Conto: A guerra
Anaïs Vaugelade
Era a guerra. Todas as manhãs os homens
partiam para os campos de batalha. Os que regressavam à noite traziam os mortos
e os estropiados. Havia guerra há tanto tempo que já ninguém se lembrava da
razão por que ela tinha começado.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh93AwuNX9fN83EmRKGC6eQVGtfKQ0vSxZIRg29365r4AyPHKPiQjMtTvblE-cwdlrTlszp5z1TR1DbDf9ClGw43c2_Rqjp1vRVZfRfiXGHglY0wDiUdTt9x0JQaBsmquzz_YVf3En-QEbVHFjhuV9lhvGkYdEU_c8V8MibhEgpHw_9wnVyjdEhGWqhLO0/s320/images.jpg Vítor II, rei dos Vermelhos, contava e
recontava os soldados do seu reino. “Dez mais vinte faz trinta; ainda posso
acrescentar cinquenta… Oitenta homens! Oitenta homens não chegam para ganhar a
guerra.” E começava a chorar. Felizmente para ele, Vítor II, rei dos Vermelhos,
tinha um filho que se chamava Júlio. Júlio entrava na sala do trono e dizia: —
Coragem, Pai! — E o rei tornava a ter coragem.
Armando – XII, rei dos Azuis, também só
tinha oitenta soldados e um filho. Mas, quando Armando XII ficava desanimado, o
filho não sabia o que dizer. O filho de Armando XII chamava-se Fabiano e
interessava-se pouco pela guerra. Passava os dias no parque, sentado num ramo.
Um dia, Fabiano recebeu uma carta do príncipe Júlio:
Os nossos pais já quase não têm
soldados; portanto, se és homem, pega no teu cavalo e na tua armadura. Marco-te
encontro para amanhã de manhã no campo de batalha; bater-nos-emos em duelo e
aquele que ganhar o combate ganhará ao mesmo tempo a guerra.
Assinado: Júlio
Fabiano suspirou. Nem por isso gostava
muito de montar a cavalo. No dia seguinte, Fabiano chegou ao encontro montado
numa ovelha.
— Em guarda! — disse Júlio.
— Béééé! — fez a ovelha.
Isto assustou o cavalo que se empinou
na vertical. Júlio caiu.
— Estás ferido? — perguntou Fabiano.
Mas Júlio estava mais do que ferido,
estava morto. Os soldados vermelhos berraram: — O combate foi falseado!
Fabiano quis explicar-lhes que tinha sido
um acidente, mas, como eles tinham piques e lanças, preferiu fugir.
Armando XII, rei dos Azuis, esperava-o.
— Devias ter vergonha! — ralhou ele.
— Mas eu não fiz nada — disse Fabiano.
— Justamente — respondeu o pai. — Vergonha
e vergonha a dobrar; expulso-te do meu reino.
Fabiano escondeu-se no parque. Era de
tarde e os soldados tinham recomeçado a guerra; então, Fabiano decidiu fazer
uma coisa: decidiu escrever duas cartas, uma para Armando XII e outra
para Vítor II. As duas cartas diziam exatamente a mesma coisa:
Estou em casa do rei Amarelo, Basílio
IV, que me deu um grande exército. Portanto, se sois homens, pegai nos vossos
cavalos e nas vossas armaduras. Marco-vos encontro para amanhã de manhã no campo
de batalha.
Assinado: Fabiano
Armando XII recebeu a carta nessa
noite. — A nulidade do meu filho, um grande exército? — disse ele. — Devem ser
só para aí uns oito e eu faço picado deles.
Quando Vítor II recebeu a carta,
encolheu os ombros; declarou que esmagaria esse vencedor de combates falseados.
Meteu a carta no bolso e foi deitar-se.
Quando viu chegar o exército Azul, o
rei dos Vermelhos exclamou:
— Que fazeis vós aqui, Senhores? Nós
temos encontro marcado com o exército Amarelo; portanto, abandonem este local.
— Imaginai, Senhores, que nós também
temos encontro marcado com o exército Amarelo.
— Não compreendo — disse Vítor II, rei
dos Vermelhos.
— Eu também não — disse Armando XII,
rei dos Azuis.
Compararam as duas cartas.
— Na sua opinião, quantos serão os Soldados
Amarelos?
— Talvez oito ou oitenta ou, talvez,
oitocentos…
— Que importa, se os Azuis são
verdadeiros heróis? — disse Armando XII.
E Vítor II replicou: — Os Vermelhos não
temem ninguém.
Ao meio-dia, os Amarelos ainda não
tinham chegado. Embora bravos e não receando ninguém, o que é certo é que a
espera enerva:
— Senhores — disse Armando XII — creio
que, face a oitocentos homens, devíamos aliar os nossos exércitos.
— É justo! — respondeu Vítor II.
Esperaram ainda toda a tarde. Às sete,
os reis discutiram se haviam de regressar aos seus castelos, mas decidiram que
não, que era melhor ficar, para o caso de os Amarelos chegarem de noite; e
mandaram vir sanduíches. No dia seguinte, os Amarelos continuavam sem chegar.
