Conto: PITU conversa com os peixes
Elias José
Vocês quatro são meus amigos. Gosto de trocar a água, colocar um pouco de comida, pôr a planta aquática para dar mais beleza pra vocês e pro aquário. A água está limpinha, agora, não é mesmo? Daqui de fora parece até que não existe vidro, o aquário está limpinho. Eu gosto muito de vocês quatro, muito mesmo. Minha mãe fica implicando, diz que eu, com esta minha mania de ficar muito tempo olhando vocês, acabo pondo mau-olho. Já meu pai acha que vou pôr é quebranto, pois olho com muito amor. Se eu pudesse, entrava dentro do aquário e ficava nadando com vocês. Mas olhem o meu tamanho, não dá pé. eu também gosto de nadar, mas quando vou aprender a virar estas piruetas todas como vocês? Acho que nunca. Gente não sabe nadar como os peixes, o que é uma pena! Nem tem graça o corpo de gente nas águas. Peixe, sim, é que nada bonito.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgp7PlZ57pwzLr7aZq3nE3rc6cxzyAmALGVXj3dyY8EDJWosi7NutjfiqpORTFr4NOGSRIgeQ1hKFY-TYGxQMEXJTdgfSJRp-179nj9xe4K_72WjW-xTepivbYGwhitzfvj3sQmjl0KWUy23o4GbIEAk2RgofusI33ZsXGtOWBvwRYEE5fiz2WJhfgjR5Q/s1600/images.jpgFico tempo observando os lambaris do Corguinho e eles são muito
ágeis, vão pra lá e pra cá, mexem na terra, se escondem nos ramos, mergulham.
Mas não fiquem tristes porque falo deles, vocês são bem mais bonitos. A cor dos
lambaris é meio prateada, bate o sol e mistura com a água, fica muito bonito.
Mas vocês dois vermelhinhos e vocês outros dois, pretinhos, são muito mais
bonitinhos. Quando os quatro estão se mexendo na aquário e as cores se
misturando, fica mais bonito que arco-íris. E arco-íris é uma coisa
maravilhosa! Mais bonito mesmo, só vocês quatro aí. Engraçado, tem um menino
novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim,
arco-da-velha. Fica parecendo coisa triste, vocês não acham? Se fosse
arco-da-menina ainda passava. O arco-íris, como tudo que é colorido, é tão
bonito. Não é mesmo bonito? Engraçado, peixe devia falar, responder às
perguntas da gente. então, eu ficaria sabendo se vocês gostam mesmo de ficar
presos aí dentro. Dona Cláudia diz que tem dó de peixes e pássaros presos. Que
os peixes foram feitos para o tamanho do mar, que até os peixes de rio ela acha
triste, quanto mais os de aquário. Passarinho, então, a maldade é maior, porque
o mundo todo está aberto para eles. Papai, quando ouviu dona Cláudia falar
isto, disse que ela estava querendo fazer os animais sentirem como gente e isto
era besteira. Engraçado ele falar assim, porque também ele não gosta que a
gente prende passarinho. O louro ele não importou, mas nunca deixou a gente
prender em gaiola. Com peixe ele não deve se importar, pois não fala nada de
mal ou de bem de vocês. Minha mãe disse que eu podia ficar com vocês, mas ela
não tinha tempo de cuidar, trocar água, dar comida e tudo. Até que quando
esqueço, ela faz, até sem reclamar. Acho que é porque ela também gosta muito de
vocês. Sempre ela também para e fica olhando muito tempo ou fica batendo de
fora quando algum parece dormir. Ela até ficou triste quando os dois amiguinhos
de vocês morreram. Ela vive me falando para não dar muita comida porque a
barriguinha de vocês é pequena e explode e, então, adeus peixinhos queridos.
Elias José. As
curtições de Pitu. São Paulo: Melhoramentos, em convênio com o Instituto
Nacional do Livro, 1976.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 140.
Entendendo o conto:
01
– O conto é estruturado predominantemente como um monólogo dirigido aos peixes
do aquário. Explique de que forma o foco narrativo em 1ª pessoa e a ausência de
resposta dos interlocutores contribuem para caracterizar a intimidade e a
imaginação do personagem Pitu.
O foco narrativo
em 1ª pessoa coloca o leitor diretamente em contato com o fluxo de pensamentos
e sentimentos de Pitu. Como seus interlocutores (os peixes) são seres
inanimados à linguagem humana e não respondem, a conversa se torna um monólogo
subjetivo. Esse recurso explicita a afetuosidade, a sensibilidade e a rica
imaginação do garoto, que projeta em seus animais de estimação sentimentos,
cúmplices de dúvidas existenciais e reflexões cotidianas sobre sua família e o
mundo.
02
– No trecho, Pitu menciona a opinião de Dona Cláudia e a reação de seu pai
sobre a criação de peixes e pássaros presos. Compare a visão de Dona Cláudia e
a do pai de Pitu a respeito da relação entre seres humanos e animais.
Dona Cláudia
adota uma postura empática e de antropomorfização dos animais, acreditando que
mantê-los presos os priva de sua natureza e liberdade ("os peixes foram
feitos para o tamanho do mar"). Já o pai de Pitu assume uma postura mais
pragmática e racional, alegando que é "besteira" querer fazer com que
os animais sintam e raciocinem como gente. Contudo, o texto sugere uma contradição
no pai, pois, embora critique a ideia de Dona Cláudia, ele próprio proíbe a
prisão de pássaros em gaiolas.
03
– O texto do conto utiliza uma linguagem bastante informal e espontânea.
Identifique dois exemplos de expressões coloquiais ou construções típicas da
linguagem oral presentes no texto e explique qual efeito elas produzem na
narrativa.
Dois exemplos de
marcas de oralidade são:
Expressões e construções
populares: "não dá pé" (indicando limitação física/tamanho),
"pôr mau-olho" ou "quebranto", e "Gente não sabe
nadar..." (omissão do artigo definido antes do substantivo);
Repetição da conjunção e
advérbio interrogativo: O uso frequente de "Engraçado..." e de
perguntas retóricas para conduzir o próprio raciocínio ("vocês não
acham?", "Não é mesmo bonito?").
Esses recursos conferem
verossimilhança ao texto, aproximando o registro do narrador-personagem da fala
natural de uma criança brasileira.
04
– Pitu reflete sobre a expressão usada por um novo colega da escola ao se
referir ao arco-íris: "Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da
escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha." O que esse
trecho revela sobre a variação linguística e sobre a percepção poética do
garoto?
O trecho
evidencia o fenômeno da variação linguística regional e cultural (o termo
"arco-da-velha", trazido pelo menino que veio da roça). Ao mesmo
tempo, revela a sensibilidade poética de Pitu, que analisa a carga semântica e
emocional das palavras: para ele, a palavra "velha" traz uma
conotação triste para algo tão bonito e colorido quanto o fenômeno do
arco-íris, sugerindo que "arco-da-menina" seria um nome mais
adequado.
05
– Embora a mãe de Pitu afirme inicialmente que não tem tempo para cuidar dos
peixes, suas atitudes ao longo do conto demonstram o contrário. Como a conduta
da mãe revela seu afeto indireto pelos animais?
A mãe demonstra afeto pelos
peixes de forma indireta por meio de ações de cuidado e preocupação: ela assume
a limpeza do aquário e a alimentação quando o filho se esquece; para diante do
aquário para observá-los; bate no vidro para checar se estão bem quando parecem
dormir; demonstra tristeza genuína quando dois peixes morreram e orienta
carinhosamente Pitu a não exagerar na ração para não machucar os animais
("a barriguinha de vocês é pequena e explode").
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