Notícia: Uma condição básica para uma polícia eficiente – Fragmento
[...]
É banal acusar a mídia, sobretudo a
televisão e o cinema, de glamourizar a violência. Embora não haja pesquisas
sérias que estabeleçam uma relação direta entre os mortos nas telas e os mortos
na rua, pede-se uma censura ou autocensura, com a ideia de que narrativas ou
notícias menos violentas inspirariam comportamentos menos belicosos (sobretudo
aos jovens).
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKOLj1yMTiIj5qxTOJbXshSiER8SvnIPQ9KTv8O2CvJm7972PrCoA1nynIBfQPxvZ-4cycaWOnGVauobNRudKcmGbV8Z0B5Y1I70Q6xMkJOIp0rUGV-aRm3rUFsU57lv2Ct2_k5JLRY7sJ-jLnnLflrYBetdTa3v_NUMYIwS6IrRu4bxezGzF9-zx57y4/s320/images%20(1).jpg Ora, não acredito que forma nenhuma de
censura seja benéfica. Mas reconheço que os ideais sociais dependem muito de
nossa cultura de massa. Então fazer o quê? Pois bem, o truque não é retirar, é
acrescentar. Explico.
Quando era criança (logo depois da
Segunda Guerra Mundial), havia duas grandes brincadeiras para os meninos:
alemães-americanos e polícia-ladrão. No primeiro caso, a gente queria ser
americano; no segundo, queria ser polícia. Quando nos tocava ser alemão ou
bandido, brincávamos com uma certa resignação, pois era implícito que, no fim, alemães
e bandidos seriam derrotados, presos ou mortos.
É provável que brincar de
polícia-ladrão não esteja mais na moda. Mas, se nossos filhos quisessem brincar
assim, com quem se identificariam? Do lado dos bandidos, não lhes seria difícil
encontrar material: fugas mirabolantes, riquezas fáceis, jovens como eles
exibindo suas armas e aterrorizando os adultos, destinos trágicos muito mais
interessantes que a escola e as aulas de piano ou de inglês.
E do lado da polícia? Se eles têm
televisão a cabo, conhecem "Starsky e Hutch", "Maigret",
"Law and Order", "The Shield" e por aí vai. Se gostam de
ler, conhecem Mike Hammer, Sherlock Holmes, Hercule Poirot etc.
Você reparou? Para um menino brasileiro
que queira brincar de polícia-ladrão, os bandidos podem ser brasileiros, mas a
polícia é americana, inglesa, francesa, alemã, enfim, tudo salvo brasileira.
A cultura nacional propõe um vasto
repertório de malfeitores. É normal: uma sociedade individualista idealiza a
transgressão, por consequência, ela nunca deixa de ser fascinada por seus
delinquentes. Nisso, a cultura brasileira não está sozinha. Mas é estranho que
ela não proponha o contraponto: um repertório de guardiões da ordem (policiais
ou detetives particulares) que excitem o imaginário da gente ao menos tanto
quanto os malfeitores.
Não se trata, portanto, de indignar-se
porque, sei lá, "Cidade de Deus" transformaria delinquentes em
protagonistas de uma história que pode seduzir o jovem espectador. Trata-se,
isso sim, de estranhar que o mesmo espectador não tenha a chance de ser
seduzido pelas histórias de quem combate o crime.
[...].
Pois isto é certo: teremos polícia no
dia em que não será ridículo nem vergonhoso que um menino sonhe em ser policial
brasileiro.
Até agora, na cultura nacional, só
conheço um exemplo de policial que dá vontade de ser policial. É o delegado
Espinosa dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Rosa, os quais têm um único
defeito: são poucos.
Contardo Calligaris. Reproduzido do Jornal Folha de São Paulo –
Ilustrada, fornecida pela Folhapress.
Fonte: Língua
Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos
C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 131-132.
Entendendo a notícia:
01
– Qual é a posição do autor em relação à censura ou autocensura das produções
de mídia que retratam a violência, e qual alternativa ele propõe para lidar com
o problema?
O autor declara
ser abertamente contrário a qualquer forma de censura, argumentando que proibir
narrativas violentas não é a solução. Em vez de retirar o conteúdo violento do
ar, ele defende a estratégia de "acrescentar": a ideia de que a mídia
e a cultura de massa devem oferecer um contraponto positivo, criando
repertórios e histórias de heróis ou guardiões da ordem que possam competir com
o fascínio exercido pelas figuras dos criminosos no imaginário social.
02
– Como o autor compara as brincadeiras de sua infância com a realidade
imaginária das crianças brasileiras de hoje no que diz respeito à identificação
com as figuras da polícia e do crime?
O autor relembra
que, na sua infância, ao brincar de "polícia e ladrão", a
identificação imediata era com a polícia, enquanto ser o bandido era aceito com
resignação, pois sabia-se que este seria derrotado. No entanto, na realidade
atual do Brasil, se as crianças fossem brincar disso, o lado do crime
ofereceria elementos atraentes de ostentação (armas, riquezas fáceis e destinos
trágicos). Em contrapartida, os exemplos de policiais do bem no imaginário
infantil vêm predominantemente de produções estrangeiras (americanas,
francesas, inglesas), deixando uma ausência de referências policiais positivas
que sejam brasileiras.
03
– Segundo o texto, por que uma sociedade individualista tende a idealizar e se
fascinar pela figura do delinquente?
De acordo com o
autor, uma sociedade individualista tende a idealizar a transgressão porque
valoriza a quebra de regras em nome do interesse próprio. Consequentemente,
essa cultura se fascina pelos delinquentes e constrói um vasto repertório de
malfeitores que seduzem o público. O autor ressalta que essa fascinação pelo
crime não é exclusividade da cultura brasileira, mas sim um traço comum a
sociedades com forte viés individualista.
04
– Qual é a crítica central do autor sobre a representação da polícia na cultura
nacional brasileira em comparação com as referências estrangeiras?
A crítica central
do autor é que a cultura nacional brasileira oferece um amplo repertório de
criminosos marcantes, mas falha em propor uma contrapartida de "guardiões
da ordem" (policiais ou detetives nacionais) que excitem a imaginação do
público. Para encontrar referências policiais admiráveis, o jovem brasileiro
precisa recorrer a personagens da ficção internacional, pois no Brasil faltam
histórias culturais em que o combate ao crime seja representado de forma
atraente e inspiradora.
05
– Qual é a "condição básica" para se ter uma polícia eficiente no
Brasil mencionada no texto, e qual único exemplo positivo da literatura
nacional o autor cita para ilustrar isso?
A condição básica
defendida pelo autor é cultural e reputacional: teremos uma polícia eficiente
no dia em que não for considerado "ridículo nem vergonhoso que um menino
sonhe em ser policial brasileiro". Para ilustrar que isso é possível na
ficção, o autor cita como único exemplo da cultura nacional o delegado
Espinosa, personagem dos romances policiais do escritor brasileiro Luiz Alfredo
Garcia-Rosa.
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