Então, começaram a instalar tendas e a acender fogueiras. Ao terceiro dia, as
mulheres dos soldados vieram com as suas caçarolas e colheres, porque não era
possível sustentar dois exércitos a sanduíches. Ao quarto dia, trouxeram os
bebés. E, ao quinto dia, as outras crianças, que se aborreciam sozinhas em
casa. Os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, o campo de batalha parecia
uma aldeia.
Fabiano pensou: “Não tenho exército nem
nunca tive; mas, graças a mim, a guerra acabou.” Então Fabiano foi a casa de
Basílio IV, rei dos Amarelos, para lhe contar a história. Basílio riu muito
quando ele falou no exército imaginário, mas chorou um pouco pelo príncipe
Júlio, morto tão estupidamente; e chorou até por todos os soldados dos quais
nem mesmo sabia o nome.
Basílio IV achou que Fabiano era o mais
esperto e também o mais ajuizado; e, como não tinha filhos, pediu-lhe que fosse
o príncipe dos Amarelos e que reinasse, mais tarde, no seu reino. O rei Fabiano
foi um excelente rei. E, é claro, durante o seu reinado, nunca houve nenhuma
guerra.
Anaïs Vaugelade. A
guerra. Porto, Editora AMBAR, 2002. (Adaptação).
Entendendo o conto:
01
– No início do conto, o que a autora revela sobre a duração e a motivação da
guerra entre os reinos? Que impacto isso tem na vida da população?
A autora revela
que a guerra durava há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão pela
qual ela tinha começado. O impacto disso era devastador: todas as manhãs os
homens partiam para os campos de batalha e, à noite, os sobreviventes
regressavam trazendo apenas os mortos e os estropiados, reduzindo drasticamente
as populações de ambos os reinos.
02
– Como Fabiano se diferencia dos príncipes tradicionais e do próprio príncipe
Júlio no que diz respeito ao seu interesse pelo combate? Cite um exemplo da sua
atitude.
Diferente do
príncipe Júlio, que era focado na guerra e no encorajamento do pai, Fabiano
interessava-se muito pouco pelo combate e repudiava a lógica bélica. Um exemplo
claro é quando ele aceita o duelo proposto por Júlio, mas decide ir ao campo de
batalha montado numa ovelha e sem armadura adequada, em vez de usar um cavalo e
trajes de combate.
03
– De que forma a morte acidental do príncipe Júlio altera o destino de Fabiano
no conto?
A morte acidental
do príncipe Júlio — provocada pelo susto do cavalo com o balido da ovelha — faz
com que os soldados Vermelhos acusem o combate de ter sido falseado. Quando
Fabiano tenta se explicar, precisa fugir das lanças. Ao retornar para casa, é
rejeitado e expulso do reino por seu próprio pai, Armando XII, que o acusa de
ser uma vergonha. Isso o força a se esconder no parque e a articular uma nova
estratégia para parar o conflito.
04
– Qual foi o plano arquitetado por Fabiano para interromper os combates entre
os exércitos Vermelho e Azul?
Fabiano escreveu
duas cartas idênticas enviadas aos reis de ambos os lados, fingindo estar na
casa do rei Amarelo (Basílio IV) à frente de um suposto "grande
exército" e marcando um encontro no campo de batalha para o dia seguinte.
A incerteza quanto ao tamanho do exército inimigo fez com que os Vermelhos e os
Azuis chegassem ao local e ficassem em estado de espera.
05
– Como a espera prolongada pelo "exército Amarelo" transformou
gradualmente a dinâmica do campo de batalha?
À medida que os
dias passavam sem a chegada dos Amarelos, a apreensão fez com que os dois
reinos rivais decidissem se aliar. Para suportar a espera, começaram a montar
tendas e fogueiras. Nos dias seguintes, as esposas trouxeram comida, depois
vieram os bebês e as outras crianças, e os mais velhos montaram comércios. Ao
décimo dia, a lógica do combate deu lugar à convivência comunitária,
transformando o campo de batalha numa verdadeira aldeia pacífica.
06
– Como o rei Basílio IV reage ao ouvir a história de Fabiano e qual decisão ele
toma em relação ao futuro do príncipe?
Basílio IV ri
muito da ideia do exército imaginário criativamente inventado por Fabiano, mas
demonstra sensibilidade ao chorar pela morte fútil de Júlio e por todos os
soldados anônimos vitimados pela guerra. Reconhecendo a inteligência e o bom
senso do jovem, e por não ter herdeiros, Basílio IV adota Fabiano como príncipe
para que reine no futuro em seu lugar.
07
– Analisando o desfecho do conto, qual é a principal crítica ou lição central
trazida pela obra em relação aos conflitos armados?
O conto faz uma
crítica à efemeridade e ao absurdo das guerras, que muitas vezes continuam por
puro orgulho dos governantes, sem qualquer razão válida. A obra demonstra que a
inteligência, o diálogo e a recusa em participar da violência são mais
eficientes do que a força bruta, mostrando que a verdadeira liderança constrói
a paz e o convívio comunitário.
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