segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - III - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – III – Fragmento

           Vinícius de Moraes

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4XofF36UUBztJArGKbnAihabjrFm5eRe73fTkmgbHfVHlvfHj70-bC6W2U9G2aSBWziABg3s_Pe55TfJcBA9JYS5iV9hnxedUBLzNPOxnxXKG5TV0k5hw4T_2n5TE21mG5AOGZZzkZx4S1RLxBhcz6aaBDnVa9n26pDE8teIjqR3sJ_Kfly-mywLR0s8/s320/images.jpg


Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento III, o eu lírico faz uma clara alusão aos eventos narrados no livro do Gênesis. De que maneira ele avalia a decisão divina de criar a humanidade no Sexto Dia e qual subversão do texto sagrado ocorre nessa crítica?

      O eu lírico avalia a criação do homem e da mulher de forma francamente negativa, afirmando que "o homem não era necessário" e que seria melhor se Deus tivesse descansado antes de criá-los. A subversão da narrativa bíblica reside no fato de que, no Gênesis, a criação do ser humano é apresentada como o ápice perfeito da obra divina; no poema, porém, essa mesma ação é vista como um erro ou um impulso injustificado ("porque o Senhor cismou em não descansar"). O tom solene do texto religioso é desconstruído para apresentar a criação humana como a origem de todo o sofrimento e absurdo existencial.

02 – Ao se dirigir à figura feminina, o poema a define como "ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada". Como a mulher é caracterizada nesses versos e qual o seu papel na visão do eu lírico sobre a condição humana?

      A mulher é caracterizada por meio de uma metáfora que a conecta diretamente às forças primordiais e insaciáveis da natureza. Ao associá-la a um "ser vegetal" e detentora do "vórtice supremo da paixão", o eu lírico a coloca como o motor central dos desejos e da intensidade vital humana. Ela representa, ao mesmo tempo, o mistério insondável ("dona do abismo") e a atração irresistível que perpetua a existência da espécie humana, ligando o homem tanto à beleza natural quanto ao sofrimento das paixões inconselháveis.

03 – O eu lírico projeta como seria o planeta Terra caso o Criador não tivesse moldado o homem. Quais aspectos da natureza são enaltecidos nessa projeção e o que a ausência humana representaria para o mundo?

      Na ausência da humanidade, a natureza é descrita em um estado de "indizível beleza e harmonia", marcada pelo equilíbrio entre a flora, a fauna e os astros ("plano verde das terras e das águas em núpcias", "pureza maior do instinto"). A ausência humana representaria a preservação do mundo natural sem a violência da exploração (sem "degola dos animais e asfixia dos peixes") e sem o peso da dor moral. Sem o homem, o planeta seria um ecossistema puro, em que os seres vivos existiriam de acordo com seus instintos em uma paz perfeitamente integrada.

04 – O poema contrapõe o estado natural à existência em sociedade. Como a lista de obrigações e instituições civis/religiosas ("escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia") reforça a tese do poema sobre o fardo da vida moderna?

      A enumeração dessas instituições funciona como uma crítica à artificialidade da vida em sociedade. Cada um dos elementos citados representa uma amarra formal que disciplina, burocratiza ou pune o ser humano ao longo da vida (da infância com a escola até a morte com a missa de sétimo dia). Essa lista demonstra que o ato da criação divina não trouxe apenas a existência física ao homem, mas o condenou a uma estrutura social opressiva, em que a liberdade natural é sufocada por obrigações, dogmas e rotinas automáticas (como "rir sem vontade e até praticar amor sem vontade").

05 – Nos últimos versos do fragmento, o eu lírico sugere um motivo irônico para Deus ter criado o homem "à sua imagem e semelhança". Qual é esse motivo e como ele se conecta ao tema central de todo o poema?

      O motivo sugerido é que Deus criou o homem apenas "para não ficar com as vastas mãos abanando", impulsionado por um tédio criativo "porque era sábado". Essa justificativa humaniza e desmistifica a figura divina, reduzindo o ato da Criação a um mero passatempo de fim de semana. O desfecho consolida a ironia central de todo o poema: o sábado, tido como o dia das contradições e dos impulsos impensados na vida terrena, é projetado no próprio plano divino, sugerindo que a humanidade nasceu de um ato de tédio efêmero em um sábado cósmico.

 

 

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