domingo, 23 de agosto de 2026

NOTÍCIA: UMA CONDIÇÃO BÁSICA PARA UMA POLÍCIA EFICIENTE - FRAGMENTO -CONTARDO CALLIGARIS - COM GABARITO

 Notícia: Uma condição básica para uma polícia eficiente – Fragmento

        [...]

        É banal acusar a mídia, sobretudo a televisão e o cinema, de glamourizar a violência. Embora não haja pesquisas sérias que estabeleçam uma relação direta entre os mortos nas telas e os mortos na rua, pede-se uma censura ou autocensura, com a ideia de que narrativas ou notícias menos violentas inspirariam comportamentos menos belicosos (sobretudo aos jovens).

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKOLj1yMTiIj5qxTOJbXshSiER8SvnIPQ9KTv8O2CvJm7972PrCoA1nynIBfQPxvZ-4cycaWOnGVauobNRudKcmGbV8Z0B5Y1I70Q6xMkJOIp0rUGV-aRm3rUFsU57lv2Ct2_k5JLRY7sJ-jLnnLflrYBetdTa3v_NUMYIwS6IrRu4bxezGzF9-zx57y4/s320/images%20(1).jpg


        Ora, não acredito que forma nenhuma de censura seja benéfica. Mas reconheço que os ideais sociais dependem muito de nossa cultura de massa. Então fazer o quê? Pois bem, o truque não é retirar, é acrescentar. Explico.

        Quando era criança (logo depois da Segunda Guerra Mundial), havia duas grandes brincadeiras para os meninos: alemães-americanos e polícia-ladrão. No primeiro caso, a gente queria ser americano; no segundo, queria ser polícia. Quando nos tocava ser alemão ou bandido, brincávamos com uma certa resignação, pois era implícito que, no fim, alemães e bandidos seriam derrotados, presos ou mortos.

        É provável que brincar de polícia-ladrão não esteja mais na moda. Mas, se nossos filhos quisessem brincar assim, com quem se identificariam? Do lado dos bandidos, não lhes seria difícil encontrar material: fugas mirabolantes, riquezas fáceis, jovens como eles exibindo suas armas e aterrorizando os adultos, destinos trágicos muito mais interessantes que a escola e as aulas de piano ou de inglês.

        E do lado da polícia? Se eles têm televisão a cabo, conhecem "Starsky e Hutch", "Maigret", "Law and Order", "The Shield" e por aí vai. Se gostam de ler, conhecem Mike Hammer, Sherlock Holmes, Hercule Poirot etc.

        Você reparou? Para um menino brasileiro que queira brincar de polícia-ladrão, os bandidos podem ser brasileiros, mas a polícia é americana, inglesa, francesa, alemã, enfim, tudo salvo brasileira.

        A cultura nacional propõe um vasto repertório de malfeitores. É normal: uma sociedade individualista idealiza a transgressão, por consequência, ela nunca deixa de ser fascinada por seus delinquentes. Nisso, a cultura brasileira não está sozinha. Mas é estranho que ela não proponha o contraponto: um repertório de guardiões da ordem (policiais ou detetives particulares) que excitem o imaginário da gente ao menos tanto quanto os malfeitores.

        Não se trata, portanto, de indignar-se porque, sei lá, "Cidade de Deus" transformaria delinquentes em protagonistas de uma história que pode seduzir o jovem espectador. Trata-se, isso sim, de estranhar que o mesmo espectador não tenha a chance de ser seduzido pelas histórias de quem combate o crime.

        [...].

        Pois isto é certo: teremos polícia no dia em que não será ridículo nem vergonhoso que um menino sonhe em ser policial brasileiro.

        Até agora, na cultura nacional, só conheço um exemplo de policial que dá vontade de ser policial. É o delegado Espinosa dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Rosa, os quais têm um único defeito: são poucos.

Contardo Calligaris. Reproduzido do Jornal Folha de São Paulo – Ilustrada, fornecida pela Folhapress.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 131-132.

Entendendo a notícia:

01 – Qual é a posição do autor em relação à censura ou autocensura das produções de mídia que retratam a violência, e qual alternativa ele propõe para lidar com o problema?

      O autor declara ser abertamente contrário a qualquer forma de censura, argumentando que proibir narrativas violentas não é a solução. Em vez de retirar o conteúdo violento do ar, ele defende a estratégia de "acrescentar": a ideia de que a mídia e a cultura de massa devem oferecer um contraponto positivo, criando repertórios e histórias de heróis ou guardiões da ordem que possam competir com o fascínio exercido pelas figuras dos criminosos no imaginário social.

02 – Como o autor compara as brincadeiras de sua infância com a realidade imaginária das crianças brasileiras de hoje no que diz respeito à identificação com as figuras da polícia e do crime?

      O autor relembra que, na sua infância, ao brincar de "polícia e ladrão", a identificação imediata era com a polícia, enquanto ser o bandido era aceito com resignação, pois sabia-se que este seria derrotado. No entanto, na realidade atual do Brasil, se as crianças fossem brincar disso, o lado do crime ofereceria elementos atraentes de ostentação (armas, riquezas fáceis e destinos trágicos). Em contrapartida, os exemplos de policiais do bem no imaginário infantil vêm predominantemente de produções estrangeiras (americanas, francesas, inglesas), deixando uma ausência de referências policiais positivas que sejam brasileiras.

03 – Segundo o texto, por que uma sociedade individualista tende a idealizar e se fascinar pela figura do delinquente?

      De acordo com o autor, uma sociedade individualista tende a idealizar a transgressão porque valoriza a quebra de regras em nome do interesse próprio. Consequentemente, essa cultura se fascina pelos delinquentes e constrói um vasto repertório de malfeitores que seduzem o público. O autor ressalta que essa fascinação pelo crime não é exclusividade da cultura brasileira, mas sim um traço comum a sociedades com forte viés individualista.

04 – Qual é a crítica central do autor sobre a representação da polícia na cultura nacional brasileira em comparação com as referências estrangeiras?

      A crítica central do autor é que a cultura nacional brasileira oferece um amplo repertório de criminosos marcantes, mas falha em propor uma contrapartida de "guardiões da ordem" (policiais ou detetives nacionais) que excitem a imaginação do público. Para encontrar referências policiais admiráveis, o jovem brasileiro precisa recorrer a personagens da ficção internacional, pois no Brasil faltam histórias culturais em que o combate ao crime seja representado de forma atraente e inspiradora.

05 – Qual é a "condição básica" para se ter uma polícia eficiente no Brasil mencionada no texto, e qual único exemplo positivo da literatura nacional o autor cita para ilustrar isso?

      A condição básica defendida pelo autor é cultural e reputacional: teremos uma polícia eficiente no dia em que não for considerado "ridículo nem vergonhoso que um menino sonhe em ser policial brasileiro". Para ilustrar que isso é possível na ficção, o autor cita como único exemplo da cultura nacional o delegado Espinosa, personagem dos romances policiais do escritor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Rosa.

 

 

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