres; ela é uma força impessoal, democrática e contínua que se renova em qualquer
matéria ou estado, seja no sofrimento ("peito desolado") ou no afeto
("coração amante").
07
– O poema culmina nos versos "E como se salva / a uma só palavra /
escrita no sangue / desde o nascimento: / amor, vidamor!". Qual é o
papel da palavra "amor" e da neologização "vidamor" na
conclusão da poesia?
Após catalogar os
absurdos, dores, ironias e contradições da existência, o poema encontra sua
síntese e redenção na força do amor. A fusão vocabular neológica
"vidamor" unifica visceralmente as duas instâncias: a vida só ganha
sentido e salvação quando fundida intrinsecamente ao amor. Esse sentimento é
apresentado como algo gravado biologicamente e existencialmente na essência
humana ("escrita no sangue desde o nascimento"), funcionando como a
resposta final para vencer o absurdo do mundo.
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